BookPDF Available

Abstract and Figures

Reunindo contribuições de importantes pesquisadores, o livro Métodos Experimentais em Psicolinguística apresenta uma introdução a técnicas comumente utilizadas no Brasil em estudos sobre aquisição, processamento e produção da linguagem. Ideal para estudantes com interesse nessas áreas, o livro conta com capítulos que não apenas descrevem e exemplificam cada método, mas também discutem suas possíveis vantagens e desvantagens.
Content may be subject to copyright.
1
Métodos
experimentais em
psicolinguística
Cândido Samuel Fonseca de Oliveira
Thaís Maíra Machado de Sá
[organizadores]
Métodos
experimentais em
psicolinguística
Cândido Samuel Fonseca de Oliveira
Thaís Maíra Machado de Sá
[organizadores]
Apoio e financiamento
CONSELHO EDITORIAL:
Alexandre Cadilhe [UFJF]
Ana Cristina Ostermann [Unisinos/CNPq]
Ana Elisa Ribeiro [CEFET-MG]
Carlos Alberto Faraco [UFPR]
Cleber Ataíde [UFRPE]
Clécio Bunzen [UFPE]
Francisco Eduardo Vieira [UFPB]
Irandé Antunes [UFPE]
José Ribamar Lopes Batista Júnior [LPT-CTF/UFPI]
Luiz Gonzaga Godoi Trigo [EACH-USP]
Márcia Mendonça [IEL-UNICAMP]
Marcos Marcionilo [editor]
Vera Menezes [UFMG]
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser repro-
duzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrôni co
ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer
sistema ou banco de dados sem permissão por escrito da editora.
ISBN: 978-85-7934-277-6
© da edição: Pá de Palavra, São Paulo, julho de 2022.
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
M552
Métodos experimentais em psicolinguística [recurso eletrônico] /
organização Cândido Samuel Fonseca de Oliveira, Thaís Maira Machado
de Sá. - 1. ed. - São Paulo : Pá de Palavra, 2022.
recurso digital ; 5 MB
Formato: epub
Requisitos do sistema: adobe digital editions
Modo de acesso: world wide web
Inclui bibliograa
ISBN 978-85-7934-277-6 (recurso eletrônico)
Linguística. 2. Psicolinguística. 3. Livros eletrônicos. I. Oliveira,
Cândido Samuel Fonseca de. II. Sá, Thaís Maira Machado de.
22-79685 CDD: 401.9
CDU: 81’23
Meri Gleice Rodrigues de Souza - Bibliotecária - CRB-7/6439
O presente trabalho foi realizado com apoio do CNPq,
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico - Brasil (Bolsa de Produtividade em Pesquisa –
Pq, processo nº 313672/2018-0).
Direitos reservados à
DE PALAVRA
[O selo de autopublicação da Parábola Editorial]
Rua Dr. Mário Vicente, 394 - Ipiranga
04270-000 São Paulo, SP
pabx: [11] 5061-9262
home page: www.padepalavra.com.br
e-mail: producao@padepalavra.com.br
Capa e diagramação: Telma CusTódio
Revisão: Parábola ediTorial
Sumário
Métodos experimentais em psicolinguística: uma introdução
Thaís Maíra Machado de Sá, Cândido Samuel Fonseca de Oliveira
Questionários em Pesquisas na área de Bilinguismo e Aquisição de Segunda Língua:
elaboração e uso para perlamento de participantes
Giselli Mara da Silva, Ricardo Augusto de Souza, Marcus Guilherme Pinto de Faria Valadares
Julgamento de aceitabilidade: um método de fácil acesso a dados quantitativos
Thaís Maíra Machado de Sá, Larissa Ciríaco, Mahayana Godoy
Leitura Autocadenciada (com e sem labirinto): histórico e reexões metodológicas
Cândido Samuel Fonseca de Oliveira, Mercedes Marcilese, Márcio Martins Leitão
Na trilha do processamento da linguagem: o uso de rastreadores oculares na análise de
dados linguísticos
Aline Alves Fonseca, Marcus Maia
O priming estrutural na pesquisa linguística
Mara Passos Guimarães
O olhar e a produção linguística: propostas para a pesquisa experimental em aquisição da
linguagem
Cristina Name, Arabie Bezri Hermont, Daniele Molina
Deslocamento lexical da identicação e a inuência do conhecimento lexical na
percepção da distinção fonológica
Rui Rothe-Neves
Escolha forçada e medidas neuroelétricas na pesquisa experimental em fonética
Camila Leite, Luciana Lucente, Daniel Silva
Sobre os autores
6
Métodos experimentais em psicolinguística:
uma introdução
Thaís Maíra Machado de Sá (CE FE T-MG)
Cândido Samuel Fonseca de Oliveira (CEFET-MG/UFMG)
A psicolinguísticA é uma ciência que busca experimentalmente entender
como adquirimos, processamos e produzimos a linguagem (CLARK; CLARK,
1977; RATNER; GLEASON; NARASIMHAN, 1999; WARREN, 2013). A base ex-
perimental da psicolinguística é que permite a coleta de dados quantitativos,
que possibilitam que façamos inferências sobre o sistema linguístico.
A psicolinguística se baseia no racionalismo crítico de Karl Popper, um fi-
lósofo austríaco que defendia que o princípio básico do fazer científico é a pos-
sibilidade de falseá-lo. Para defender tal ideia, Popper formulou o método hipo-
tético-dedutivo, em que, para se elaborar uma teoria científica, devemos criar
hipóteses falseáveis dessa teoria que precisam ser testadas. Se minha hipótese
é verdadeira, minha teoria também seria verdadeira. Para a psicolinguística, o
método experimental de investigação deve sempre ter como base o método hi-
potético-dedutivo, em que testamos uma hipótese experimentalmente para que
possamos entender nossa teoria.
Em linguística, é comum que a hipótese seja testada a partir da própria
intuição do pesquisador, assim, o método introspectivo foi por muito tempo
a base de diversas teorias linguísticas (SCHULTZE, 1996; FERREIRA, 2005).
Contudo, discute-se cada vez mais se tal método seria suficiente para garan-
tir a confiabilidade de teorias (SCHULTZE, 1996; GIBSON; FEDORENKO, 2010;
GIBSON; PIANTADOSI; FEDORENKO, 2012).
Em psicolinguística, a introspecção pode ser um ponto de partida, mas
nunca de chegada. Para a testagem das hipóteses, criamos experimentos que
têm como objetivo coletar dados quantitativos. Na psicolinguística, como não é
possível observar o fenômeno no seu processamento, aquisição ou produção em
si, a relação de causalidade é inferencial, ou seja, a partir de tais dados, reali-
zamos análises estatísticas que nos permitem fazer inferências e, assim, verifi-
car se nossa hipótese seria verdadeira e, consequentemente, nossa teoria sobre
processamento, aquisição ou produção do fenômeno linguístico seria também
verdadeira. Destarte, é a partir da relação de causalidade inferencial de Hume
(1740) e do método hipotético-dedutivo de Popper (1963) que planejamos os
experimentos que trarão dados para fundamentar as nossas teorias.
7
Mas o que seriam experimentos? Segundo Campbell e Stanley (1963, p. 1),
experimento é “uma porção da pesquisa em que variáveis são manipuladas e
são observados os efeitos causados em outras variáveis”1. Assim, para realizar
um experimento, o primeiro passo é determinar quais serão as variáveis ma-
nipuladas (variáveis independentes ou variáveis preditoras) e as variáveis que
serão medidas, ou observadas (variáveis dependentes ou variáveis de saída).
Um experimento só existe com a manipulação de variáveis, e o desejável é que
somente a manipulação da variável independente cause um efeito na variável
dependente. Dessa forma, outros possíveis efeitos devem ser controlados pelo
experimentador, na tentativa de que a medida seja o mais precisa possível.
Por conter controles, constantemente a experimentação é questionada em
relação à sua validade ecológica, ou seja, para alguns, expor fenômenos em um
ambiente experimental controlado acabaria retirando características da reali-
dade do fenômeno e, por isso, as inferências retiradas da manipulação seriam
questionáveis. Contudo, são os controles que permitem a associação entre a
manipulação e os resultados, como propõe a causalidade inferencial de Hume,
pois, se outros fatores que poderiam ter causado o efeito foram controlados, é
maior a probabilidade da relação entre a manipulação ter gerado tal efeito.
Além disso, como propõe a psicometria (PASQUALI, 2003), ou a área da
psicologia investida em teorias da medida para fenômenos psicológicos, o tra-
ço latente, ou o fenômeno que não é passível de observação direta, pode ser
medido por meio do um comportamento. Como afirma Pasquali (2003, p. 56),
“o traço latente, para ser cientificamente estudado, deve ser representado em
comportamentos”. Para que tal análise seja possível, o autor (2003, p. 57) de-
fende que deve-se demonstrar que
a operacionalização do atributo latente em comportamentos (itens) de fato cor-
responde a este atributo. Esta demonstração é tipicamente tentada através de
análises estatísticas dos itens individualmente e do teste em seu todo. Para tan-
to, a comunidade científica desenvolveu uma série de parâmetros mínimos que
a medida psicométrica deve apresentar para se constituir em instrumento legí-
timo e válido.
Este livro tem como objetivo trazer de forma acessível, para pesquisadores
de diversas áreas que tenham interesse em utilizar dados quantitativos para
fazer inferências sobre suas hipóteses e teorias, informações sobre métodos que
apresentam parâmetros psicométricos constantemente avaliados e validados
pela comunidade científica e comumente utilizados em psicolinguística. Antes
de entrarmos nos métodos propriamente ditos, acreditamos que seja impor-
tante nesta introdução trazermos alguns conceitos que serão relevantes para a
compreensão da obra.
O primeiro é o conceito de planejamento experimental. Construir um ex-
perimento exige um planejamento que deve conter as variáveis dependentes e
1 Tradução nossa de: “That portion of research in which variables are manipulated and their
effects upon other variables observed” (Campbell; Stanley, 1963, p. 1).
8
independentes, o paradigma experimental escolhido, qual amostra será a ob-
servada, quais variáveis, além das variáveis independentes, podem influen-
ciar seus dados e, por isso, precisam ser controladas, entre outros. Livros de
psicometria, como Pasquali (2003), Martin (2004), Campbell e Stanley (1963),
Cunningham e Wallraven (2012), orientam quais são os aspectos que precisam
ser levados em consideração para um bom delineamento experimental.
Aprofundemos no conceito de variável dependente, que é a variável a ser
medida, a que observamos. Cada paradigma experimental apresenta sua variá-
vel dependente, que pode ser uma nota obtida em uma escala Likert em um
julgamento de aceitabilidade ou um tempo de reação obtido em um experimen-
to de leitura autocadenciada. Nos capítulos que compõem este livro, é possível
observar as métricas das técnicas aqui incluídas. Um ponto importante ao ler
os capítulos é pesquisar qual é o nível da medida que a técnica oferece, e, as-
sim, classificá-la, pois tal fator é fundamental na escolha dos testes estatísticos
que vão permitir que sejam feitas inferências sobre os dados. As variáveis de
medida, ou variáveis dependentes, podem ser categóricas, ordinais, contínuas,
intervalares ou razões ( PASQUALI, 2003). O fator que as diferencia são as pro-
priedades numéricas que a medida contém e, exatamente por conter ou não
certas propriedades numéricas, os modelos estatísticos podem ou não serem
apropriados para aquela medida.
Os experimentos ainda podem ser divididos em métodos fisiológicos e
comportamentais e em métodos on-line e off-line ( FIELD, 2004; GERNSBACKER,
1994; LEITÃO, 2008). Os métodos comportamentais podem ser subclassificados
em relação ao tipo de dado que eles geram.
Os métodos que fornecem dados de tempo de reação dos participantes du-
rante o curso do processamento linguístico, tais como a leitura autocadencia-
da, são métodos on-line. Já os métodos que fornecem dados do comportamento
dos participantes em reação a estímulos lingsticos previamente processados,
tais como o julgamento de aceitabilidade, são denominados métodos off-line.
Assim, essa classificação separa os métodos que investigam o comportamento
dos participantes no momento exato em que uma unidade linguística é pro-
cessada (métodos on-line) daqueles que investigam o comportamento após esse
processamento (métodos off-line). Os métodos fisiológicos seriam aqueles que
não dependeriam do comportamento dos participantes, sendo a medida de tais
métodos alguma medida fisiológica do participante no momento em que ele
é exposto ao fenômeno estudado, como nos estudos de ERP. Este livro abar-
ca métodos fisiológicos e comportamentais, que, como podemos perceber, pos-
suem um papel central no campo da psicolinguística.
Como ainda temos poucos materiais em língua portuguesa que abordam a
metodologia experimental utilizando como base as pesquisas psicolinguísticas
conduzidas no Brasil, o conteúdo apresentado nesta obra visa contribuir para o
preenchimento dessa lacuna, de forma a fortalecer o desenvolvimento da área
no país. O presente livro é parte do projeto Encontro Mineiro de Psicolinguís-
tica, financiado pelo edital de extensão da Diretoria de Extensão e Desenvol-
vimento Comunitário (DEDC) do Centro Federal de Educação Tecnológica de
9
Minas Gerais (CEFET-MG). O projeto tem por objetivo integrar os pesquisado-
res do campo da psicolinguística que atuam no estado de Minas Gerais e gerar
conteúdos relevantes para esse campo de pesquisa em todo o território nacio-
nal. O I Encontro Mineiro de Psicolinguística aconteceu em 2019 e foi sediado
no campus Contagem do CEFET-MG. A primeira edição do evento contou com
palestras da Profa. Dra. Arabie Hermont (PUC-MG), da Profa. Dra. Mercedes
Marcilese (UFJF), do Prof. Dr. Ricardo de Souza (UFMG) e do Prof. Dr. Cândido
Oliveira (CEFET-MG).
Em 2020, o II Encontro Mineiro de Psicolinguística ocorreu virtualmen-
te e contou com palestras da Profa. Dra. Aline Fonseca (UFJF), da Profa. Dra.
Camila Leite (UFU), da Profa. Dra. Mara Guimarães (UFMG) e da Profa. Dra.
Thaís (CEFET-MG), além de oito sessões de pôsteres e duas oficinas de es-
tatística. Ao mapearmos os participantes que se apresentaram no evento, per-
cebemos que o evento não ficou restrito a Minas Gerais, como o nome pode
sugerir. O evento contou com apresentadores do sudeste (CEFET-MG, UFMG,
UEMG, PUC-MG, UFJF, UFU, UFLA, IFMG, UNIFESP e UFF), sul (UFPel, UFRGS,
PUC-RS, UFCSPA e UFSC), nordeste (UFPB e UFRN) e, até mesmo, do exterior
(Universidade de Lisboa, Simon Fraser University e University of Massachusetts
Amherst). Por último, a ação de extensão também contou com a produção de
um livro intitulado Psicolinguística em Minas Gerais (OLIVEIRA; SÁ, 2020). Ao
longo das 279 páginas do livro (16 capítulos), 18 autores — professores doutores
vinculados a instituições de ensino de Minas Gerais apresentam o tema de
suas pesquisas psicolinguísticas.
Em 2021, o projeto teve como foco o tema métodos experimentais em psi-
colinguística. Convidamos diferentes pesquisadores do estado para que eles, in-
dividualmente ou em parceria, elaborassem um material introdutório a um mé-
todo de pesquisa com o qual têm experiência, com discussões sobre as formas
de aplicação da técnica e suas vantagens e desvantagens. Tal conteúdo compõe
não apenas o presente livro, mas também as palestras do III Encontro Mineiro
de Psicolinguística. Obviamente, não objetivamos esgotar todo o conteúdo so-
bre o tema métodos experimentais em psicolinguística, mas sim fornecer um
material acessível para pesquisadores e estudantes interessados nos paradig-
mas experimentais que vêm sendo mais utilizados no Estado de Minas Gerais e
que coincidem em grande parte com aqueles mais utilizados em todo o Brasil.
Abaixo apresentamos os métodos discutidos em cada capítulo.
O primeiro capítulo é Questionários em Pesquisas na área de Bilinguismo
e Aquisição de Segunda Língua: elaboração e uso para perfilamento de partici-
pantes, de autoria da Profa. Dra. Giselli Mara da Silva (Universidade Federal
de Minas Gerais), do Prof. Dr Ricardo Augusto de Souza (Universidade Fede-
ral de Minas Gerais) e do Prof. Dr. Marcus Guilherme Pinto de Faria Valadares
(Texas Tech University). Nele é apresentado o questionário como uma impor-
tante ferramenta a ser utilizada no perfilamento de participantes de pesquisas
em bilinguismo e aquisição de segunda língua. Os autores abordam a impor-
tância das diferenças individuais em estudos em Psicolinguística, descrevem
10
características fundamentais dos questionários e discutem aspectos relevantes
dessa ferramenta de pesquisa.
O livro segue com a tarefa de julgamento de aceitabilidade que é apresen-
tada pela Profa. Dra. Thaís Maíra Machado de Sá (Centro Federal de Educação
Tecnológica de Minas Gerais), pela Profa. Dra. Larissa Ciríaco (Universidade Fe-
deral de Minas Gerais) e pela Profa. Dra. Mahayana Godoy (Universidade Fede-
ral do Rio Grande do Norte) no capítulo intitulado Julgamento de aceitabilidade:
um método de fácil acesso a dados quantitativos. O capítulo apresenta o teste de
julgamento de aceitabilidade e suas possíveis escalas para a medida dos dados,
dando exemplos de sua aplicabilidade e explorando suas vantagens e desvanta-
gens de aplicação.
O Prof. Dr. Cândido Samuel Fonseca de Oliveira (Centro Federal de Edu-
cação Tecnológica de Minas Gerais/Universidade Federal de Minas Gerais), a
Profa. Dra. Mercedes Marcilese (Universidade Federal de Juiz de Fora) e o Prof.
Dr. Márcio Martins Leitão (Universidade Federal da Paraíba) são os responsá-
veis pelo capítulo seguinte, intitulado Leitura autocadenciada (com e sem labi-
rinto): histórico e reflexões metodológicas. No capítulo, os autores abordam três
paradigmas tradicionais da tarefa de leitura autocadenciada: a janela estática,
a janela móvel e a janela cumulativa. Ademais, os autores abordam a tarefa la-
birinto, que é um método experimental alternativo aos paradigmas tradicionais
de leitura autocadenciada. Os autores ilustram, comparam e discutem as prin-
cipais características desses paradigmas experimentais
No capítulo Na trilha do processamento da linguagem: o uso de rastreado-
res oculares na análise de dados linguísticos, a Profa. Dra. Aline Alves Fonseca
(Universidade Federal de Juiz de Fora) e o Prof. Dr. Marcus Maia (Universidade
Federal do Rio de Janeiro) abordam o aparelho de rastreamento ocular, descre-
vendo suas propriedades e funcionamento, além de um breve histórico de seu
uso na ciência e na indústria. Os autores também apresentam os paradigmas
experimentais aplicados nos estudos linguísticos relacionados com a leitura,
com o processamento de estímulos auditivos e visuais e com a análise meta-
cognitiva de dados voltada para a educação. O capítulo ainda traz um breve re-
lato de prós e contras ligados à pesquisa linguística com o rastreamento ocular
como ferramenta de coleta de dados e análise.
O capítulo “O priming estrutural na pesquisa linguística”, da Profa. Dra.
Mara Passos Guimarães (Universidade Federal de Minas Gerais), apresenta um
panorama geral do priming estrutural, começando pela definição de priming
como componente de memória explícita e sua aplicação na psicologia experi-
mental. Em seguida, o capítulo foca no priming estrutural: efeito de facilitação
no processamento de uma estrutura sintática abstrata devido a um episódio
de processamento anterior. São discutidas as aplicações do priming estrutural
como estratégia investigativa na psicolinguística e suas contribuições ao en-
tendimento da arquitetura do sistema linguístico, tanto monolíngue quanto
bilíngue.
A Profa. Dra. Cristina Name (Universidade Federal de Juiz de Fora), a
Profa. Dra. Arabie Bezri Hermont (Pontifícia Universidade Católica de Minas
11
Gerais) e a Dra. Daniele Molina (Universidade Federal de Juiz de Fora) são as
responsáveis pelo capítulo seguinte, intitulado O olhar e a produção linguística:
propostas para a pesquisa experimental em aquisição da linguagem. O capítulo
demonstra como o uso de metodologia experimental na pesquisa em aquisição
da linguagem permite que se observem, em bebês e crianças, habilidades e co-
nhecimentos subjacentes à percepção, à compreensão e à produção linguística,
que não são necessariamente explícitos e observáveis de outra forma. As auto-
ras apresentam duas técnicas utilizadas com crianças de 4 meses a 4 anos, que
podem ser aplicadas fora do laboratório e exigem pouco investimento: a fixação
preferencial do olhar e a eliciação.
A tarefa de identificação é abordada pelo Prof. Dr. Rui Rothe-Neves (Uni-
versidade Federal de Minas Gerais) no capítulo intitulado Conhecimento lexical,
percepção do contraste fonológico e o caso da neutralização. Mais especificamen-
te, o capítulo apresenta de maneira didática o efeito de deslocamento lexical na
tarefa de identificação e como esse efeito pode ser usado para obter dados a
serem contrapostos a previsões teóricas. O autor descreve em detalhes casos de
contraste fonológico e neutralização, utilizando experimentos hipotéticos para
efeitos de ilustração.
A Profa. Dra. Camila Leite (Universidade Federal de Uberaba), a Profa. Dra.
Luciana Lucente (Universidade Federal de Minas Gerais) e o Prof. Dr. Daniel
Silva (Universidade Estadual de Minas Gerais) são os autores do capítulo Esco-
lha forçada: medidas neuroelétricas na pesquisa experimental em fonética. O ca-
pítulo apresenta e discute o método da escolha forçada e diferentes métodos
para obtenção de medidas neuroelétricas aplicados em experimentos fonéticos.
A escolha forçada é avaliada e exemplificada por experimentos com dados su-
prassegmentais da fala, enquanto os experimentos com medidas neuroelétricas
são abordados a partir de sua aplicação em experimentos com dados segmen-
tais, como percepção e categorização de vogais.
Referências bibliográficas
CAMPBELL; S. Experimental and quasi-experimental designs for research. 1963.
CLARK, H. H.; CLARK, E. V. Psychology and Language: An Introduction to Psycholinguistics.
New York: Harcourt Brace Jovanovich. 1977.
CUNNINGHAM, D.; WALLRAVEN, R. Experimental Design: from user studies to psychophysics.
Boca Raton: CRC Press, 2012.
FIELD, J. Psycholinguistics: The key concepts. New York: Routledge, 2004.
GERNSBACHER, M. A. Handbook of psycholinguistics. San Diego: Academic Press, 1994.
GIBSON, E.; FEDORENKO, E. Weak quantitative standards in linguistics research. Trends in
Cognitive Sciences, v. 14, p. 233-234, 2010.
GIBSON, E.; PIANTADOSI, S. T.; FEDORENKO, E. Quantitative methods in syntax/semantics
research: A response to sprouse and Almeida (2012). Language and Cognitive Processes, p.
1-12, 2012.
HUME, D. An abstract of a Treatise of Human Nature. 1978. 2nd ed. Oxford Clarendon
Press(Original work published 1740).
LEITÃO, M. M. Psicolinguística Experimental: Focalizando o processamento da linguagem. In:
MARTELOTTA, M. E. (org.) Manual de Linguística. São Paulo: Contexto, 2008.
MARTIN, D.W. Doing Psychology Experiments. Belmont, CA: Thomson Wadsworth, 2004.
12
OLIVEIRA, C.; SÁ, T. (Org.). Psicolinguística em Minas Gerais. 1. ed. Contagem: CEFET-MG,
2020.
PASQUALI, L. Psicometria. Petrópolis: Editora Vozes, 2013.
POPPER, K. (1963). Science as falsification. In: T. Schick (Ed.), Readings in the philosophy of
science. Boston: Routledge & Kegan Paul.
RATNER, N. B.; GLEASON, J. B.; NARASIMHAN, B. An introduction to psycholinguistics: what
do language users know? In: J. B. Gleason & N. B. Ratner (Eds.), Psycholinguistics (pp. 149).
Philadelphia: Harcourt Brace College. 1999.
SCHULTZE, C. The empirical base of linguistics: Grammaticality judgments and linguistic me-
thodology. Chicago, IL: University of Chicago Press, 1996.
WARREN, P. Introducing psycholinguistics. Cambridge University Press. 2012.
13
Questionários em Pesquisas na área de
Bilinguismo e Aquisição de Segunda Língua:
elaboração e uso para perfilamento de
participantes
Giselli Mara da Silva (UFMG)
Ricardo Augusto de Souza (UFMG)
Marcus Guilherme Pinto de Faria Valadares (Texas Tech University)
1. Introdução
nos estudos em Psicolinguística, devido ao necessário controle das variá-
veis intervenientes no processamento da linguagem, um desafio metodológico
bastante comum diz respeito à seleção de participantes e ao uso de ferramen-
tas que auxiliem em seu perfilamento. Especificamente no campo da Psicolin-
guística do Bilinguismo, vários pesquisadores (GOLLAN et al. 2012; GROSJEAN,
1998; entre outros) destacam inconsistências nos resultados de estudos que po-
dem ser causadas por falhas metodológicas na seleção de participantes e defen-
dem a importância do uso de instrumentos validados e uniformes para a essa
seleção de modo a permitir a comparação entre diferentes pesquisas.
Ao discutir os inúmeros aspectos que precisam ser considerados quando da
seleção de participantes, tais como histórico linguístico, proficiência nas lín-
guas, etc., Grosjean (1998) sugere o uso de questionários como uma forma de
viabilizar a coleta, a síntese e a exposição das informações concernentes aos
perfis de participantes. Nesse sentido, um questionário pode ser uma ferramen-
ta muito útil, por ser um instrumento mais global e permitir a consideração de
fatores variados (GROSJEAN, 1998; GERTKEN et al. 2014, entre outros), além
de adquirir importância crucial no caso de populações para as quais poucos
testes objetivos (LIM; LIOW; LINCOLN; CHAN; ONSLO, 2008; SILVA, 2018).
Abordando os questionários como uma importante ferramenta nos estudos
sobre o Bilinguismo, este capítulo se volta então para a importância da consi-
deração das diferenças individuais em estudos em Psicolinguística, bem como
para a descrição de características fundamentais dos questionários, tais como
seu funcionamento e os tipos de dados que geram, os princípios básicos que
guiam sua elaboração, as vantagens e desvantagens no uso desta ferramenta,
14
bem como para a apresentação de exemplos. Além dos questionários usados em
estudos em Psicolinguística do Bilinguismo, há também pesquisas sobre dife-
renças individuais dos aprendizes cujo objetivo é compreender quais caracterís-
ticas são relevantes para se desenvolver a proficiência na segunda língua (L2).
Muitas dessas pesquisas exploram o uso de questionários voltados à avaliação,
por exemplo, da aptidão linguística e da motivação, o que também será ilustra-
do neste capítulo (DÖRNYEI; CSIZÉR; NÉMETH, 2006).
2. As diferenças individuais na lógica da pesquisa laboratorial em
Psicolinguística
Desde sua consolidação nas primeiras décadas do século XX, a Estatísti-
ca é o campo de conhecimentos que fornece a matriz de inteligibilidade dos
delineamentos experimentais que caracterizam a pesquisa psicolinguística. Es-
pecificamente, julgamos correto afirmar que foram as técnicas que se arrolam
sob a denominação de “estatística inferencial” aquelas que têm dado corpo às
investigações que tipicamente interessam aos psicolinguistas. O recurso a pro-
cedimentos de análise estatística é um aspecto absolutamente central e prova-
velmente indispensável dos trabalhos da área de Psicolinguística, sendo uma
característica notória (ainda que não a única, note-se) para o próprio mapea-
mento de nossa disciplina no vasto território das subáreas dos estudos da lin-
guagem humana. Trata-se de um aspecto que, na Linguística, avizinha a Psi-
colinguística de certos nichos da Sociolinguística, assim como da Linguística
Computacional e de Corpus, simultaneamente a distanciando, estritamente do
ponto de vista metodológico, dos modos de fazer ciência mais comuns em su-
báreas nas quais o conhecimento é construído exclusiva ou prevalentemente
por aportes introspectivos e interpretativos.
A “estatística inferencial” distingue-se da “estatística descritiva” por ser
a segunda usada para descrever e sintetizar as características de um conjunto
de dados (através, por exemplo, de porcentagens e medidas de tendência cen-
tral tais como a média), ao passo que a primeira é empregada como heurística
para a verificação da confiabilidade de generalizações acerca de uma dada po-
pulação, ou totalidade de ocorrências de um fenômeno, a partir de observações
sistemáticas e metodicamente organizadas de uma amostra de uma população.
A centralidade de procedimentos de análise estatística inferencial nas pesqui-
sas de psicolinguistas pode trazer a impressão de que essas pesquisas têm por
preocupação apenas padrões gerais e típicos dos grandes grupos, sendo insen-
síveis ou negligentes às nuances das individualidades. Porém, essa seria uma
impressão falsa e precipitada.
É verdade que a Psicolinguística alinha-se ao projeto epistemológico da
ciência moderna, que propõe como um de seus objetivos primeiros a viabiliza-
ção de previsões sobre as características típicas de ocorrências ainda não en-
contradas dos fenômenos, justamente através da identificação e, idealmente, da
explicação dos mecanismos de atuação dessas características. Para atingir tal
15
objetivo, a Psicolinguística junta-se a outras disciplinas científicas no tocan-
te à importância dada a conhecer-se as características de interesse enquanto
aspecto generalizado, normal e médio dos fenômenos por ela estudados. Vem
daí a importância atribuída ao poder de generalização para as populações das
observações feitas com amostras dessas.
No entanto, é igualmente básico para o trabalho dos psicolinguistas o
apoio em métodos e instrumentos que lhes permitam identificar como as pes-
soas variam individualmente em relação a características comuns que são com-
preendidas como importantes para os estudos sobre aquisição e processamen-
to da linguagem. Na verdade, o reconhecimento, a observação sistemática e a
mensuração da variabilidade das pessoas, ou seja, das diferenças individuais, é
um procedimento indispensável exatamente para chegarmos a conclusões ra-
zoáveis sobre o papel de determinado traço ou característica no comportamen-
to usual dos fenômenos que interessam aos estudos dos psicolinguistas.
É por essas razões que são parte relevante dos métodos dos psicolinguis-
tas o desenvolvimento e a seleção de testes, escalas e questionários de diversos
tipos e que eliciam diversas informações, assim como o estudo embasado da
validade das informações obtidas através de seu uso como forma de medição
de diferenças individuais. É importante salientar que procedimentos estatísti-
cos são ferramentas igualmente centrais e indispensáveis no desenvolvimen-
to e nos estudos de validação dos testes, das escalas e dos questionários úteis
para o estudo de diferenças individuais, ainda que não necessariamente idênti-
cos àqueles empregados do delineamento de experimentos com vistas a avaliar
a probabilidade da acuidade de generalizações das observações obtidas atra-
vés deles para as populações de interesse. Para uma introdução razoavelmente
acessível aos procedimentos estatísticos e métodos de trabalho relevantes, su-
gerimos a consulta a Urbina (2007).
3. O que é e como funciona um questionário?
Os questionários são um instrumento de pesquisa oriundo das Ciências So-
ciais com amplo uso na área da Linguística, como nos estudos em Linguística
Aplicada, Sociolinguística, Bilinguismo, entre outros. Conforme explica Babbie
(1999), um dos primeiros usos políticos de questionários de que se tem notícia
foi o envio por Karl Marx de 25.000 questionários a trabalhadores franceses,
com o objetivo de avaliar se estes eram explorados por seus patrões. Porém, é
no século XX que a pesquisa de survey1 se desenvolveu consideravelmente nas
1 “Pesquisa de survey se refere a um tipo particular de pesquisa social empírica, mas há muitos
tipos de survey. O termo pode incluir censos demográficos, pesquisas de opinião pública, pesquisas
de mercado sobre preferências do consumidor, estudos acadêmicos sobre preconceito, estudos epide-
miológicos etc.” (BABBIE, 1999, p. 95). Especificamente em Linguística, Brown (1997, p. 109) explica
que um “survey linguístico é qualquer procedimento que obtém informações sobre as características
dos participantes e suas visões sobre a natureza da linguagem e a natureza da aprendizagem através
do uso de entrevistas orais ou questionários escritos”.
16
Ciências Sociais, especialmente nos Estados Unidos, levando a um refinamento
científico desse tipo de pesquisa, relacionado à preocupação com a análise es-
tatística, ao desenvolvimento de equipamentos de processamento de dados e à
criação de centros de pesquisa (BABBIE, 1999).
Embora os questionários sejam ferramentas muito conhecidas de forma
geral, não é fácil oferecer uma definição precisa, em especial porque frequente-
mente há o uso impróprio dessa ferramenta e são utilizados vários termos para
designá-la, tais como escalas, inventários, índices, etc. (DÖRNYEI, 2003). Além
disso, o termo é usado por pesquisadores em dois sentidos amplos: (i) roteiros
de entrevistas, nas quais o entrevistador conduz a entrevista ao vivo seguindo
um conjunto fixo de perguntas; (ii) questionários que os participantes precisam
responder sozinhos (DÖRNYEI, 2003). Neste capítulo, estamos tratando do se-
gundo tipo, e considerando a definição proposta por Brown (1997, p.111): “Um
questionário é qualquer instrumento escrito que apresenta aos participantes
uma série de perguntas ou afirmações às quais eles devem reagir selecionan-
do a partir das possibilidades existentes ou escrevendo suas respostas”2. Cabe
esclarecer que os questionários escritos englobam o caso de questionários em
formato digital ou impresso.
Quanto a sua aplicação, os questionários podem ser enviados, por meio de
e-mail ou outras ferramentas, a potenciais participantes, que irão preenchê-los
de forma independente; ou pode ocorrer também a administração em grupos,
por exemplo, em turmas de aprendizes de L2 de uma dada instituição. Neste úl-
timo caso, apesar do número mais restrito de participantes, é possível contornar
possíveis problemas, já que se pode abrir espaço para que os participantes tirem
dúvidas sobre determinados itens, e há maiores chances de que os respondentes
preencham todo o questionário (BROWN, 1997). De forma ampla, conforme ex-
plica Dörnyei (2003), os questionários podem gerar três tipos de dados:
questões factuais: são voltadas para a descrição dos respondentes, sendo
tipicamente questões demográficas (idade, gênero, escolaridade, etc.)
e perguntas voltadas para fatores linguísticos ou não-linguísticos que
podem ser importantes para a compreensão do perfil dos respondentes.
No caso de estudos de L2 e do bilinguismo, há perguntas sobre a histó-
ria de aprendizagem das línguas dos participantes, a idade de aquisição
das línguas, o país de origem e de residência, a primeira ngua (L1) e
as línguas adicionais do participante, etc.
questões comportamentais: são usadas para descobrir o que os partici-
pantes fazem ou fizeram, voltando-se para hábitos, estilo de vida, etc.
Nos estudos de L2 e do bilinguismo, é comum perguntas sobre hábitos
de uso das duas línguas, escolhas linguísticas em contextos diversos,
estratégias de aprendizagem de línguas, etc.
2 “A questionnaire is any written instrument that presents participants with a series of ques-
tions or statements to which they should react either by selecting from existing possibilities or wri-
ting out their answers” (BROWN, 1997, p. 111).
17
questões atitudinais: são voltadas para se descobrir o que os participan-
tes pensam”, envolvendo atitudes, opiniões, crenças, etc. Nos estudos
de segunda língua e do bilinguismo, aparecem perguntas sobre a afi-
liação étnica ou cultural, a relação com falantes da L2, crenças em re-
lação à própria capacidade de aprender, etc.
Em questionários usados no campo das pesquisas em L2 e bilinguismo,
são comuns também perguntas que demandam dos participantes a autoavalia-
ção de suas habilidades nas línguas, sendo que, a princípio, tal autoavaliação
parece não se encaixar facilmente nas categorias apresentadas acima. A título
de exemplificação, listamos abaixo os 10 tópicos mais comuns em questionários
conforme revisão de 41 estudos feita por Li, Sepanski e Zhao (2006). Os auto-
res apontam que esses itens são relacionados a importantes construtos teóricos
na pesquisa em L2 e bilinguismo, como idade de aquisição, proficiência, etc.
1. Idade atual (em anos; às vezes calculada a partir da data de nascimento).
2. Anos de residência no país onde a L2 é falada.
3. Idade na qual a aprendizagem de L2 se iniciou.
4. Autoavaliação nas habilidades de leitura em L1 e em L2, separadamente.
5. Autoavaliação nas habilidades de fala em L1 e em L2, separadamente.
6. Anos de instrução em L2.
7. Autoavaliação nas habilidades de escrita em L1 e em L2, separadamente.
8. Língua falada em casa.
9. Autoavaliação nas habilidades de compreensão em L1 e em L2, separa-
damente.
10. Língua nativa
(LI; SEPANSKI; ZHAO, 2006, p. 202)3
4. Quais são seus princípios básicos?
A despeito de sua popularidade, os questionários podem ser escolhidos
como ferramenta de coleta de dados sem a devida consciência da necessidade
de sistematização no processo de construção, administração e processamento
dos dados. Para que os questionários possam se tornar ferramentas efetivas
que permitam o acesso a dados confiáveis, é necessário rigor na sua elaboração
(DÖRNYEI, 2003). Conforme Aderson e Banerjee (2002 apud GERTKEN et al.
2014), o primeiro passo é especificar o construto4 sob investigação. Conforme
3 1. Current age (in years; sometimes calculated from birthday). 2. Years of residence in the
country where L2 is spoken. 3. Age at which L2 learning started. 4. Self-assessment in reading abi-
lity in L1 and L2, separately. 5. Self-assessment in speaking ability in L1 and L2, separately. 6. Years
of L2 instruction received. 7. Self-assessment in writing ability in L1 and L2, separately. 8. Language
spoken at home. 9. Self-assessment in comprehension ability in L1 and L2, separately. 10. Native lan-
guage. (LI; SEPANSKI; ZHAO, 2006, p. 202)
4Atributos físicos como altura e peso podem ser observados diretamente. Em testes, no entan-
to, estamos quase sempre interessados em quantificar atributos mentais e habilidades, às vezes cha-
mados de traços ou construtos, que só podem ser observados indiretamente. Esses atributos mentais
incluem características como aptidão, inteligência, motivação, dependência/independência de campo,
18
explica Babbie (1999), os pesquisadores lidam com conceitos abstratos que, no
caso de pesquisas com questionários, precisarão ser convertidos em perguntas,
de forma a viabilizar a coleta de dados. Esse processo de converter os concei-
tos em perguntas não é simples, pois, além da diversidade de conceitos, esses
precisam ser especificados, para que se possa chegar a indicadores empíricos
específicos, ou seja, os conceitos precisam ser operacionalizados. “A operacio-
nalização é o processo pelo qual os pesquisadores especificam observações em-
píricas que podem ser tomadas como indicadores de atributos contidos nalgum
conceito” (BABBIE, 1999, p. 182).
Por exemplo, no desenvolvimento do Language Experience and Proficien-
cy Questionnaire (LEAP-Q), Marian e colaboradores (2007) adotaram uma
perspectiva teórica de bilinguismo em que se considera a interação entre pro-
ficiência e variáveis relacionadas à experiência do bilíngue. Assim, o questio-
nário, que busca avaliar os perfis de bilíngues e multilíngues, explora fatores
variados para especificar o construto bilinguismo, tais como a competência
linguística, a idade de aquisição, os modos de aquisição das línguas, a expo-
sição prévia e o uso atual das línguas. Para converter os fatores identificados
na literatura em perguntas, é essencial a revisão da literatura para que se
possa chegar aos atributos contidos nesses conceitos. Aqui vamos nos restrin-
gir ao exemplo do fator “idade de aquisição” no LEAP-Q, que foi convertido
em 4 itens que medem a idade de aquisição para cada língua do responden-
te: (a) idade de aprendizagem inicial da língua; (b) idade em que se alcançou
fluência na língua; (c) idade em que começou a ler; (d) idade em que obteve
fluência na leitura.
Em geral, conforme explica Babbie (1999), vários conceitos da área das
ciências sociais apresentam “riqueza de significado”, ou seja, combinam -
rios elementos e apresentam nuances sutis, sendo então mais difíceis de se
especificarem para as definições operacionais. Desse modo, para se garantir a
representação de um construto, esse autor sugere medir as rias dimensões
dele. Dörnyei, Csizér e Németh (2006), por exemplo, baseando-se em ampla
revisão da literatura, consideraram sete dimensões em seu estudo sobre mo-
tivação: (1) dimensão integrativa, que reflete uma perspectiva positiva da L2
e sua cultura; (2) dimensão instrumental, que se refere aos benefícios prag-
máticos da proficiência em L2 percebidos pelos aprendizes; (3) atitudes em
torno dos falantes/ da comunidade da L2; (4) meio social, que diz respeito
às influências do meio imediato, tal como a influência de pais, amigos, etc.;
(5) autoconfiança linguística, que se relaciona à crença do aluno em relação
a sua capacidade de aprender a língua; (6) interesse cultural, que se refere a
um interesse nos modos de vida e na produção artística associada à L2; (7)
vitalidade etnolinguística, que diz respeito à vitalidade percebida das comu-
nidades usuárias de L2. Trazemos como exemplo dois itens do Language Dis-
position Questionnaire, nos quais os participantes precisam indicar seu nível
atitude, língua nativa, fluência na fala e desempenho na compreensão na leitura” (BACHMAN, 1990,
p. 19, tradução nossa).
19
de concordância em relação às declarações: (i) no item “Tenho certeza de que
poderei aprender bem uma língua estrangeira”, avalia-se a dimensão da au-
toconfiança linguística; (ii) já no item “As pessoas ao meu redor tendem a
pensar que é bom saber línguas estrangeiras”, o respondente informa sobre
as influências do meio.
Após a revisão bibliográfica e a delimitação do construto, seguem-se as
demais etapas de preparação do questionário. A seguir, apresentamos um qua-
dro sinóptico com os passos propostos por Dörnyei (2003) e algumas orienta-
ções indicadas por esse autor.
Quadro 1: Passos na elaboração de questionários
Passos Orientações
(1) Decidir sobre características ge-
rais do questionário, tais como a
duração, o formato e as partes
principais.
Uma importante característica é o tamanho ou a duração do
questionário. Ainda que o pesquisador queira cobrir uma ampla
gama de conteúdos, é importante considerar o impacto do ta-
manho do questionário no nível de adesão dos respondentes. A
orientação é que se considere o limite de 30 minutos para res-
ponder aos itens. Além do tamanho do questionário, o formato
e o design são importantíssimos para elicitar dados confiáveis
e válidos: é necessário considerar a densidade de informações
de cada página, de modo a evitar questionários com muitas pá-
ginas, mas também cuidando para que a página não fique so-
brecarregada, além de manter uma formatação padronizada na
numeração dos itens, nos destaques, etc.
(2) Escrever itens/ perguntas efica-
zes e elaborar um conjunto de
itens.
A elaboração dos itens é a parte principal do trabalho de elabo-
ração de um questionário e deve ser realizada cuidadosamente.
No processo de elaboração do conjunto de itens, como já disse-
mos ao tratar da operacionalização dos construtos sob investi-
gação, é essencial a revisão da literatura na área de interesse
da pesquisa, bem como a análise de outros questionários ou
instrumentos existentes. Além disso, recomenda-se um estudo
qualitativo exploratório com um pequeno grupo para se obter
informações relevantes.
Em relação a “temas sensíveis” como, por exemplo, pedir a alu-
nos que avaliem seus professores ou a escola, é importante que
o pesquisador avalie a real necessidade de tratar determinados
temas, bem como compreenda que as estratégias na elaboração
dessas perguntas se diferenciam de perguntas voltadas para te-
mas não sensíveis.
(3) Selecionar e sequenciar os itens. Depois de elaborada uma lista embasada teoricamente, é possí-
vel eliminar questões mais periféricas e focar em questões mais
significativas em relação ao objetivo do estudo. Além disso, é
importante considerar a sequência de perguntas, já que o con-
texto de uma pergunta pode ter impacto na sua interpretação.
Recomenda-se, por exemplo, abrir o questionário não com per-
guntas pessoais (escolaridade, estado civil, etc.), mas sim com
perguntas mais interessantes do ponto de vista do respondente.
Da mesma forma, recomenda-se deixar as questões abertas para
o final, para não desanimar o respondente no início da partici-
pação na pesquisa; estando no final, as questões abertas têm
mais chances de serem respondidas e, por conseguinte, o ques-
tionário ser respondido por completo.
20
(4) Escrever instruções e exemplos
apropriados.
A elaboração de instruções é um passo muito importante por
desempenhar um papel de influenciar a forma como os respon-
dentes se sentem em relação às demandas do questionário. As
instruções gerais, que seguem abaixo do título do questionário,
devem trazer informações sobre o objetivo do estudo e sua re-
levância social, a participação anônima, entre outros. As instru-
ções específicas trazem explicações sobre determinados tipos
de questões.
(5) Pilotar o questionário e realizar
a análise de item.
Como o “texto” do questionário é fundamental, sendo o material
com o qual o respondente vai interagir na pesquisa, é fundamen-
tal pilotar o questionário com uma amostra de pessoas seme-
lhantes ao público-alvo. Esses testes possibilitam a observação
de como o instrumento funciona efetivamente, permitindo uma
primeira avaliação de ambiguidades dos itens, dificuldades dos
respondentes, falta de clareza das instruções, entre outros pro-
blemas, o que vai conduzir à realização dos ajustes necessários.
A análise dos itens deve considerar 3 aspectos: (i) falta de res-
postas no caso de vários respondentes e possíveis indícios de
que as instruções não foram compreendidas; (ii) a variação nas
respostas ao item, sendo interessante evitar itens endossados
por quase todos ou por quase ninguém, considerando obvia-
mente os casos em que a falta de variação pode ser o esperado;
(iii) a consistência interna5 em escalas com vários itens, caso no
qual os itens estão medindo a mesma dimensão e deveriam se
correlacionar com outros itens da escala.
Fonte: Elaboração própria baseada em Dörnyei (2003)
Após a elaboração do questionário, passa-se ao processo de validação do
instrumento. Dois conceitos fundamentais na construção de instrumentos psi-
cométricos, como questionários ou testes, são a confiabilidade e a validade. A
confiabilidade refere-se à consistência da pontuação de um determinado ins-
trumento, ou seja, à extensão na qual esse instrumento está livre de erros de
medida (BACHMAN, 1990; DÖRNYEI, 2003). Se um mesmo participante obtém
pontuações muito diferentes num teste ou num questionário em dias diferen-
tes, isso significa que o instrumento não está levando a resultados consisten-
tes, e os resultados precisam ser analisados a fim de se identificarem as fontes
de erro (BACHMAN, 1990). Já a validade do instrumento diz respeito à exten-
são na qual ele mede aquilo para o qual foi projetado para medir (BACHMAN,
1990; DÖRNYEI, 2003). Por exemplo, se um questionário foi projetado para
avaliar níveis de bilinguismo, mas se restringe a itens que acessam somente
as atitudes linguísticas dos respondentes, tais como motivação ou identificação
cultural, esse questionário, na verdade, avalia apenas uma das dimensões da
experiência de bilinguismo.
Conforme explica Dörnyei (2003), os questionários, por serem instrumen-
tos de medida, devem apresentar confiabilidade e validade adequadas, aferidas
5 A consistência interna se refere à homogeneidade dos itens, ou seja, a extensão na qual os
itens propostos medem o mesmo construto sob investigação. Para mais detalhes, veja Dörnyei (2003).
21
por meio de procedimentos rigorosos; mas podem ocorrer casos em que se de-
senvolvem questionários com propósitos específicos em que não é possível rea-
lizar estudos de validação mais robustos. Neste último caso, recomenda-se que
ao menos se avalie a consistência interna do questionário, por meio do lculo
de coeficientes de correlação, a partir dos quais se escolhem os itens com índi-
ces de correlação mais alta, ou por meio de outros procedimentos estatísticos
mais sofisticados (DÖRNYEI, 2003).
5. Exemplos
É recorrente a criação de questionários próprios no desenvolvimento de
pesquisas na área de bilinguismo e aquisição de L2, resultando em uma multi-
plicidade de instrumentos que, apesar de apresentarem objetivos e pontos em
comum, destacam-se pela heterogeneidade. A discrepância entres esses instru-
mentos, fruto das diferentes orientações teóricas e das decisões tomadas na
operacionalização dos construtos, dificultam a replicação de estudos e a com-
paração entre os resultados de diferentes pesquisas (LI et al. 2006, 2014). Para
mitigar essas inconsistências e oferecer um instrumento padronizado para o
perfilamento de bilíngues e para o estudo de aspectos variados do bilinguismo,
alguns pesquisadores têm-se dedicado à elaboração e validação de questioná-
rios, por exemplo, o Language History Questionnaire (LHQ) (LI et al. 2006),
o Language Experience and Proficiency Questionnaire (LEAP-Q) (MARIAN et
al. 2007), o Questionário de Levantamento de Uso de Línguas (VALADARES,
2017), entre outros.
O LHQ (LI et al. 2006) foi construído com base nas perguntas mais recor-
rentes de 41 questionários e na análise desses instrumentos. O questionário, que
propõe um mapeamento do histórico linguístico em L2, apresenta três partes:
perguntas gerais de histórico linguístico, questões ligadas ao ambiente linguís-
tico e uso da língua e, por último, um espaço de customização que permite ao
pesquisador adicionar perguntas específicas para seu estudo. O instrumento pas-
sou por duas reformulações: o LHQ 2.0 (LI et al. 2014) e o LHQ36 (LI et al. 2019).
O LEAP-Q (MARIAN et al. 2007) é um questionário que permite a coleta
de histórico linguístico e de autodeclaração de proficiência nas diferentes lín-
guas dos respondentes. O instrumento estabelece o perfil de bilíngues a partir
do levantamento de dados autodeclarados que abrangem medidas gerais e es-
pecíficas em cada uma de suas línguas. Os dados descritivos viabilizados pelo
questionário tratam de aspectos relacionados a idade, imersão em contextos de
uso, estimativa de proficiência linguística em campos específicos, avaliação dos
contextos de uso na aquisição da língua, grau de imersão na língua e nível de
sotaque. Em posterior publicação, Kaushanskaya e colaboradores (2019) relatam
o emprego do LEAP-Q em estudos para diferentes fins, como também sua tra-
dução em diferentes idiomas7.
6 Esta última versão do questionárioestá disponível em: <https://blclab.org/lhq3/>.
7 O LEAP-Q está disponível em: <https://bilingualism.northwestern.edu/leapq/>.
22
O Bilingual Language Profile (BLP) (BIRDSONG et al. 2012; GERTKEN et
al. 2014) tem como objetivo a mensuração de dominância linguística8 a par-
tir de quatro dimensões desse construto: histórico-linguístico, uso da língua,
proficiência linguística e aspectos atitudinais. O instrumento9 foi pensado para
o uso em perfilamento de bilíngues provenientes de diferentes contextos e ex-
periências variadas, tendo como base perguntas usadas previamente na área
de estudo de dominância linguística e, também, em itens presentes em outros
questionários, como o LEAP-Q (MARIAN et al. 2007), o Bilingual Dominan-
ce Scale (BDS) (DUNN; FOX-TREE, 2009), e o Self-Report Classification Tool
(SRCT) (LIM et al. 2008).
O Questionário de Levantamento de Usos de Línguas (VALADARES, 2017)
foi desenvolvido no intuito de se constituir como uma métrica da dominân-
cia linguística, segundo o modelo de Grosjean (2018, 2016), tendo em mente
brasileiros usuários do inglês como L2. O questionário, com 32 itens, abarca
quatro dimensões: informações biográficas, uso das línguas inglesa e portu-
guesa em práticas de letramento, proficiência e histórico linguístico do inglês.
O instrumento, usado para a separação de usuários bilíngues segundo aspectos
específicos de dominância, também foi utilizado para estabelecer o impacto de
práticas de letramento (digital) em um marcador de amplitude lexical dos res-
pondentes da pesquisa.
Esses questionários são exemplos de esforços de pesquisadores que bus-
cam oferecer ferramentas confiáveis e de fácil acesso, com vistas a diminuir
as dificuldades de comparação entre grupos diferentes de bilíngues, ou mesmo
a comparação entre diferentes estudos. Os questionários citados acima foram
desenvolvidos para serem usados com diferentes grupos de bilíngues, como é
o caso do LEAP-Q, do BLP, entre outros, ou com falantes de pares linguísticos
específicos, como é o caso do Questionário de Levantamento de Usos de Lín-
guas voltado para bilíngues do par português-inglês.
Apresentamos também o exemplo de um questionário voltado para surdos
bilíngues do par Libras-português, contemplando assim o caso dos bilíngues
intermodais10. O Questionário Linguístico para Surdos Bilíngues (QLSB) (SILVA,
2018) foi desenvolvido com o objetivo de contribuir com as pesquisas na área
do bilinguismo dos surdos, especialmente no que diz respeito à descrição e ao
perfilamento desses bilíngues. É um instrumento por meio do qual se pretende
avaliar os perfis linguísticos de surdos brasileiros e os perfis de dominância
linguística, e contempla diferentes dimensões da experiência bilíngue, sendo
organizado a partir de 4 módulos (cf. GERTKEN et al. 2014): histórico linguísti-
co, uso das nguas em diferentes domínios, proficiência e atitudes linguísticas.
O QLSB é um questionário on-line, com itens apresentados em formato bilíngue
8 “No contexto do bilinguismo, dominância se refere às assimetrias observadas na habilidade
em uma língua em relação a outra ou no uso dessa língua em relação a outra” (BIRDSONG, 2014,
p.374).
9 O BLP está disponível: <https://sites.la.utexas.edu/bilingual/using-the-blp/access-testing-materials/>.
10 Os bilíngues intermodais ou bimodais são aqueles que usam duas línguas de modalidades
diferentes, uma língua de sinais e uma língua falada.
23
vídeos em Libras e português escrito e está disponível para uso por ou-
tros pesquisadores11.
Finalmente, descrevemos, a título de exemplificação, um estudo que utili-
zou um questionário linguístico como estratégia de perfilamento de seus par-
ticipantes. O estudo conduzido por Blumenfeld, Bobb e Marian (2016) teve o
objetivo de analisar o uso de dois tipos de tarefa de fluência verbal12 para a
avaliação de bilíngues. Conforme os autores explicam, tarefas de fluência ver-
bal são utilizadas no meio médico em baterias para diagnóstico de comprome-
timentos linguísticos e cognitivos. Porém, é preciso considerar, no caso dos
bilíngues, que seu desempenho nessas tarefas é afetado pelo nível de proficiên-
cia nas línguas, além de diferenças no processamento de palavras cognatas.
Considerando os fatores que influenciam o desempenho dos bilíngues conforme
a literatura na área, Blumenfeld, Bobb e Marian (2016) usaram o LEAP-Q para
dividir seus participantes em dois grupos: (i) falantes nativos do inglês sem
proficiência ou com proficiência limitada em espanhol como L2; (ii) participan-
tes com o inglês como língua dominante, mas que relataram alta proficiência
na L2. Os resultados indicaram que a tarefa é executada de forma diferenciada
conforme o nível de proficiência do bilíngue, sua experiência e características
das palavras produzidas (frequência e status como cognata). Com base nos re-
sultados, os autores recomendam o uso cuidadoso de ferramentas de fluência
verbal no diagnóstico de bilíngues, considerando a proficiência nas línguas e o
histórico linguístico dos participantes, bem como a necessidade de se testarem
as duas línguas e de se evitar a aplicação de normas baseadas em referências
monolíngues.
6. Vantagens e desvantagens
Conforme Dörnyei (2003), os questionários, depois dos testes de proficiên-
cia, são o recurso mais utilizado em pesquisas em L2 e oferecem inúmeras van-
tagens em seu uso, tais como: (i) a possibilidade de obter um montante signi-
ficativo de dados em pouco tempo e com custos baixos, demandando menos
esforço do pesquisador no processo de coleta; (ii) a versatilidade desse instru-
mento, podendo ser usado em diferentes tipos de pesquisa. Comparativamente
à realização de entrevistas, os questionários, se bem construídos, podem favo-
recer não só a coleta como também o processamento dos dados em termos de
tempo e esforço despendido. Na mesma trilha, no que se refere à praticidade,
Gertken et al. (2014) também apontam vários benefícios no emprego de ques-
tionários de autoavaliação: são respondidos de forma fácil e rápida, envolvem
interpretação, pontuação e cálculos estatísticos simples e podem ser aplicados
sem treinamento especializado e respondidos fora do ambiente da pesquisa. As
11 Ver o questionário no link: <https://goo.gl/forms/XzyTBwrPb9MqNLIN2>.
12 Em tarefas de f luência verbal, os participantes precisam nomear, num dado tempo, o máximo
de palavras possível. No estudo, utilizam-se a nomeação por categorias (nomear animais, por ex.) ou
por letras (palavras começadas com a letra “a”, por ex.).
24
consequências são agilidade e eficiência para o estudo e economia de trabalho
e tempo para o pesquisador.
Especificamente em relação às vantagens de questionários on-line, esses
proporcionam um acesso a um grande número de pessoas dispersas geografi-
camente. Wilson e Dewaele (2010), por exemplo, fazem uma revisão sobre as
vantagens e desvantagens do uso de questionários nas pesquisas em aquisição
de L2 e destacam como os questionários permitem que os pesquisadores di-
versifiquem, de algum modo, as amostras de participantes. Em muitos casos,
os estudantes das universidades onde são conduzidos os estudos acabam sendo
o principal grupo de participantes de muitas pesquisas, o que compromete a
generalização das descobertas; o uso de questionários on-line poderia ser uma
forma de contornar o problema, permitindo o acesso a diferentes grupos de
participantes (WILSON; DEWAELE, 2010). Outra vantagem dos questionários
on-line é a percepção dos respondentes de que a pesquisa é efetivamente anô-
nima, o que pode potencializar a honestidade nas respostas (DÖRNYEI, 2007
apud WILSON; DEWAELE, 2010).
No que tange às pesquisas no campo da Psicolinguística do Bilinguismo, o
uso de questionários permite o acesso a informações importantes para o deli-
neamento do perfil dos participantes, dada a diversidade de experiências bilín-
gues (GROSJEAN, 1998; DUNN; FOXTREE, 2009). Além disso, os questionários
oferecem a vantagem de acessar fatores subjetivos e não-linguísticos, como as-
pectos atitudinais, história linguística dos participantes, etc. (GROSJEAN, 1998;
GERTKEN et al. 2014; LIM et al. 2008, entre outros).
Porém, o fato de os respondentes geralmente estarem sozinhos no mo-
mento de responder aos questionários e não disporem de muito tempo para
fazê-lo traz algumas implicações e desvantagens: (i) as questões precisam ser
simples para que possam ser bem compreendidas, o que pode comprometer a
abordagem de aspectos mais aprofundados; (ii) os respondentes podem não
compreender as questões ou mesmo o se dedicarem o suficiente para res-
ponderem de forma mais cuidadosa, o que gera variação de um indivíduo para
outro; (iii) o uso de questionários parte do pressuposto de que os respondentes
têm boas habilidades de leitura e escrita, o que não necessariamente é a rea-
lidade, mesmo em países industrializados; (iv) a adesão a questionários pode
ser baixa devido a não se obter um benefício imediato com a participação e
também devido a constantes demandas de preenchimento desses instrumentos
(DÖRNYEI, 2003). Outro aspecto digno de menção é o viés do prestígio social,
que leva as pessoas a nem sempre fornecerem respostas verdadeiras devido a
vários motivos, sendo um deles a percepção de uma suposta resposta desejável
sobre alguns temas (DÖRNYEI, 2003).
No campo dos estudos do bilinguismo e de L2, há muitas críticas aos
questionários que demandam a autoavaliação da proficiência devido ao ques-
tionamento sobre a capacidade do bilíngue de avaliar suas habilidades nas lín-
guas. No entanto, vários pesquisadores, por meio da revisão de trabalhos an-
teriores e da validação de seus próprios questionários ( GERTKEN et al. 2014;
LIM et al. 2008; MARIAN et al. 2007, entre outros) têm argumentado a favor
25
da visão de que os bilíngues são aptos a avaliar suas habilidades linguísticas.
Kaushanskaya et al. (2019) enfatizam, para além de questões específicas da ca-
pacidade de autoavaliação do bilíngue de suas habilidades, que tanto medidas
de proficiência quanto de experiência estão presentes em qualquer protocolo de
estudo de bilíngues. Nesse sentido, é importante, sempre que possível, a com-
binação de métricas objetivas de performance na língua com os resultados obti-
dos em questionários, visto que o arranjo entre os instrumentos pode assegu-
rar a maior confiabilidade dos estudos.
No tocante aos questionários on-line, há uma discussão sobre o perfil de
respondentes que comumente aderem aos estudos, principalmente em relação
ao status socioeconômico: em geral, prevalecem perfis de pessoas com mais es-
colaridade, mais renda e com habilidades de uso de tecnologia e acesso a com-
putadores com internet. Outros dois pontos negativos, segundo Dörnyei (2007
apud WILSON; DEWAELE, 2010), são a autosselão dos participantes e o as-
pecto heterogêneo da amostragem. Wilson e Dewaele (2010) afirmam que, ape-
sar de haver implicações concernentes ao perfil da amostra de participantes,
isso não invalida o uso de questionários. Nesse caso, é importante que o pes-
quisador se conscientize das implicações desse perfil no que tange a seu obje-
to de estudo e discuta os resultados de suas pesquisas considerando que estes
se aplicam a um determinado perfil de participantes. Além disso, para sanar
a questão da amostragem em questionários on-line, podem-se explorar outras
estratégias como comparar resultados de estudos coletados via internet com re-
sultados de estudos com questionários aplicados presencialmente.
7. Referências bibliográficas
BABBIE, E. Métodos de Pesquisas de Survey. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1999.
BACHMAN, L. Fundamental considerations in language testing. Oxford: Oxford University
Press, 1990.
BIRDSONG, D. Dominance and Age in Bilingualism. Applied Linguistics, v. 35, n. 4, p. 374-392,
2014.
BIRDSONG, D.; GERTKEN, L.M.; AMENGUAL, M. Bilingual Language Profile: An Easy-to-Use
Instrument to Assess Bilingualism. COERLL, University of Texas at Austin. Web. 20 Jan. 2012.
<https://sites.la.utexas.edu/bilingual/>.
BLUMENFELD, H. K.; BOBB, S. C.; MARIAN, V. The role of language proficiency, cognate status
and word frequency in the assessment of Spanish-English bilinguals’ verbal fluency. Interna-
tional Journal of Speech-Language Pathology, 18, p. 190-201, 2016.
BROWN, J. D. Designing surveys for language programs. In: NUNAN, D.; GRIFFEE, D. (Eds.), Clas-
sroom teachers and classroom research. Tokyo: Japan Association for Language Teaching,
1997, Cap. 9, p. 109-121.
DÖRNYEI, Z. Questionnaires in second language research. Mahwah, NJ: Erlbaum, 2003.
DÖRNYEI, Z.; CSIZÉR, K; NÉMETH, N. Background Information and Theory. In: DÖRNYEI, Z.;
CSIZÉR; K; NÉMETH, N. Motivation, Language Attitudes and Globalization: A Hungarian
Perspective. Clevedon, England: Multilingual Matters, 2006, cap. 1, p.1-21.
DUNN, A. L.; FOX TREE, J. E. A quick, gradient Bilingual Dominance Scale. Bilingualism: Lan-
guage and Cognition. Vol. 12, n. 3, p. 273-289, 2009.
GERTKEN, L. M.; AMENGUAL, M.; BIRDSONG, D. Assessing language dominance with the bi-
lingual language profile. In: LECLERCQ, P.; EDMONDS, A.; HILTON, H. (org.). Measuring L2
26
Proficiency: Perspectives from Second Language Acquisition. Bristol, UK/Towanda, NY: Mul-
tilingual Matters, 2014, p.208-225.
GOLLAN, T. H.; WEISSBERGER, G. H; RUNNQVIST, E.; MONTOYA, R. I.; CERA, C. M. Self-ratings
of spoken language dominance: A Multilingual Naming Test (MINT) and preliminary norms
for young and aging Spanish-English bilinguals. Bilingualism: Language and Cognition, vol.
15, p. 594-615, 2012.
GROSJEAN, F. Studying bilinguals: methodological and conceptual issues. Bilingualism: Langua-
ge and Cognition, v.1, n. 2, p. 131-149, 1998.
GROSJEAN, F. The Complementarity Principle and its impact on processing, acquisition, and do-
minance. In: TREFFERS-DALLER, J.; SILVA CORVALAN, C. (Eds.). Language dominance in
bilinguals: Issues of measurement and operationalization. Cambridge: Cambridge University
Press, 2016. p. 66-84.
KAUSHANSKAYA, M; BLUMENFELD, H. K.; MARIAN, V. The Language Experience and Proficiency
Questionnaire (LEAP-Q): Ten years later. Bilingualism: Language and Cognition, vol. 23, n.
5, p. 1-6, 2019.
LI, P.; SEPANSKI, S.; ZHAO, X. Language history questionnaire: A web-based interface for bilin-
gual research. Behavior Research Methods, v. 38, p. 202-210, 2006.
LI, P.; ZHANG, F.; TSAI, E.; PULS, B.. Language history questionnaire (LHQ 2.0): A new dynamic
web-based research tool. Bilingualism, v. 17, n. 3, p. 673-680, 2014.
LI, P.; ZHANG, F.; YU, A.; ZHAO, X. Language History Questionnaire (LHQ3): An enhanced tool
for assessing multilingual experience. Bilingualism: Language and Cognition, v. 23, n. 5, p.
938-944, 2019.
LIM, V. P. C.; LIOW, S. J. R.; LINCOLN, M.; CHAN, Y. H; ONSLO, M. Determining language do-
minance in English-Mandarin bilinguals: Development of a self-report classification tool for
clinical use. Applied Psycholinguistics, 29, p. 389-412, 2008.
MARIAN, V.; BLUMENFELD, H.; KAUSSHANSKAYA, M. The Language Experience and Proficiency
Questionnaire (LEAP-Q): Assessing language profiles in bilinguals and multilinguals. Journal
of Speech, Language, and Hearing Research, vol. 50, n.4, p.940-967, 2007.
SILVA, G. M. Perfis Linguísticos de Surdos Bilíngues do Par Libras-Português. 2018. 216 f.
Tese (Doutorado em Estudos Linguísticos) — Faculdade de Letras da Universidade Federal de
Minas Gerais, Belo Horizonte, 2018.
URBINA, S. Fundamentos de Testagem Psicológica. Porto Alegre: Artmed, 2007.
VALADARES, M. G. P. de F. Padrões Emergentes de Dominância Linguística em Português e
Inglês: o impacto de práticas socioculturais de letramento (digital) na amplitude lexical de
brasileiros falantes de língua inglesa como L2. Tese (Doutorado em Estudos Linguísticos) —
Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2017.
WILSON, R.; DEWAELE, J. M. The use of web questionnaires in second language acquisition and
bilingualism research. Second Language Research, v. 26, n. 1, p. 103-123, 2010.
27
Julgamento de aceitabilidade:
um método de fácil acesso a dados
quantitativos
Thaís Maíra Machado de Sá (CE F E T- M G )
Larissa Ciríaco (UFMG)
Mahayana Godoy (UFRN)
1. O que é e como funciona o teste de julgamento de aceitabilidade?
o julgAmento sobre a língua e seus fenômenos sempre existiu como
metodologia na linguística, sendo o julgamento introspectivo dos próprios
pesquisadores um passo inicial importante para a formulação de hipóteses
(SCHULTZE, 1996, p. 2). Ao longo do tempo, teorias linguísticas inteiras fo-
ram construídas pelos pesquisadores a partir da introspecção e do uso das
ferramentas do pensamento analítico, como a observação, a manipulação de
ideias e dos dados da língua, passando pela abstração e se desencadeando na
formulação de generalizações. De fato, a introspecção é a metodologia aplicá-
vel às estruturas de formas e expressões linguísticas por excelência ( TALMY,
2007), pois é natural que o linguista, sendo falante nativo da língua que es-
tuda, se questione sobre a aceitabilidade ou não de um enunciado e construa
hipóteses a partir disso.
Contudo, apresentar um estímulo e perguntar a si mesmo sobre sua
validade acarreta uma análise um tanto quanto subjetiva dos dados, po-
dendo não ser suficiente para a análise e formulação de teorias linguísti-
cas ( SCHULTZE, 1996; GIBSON; FEDORENKO, 2010; GIBSON; PIANTADOSI;
FEDORENKO, 2012). Segundo Gibson e Fedorenko (2010), dados que não
apresentam uma natureza quantitativa, como os dados de introspecção, são
um problema metodológico que afeta as pesquisas em sintaxe e semântica
na linguística. Para os autores, usar o julgamento do próprio linguista so-
bre um item ou dois não seria construir uma hipótese científica, porque: (1)
muitas vezes, diferenças observadas entre 2 sentenças podem ser resultado
de propriedades lexicais e não de propriedades semânticas ou sintáticas mais
gerais; e (2) caso haja um viés cognitivo por parte do pesquisador, seus jul-
gamentos e os de seus colegas não são confiáveis. Além disso, intuições de
28
especialistas não são consideradoas dados em nenhum domínio científico e,
para os autores, a linguística deveria se adaptar a tal objetividade na coleta
e análise de dados.
Apesar de haver dados de introspecção que geram hipóteses observáveis
experimentalmente, Gibson, Piantadosi e Fedorenko (2012) afirmam que uma
maior avaliação de dados exige rigor. Uma análise quantitativa, com teorias
feitas a partir de inferências estatísticas, seria o caminho para a construção
de uma teoria com embasamento científico. Mais especificamente, os autores
defendem que experimentos quantitativos, como os apresentados ao longo
deste livro, (1) apresentam maior consistência de julgamentos entre vários
pares de julgamentos e (2) revelam quais efeitos podem causar diferenças de
julgamentos, o que ajuda a determinar se os dados são importantes para a
teoria.
Uma forma de se realizar julgamentos de fenômenos linguísticos de forma
experimental é utilizar o teste de julgamento de aceitabilidade. O teste de jul-
gamento de aceitabilidade é um método experimental com ampla aplicação em
estudos psicolinguísticos e linguísticos. Ele consiste em pedir que participantes
não familiarizados com o fenômeno investigado avaliem a estrutura de senten-
ças criadas pelos pesquisadores. Em Linguística e Psicolinguística, tal julga-
mento constitui a avaliação de sentenças, usualmente na modalidade escrita da
língua, que contenham o objeto de interesse da pesquisa.
O teste de julgamento de aceitabilidade se baseia na ação de julgar: uma
atividade humana cotidiana, que depende do processamento e da compreensão
do objeto a ser julgado por parte do participante. Um exemplo de atividade em
que a ação de julgar ocorre naturalmente é a leitura de textos escritos, pois ler
é um processo (KLEIMAN, 2016; 1998; KOCH; ELIAS, 2015) que se inicia com
a decodificação das letras organizadas em palavras, frases, parágrafos, e que se
encerra com uma avaliação, em que o leitor faz um julgamento do texto lido a
partir de sua interpretação do texto, de seu processamento, e de suas próprias
preconcepções. Assim, o processamento do texto e sua compreensão influen-
ciam diretamente na avaliação de seu leitor.
Da mesma maneira que na atividade de leitura, na tarefa de julgamento de
aceitabilidade, o participante recebe o estímulo a ser julgado e faz sua leitura,
compreendendo e processando o estímulo. Por fim, o participante atribui uma
nota ao estímulo, que é uma medida de sua avaliação. Como a nota dada pelo
participante é atribuída após o processamento cognitivo do estímulo, a tarefa é
considerada off-line, pois obtém sua medida de saída — a nota (variável outco-
me ou variável dependente) — após o processamento do estímulo julgado.
29
Figura 01: Exemplo de julgamento de aceitabilidade com escala Likert de 5 pontos simétrica no
Google Forms. (elaboração própria)
A avaliação dos estímulos preparados pelo pesquisador é motivada pela
pergunta “o quão natural/aceitável/gramatical é a sentença X?”, sendo X a sen-
tença a ser julgada e o adjetivo (natural, aceitável ou gramatical1) escolhido
pelo pesquisador. Entretanto, como ressaltam Oliveira e Sá (2013), é importan-
te notar que, mesmo que haja trabalhos que utilizem os termos “julgamento de
gramaticalidade” e “julgamento de aceitabilidade” como sinônimos e que haja
a possibilidade de se utilizar o adjetivo “gramatical” no enunciado da tarefa, os
processos de aceitabilidade e gramaticalidade são distintos. A tarefa descrita
neste capítulo mede a percepção que o indivíduo tem em relação a um item
independentemente de qualquer construto teórico, ou seja, é um julgamento de
aceitabilidade. A gramaticalidade de uma construção (SORACE, 2010; MYERS,
2009), por sua vez, seria uma característica inerente à mesma e independente
do indivíduo.
Portanto, compartilha-se a visão de Oliveira e Sá (2013, p. 7), segundo a
qual:
(...) os dados de um julgamento de aceitabilidade são relatos referentes às sen-
sações dos participantes frente às construções em questão. Além disso, uma
construção é julgada como aceitável ou não aceitável não apenas de acordo com
sua gramaticalidade, mas também de acordo com seu custo de processamento, o
seu significado e, entre outros, o contexto onde está inserida. Portanto, o termo
1 Apesar de ser possível utilizar a palavra gramatical, tal adjetivo não é recomendado, por sua
pluralidade de sentidos. Ao perguntarmos a um participante se aquela sentença é gramatical, ele
pode acreditar, por exemplo, que deva dizer se aquela sentença é aceita pela gramática normativa da
língua, que nem sempre inclui todas as sentenças existentes e aceitáveis na língua.
30
julgamento de aceitabilidade parece ser o mais apropriado para se referir a estu-
dos que abordam a gramática de um indivíduo, enquanto o termo julgamento de
gramaticalidade poderia ser utilizado para se estudar o conhecimento das pessoas
em relação à gramática (nesse caso, à gramática normativa) de uma língua.
Dessa forma, o julgamento de aceitabilidade é uma tarefa que consiste
no julgamento de sentenças por participantes a partir de sua percepção sobre
aquela sentença ser ou não aceitável na língua estudada. Mais sobre o paradig-
ma experimental é explorado na próxima seção.
2. O paradigma
Nas tarefas de julgamento de aceitabilidade, um cuidado metodológico
importante é a aleatorização de todos os estímulos que serão apresentados na
tarefa, pois a ordem de apresentação das sentenças pode afetar os resultados
(SCHUTZE, 1996). As sentenças que serão apresentadas como estímulos para
os participantes devem ser divididas em pelo menos dois grupos: as sentenças
experimentais e as sentenças controle. As experimentais apresentam a condi-
ção manipulada pelo experimentador e são aquelas que o pesquisador pretende
investigar. Já as sentenças de controle são aquelas para as quais não há dúvidas
de que são aceitas na língua. Elas são semelhantes às sentenças experimentais,
tendo como diferença somente a construção ou a propriedade linguística que
o experimentador quer investigar. As sentenças experimentais e as sentenças
de controle são essenciais na tarefa para que haja uma comparação das notas
e se possa avaliar se a sentença manipulada é ou não realmente aceita pelos
participantes.
Além desses dois grupos de sentenças, há ainda a possibilidade de o teste
conter sentenças distratoras, que têm como intuito tirar o foco das sentenças
experimentais e de controle, fazendo com que o participante não perceba qual
construção ou propriedade linguística está sendo investigada2. A inclusão de
sentenças distratoras pode ser importante, de acordo com o fenômeno a ser in-
vestigado. Quando incluídas, é importante haver um balanceamento entre as
sentenças totalmente aceitáveis (em tese) e aquelas totalmente (ou quase total-
mente) inaceitáveis. Isso garante valores de avaliação diversos no mesmo tes-
te e, portanto, evita efeitos de treinamento no participante e mantém, conse-
quentemente, um nível de atenção alto na tarefa.
A instrução do teste deve ser dada de forma clara para os participantes,
sendo recomendada uma fase de treinamento antes que avaliem as sentenças
experimentais e de controle. Como afirmamos, a instrução usual é próxima ao
2 Manter os participantes ingênuos em relação ao fenômeno investigado pode ser um fator cru-
cial, dependendo da avaliação esperada. Em um estudo experimental, Souza et al. (2015) afirmam
que há um efeito de saturação produzido por uma exposição extensiva de um tipo de construção
gramatical em um julgamento de aceitabilidade, em que os participantes ficam menos sensíveis ao
fenômeno, afetando a avaliação das sentenças.
31
enunciado “O quão natural/aceitável/gramatical é a sentença X?”, e é comum
que ela seja dada somente no início do experimento. Para obter a avaliação, é
importante que a escala do experimento contenha valores que sejam intuitivos
para os participantes, que eles consigam associar a nota escolhida à proprieda-
de daquela sentença ser ou não aceitável na língua estudada.
Um dos pontos principais do julgamento de aceitabilidade é a escolha da
escala, que é utilizada para medir o julgamento a ser realizado pelos partici-
pantes. As escalas visam transformar observações individuais subjetivas em
uma realidade objetiva, ou seja, a escala é o instrumento utilizado para quan-
tificar percepções qualitativas dos juízes. Por exemplo, podemos utilizar uma
escala para os participantes dizerem se a sentença é “muito natural à língua”
ou “não é natural à língua” por meio de notas que variam de 01 (não é natural
à língua) a 05 (muito natural à língua). As escalas são construtos desenvolvidos
por meio de técnicas psicométricas para que haja um refinamento na associa-
ção entre a nota atribuída pelo juiz e sua observação qualitativa em relação à
sentença julgada e podem ter diferentes formatos, sendo as mais utilizadas no
teste de julgamento de aceitabilidade a escala Likert e a escala com estimativa
de magnitude.
A escala Likert é uma das escalas mais utilizadas em variadas ferramen-
tas psicométricas, tanto em pesquisas educacionais, quanto em pesquisas de
ciências sociais. A escala Likert (LIKERT, 1932) foi desenvolvida em 1932 com
o intuito de se medir, de forma válida e cientificamente aceita, e quantificar a
“atitude, que seria o comportamento, ou a reação de um participante em uma
circunstância específica. Em experimentos psicolinguísticos, podem ser utiliza-
das não apenas em tarefas de julgamento de aceitabilidade de sentenças. San-
tos, Ciríaco e Souza (2019) e Santos, Souza e Ciríaco (2019) discutem diferentes
resultados de um experimento de compreensão em que a escala Likert foi uti-
lizada como medida da aceitabilidade da interpretação de um contexto contida
em uma sentença alvo.
As escalas Likert podem ser simétricas ou assimétricas — as primeiras são
aquelas que contêm a avaliação neutra no meio da escala, tendo a mesma quan-
tidade de valores entre esse ponto médio e ambos os extremos (JOSHI et al.
2015). As escalas simétricas são as mais utilizadas em julgamentos de aceita-
bilidade por trazerem independência para os participantes escolherem qualquer
resposta de forma balanceada em ambas as direções (FIGURA 01). As escalas
assimétricas (FIGURA 02), que contêm uma quantidade diferente de opções en-
tre a média e os extremos, retiram a percepção de neutralidade do julgamento,
sendo muitas vezes utilizadas em experimentos de escolha forçada3.
3 Mais informações sobre escolha forçada podem ser encontradas no capítulo “Escolha forçada e
medidas neuroelétricas na pesquisa experimental em fonética”, de Leite; Lucente e Silva, neste livro.
32
Figura 01: Exemplo de julgamento de aceitabilidade com escala Likert de 5 pontos simétrica no
Google Forms. (elaboração própria)
Figura 02: Exemplo de julgamento de aceitabilidade com escala Likert de 6 pontos assimétrica no
Google Forms. (elaboração própria)
O número de pontos na escala também pode variar, sendo a escala de 5
pontos, a mais comum em pesquisas de ciências sociais, e escalas de 7 e 10
pontos. Segundo Joshi et al. (2015), desde a criação da escala Likert, em 1932,
discute-se se podem ser usados mais de 5 pontos na escala sem detrimento da
validade interna do instrumento e sua confiabilidade, sendo essas propriedades
33
sempre ligadas ao objeto de pesquisa. Mais recentemente, alguns estudos têm
enfatizado a importância de se adotar escalas simétricas maiores do que a de
5 pontos. Uma das razões se deve à necessidade de se evitar que os participan-
tes fixem-se na nota 3, como costuma ocorrer com uma escala de 5 pontos.
Uma escala de 7 pontos tem sido preferível (JOSHI et al. 2015; YOON, 2016)
por fornecer mais pontos médios de avaliação (3-5) e consequentemente for-
çar a manutenção de atenção do participante — ao ter mais notas médias para
julgar, o participante precisará se concentrar mais na tarefa, ao invés de poder
recorrer a uma única nota média como solução rápida. Outro motivo para se
adotar uma escala de 7 pontos é teórico-hipotético: como muitos trabalhos ex-
perimentais partem de uma perspectiva baseada no uso e, portanto, assumem
como hipótese que as unidades linguísticas e todos os fenômenos relativos a
elas organizam-se gradualmente na cognição do falante, é importante que a
escala de julgamento possa capturar essa gradualidade ao máximo. Portanto,
a adoção de mais pontos pode, também, servir para informar o quão relevante
cognitivamente é a escala utilizada.
As escalas Likert apresentam pontos que oferecem uma medida de nível
de ordem4, pois, ao avaliar uma sentença como 3 em uma escala de 7 pontos
(em que 1 é não natural à língua e 7 é natural à língua), o participante ava-
lia aquela sentença como uma sentença melhor do que o ponto 2 e pior que o
ponto 4, por exemplo. Contudo, não podemos afirmar que a sentença de nota 4
seja duas vezes melhor do que a de nota 2. Apesar de medidas ordinais serem
suficientes para inferências estatísticas, na tentativa de criar uma escala para
julgamento de aceitabilidade que forneça uma medida que tenha um nível além
do ordinal, Bard et al. (1996) apresentaram e validaram a escala com estimativa
de magnitude, inicialmente desenvolvida por psicofísicos (STEVENS, 1956) para
estimar brilho ou barulho.
Em um julgamento com estimativa de magnitude, um estímulo padrão é
apresentado ao participante que deve julgá-lo atribuindo uma nota ou uma li-
nha (a depender de como a escala nomeia e representa seus valores). Os outros
estímulos são apresentados em seguida e o participante deve fazer sua avalia-
ção baseada em comparação, sempre expressando uma relação, proporção ou
diferença entre os estímulos. O efeito que a mudança na escala acarreta fica
claro para medidas metafísicas; imaginemos que o participante recebe uma luz
como estímulo e a ela atribui a nota 30. Em seguida, o estímulo é uma luz três
vezes mais forte, à qual ele atribui a nota 90. Ao receber o terceiro estímulo,
ele percebe que a força da luz está entre os dois estímulos anteriores, atribuin-
do, assim, a nota 60. Dessa forma, há uma comparação explícita na tarefa entre
os estímulos, o que traria uma sensibilidade maior aos julgamentos dos partici-
pantes e suas percepções em relação aos estímulos (BARD et al., 1996).
4 Mais informações sobre medida e níveis de medida estão disponíveis no capítulo introdutório
deste volume, denominado “Métodos experimentais em psicolinguística: uma introdução”, de Sá e
Oliveira.
34
Segundo Bard et al. (1996), mesmo com diferenças qualitativas entre os
julgamentos de fenômenos psicofísicos e de fenômenos linguísticos, em que se
prevê com julgamento de sentenças, por exemplo, que uma sentença é pior do
que outra, mas não o quão pior, a escala de estimativa de magnitude funcio-
na para intuições linguísticas. Além de demonstrarem que a técnica é de -
cil aplicação tanto para participantes ingênuos, quanto para participantes que
têm experiência em julgamentos de aceitabilidade, os autores demonstram que
a escala permite revelar diferenças linguísticas com robustez estatística. Com
relação às vantagens da escala com estimativa de magnitude em relação à es-
cala Likert, os autores apontam três como principais: (1) não uma restrição
de valores que podem ser usados para medir o julgamento dos participantes,
eles podem combinar os julgamentos de forma livre, decidindo se os estímulos
devem receber notas iguais ou diferentes; (2) como a escala seria da ordem de
razão, seria possível fazer análises que assumem um nível intervalar entre os
dados, permitindo que análises de subtração (e de média e de variância) entre
a notas atribuídas a um estímulo e outro, produzindo diferenças numéricas que
podem refletir diferenças na aceitabilidade dos participantes, e, consequente-
mente no processamento dos fenômenos linguísticos; (3) o caráter objetivo da
escala, que permite que impressões sejam observadas em uma escala numérica.
Por ser feita a partir de comparação, a ordem dos estímulos pode acabar
acarretando erros de medida em um julgamento com estimativa de magnitu-
de. Alguns pesquisadores optam por iniciar o julgamento com um estímulo que
receberá valores intermediários para a avaliação como uma forma de contro-
le, já outros optam pela aleatorização dos estímulos, em que cada participante
receberia uma ordem diferente dos itens a serem julgados. Outra opção que o
pesquisador tem é se deixará visível a avaliação dos estímulos anteriores, ou de
um estímulo padrão, ao longo de todo o experimento. Tal exposição facilitaria
a execução da tarefa pelo participante (OLIVEIRA; SÁ, 2013; SORACE, 2010).
Há ainda a possibilidade do julgamento de aceitabilidade, com escala Li-
kert ou com escala com estimativa de magnitude, ser temporalizado, em que se
determina um tempo para que os participantes realizem o julgamento. A tem-
poralização da tarefa é uma manipulação que pode interferir nas estratégias e
nos mecanismos de processamento do juiz das sentenças (ELLIS, 2005; JIANG,
2012; GUTIÉRREZ, 2013). Temporalizar a tarefa implicaria um julgamento de
aceitabilidade, segundo Souza et al. (2015, p. 220), que apresentaria “a ativação
de conhecimento implícito e rotinas de ativação de representações linguísti-
cas automatizadas, contrariamente ao julgamento de aceitabilidade não tem-
poralizado, que melhor reflete conhecimento explícito e reflexão metalinguís-
tica”. Souza et al. (2015) exploraram a definição de tetos temporais mínimos
para julgamentos de aceitabilidade para falantes nativos das línguas dos estí-
mulos, utilizando uma escala Likert de 5 pontos. Os autores indicam que efei-
tos de gramaticalidade são detectáveis com janelas de 04 segundos para cada
sentença.
Ainda sobre o julgamento temporalizado, Oliveira e Penzin (2019) conduzi-
ram dois testes de julgamento de aceitabilidade acerca da hipótese da evidência
35
negativa (OLIVEIRA, 2016, apud OLIVEIRA; PENZIN, 2019). Os autores realiza-
ram um teste temporalizado e outro em que a leitura foi feita com o paradigma
de moving window, muito utilizado em experimentos de leitura autocadencia-
da (ou automonitorada)5. Ao comparar os resultados dos dois testes, os autores
perceberam que os julgamentos foram idênticos, sugerindo que um julgamento
com uma leitura apresentada por moving window pode ser equivalente a um jul-
gamento de aceitabilidade com leitura temporalizada. Exemplos de pesquisas
que se utilizam do teste do julgamento de aceitabilidade são apresentados na
seção 3 a seguir.
3. Exemplos
Muito utilizada em psicolinguística, cada vez mais utilizada como base de
dados para teorização e descrição linguística, não faltam exemplos de estudos
que têm o julgamento de aceitabilidade como tarefa principal.
Um exemplo de julgamento temporalizado com escala Likert desenvolvido
por um grupo de pesquisadores mineiros é o já referido trabalho de Souza et
al. (2015). Os autores, em uma exploração de um teto temporal mínimo para a
execução da tarefa por falantes nativos da língua dos estímulos e do impacto
do recrutamento de amostras por conveniência, conduziram dois experimentos
em contexto monolíngue com uma escala Likert de 5 pontos, em que o ponto 1
representava a percepção completa de inaceitabilidade e o ponto 5 a completa
aceitabilidade. No primeiro, o material era composto de 56 sentenças, sendo
que 16 continham violações gramaticais conhecidas da ngua inglesa que fo-
ram julgadas por 16 falantes nativos monolíngues do inglês. Os autores explo-
raram o tempo de reação para a emissão de julgamentos para cada sentença
com que avaliaram sentenças em sua língua nativa e estimaram uma janela de
4 segundos para a emissão de julgamento de aceitabilidade de cada sentença
por um falante nativo adulto com nível instrucional posterior à conclusão da
educação básica, em sua língua materna.
No experimento dois, os autores utilizaram 60 sentenças do português, 21
com violações conhecidas da gramática da língua, que foram julgadas com uma
janela temporal de 4 segundos por 48 falantes nativos do português brasileiro,
sendo 24 formados em Letras e Linguística e 24 formados em áreas diferentes
de Letras e Linguística. Os autores observaram que a percepção de aceitabili-
dade não foi influenciada pela formação dos participantes, que demonstraram
equivalente capacidade de emitir julgamentos coerentes com expectativas ad-
vindas da teoria linguística na tarefa temporalizada.
Um outro interessante exemplo do uso do julgamento de aceitabilida-
de para teorização de fenômenos linguísticos são os estudos conduzidos pelo
pesquisador mineiro Cândido Oliveira que visam investigar as construções
5 Para mais informações sobre leitura autocadenciada, ou automonitorada, leia o capítulo “Lei-
tura Autocadenciada (com e sem labirinto): histórico e reflexões metodológicas”, de Oliveira; Mar-
cilese e Leitão neste livro.
36
resultativas do inglês por bilíngues do português do Brasil e do inglês. Desta-
camos aqui a publicação de Souza e Oliveira (2014), em que os autores roda-
ram dois experimentos de julgamento de aceitabilidade que visavam avaliar a
construção da resultativa, sendo que o primeiro utilizou uma escala Likert de
7 pontos, enquanto o segundo utilizou uma escala com estimativa de magni-
tude. Além de trazer achados mais explorados em Oliveira (2016), de que mo-
nolíngues e bilíngues não diferem significativamente em seus julgamentos da
construção resultativa, Souza e Oliveira (2014) também demonstraram que não
há diferenças significativas entre os dados encontrados no julgamento com es-
cala Likert e com escala de estimativa de magnitude. Tais dados demonstram
o potencial psicométrico da tarefa de julgamento de aceitabilidade de ambas as
escalas para explorar o conhecimento linguístico implícito dos falantes.
A seção 4, a seguir, apresenta as vantagens e desvantagens da utilização
do teste de julgamento de aceitabilidade.
4. Vantagens e desvantagens
Para alguns linguistas, a principal desvantagem do julgamento de aceita-
bilidade é o fato de que ele dependeria de um julgamento gramatical explícito
sobre a língua (BRANIGAN; PICKERING, 2017), pois mesmo utilizando distra-
tores para que os participantes não percebam o fenômeno linguístico estudado,
a tarefa consiste em explicitamente avaliar se os estímulos são ou não aceitá-
veis na língua-alvo, e tal julgamento seria realizado após o processamento do
estímulo. Tal desvantagem retoma uma discussão sobre a relação entre a repre-
sentação linguística e o processamento linguístico. Como defendemos no início
deste capítulo, a gramaticalidade de uma construção seria inerente à mesma.
Contudo, conforme Branigan e Pickering (2017) explicitam, diferentes visões
sobre a relação entre a representação linguística e o processamento linguístico.
Para pesquisadores que acreditam que a gramática não é diretamente usada no
processamento ou que acreditam que essa questão ainda está em aberto, os da-
dos de julgamento de aceitabilidade podem não refletir a representação interna
dos falantes.
Assim como todo método experimental está propenso a erros (PASQUALI,
2011), a tarefa de julgamento de aceitabilidade também pode apresentar erros
em seus dados, sendo a escolha da escala um elemento que pode influenciar o
teste. Há uma grande controvérsia sobre quantos pontos devem ser colocados
na escala (LIKERT, 1932; JOSHI et al. 2015), como já abordamos na seção de
paradigmas. A escolha de uma escala com medidas que não tenham sido va-
lidadas pode acarretar um erro de instrumento de observação. Além disso, na
escala Likert, os dados são obtidos por uma medida ordinal, o que, segundo
Bard et al. (1996), é uma desvantagem para a análise estatística de seus dados
e, consequentemente, para as inferências obtidas.
Na escala com estimativa de magnitude, uma grande desvantagem é que é
comum que a tarefa seja extensa, por ter uma sessão de treinamento extensa,
essencial para que os participantes ganhem um certo nível de habilidade para
37
comparar os estímulos e que haja uma homogeneidade em tal quesito (OLIVEI-
RA; SÁ, 2013; BARD et al. 1996).
A grande vantagem do julgamento de aceitabilidade é o fácil acesso a da-
dos quantitativos sobre o fenômeno investigado. Com relação a outros testes
on-line e off-line, o julgamento de aceitabilidade tem fácil planejamento, em que
a própria construção investigada é apresentada ao participante. Além disso, o
teste é de fácil programação, com amplo número de softwares que permitem
sua aplicação em laboratório, como o Psychopy6, o E-Prime7, o DMDX8, e plata-
formas que permitem sua aplicação remota, como o Google Forms9, o PCIbex10,
o Jotform11, entre outras. Além disso, como apresentado na introdução, julgar é
uma tarefa intuitiva.
Por fim, testes de aceitabilidade podem contornar algumas limitações de
outros métodos quantitativos, como estudos em corpora12. Segundo Schultze
(1996, p. 2), pelo menos três13 motivos para se usar o julgamento de aceita-
bilidade como forma de se entender como as pessoas compreendem e produzem
a linguagem, ao invés de somente se observar dados de corpora. O primeiro é
que o julgamento nos permite observar a reação das pessoas em relação a sen-
tenças que são raras em corpora, em fala espontânea. Visto que nem sempre o
fenômeno linguístico que queremos observar é frequente no dia a dia, mas po-
demos observar como as pessoas se sentem em relação ao fenômeno, como elas
avaliam sua pertinência na língua analisada. O segundo motivo é conseguir
observar formas que não existem na língua, que não fazem parte e não serão
encontrados em usos reais do idioma, ou seja, dados negativos da língua, que
também são importantes para a concretização de teorias linguísticas. O ter-
ceiro motivo apontado pelo autor é que quando observamos um fenômeno em
uma análise de corpus, o dado pode ser um erro do produtor, ou fazer parte
de um enunciado incompleto, não fazendo parte de uma produção linguística
aceitável pelos falantes em geral.
6 Disponível em: https://www.psychopy.org/.
7 Mais informações em: https://bit.ly/3TR2bVW.
8 Disponível em: http://www.u.arizona.edu/~kforster/dmdx/dmdx.htm.
9 Mais informações em: https://www.google.com/forms/about/.
10 Disponível em: https://farm.pcibex.net/.
11 Mais informações em: https://www.jotform.com/.
12 Para mais sobre linguística de corpora, ler Sardinha (2000).
13 O autor apresenta uma quarta razão que, segundo Schultze (1996, p. 2), pré-supõe uma vi-
são particular da competência gramatical como cognitivamente separada de outras facetas do co-
nhecimento e uso da linguagem e, portanto, sua validade depende em sua posição teórica sobre esta
questão”. Apresentamos as três primeiras, que segundo o autor seriam teoricamente neutras, com
um intuito de demonstrar as vantagens do teste de acordo com objetivo deste capítulo, que é apre-
sentar o panorama de um teste que pode ser amplamente utilizado em diversas áreas da linguística.
38
5. Considerações finais
Este capítulo apresentou o teste de julgamento de aceitabilidade, elucidan-
do o parâmetro experimental, dando exemplos de sua aplicabilidade e explo-
rando suas vantagens e desvantagens de aplicação. Embora existam desvan-
tagens, realçamos que a técnica tem funcionado de maneira elucidativa para
diversos fenômenos linguísticos e, portanto, suas vantagens de utilização pare-
cem ser maiores.
6. Referências bibliográficas
BARD, E. G.; ROBERTSON, D.; SORACE, A. Magnitude estimation of linguistic acceptability. Lan-
guage, 72, p. 32-68. 1996.
BRANIGAN, H. P.; PICKERING, M. J. An experimental approach to linguistic representation.
Behavioral and Brain Sciences. p. 1-61. 2017.
ELLIS, R. Measuring Explicit and Implicit Knowledge of a Second Language — A Psychometric
Study. Studies in Second Language Acquisition, v. 27, p. 141-172, 2005.
FERREIRA, F. Psycholinguistics, Formal Grammars, and Cognitive Science. The Linguistic Re-
view, v. 22, p. 365-380, 2005.
GIBSON, E.; FEDORENKO, E. Weak quantitative standards in linguistics research. Trends in
Cognitive Sciences, v. 14, p. 233-234, 2010.
GIBSON, E.; PIANTADOSI, S. T.; FEDORENKO, E. Quantitative methods in syntax/semantics re-
search: A response to sprouse and almeida (2012). Language and Cognitive Processes, p.
1-12, 2012.
GUTIÉRREZ, X. The Construct Validity of Grammaticality Judgment Tests as Measures of Implicit
and Explicit Knowledge. Studies in Second Language Acquisition, v. 35, p. 423-449, 201.
JIANG, N. Conducting Reaction Time Research in Second Language Studies. New York:
Routledge, 2012.
JOSHI, A.; KALE, S.; CHANDEL, S.; PAL, D. K. Likert Scale: Explored and Explained. British Jour-
nal of Applied Science & Technology 7(4): 396-403, 2015. Article no.BJAST.2015.157
KATZ, J. J. Language and other abstract objects. Blackwell. 1981.
KLEIMAN, A. Oficina de leitura: teoria e prática. Campinas: Pontes, 1998.
KLEIMAN, A. Texto e leitor: Aspectos cognitivos da leitura. Campinas: Pontes Editores, 2016.
KOCH, I. V.; ELIAS, V. M. Ler e compreender: os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2015.
LANGENDOEN, D. T.; POSTAL, P. M. (1984) The vastness of natural languages. Oxford: Basil
Blackwell.
LIKERT, R. A technique for the measurements of attitudes. Archives of psychology. 1932;
140(22):5-55.
MYERS, J. Syntactic Judgment Experiments. Language and Linguistics Compass. v. 3. doi: ht-
tps://doi.org/10.1111/j.1749-818X.2008.00113.x. 2009.
OLIVEIRA, C.; PENZIN, A. The negative evidence hypothesis: the acquisition of the double object
construction by brazilian-portuguese english bilinguals. Ilha do Desterro. v. 72 n. 3. Psycho-
linguistics: implications for the classroom. 2019.
OLIVEIRA, C. Processing, representation and learnability of the resultative construction by
brazilian portuguese-english bilinguals. Tese de doutorado. Belo Horizonte: UFMG, 2016.
OLIVEIRA, C.; SÁ, T. M. M. de. Métodos off-line em psicolinguística: julgamento de aceitabilida-
de. ReVeLe. no 5. 2013.
SARDINHA, T. B. Linguística de Corpus: Histórico e Problemática. DELTA: Documentação de Es-
tudos em Lingüística Teórica e Aplicada. v.16. no.2 São Paulo, 2000.
SANTOS, C.; SOUZA, R.; CIRÍACO, L. When Knowing a Grammar Rule Makes L2 Users Non-
-Native-Like. Ilha do Desterro v. 72, no 3, p. 359-374, Florianópolis, set/dez, 2019.
39
SANTOS, C.; CIRÍACO, L.; SOUZA, R. The Caused-Action Construction in Brazilian Portugue-
se (BrP) and Its Effects on the Comprehension and Production of BrP-English Bilingual
Speakers. Diacrítica, Vol. 33, n.º 2, 2019, 216-228. 2019.
SCHULTZE, C. The empirical base of linguistics: Grammaticality judgments and linguistic me-
thodology. Chicago, IL: University of Chicago Press, 1996.
SORACE, A. Using Magnitude Estimation in developmental linguistics research. In: BLOM, E.;
UNSWORTH, S. (orgs.). Experimental Methods in Language Acquisition Research. Ams-
terdam/Philadelphia: John Benjamins, 2010. p. 57-72.
SOUZA, R.; OLIVEIRA, C.; SOARES-SILVA, J.; PENZIN, A.; SANTOS, A. A. Estudo sobre um pa-
râmetro de tarefa e um parâmetro amostral para experimentos com julgamentos de aceita-
bilidade temporalizados. Revista de Estudos da Linguagem, Belo Horizonte, v. 23, n.1, p.
211-244, 2015.
SOUZA, R.; OLIVEIRA, C. The learnability of the resultative construction in english l2: a compa-
rative study of two forms of the acceptability judgment task. Revista da ABRALIN, v. 13, n.2,
p. 375-410, jul./dez. 2014.
STEVENS, S. The direct estimation of sensory magnitudes-loudness. American Journal of
Psychology 69.1-25. 1956
TALMY, L. Foreword. In: GONZÁLEZ-MÁRQUEZ, M. et al. eds. 2007. Methods in cognitive lin-
guistics. Amsterdam: John Benjamins. 2007.
YOON, S. Gradable nature of semantic compatibility and coercion: A usage-based approach. Lin-
guistic Research, 33, n 1, 95-134, 2016.
40
Leitura Autocadenciada
(com e sem labirinto):
histórico e reflexões metodológicas
Cândido Samuel Fonseca de Oliveira (CEFET-MG/UFMG)
Mercedes Marcilese (UFJF/NEALP)
Márcio Martins Leitão (UFPB/CNPq)
1. Introdução
sem sombrA de dúvidA, a leitura autocadenciada1 ou automonitorada
(LA) (Self-Paced Reading em inglês) é uma das técnicas experimentais mais uti-
lizadas nos estudos psicolinguísticos e isso pode ser explicado por vários mo-
tivos. Primeiro, por ter sido uma das pioneiras técnicas on-line2 utilizadas para
testar fenômenos envolvidos no processamento linguístico, sendo que os pri-
meiros dados na literatura são da década de 70 do século passado (AARON-
SON; SCARBOROUGH, 1976). Segundo, porque é uma das técnicas de melhor
custo-benefício para a investigação sobre o processamento linguístico on-line
(MITCHELL, 2004), já que apenas com um computador e um software, em sua
maioria gratuitos, já se pode fazer uma pesquisa com aferição em milésimos de
segundo durante a leitura. No entanto, talvez o que a faça tão usada, mais do
que esses dois primeiros motivos, é a sua eficiência, pois temos diversos estu-
dos nesses mais de 40 anos de uso da técnica que comprovam essa afirmação,
além de muitos estudos em que se utilizam técnicas mais complexas, sensíveis
e precisas, tais como o rastreamento ocular e o EEG, que reiteram e reforçam
os resultados obtidos com os experimentos de LA ( LEITÃO et al. 2012; LEI-
TÃO et al. 2014). Essas vantagens fizeram da LA um dos métodos psicolinguís-
ticos mais utilizados também no Brasil, sendo Maia (1996) um dos primeiros
trabalhos, seguido de vários outros (CORRÊA, 2001; LEITÃO, 2005; MAIA et
1 A expressão Self-Paced Reading tem sido traduzida em português como leitura automonitora-
da, leitura autocadenciada e leitura autocontrolada. Aqui utilizaremos o nome leitura autocadencia-
da, por entendermos que este termo se aproxima mais do termo original em língua inglesa.
2 Entendemos por on-line os métodos que fornecem dados relativos ao tempo de reação dos par-
ticipantes durante a realização de uma determinada tarefa como indicativos do curso temporal dos
processos cognitivos envolvidos.
41
al. 2007; LEITÃO et al. 2008; LEITÃO, 2010; SIMÕES, 2011; SOUZA, 2012; OLI-
VEIRA et al. 2012; FARIAS et al. 2012, VASCONCELOS; LEITÃO, 2012; BEZER-
RA; LEITÃO, 2013; LACERDA et al. 2014; LEITÃO et al. 2014; MAIA; LIMA,
2014; MARCILESE; RODRIGUES, 2014; CABRAL et al. 2015; GADELHA; LEI-
TÃO, 2015; BEZERRA; LEITÃO, 2017; GODOY et al. 2018; GONDIN et al. 2020;
FONSECA, 2020; SIMÕES et al. 2021; FERREIRA; FERRARI-NETO, 2021). Após
destacar esses pontos fundamentais relativos à expressividade e eficiência da
técnica, vamos entender como essa funciona e quais os seus princípios básicos.
2. O que é e como funciona a técnica de leitura cadenciada
Desde os primeiros estudos empregando a técnica, como o de Aaronson e
Scarborough (1976), verificou-se que era possível medir a leitura de uma frase,
dividindo-a em pedaços menores e fazendo o leitor cadenciar sua própria leitu-
ra à medida que os segmentos da frase aparecem na tela do computador. Esses
segmentos são lidos apertando-se um botão ou uma tecla e assim o tempo de
leitura é aferido em milésimos de segundos para cada segmento. Os segmentos
podem ser palavras, então temos a leitura palavra por palavra, ou podem ser
sintagmas e aí temos a leitura sintagma por sintagma. Como será percebido ao
longo do texto, a segmentação das sentenças adotada em um estudo é repre-
sentada através de barras (ex: Maria/ estuda/ francês.) em artigos científicos e
textos similares. Em boa parte dos estudos que mencionaremos, os segmentos
aparecem e logo que são lidos desaparecem, dando lugar ao segmento posterior
e assim por diante até o final da leitura da frase. Desse modo, afere-se o tempo
de leitura de determinados segmentos relacionados a condições experimentais
distintas e a partir de uma comparação, via cálculo estatístico, consegue-se ob-
servar se há ou não diferença no tempo de leitura desses segmentos. Se a dife-
rença for estatisticamente significativa, podemos considerar que uma condição
gerou mais custo na leitura do que a outra condição, viabilizando inferências
em uma análise linguística do porquê isso teria acontecido, dependendo, claro,
do fenômeno estudado.
Essa inferência é possível porque os estudos seminais e rios outros con-
duzidos em seguida, evidenciam a relação existente entre tempo de leitura e
custo de processamento. Ao realizar uma LA, os participantes são solicitados a
ler as frases o mais naturalmente possível. Ao ler uma palavra ou um sintagma
na tarefa, os participantes não apenas o reconhecem, mas também o ligam às
palavras exibidas, fazem inferências e lhe atribuem um significado e um es-
tatuto sintático. Esse processamento pode ser mais ou menos custoso de acor-
do com a dificuldade imposta pela palavra ou segmento lido. Palavras que são
agramaticais no contexto em que estão inseridas possuem baixa frequência,
formam uma estrutura sintática complexa, geram ambiguidades ou, por outros
motivos, são inesperadas, demandam mais tempo para serem processadas. Essa
variabilidade no custo de processamento é refletida no tempo despendido pelos
participantes para passar de uma palavra para a outra e, por isso, o tempo de
reação (TR) é o principal dado extraído dessa tarefa, embora não seja o único.
42
Vamos a um exemplo. Digamos que queremos saber se uma oração relati-
va de objeto é mais custosa, em termos de processamento, do que uma oração
relativa de sujeito, para tanto, podemos construir períodos com orações relati-
vas de objeto e períodos com orações relativas de sujeito, assim, teríamos duas
condições experimentais como as abaixo:
(1) O menino/ que empurrou o velhinho/ foi preso/ no dia seguinte. (re-
lativa de sujeito)
(2) O menino/ que o velhinho empurrou/ foi preso/ no dia seguinte. (re-
lativa de objeto)
Utilizando a LA, mediríamos o tempo de leitura dos segmentos da forma
que estão divididos pelas barras e, particularmente, do segmento crítico, ou
seja, o segmento de interesse para o estudo que está em negrito. Assim, ao
final, teríamos tempos de leitura de várias frases como essas, e, comparando o
tempo de leitura das orações relativas de sujeito e de objeto, poderíamos saber
qual delas é mais custosa. Estudos com foco nesse fenômeno considerando o
português brasileiro foram feitos, como o de Cabral, Leitão e Kenedy (2015),
mostrando que nessas condições em que ambos os referentes do pronome rela-
tivo são animados, realmente há um maior custo de processamento das orações
relativas de objeto.
Ainda observando os exemplos (1) e (2), além do tempo de leitura do seg-
mento onde se encontram as orações relativas, geralmente, nos experimentos
que empregam a LA, aferimos os tempos do segmento seguinte ou de alguns
segmentos seguintes ao segmento crítico. No caso aqui exemplificado, podería-
mos aferir o segmento com a perífrase verbal “foi preso”. Isso é feito porque é
possível encontrar, no segmento seguinte, o efeito que estávamos buscando no
segmento crítico. O nome que é dado a esse efeito encontrado posteriormente
ao segmento crítico é de spillover, termo que geralmente não é traduzido para
o português.
Outro efeito clássico que pode ser observado a depender do tipo de fra-
se investigado é o efeito de Wrap-up (empacotamento) que ocorre no final da
frase, por exemplo, em (1) e (2), ocorreria no último segmento “no dia seguin-
te”. Tal efeito nada mais é do que o fechamento que fazemos ao terminar de
ler uma frase, pois quando vamos lendo, vários tipos de informação (fonoló-
gica, morfológica, sintática, semântica e pragmática) vão sendo computados e
se percebeu que nesse momento final há uma espécie de integração e sobre-
posição de várias dessas informações, o que causa o empacotamento no final
da leitura da frase e, consequentemente, um aumento no tempo de leitura do
último segmento.
Com esse exemplo dos estudos das orações relativas, buscamos mostrar
como a técnica funciona e o potencial que ela tem para estudar o processa-
mento linguístico e suas interfaces. Agora, iremos observar em mais detalhes
os vários paradigmas que compõem a técnica de LA e as vantagens e desvanta-
gens de cada um deles.
43
3. Paradigmas da Leitura Autocadenciada
A tarefa de LA oferece diferentes possibilidades no que tange à forma de
exibição de sentenças. Como mencionamos anteriormente, as frases podem ser
apresentadas palavra a palavra ou em segmentos maiores. Além disso, é pos-
sível controlar a posição na qual as palavras serão exibidas na tela e o acesso
(concomitante ou não) a informações anteriores e posteriores ao segmento lido.
Essas são as principais diferenças entre os três principais paradigmas de LA,
que serão apresentados a seguir.
Um dos paradigmas de LA mais utilizados em pesquisas psicolinguísticas é
a denominada janela estática (Stationary Window em inglês). No paradigma da
janela estática, todos os segmentos são exibidos no centro da tela na ordem em
que aparecem na sentença. Antes da primeira palavra, um símbolo (usualmente
um asterisco) é apresentado na posição onde as palavras serão exibidas, para
que os participantes fixem o olhar nessa região e, então, a sentença se inicia
com a primeira palavra. Os participantes da tarefa leem as sentenças palavra
a palavra ou em segmentos maiores controlando o seu ritmo de leitura através
de um botão ou tecla que quando acionado permite passar de uma parte da
frase para a seguinte. Ao executar a tarefa com o paradigma janela estática, o
participante não tem informações sobre as partes subsequentes da frase nem
tampouco pode retornar as partes anteriores, como ilustrado na FIG. 1.
Figura 1 — Exemplo de como a sentença “Maria estuda francês” poderia ser apresentada em uma tarefa
de LA com janela estática.
Marcilese e Rodrigues (2014) fornecem um exemplo de LA palavra por pa-
lavra com janela estática. O objetivo do estudo foi investigar a interpretação
preferencial — coletiva ou distributiva — atribuída aos quantificadores todo
(em duas possíveis configurações sintáticas Ex. Todas as enfermeiras/Toda
enfermeira) e cada (Ex. Cada enfermeira). Para tal, foram construídas frases nas
quais as expressões quantificadas eram retomadas por um pronome anafórico
singular ou plural, isto é, favorecendo ora uma leitura coletiva ora distributiva
(cf. exemplos 3-8). Os participantes deveriam ler e julgar as sentenças como
sendo aceitáveis ou inaceitáveis no PB e o tempo de reação foi medido em três
segmentos considerados críticos: o pronome, o verbo auxiliar e o particípio.
(3) Toda /cantora/ estava/ num/ estúdio/ e/ ele/ foi/ fechado/ pelos/ segu-
ranças.
(4) Todo/ pão/ estava/ numa/ cesta/ e/ elas/ foram/ invadidas/ pelas/ for-
migas.
44
(5) Todas/ as/ fantasias/ estavam/ num/ baú/ e/ ele/ foi/ destruído/ pelo/
fogo.
(6) Todas/ as/ enfermeiras/ estavam/ num/ consultório/ e/ eles/ foram/
inundados/ pela/ enchente.
(7) Cada/ documento/ estava/ numa/ pasta/ e/ ela/ foi/ extraviada/ nos/
correios.
(8) Cada/ documento/ estava/ numa/ pasta/ e/ elas/ foram/ extraviadas/
nos/ correios.
Os resultados revelaram custos de retomada pronominal diferenciados
para cada condição, sugerindo que expressões quantificadas com todos e cada
remetem preferencialmente a interpretações coletivas e distributivas, respecti-
vamente. expressões contendo o quantificador todo apresentaram um padrão
menos definido, podendo ser associadas a ambas as interpretações.
Outras duas variantes de leitura autocadenciada são a janela móvel (Mo-
ving Window em inglês) e a janela cumulativa (Cumulative Window em inglês).
Em ambos os casos, os participantes também controlam o tempo de exposição
a cada segmento da sentença através de um botão e as palavras de cada frase
são apresentadas linearmente. Nos experimentos com janela estática, as pala-
vras são exibidas na mesma posição central da tela, já nesses outros dois pa-
radigmas, as palavras são apresentadas de acordo com suas posições dentro da
sentença. Usualmente, a primeira tela já indica, através de traços, o número de
palavras na frase e o tamanho de cada uma delas. Cada vez que o participante
pressiona a tecla que controla o ritmo de leitura, os segmentos aparecem um
a um, substituindo os traços correspondentes. Na janela cumulativa, por sua
vez, as palavras apresentadas continuam na tela até o final da sentença e, as-
sim, ao final de uma frase todas as palavras ficam disponíveis para o leitor. Já
na janela móvel, apenas uma palavra ou segmento fica disponível em todas as
partes da sentença, ou seja, as partes anteriores voltam a ser representadas por
traços quando o segmento seguinte é apresentado. Dessa forma, tanto na jane-
la cumulativa quanto na janela móvel os participantes têm informações sobre
o número de palavras que compõem uma sentença e sobre o tamanho de cada
palavra. No entanto, apenas na janela cumulativa os participantes m acesso
às palavras da sentença que já foram apresentadas, o que aumenta as possibi-
lidades de estratégias de leitura na tarefa. O estudo de Just et al. (1982) com-
parou os resultados advindos dos três paradigmas de LA que apresentamos em
relação à semelhança com dados de duração da fixação do olhar obtidos através
de experimentos com monitoramento ocular3. Os resultados do estudo sugerem
que apenas a janela cumulativa apresentou dados que se distanciaram dos pa-
drões esperados. Talvez por isso a janela cumulativa tenha sido o paradigma
de LA menos utilizado recentemente em estudos psicolinguísticos. A FIG. 2 e a
3 Para mais informações sobre o rastreamento ocular, leia o capítulo “Na trilha do processa-
mento da linguagem: o uso de rastreadores oculares na análise de dados linguísticos”, de Fonseca e
Maia, neste livro.
45
FIG. 3 ilustram como os itens experimentais são exibidos em tarefas de LA com
os paradigmas da janela cumulativa e da janela móvel respectivamente.
Figura 2 — Exemplo de como a sentença “Maria estuda francês” poderia ser apresentada em uma tarefa
de LA com janela cumulativa.
Figura 3 — Exemplo de como a sentença “Maria estuda francês” poderia ser apresentada em uma tarefa
de LA com janela móvel.
Como exemplo de experimento utilizando LA com janela móvel, temos o
estudo de SIMÕES et al. (2021) que investiga o processamento de orações com
conectivos adversativos tanto em estudantes do ensino superior, quanto em
estudantes do ensino médio. O estudo tem como variável independente a fre-
quência dos conectivos adversativos (mas > e > porém > todavia) que articu-
lam duas orações (ex: Eva/ concluiu/ brilhantemente/ o texto,/ CONECTIVO/
a edição/ ficou/ péssima/ na opinião/ dos leitores”), além disso conta também
com uma condição controle em que não há conectivo. Para compreender como
se a integração e o processamento na articulação das orações, foi executado
experimento de LA com janela móvel, permitindo que se observasse efeitos de
processamento em vários segmentos durante a leitura dos períodos testados.
Os segmentos foram divididos conforme indicam as barras, além disso, os seg-
mentos em negrito foram os escolhidos aqui para exemplificar as possibilidades
de análise exploradas.
Primeiro foi verificado nos resultados que os segmentos das condições
que continham conectivos não foram lidos de forma diferente, independente
do tamanho que eles tinham inclusive. Em outras palavras, não foi significa-
tiva, por exemplo, a diferença do tempo de leitura do conectivo “mas” ou “e,
em relação ao “todavia”. No entanto, quando analisado o segmento que inicia
a segunda oração “a edição”, encontraram diferenças significativas bem inte-
ressantes, tanto nos estudantes do ensino superior, quanto nos estudantes do
ensino médio. Os tempos de leitura nesse segmento, em que a integração entre
as orações começa, tiveram influência da frequência. As frases com os conec-
tivos mais frequentes “e” e “mas” foram lidas mais rapidamente do que as fra-
ses com o conectivo “porém, intermediário em termos de frequência, e lidas
mais demoradamente ainda com o conectivo “todavia”, o mais raro de todos.
46
Parece que a frequência do conectivo influencia o custo de processamento e
por consequência o tempo de leitura, entretanto quando compararam o tempo
de leitura do mesmo segmento nas frases sem conectivo, o tempo foi signifi-
cativamente ainda maior que as frases com “todavia”, mostrando também que
ter algum conectivo facilita a integração, independente da frequência. É im-
portante destacar que o comportamento do “todavia” foi diferente em relação
à leitura dos alunos do ensino médio, pois o “todavia” teve o mesmo custo e
tempo de leitura que as frases sem conectivo, parece que por conta de ser mais
raro e a experiência com a leitura dos alunos do começo do ensino médio ser
menor que a do ensino superior, fez com que o “todavia” não funcionasse como
conectivo, não facilitando a integração entre as duas orações e suas respectivas
proposições.
Dessa forma, esperamos ter mostrado, com os exemplos escolhidos, que a
técnica de LA com janela móvel ou janela estática são extremamente eficien-
tes e permitem aferições com um bom grau de precisão durante toda a leitura
dos estímulos, não apenas em um segmento, o que colabora na compreensão
de quanto há de impacto da variável e do fenômeno estudado nos estímulos
testados.
4. A Tarefa Labirinto (
Maze Task
)
A tarefa labirinto (Maze Task em inglês) foi proposta por Forster et al.
(2009) como um método alternativo aos paradigmas de LA apresentados nas
seções anteriores. Essa tarefa também envolve a leitura palavra a palavra ou
em segmentos maiores com o ritmo imposto pelo participante e utiliza o TR
para cada trecho como medida do processamento linguístico. Nessa tarefa, o
leitor também não tem acesso a informações sobre partes anteriores ou poste-
riores do trecho que está sendo lido, como na LA com janela estática. No en-
tanto, diferentemente dos outros paradigmas apresentados, na tarefa labirinto
duas opções para cada segmento da sentença, sendo que apenas uma delas
completa corretamente o sentido da frase que está sendo formulada. A tare-
fa do participante é escolher a opção correta o mais rapidamente possível. O
nome “labirinto” vem exatamente da necessidade de se fazer escolhas acerta-
das em cada parte da sentença para conseguir chegar até o sentido final.
Cada uma das opções é apresentada aleatoriamente de um lado da tela e
a escolha entre ambas é feita através de duas teclas específicas no teclado do
computador, uma para cada lado da tela. A tarefa labirinto é muito flexível em
relação às possibilidades de composição dos itens distratores, conforme discu-
tido em Oliveira (2020). No entanto, há dois tipos de distratores que são comu-
mente utilizados na tarefa: distratores agramaticais e distratores não-palavras,
que foram inclusive testados de forma interpolada recentemente (VANI et al.
2021). Forster et al. (2009) e Witzel et al. (2012) realizaram estudos experimen-
tais que analisaram esses dois tipos de distratores individualmente e, em am-
bos os casos, os resultados dos dois tipos de tarefas foram similares.
47
Esses achados sugerem que a tarefa com não-palavras não se transforma
em uma tarefa de decisão lexical4, pois efeitos de dificuldade de integração tam-
bém foram encontrados nesse caso. Forster et al. (op. cit.) sugerem que o uso de
não-palavras pode ser importante para experimentos em línguas que são muito
flexíveis no que tange a ordenação das palavras ou para experimentos envol-
vendo sentenças que não são totalmente aceitáveis. A FIG. 4 ilustra como uma
sentença poderia ser exibida em uma tarefa labirinto cujas opções incorretas são
continuações agramaticais da sentença. Importante ressaltar que, nesse caso, a
opção errada para a primeira palavra é um símbolo (ex: XXX ou —--), já que
ainda não há um contexto prévio para que a seleção entre palavras seja feita.
Em uma tarefa labirinto com não-palavras, os distratores agramaticais da FIG. 4
seriam substituídos por não-palavras (ex: caluve, mua, lijo, etc).
Figura 4 — Exemplo de como a sentença “Maria estuda francês” seria apresentada em uma tarefa
labirinto, caso todas as escolhas fossem feitas corretamente.
O tempo de reação (TR) também é o principal dado fornecido pela tarefa
labirinto. A diferença em relação aos paradigmas que apresentamos anterior-
mente é que ele reflete não apenas o tempo de integração de uma palavra à
sentença sendo formada, mas também à exclusão da opção errada. Por isso, é
importante que a tarefa apresente uma consistência no que se refere aos itens
que serão utilizados como opções erradas, para que uma diferença entre eles
não interfira no resultado. Assim, é desejável que os itens errados sejam con-
sistentes em relação ao seus status lexical (palavra ou não palavra), ao tipo
de agramaticalidade (mesma categoria que a opção correta ou uma categoria
diferente) e até mesmo em relação ao tamanho (diferente ou similar à opção
correta).
A tarefa labirinto também pode gerar dados que, apesar de pouco explora-
dos, têm potencial para fornecerem informações importantes sobre fenômenos
linguísticos (OLIVEIRA, 2020). Dados como o número de escolhas incorretas e
extrapolação do teto temporal podem apresentar alguma relação com custo de
processamento. Ademais, é possível elaborar experimentos cujo segmento alvo
apresente duas opções possíveis de continuação da sentença e, dessa forma, a
escolha feita pelos participantes seria o principal dado da tarefa. No entanto,
o tempo de reação também poderia ser utilizado para comparar escolhas mais
fáceis e escolhas mais difíceis nesses casos em que ambas as opções são possí-
veis. Esse tipo de metodologia pode ser interessante, por exemplo, para estudos
de bilinguismo para comparar continuações possíveis na língua sendo utilizada
4 Tarefas de decisão lexical são utilizadas, de modo geral, para mensurar o tempo que as pes-
soas demoram para classificar um estímulo como palavra ou como uma não-palavra.
48
na tarefa com continuações possíveis apenas na outra língua falada pelos fa-
lantes bilíngues (cf. OLIVEIRA, 2016) ou para estudos sobre processamento de
expressões idiomáticas que comparam uma continuação idiomática com uma
continuação literal (cf. BARRETO et al. 2018).
No Brasil, alguns estudos já utilizaram a tarefa labirinto para investiga-
ções psicolinguísticas (SOUZA et al. 2014; OLIVEIRA, 2016; SOUZA; OLIVEIRA,
2017; OL IV EIR A et al. 2017; HENRIQUE, 2016; MARCILESE et al. 2017; BA RR E-
TO et al. 2018; ARMELIN et al. 2020; OLIVEIRA, 2022). Souza e Oliveira (2017),
a título de ilustração, utilizaram a tarefa labirinto em um de seus experimen-
tos para investigar possíveis efeitos de bilinguismo no processamento da língua
materna. Para isso, os autores compararam o comportamento de bilíngues do
par linguístico PB e inglês com alta proficiência e de monolíngues do PB frente
a (i) sentenças que emulavam em PB uma construção de estrutura argumental
licenciada em inglês, a construção resultativa (ex:*a motorista/ molhou/ o car-
ro/ e/ o esfregou/ limpo) e (ii) sentenças que instanciam a construção descriti-
va (ex: a águia/ pegou/ o peixe/ e/ o comeu/ vivo), que é licenciada tanto em PB
quanto em inglês. Como pode ser notado nos exemplos, ambas as construções
possuem a mesma estrutura sintática e a agramaticalidade da construção resul-
tativa em PB reside no mapeamento sintático-semântico do sintagma adjetival.
Assim, os autores analisaram os TRs dos participantes ao lerem essa parte da
estrutura na tarefa labirinto. Os resultados indicaram, conforme as hipóteses do
estudo, que os TRs dos participantes monongues para o sintagma adjetival da
construção resultativa foi significativamente maior do que os TRs dos partici-
pantes bilíngues, mas não houve diferença significativa entre os dois grupos em
relação aos TRs para o sintagma adjetival da construção descritiva. Os resulta-
dos foram interpretados como evidência de que o bilinguismo em altos níveis
de proficiência pode exercer influência nas rotinas de processamento da L1.
Por último, cabe mencionar que alguns estudos têm utilizado a tarefa la-
birinto como uma ferramenta de treinamento linguístico (ENKIN; FORSTER,
2014; OLIVEIRA et al. 2020). O potencial da tarefa labirinto para essa função
reside no fato de ela exigir um bom nível atencional, induzir o processamento
incremental, fornecer um feedback imediato e poder ser apresentada de forma
similar a um jogo. Essas características sugerem que essa tarefa possa ser utili-
zada tanto para treinamentos linguísticos com fins experimentais (ex: analisar
efeitos de aprendizagem ou de adaptação decorrente da alta exposição a uma
determinada estrutura) quanto para treinamentos linguísticos com fins peda-
gógicos na língua nativa ou em uma língua adicional (ex: praticar diferentes
tipos de concordância ou diferentes tipos de construção de estrutura argumen-
tal). No entanto, mais evidências empíricas são necessárias para avaliar a eficá-
cia da tarefa labirinto como ferramenta de treinamento linguístico. Na próxima
seção iremos apresentar as vantagens e desvantagens dos diferentes paradig-
mas experimentais apresentados neste capítulo.
49
5. Vantagens e desvantagens de cada modalidade
Como vimos, o paradigma da LA pode ser implementado de formas varia-
das. A apresentação dos estímulos, por exemplo, pode ser visualmente centra-
lizada na tela ou aparecer em formato linear. Na forma centralizada, cada seg-
mento aparece no mesmo espaço central da tela, enquanto na opção linear, os
segmentos aparecem sucessivamente, sem que haja sobreposição espacial entre
eles. Além disso, ao executar a LA na forma linear os participantes têm acesso
a informações sobre os segmentos que não estão sendo lidos. Mais especifica-
mente, os traços que indicam os segmentos que ainda serão lidos informam
os participantes o tamanho e o número de palavras que compõem a sentença.
No estudo de Just et al. (1982), os dados com o paradigma da janela móvel fo-
ram os que mais se aproximaram dos dados encontrados em um estudo com o
rastreador ocular, o que sugere que essa apresentação linear e não cumulativa
se aproxima do processo de leitura em condições naturais, ou seja, fora do am-
biente experimental. Vale salientar, no entanto, que uma apresentação centra-
lizada pode ser desejável ou necessária em alguns casos específicos, como por
exemplo, quando o paradigma da LA é combinado com o método de potenciais
evocados relacionados a eventos (event-related potential — ERP). Nesse caso,
qualquer informação adicional (como o uso de traços ou as mudanças na po-
sição das palavras, gerando “movimento” na tela) deflagra padrões de resposta
neural distintos, podendo gerar “ruído” nos dados a serem analisados.
Outra distinção a ser estabelecida diz respeito às formas cumulativa e não
cumulativa de apresentação dos estímulos. Quando comparados ambos os for-
matos, a principal desvantagem do método cumulativo é que, nessa modali-
dade, o participante pode fazer aparecer vários segmentos sem ter realizado
efetivamente a leitura e integração das informações recebidas. Em outras pa-
lavras, o participante pode apertar diversas vezes o botão e apenas realizar a
leitura quando vários segmentos já estiverem visíveis. Caso isso aconteça, o TR
registrado para cada segmento — gravado toda vez que o participante aperta o
botão — não será informativo para o pesquisador. No formato não cumulativo,
por sua vez, o participante está ciente de que precisará ler cada segmento as-
sim que ele aparecer na tela, já que ele não ficará disponível para uma leitura
mais tardia. Todavia, é possível que o participante eventualmente avance para
a próxima palavra, trecho ou parágrafo sem ter integrado plenamente as infor-
mações recebidas com o contexto anterior, seja por falta de atenção ou como
estratégia de leitura individual. Embora o pesquisador não exerça real controle
sobre o comportamento dos participantes, é possível contornar esse problema.
O uso de perguntas de compreensão inseridas após a leitura das sentenças per-
mite identificar e, posteriormente, eliminar os dados de participantes que apre-
sentem um comportamento indicativo de falta de atenção durante a realização
da tarefa. Perguntas de compreensão podem ser inseridas após cada uma das
sentenças do experimento ou apenas após algumas delas aleatoriamente sele-
cionadas. Embora ambas as opções sejam válidas, a segunda tem a vantagem
de não aumentar demasiadamente a duração total do experimento.
50
A tarefa labirinto propõe uma outra solução para essas questões: a necessi-
dade de seleção correta de palavras em cada segmento da sentença. Essa esco-
lha induz os participantes a ligar cada segmento apresentado ao contexto ante-
rior antes de passar para a palavra seguinte, reduzindo assim as possibilidades
de estratégias de leitura e aumentando o nível de atenção dos participantes.
Importante destacar que, assim como nas demais modalidades, eventuais mo-
mentos de distração podem ocorrer durante a realização da tarefa labirinto.
Nesse caso, é importante que o pesquisador leve em consideração não apenas
os TRs, como também as escolhas realizadas pelo participante. Assim, a tarefa
labirinto não requer o acréscimo de perguntas de compreensão, já que a pró-
pria escolha do segmento “correto” pode ser tida como indicativa dos processos
de compreensão. Ademais, a necessidade de escolhas corretas em cada segmen-
to da sentença, rende a tarefa labirinto uma precisão local não encontrada em
métodos como a LA e o monitoramento ocular (FORSTER et al. 2009; WITZEL
et al. 2012). Em outras palavras, os efeitos de processamento são encontrados
na região esperada e não em regiões posteriores (efeito spillover).
Apesar de trazer as vantagens mencionadas, a inclusão de uma opção in-
correta em cada segmento é também um dos pontos que gera certo desconforto
em alguns pesquisadores. Isso se deve pela inexistência de estudos que inves-
tiguem como diferentes tipos de opções incorretas para cada segmento podem
influenciar o comportamento dos participantes durante a realização da tare-
fa labirinto. Temos estudos que indicam a eficiência da tarefa com distratores
agramaticais e com distratores não-palavras (FORSTER et al. 2009; WITZEL et
al. 2012), mas sem muitos detalhes sobre ambos. Não sabemos ainda como es-
sas não palavras precisam ser formadas ou que tipo de agramaticalidade deve
ser utilizada ou evitada. Também não há informação sobre como o tamanho
dos distratores, a posição deles ou até uma possível relação semântica ou sintá-
tica com o item correto pode influenciar o processo de leitura.
Vale frisar também que o fato de a tarefa labirinto induzir o participante a
integrar cada nova palavra ou segmento lido com o restante do enunciado pre-
viamente apresentado, também pode ser considerado, sob determinado aspecto,
como uma desvantagem da técnica. Isso porque — quando comparada à janela
estática ou à janela móvel — a dinâmica da tarefa se distancia da leitura natu-
ral de textos, se tornando mais artificial e menos válida ecologicamente falan-
do. Além disso, por mais que seja rápida a escolha do caminho correto durante
a leitura, para que haja essa escolha há algum tipo de reflexão metalinguística,
o que pode ter algum impacto no que está sendo aferido. No entanto, esse tipo
de questão ainda não foi investigado em detalhe. Em contrapartida, usualmen-
te, experimentos que utilizam esse tipo de tarefa são desenhados de forma tal
que o participante precisa ficar bastante atento ao conteúdo semântico do que
está sendo lido, tirando o foco do fenômeno gramatical que está sendo de fato
investigado. A tarefa labirinto é relativamente nova e, à medida que ela for uti-
lizada, teremos um melhor entendimento sobre os seus ruídos e, da mesma for-
ma que aconteceu com a LA, alternativas para mitigá-los.
51
Apesar das desvantagens já elencadas e dos pontos ainda incertos, é im-
portante destacar que a tarefa de labirinto tem possibilitado que tópicos que
normalmente não seriam investigados por meio de experimentos de leitura,
possam começar a ser estudados também nesse viés. Henrique (2016, p. 77),
por exemplo, destaca a grande utilidade da tarefa labirinto para pesquisas so-
bre variação linguística. Em particular, a autora menciona o caso da concor-
dância variável no PB: já que o fato de o participante precisar realizar a integra-
ção de informações de forma local (...) poderia evitar um possível estranhamento
decorrente da menor frequência de certas estruturas na modalidade escrita”. Dessa
forma, a técnica parece ser uma boa alternativa para a implementação de ex-
perimentos de leitura envolvendo estruturas que são aceitas e produzidas na
oralidade, mas estigmatizadas na escrita.
Tanto a LA quanto a tarefa labirinto podem ser implementadas através de
diferentes programas que, em sua maioria, são gratuitos. O DMDX (FORSTER;
FORSTER, 2003), o Eprime (SCHNEIDER et al. 2002), Psychopy (PEIRCE, 2007),
o Psytoolkit (STOET, 2010) e o Linger, são alguns dos programas que já foram
utilizados na condução de ambas as técnicas. Para um melhor entendimento
sobre as diferenças entre diversos programas utilizados para condução de ta-
refas experimentais em psicolinguística recomendamos a leitura do estudo de
Sampaio (2017).
A pandemia da COVID-19 obrigou muitos pesquisadores a adaptar os seus
estudos para uma coleta de dados à distância. Uma das consequências dessa
adaptação foi a disponibilização de códigos que facilitam a montagem de experi-
mentos para aqueles interessados em conduzir experimentos à distância com as
técnicas ora descritas. A Prof. Dr. Mahayana Godoy, da Universidade Federal do
Rio Grande do Norte, por exemplo, disponibilizou em seu site (mahayana.me) um
código (https://github.com/mahayanag/arquivosIbexFarm) para condução de ex-
perimentos de LA. Além disso, a professora disponibilizou um vídeo tutorial para
auxiliar os pesquisadores interessados no uso desse código (https://www.youtu-
be.com/watch?v=cntvetEVZ7Q). A professora Juliana Novo Gomes (U. Minho/
UFPB) também tem um minicurso sobre o uso da plataforma PCIBEX disponível
no YouTube (https://youtu.be/A9AfVd3ETgM). Oliveira et al. (2020) desenvolve-
ram uma versão da tarefa labirinto para condução à distância através do Psy-
toolkit e o código da versão elaborada pelos autores encontra-se disponível para
quaisquer pesquisadores (https://github.com/elizabethduane/mazetask). Boyce et
al. (2020) também desenvolveram uma versão da TL para condução à distância,
chamada de A-Maze, que gera automaticamente distratores agramaticais para a
tarefa (https://github.com/vboyce/Maze). Portanto, tanto os paradigmas tradicio-
nais de LA quanto o MT têm a vantagem de poderem ser rodados em diferentes
programas, sendo que alguns deles permitem a condução a distância.
6. Considerações finais
Chegamos ao final deste capítulo, com a esperança de que tenhamos dei-
xado claro o quanto a técnica de Leitura Autocadenciada tanto em sua versão
52
clássica, quanto na versão com labirinto são instrumentos extremamente efi-
cientes para o estudo do processamento linguístico, abarcando uma ampla va-
riedade de fenômenos em todos os níveis linguísticos. A LA clássica com ja-
nela estática ou janela móvel tem mais de quatro décadas de serviços presta-
dos, comprovando sua eficiência e o seu custo-benefício imbatível em relação
a outras técnicas on-line mais sofisticadas, como o rastreamento ocular e a
eletroencefalografia. A tarefa labirinto vem complementar e ampliar as possi-
bilidades de experimentação e, apesar de ainda relativamente nova nos estu-
dos psicolinguísticos, tem mostrado potencial para ter vida longa nesse campo
científico. À medida que essa tarefa for mais utilizada em diferentes pesqui-
sas, teremos um melhor entendimento sobre o seu alcance, limites, vantagens
e desvantagens. Entendemos que é importante que todos que se aventurarem
pela pesquisa na área da Psicolinguística Experimental conheçam não apenas
as técnicas aqui apresentadas, mas também todas as outras que estão dispo-
níveis. Dessa forma, os pesquisadores poderão fazer escolhas metodológicas
acertadas de acordo com a infraestrutura disponível e os fenômenos linguísti-
cos alvos e objetivos da investigação. Levar esse conhecimento da técnica LA e
suas possibilidades é o objetivo deste capítulo que se soma aos outros capítulos
deste livro para compor um arcabouço metodológico para alunos e pesquisado-
res da área.
7. Referências bibliográficas
AARONSON, D.; SCARBOROUGH, S. Performance theories for sentence coding: Some quantita-
tive models, Journal of Verbal Learning and Verbal Behavior, Volume 16, Issue 3,1977,
Pages 277-303. DOI: 10.1016/S0022-5371(77)80052-2.
ARMELIN, P. R. G.; NAME, C.; MARCILESE, M. Sobre a manifestação morfológica de gênero:
abordagens formais e psicolinguísticas. Todas as Letras Revista de Língua e Literatura,
v. 22, n.1, p. 1-18, 2020. DOI: 10.5935/1980-6914/eLETDO2012845
BARRETO, S.; MARCILESE, M.; OLIVEIRA, A. J. A. Idiomaticidade, familiaridade e informação
prévia no processamento de expressões idiomáticas do PB. Letras de Hoje v. 53, n.1, p. 119-
129, 2018. DOI: 10.15448/1984-7726.2018.1.28680
BEZERRA, G.; LEITÃO, M. O processamento de argumentos e adjuntos em construções sem ambi-
guidade estrutural. Veredas (UFJF. Online), v. 17, p. 60-82, 2013.
BEZERRA, G.; LEITÃO, M. The Construal Hypothesis and Relative Clause Processing: The Effect
of the Referentiality Principle in Brazilian Portuguese. In: ESCOBAR, L.; TORRENS, V. AND
PARODI, T. (Org.). Language Processing and Disorders. 1ed. Newcastle: Cambridge Scholars
Publishing, 2017, v. 1, p. 54-74.
BEZERRA, G.; LEITÃO, M.; MEDEIROS, L. A influência da referencialidade no processamento de
orações relativas em português brasileiro. Revista de Estudos da Linguagem, v. 25, p. 1397,
2017.
BOYCE, V.; FUTRELL, R.; LEVY, R. Maze Made Easy: Better and easier measurement of incremen-
tal processing difficulty. Journal of Memory and Language, v. 111, p. 1-13, 2020.
CABRAL, A. F. V.; LEITÃO, M. M.; KENEDY, E. A influência da animacidade no processamento
de cláusulas relativas no Português Brasileiro. Letras de Hoje, v. 50, n. 1, p. 102111, 8 maio
2015.
CORRÊA, L. S. Concordância de gênero no processamento de formas pronominais. Cadernos de
Estudos Linguísticos, Campinas. v. 40, p.77-92, 2001.
53
FARIAS, S.; LEITÃO, M.; FERRARI NETO, J. Gênero e número no processamento da anáfora con-
ceitual com nomes coletivos em português brasileiro. Revista Virtual de Estudos da Lin-
guagem, v. 06, p. 82-109, 2012.
FEDORENKO, E.; GIBSON, E.; ROHDE, D. The nature of working memory in linguistic, arithmetic
and spatial integration processes. Journal of Memory and Language, v. 56, n. 2, 2007.
FONSECA, A. Pesquisa em psicolinguística: explorando o processamento de frases. In: OLIVEIRA,
C.; SÁ, T. Psicolinguística em Minas Gerais. Contagem: CEFET-MG. 95-112. 2020.
FORSTER, K. I.; FORSTER, J. C. DMDX: A Windows display program with millisecond accuracy.
Behavior Research Methods, Instruments, & Computers, v. 35, p. 116-124, 2003.
FOSTER, I. K.; GUERRERA, C.; ELLIOT, L. The maze task: measuring forced incremental sentence
processing time. Behavior Research Methods, v. 41, n.1, p. 163-171, 2009.
GADELHA, L.; LEITÃO, M. Processamento da Correferência em Aprendizes de Francês como L2.
In: BUSCHWEITZ, A.; MOTA. M. B. (org.). Linguagem e Cognição: Processamento, Aquisição
e Cérebro. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2015, v. 1, p. 191-235.
GODOY, M. C.; VIEIRA, C. B.; ANDRADE, G. L.; de SOUZA FILHO, N.; NUNES, M. A. (2018). O
papel do conhecimento de eventos no processamento de sentenças isoladas. Letrônica, 10(2),
538-554. DOI: 10.15448/1984-4301.2017.2.26408
GONDIM, E.; LEITÃO, M.; BARBOSA, M. Penalidade do Nome Repetido: um efeito multifatorial.
Revista Linguística, v. 16, p. 410-470, 2020.
HENRIQUE, K. DA S. Variação linguística e processamento: investigando o papel da distân-
cia entre sujeito e verbo na realização da concordância verbal variável no PB. Dissertação de
Mestrado, Universidade Federal de Juiz de Fora, 2016.
JUST, M. A.; CARPENTER, P. A.; WOOLLEY, J. D. Paradigms and processes in reading comprehen-
sion. Journal of Experimental Psychology. v. 111, n.2, p. 228-238, 1982.
LACERDA, M.; OLIVEIRA, R.; LEITÃO, M. O processamento da anáfora “Se” Em português brasi-
leiro e a influência da variação dialetal. Fórum Linguistico (Online), v. 11, p. 243-259, 2014.
LEITÃO, M. Processamento co-referencial de nomes e pronomes em Português Brasileiro. Lin-
guística (UFRJ), UFRJ/Publit, v. 1, n.2, p. 235-258, 2005.
LEITÃO, M. Animacidade e paralelismo estrutural no processamento da correferência. Linguísti-
ca (Rio de Janeiro), v. 6, p. 44-57, 2010.
LEITÃO, M.; PEIXOTO, P.; SANTOS, S. Processamento da co-referência intra-sentencial em por-
tuguês brasileiro. Veredas - Revista de Estudos Linguísticos, v. 2, p. 50-61, 2008.
LEITÃO, M.; SIMÕES, A. A influência da distância no processamento correferencial de pronomes
e nomes repetidos em português brasileiro. Veredas (UFJF. Online), v. 1, p. 262-272, 2011.
LEITÃO, M. M.; RIBEIRO, A. J. C.; MAIA, M. Penalidade do nome repetido e rastreamento ocu-
lar em português brasileiro. Revista Linguística / Revista do Programa de Pós-Graduação
em Linguística da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Volume 8, número 2, dezembro de
2012. ISSN 1808-835X 1. [https://revistas.ufrj.br/index.php/rl/article/view/4549]
LEITÃO, M. M.; OLIVEIRA, R. C.; TEIXEIRA, E. N.; FERRARI NETO, J.; BRITO, D. B. S. Evidências
experimentais do processamento da correferência e dos princípios de ligação em Português
Brasileiro. Revista da ABRALIN, Curitiba (PR), v. 13, n. 1, p. 289-332, jul./dez. 2014.
LEITÃO, M. M.; BEZERRA, G. B.; BRITO, D. B. S. Restrições da teoria da ligação e o processa-
mento da correferência pronominal em dois estágios. Cadernos de Letras da UFF, v. 49, p.
89-108, 2014.
MAIA, M. A. R. O Acesso Semântico no Parsing Sintático: Evidências Experimentais. In: VI
Congresso da ASSEL-Rio, 1996, Rio de Janeiro. Anais do VI Congresso da ASSEL-Rio, 1996. p.
967-978.
MAIA, M. A. R.; FERNÁNDEZ, E.; COSTA, A.; LOURENÇO-GOMES, M. DO C. Early and late pre-
ferences in relative clause attachment in Portuguese and Spanish. Journal of Portuguese
Linguistics, v. 5/6, p. 227-250, 2007.
MARCILESE, M.; RODRIGUES, E. dos S. Correferência anafórica e interpretação de quantificado-
res universais. Cadernos de Letras da UFF — Dossiê: Anáfora e correferência: temas, teorias
e métodos, v. 24, n.49, p. 109-131, 2014. DOI: 10.22409/cadletrasuff.2014n49a9.
54
MARCILESE, M.; RODRIGUES, E. DOS S.; AUGUSTO, M. R. A.; HENRIQUE, K. DA S. Efei-
tos de distância linear e marcação no processamento da concordância verbal va-
riável no PB. Revista de Estudos da Linguagem, v. 24, n. 3, p. 1291-1325, 2017.
DOI:10.17851/2237-2083.25.3.1291-1325
MITCHELL, D. On-line methods in language processing: introduction and historical review. In:
CARREIRAS, M.; CLIFTON JR., C. (Org.). The on-line study of sentence comprehension:
eyetracking, ERPs and beyond. New York: Psychology Press, 2004.
OLIVEIRA, C. Processing, representation and learnability of the resultative construction by
Brazilian Portuguese-English bilinguals. 2016. 202f. Tese (Doutorado em Linguística) Fa-
culdade de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Brazil, 2016. Dispo-
nível em http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/handle/1843/RMSA-AM2UMP
OLIVEIRA, C. Métodos on-line em psicolinguística: a tarefa labirinto (maze task). Caderno de
Tradução, v. 40, n. esp. 2, p. 217-248, 2020. DOI: 10.5007/2175-7968.2020v40nesp2p217
OLIVEIRA, C.; SOUZA, R.; OLIVEIRA, F. Bilingualism effects on L1 representation and processing
of argument structure. Journal of the European Second Language Association, v. 1, n. 1,
p. 23-37, 2017. DOI: 10.22599/jesla.7
OLIVEIRA, C.; COSTA, E.; CANABRAVA, K.; BARROS, N. Examining the use of an on-line version
of the maze task as a pedagogical tool for second language learning. Veredas, v. 24, n. 1,
2020. DOI:10.34019/1982-2243.2020.v24.30636.
OLIVEIRA, K. C. de; Saliência e influência da translinguística da L1 sobre a L2: investigando
as dificuldades relacionadas à morfologia flexional da língua inglesa por falantes do portu-
guês brasileiro. 2022. 101 f. Dissertação (mestrado) - Universidade Federal de Minas Gerais,
Faculdade de Letras, 2022. Disponível em: <http://hdl.handle.net/1843/43162>. Acesso em: 05
set. 2022.
OLIVEIRA, R.; LEITÃO, M. M.; GENUINO, J. A Influência dos Antecedentes Vinculados e não vin-
culados no processamento da anáfora “a si mesmo(a)”. Linguística (Rio de Janeiro), v. 8, p.
71/8-85, 2012.
PEIRCE, J. W. PsychoPy — Psychophysics software in Python. Journal of Neuroscience Methods,
Elsevier, v. 162, n. 1-2, p. 8-13, 2007. https://doi.org/10.1016/j.jneumeth.2006.11.017
SAMPAIO, T. O. M. A escolha de software e hardware na psicolinguística: revisão e opinião. Revista
de Estudos da Linguagem, v. 25, n. 3, p. 971-1010, 2007. DOI: 10.17851/22372083.25.3.971-1010
SCHNEIDER, W.; ESCHMAN, A.; ZUCCOLOTTO, A. E-Prime user’s guide. Pittsburgh, PA: Psycho-
logy Software Tools. 2002
SIMÕES, A.; LEITÃO, M.; LIMA SILVA, H.; LIMA SILVA, D. A influência dos conectivos adversa-
tivos na leitura de estudantes graduandos e do ensino médio durante o processamento de
períodos em português brasileiro. PROLÍNGUA (João Pessoa), v. 15, p. 127-144, 2021.
SOUZA, R.; COELHO, S.; SANTOS, A.; NASCIMENTO, T. Processamento de sujeitos de orações
com verbos inacusativos no português brasileiro. Revista Fórum Linguístico, v. 11, n. 3, p.
328-339, 2014.
SOUZA, R.; OLIVEIRA, C. Are bilingualism effects on the L1 byproducts of implicit processes?
Evidence from two experimental tasks. Revista de Estudos da Linguagem, v. 25, n. 3, p.
16851716, 2017. DOI: 10.17851/2237-2083.25.3.1685-1716.
STOET, G. PsyToolkit: A software package for programming psychological experiments using Li-
nux. Behavior Research Methods, v. 42, p. 1096-1104, Nov. 2010.
VANI, P.; WILCOX, E.; LEVY, R. Using the Interpolated Maze Task to Assess Incremental Pro-
cessing in English Relative Clauses. Proceedings of the Annual Meeting of the Cognitive
Science Society, 43. 2021
VASCONCELOS, M.; LEITÃO, M. Processamento correferencial de pronomes e nomes repetidos
em pacientes com afasia de Broca. Revista Virtual de Estudos da Linguagem, v. 10, p. 148-
168, 2012.
WITZEL, J.; WITZEL, N.; FORSTER, K. Comparisons of Online Reading Paradigms: Eye Tracking,
Moving-Window, and Maze. Journal of Psycholinguistic Research, v. 41, 105-128, 2012.
55
Na trilha do processamento da linguagem:
o uso de rastreadores oculares na análise
de dados linguísticos
Aline Alves Fonseca (UFJF)
Marcus Maia (UF R J/C N Pq )
1. O que é um rastreador ocular?
A cAptAção dos movimentos oculares para fins de pesquisa envolve o re-
gistro contínuo da posição dos olhos em relação a um estímulo visual que pode
ser uma imagem estática ou dinâmica ou ainda registros escritos (CONKLIN;
PELLICER-SÁNCHEZ; CARROL, 2018). Os rastreadores oculares atuais são
equipamentos que monitoram os movimentos dos olhos através de um siste-
ma de vídeo com emissão de luz infravermelha. Os olhos são localizados pelo
equipamento através da detecção da pigmentação da pupila e/ ou da reflexão
da córnea. Os rastreadores oculares podem ser móveis, como os rastreadores
em formato de óculos e os rastreadores portáteis que podem ser instalados em
qualquer laptop ou desktop, ou fixos, como os rastreadores oculares que são
ligados ou previamente acoplados a telas de computadores ou TVs.
Figura 1: Rastreador ocular de desktop modelo Eyelink 1000 plus, fabricante SR Research.
(Fonte: https://www.sr-research.com/eyelink-1000-plus/)
56
Os rastreadores oculares baseados em vídeo funcionam analisando as ima-
gens gravadas dos movimentos dos olhos, que são iluminados por uma fonte
de luz infravermelha. O rastreador ocular envia para o software de análise as
coordenadas dos eixos x e y da posição do olho na tela onde o estímulo é exibi-
do (DUCHOWSKI, 2017). Usando algoritmos predefinidos, o software do sistema
traduz as informações da imagem dos movimentos dos olhos em dados de po-
sição específicos. Os dados de posição gravados são então combinados com os
estímulos experimentais para que os movimentos oculares possam ser mapea-
dos em relação às regiões de interesse dos estímulos visuais (CONKLIN;PELLI-
CER-SÁNCHEZ; CARROL, 2018).
Uma das principais características das pesquisas com rastreamento ocular
é a precisão espaço-temporal dos dados coletados. No entanto, a acurácia dos
dados coletados depende de alguns fatores relacionados com o equipamento e
com procedimentos experimentais. A frequência de amostragem do equipamen-
to de rastreamento ocular, que é a velocidade em número de amostras registra-
das por segundo, medida em Hertz (Hz), é um fator de extrema importância
para a precisão dos dados. Outro fator é a calibração do equipamento. Para se
chegar a dados precisos e confiáveis, o pesquisador precisa calibrar o rastrea-
dor ocular individualmente, ou seja, com cada participante do seu experimento.
1.1. Os movimentos oculares
Para estudarmos os movimentos oculares, precisamos saber um pouquinho
sobre a anatomia dos nossos olhos e sobre o funcionamento da visão. Temos
uma falsa sensação de que nosso campo de visão além de extenso, possui uma
alta acuidade, ou seja, que vemos com clareza e nitidez tudo o que olhamos. Na
verdade, nosso campo de visão é dividido em três partes: a foveal, a parafoveal
e a periférica. Apenas a região foveal, que é responsável por um ângulo de vi-
são de cerca de 2º (dois graus) a partir do ponto de fixação do olhar, é respon-
sável pela visão com alta nitidez e acuidade. A região parafoveal cobre cerca
de 10º (dez graus) a partir do ponto de fixação do olhar, mas este espaço do
campo de visão não possui a mesma nitidez da região foveal (GODFROID, 2020,
p. 24-25). Podemos pré-processar informações e fazer inferências com o que
vemos na região parafoveal do nosso campo de visão, mas não podemos, por
exemplo, descrever detalhes do que vemos a partir dessa área. A área periférica
do nosso campo de visão é aquela que comumente está além da região parafo-
veal. As informações que nosso cérebro consegue extrair da região periférica
são bem limitadas.
Essa diferença de nitidez e acuidade está relacionada com os tipos de cé-
lulas presentes em nossa retina: os cones e os bastonetes. A área da fóvea é
composta por um grande número de cones que são células fotossensíveis res-
ponsáveis pela visão dos matizes de cores e dos detalhes de contorno das for-
mas. Já a área da retina que promove a visão parafoveal é cheia de bastonetes
que são responsáveis pela nossa visão noturna e pela percepção do movimento
(GODFROID, 2020, p. 25-26).
57
Se pensarmos na leitura, o alcance da região foveal, de maior nitidez, é de
cerca de 4 caracteres, dois para cada lado do ponto de fixação. Já a área para-
foveal alcança cerca de 6 caracteres para cada lado do ponto de fixação. Isso
quer dizer que, quando lemos, somos capazes de “enxergar” não mais do que
16 caracteres de cada vez.
Figura 2: Acuidade visual das áreas foveal, parafoveal e periférica a partir de um ponto de fixação
na leitura. (Fonte: RAYNER; SCHOTTER; MASSON; POTTER; TREIMAN, 2016, p. 7)
Apesar de nossa área do campo de visão com grande acuidade ser bem
estreita, compensamos essa limitação com a movimentação ocular. Durante a
leitura, por exemplo, nossos olhos realizam pequenos saltos de cerca de 20 a
35 milissegundos, chamados de sacadas. Entre uma sacada e outra, pousamos
o olhar em um determinado ponto do texto por cerca de 200 a 250 milisse-
gundos, o que chamamos de fixação (RAYNER; POLLATSEK, 1989). Diferen-
temente do que parece, não lemos “correndo os olhos” por todas as letras e
todas as palavras de um texto. Na verdade, lemos a partir das fixações que são
separadas pelos saltos das sacadas. Durante as fixações, nosso sistema cogni-
tivo processa a informação visual e planeja o momento e a distância da próxi-
ma sacada. Em contrapartida, durante os movimentos sacádicos, os olhos estão
se movendo tão rapidamente que é quase impossível obter informação visual
neste momento (RAYNER, 2009). Uma outra informação interessante, e que
“desmistifica” nossas impressões leigas sobre a leitura, é que lemos sempre na
direção do início para o fim da frase ou do texto. Na verdade, mesmo leitores
experientes, com alta proficiência em leitura, realizam certa de 10 a 15% de re-
gressões (RAYNER; POLLATSEK, 1989). E essa porcentagem de regressões pode
aumentar por fatores como maior complexidade do texto ou menor proficiência
em leitura.
58
Figura 3: Gazeplot mostrando os pontos de fixação e as sacadas em um experimento de leitura.
(Fonte: arquivo dos autores)
Os movimentos oculares que investigamos no rastreamento ocular são
exatamente as sacadas e as fixações. Durante um experimento, seja com ima-
gens ou texto, podemos medir a quantidade e a duração das fixações, além da
direção das sacadas, que podem ser progressivas ou regressivas, como vimos
anteriormente. Normalmente, usamos os termos em inglês para essas medidas:
fixation count (número de fixações), first fixation duration (duração da primei-
ra fixação), total fixation duration (tempo total de fixação), first path duration
(tempo da primeira passada) e regression path duration (tempo da passada re-
gressiva), além de outras.
2. Histórico do uso de rastreadores na ciência e na indústria
O interesse pelo estudo do rastreamento do olhar remonta ao século
XVIII. No entanto, devido às limitações tecnológicas, a pesquisa com rastrea-
dores oculares ganhou força no desenrolar do século XX. Rayner (1998) define
três fases das pesquisas com rastreamento ocular, começando no final do -
culo XIX: (i) os trabalhos iniciais de 1879 a 1920, em que se estudou fatos bá-
sicos sobre os movimentos oculares; (ii) a era behaviorista de 1930 a 1958, que
se caracterizou por estudos mais aplicados; e (iii) as pesquisas de movimentos
oculares atuais, iniciadas na metade da década de 1970 até os dias de hoje, que
foram alavancadas pela chegada dos computadores.
Duchowski (2002), por sua vez, defende que entramos em uma 4ª fase dos
estudos com rastreadores oculares no início do século XXI. Com a populari-
zação dos computadores, as aplicações com rastreadores oculares deixaram de
ter um caráter de diagnóstico e passaram a ter um caráter mais interativo, em
que o participante não só observa uma cena, ou de forma totalmente passiva
um determinado texto, mas também faz escolhas em relação ao que vê, usan-
do o mouse ou o teclado de um computador. Dessa maneira, as pesquisas com
rastreamento ocular passaram a cruzar os dados da atenção inconsciente dos
participantes através da captura dos movimentos oculares com os dados das
escolhas conscientes dos participantes no momento da interação. Esse cruza-
mento de informações trouxe avanços significativos para as pesquisas em três
grandes áreas, a saber: a neurociência, a psicologia e a ciência computacional.
O grande campo de aplicação do rastreamento ocular no processamento da lin-
guagem na leitura e na relação entre o processamento auditivo e a percepção
visual é listado por Duchowski (2002) dentro da área da psicologia. No entan-
to, hoje sabemos que há grande interação entre a psicologia, a psicolinguística,
59
Figura 3: Gazeplot mostrando os pontos de fixação e as sacadas em um experimento de leitura.
(Fonte: arquivo dos autores)
Os movimentos oculares que investigamos no rastreamento ocular são
exatamente as sacadas e as fixações. Durante um experimento, seja com ima-
gens ou texto, podemos medir a quantidade e a duração das fixações, além da
direção das sacadas, que podem ser progressivas ou regressivas, como vimos
anteriormente. Normalmente, usamos os termos em inglês para essas medidas:
fixation count (número de fixações), first fixation duration (duração da primei-
ra fixação), total fixation duration (tempo total de fixação), first path duration
(tempo da primeira passada) e regression path duration (tempo da passada re-
gressiva), além de outras.
2. Histórico do uso de rastreadores na ciência e na indústria
O interesse pelo estudo do rastreamento do olhar remonta ao século
XVIII. No entanto, devido às limitações tecnológicas, a pesquisa com rastrea-
dores oculares ganhou força no desenrolar do século XX. Rayner (1998) define
três fases das pesquisas com rastreamento ocular, começando no final do -
culo XIX: (i) os trabalhos iniciais de 1879 a 1920, em que se estudou fatos bá-
sicos sobre os movimentos oculares; (ii) a era behaviorista de 1930 a 1958, que
se caracterizou por estudos mais aplicados; e (iii) as pesquisas de movimentos
oculares atuais, iniciadas na metade da década de 1970 até os dias de hoje, que
foram alavancadas pela chegada dos computadores.
Duchowski (2002), por sua vez, defende que entramos em uma 4ª fase dos
estudos com rastreadores oculares no início do século XXI. Com a populari-
zação dos computadores, as aplicações com rastreadores oculares deixaram de
ter um caráter de diagnóstico e passaram a ter um caráter mais interativo, em
que o participante não só observa uma cena, ou de forma totalmente passiva
um determinado texto, mas também faz escolhas em relação ao que vê, usan-
do o mouse ou o teclado de um computador. Dessa maneira, as pesquisas com
rastreamento ocular passaram a cruzar os dados da atenção inconsciente dos
participantes através da captura dos movimentos oculares com os dados das
escolhas conscientes dos participantes no momento da interação. Esse cruza-
mento de informações trouxe avanços significativos para as pesquisas em três
grandes áreas, a saber: a neurociência, a psicologia e a ciência computacional.
O grande campo de aplicação do rastreamento ocular no processamento da lin-
guagem na leitura e na relação entre o processamento auditivo e a percepção
visual é listado por Duchowski (2002) dentro da área da psicologia. No entan-
to, hoje sabemos que há grande interação entre a psicologia, a psicolinguística,
a linguística cognitiva e a neurociência nos estudos relacionados ao processa-
mento da linguagem.
Uma das aplicações mais modernas dos rastreadores oculares nos estu-
dos cognitivos é o seu uso associado a aparelhos de eletroencefalografia para
identificar e neutralizar artefatos gerados pelos movimentos oculares em medi-
das de potenciais evocados. Em um estudo pioneiro, Plöchl, Ossandón e König
(2012) registraram, simultaneamente, os movimentos oculares e dados de ele-
troencefalografia, com um EEG de 64 canais, de 14 participantes, utilizando um
paradigma experimental de movimento ocular guiado. Os autores investigaram
e revisaram as propriedades dos artefatos de movimento ocular, incluindo al-
terações de dipolo córneo-retinal, potenciais de saltos sacádicos e artefatos de
movimento das pálpebras, e estudaram suas inter-relações durante diferentes
tipos de movimentos dos olhos e das pálpebras. Como resultado deste estudo,
Plöchl, Ossandón e König (2012) propõem um algoritmo que usa informações
do rastreador ocular para identificar e corrigir objetivamente os componentes
de análises independentes (ICA do inglês Independent Component Analysis)
relacionados aos artefatos dos movimentos oculares de maneira automatizada,
gerando assim dados de potenciais evocados mais confiáveis.
Para além das áreas de atuação no campo da cognição e das ciências com-
putacionais, os rastreadores oculares também são ferramentas de interesse
para áreas como o marketing, a indústria e a aviação.
O próprio site da empresa fabricante de rastreadores oculares, Tobii, traz
informações sobre sua aplicação no marketing e na indústria. No marketing, o
rastreamento ocular permite que os desenvolvedores de produtos, de embala-
gens ou de publicidade possam ter uma ideia da perspectiva do consumidor. O
uso de rastreadores oculares em consumidores reais pode dar pistas, aos de-
senvolvedores, de lugares de interesse em prateleiras de lojas e supermercados,
elementos no design de embalagens ou em avisos de advertência que chamam
mais a atenção do olhar, ou ainda quais são os fatores visuais em peças pu-
blicitárias que engajam e levam o consumidor à compra daquele produto. Na
indústria e na performance humana, os movimentos oculares podem ajudar no
entendimento de como os locais de trabalho funcionam a partir da perspectiva
do empregado, permitindo aprimorar níveis de segurança e otimizar processos
de fabricação. Na aviação, Duchowski (2017) descreve que o rastreamento ocu-
lar tem sido um grande aliado para os avanços dos simuladores realísticos de
voos e para a melhora no design de painéis de controle nos cockpits das aerona-
ves. O registro dos movimentos dos olhos e da cabeça de pilotos profissionais,
registrados em condições de voo realistas, dizem muito para os engenheiros
sobre o comportamento na interação homem-máquina, sobre o gerenciamen-
to de informações pelos pilotos, bem como sobre a consciência