Article

Spatial analysis of dengue transmission in a medium-sized city in Brazil

Departamento de Epidemiologia e Saúde Coletiva, Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, São José do Rio Preto, SP, Brasil.
Revista de Saúde Pública (Impact Factor: 0.73). 07/2005; 39(3):444-51.
Source: PubMed

ABSTRACT

To perform spatial analysis on dengue transmission in a medium-sized city in the interior of the State of São Paulo, Brazil, covering the period from September 1990 to August 2002.
Autochthonous cases with confirmation by laboratory tests were utilized. Population data on the city of São José do Rio Preto were obtained from the Brazilian Institute for Geography and Statistics and the municipal authorities. The cases were georeferenced according to street addresses and clustered according to the 432 census tracts in the municipality, thus resulting in thematic maps.
A rising trend in annual incidence was noted, with a peak in 2000/2001. From 1990 to 1994 the length of the transmission period reached a maximum of five months per year. This period increased in length over subsequent years. In the final year investigated, transmission occurred in all twelve months, without interruptions. Analysis of the period of highest incidence showed that the transmission did not occur uniformly. While 29% of the tracts registered incidences of less than 1,000 cases per 100,000 inhabitants, 5% of them had more than 5,000 cases.
A process of increasing endemicity was observed, with transmission throughout the year, without the need for virus introducers. The endemic characteristic of the transmission and the differentiated occurrence according to areas need to be taken into account when developing strategies for dengue control.

Full-text

Available from: Adriano Mondini, Jan 19, 2016
444 Rev Saúde Pública 2005;39(3):444-51
www.fsp.usp.br/rsp
Análise espacial da transmissão de dengue em
cidade de porte médio do interior paulista
Spatial analysis of dengue transmission in a
medium-sized city in Brazil
Adriano Mondini
a
, Francisco Chiaravalloti Neto
a
,
Manuela Gallo Y Sanches
b
e José Carlos
Cacau Lopes
c
a
Departamento de Epidemiologia e Saúde Coletiva. Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto.
São José do Rio Preto, SP, Brasil.
b
Mercator Engenharia e Consultoria em Geoprocessamento. São José
do Rio Preto, SP, Brasil.
c
Secretaria Municipal de Saúde e Higiene. São José do Rio Preto, SP, Brasil
Trabalho realizado na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, na Superintendência de Controle de Endemias e
na Secretaria Municipal de Saúde e Higiene de São José do Rio Preto.
Trabalho financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp - Processo n. 03/12151-1).
Recebido em 23/8/2004. Aprovado em 8/12/2004.
Correspondência para/ Correspondence to:
Francisco Chiaravalloti Neto
Rua Benjamin Constant, 3741 Apto 77
15015-600 São José do Rio Preto, SP, Brasil
E-mail: fcneto@famerp.br
Descritores
Dengue, epidemiologia. Dengue,
transmissão. Distribuição espacial.
Incidência.
Keywords
Dengue, epidemiology. Dengue,
transmission. Residence
characteristics. Incidence.
Resumo
Objetivo
Analisar espacialmente a transmissão de dengue entre setembro de 1990 e agosto de
2002 em cidade de porte médio do interior paulista.
Métodos
Utilizaram-se casos autóctones confirmados laboratorialmente e dados populacionais
de São José do Rio Preto, obtidos da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística e da Prefeitura Municipal. Os casos foram geocodificados a partir do eixo
de logradouros e agrupados segundo os 432 setores censitários do município,
resultando em mapas temáticos.
Resultados
Notou-se tendência ascendente das incidências anuais com pico em 2000/2001. Entre
1990 e 1994 a duração da transmissão atingiu, no máximo, cinco meses em cada
período, com aumento nos anos seguintes. No último período, ocorreu nos 12 meses,
sem interrupção. A análise do período de maior incidência mostrou que a transmissão
não ocorreu uniformemente. Enquanto 29% dos setores registraram incidências inferiores
a mil casos por 100 mil habitantes, 5% deles ultrapassaram os cinco mil casos.
Conclusões
Observou-se o processo da endemização, com transmissão durante todo o ano, sem a
necessidade de introdutores. A característica endêmica da transmissão e a ocorrência
diferenciada segundo áreas devem ser levadas em conta na estruturação de estratégias
para o controle de dengue.
Abstract
Objective
To perform spatial analysis on dengue transmission in a medium-sized city in the
interior of the State of São Paulo, Brazil, covering the period from September 1990 to
August 2002.
Methods
Autochthonous cases with confirmation by laboratory tests were utilized. Population
data on the city of São José do Rio Preto were obtained from the Brazilian Institute for
Geography and Statistics and the municipal authorities. The cases were georeferenced
according to street addresses and clustered according to the 432 census tracts in the
municipality, thus resulting in thematic maps.
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Análise espacial do dengue
Mondini A et al
INTRODUÇÃO
A série histórica de incidências de dengue no Brasil
revela tendência ascendente da transmissão da doen-
ça, com valor máximo no ano de 2002. A ocorrência,
até julho desse ano, foi de 385,1 casos por 100 mil
habitantes, com significativo aumento da forma he-
morrágica da doença, de 2.090 casos. Hoje a doença
está presente em 25 dos 27 estados brasileiros, e o
mosquito vetor, em todos eles. O Estado de São Paulo
seguiu a mesma tendência, a maior incidência ocorreu
em 2001, com 136,2 casos por 100 mil habitantes. As
curvas de transmissão, tanto do Brasil como a do Esta-
do de São Paulo, apresentaram comportamento cíclico,
intercalando anos com incidências mais altas e anos
com incidências mais baixas.
9
Essa tendência de aumento dos casos de dengue e
dengue hemorrágico tem ocorrido, apesar dos esfor-
ços realizados em termos de medidas de controle. Para
Tauil,
12
as razões para tal situação são complexas e
não totalmente compreendidas, sendo necessária a
realização de estudos para sua elucidação.
Muitos fatores de risco estão associados à presença
da doença e do vetor. Tirado et al,
14
relacionam entre
eles o crescimento populacional, urbanização inade-
quada, migrações, viagens aéreas e deterioração dos
sistemas de saúde. Para Gómez-Dantés,
6
a densidade
da população é fator fundamental para definir o pa-
drão de transmissão, pois em cidades médias e grandes
é maior a probabilidade de que ocorram a infestação e
a transmissão. Além disso, o controle da doença nesses
locais é difícil devido à limitação de recursos, à grande
extensão e à heterogeneidade do espaço urbano.
1
Estudo realizado nas regiões de Araçatuba e São
José do Rio Preto no Estado de São Paulo, confirmou
o comportamento descrito acima, mostrou a impor-
tância das cidades médias como locais com maior
Results
A rising trend in annual incidence was noted, with a peak in 2000/2001. From 1990 to
1994 the length of the transmission period reached a maximum of five months per
year. This period increased in length over subsequent years. In the final year investigated,
transmission occurred in all twelve months, without interruptions. Analysis of the
period of highest incidence showed that the transmission did not occur uniformly.
While 29% of the tracts registered incidences of less than 1,000 cases per 100,000
inhabitants, 5% of them had more than 5,000 cases.
Conclusions
A process of increasing endemicity was observed, with transmission throughout the
year, without the need for virus introducers. The endemic characteristic of the
transmission and the differentiated occurrence according to areas need to be taken
into account when developing strategies for dengue control.
probabilidade de ocorrência da doença, além de exer-
cerem papel de irradiadores da transmissão. Esse mes-
mo estudo identificou, em paralelo ao aumento da
incidência, o aumento do número de meses com trans-
missão.
4
Esses dois últimos fatores garantem trans-
missão contínua de dengue em locais submetidos ao
controle vetorial.
É importante que se pesquise também como ocorre o
comportamento das incidências e da duração da trans-
missão nas áreas que compõem o município. O presente
estudo justifica-se por fornecer subsídios importantes
para a estratificação do risco e melhor equacionamento
das medidas de vigilância e controle.
Dentro dessa perspectiva, o uso de ferramentas de
análise espacial é importante instrumento na gestão
em saúde. Segundo Medronho,
8
os sistemas de infor-
mações geográficas são conjuntos de técnicas de cole-
ta, tratamento e exibição de informações referenciadas
geograficamente. A análise é realizada por meio do
processamento eletrônico de dados com a captura, ar-
mazenamento, manipulação, análise, demonstração e
relato de dados referenciados geograficamente.
Souza-Santos & Carvalho
11
afirmam que a utiliza-
ção de técnicas de análise espacial para avaliação da
distribuição de vetores e das doenças por eles trans-
mitidas aumentou nos últimos anos, proporcionando
ferramentas importantes para vigilância e controle. A
sua maior vantagem está em tratar o município como
composto de várias realidades, merecendo aborda-
gens distintas, ao contrário do que se tem visto, onde
as propostas de ação podem diferenciar-se segundo
os municípios, mas sempre uniformes dentro deles.
O objetivo do presente trabalho foi analisar a trans-
missão de dengue em município de porte médio, vi-
sando aprimorar, adequar e otimizar o uso das ferra-
mentas de vigilância e controle disponíveis.
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Análise espacial do dengue
Mondini A et al
MÉTODOS
O município de São José do Rio Preto, sede de região
que reúne 101 cidades, situa-se na região oeste do Esta-
do de São Paulo. A população estimada em 2002 era de
374.745 habitantes.* Após o Aedes aegypti ser conside-
rado erradicado do Brasil em 1954, a presença do mos-
quito transmissor do dengue foi novamente detectada
no município em 1985 e, entre esse ano e 1989, ocorre-
ram apenas casos importados da doença. Os primeiros
casos autóctones ocorreram em 1990.
4
Foi construído um banco de dados utilizando-se os
casos autóctones de dengue notificados à Secretaria
Municipal de Saúde e Higiene de São José do Rio
Preto de setembro de 1990 a agosto de 2002, confir-
mados pelo Instituto Adolfo Lutz. Os casos foram
considerados segundo a data de início de sintomas. A
estrutura de notificação e confirmação de casos foi
tratada como ‘sistema de vigilância’.
Calcularam-se coeficientes de incidência anuais
entre setembro de um ano a agosto do ano seguinte. O
total de casos de cada período foi dividido pela res-
pectiva estimativa de população e multiplicado por
100 mil, obtendo-se a série histórica de incidências
anuais. Os meses de setembro e agosto foram escolhi-
dos por apresentarem, em geral, os menores valores de
incidência em relação aos demais meses do ano e pos-
sibilitarem boa representação da sazonalidade da do-
ença. Calculando-se os coeficientes de incidências
mensais pela divisão do total de casos de cada mês
pela respectiva estimativa anual de população e mul-
tiplicação dos resultados por 100 mil obteve-se série
anual de coeficientes mensais. Todas as estimativas
anuais de população foram obtidas do Datasus.*
Do total de 14.431 casos autóctones de dengue
ocorridos na área urbana do município entre setem-
bro de 1994 e agosto de 2002, foram geocodificados
13.998. Os motivos da não geocodificação de 433
casos (3%) foram inexistência de endereço ou inade-
quação do endereço com a base cartográfica. O pro-
cedimento foi realizado com ferramentas do progra-
ma Mapinfo, com a utilização da Base
Cartográfica de São José do Rio Preto (em
projeção UTM - Universal Transversa de
Mercator) com eixos de ruas, disponibiliza-
da pela Prefeitura Municipal. Depois de
geocodificados, os casos foram agrupados
segundo os 432 setores censitários da área
urbana do município, disponibilizados pela
Fundação Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE). Também foram agrupa-
dos anualmente, por quadrimestres e por
meses, possibilitando o cálculo das incidências anu-
ais, a identificação do início da transmissão em cada
setor censitário, a contagem de setores com casos
novos e a produção de mapas temáticos.
Fez-se a opção pela utilização dos setores censitá-
rios como nível de agregação, estratégia utilizada
por Costa & Natal,
5
para avaliação de transmissão do
dengue. Assim, foi possível identificar a ocorrência
ou não de transmissão de dengue em áreas homogê-
neas do município para diferentes períodos anuais.
Além disso, pelo fato dos setores censitários serem
delimitados geograficamente, a possibilidade de
identificar e agrupar setores prioritários para vigilân-
cia e controle da doença.
RESULTADOS
Na série de coeficientes anuais de incidência identi-
ficaram-se três períodos distintos: 1) entre setembro
de 1990 a agosto de 1994, com as incidências não
ultrapassando 40 casos por 100 mil habitantes (12 em
1990-91; nenhum em 1991-92; 17 em 1992-93 e 33
em 1993-94); 2) entre setembro de 1994 e agosto de
1998, as incidências apresentaram valores mais eleva-
dos, sem ultrapassar 500 casos por 100 mil habitantes
(425 em 1994-95; 238 em 1995-96; 58 em 1996-97 e
204 em 1997-98); e 3) entre setembro de 1998 e agos-
to de 2002, o último período, a incidência atingiu o
seu pico (818 por 100 mil em 1998-99; 123 em 1999-
2000; 1883 em 2000-01 e 273 em 2001-02).
No primeiro ano do primeiro período, quando ocor-
reram os primeiros casos autóctones (9/90 a 8/91) o
pico de incidência foi em janeiro, com quatro casos
por 100 mil habitantes. No segundo ano (9/91 a 8/
92) não ocorreram casos autóctones. Entre 9/92 e 8/
93 o pico ocorreu em junho (12 casos por 100 mil
habitantes). Entre 9/93 e 8/94 o pico ocorreu em abril,
com incidência de 20 casos por 100 mil habitantes.
Nas Figuras 1 e 2 apresentam-se as incidências
mensais para os outros dois períodos. Os meses sem
valores representam incidências nulas (não plotados
Figura 1 - Coeficientes de incidência de dengue segundo meses, São
José do Rio Preto, 9/94 a 8/98.
0,1
1,0
10,0
100,0
1000,0
Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago
Mês
Casos por 100.000 habitantes
94-95
95-96
96-97
97-98
*Datasus. Informações demográficas, 2002. Disponível em: URL: http:// tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi [dez 2002]
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devido à escala logarítmica), e significam que, ou
não houve transmissão ou ocorreram casos não de-
tectados pelo sistema de vigilância.
Verifica-se, pela comparação das três situações,
aumento progressivo da incidência, que atingiu o
maior valor no período 2000-2001. Com o passar do
tempo, as curvas de incidências tornaram-se mais
uniformes: entre 1990 e 1994 não houve coincidên-
cia entre os picos; entre 1994 a 1998, em geral, o pico
foi em março ou abril; e entre 1998 e 2002 o pico
sempre ocorreu em abril. Nota-se também o mesmo
comportamento cíclico das séries históricas de inci-
dências do Estado de São Paulo e Brasil.
9
Além disso, ocorreu o aumento do número de me-
ses com transmissão identificada pelo sis-
tema de vigilância. Entre 1990 e 1994, a
transmissão perdurou por, no máximo, cin-
co meses do ano. Entre 1994 e 1998, a dura-
ção da transmissão aumentou para valores
entre oito e 10 meses. Entre 1998 e 2002,
nota-se a generalização da transmissão da
doença, cuja duração foi de 10 e 11 meses,
nos períodos entre 1998 e 2001, e 12 meses
no último período.
Em termos de vírus circulantes, entre 1990
e 1995 foram identificados apenas casos de
dengue devido ao DEN 1. A partir de 1996,
houveram também casos devidos ao DEN 2.
4
Apresentam-se nas Figuras 3 e 4 os setores
censitários segundo início de transmissão de
dengue para dois períodos distintos: setem-
bro de 1994 a agosto de 1995 e setembro de
2001 a agosto de 2002. A data de início foi
dividia por quadrimestres (setembro a dezem-
bro, janeiro a abril e maio a agosto).
A Figura 3 refere-se ao período de 1994-
95, no qual ocorreu a primeira transmissão
expressiva de dengue no município. Nota-se
que foram confirmados casos em apenas qua-
tro setores censitários entre setembro e de-
zembro. A análise desses casos revelou que a
transmissão iniciou-se em novembro e de-
zembro nos dois setores mais ao norte a par-
tir de um primeiro caso importado e esten-
deu-se para mais dois setores no mesmo mês.
A partir daí a transmissão disseminou-se ex-
ponencialmente. Em janeiro foram confirma-
dos casos novos em 122 setores (Figura 3), e
no total do quadrimestre (janeiro a abril) de-
tectou-se a transmissão em 270 setores.
Percebeu-se um foco inicial e o espalhamento da
doença para o restante do município. O caso importa-
do foi notificado com atraso e o processo de trans-
missão foi percebido em janeiro. As medidas de
controle foram iniciadas com grande número de
casos e de setores atingidos.
A Figura 4, representando os casos confirmados
pelo sistema de vigilância entre 2001 e 2002, mostra
situação diferente da anterior. Entre setembro e de-
zembro, foram detectados casos novos e autóctones
em 38 setores, com as seguintes características: ocor-
rência de casos nos quatro meses; distribuição uni-
forme dos setores com casos por todo o município e
ocorrência de pequeno número de casos em cada se-
tor. Com apenas uma exceção, os setores com casos
Figura 2 - Coeficientes de incidência de dengue segundo meses. São
José do Rio Preto, 9/98 a 8/02.
0,1
1,0
10,0
100,0
1000,0
Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago
Mês
Casos por 100.000 habitantes.
98-99
99-00
00-01
01_02
Figura 3 - Setores censitários segundo quadrimestre de início de
transmissão de dengue. São José do Rio Preto, 9/94 a 8/95.
Legenda
(Número de setores atingidos)
Setores sem registro de dengue
1 quadrimestre - set/94 a dez/94
2 quadrimestre - jan/95 a abr/95
3 quadrimestre - mai/95 a ago/95
(147)
(4)
(270)
(11)
N
0 1,5 3
km
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identificados num determinado mês foram
distintos daqueles com transmissão nos ou-
tros meses. A transmissão foi identificada em
12 setores em setembro, nove em outubro,
oito em novembro e 10 em dezembro. A par-
tir de janeiro, com condições mais favorá-
veis ao vetor, os diversos focos iniciais de-
ram origem a novos e houve a propagação da
transmissão. O sistema de vigilância confir-
mou casos em 37 setores em janeiro, 75 em
fevereiro, 131 em março e 146 em abril (Fi-
gura 4). Neste quadrimestre ocorreram casos
novos em 227 setores.
Em relação à magnitude dos coeficientes
de incidência nesse período, apesar dos va-
lores mensais serem sempre diferentes de zero,
notam-se grandes variações na área urbana
do município: entre setembro e dezembro de
2001, os valores ficaram entre 2,7 e 3,5 ca-
sos por 100 mil habitantes; em janeiro de
2002 a incidência subiu para 15,5; e o pico
foi atingido em abril, com 93,0 casos por 100
mil habitantes.
A Figura 5 mostra o número de setores com
casos novos (em escala logarítmica) segun-
do meses para os períodos com os maiores
coeficientes de incidência (1994-95; 1995-
96; 1998-99; 2000-01 e 2001-02). Os valo-
res não plotados significam que não houve
transmissão ou ela não foi detectada pelo sistema de
vigilância. Nota-se novamente o caráter exponencial
da transmissão de dengue, com nenhum ou poucos
setores com casos detectados entre julho a dezembro,
e um grande aumento nos meses de janeiro a março.
A partir do cálculo dos coeficientes de incidência
de dengue por setores censitários para o período de
2000-01, o de maior incidência de toda a série históri-
ca com a ocorrência de 6.680 casos autóctones, verifi-
cou-se que o dengue disseminou-se por quase toda a
cidade. Dos 432 setores, em apenas 6% não foi identi-
ficada transmissão, em 29% os coeficientes estiveram
entre 100 e 999 casos por 100 mil habitantes, em 33%
entre 1.000 e 1.999, em 26% entre 2.200 e 4.999. Em
5% dos setores a transmissão atingiu 5 mil ou mais
casos por 100 mil habitantes e em pelo menos um setor
foram confirmados 18.200 casos por 100 mil habitan-
tes, aproximadamente 20% dos moradores.
DISCUSSÃO
O primeiro questionamento a ser feito é se há a pos-
sibilidade de atingir os objetivos propostos ao se utili-
zar as informações produzidas pelo sistema
de vigilância e não por meio de inquéritos
sorológicos especialmente desenhados para
tal. As informações baseadas em casos notifi-
cados mostram apenas uma parte da realida-
de, pois é sabido que muitas pessoas infecta-
das ou são assintomáticas ou, mesmo que apre-
sentem sintomas, não chegam a fazer parte
das estatísticas oficiais.
3,13
Dentro da perspectiva de que as ações de
controle do dengue baseiam-se nas infor-
mações disponibilizadas pelo sistema de vi-
Figura 5 - Número de setores censitários com casos novos de dengue
segundo meses. São José do Rio Preto, 1994-95, 1995-96; 1998-99, 2000-
01 e 2001-2002.
1
10
100
1000
Set Out Nov Dez Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago
Mês
Número de setores censitários
1994-95
1995-96
1998-99
2000-01
2001-02
Figura 4 - Setores censitários segundo quadrimestre de início de
transmissão de dengue. São José do Rio Preto, 9/2001 a 8/2002.
Legenda
(Número de setores atingidos)
Setores sem registro de dengue
1 quadrimestre - set/01 a dez/01
2 quadrimestre - jan/02 a abr/02
(167)
(38)
(227)
N
0 1,5 3
km
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Análise espacial do dengue
Mondini A et al
gilância, a presente análise. Apesar de calcar-se ape-
nas na parte visível do fenômeno, pode produzir
conclusões, recomendações e hipóteses importan-
tes, por ser a única ferramenta disponível no mo-
mento em que os casos ocorrem. Portanto, não pre-
tende-se compreender o processo de transmissão de
forma completa mas buscar aprimorar o sistema e
otimizar o controle da doença.
A análise comparativa entre os três períodos em
que se dividiu a série histórica das incidências men-
sais permite caracterizar o comportamento endêmi-
co do dengue, processo comumente denominado
endemização pelos órgãos de controle. O termo não
se refere apenas à constatação de que a doença é um
fato esperado no município, e não se trata mais de
epidemia, mas também à generalização da transmis-
são por todos os meses do ano. Não mais a neces-
sidade de introdutores para a continuidade da trans-
missão no município. É evidente que casos impor-
tados necessitam de vigilância e são importantes
fontes de infecção, mas a transmissão ocorre inde-
pendente deles.
Sabroza et al
10
fizeram constatação semelhante
para o município do Rio de Janeiro, e denomina-
ram esse processo de transmissão de endêmico-epi-
dêmico. Utiliza-se aqui o termo endemização, con-
forme definição acima, uma vez que a variação
mensal das incidências está relacionada com seu
comportamento sazonal.
As Figuras 3 e 4 permitem melhor visualização do
processo de endemização, ao mostrarem não mais o
município como um todo, mas os setores censitários
segundo início de transmissão dos casos detectados
pelo sistema de vigilância para dois períodos distin-
tos, um anterior ao dengue se tornar endêmico (1994-
1995) e outro onde o fenômeno acontece de maneira
clara (2001-2002).
No primeiro período (1994-1995), um caso impor-
tado gerou, a partir de um foco inicial, a dispersão da
transmissão para o todo o município. Isso só foi pos-
sível devido ao baixo grau de imunidade da popula-
ção ao vírus, pela pequena magnitude das transmis-
sões de dengue nos anos anteriores e da circulação
apenas do sorotipo DEN1.
4
Se essa transmissão tivesse sido identificada em
novembro ou dezembro, antes do início da dispersão,
a adoção precoce de medidas de controle poderia
evitar ou minimizar a propagação da epidemia, gerar
economia de recursos e, principalmente, atingir me-
nor número de pessoas. No momento em que as medi-
das foram adotadas (janeiro/95), elas tiveram apenas
papel paliativo, sem grande interferência sobre os
números finais de casos e de setores atingidos.
4
No período de 2001-2002, a situação epidemioló-
gica era diferente do ocorrido em 1994-1995, com
parcela da população imunizada e circulação dos
vírus DEN 1 e 2.
4
A evolução da doença pôde ser
divida em dois momentos distintos: entre setembro e
dezembro, com pequeno número de setores com ca-
sos detectados pelo sistema de vigilância e baixas
incidências e outro de janeiro a abril, com a disper-
são da transmissão por todo o município.
Uma diferença básica entre os dois momentos é que
no primeiro nota-se um foco inicial pontual, que se
identificado a tempo criaria condições para evitar a
transmissão generalizada da doença. No segundo, a
transmissão ocorreu por todo o período mais desfa-
vorável para o vetor, com baixas incidências num
pequeno número de setores. Esses locais não mais se
constituíam num foco pontual, como no período de
1994-95, mas vários focos distribuídos uniformemen-
te pela cidade (Figura 4).
Nesse novo modo de transmissão, apesar de apre-
sentar tendência exponencial menos acentuada do
que em 1994-1995 (Figura 5), devido ao grau de imu-
nização atingido pela população, o controle da
doença tornou-se muito mais difícil. Não bastava
apenas que a vigilância identificasse rapidamente o
foco inicial para que se iniciassem as medidas de con-
trole, pois eram inúmeros focos, espalhados por toda
a cidade que, juntamente com o aumento da popula-
ção de vetores, garantiam a generalização da trans-
missão por toda a cidade.
Não é possível precisar em que momento a partir de
1994 a transmissão passa a não depender de casos
importados. A não identificação de casos autóctones
em alguns dos meses entre 1995 e 2000 (Figuras 1 e
2) pode estar relacionada com a ocorrência silencio-
sa de dengue
3,13
e não com a ausência de transmissão.
Dentro dessa perspectiva, o processo de endemização
já pode ter se iniciado em 1995.
Assim, pode-se concluir que com o processo da
endemização do dengue, a continuidade da transmis-
são do verão anterior garante a disseminação da doen-
ça para o verão seguinte, independente de novos casos
importados. A ocorrência de dengue em áreas distintas
em meses desfavoráveis, mesmo com valores de inci-
dência muito menores que os de janeiro a maio, deve
ser considerada para o controle da doença. Entre se-
tembro e dezembro, deve-se incentivar a notificação
de casos para se identificar o maior número de setores
com transmissão, priorizando e antecipando o comba-
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Análise espacial do dengue
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te ao vetor. A realização de exames de casos febris,
independente da suspeita de dengue, ou mesmo a rea-
lização de inquéritos sorológicos são medidas impor-
tantes para identificar a transmissão silenciosa.
3,13
A distribuição não uniforme das incidências de
dengue segundo os setores censitários no período
de 2000-2001, o de maior número de casos de toda
a série histórica, mostra claramente a importância
de analisar a transmissão segundo as áreas do muni-
cípio. Esse padrão pode estar relacionado com dife-
renças nos níveis socioeconômicos da população,
fato demonstrado por Costa & Natal.
5
Segundo
Marzochi,
7
em áreas urbanas encontra-se um grande
número de habitantes associados a zonas de pobre-
za que não têm infra-estrutura e serviços públicos
suficientes, o que pode fornecer condições que fa-
voreçam à proliferação da doença.
Porém, em estudo realizado por Teixeira et al,
13
em
Salvador apresentou resultados diversos, pois mos-
trou que mesmo áreas com condições socioeconômi-
cas mais favoráveis também apresentaram altos ris-
cos de transmissão, revelando a necessidade de reali-
zar novos estudos para esclarecer essa questão.
Outro fator a ser considerado é que o grau de imu-
nidade em relação aos vírus do dengue deve variar
conforme as áreas do município e que setores censi-
tários com maior proporção de suscetíveis possam
apresentar maiores incidências.
Apesar das considerações feitas sobre as diferen-
ças encontradas nas incidências, pode-se concluir
que a identificação de áreas com maiores riscos, no
processo de vigilância e controle da doença e do
mosquito, é um passo importante para otimização
de recursos. Uma vez identificadas, o controle reali-
zado nas áreas prioritárias pode produzir melhor re-
sultado na diminuição das incidências, em oposi-
ção à consideração do município como um todo e
com estratégia única de controle.
Barrera et al
1,2
propõem a identificação num mes-
mo município ou região contínua dos chamados “fo-
cos quentes”, isto é, locais responsáveis tanto pela
maioria dos casos como pela continuidade da trans-
missão nos períodos mais desfavoráveis. A proposta
é identificar se os maiores coeficientes de incidência
ocorrem ou não sempre em setores ou agrupamentos
de setores específicos, e trabalhar com o conceito de
persistência. Calcular para cada setor ou agrupamen-
to, o número de meses com transmissão sem interrup-
ção, verificando assim, se as maiores persistências
ocorrem também em áreas específicas para os vários
períodos anuais.
O presente estudo possibilitou caracterizar o pro-
cesso de endemização do dengue e constatar que a
sua transmissão não ocorre de maneira uniforme no
município. As análises propostas por Barrera et al
1,2
são formas interessantes de sua continuidade, visan-
do a identificação de setores censitários, agrupamen-
tos de setores, ou bairros prioritários para vigilância
e controle do dengue.
AGRADECIMENTOS
À Giovana Signorini e Fátima Grisi Kuyumijian da
Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto,
pela ajuda na geocodificação e à Dora Barbosa De-
fende, da Superintendência de Controle de Endemias
(Sucen - SR08), pela elaboração dos bancos de dados
dos casos de dengue.
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  • Source
    • "The replacement or introduction of a new DENV serotype/ genotype/lineage is usually succeeded by an increase in the number of incidences and often by substantial outbreaks111213 . The replacement of the predominant DENV serotypes circulating in the country results in transmission cycles during alternating years with higher and lower incidences, but always with an overall increase in the number of cases per year [10, 14]. Additionally, there has been an expansion in the range of the epidemics in each successive year, with an increase in the number of severe dengue cases, mainly in children and teenagers [15]. "
    [Show abstract] [Hide abstract] ABSTRACT: Following successive outbreaks of dengue fever caused predominantly by dengue virus (DENV) 2 and 3, DENV-1 is now the primary serotype circulating in Brazil. We sequenced and analyzed Brazilian DENV-1 genomes and found that all isolates belong to genotype V and are subdivided into three lineages, which were introduced during four different events. The first introduction occurred in 1984-85, the second in 1997-99, and the third and fourth occurred from 2004 to 2007. These events were associated with an increase in genetic diversity but not with positive selection. Moreover, a potential new recombinant strain derived from two distinct lineages was detected. We demonstrate that the dynamics of DENV-1 in Brazil is characterized by introduction, movement, local evolution, and lineage replacement. This study strengthens the relevance of genotype surveillance in order to identify, trace, and control virus populations circulating in Brazil and Latin America.
    Full-text · Article · Jul 2012 · Archives of Virology
  • Source
    • "World Health Organization defines dengue hemorrhagic fever as the manifestation of high fever, hemorrhagic phenomena with hepatomegaly, and signs of circulatory failure. The evolution to hypovolemic shock and plasma leakage is characterized as dengue shock syndrome and can be fatal to patient (WHO 1997) In Sã o José do Rio Preto City (northwest region of Sã o Paulo State, Brazil), cases of DENV-1 were initially identified after 1990 through 1995 (Mondini et al. 2005). In 1996, DENV-2 became the most important predominant agent of dengue (Brazilian Ministry of Health 2008), and in 2005 and 2006, Sã o José do Rio Preto City suffered from a large DENV-3 outbreak with more than 15,000 reported cases (Mondini et al. 2009). "
    [Show abstract] [Hide abstract] ABSTRACT: Arboviruses are frequently associated with outbreaks in humans and represent a serious public health problem. Among the Brazilian arboviruses, Mayaro virus, Dengue virus (DENV), Yellow Fever virus, Rocio virus, Saint Louis Encephalitis virus (SLEV), and Oropouche virus are responsible for most of human cases. All these arboviruses usually produce undistinguishable acute febrile illness, especially in the acute phase of infection. In this study we investigated the presence of arboviruses in sera of 519 patients presenting acute febrile illness, during a dengue outbreak in São José do Rio Preto City (São Paulo, Brazil). A multiplex-nested RT-polymerase chain reaction assay was applied to detect and identify the main Brazilian arboviruses (Flavivirus, Alphavirus, and Orthobunyavirus genera). The molecular analysis showed that 365 samples were positive to DENV-3, 5 to DENV-2, and 8 to SLEV. Among the positive samples, one coinfection was detected between DENV-2 and DENV-3. The phylogenetic analysis of the SLEV envelope gene indicated that the virus circulating in city is related to lineage V strains. These results indicated that during that large DENV-3 outbreak in 2006, different arboviruses cocirculated causing human disease. Thus, it is necessary to have an efficient surveillance system to control the dissemination of these arboviruses in the population.
    Full-text · Article · Mar 2011 · Vector borne and zoonotic diseases (Larchmont, N.Y.)
  • Source
    • "Two hypotheses might explain the controversial pattern of dengue transmission. In both 1995 and 2006 epidemic season, dengue transmission started in poor northern zones of the city in the previous years (1994 and 2005) with a subsequent spread to other areas [12,47,48]. Therefore, the highest initial incidence of dengue in the north and the lowest in the other areas might be related to the usual delay in adopting of control measures at the beginning of the outbreak. "
    Full-text · Article · Apr 2010 · Cladistics
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