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Adequação das boas práticas de fabricação em serviços de alimentação

Revista de Nutrição (Impact Factor: 0.5). 06/2005; 18(3). DOI: 10.1590/S1415-52732005000300013
Source: OAI

ABSTRACT

Objetivo: classificar 50 estabelecimentos produtores de alimentos, da região de Brasília, Distrito Federal, de acordo com o cumprimento dos itens imprescindíveis do formulário publicado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a fim de avaliar as boas práticas da fabricação de alimentos. Métodos: neste estudo empreendeu-se metanálise de dois trabalhos monográficos sobre estabelecimentos comerciais produtores de alimentos (hotéis e restaurantes), associados a uma amostra pesquisada por esses autores, dividida em três blocos: restaurantes, unidades de alimentação e nutrição e hotéis, para comparação da adequação dos itens presentes nos formulários da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, os quais, de acordo com as normas estabelecidas pela Agência, analisavam os itens: edificação, equipamentos, manipuladores, fluxo de produção e disponibilidade do manual de boas práticas na produção de alimentos. Ainda de acordo com o estipulado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, os estabelecimentos foram classificados em três grupos, segundo o cumprimento percentual dos itens imprescindíveis constantes do formulário: o grupo I, com mais de 70,0% de cumprimento dos itens; o grupo II, com 30,0% a 69,9% de cumprimento; e o grupo III, cumprindo menos de 30,0% dos itens imprescindíveis. Resultados: as análises realizadas revelaram que todas as unidades hoteleiras foram classificadas no grupo II. Os restaurantes comerciais foram classificados no grupo II (33,3%) e no grupo III (66,7%). Do total de unidades de alimentação e nutrição avaliadas, 80,0% foram classificadas no grupo II e 20,0% no grupo I.Conclusão: os achados demonstraram que as unidades de alimentação e nutrição foram mais bem classificadas nos itens equipamentos e existência do Manual de Boas Práticas. Os hotéis destacaram-se nos itens edificação, manipulação e fluxo de produção. Os restaurantes comerciais obtiveram o pior resultado quando comparados às demais unidades analisadas. __________________________________________________________________________________ ABSTRACT Objective: classify a sample of 50 food producing establishments located in the Federal District (Brasília, Brazil), according to their fulfillment of essential requisites contained in the sanitary regulation form published by the Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Brazil’s National Agency for Sanitary Regulation. Methods: a metanalysis of two monographic studies on food production establishments (hotels and commercial restaurants) was performed, and associated to results of these authors’ research evaluating ten Foodservice and Nutrition Units led by nutritionists, and five commercial restaurants. The procedures for good manufacturing were evaluated according to the norms of the mentioned Agency; to this effect, the Agency’s specific forms were utilized to analyze the adequacy of requisites such as: construction, equipments, handling, production flow, and availability of the manual for good manufacturing procedures. Still according to the Agency’s norms, the establishments were further classified into three groups, respective to their fulfillment of the essential requisite items and procedures as defined in the form: in group I, were those establishments fulfilling more than 70% of the requisites; group II, fulfilling 30 to 69.9% of them; and group III, fulfilling less than 30% of the essential items and procedures. Results: according to the analyses, all the hotel foodservices were classified in group II, while the commercial restaurants were classified either in group II (33.3%) or in group III (66.7%). As for the Foodservice and Nutrition Units with a nutritionist, 80% were classified as group II, and 20%, as group I. Conclusion: the results indicate that the Nutrition and Foodservice Units, which had nutritionists available, were better classified in requisites such as equipments and availability of a manual of good manufacturing procedures. The hotels revealed better conditions on items such as construction, manipulation and production flow. The commercial restaurants obtained the worst results when compared to the other food production services.

Full-text

Available from: Rita Akutsu, Oct 03, 2015
BOAS PRÁTICAS DE FABRICAÇÃO EM UAN |419
Rev. Nutr., Campinas, 18(3):419-427, maio/jun., 2005 Revista de Nutrição
1
Departamento de Nutrição, Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade de Brasília. Campus Universitário Darcy Ribeiro,
Asa Norte, 70910-900, Brasília, DF, Brasil. Correspondência para/Correspondence to: R.A.BOTELHO. E-mail:
<raquelbotelho@terra.com.br>.
2
Centro de Excelência em Turismo, Universidade de Brasília. Campus Universitário Darcy Ribeiro, Asa Norte, 70910-900.
Brasília, DF, Brasil.
NOTA CIENTÍFICA | NOTE RESEARCH
Adequação das boas práticas de fabricação
em serviços de alimentação
Adequacy of good manufacturing procedures
in foodservice establishments
Rita de Cássia AKUTSU
1
Raquel Assunção BOTELHO
1
Erika Barbosa CAMARGO
1
Karin Eleonora Oliveira SÁVIO
1
Wilma Coelho ARAÚJO
1,2
R E S U M O
Objetivo
Classificar 50 estabelecimentos produtores de alimentos, da região de Brasília, Distrito Federal, de acordo
com o cumprimento dos itens imprescindíveis do formulário publicado pela Agência Nacional de Vigilância
Sanitária, a fim de avaliar as boas práticas da fabricação de alimentos.
Métodos
Neste estudo empreendeu-se metanálise de dois trabalhos monográficos sobre estabelecimentos comerciais
produtores de alimentos (hotéis e restaurantes), associados a uma amostra pesquisada por esses autores,
dividida em três blocos: restaurantes, unidades de alimentação e nutrição e hotéis, para comparação da
adequação dos itens presentes nos formulários da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, os quais, de
acordo com as normas estabelecidas pela Agência, analisavam os itens: edificação, equipamentos,
manipuladores, fluxo de produção e disponibilidade do manual de boas práticas na produção de alimentos.
Ainda de acordo com o estipulado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, os estabelecimentos foram
classificados em três grupos, segundo o cumprimento percentual dos itens imprescindíveis constantes do
formulário: o grupo I, com mais de 70,0% de cumprimento dos itens; o grupo II, com 30,0% a 69,9% de
cumprimento; e o grupo III, cumprindo menos de 30,0% dos itens imprescindíveis.
Resultados
As análises realizadas revelaram que todas as unidades hoteleiras foram classificadas no grupo II. Os restaurantes
comerciais foram classificados no grupo II (33,3%) e no grupo III (66,7%). Do total de unidades de alimentação
e nutrição avaliadas, 80,0% foram classificadas no grupo II e 20,0% no grupo I.
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Revista de Nutrição
Conclusão
Os achados demonstraram que as unidades de alimentação e nutrição foram mais bem classificadas nos itens
equipamentos e existência do Manual de Boas Práticas. Os hotéis destacaram-se nos itens edificação,
manipulação e fluxo de produção. Os restaurantes comerciais obtiveram o pior resultado quando comparados
às demais unidades analisadas.
Termos de indexação: boas práticas de fabricação, higiene de alimentos, nutrição, restaurantes, unidades de
alimentação e nutrição.
A B S T R A C T
Objective
Classify a sample of 50 food producing establishments located in the Federal District (Brasília, Brazil), according
to their fulfillment of essential requisites contained in the sanitary regulation form published by the Agência
Nacional de Vigilância Sanitária, Brazil’s National Agency for Sanitary Regulation.
Methods
A metanalysis of two monographic studies on food production establishments (hotels and commercial
restaurants) was performed, and associated to results of these authors’ research evaluating ten Foodservice
and Nutrition Units led by nutritionists, and five commercial restaurants. The procedures for good manufacturing
were evaluated according to the norms of the mentioned Agency; to this effect, the Agency’s specific forms
were utilized to analyze the adequacy of requisites such as: construction, equipments, handling, production
flow, and availability of the manual for good manufacturing procedures. Still according to the Agency’s norms,
the establishments were further classified into three groups, respective to their fulfillment of the essential
requisite items and procedures as defined in the form: in group I, were those establishments fulfilling more
than 70% of the requisites; group II, fulfilling 30 to 69.9% of them; and group III, fulfilling less than 30% of
the essential items and procedures.
Results
According to the analyses, all the hotel foodservices were classified in group II, while the commercial restaurants
were classified either in group II (33.3%) or in group III (66.7%). As for the Foodservice and Nutrition Units
with a nutritionist, 80% were classified as group II, and 20%, as group I.
Conclusion
The results indicate that the Nutrition and Foodservice Units, which had nutritionists available, were better
classified in requisites such as equipments and availability of a manual of good manufacturing procedures.
The hotels revealed better conditions on items such as construction, manipulation and production flow. The
commercial restaurants obtained the worst results when compared to the other food production services.
Indexing terms: good manufacture procedures, food hygiene, nutrition, restaurants, foodservice unit.
I N T R O D U Ç Ã O
Na segunda metade do século XX, a
sociedade brasileira passou por um intenso
processo de transformação devido ao desenvolvi-
mento industrial. Dentre as mudanças, destacam-
-se os novos hábitos sociais e a mudança no padrão
de consumo alimentar.
O desenvolvimento do hábito de “comer
fora” pode ser analisado a partir de duas
perspectivas: a primeira enfoca o “comer fora”
como atividade social; a segunda, como uma
necessidade imposta pelo modelo de força de
trabalho em que a mulher passou a ter papel
relevante.
A modificação no comportamento das
mulheres alterou a correlação de forças, contri-
buindo para a construção de uma sociedade mais
igualitária, tanto nos espaços reprodutivos (família)
quanto nos espaços produtivos (trabalho)
1
.
O distanciamento da mulher das atividades
tradicionais desenvolvidas no lar e a taxa de
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urbanização das populações, com conseqüente
incremento na renda, contribuíram para o processo
de transição nutricional pelo qual vêm passando
as sociedades desenvolvidas
2
. Essa transição
consiste em um somatório de mudanças de cunho
nutricional relacionadas às alterações na estrutura
da dieta e na distribuição de fatores econômicos,
sociais e demográficos associados à saúde
3
.
Outro ponto importante a ser analisado no
contexto da transição nutricional é o aumento do
consumo de grãos processados, produtos de
origem animal, carboidratos simples, produtos
industrializados e “alimentação fora de casa”
4
.
No Brasil, estima-se que, de cada cinco
refeições, uma é feita fora de casa, na Europa
duas em cada seis e, nos EUA, uma em cada
duas. Esses números indicam que ainda pode
haver um grande aumento e desenvolvimento dos
estabelecimentos que produzem alimentos para
consumo imediato no país
5
. Tais estabelecimentos
incluem unidades de produção de porte e tipos
de organização diferentes entre si, como
restaurantes comerciais, restaurantes de hotéis,
serviços de motéis, coffee shops, buffets,
lanchonetes, cozinhas industriais, fast food,
catering e cozinhas hospitalares
6
.
Segundo dados da Associação Brasileira de
Refeições Coletivas (ABERC)
7
, esse segmento
serviu, no ano de 2002, cerca de 11,1 milhões de
refeições/dia, sendo o crescimento estimado em
8% para 2003, o que demonstra claramente a
força desse mercado.
Com o crescimento do mercado de
alimentação, torna-se imprescindível criar um
diferencial competitivo nas empresas por meio da
melhoria da qualidade dos produtos e serviços
oferecidos, para que esse diferencial determine
quais permanecerão no mercado.
Dentro da perspectiva estadunidense, a
qualidade é aquilo que satisfaz o cliente, e o
controle de qualidade é a manutenção dos
produtos e serviços dentro dos níveis de tolerância
aceitáveis para o consumidor ou comprador. Desse
modo, para avaliar a qualidade de um produto
alimentar, deve ser mensurado o grau em que o
produto satisfaz os requisitos específicos, sendo
que esses níveis de tolerância e requisitos se
expressam por meio de normas, padrões e
especificações
8
.
Em relação às unidades de alimentação e
nutrição (UAN), a qualidade está associada a
aspectos intrínsecos do alimento (qualidade
nutricional e sensorial), à segurança (qualidades
higiênico-sanitárias), ao atendimento (relação
cliente-fornecedor), e ao preço.
A qualidade higiênico-sanitária como fator
de segurança alimentar tem sido amplamente
estudada e discutida, uma vez que as doenças
veiculadas por alimentos são um dos principais
fatores que contribuem para os índices de
morbidade nos países da América Latina e do
Caribe. O Comitê WHO/FAO admite que doenças
oriundas de alimentos contaminados são,
provavelmente, o maior problema de saúde no
mundo contemporâneo
9
. Os principais problemas
são conseqüências do reaquecimento e
refrigeração inadequados e da preparação de
alimentos com muita antecedência, aumentando
o tempo de espera
10
.
Ferreira
11
enfatiza a necessidade de
constante aperfeiçoamento das ações de controle
sanitário na área de alimentos. Isso levou o
Ministério da Saúde, dentro da sua competência,
a elaborar as portarias 1428 de 26/12/1993 e 326
de 30/7/1997
12
, que estabelecem as orientações
necessárias para inspeção sanitária por meio da
verificação do Sistema de Análise de Perigo e
Ponto Crítico de Controle (APPCC) da empresa
produtora e de serviços de alimentos e os aspectos
que devem ser levados em conta para a aplicação
de boas práticas de fabricação (BPF), respecti-
vamente.
O Codex Alimentarius
13
estabelece as
condições necessárias para a higiene e produ-
ção de alimentos seguros. Seus princípios são
pré-requisitos para a implantação do APPCC, em
que ocorre o controle de cada etapa de processa-
mento. Galhardi
14
confirma as BPF como pré-
-requisitos fundamentais para a implantação do
sistema de APPCC, considerado parte integrante
das medidas de segurança alimentar e ponto
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Revista de Nutrição
referencial para produção de normas reguladoras
(legislação) da produção de alimentos
15
.
O APPCC é eficaz porque, ao invés de
detectar, por exemplo, a presença de microorga-
nismos patogênicos no final do processo de
produção de alimentos, atua como um plano para
minimizar os riscos de ocorrência desse evento,
por meio do controle dos procedimentos em certos
pontos críticos, específicos, durante a produção
de alimentos
16
. O uso da APPCC requer também
procedimentos simultâneos com outras
ferramentas, tais como BPF e sistemas avançados
de qualidade na avaliação da produção de
alimentos
17
.
BPF são normas de procedimentos a fim
de atingir um determinado padrão de identidade
e qualidade de um produto e/ou serviço na área
de alimentos, incluindo-se bebidas, utensílios e
materiais em contato com alimentos
18
.
Nessa mesma direção, as BPF consideram,
de maneira geral, quatro pontos principais a serem
analisados: termos relevantes - inclusive pontos
críticos de controle e práticas referentes a pessoal;
instalações - áreas externas, plantas físicas,
ventilação e iluminação adequadas, controle de
pragas, uso e armazenamento de produtos
químicos, abastecimento de água, encanamento
e coleta de lixo; requisitos gerais de equipa-
mentos - construção, facilidade de limpeza e
manutenção; e controles de produção.
O layout das UAN bem como o seu
processo de manipulação devem seguir um “fluxo
higiênico” adequado e ininterrupto. A área de
alimentos crus deve estar separada da área dos
alimentos preparados e prontos para consumo
19
,
minimizando, assim, o risco de contaminação.
Pisos, paredes e ralos devem ser fáceis de limpar
20
,
assim como os equipamentos
19
.
BPF podem ser usadas em UAN como
ponto de partida para implementação de APPCC
19
.
A implementação de APPCC em UAN de pequeno
e médio porte é difícil pela falta de conhecimento,
pela dificuldade de perceber benefícios, pela
ausência de requerimentos legais, pelos recursos
humanos despreparados e pelas dificuldades
financeiras
21-23
. Segundo Walker
24
, a imple-
mentação de APPCC na União Européia, por
imposição legal, em todos os estabelecimentos
que fornecem alimentação, pode apresentar
problemas em pequenas e médias UAN devido à
falta de conhecimento e à dificuldade em contratar
especialistas para desenvolver consultorias.
Diante do exposto, este trabalho tem o
objetivo de classificar os estabelecimentos
produtores de alimentos de acordo com o
cumprimento dos itens imprescindíveis que
avaliam as BPF, contidos no formulário criado pela
ANVISA. O intuito é compreender quais são os
itens mais difíceis de serem cumpridos e quais as
estratégias a serem recomendadas para
concretizar esse intento.
M É T O D O S
Foi realizada metanálise de dois trabalhos
monográficos cedidos pelos autores do curso de
Especialização Qualidade em Alimentos do Centro
de Excelência em Turismo da Universidade de
Brasília
25,26
e de uma amostra coletada em pesquisa
efetuada por esses autores em dez UAN e em
cinco restaurantes comerciais, selecionados por
conveniência dentre as unidades acessíveis
situadas no Plano Piloto. Como os cinco
restaurantes comerciais analisados na presente
pesquisa possuíam as mesmas características da
amostra estudada por Nunes
26
, os dados de ambas
as pesquisas foram incorporados, totalizando 30
restaurantes comerciais. Portanto, a amostra total
analisada consistiu de 30 restaurantes comerciais,
dez hotéis do Setor Hoteleiro Norte e Sul e dez
UAN.
Dessa forma, três blocos foram formados
para comparação de adequação dos itens
imprescindíveis presentes nos formulários
(restaurantes, UAN e hotéis).
Em todos os estudos, foram avaliadas as
BPF por meio de formulários
12
que analisam os
itens de edificação, equipamentos, manipuladores,
fluxo de produção e manual de boas práticas (MBP).
Primeiramente, os blocos foram classifi-
cados de acordo com a adequação total dos itens.
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A ANVISA preconiza três grupos de análise: o
grupo I com mais de 70,0% de atendimento dos
itens imprescindíveis, o grupo II, com 30,0% a
69,9% de atendimento e o grupo III, com menos
de 30,0% de atendimento.
Paralelamente à análise anterior, foram
avaliados os itens presentes no formulário
(edificações, equipamentos, manipulação, fluxo
de produção e MBP) em separado, para verificar
a participação do responsável técnico como
agente facilitador no cumprimento de todos os
aspectos presentes no formulário. Em cada item
foi utilizada a mesma classificação geral.
R E S U L T A D O S E D I S C U S S Ã O
O instrumento utilizado para diagnóstico
da garantia de produção de alimentos seguros à
saúde do consumidor é um formulário, comumente
denominado check-list, que facilita a visualização
dos pontos negativos e positivos das unidades de
alimentação (comerciais, institucionais, hoteleira,
fast food), o que propicia uma análise detalhada
de cada unidade.
Os resultados referentes às unidades
hoteleiras determinaram sua classificação no
grupo II. Essas unidades não possuem um
responsável técnico, ou seja, um nutricionista;
todas são coordenadas por gerentes de alimentos
e bebidas (A&B).
Do total de UAN avaliadas, 80,0% foram
classificadas no grupo II e 20,0% no grupo I. Da
presença do responsável técnico parece advir a
diferença positiva verificada nas UAN e nos hotéis.
Fato corroborado pelos resultados contrastantes
obtidos na maioria dos restaurantes comerciais,
os quais foram classificados no grupo II (33,3%) e
no grupo III (66,7%).
Para compreender melhor o papel
determinante que o nutricionista possui no
processo de produção nas unidades de
alimentação, as Figuras de 1 a 5 apresentam a
comparação de adequação dos itens impres-
cindíveis, segundo os cinco aspectos de
classificação utilizados no check-list.
Os itens incluídos na etapa de edificação
(Figura 1) dificilmente podem sofrer a interferência
do profissional quando a unidade já está cons-
truída e/ou em funcionamento, ou seja, independe
do tipo de estabelecimento. As UAN apresentam
condições insatisfatórias de edificação, o que
provavelmente pode comprometer o desempenho
em itens tais como manipulação e fluxo de
produção.
para a etapa de equipamentos (Figura
2), 90% das UAN foram classificadas no grupo I,
Figura 1. Classificação dos estabelecimentos do Distrito Federal, segundo o percentual de atendimento dos itens imprescindíveis.
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enquanto apenas 20% dos hotéis classificaram-
-se no grupo I e nenhum restaurante comercial
classificou-se nesse grupo. O nutricionista, possivel-
mente, contribui para a escolha de equipamentos
adequados ao volume de produção, bem como
para a manutenção dos mesmos. No que diz
respeito à higienização, fator essencial de
avaliação no check-list, Akutsu
27
reafirma que: “há
uma valorização das atividades de vigilância por
estas estarem previstas de forma clara nos
contratos e na legislação sanitária vigente”.
Para o item manipulação (Figura 3), os
restaurantes comerciais apresentaram condições
desfavoráveis, com 83,34% das unidades incluídas
no grupo III. Quanto às UANs, houve predomi-
nância de sua classificação nos grupos I e III. Maior
atenção deve ser direcionada aos manipuladores
de alimentos, os quais são os responsáveis pela
produção segura dos mesmos. Mortimore
28
alerta:
para que a segurança alimentar possa ser
implementada, há necessidade de que as pessoas
envolvidas, tanto no planejamento de APPCC,
Figura 2. Classificação dos estabelecimentos do Distrito Federal, segundo o percentual de atendimento dos itens imprescindíveis.
Figura 3. Classificação dos estabelecimentos do Distrito Federal, segundo o percentual de atendimento dos itens imprescindíveis.
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quanto na operacionalização, apresentem
competência. Portanto, seleção, treinamento e
educação dos manipuladores, bem como
avaliação de competências, são critérios para o
sucesso e alcance do fornecimento de alimento
seguro.
Os resultados encontrados neste trabalho
são similares aos resultados encontrados por DeWit
& Kampelmacher
29
: 60% dos manipuladores de
alimentos em UAN não lavam as mãos
adequadamente antes de lidarem com alimentos.
Para que o alimento seja seguro para o consumo,
a mão do manipulador deve estar limpa e o
manuseio deve ser mínimo
30
. A produção de
preparações higiênicas e a educação dos
manipuladores de alimentos envolvidos na
preparação, processamento e serviços são limites
cruciais para a prevenção da maioria das doenças
veiculadas por alimentos.
Os hotéis apresentaram melhor adequação
para 70% das unidades avaliadas. Cabe ressaltar
que, provavelmente, o volume de produção dos
hotéis avaliados é menor quando comparado ao
das UAN.
Quanto ao fluxo de produção (Figura 4),
somente os restaurantes comerciais apresentaram
unidades no grupo I (6,7%). Em número absoluto,
são duas unidades, tendo sido uma delas deslocada
para a categoria de restaurantes comerciais,
apesar de a estrutura de fluxo de produção ter
sido montada por um nutricionista que, no
momento da coleta de dados, não mais fazia
parte do quadro de funcionários. Por outro lado,
66,7% dos restaurantes comerciais foram
classificados no grupo III, sugerindo a preca-
riedade das condições na maioria desses
estabelecimentos.
Os hotéis classificaram-se todos no
grupo II, sendo mais homogêneos nesse aspecto,
mas ainda necessitando de melhores condições,
que poderiam ser alcançadas com a presença de
nutricionistas nos estabelecimentos.
Para o manual de BPF (Figura 5), apenas
as UAN apresentaram classificação no grupo I
(10,0%). Tanto hotéis como restaurantes comer-
ciais classificaram-se, em sua maioria, no
grupo III: 100,0% e 93,33%, respectivamente.
De acordo com a portaria SVS/MS nº 326
de 30/7/97
12
, que regulamenta as BPF, os estabe-
lecimentos produtores de alimentos devem possuir,
obrigatoriamente, esse manual para aplicação das
normas em suas unidades, a fim de garantir a
segurança do alimento, pois as BPF são consi-
deradas também ferramentas essenciais para a
implementação da APPCC
17
.
Figura 4. Classificação dos estabelecimentos do Distrito Federal, segundo o percentual de atendimento dos itens imprescindíveis.
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C O N C L U S Ã O
As inquietações e reflexões que determi-
naram a investigação acerca das condições de
produção de refeições no Distrito Federal revela-
ram que as UAN estão mais bem classificadas
nos itens equipamentos e existência do Manual
de Boas Práticas. Os hotéis destacam-se nos itens
edificação, manipulação e fluxo de produção.
Os restaurantes comerciais obtiveram os resultados
mais deficientes, quando comparados aos dos
demais estabelecimentos.
Nesse sentido, parece haver interferência
positiva da presença do responsável técnico, seja
nutricionista ou gerente de alimentos e bebidas,
para o cumprimento de todos os itens do check-
list.
No entanto, espera-se de alguns respon-
sáveis técnicos a superação dos desvios apontados
pelo instrumento, em especial dos itens que
estariam imbricados na garantia da qualidade
higiênico-sanitária dos alimentos.
A possibilidade de reflexão sobre si mesmo
e sobre o seu papel faz do ser humano um
ser único. Mesmo compreendendo a correla-
ção de forças que determinam o atual modelo
político-econômico do país, desse ser espera-se a
ação. A reflexão e a ação, como constituintes
inseparáveis da práxis, são a maneira humana de
existir; isso não significa, contudo, que reflexão e
ação não estejam condicionadas, como se fossem
absolutas, pela realidade em que está o homem.
É esta reflexão sobre si mesmo e sobre o seu papel
social que se espera do responsável técnico e em
especial do nutricionista
27
.
Vale ressaltar que este estudo não tem a
pretensão de esgotar o tema, em virtude da sua
complexidade e das limitações impostas pelo
modelo escolhido (metanálise); mas espera ter
contribuído para ampliar as discussões acerca da
atuação do nutricionista como agente de saúde.
R E F E R Ê N C I A S
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Figura 5. Classificação dos estabelecimentos do Distrito Federal, segundo o percentual de atendimento dos itens imprescindíveis.
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Recebido para publicação em 8 de março e aceito em 12
de setembro de 2004.
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