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Manejo agroecológico de insetos - aliados pela agrobiodiversidade

Authors:
  • Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro, Patos de Minas, Brazil
2021
ATLAS DOS
INSETOS
Fatos e dados sobre as espécies mais numerosas da Terra
O ATLAS DOS INSETOS foi publicado em inglês no ano de 2020, pela sede da Fundação Heinrich Böll e Friends of the Earth – Europe.
A versão brasileira inclui artigos originais e adaptados de autores brasileiros.
Edição brasileira: dezembro de 2021
Diretora da Fundação Heinrich Böll no Brasil: Annette von Schönfeld
Organização da edição brasileira: Joana Simoni e Marcelo Montenegro
Adaptação e revisão dos artigos e infográcos: Conselho Editorial (veja abaixo a lista dos participantes), Joana Simoni e Marcelo Montenegro
Revisão editorial: Annette von Schönfeld, Joana Simoni, Manoela Vianna e Marcelo Montenegro
Tradução da versão em português: Thiago Novaes
Revisão e copidesque: Helena Costa
Diagramação e criação de infográcos dos artigos brasileiros: Domingos Sávio, Thiago Venturotti e Rafael Fernandes
Conselho Editorial
Carlos Eduardo Oliveira de Souza Leite, Dany Silvio Souza Leite Amaral, Madelaine Venzon, Maíra Queiroz Rezende,
Michela Costa Batista, Pedro Henrique Brum Togni, Ricardo Costa Rodrigues de Camargo e Tarita Cira Deboni
Autores: Ana Carolina Gomes Lagôa, Ariel de Andrade Molina, Arnaldo Freitas de Oliveira Júnior, Carlos Eduardo Oliveira de Souza Leite,
Charles Martins de Oliveira, Christian Rehmer, Christine Chemnitz, Daniela Wannemacher, Dany Silvio Souza Leite Amaral, Dori Edson Nava,
Eraldo Medeiros Costa Neto, Felipe de Lemos, Gabriel Bianconi Fernandes, Gabriela Inés Diez-Rodriguez, Guilherme Schnell e Schühli,
Hanni Rützler, Heiko Werning, Jéssica Herzog Viana, Joana Simoni, Katrin Wenz, Kayna Agostini, Leonardo Melgarejo, Madelaine Venzon,
Maíra Queiroz Rezende, Marcelo Montenegro, Marina Regina Frizzas, Marina Wolowski, Maureen Santos, Michela Costa Batista, Mute Schimpf,
Pedro Henrique Brum Togni, Ricardo Costa Rodrigues de Camargo, Silvia Bender e Tarita Cira Deboni.
Agradecemos ao Conselho editorial e João Portella Sobral pelo valioso apoio.
Imagem da capa: Collage © Ellen Stockmar baseada na foto de GordZam/istockphoto.com
As opiniões dos artigos não reetem necessariamente as da Fundação Heinrich Böll
Diretores executivos da edição original:
Christine Chemnitz, Fundação Heinrich Böll
Christian Rehmer, Bund für Umwelt und Naturschutz Deutschland
Katrin Wenz, Bund für Umwelt und Naturschutz Deutschland
Apoio Editorial: Mute Schimpf, Friends of the Earth Europe
Apoio: Mute Schimpf, Friends of the Earth – Europe
Editor chefe e pesquisa gráca: Dietmar Bartz
Diretor de arte e infográcos: Ellen Stockmar
Ilustrações de insetos: Lena Ziyal (Infotext GbR)
Edição de imagem: Roland Koletzki
Editor da edição em inglês: Paul Mundy
Revisor: Maria Lanman
Edição alemã
Subeditor chefe: Elisabeth Schmidt-Landenberger
Edição nal: Andreas Kaizik, Sandra Thiele (Infotext GbR)
Gerente de produção: Elke Paul, Fundação Heinrich Böll
Produção: Micheline Gutman, Muriel sprl, Bruxelas, Bélgica
Este material – exceto a imagem da capa, capas de publicação e logos – é licenciado sob licença Creative Commons
“Atribuição 4.0 Internacional” (CC BY 4.0). Para obter o contrato de licença, consulte https://creativecommons.org/
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se a atribuição “Bartz / Stockmar, CC BY 4.0” for colocada ao lado do gráco.
Para grácos com ilustrações de insetos das páginas citadas acima, use “Bartz / Stockmar / Ziyal, CC BY 4.0”, no caso de modicação “Bartz /
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Infográcos das páginas 16 (Teewara soontorn/thenounproject.com), 53 (thenounproject.com): Domingos Sávio/CC-BY-4.0.
Infográcos das páginas 20, 22 (Yu luck, Andi/thenounproject.com; iconixar/aticon.com), 23 (Made x Made Icons, zidney, denimao,
Eucalyp, Sergey Demushkin/thenounproject.com), 27 (Rahul Anand/thenounproject.com), 35 (Vladimir Belochkin, Mimi Diep, Botho Willer/
thenounproject.com; Kartiko Setiaji), 36, 37, 42 (Pariphat Sinma, Bernd Lakenbrink, Azza Rizqi/thenounproject.com), 44 (Oleksandr Panasovskyi/
thenounproject.com; Neubau), 45 (Adrien Coquet, Alexander Skowalsky, Icon Fair/thenounproject.com), 52 (Bethan Mitchell/thenounproject.
com): Thiago Venturotti/CC-BY-4.0.
Infográcos das páginas 26, 31, 32, 33 (pt.vecteezy.com), 34, 46, 47, 48 (ilustrações da família Apidae fornecidas pelo autor), 49, 50: Rafael
Fernandes/ CC-BY-4.0.
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Rio de Janeiro, Brasil, Tel. +55 21 3221 9900, info@br.boell.org, www.br.boell.org
Visite a página especial no site da Fundação – www.br.boell.org – com mais conteúdos sobre o tema.
EXPEDIENTE
Fatos e dados sobre as espécies mais numerosas da Terra
2021
ATLAS DOS
INSETOS
Fatos e dados sobre as espécies mais numerosas da Terra
2021
ATLAS DOS INSETOS 2021
4
SUMÁRIO
02 EXPEDIENTE
06 INTRODUÇÃO
08 DOZE BREVES LIÇÕES
SOBRE OS INSETOS,
A AGRICULTURA E O MUNDO
10 IDEIAS INICIAIS
SEIS PATAS NA TERRA
Eles estão na terra, na água e no ar; comem e são
comidos. Eles polinizam as plantas, arejam o solo
e limpam as folhas: os insetos são parte integrante
dos ecossistemas.
12 HISTÓRIA
DE SAGRADOS A ODIADOS,
MAS SEMPRE IMPRESCINDÍVEIS
A relação entre humanos e insetos tem sido difícil
há muito tempo. A história da agricultura é, em
parte, a história do manejo de pragas. Só há pouco
tempo passamos a apreciar o valor dos insetos.
14 DECLÍNIO DOS INSETOS
UMA CRISE SEM NÚMEROS
O declínio nas populações de insetos e no números
de espécies está bem documentado – embora
a evidência seja irregular fora da Europa e da
América do Norte. Os cientistas concordam que
a agricultura tem uma influência negativa nessa
situação.
16 POLÍTICA
ENVENENANDO O CAMPO,
A CIDADE E AS POLÍTICAS
Os formuladores de políticas públicas têm dado
respostas frágeis às questões envolvendo os insetos e
sua relação com a sociedade e a natureza. Eles hesitam
em confrontar a indústria agrícola e as desigualdades
sociais que estão por trás das epidemias.
18 ECONOMIA
PROTEGER E TAXAR
O valor da natureza pode ser expresso em termos
monetários? A questão está em aberto. As tentativas
de fazê-lo dividem opiniões e até o momento tiveram
pouco sucesso.
20 AGRICULTURA E INSETOS
EQUILIBRANDO PRODUÇÃO,
SUSTENTABILIDADE E BIODIVERSIDADE
Os serviços de polinização, controle biológico e
manutenção da saúde do solo tornam os insetos
vitais para a agricultura. Apesar disso, a atividade é
hoje a principal ameaça para a biodiversidade desses
animais.
22 POLINIZADORES
SEM POLINIZADORES, SEM COMIDA NA MESA
A polinização é a transferência de grãos de pólen
entre órgãos masculinos e femininos das flores. Desse
processo resulta na produção de frutos e sementes que
consumimos na nossa alimentação.
24 AGROTÓXICOS
A LUTA CONTRA A VIDA: UMA GUERRA SEM
SENTIDO E SEM FUTURO
Agrotóxicos são usados para controlar organismos que
podem reduzir o rendimento das colheitas. Eles estão
se tornando cada vez mais eficientes, e sendo cada vez
mais utilizados nas lavouras.
26 AGROTÓXICOS NO BRASIL
AGRONEGÓCIO E AGROTÓXICOS NO BRASIL:
ENVENENANDO OS INSETOS
Os insetos povoam o planeta há cerca de 400 milhões
de anos, mas o uso dos agrotóxicos vem ameaçando
essa existência. No Brasil, maior consumidor
desses produtos no mundo, a situação é ainda mais
preocupante.
28 CARNE
DA FLORESTA AO PASTO, DO PASTO AO
CONFINAMENTO
A demanda mundial por carne produz uma reação
em cadeia de desmatamento, monoculturas e
pulverizações químicas. A natureza está sendo
destruída mais rapidamente nas áreas que são
especialmente ricas em insetos.
30 AGROECOLOGIA
UMA AGRICULTURA AMIGA DOS INSETOS
A agricultura convencional – que faz uso de
agrotóxicos e monocultivos – é uma das grandes
responsáveis pelo declínio no número e na diversidade
de insetos pelo mundo. No entanto, há alternativa para
a convivência e a promoção dessa biodiversidade.
ATLAS DOS INSETOS 2021 5
32 MANEJO AGROECOLÓGICO DE INSETOS
ALIADOS PELA AGROBIODIVERSIDADE
O uso indiscriminado de agrotóxicos é uma das
maiores ameaças à produção agrícola sustentável,
uma vez que ameaçam a biodiversidade,
contaminam o solo, a água e o ar, além de intoxicar
as pessoas.
34 PRAGAS E INIMIGOS NATURAIS
MANTENDO O EQUILÍBRIO
Para limitar os danos que os insetos causam às
plantações, convocamos seus inimigos naturais,
principalmente outros insetos. O controle biológico
de pragas será ainda mais bem-sucedido quanto
maior for a diversidade de espécies e do ambiente.
36 GAFANHOTOS
NUVENS DE GAFANHOTOS NO BRASIL:
UMA AMEAÇA JÁ SUPERADA?
No Brasil, ataques destes insetos vêm sendo
observados desde o século XVII. Mas será que a
intensificação dessa ocorrência não pode estar
relacionada a processos como as mudanças
climáticas ou a expansão da fronteira agrícola?
38 ENGENHARIA GENÉTICA
DO LABORATÓRIO PARA O CAMPO
Os insetos estão entrando na mira da engenharia
genética. Prometendo rendimentos mais elevados,
as empresas anunciam reverter danos causados por
superpragas que a própria engenharia genética
ajudou a criar.
40 MUDANÇAS CLIMÁTICAS
“A CHAPA ESTÁ ESQUENTANDO
PARA OS INSETOS
O aquecimento do planeta prejudica muitas
espécies de insetos, mas torna outras mais
abundantes nas áreas agrícolas. Especialistas
alertam que as pragas causarão danos maiores no
futuro.
42 INSETOS COMESTÍVEIS NO BRASIL
INSETOS QUE ALIMENTAM
Petiscos de larvas de besouros e grilos crocantes?
Adicionar insetos aos nossos menus pode ajudar a
superar os problemas mundiais ligados à produção
de alimentos de origem animal. Mas a sua
produção em nível industrial é controversa: seria
útil ou perigoso?
44 BESOUROS ROLABOSTAS
O QUE “ROLA” NOS ECOSSISTEMAS?
Em um cenário repleto de distúrbios ambientais
e desmatamento de áreas nativas, a preservação
das espécies de besouros rola-bostas no Brasil e no
mundo torna-se urgente. Caso contrário, quem fará
o trabalho de limpeza que eles desempenham?
46 APICULTURA
MUITO ALÉM DO MEL
As abelhas têm valor para os seres humanos desde
a antiguidade, sendo manejadas em diferentes
partes do mundo e por diversas culturas.
48 ABELHASSEMFERRÃO
PERSPECTIVAS PARA AS MUITAS
“MELIPONICULTURAS”
As abelhas-sem-ferrão (ASF) são insetos sociais
que ocupam as regiões tropicais e subtropicais do
Equador, sendo representantes da maior família
de abelhas em número de espécies: mais de 5.880,
uma das mais diversas gamas de comportamento e
morfologia.
50 COMÉRCIO DE INSETOS
ARTRÓPODES EM LINHA DE PRODUÇÃO
A produção de ácaros e insetos benéficos vem
crescendo no mundo, contribuindo para o combate
mais sustentável das pragas ou ajudando na
polinização. Mas os riscos de acidentes ambientais
envolvidos nesse processo exigem rígida aplicação
de protocolos de biossegurança.
52 JOANINHAS
MUITO ALÉM DA COR VERMELHA
E DAS PINTINHAS
Além de carismáticas, as joaninhas têm um
papel fundamental nas relações ecológicas,
sobretudo ao realizar o controle biológico de
insetos indesejáveis. A criação e liberação destes
insetos pode auxiliar na construção de sistemas
de alimentos sustentáveis e ajudar na educação
ambiental de adultos e crianças.
54 AUTORES E FONTES
58 BIBLIOGRAFIA E INFORMAÇÕES
58 SOBRE NÓS
ATLAS DOS INSETOS 2021
6
V
ocê já imaginou como seria um
mundo sem insetos? Sem abelhas,
sem besouros, sem joaninhas, sem
mariposas... De todas as espécies animais
no mundo, 90% são de insetos. Para muitos
vistos como pestes ou pragas, os insetos
são essenciais para a vida no planeta.
Você pode até pensar que esses bichos,
considerados estranhos, não fariam
muita falta. Mas, um mundo sem
insetos, além de menos colorido, seria
um mundo com menos biodiversidade
e, provavelmente, menos segurança
alimentar para os povos. Os insetos
têm muitas funções cruciais no
ecossistema: eles polinizam plantações,
sendo fundamentais para a produção
de alimentos, melhoram a qualidade
dos solos, participam no processo de
decomposição de matéria orgânica e
contribuem com a diversidade genética
de espécies vegetais.
I
nfelizmente, muitas espécies de
insetos estão ameaçadas. Estudos
apontam que haverá uma acentuada
taxa de declínio em 40% das espécies
de insetos nas próximas décadas. O
modelo convencional de agricultura está
fortemente relacionado a esse processo:
esses animais vêm perdendo seus habitats
devido ao desmatamento, às crescentes
monoculturas e ao uso excessivo de
agrotóxicos. Além disso, o desequilíbrio
ambiental e as mudanças climáticas
acentuam a presença de patógenos e
espécies invasoras, que levam à morte
de muitas espécies. Para resguardar os
insetos, os sistemas de agricultura têm que
apostar na (bio)diversidade de novo.
A falta de informação e conhecimento
sobre os benefícios e a importância
dos insetos deixa parte da população
indiferente ao que ocorre com eles. Para
muitos, a justificativa do uso de agrotóxicos
em plantações se deve à necessidade de
combater as chamadas pragas, ignorando
alternativas mais sustentáveis, como o
controle biológico. Os agrotóxicos, além de
exterminarem diversas espécies de insetos,
também contaminam a água, os alimentos
e a nossa terra.
I
ndiretamente, consumimos veneno
sob o argumento de que eles ajudarão
a manter o alimento longe desses
animais. Porém, há insetos que são
responsáveis por grande parte da
polinização e acabam, da mesma forma,
sendo contaminados. Sem insetos não há
comida na mesa!
Assim, com o intuito de estimular o
debate sobre esses animais de seis patas,
ampliando o conhecimento sobre a sua
importância nas relações ecossistêmicas
e na nossa vida, a Fundação Heinrich
Böll lança a edição brasileira do Atlas dos
Insetos. O Atlas apresenta dados e fatos
sobre os insetos no contexto brasileiro e
mundial, destacando os efeitos-cascata
do declínio desses animais em nosso
planeta. A Fundação Heinrich Böll
também quer dar destaque à necessidade
urgente de promoção de políticas públicas
ambientais, agrárias e agrícolas, em
INTRODUÇÃO
Um mundo sem insetos,
além de menos colorido,
seria um mundo com menos
biodiversidade e, provavelmente,
menos segurança alimentar
ATLAS DOS INSETOS 2021 7
Para resguardar os insetos, os
sistemas de agricultura têm que
apostar na (bio)diversidade de novo
âmbito nacional e internacional, dado
a enorme importância desses animais e
o momento de grave perigo que vivem.
Essas políticas teriam que garantir a sua
sobrevivência, em toda sua diversidade.
P
ara tanto, e buscando construir um
material a partir de um conhecimento
produzido em universidades e centros
de pesquisa no país, convidamos uma equipe
composta de especialistas e de representantes
do campo da agroecologia para indicar e
apresentar um conteúdo de qualidade e com
informações precisas.
Agradecemos imensamente a Carlos
Eduardo Oliveira de Souza Leite, Dany
Silvio Souza Leite Amaral, Madelaine
Venzon, Maíra Queiroz Rezende, Michela
Costa Batista, Pedro Henrique Brum Togni,
Ricardo Costa Rodrigues de Camargo e
Tarita Cira Deboni por participarem deste
conselho editorial e contribuírem para dar
vida a este Atlas, assim como aos demais
autores que adaptaram e/ou produziram os
artigos que o compõem.
Acreditamos que o Atlas seja um alerta
para a necessidade de se implementar
políticas públicas que garantam a proteção
dos insetos, enfrentando a mortandade
crescente desses animais e um modelo de
agricultura que prioriza as monoculturas
e o uso excessivo de agrotóxicos. Com isso,
pretendemos colaborar com a proliferação
de ideias e alternativas mais sustentáveis e
agroecológicas. Desejamos que desfrutem
a leitura e que esse material sirva, também,
como uma porta de entrada para o curioso
mundo dos insetos. Sem insetos, não há vida!
Annette von Schönfeld
Joana Simoni
Marcelo Montenegro
Manoela Vianna
Fundação Heinrich Böll
ATLAS DOS INSETOS 2021
8
Cerca de 90% de todas as espécies animais do mundo são
insetos. Eles são o GRUPO MAIS NUMEROSO de todos os
seres vivos e se sentem em casa em todos os ecossistemas
do planeta.
Muitas espécies estão ameaçadas de EXTINÇÃO
sem nem mesmo terem sido NOMEADAS.
A AGROECOLOGIA não utiliza agrotóxicos ou
fertilizantes artificiais. Ela faz uso de princípios
e práticas ecológicas nas culturas para controlar
o número de insetos. Ao mesmo tempo fornece
uma variedade de habitats adequados para
insetos benéficos.
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1
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5
6
SOBRE OS INSETOS,
A AGRICULTURA E O MUNDO
12 BREVES LIÇÕES
A agricultura e a produção de alimentos estão intimamente ligados à
presença de insetos. Eles melhoram a QUALIDADE DOS SOLOS, ajudam
a decompor a matéria orgânica de plantas e animais, POLINIZAM
plantações em todo o mundo e fazem o CONTROLE BIOLÓGICO de pragas.
3
Os insetos polinizam três quartos dos plantios mais
importantes e IMPULSIONAM sua produtividade. Há algumas
espécies que também podem AMEAÇAR as colheitas e os
alimentos armazenados. Porém, a quantidade de insetos
BENÉFICOS são muito mais numerosos e diversos.
A agricultura intensiva, as MONOCULTURAS e os
AGROTÓXICOS ameaçam os insetos: tanto sua
diversidade quanto seus números absolutos estão
diminuindo, especialmente nas áreas agrícolas.
ATLAS DOS INSETOS 2021 9
A comunidade internacional, décadas
atrás, se comprometeu a proteger
os insetos. Mas pouco foi feito e
nenhuma das METAS INTERNACIONAIS
definidas até agora foi alcançada.
Em mais de 130 países os humanos comem insetos.
Eles contêm MUITOS NUTRIENTES que são eficazes
contra a desnutrição.
AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS prejudicam os habitats
dos insetos, especialmente nas regiões quentes.
Em áreas temperadas, o equilíbrio entre os insetos
benéficos e prejudiciais se transforma com as
mudanças climáticas, ameaçando as colheitas.
Os insetos são parte importante do dia a dia
e da CULTURA das populações humanas.
Os insetos podem ser usados como ração para animais, mas isso
ainda não é comum. Alimentar GALINHAS e PORCOS com insetos
dependerá de isso ser considerado ecologicamente sustentável.
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7
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12
INSECT ATLAS 2020/STOCKMAR, ZIYAL
COMER MENOS CARNE protege os insetos. Grande parte da soja usada
para alimentar o gado de criação intensiva vem da América do Sul, onde
paisagens ricas em espécies estão sendo transformadas em monoculturas
9
ATLAS DOS INSETOS 2021
10
O
mundo dos insetos é incrível e diversificado. Ne-
nhum outro grupo de animais desenvolveu uma
gama tão grande de espécies. Nós os encontramos
nas mais variadas formas e tamanhos, e eles brilham em
um arco-íris de tons. Eles podem ser tão grandes quanto sua
mão ou microscopicamente pequenos. Todos eles têm três
pares de pernas: daí o nome científico “Hexapoda”, ou “seis
pés”, a categoria zoológica que classifica os insetos junto
com algumas outras criaturas menos comuns.
Os insetos são frequentemente confundidos com outros
estranhos rastejadores, como ácaros, carrapatos e tatuzi-
nhos-de-jardim. O mesmo vale para centopeias e milípedes,
embora seus nomes (“cem” ou “mil pés”) indiquem que não
podem ser insetos. Caranguejos também não são hexápo-
des pois têm dez patas (incluindo um par de pinças). Às ve-
zes, as aranhas também são chamadas de insetos, embora
tenham oito patas.
Além de todos terem seis patas, os insetos têm várias
outras características em comum. Seus corpos consistem
em três segmentos: a cabeça com as partes da boca e olhos
compostos, formados por milhares de lentes individuais; o
tórax que tem três pares de pernas e, nos insetos voadores,
as asas; e o abdômen, que abriga os órgãos digestivos e re-
produtivos. Os insetos não têm esqueleto interno. Seus cor-
pos são envolvidos por um esqueleto externo, formado por
uma fina camada de quitina que protege o animal da água e
dá estabilidade e flexibilidade ao corpo. Os insetos não têm
pulmões; eles respiram por meio de um sistema de tubos e
bolsas formando traqueias, que percorrem todo o corpo.
Seus órgãos sensoriais, semelhantes a pequenos pelos,
são distribuídos pelo corpo, que permitem aos insetos que
detectem odores, vibrações, temperatura e umidade. Eles
cheiram, provam e sentem com suas antenas. Eles têm um
sistema nervoso simples e seus órgãos internos são banha-
dos em hemolinfa. O aparelho bucal é muito variado, de-
pendendo da espécie e dos tipos de alimentos que ingere.
Os hemípteros, que agrupam os percevejos, pulgões, ci-
garrinhas e moscas-brancas têm um aparato bucal afiado,
semelhante a uma agulha, que usam para perfurar outros
animais ou furar a epiderme das plantas para sugar a sei-
va. As borboletas, por outro lado, têm um apêndice ligado
à cabeça longa e enrolada que usam para sorver alimentos
líquidos de frutas, néctar ou água.
A ciência até agora descreveu cerca de 1,8 milhão de
espécies de animais, plantas e fungos. Os insetos represen-
tam cerca de 70% das espécies animais do mundo e, como
tal, compreendem o maior grupo de todos os seres vivos. A
maioria das espécies de insetos ainda não foi descoberta.
Além dos milhões já catalogados, estima-se que entre 3 e 5
milhões ainda aguardam descoberta, incluindo 1,5 milhão
apenas de besouros. O Brasil abriga a maior diversidade de
insetos do planeta, contanto com aproximadamente 90 mil
espécies, o que corresponde a 9% de todas as espécies conhe-
cidas de insetos. Estimativas de um número real de insetos
indicam que a fauna brasileira pode conter algo entre 500
mil e um milhão de espécies de insetos.
Os estilos de vida e as necessidades de cada espécie va-
riam amplamente em termos de habitats, clima e alimen-
tos. Existem os ditos generalistas, que são flexíveis em sua
dieta, ao lado de especialistas muito mais seletivos: eles de-
pendem de um tipo particular de planta, animal ou habitat.
Um exemplo intrigante é o das figueiras (Ficus spp., Morace-
ae), que são polinizadas exclusivamente pelas vespas-da-fi-
gueira (Agaonidae, Chalcidoidea), que por sua vez dependem
dessa planta para seu desenvolvimento. Os insetos podem
ser encontrados desde o litoral até as altas montanhas. Eles
estão ausentes apenas em mar aberto.
Os insetos passam por vários estágios de desenvolvimen-
to, sendo que a mesma espécie pode ter demandas com-
pletamente diferentes dependendo do estágio em que se
encontra (larval ou adulto, por exemplo). Eles variam com
relação ao habitat que ocupam, as interações ecológicas
que estabelecem e até suas fontes de alimento.
A maioria dos insetos põe ovos que eclodem e passam
por vários estágios larvais, alguns também com o estágio de
IDEIAS INICIAIS
SEIS PATAS NA TERRA
Eles estão na terra, na água e no ar; eles
comem e são comidos; eles polinizam as
plantas, arejam o solo e limpam as folhas: os
insetos são parte integrante dos ecossistemas.
Apenas entre um e quatro por cento chegam à idade adulta.
Chuva, aranhas, louva-a-deus e pássaros dizimam os ovos,
larvas e pupas da borboleta-limão
MORTES RÁPIDAS
Estágios de desenvolvimento e perdas populacionais
típicas da borboleta-limão (
Papilio demoleus
)
INSECT ATLAS 2020/SUWARNO, ZIYAL
adulto
pupa
0
500
1,000
1,500
2,000
2,500
3,000
3,500
ovos 1 2 3
estágios larvais
4 5
3,261
70
A borboleta do sudeste
asiático é uma praga
nas plantações de frutas
cítricas tropicais. As taxas
de mortalidade desde os
ovos até a fase adulta foram
estudadas em 210 arbustos
de tangerina na Malásia.
Indivíduos
ATLAS DOS INSETOS 2021 11
INSECT ATLAS 2020/IPBES
MUITAS ROTAS PARA O MESMO OBJETIVO
Métodos de transferência de pólen das anteras masculinas
em uma  or para o estigma feminino, representação geral
polinização cruzada
(xenogamia)
autopolinização
(autogamia)
polinização pelo vento
(anemo lia)
polinização vizinha
(geitonogamia)
pupa. Alguns tipos, incluindo libélulas, grilos e traças, não
passam pelo estágio de pupa; outros, como abelhas, borbole-
tas e besouros, precisam empupar para produzir um adulto.
Os insetos desempenham vários papeis no ecossistema.
Isso vale também para paisagens antropizadas, aquelas que
foram criadas ou adaptadas por humanos, já que muitas es-
pécies realizam serviços importantes na agricultura.
Uma abelha, por exemplo, pode polinizar até 3.800 fl o-
res em um único dia. Os insetos combatem as pragas: quase
90 espécies são utilizadas na proteção biológica dos plan-
tios. Os insetos também constituem a fonte de alimento de
outros animais, decompõem a matéria orgânica, limpam os
suprimentos de água e mantêm a fertilidade do solo.
Os insetos se alimentam de alimentos de origem animal
e vegetal. Quase todas as lagartas das borboletas comem
plantas e, portanto, algumas espécies que comem plantas
cultivadas não são bem-vindas na agricultura, onde são
consideradas pragas. Predadores como joaninhas e crisopí-
deos que comem outros insetos podem ser úteis como inse-
tos benéfi cos em campos agrícolas.
Alguns grupos de insetos, incluindo formigas, cupins e
gafanhotos, formam comunidades enormes. Um ninho de
formigas na Jamaica pode conter até 630.000 indivíduos
animais. Mais de 3 milhões de indivíduos foram encontra-
dos em um ninho de cupins da América do Sul, e enxames
de gafanhotos podem consistir em mais de um bilhão de
insetos.
Os polinizadores também incluem morcegos, pássaros e
répteis – mas de todos os animais que ajudam a fertilizar as
plantas, os insetos são de longe os mais importantes.
Insetos conhecidos por ordem entomológica
INSECT ATLAS 2020 / STORK, WIKIPEDIA
Borboletas, mariposas
(Lepidoptera)
Mosquitos e moscas
(Diptera)
besouros
(Coleoptera)
Abelhas, vespas, formi-
gas
(Hymenoptera)
Grilos, gafanhotos e
esperanças (Orthoptera)
Outros
Cigarras, cigarrinhas, pulgões e
percevejos
(Hemiptera)
190,000
Oceania
520,000
Paleártico
730,000
Indomalaia
120,000
Neártico
980,000
Afrotrópico
720,000
Australasia
24,000
157,000 155,000387,000 117,000 104,000
1,024,000
2,230,000 Neotrópico
80,000
UM MUNDO CHEIO DE INSETOS
Números estimados de espécies por regiões geográ cas e por classi cação considerando as principais ordens
ATLAS DOS INSETOS 2021
12
S
ubestimados. Isso descreve as atitudes dos humanos
em relação aos insetos. Nós subestimamos o número
de indivíduos e deixamos de apreciar sua diversida-
de de tipos, estilos de vida e habitats. Subestimamos sua im-
portância para a economia e a medicina. Quando Gregor
Samsa, o protagonista da novela de Franz Kafka, desperta
após um sonho inquieto metamorfoseado em uma barata,
ele não considera a transformação como uma melhoria.
Os primeiros humanos consideravam os insetos uma
fonte de alimento entre muitas. Para caçadores e coletores,
eles eram uma importante fonte de proteína. Os aborígenes
da Austrália ainda reverenciam as cigarras, as formigas-de-
mel e as larvas pequeninas como animais totêmicos. Em
muitas partes do mundo, a enorme capacidade reprodu-
tiva dos insetos deixou vestígios nos mitos de criação nos
quais eles desempenham um papel central. As formidáveis
habilidades de construção e as sociedades bem organiza-
das de muitas espécies certamente contribuíram para isso.
As abelhas sempre tiveram um papel especial para a
humanidade. Nas culturas primitivas da Índia e da África,
tribos diziam ter a habilidade de lidar bem com insetos
com ferrão – então, as abelhas serviam como totens tribais.
Pinturas rupestres que datam de 8.000 anos retratam como
as pessoas coletavam mel das abelhas. Muito antes da des-
coberta da beterraba, da cana-de-açúcar ou da sacarina, o
mel era a única fonte importante de doçura. Como o mel
silvestre é difícil de obter, os humanos provavelmente co-
meçaram a criar abelhas em algum momento entre 5.000 e
7.000 anos atrás. Essa relação íntima se reflete nos hierógli-
fos egípcios, nas colmeias estilizadas, na heráldica medie-
val e nos desenhos animados.
A reverência dos antigos egípcios pelo escaravelho sa-
grado é inicialmente um pouco mais difícil de entender. O
escaravelho é uma espécie de besouro que vive do esterco
de animais maiores, também conhecido como rola-bostas.
Apesar dessa predileção nada apetitosa, o escaravelho era
embalsamado com a maior reverência. Sua imagem artísti-
ca decorava os túmulos dos faraós. De fato, o grande número
de espécies de rola-bostas é parte essencial do ecossistema.
Sem eles, o solo seria enterrado sob uma camada profunda
de esterco não decomposto, especialmente depois que os
humanos começaram a criar gado em grande número.
Conforme os humanos deram seu grande salto cultural
da vida nômade para a vida sedentária, eles o fizeram de
mãos dadas com insetos; ou melhor, de mãos no tarso – o
último segmento da perna de um artrópode. Foram os ser-
viços de polinização prestados por dezenas de espécies de
insetos que possibilitaram a prática da agricultura.
É por isso que a história da agricultura é também a his-
tória do manejo de pragas. Os enxames de gafanhotos eram
uma catástrofe tão natural que eram vistos como um casti-
go dos deuses. No século XX, surtos de besouros da batata
foram retratados na propaganda como armas biológicas
desenvolvidas pelo inimigo.
HISTÓRIA
DE SAGRADOS A ODIADOS,
MAS SEMPRE IMPRESCINDÍVEIS
A relação entre humanos e insetos tem
sido difícil há muito tempo. A história da
agricultura é em parte a história do manejo
de pragas. Só há relativamente pouco tempo
passamos a apreciar o valor dos insetos como
polinizadores.
Como eram os primeiros animais com simetria bilateral?
Podemos apenas supor olhando para espécies muito mais
recentes. As reconstruções mudam com quase todas as novas
descobertas.
ANCESTRAIS COMUNS
Representação esquemática da evolução, ramos selecionados
com nomes comuns e
Bilateria
como o elo mais recente entre os
insetos e os humanos
INSECT ATLAS 2020/WIKIPEDIA, ZIYAL
A maior semelhança entre humanos e insetos: ambos são bilateralmente
simétricos ao longo do comprimento de seus corpos. Eles têm os lados esquerdo
e direito que são imagens espelhadas um do outro, e as extremidades anterior
e posterior. Há cerca de 800 milhões de anos, esses Bilateria se separaram
de outros animais. Cerca de 680 milhões de anos atrás, desenvolveram-se os
Protostomia, os predecessores dos insetos, junto com os Deuterostômios, dos
quais os vertebrados e, eventualmente, os humanos surgiram. Cerca de 370
milhões de anos atrás, os insetos foram as primeiras criaturas que podiam voar.
Três a quatro milhões de anos atrás, os humanos chegaram com sua própria
forma inovadora de locomoção: eles podiam andar sobre duas pernas.
bactérias
coníferas
musgos
fungos
palmeiras
algas verdes
leveduras
plantas oridas
samambaias
bananas
gramíneas
água-viva
lagartos
moluscos
milípedes
crocodilos
insetos
iguanas
esponjas
cobras
crustáceos
pássaros
baleias
gado
humanos
chimpanzés
marsupiais
anfíbios
peixe
estrela do mar
ATLAS DOS INSETOS 2021 13
Além de comer as lavouras e os depósitos de grãos, os
insetos também podem causar danos pela transmissão de
doenças de plantas. Cigarrinhas e pulgões que sugam a sei-
va das plantas são responsáveis pela transmissão de 90% dos
vírus que causam doenças nos vegetais. A filoxera, um inse-
to minúsculo com apenas um milímetro e meio de compri-
mento, chegou da América do Norte no século XIX e rapida-
mente devastou um terço das regiões vinícolas da França.
Foi controlado apenas quando os porta-enxertos resisten-
tes da América do Norte também foram introduzidos.
No século XX, produtos químicos como o DDT tiveram
um sucesso retumbante, mas não sem prejudicar outros
animais, como pássaros e mamíferos, e danificar biótopos
inteiros. Rachel Carson descreveu essas correlações em
seu livro “Primavera silenciosa”, publicado em 1962, que
é considerado o nascimento do movimento ambientalista
moderno. A agroindústria gastou grandes somas para en-
frentar as descobertas científicas contidas neste livro – um
paralelo interessante com o atual debate sobre as mudan-
ças climáticas.
Os insetos afetaram e afetam profundamente a hu-
manidade e vice-versa. Ao destruir habitats e por meio da
mudança climática, nós, humanos, podemos levar muitas
espécies de insetos à extinção. As consequências para a hu-
manidade são graves, tanto pelos desequilíbrios ecológicos
que isso causaria, quanto pela perda de substâncias bio-
lógicas ainda desconhecidas e características dos insetos
que as gerações futuras poderiam ser capazes de usar. Mas
a adaptabilidade e resiliência de muitos insetos são enor-
mes: eles podem suportar altas doses de radiação e desen-
volver tolerância a quase todo tipo de veneno. É provável
que, quando nossa longa história de sucesso compartilha-
do atingir seu capítulo final, sejam os insetos que evoluam
no futuro – não nós.
O besouro da batata do Colorado foi a ameaça mais significativa
ao abastecimento alimentar da Europa no século XX. Desde
então, atingiu Kamchatka, no Extremo Oriente russo.
As pragas bíblicas são hoje frequentemente explicadas como
sendo o resultado de condições ecológicas instáveis. Com seus
ciclos de vida curtos e rápida sobreposição de gerações, os
insetos podem se adaptar rapidamente.
DEZ PRAGAS BÍBLICAS  PRINCIPALMENTE O TRABALHO DE INSETOS
Teorias cientícas sobre um relatório antigo
CHEGADA INDESEJADA
Propagação do besouro da batata do
Colorado do porto de Bordeaux
1926
1931
1936
1941
1946
1951
1956
1960
1964
causado diretamente por insetos
indiretamente / possivelmente
causado por insetos
causas vulcânicas, anfíbias, fúngicas
avistamentos individuais
(selecionados, 1877–1917)
INSECT ATLAS 2020/SPEKTRUM.DE, WIKIPEDIA INSECT ATLAS 2020/WIKIPEDIA
Bordeaux
Os mosquitos infestam humanos e
animais: como os anfíbios morreram,
os mosquitos têm poucos inimigos
naturais. Sua população explode.
A peste mata todos os cavalos,
camelos, gado e ovelhas: o grande
número de insetos pica animais, cau-
sando feridas, infecções e mortes.
Ferve em pessoas e animais:
Os humanos também morrem de úlce-
ras causadas por picadas de insetos.
O granizo mata humanos e animais:
erupções vulcânicas, mas também
são possíveis tempestades violentas
com granizo.
Gafanhotos cobrem a terra: as
pragas podem acontecer a qualquer
momento. A migração de gafanhotos
pode ter sido desencadeada por
cinzas vulcânicas
A escuridão durou três dias: talvez
causada por cinzas vulcânicas ou
um enorme enxame de gafanhotos
escurecendo os céus.
Morte de todos os primeiros lhos
de humanos e animais: os primeiros
lhos e animais recebem as primeiras
e maiores refeições. Por causa da es-
cassez de alimentos, eles comem mais
dos cereais usuais, mas estes estão
contaminados com ergot, um fungo
tóxico que se prolifera em grãos que
não são adequadamente secos ao sol.
Êxodo, o segundo livro do Antigo
Testamento, descreve como o Deus
de Israel puniu o faraó porque ele
não permitiu que os israelitas se
afastassem da escravidão. Depois de
dez pragas, o faraó cedeu. Os eventos
podem ser baseados em uma erupção
vulcânica no segundo milênio a.C. A
pesquisa histórica sobre o Êxodo é um
campo cientíco por si só.
A água se transforma em sangue:
bactérias tóxicas colorem a água de
vermelho, ou poeira de pedra-pomes,
depois que uma erupção se instala na
água ou vem como sedimento pelo
Nilo até o Baixo Egito.
Os sapos se unem à terra: os
anfíbios fogem da água tóxica do Nilo
e morrem..
Moscas picadoras enchem as casas:
as moscas põem ovos nas rãs mortas
e se multiplicam.
ATLAS DOS INSETOS 2021
14
C
omparados a plantas, mamíferos, pássaros e pei-
xes, os insetos são pouco pesquisados e apenas uma
pequena fração foi classificada. Os cientistas con-
cordam que várias espécies bem estudadas, como alguns
grupos de mariposas e de borboletas (como as borboletas
monarca), e algumas espécies de abelhas e besouros es-
tão em declínio – especialmente na Europa Ocidental e
na América do Norte. Também há consenso de que a bio-
diversidade de insetos está diminuindo em muitas partes
do mundo, enquanto o número e a biomassa dos animais
variam muito dependendo da região, das mudanças climá-
ticas e do uso do solo, bem como da adaptabilidade de cada
espécie.
Não há um número confirmado cientificamente para o
declínio global de insetos. Uma primeira revisão da Univer-
sity of Sydney, em 2018, compilou informações de estudos
de pesquisa em várias regiões, majoritariamente no Hemis-
fério Norte, tendo em vista a escassez de estudos a longo
prazo nas regiões tropicais. Neste estudo, descobriu-se que
as populações de 41% das espécies estão em declínio e um
terço de todas as espécies de insetos estão ameaçadas de
extinção, embora estes resultados não possam ser comple-
tamente extrapolados para os trópicos.
Apesar de alertarem que as evidências disponíveis são
relativamente escassas, os pesquisadores estimaram que a
biomassa total dos insetos está diminuindo 2,5% ao ano. A
maioria das pesquisas incluídas na revisão veio da Europa,
algumas da América do Norte e poucas da Ásia, África ou
América Latina. A existência dessas lacunas foi mal recebi-
da. Alguns críticos apontaram que os pesquisadores deram
muito pouca atenção aos estudos que mostraram mudan-
ças positivas no número de insetos. A Plataforma Intergo-
vernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e
Serviços de Ecossistemas (IPBES) afirma que a proporção de
espécies de insetos ameaçadas de extinção em todo o mun-
do é desconhecida. Mas, com base nos dados disponíveis,
esta organização internacional estima cautelosamente
que 10% das espécies estão ameaçadas de extinção.
Na Europa e na América do Norte, pesquisas mostram
que o número e a diversidade de mariposas, borboletas,
besouros, abelhas selvagens e outros insetos estão clara-
mente diminuindo, embora com taxas diferentes em cada
região. Ao mesmo tempo, pesquisas em regiões mais frias
descobriram que o número de insetos está aumentando.
Pesquisas na Rússia revelaram que a população de colêm-
bolos na tundra aumentou com a elevação da temperatura.
Os insetos estão desaparecendo principalmente de ter-
ras cultivadas e pastagens intensamente usadas. Desde o
início dos anos de 1960, na Nova Zelândia, a população de
mariposas nas pastagens caiu 60% e nas áreas de uso inten-
sivo com alta densidade de gado em até 90%. A Academia de
Ciências Leopoldina afirma que a frequência das espécies
nas paisagens agrícolas da Alemanha caiu cerca de 30%.
Em contraste, nas florestas, pântanos e assentamentos, os
números permaneceram estáveis ou até aumentaram.
O consenso científico é que a agricultura tem uma in-
fluência negativa sobre os insetos. Terras agrícolas em todo
o mundo estão sendo usadas cada vez mais intensamente.
As aplicações de fertilizantes e pesticidas aumentaram sig-
nificativamente na tentativa de obter rendimentos mais
elevados por hectare. Acima de tudo, porém, o tipo de uso
do solo vem mudando. Em apenas 300 anos, entre cerca de
1700 e 2007, as áreas de terras aráveis e pastagens aumen-
taram cinco vezes, com grandes expansões especialmente
no século XIX e início do século XX. Os humanos limparam
florestas, drenaram pântanos e converteram estepes e sa-
vanas em campos e pastagens. Animais selvagens e espé-
cies de plantas que requerem habitats não perturbados
diminuíram ou desapareceram.
DECLÍNIO DOS INSETOS
UMA CRISE SEM NÚMEROS
O declínio nas populações de insetos e no
número de espécies está bem documentado,
embora a evidência seja irregular fora da
Europa e da América do Norte. Os cientistas
concordam que tanto a expansão quanto a
intensificação da agricultura parecem ser as
principais culpadas.
Besouros terrestres na Nova Zelândia
são ameaçados principalmente pela expansão
de pastagens para gado leiteiro
QUANTO MENOR, MAIS VULNERÁVEL
Comparação entre espécies de besouros terrestres (
Carabidae
) e
outros besouros na Nova Zelândia, em porcentagem por características
pelo tamanho do corpo em milímetros*
por tipo de mobilidade
INSECT ATLAS 2020/LESCHEN ET AL., ZIYAL
*parcela de besouros terrestres de todos os tipos de besouros estudados: 40,9 por cento
66.7
42.2
15.9
25.0
31.8
36.4
besouros terrestres (que voam)
mais de 30
20–29
10–19
menos de 10
besouros que não voam
em perigo fora de perigo
ATLAS DOS INSETOS 2021 15
Entre 1980 e 2000, mais da metade das novas terras
agrícolas nos trópicos foi criada com o desmatamento de
florestas. Entre 2000 e 2010, o número era de 80%. Dois paí-
ses, Indonésia e Brasil, foram responsáveis por mais da me-
tade dessa perda de floresta tropical. Mas é precisamente
nos países tropicais da América Latina e da Ásia que o nú-
mero e a diversidade de insetos são especialmente altos.
A demanda por produtos agrícolas está aumentando
em todo o mundo: a Organização para Alimentos e Agricul-
tura das Nações Unidas prevê um aumento de 60% até 2050.
Isso acontecerá de mãos dadas com uma expansão de ter-
ras agrícolas – dependendo do aumento da produção por
unidade de área – de até 100 milhões de hectares. Mas isso
poderia ser evitado. Se o mundo desenvolvido consumisse
menos carne e se os produtos agrícolas não fossem mais
usados como combustível, a pressão sobre as áreas de terra
poderia ser reduzida consideravelmente. Além disso, a di-
minuição na perda (fase de pós-colheita e pré-consumo) e
desperdício (fase de pós-consumo) de alimentos, também
pode contribuir para alterar esse cenário, tendo em vista
que 1/3 dos alimentos produzidos globalmente é perdido
ou desperdiçado, o que aumenta não só a demanda por ali-
mento, como também os impactos ambientais relaciona-
dos com a produção.
Mais da metade de todas as publicações especializadas
apontam as mudanças no habitat como o fator mais
importante no declínio das populações de insetos.
Uma grande quantidade de pesquisas sobre insetos enfoca
espécies, grupos e áreas geográficas particulares. Ainda assim,
é possível ver algumas tendências globais.
HABITAT NECESSÁRIO
Principais causas do declínio nas populações
de insetos de acordo com a literatura cientíca,
distribuição em porcentagem
INSECT ATLAS 2020/SÁNCHEZBAYO/WYCKHUYS
poluição 25.8
agrotóxicos
fertilizantes articiais
outros poluentes
15.8traços biológicos
traços ecológicos
patógenos
traços genéticos
mudanças no habitat53.5
agricultura intensiva
urbanização
desmatamento
drenagem
incêndio
espécies introduzidas
aquecimento 5.0
23.9
10.7
8.8
12.6
10.1
3.1
12.6
1.9
1.3
6.3
1.9
1.9
As estratégias para combater as
principais causas do declínio dos
insetos devem ser combinadas.
Segundo os autores de um meta
estudo, a forma mais ecaz de
reverter o declínio dos insetos é a
recriação de seus habitats, a redução
drástica do uso de agrotóxicos e a
transição para métodos de cultivo
menos intensivos.
EVIDÊNCIAS CIRCUNSTANCIAIS, MAS SUBSTANCIAIS
Declarações sobre o declínio de insetos em 73 estudos (2019)
INSECTSATLAS 2020/SÁNCHEZBAYO/WYCKHUYS
18
1
1
1
2
43 2
1
1
1
1
1
distribuição geográca dos estudos
insetos 31 41 73
terrestres
aquáticos
28
33
38
44
56
17
besouros
(Coleoptera)
efemérteros
(Ephemeroptera)
vespas, abelhas, formigas
(Hymenoptera)
borboletas, mariposas
(Lepidoptera)
libélulas
(Odonata)
gafanhotos, grilos
(Orthoptera)
mosca da pedra
(Plecoptera)
grumixá
(Trichoptera)
34
27
44
34
13
63
49
37
46
53
37
49
35
68
12
3
21
17
6
1
7
1
29
ameaçados em declínio número de estudos
ATLAS DOS INSETOS 2021
16
A
agenda da Eco-92 tratou não apenas da proteção do
clima, mas também da biodiversidade. A Convenção
sobre Diversidade Biológica foi criada para conservar
a multiplicidade de espécies ao redor do mundo. Assinada
por mais de 160 países, é o mais abrangente acordo inter-
nacional de proteção da natureza e dos recursos naturais.
Mas, apesar de alguns avanços, a meta de conter a perda de
diversidade biológica até 2010 não foi alcançada, e a pror-
rogação do prazo até 2020 também falhou.
O Conselho Mundial de Biodiversidade (IPBES) foi fun-
dado em 2012 para fornecer aconselhamento científico aos
formuladores de políticas no campo da diversidade bioló-
gica e serviços do ecossistema. Seu primeiro relatório, em
2016, analisou a situação dos polinizadores e da produção
de alimentos. O documento apresentou um declínio dra-
mático no número de polinizadores tanto em termos de di-
versidade quanto em quantidade de espécies individuais. O
IPBES apontou a agricultura intensiva e o uso associado de
agrotóxicos como ameaças aos insetos e fez um apelo por
uma transformação em toda a sociedade para deter a perda
de biodiversidade.
É bem ilustrativo o caso do Brasil, em que há o aumen-
to exponencial de registros de agrotóxicos no país, princi-
palmente a partir de 2016. Só em 2019, o governo federal
liberou 503 novos agrotóxicos, sendo 41% altamente ou ex-
tremamente tóxicos. Como resultado, no país e no mundo,
diversas iniciativas têm sido propostas por organizações e
grupos para colocar a proteção dos polinizadores na agen-
da política. Um grupo de países lançou a iniciativa conheci-
da como “Promova Polinizadores, a Coalizão dos “Dispostos
a Polinização”, com o objetivo de estabelecer um sistema
de monitoramento e desenvolvimento de pesquisas, cam-
panhas de informação e medidas de proteção para insetos
e seus habitats. Embora esse não seja um conjunto desafia-
dor de requisitos, menos de 30 membros se inscreveram na
coalizão.
No Brasil, com o apoio de quase um milhão e oitocen-
tas mil pessoas, a campanha #chegadeagrotoxicos, pro-
movida pela Campanha Contra os Agrotóxicos e Pela Vida,
mobiliza uma série de organizações da sociedade civil que
buscam o fim do uso dessas substâncias. Dentro das inúme-
ras iniciativas, destaca-se a “Salve as abelhas”, organizada
pelo Greenpeace, que promove o debate sobre o combate
aos agrotóxicos a partir do enfoque sobre os impactos na
vida das abelhas. Entre dezembro de 2018 e março de 2019,
mais de meio bilhão de abelhas foram encontradas mortas
em diversas partes do país, que é um dos líderes na utiliza-
ção de agrotóxicos no mundo.
As diferentes organizações da sociedade civil que com-
põem a Campanha Contra os Agrotóxicos vêm defendendo
a aprovação de uma política nacional de redução de agro-
tóxicos (PNaRA), que está em discussão no parlamento. Esse
conjunto de leis e iniciativas serviria de bússola para o go-
verno fazer uma transição do modelo agrícola atual para
um que garanta uma alimentação saudável a todos, com
proteção da biodiversidade e dos polinizadores.
Há, entretanto, uma movimentação de grupos que de-
mandam uma ampliação ainda maior no uso dos agrotó-
POLÍTICA
ENVENENANDO O CAMPO,
A CIDADE E AS POLÍTICAS
Os formuladores de políticas públicas têm
dado respostas frágeis às questões envolvendo
os insetos e sua relação com a sociedade e
a natureza. Eles hesitam em confrontar a
indústria agrícola e as desigualdades sociais
que estão por trás das epidemias
Para lidar com o crescimento de doenças cujos vetores
são insetos, é preciso enfrentar a preocupante questão do
saneamento básico no Brasil.
RANKING DO SANEAMENTO NO BRASIL
Dados do SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre
Saneamento) de 2019, publicação anual que avalia os indi-
cadores de acesso à água potável, coleta e tratamento dos
esgotos nos cem maiores municípios do país.
...equivalente à população
da Arábia Saudita.
ATLAS DOS INSETOS 2021 / SNIS 2019
...o que representa jogar
na natureza, todos os dias,
5,3 mil piscinas olímpicas
de esgotos sem tratamento.
100
milhões
brasileiros sem acesso
ao serviço de coleta de
esgotos no país...
...equivalente à
população do Egito.
35
milhões
brasileiros que não têm
acesso à água potável...
49%
dos esgotos gerado no
Brasil não são tratados...
ATLAS DOS INSETOS 2021 17
xicos, a partir do desmonte de políticas regulatórias e de
proteção socioambiental. Tal conjunto de medidas e proje-
tos de lei ficou conhecido como “Pacote do Veneno”. A re-
percussão dos potenciais impactos deste pacote alcançou a
esfera das Nações Unidas, que emitiu uma nota alertando
para os perigos da proposta.
O conflito entre a necessidade de proteger os insetos e
os interesses da indústria agrícola é evidente. O Relatório
Temático sobre Polinização, Polinizadores e Produção de
Alimentos no Brasil, produzido pela Plataforma Brasilei-
ra de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (PBBES) em
2019, apontou a necessidade de uma política nacional de
polinizadores de forma ampliada, ancorada na conserva-
ção da biodiversidade, e conectada a diferentes regula-
mentos e políticas, como o Plano Nacional de Agroecologia
e Produção Orgânica (PNAPO) e a Comissão Nacional de
Biossegurança, possibilitando uma integração de agendas
e ações transversais de diversas áreas, como meio ambien-
te, agricultura e ciência.
Falar da interlocução entre políticas públicas e insetos
no Brasil também traz à tona um outro tema de extrema
importância. Trata-se das muitas doenças cujos vetores são
insetos e que ainda apresentam níveis alarmantes no país,
como a Dengue, a Zika e a Chikungunya. Entretanto, cul-
par apenas o mosquito, como o Aedes aegypti, por exemplo,
é uma análise simplista, para não dizer equivocada.
Estudos apontam que a proliferação de alguns mosqui-
tos está relacionada com as mudanças climáticas e, nos tró-
picos, o aquecimento torna o ambiente mais propício para
a propagação desses vetores. Do mesmo modo, os desma-
tamentos (que também vêm atingindo níveis exorbitantes
no país) contribuem para um desequilíbrio ambiental, ao
reduzir ou fragmentar habitats desses insetos. Há evidên-
cias que apontam uma relação entre aumento das tempe-
raturas e dos desmatamentos e a elevação na transmissão
de doenças cujos principais vetores são mosquitos, como a
Malária, a Febre Amarela e a Leishmaniose. A redução das
áreas de floresta e a urbanização desordenada (caracterís-
ticas comuns a muitos países da América Latina) desequili-
bram e expandem a distribuição geográfica desses insetos,
que, assim, tornam-se inimigos.
Mas seriam os inseticidas os melhores meios para lidar
com essa questão de saúde pública? Na verdade, não. Além
dos fatores relacionados à degradação ambiental, a ocor-
rência dessas doenças vetoriais também está intimamente
ligada a fatores sociais. Onde e como vivem as populações
mais vulneráveis a essas enfermidades? Em geral, nos luga-
res onde menos chegam as políticas públicas de saneamen-
to básico, coleta de lixo, infraestrutura urbana.
Assim, com a urgência cada vez maior de se debater e
propor soluções que coloquem o país e o mundo no rumo
correto da defesa da biodiversidade e da justiça social,
fica a questão: estamos passando da hora de aliar ciência
e política pela proteção ambiental e pela redução das de-
sigualdades sociais. Seja no contexto da agricultura, seja
nas políticas pela promoção da saúde pública, o que de-
vemos combater são as injustiças socioambientais, não os
insetos.
As tendências positivas ou negativas
(de acordo com o entendimento atual) mostram as
consequências das políticas agrícolas, ambientais e
climáticas para a biodiversidade.
CONSELHOS SOBRE POLÍTICAS DE POLINIZAÇÃO
Inuências individuais e combinadas sobre polinizadores e polinização, visão geral simplicada da
Plataforma de Política Cientíca Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), 2017.
número e abundância
de polinizadores
tendência decrescente
tendência crescente
ambas as tendências
INSECT ATLAS 2020/IPBES, SETTELE
maior
mortalidade
direta
maior
suscetibilidade
para a doença
produtos químicos, poluentes, doenças
mudanças
em habitats
adequados para
plantas selvagens,
colheitas e
polinizadores
mudança climática
polinização
legítima doenças
roubo de
néctar
competição com
polinizadores
selvagens por
locais de alimen-
tação e ninhos
Abelhas
pesticidas,
convencionais,
intensivo
rotação de
colheitas
orgânico, em
pequena escala,
diverso
uso da terra, agricultura
substituindo
espécies
nativas
perda ou ganho
em locais de
ninho
mudança
de fontes de
alimento
introdução de
predadores e
doenças que
roubam néctar
espécies invasivas plantas e colheitas
nativas
polinizadores
selvagens
ATLAS DOS INSETOS 2021
18
V
ocê já se perguntou qual o valor dos insetos? Para que
serve um cupim na natureza? Ou a formiga-tecelã? E
qual papel das joaninhas ou das abelhas? Todos os in-
setos possuem funções específicas que são essenciais para a
sustentabilidade dos ambientes naturais. Dentre os insetos,
a abelha, Apis mellifera, destaca-se pela polinização, essen-
cial na frutificação das plantas e da variabilidade genética.
Segundo Albert Einstein, caso ocorresse a extinção das
abelhas, a humanidade só existiria por mais quatro anos
no planeta, denotando claramente a importância delas na
produção de alimentos e na manutenção da vida. Diante da
grande diversidade de plantas existentes, a maioria depen-
de diretamente da polinização. Na região dos trópicos, cerca
de 94% das plantas são polinizadas por algum tipo de inseto.
As abelhas possuem grande importância para a agricul-
tura, visitando mais de 90% dos cultivos agrícolas, contri-
buindo com vários benefícios advindos dos polinizadores,
como o aumento na produtividade e diversas melhorias
na qualidade dos frutos (tamanho, sabor mais acentuado,
mais quantidade de sementes, por exemplo).
A maioria dos estudos sobre o valor econômico dos inse-
tos trata apenas do trabalho de polinização que eles fazem.
O motivo é simples: se os insetos não fizessem esse trabalho,
não teríamos produtos de cultivos agrícolas. Olhar para os
preços e volumes desses produtos é a maneira mais fácil de
calcular uma perda potencial. Porém, outras atividades,
como a decomposição do esterco feita pelos escaravelhos
(besouros rola-bosta) e a proteção dos cultivos pelas joani-
nhas também contribuem para a economia. A OCDE (Orga-
nização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico)
também aponta para a questão da proteção da biodiversi-
dade – e dos insetos inclusos nessa biodiversidade. No pe-
ríodo entre 1997 e 2011, a organização calcula que o pre-
juízo causado pelo fracasso de seus membros na atuação
em relação a essa questão tenha sido de 4 a 20 milhões de
dólares. Globalmente, o valor econômico da polinização
por insetos é estimado entre 235 e 577 bilhões de dólares
americanos por ano. Na União Europeia, cerca de 12% dos
lucros do setor agrícola dependem disso.
No Brasil, calcula-se que a polinização relacionada à
economia agrícola apresenta um valor anual aproxima-
damente de US$ 12 bilhões. Deste montante, a poliniza-
ção contribui com cerca de 30% do valor total da produção
referente ao grupo das culturas que são dependentes dos
polinizadores, e com 13% do valor total da produção agrí-
cola brasileira. Nos pomares de citricultura, as abelhas são
responsáveis por 66% da polinização das laranjeiras, e há o
aumento da produção de laranjas em 35,3% devido à polini-
zação realizada por esses insetos.
Essa aritmética econômica sobre o valor dos serviços de
insetos visa facilitar decisões políticas racionais, basean-
do-se no pressuposto de que maiores perdas econômicas
podem ser evitadas por meio de políticas sensatas. A socie-
dade civil muitas vezes critica o uso de tais cálculos para os
chamados “serviços ambientais”, argumentando que eles
promovem soluções baseadas no mercado, como o comér-
cio de certificados e pagamentos de indenização por pro-
blemas ecológicos.
Alguns propõem incluir a natureza no mercado porque
atribuir-lhe uma etiqueta de preço significa que não pode
ser explorada ou destruída livremente. Outros criticam exa-
tamente essa ideia e exigem que a natureza seja protegida
por si mesma, advogando contra o uso de critérios econô-
micos e a favor do uso de medidas puramente regulatórias.
Cerca de 80 países do mundo contam com instrumen-
tos econômicos para proteger a biodiversidade, em geral,
ECONOMIA
PROTEGER E TAXAR
O valor da natureza pode ser expresso em
termos monetários? A questão está em aberto.
As tentativas de fazê-lo dividem opiniões e até
o momento tiveram pouco sucesso.
Para lidar com ataques de pragas, os agricultores têm uma
escolha: eles podem aplicar agrotóxicos e, assim, incorrer em
mais custos, ou podem introduzir formigas-tecelãs para um
econômico controle biológico.
AS EFICIENTES FORMIGASTECELÃS
Valor agregado por árvore com o uso de inseticidas ou
formigas-tecelãs (
Oecophylla smaragdina
) para controlar pragas
em pomares de manga, Austrália, em dólares australianos
INSECT ATLAS 2020/PENG, ZIYAL
custo
lucro usando inseticidas
lucro com o uso de formigas
e solução de sabão
perda
As formigas-tecelãs vivem em árvores frutíferas e manguezais. Elas defendem
seu habitat contra pragas de plantas por meio de picadas e secretando ácido.
Elas se alimentam de insetos e cochonilhas para o melado que produzem. Onde
estão presentes, crescem mais mangas grandes de alta qualidade, porque as
formigas mantêm os outros insetos afastados. Um estudo de campo de 3 anos
em mangueiras na Austrália descobriu que, apesar do custo de estabelecê-las
nas árvores, depois de um ano, as formigas-tecelãs já eram mais ecazes do
que o uso de inseticida. Ocasionalmente (duas vezes por ano) era necessário
usar uma solução fraca com sabão para controlar cochonilhas.
ano 1 ano 3ano 2
14.48
17.90
27.41
11.29
3.97
14.48
ATLAS DOS INSETOS 2021 19
ou os insetos, em particular. Um exemplo proeminente e
bem-sucedido é o imposto sobre agrotóxicos da Dinamar-
ca, que levou à redução pela metade do uso de agrotóxicos
entre 2013 e 2015, e rendeu 70 milhões de euros, que foram
usados para compensar os agricultores dinamarqueses por
perdas na produção.
O Brasil caminha na direção oposta, aplicando isenções
de tributos ou redução de imposto para os agrotóxicos, por
ainda considerá-los “produtos essenciais”. A sociedade ci-
vil tem questionado essa isenção e buscado debater a ne-
cessidade de taxá-los como forma de desencorajar seu uso
(como é feito com o álcool e o tabaco). Incentivar alternati-
vas ao agrotóxico, como o uso de “inimigos naturais”(como
insetos, ácaros, fungos, bactérias, etc.) que se alimentam do
organismo praga pode ser outra solução que valoriza o pa-
pel dos insetos e os protege.
Embora o número e a área de reservas ecológicas este-
jam crescendo no mundo todo, as populações de insetos
estão diminuindo. Isso mostra que, devido a sua extensão,
as áreas agrícolas devem ser mantidas como habitats de
insetos. As áreas protegidas agora cobrem 20 milhões de
quilômetros quadrados, ou 15% da superfície terrestre do
mundo. No entanto, elas ainda não conseguem compensar
os efeitos negativos da agricultura em grande escala. E a
agricultura intensiva também é permitida em muitas áreas
supostamente protegidas. Conclusão: uma combinação de
ambos – incentivos com subsídios por um lado (como a cria-
ção de políticas de proteção à diversidade de insetos poli-
nizadores) e um conjunto de regras com proibições e obri-
gações por outro (com regras mais rígidas que combatam o
uso excessivo de agrotóxicos) – é necessária para proteger
os insetos nas terras agrícolas.
A esperada introdução de um imposto sobre agrotóxicos, em
2014, na Dinamarca, levou à sua estocagem em 2012. Desde
2014, a carga tóxica anual de agrotóxicos caiu em um terço.
É difícil calcular quanto dinheiro é usado para a proteção
da biodiversidade. Mas é claro que muito mais recursos de
impostos vão para o apoio de medidas que a ameaçam.
A FAVOR E CONTRA A NATUREZA
Dez “grandes” programas de apoio à biodiversidade, compilados pelo grupo de países desenvolvidos da OCDE, e uxos nanceiros anuais
estimados de medidas de política que ameaçam ou promovem a biodiversidade, em comparação em dólares americanos (2012 a 2018)
MEIA VOLTA
A “carga tóxica” de pesticidas vendidos na Dinamarca antes e depois da
introdução de um imposto sobre agrotóxicos em 2014, em 10.000 pontos*
*ingredientes ativos de pesticidas em toneladas, multiplicados por um valor
numérico medindo 15 parâmetros que reetem a toxicidade de cada substância
INSECT ATLAS 2020/PAN INSECT ATLAS 2020/OECD
2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015 2016
5
10
15
20
25
30
35
40
0
persistência ambiental
toxicidade para o ecossistema
toxicidade para
humanos / mamíferos
Ameaças à biodiversidade: subsídios
globais para combustíveis fósseis e uso
de água, e apoio à produção agrícola e
pesqueira potencialmente prejudicial ao
meio ambiente em países desenvolvidos 927 bilhões
Apoio à biodiversidade (estimado):
orçamentos multilaterais nacionais, assistência
ao desenvolvimento com componentes de
sustentabilidade, conversão dívida-natureza,
nanciamento de fundações e lantropia,
apoio direto à biodiversidade, compensações e
taxas, incluindo os dez grandes programas
China
4.9 bilhões
Redução da erosão do solo e da
água por meio da segmentação
e conversão de terras agrícolas
marginais em oresta ou pastagem
4.7 bilhões
Proteção e restauração de
orestas naturais
5.2 milhões
Conservação da biodiversidade,
restauração de habitat, ameaça
nacional de espécies
Austrália
1.8 bilhões
Benefícios do habitat da vida selvagem,
benefícios da qualidade da água, benefícios
de retenção do solo nos cultivos
EUA Serviços hidrológicos, restauração de
habitat, agricultura ecologicamente correta
167 milhões
33.8 milhões
Uso sustentável de áreas
protegidas, melhoria da gestão
ambiental e redução da pobreza
Brasil
7.9 milhões
Conservação orestal,
armazenamento de CO2
Equador
42.4 milhões
Armazenamento de CO2,
serviços hidrológicos, proteção
da biodiversidade e paisagens
Costa Rica
22.3 milhões
Conservação da oresta
e da biodiversidade
28.2 milhões
Conservação orestal,
serviços hidrológicos
México
11.7 bilhões 75 bilhões
Dez grandes programas
de “pagamentos por
serviços ecossistêmicos”,
selecionados pela OCDE
ATLAS DOS INSETOS 2021
20
O
s insetos são os organismos mais diversos e abundan-
tes do mundo. Até o momento, os cientistas já des-
creveram aproximadamente 1 milhão de espécies
e ainda há pelo menos mais 5 milhões a serem descritas. É
possível afirmar que todos os ecossistemas do mundo de-
pendem dos insetos para funcionar corretamente, pois a
diversidade de insetos no planeta é responsável pelo pro-
vimento de uma ampla gama de serviços diretamente re-
lacionados ao bem-estar humano. Os insetos polinizadores
são os principais responsáveis pela manutenção das áreas
naturais e de grande parte das culturas agrícolas do mundo
e, portanto, da comida que chega à nossa mesa. Os insetos
herbívoros servem de alimento para seus predadores, ver-
tebrados e invertebrados, e regulam a diversidade e produ-
ção primária das plantas em áreas naturais. Os predadores
e parasitoides (minúsculos insetos que botam seus ovos ge-
ralmente dentro de outros insetos) regulam as populações
de suas presas e hospedeiros, incluindo pragas agrícolas.
Já os insetos decompositores quebram a matéria orgânica,
facilitando o trabalho dos microrganismos em disponibili-
zarem nutrientes no solo.
Apesar da importância desses animais e seus serviços
ecossistêmicos, estima-se que cerca de 40% de todos os in-
setos serão extintos em algumas poucas décadas. Conse-
quentemente, seus serviços serão perdidos na medida em
que as espécies desapareçam. Essa constatação pode ser
especialmente preocupante em ambientes tropicais, como
o Brasil, onde a maior parte da biodiversidade global de
insetos está concentrada. Já é consenso entre os cientistas
que a principal causa de perda de biodiversidade de todas
as espécies no mundo, incluindo os insetos, é o avanço da
fronteira agrícola. Isso porque áreas anteriormente diver-
sas são substituídas por plantios em monocultura em áreas
extensas na paisagem.
A simplificação das paisagens para o uso agrícola faz
com que interações importantes entre as espécies sejam
perdidas, o que aumenta significativamente a necessida-
de de intervenção humana. Com a falta de polinizadores,
é necessário realizar a polinização de forma não natural.
Esse é o caso do maracujá que, na falta de abelhas, deve ser
polinizado manualmente, flor por flor, por um produtor.
Imagine o trabalho! Em outras culturas dependentes da
polinização em que isso não é possível, pode nem haver a
produção. O plantio em monocultura oferece um grande
banquete aos insetos herbívoros que podem reproduzir-se
AGRICULTURA E INSETOS
EQUILIBRANDO PRODUÇÃO,
SUSTENTABILIDADE E BIODIVERSIDADE
Os serviços de polinização, controle biológico
e manutenção da saúde do solo tornam os
insetos vitais para a agricultura. Apesar disso,
a atividade é hoje a principal ameaça para a
biodiversidade desses animais.
Número de pesquisas realizadas no Brasil
Serviços estudados
INSETOS E SEUS SERVIÇOS NO BRASIL
Natural
Antrópico
Natural + Antrópico
Seminatural
BIOMAS
ARTIGOS PUBLICADOS
Caatinga
Pampa
Cerrado
Pantanal
Amazônia
0 - 10 11-20 21-30 + 30
Mata Atlântica
ATLAS DOS INSETOS 2021 / RAMOS ET AL 2020
O Brasil possui uma grande diversidade de biomas. Cada um desses
biomas possui muitas espécies de insetos que prestam serviços
ecossistêmicos para os seres humanos. Cientistas têm estudado como
a biodiversidade de insetos está relacionada a manutenção desses
serviços prestados por diferentes espécies. É notável que os principais
serviços estudados estão diretamente relacionados a agricultura,
principalmente devido a sua importância econômica para o país.
ATLAS DOS INSETOS 2021 21
rapidamente e tornarem-se pragas. Isso faz com que o agri-
cultor tenha que usar agrotóxicos para fazer o papel que
os predadores e parasitoides desempenhariam natural e
gratuitamente. O uso dos inseticidas, além de gerar resis-
tência nas pragas, pode matar ou afetar o desempenho dos
predadores e parasitoides, insetos polinizadores, decom-
positores e ao mesmo tempo contaminar os alimentos que
consumimos e poluir o ambiente. A compactação do solo
pelo maquinário agrícola e ausência de insetos decompo-
sitores e microrganismos que fazem a ciclagem da matéria
orgânica faz com que seja necessário o uso de fertilizantes
que também poluem o meio ambiente e aumentam o cus-
to da produção.
É evidente que quanto menos insetos e biodiversidade
há nos sistemas agrícolas, mais o sistema se torna artificial
e dependente da intervenção humana. Nesse ponto, che-
gamos a uma dualidade. Os insetos desempenham servi-
ços ecossistêmicos essenciais para a agricultura, mas ela é
a principal causa de perda de sua biodiversidade. Ao mes-
mo tempo, as sociedades humanas continuam a crescer e
demandar mais alimentos. Para amenizar esse problema,
podemos utilizar a própria natureza como modelo para de-
senhar sistemas agrícolas mais sustentáveis.
Em um país essencialmente agrícola como o Brasil, as
medidas para tornar as paisagens mais sustentáveis para
os insetos são urgentes e necessárias. É evidente que exis-
tem muitas opções disponíveis para isso – o uso de sistemas
agroflorestais, a intercalação de áreas agrícolas com áreas
naturais íntegras, por exemplo – e que a quantidade e di-
versidade de insetos benéficos supera em muito o número
de espécies não benéficas, como as pragas. Apenas consi-
derando a biodiversidade como aliada da agricultura será
possível compatibilizar a necessidade de conservar os inse-
tos e seus serviços com a demanda por alimentos.
Grande parte das principais espécies utilizadas
na alimentação humana dependem em algum
grau de polinizadores.
PROVEDORES GLOBAIS DE SERVIÇOS PARA A HUMANIDADE
Valor da produção agrícola mundial possibilitada por insetos polinizadores.
Valores apresentados em dólares americanos por hectare.
SEM CHOCOLATE
Declínio na produção de 107 alimentos vegetais
na ausência de polinização por animais
*corrigido pela inação e poder de compra, padronizado para o ano 2000
declínio
mais de 90 por cento
40–90 por cento
10–40 por cento
1–10 por cento
nenhum
sem dados
* usado para consumo humano e comercializado no mercado mundial
INSECT ATLAS 2020/IPBES INSECT ATLAS 2020/LAUTENBACH ET AL.
mais de 1,500
251–1,500
101–250
61–100
26–60
11–25
Abaixo de 10
Sem avaliação
Sem dados
amêndoas
maçãs
cerejas
ameixas
pepinos
girassóis café
cocosmorangos gos
limões
mamão
feijão vermelho
tomates
pimenta
cacau
castanha do brasil
abóborasmelancias
Leste da Ásia
Austrália Oriental
e Nova Zelândia
Oriente Médio e vizinhos
Zona central da
América do Sul
Europa ocidental
EUA
13
30
27
21
7
9
ATLAS DOS INSETOS 2021
22
A
polinização pode ser realizada tanto por animais
como por vento ou água. A maioria (76%) das plan-
tas utilizadas para produção de alimentos no Brasil
depende da polinização realizada por animais. Além de
aumentar a produtividade dos cultivos, a polinização por
animais provê frutos e sementes de melhor aparência e
qualidade, agregando valor de mercado a estes produtos
quando comparados àqueles que podem ser formados na
ausência de polinizadores. O valor estimado da polinização
para a produção de alimentos no país foi de R$ 43 bilhões
em 2018, considerando o valor da produção e o incremen-
to de produtividade associado aos polinizadores. Desta
forma, inúmeros cultivos de frutos e sementes consumidos
pela população brasileira e exportados são dependentes de
polinizadores, como é o caso de soja, café, laranja, maçã,
melancia, maracujá, tangerina, melão e castanha-do-bra-
sil. Portanto, os polinizadores geram ganhos em quantida-
de e qualidade à produção agrícola no Brasil, o que faz com
que a conservação dos polinizadores seja um fator central
para garantir a segurança alimentar e a renda dos produto-
res agrícolas, contribuindo para uma vida saudável e para
a promoção do bem-estar humano.
Dentre os insetos polinizadores, as abelhas são os prin-
cipais (71%), mas devemos destacar também besouros,
borboletas, mariposas, vespas e moscas. A diversidade da
fauna brasileira de insetos associada à polinização de 114
plantas cultivadas ou silvestres, utilizadas direta ou indire-
tamente na produção de alimentos, soma 233 espécies de
insetos distribuídos nos seguintes grupos: abelhas (70,8%,
165 espécies), besouros (9,9%, 23 espécies), borboletas (5,6%,
13 espécies), mariposas (5,6%, 13 espécies), vespas (4,7%, 11
espécies), moscas (3%, 7 espécies) e hemípteros (grupo que
inclui percevejos, cigarras e cigarrinhas) (0,4%, 1 espécie). As
abelhas participam da polinização de 80% destas 114 plan-
tas cultivadas ou silvestres para as quais existem dados dis-
poníveis sobre a polinização e são polinizadores exclusivos
de 65% (74) destas. Contudo, certas plantas cultivadas ou sil-
vestres dependem exclusivamente ou primordialmente de
outros insetos para a polinização, como é o caso da polini-
zação por besouros em flores de pinha e araticum, de mari-
posas em flores de mangaba e de moscas em flores de cacau.
Apesar da importância biológica, social e econômica,
os polinizadores estão ameaçados por diversos fatores, tais
como perda de habitat, poluição ambiental, agrotóxicos,
mudanças climáticas, espécies invasoras, doenças e pató-
genos. Dentre as ameaças, podemos destacar as mudanças
no uso da terra, que levam à perda e à substituição de habi-
tats naturais por áreas agrícolas ou urbanas e, consequen-
temente, a diminuição de locais para construção de ninhos
e recursos alimentares utilizados pelos polinizadores. E
ainda, os poluentes ambientais, incluindo os agrotóxicos,
podem levar à morte (efeitos letais) ou atuar como repe-
lentes dos polinizadores. Os agrotóxicos também podem
causar efeitos tóxicos subletais, como desorientação do
voo, perda da habilidade dos polinizadores para encontrar
recursos florais, redução da prole, entre outros. Além des-
tas, as mudanças climáticas podem modificar o padrão de
distribuição das espécies, a época de floração e o compor-
tamento dos polinizadores. A estas ameaças ambientais,
adiciona-se ainda ameaças biológicas que incluem espé-
cies exóticas, invasões biológicas, declínio e extinção de
espécies de plantas das quais os polinizadores dependem,
AJUDANTES DA AGRICULTURA
Percentagem de espécies de polinizadores pertencentes
a cada grupo (Brasil)
HemípterosMorcegosMoscasAvesVespasMariposasBorboletasBesouros
66%
9.2% 5.2% 5.2% 4.4%4.4% 2.8% 2% 0,4%
POLINIZADORES
SEM POLINIZADORES,
SEM COMIDA NA MESA
A polinização é a transferência de grãos de
pólen entre órgãos masculinos e femininos
das flores. Esse processo é importante para a
reprodução das plantas e resulta na produção
de frutos e sementes que consumimos na
nossa alimentação.
São necessárias políticas efetivas de proteção à
diversidade de insetos polinizadores no Brasil.
ATLAS DOS INSETOS 2021 / BPBES_SPMPOLINIZACAO
ATLAS DOS INSETOS 2021 23
doenças e patógenos. Esses múltiplos fatores não ocorrem
de maneira isolada entre si e, em conjunto, representam
ameaças aos polinizadores e, consequentemente, à produ-
ção de alimentos e à conservação da biodiversidade como
um todo no país.
Para diminuir estas ameaças aos polinizadores, promo-
ver melhorias para a polinização e aumentar o valor agre-
gado dos produtos agrícolas associados, diversas ações e
estratégias podem ser desenvolvidas como promoção de
agricultura sustentável, intensificação ecológica da pai-
sagem agrícola, formas alternativas de controle e manejo
integrado de pragas e doenças, redução do uso de agrotó-
xicos, produção orgânica e certificação ambiental. Além
disso, a manutenção e restauração de habitats naturais
tende a aumentar a diversidade de polinizadores nativos
e a polinização realizada por eles. Os habitats naturais po-
dem ser mantidos e restaurados por meio da conservação
de áreas naturais já existentes como reservas legais e áreas
de preservação permanente, plantio de cercas vivas próxi-
mas às áreas de cultivo, implementação de corredores eco-
lógicos e recuperação de áreas degradadas com espécies
de plantas nativas usadas pelos polinizadores. Estas ações
contribuem para garantir recursos alimentares (pólen e
néctar) e não alimentares (locais para abrigo e construção
de ninhos, resinas e fragrâncias florais) aos polinizadores
tanto nos cultivos que eles visitam, como na paisagem do
entorno, de forma complementar entre as áreas. Desta
forma, podemos identificar diversas oportunidades que
podem contribuir para a conservação dos polinizadores e,
ao mesmo tempo, gerar ganho em produtividade e maior
sustentabilidade na agricultura.
São múltiplos os fatores que ameaçam os
insetos polinizadores, o que coloca a produção
de alimentos em alerta.
Substituição
de habitats
naturais por
áreas agrícolas
ou urbanas
Mudanças
climáticas
Declínio e
extinção de
espécies de
plantas
Introdução
de espécies
exóticas
AMEAÇAS AOS POLINIZADORES
Poluentes
ambientais e
agrotóxicos
ATLAS DOS INSETOS 2021 / BPBES_SPMPOLINIZACAO ATLAS DOS INSETOS 2021 / BPBES_SPMPOLINIZACAO
BOAS PRÁTICAS AMBIENTAIS PARA OS POLINIZADORES
Algumas
espécies de
abelhas formam
ninhos no solo
Flores dos cultivos
podem ser fontes
de recursos para
visitantes orais
nativos
Ninhos de
abelhas nativas
podem aumentar
a produtividade
agrícola
Algumas espécies
são beneciadas pela
ocorrência natual ou
antrópica de habitats
abertos
Troncos e
árvores vivas são
usadas por
abelhas para
formar ninhos
Paisagens
heterogêneas com
presença de habitats
naturais podem aumen-
tar a diversidade de
polinizadores
ATLAS DOS INSETOS 2021
24
A
quantidade de agrotóxicos aplicados nos plantios
aumentou cinco vezes desde 1950. Embora as fa-
zendas orgânicas e agroecológicas sobrevivam sem,
as fazendas convencionais aplicam mais de 4 milhões de
toneladas de agrotóxicos por ano em todo o mundo. O fa-
turamento global em 2018 com esses materiais totalizou
56,5 bilhões de euros. Em 2023, de acordo com estimativas,
pode chegar a 82 bilhões de euros.
Quatro gigantes da química compartilham dois terços
do mercado global: BASF e Bayer na Alemanha, Syngenta
na Suíça (mas de propriedade chinesa) e Corteva, uma re-
cém-chegada formada por divisões de agroquímicos da
DowDuPont. A OCDE diz que em 2017 apenas as vendas
de agrotóxicos da Bayer somaram 11,2 bilhões de dólares,
seguidas pela Syngenta, com 9,4 bilhões, e BASF e DowDu-
Pont, entre 7 e 8 bilhões de dólares cada.
Os agrotóxicos são uma das principais causas da mor-
talidade dos insetos, pois afetam todo o ecossistema. De-
pendendo de seus organismos-alvo, eles podem ser classi-
ficados como inseticidas, herbicidas, fungicidas e outros.
Os inseticidas eliminam as pragas nas lavouras, mas outras
plantas são inevitavelmente afetadas. Os neonicotinóides,
por exemplo, atualmente um dos tipos de agrotóxico mais
usado no mundo, danificam o sistema nervoso dos insetos,
fazendo com que as abelhas percam o sentido de navega-
ção e as mamangavas percam o olfato, por exemplo.
Os herbicidas são usados no controle de plantas espon-
tâneas (as chamadas ervas daninhas). Os herbicidas sele-
tivos são eficazes contra tipos específicos de plantas, en-
quanto os herbicidas não seletivos, ou “herbicidas totais”,
matam quase todas as plantas. O herbicida não-seletivo
mais amplamente usado em todo o mundo é o glifosato.
Suas vendas aumentaram fortemente porque é usado em
combinação com culturas geneticamente modificadas,
especialmente a soja. Essas plantas são projetadas para re-
sistir ao herbicida, que mata todas as outras plantas próxi-
mas. Como resultado, os insetos encontram menos flores
e perdem sua fonte de alimento. Os herbicidas também
podem prejudicar os insetos diretamente. Experimentos
da Universidade de La Plata, na Argentina, mostraram que
o glifosato pode matar crisopídeos, insetos benéficos que
atacam pulgões.
As maiores aplicações de pesticidas estão na Ásia, espe-
cialmente na China, Índia e Japão. América do Norte, Brasil
e Argentina consomem as maiores quantidades de agrotó-
xicos em valores absolutos. A África consome apenas cerca
de 2% do total global.
Os agrotóxicos podem ter um grande impacto na mor-
talidade de insetos em áreas onde as aplicações são altas e o
registro é mal regulado. Agrotóxicos proibidos há décadas
na União Europeia ainda são usados em vinhas sul-africa-
nas e na produção de vegetais no Quênia. A Bayer vende
doze ingredientes ativos no Brasil que não são mais permi-
tidos na UE.
Organizações não governamentais reivindicam que os
pesticidas sintéticos, proibidos na União Europeia por seus
AGROXICOS
A LUTA CONTRA A VIDA: UMA GUERRA
SEM SENTIDO E SEM FUTURO
Os agrotóxicos são usados para controlar
muitos organismos que podem reduzir
o rendimento das colheitas. Eles estão se
tornando cada vez mais precisos em seus
trabalhos. E estão sendo cada vez mais
aplicados nas lavouras.
Agrotóxicos que matam organismos benéficos junto com
as pragas, muitas vezes pioram o problema. A solução é o
manejo integrado das pragas, que usa o menor número de
agroquímicos quanto possível.
BONS CARAS PEGOS NO FOGO CRUZADO
Taxas de sobrevivência de duas espécies de crisopídeos do gênero
Chrysoperla
com aplicações de vários agrotóxicos, de larva a adulto,
em percentagem
Chrysoperla carnea Chrysoperla johnsoni
INSECT ATLAS 2020/AMARASEKARE, SHEARER, ZIYAL
20
27 Chlorantraniliprol
7
13 Cyantraniliprol
0
0Novaluron
33
40 Spinetoram
0
0Lambda-Cyhalothrin
87
80 Água (controle)
As larvas das crisopídeos são às vezes chamadas de “bicho-lixeiro”
porque consomem grande número de pragas. Nos EUA, duas das espécies
normalmente encontradas em pomares de frutas e nozes foram expostas a
cinco ingredientes ativos comuns de agrotóxicos. As substâncias promoveram
consequências graves no desenvolvimento dos crisopídeos, ocasionando surtos
de pragas secundárias porque havia muito poucos insetos benécos para
atacar as pragas. Como resultado, os agricultores precisam aplicar ainda mais
agrotóxicos, que matam ainda mais os organismos benécos.
ATLAS DOS INSETOS 2021 25
efeitos negativos no meio ambiente, não sejam exportados
para o mundo em desenvolvimento. A Convenção de Rot-
terdam é um tratado internacional que rege a importação
e exportação de produtos químicos perigosos, incluindo
agrotóxicos. A convenção foi ratificada por 160 países e lis-
ta um total de 36 pesticidas, mas nem todas as partes sig-
natárias proibiram a importação das substâncias listadas.
A China, por exemplo, não baniu o DDT.
Os debates sobre a mortalidade de insetos e a perda de
biodiversidade estão aumentando e colocando os fabrican-
tes sob pressão. As interações entre agrotóxicos e insetos
foram ignoradas por muito tempo. Não havia informações
suficientes sobre os impactos de longo prazo dos agrotóxi-
cos ou os efeitos das combinações de pesticidas. No passa-
do, os fabricantes frequentemente encomendavam as ava-
liações eles próprios, enquanto as investigações científicas
independentes não precisavam ser levadas em considera-
ção para os procedimentos de aprovação.
Em 2019, uma mudança na legislação da União Euro-
peia tornou obrigatório o registro de todos os resultados de
pesquisas – incluindo aqueles que revelassem problemas.
Isso significa que esses resultados não podem mais ser re-
tidos, mas devem ser considerados no processo de aprova-
ção. Os riscos apresentados pelos agrotóxicos podem agora
ser mais bem avaliados, e a proteção dos seres humanos e
do meio ambiente está sendo priorizada.
Em países mais pobres, como Quênia e Brasil,
os tipos de agrotóxicos usados são mais tóxicos
para as abelhas do que na rica Holanda.
A China aplica cerca de um terço dos agrotóxicos
do planeta. Syngenta, uma empresa com sede na Suíça
que é uma das três maiores empresas agroquímicas
do mundo, está nas mãos de chineses.
PULVERIZE, BEBÊ, PULVERIZE
Aplicações mundiais de ingredientes ativos de agrotóxicos por país, média anual de 1990-2017 em toneladas,
aplicações globais em milhões de toneladas
aplicações globais
de agrotóxicos,
por milhões de toneladas
INSECT ATLAS 2020/FAO
ASSASSINO INVISÍVEL
Toxicidade de agrotóxicos para as abelhas por país e cultivos,
em percentagem do número de agrotóxicos registrados ou usados
INSECT ATLAS 2020/IPBES
toneladas por país
menos de 60
60 to 2,500
2,500 to 50,000
mais de 50,000
sem dados
altamente tóxico
moderadamente tóxico
praticamente não tóxico
Quênia (café,
cucurbitáceas, feijão
francês, tomate)
Brasil
(melão,
tomate) Holanda
(maçã, tomate)
47.046.0
33.0
7.5
59.5
15.0
9.5
75.5
7.0
89,000
Rússia
407,000 EUA
1,391,000
124,000
Argentina
53,000
Colômbia
83,000
França
77,000
Itália
China
68,000
Japão
50,000
Ucrânia
20001995 2010 20152005 2017
0
1
2
3
4
5
1990
mundo
China
216,000
Brasil
ATLAS DOS INSETOS 2021
26
O
s insetos desenvolveram, ao longo do tempo, me-
canismos de adaptação a todo tipo de situações
adversas. Estes mecanismos, que incluem desde al-
terações de hábitos até mutações genéticas, estão sendo
utilizados para enfrentar o uso excessivo de agrotóxicos, e
podem trazer consequências indesejáveis para os cultivos
agrícolas. Por exemplo, alguns estudos apontam que pre-
dadores generalistas, altamente eficientes no controle de
lagartas (como o Doru Luteites), passam a se alimentar de
larvas de Joaninhas (como a Cycloneda sanguinea), inseto
útil no controle de pulgões.
No Brasil, os inseticidas propriamente ditos correspon-
dem a cerca de 25% das despesas com agrotóxicos, mas isso
não significa que o impacto sobre os insetos se restrinja a
esses produtos. Os herbicidas, produtos de uso mais amplo,
afetam direta e indiretamente as populações de insetos,
através de sua participação na homogeneização de paisa-
gens e na contaminação dos solos e águas. Muitos estudos
relacionam o Glifosato, o 2,4D e o Paraquat, mesmo que em
doses subletais, ao desaparecimento de colmeias.
Mais grave é o fato de que adaptações e mutações ge-
néticas estão levando à emergência de insetos mais resis-
tentes, de mais difícil controle, imunes aos agrotóxicos de
uso mais frequente. Entre os casos típicos, temos as lagartas
do milho e da soja, o bicudo-do-algodoeiro e tantos outros.
Este processo, aliado à dificuldade (e ao custo) para obten-
ção de novas moléculas, menos perigosas, vem ampliando
o uso de agrotóxicos antigos, perigosos, como indica o fato
de serem proibidos, há décadas, na União Europeia. Com
isso, acelera-se o comprometimento da fertilidade do solo,
da qualidade da água, e do fornecimento de serviços ecos-
sistêmicos essenciais para a saúde humana e animal.
O Homo sapiens, que surgiu no planeta há uns 350 mil
anos, é o principal responsável e tende a ser mais afetado.
Nosso antecessor mais antigo, o Homo erectus (o primeiro
de nós a caminhar em pé), surgiu há tão somente uns 2 mi-
lhões de anos e se mostrou pouco adaptável às mudanças
ambientais bruscas.
Tal fato deveria ser suficiente para sugerir que o uso de
agrotóxicos levará antes à extinção dos humanos que ao
extermínio dos insetos. Basta refletir sobre a ineficácia com
que há cem anos a humanidade tenta eliminar os mosqui-
tos. Ou constatar a associação direta entre o uso de agrotó-
xicos e o surgimento de problemas para a saúde humana,
tão frequente hoje quanto raros há cinquenta anos, como
nos casos de oncologia infantil.
O uso de agrotóxicos na América Latina está, entre ou-
tros fatores, relacionado ao seu papel na geopolítica inter-
nacional. Exportador de matérias-primas de baixo valor
agregado, contando com abundância de água e terras fér-
teis, o Brasil se tornou um dos principais destinos de pesti-
cidas de uso proibido em outras regiões do planeta. Essas
circunstâncias explicam o fato de que aqui se utilize, extra-
oficialmente, cerca de 1 bilhão de litros de agrotóxicos/ano.
Como ilustração, considere-se que entre os anos de 2019 e
2021 durante o governo de Jair Bolsonaro houve o registro
de 1.300 agrotóxicos “novos” adicionados ao portfólio pré
-existente utilizado no país.
Os danos ambientais se agravaram em função de arti-
culação entre restrições do mercado internacional que le-
vam à queda nos preços de alguns agrotóxicos, que então
são deslocados para uso no Brasil. Assim, a ruptura de ciclos
biológicos, que elimina serviços ecossistêmicos realizados
pelos insetos, pode se explicar em função de interesses
de curtíssimo prazo, impulsionados pela participação do
agronegócio no Produto Interno Bruto Nacional.
AGROXICOS NO BRASIL
AGRONEGÓCIO E AGROTÓXICOS NO
BRASIL: ENVENENANDO OS INSETOS
Os insetos povoam o planeta há cerca de
400 milhões de anos. No entanto, o uso dos
agrotóxicos vem ameaçando essa existência.
No Brasil, maior consumidor desses
produtos no mundo, a situação é ainda mais
preocupante.
Nos últimos anos, no Brasil, o registro de agrotóxicos cresceu
exponencialmente, sem que isso fosse acompanhado por uma
tendência semelhante no PIB da agropecuária.
PIB X REGISTRO DE AGROTÓXICOS
Comparação entre o PIB (Agropecuária) e o
registro de Agrotóxicos no Brasil
PIB – Agropecuária (em bilhões R$)
Registro de Agrotóxicos no Brasil
ATLAS DOS INSETOS 2021 / IBGE / G1
ATLAS DOS INSETOS 2021 27
Entre 2006 e 2017, enquanto a área cultivada cresceu
26% no Brasil, as vendas de agrotóxicos mais do que dobra-
ram (saltaram, em números “ofi ciais”, de 204,1 mil tonela-
das para 541,8 mil toneladas). Em consequência, sabe-se
hoje que pelo menos 23% das amostras de alimentos da die-
ta básica nacional estariam contaminadas (de acordo com
o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Ali-
mentos – PARA) e que um em cada quatro municípios bra-
sileiros oferece à população água com pelo menos 27 tipos
de agrotóxicos.
Sendo essa a realidade enfrentada pelas populações
urbanas, seguramente o “ecocídio” entre os insetos está
além de nossa compreensão e merece, portanto, atenção
da sociedade civil, acadêmica e dos fazedores de políticas
públicas.
Sabidamente a abundância e diversidade de insetos é
responsável pela regulação e suporte de serviços ecossis-
têmicos, tais como o controle biológico, a polinização e a
ciclagem de nutrientes, indispensáveis à fertilidade do solo
e à vida no planeta. Tratando-se de elemento fundamental
a qualquer perspectiva responsável de longo prazo, exige
atenção especial e reclama medidas urgentes, protetivas
aos ecossistemas.
Infelizmente avançamos no sentido oposto, com am-
pliação no uso de agrotóxicos de toxicidade crescente, ain-
da que se saiba que estes não reduzem a presença nem a
densidade de artrópodes indesejáveis em locais onde estão
presentes seus inimigos naturais. Ao contrário, ao afetar es-
pecialmente consumidores secundários e terciários (preda-
dores dos insetos que se alimentam de plantas), os agrotóxi-
cos tendem a minimizar o potencial de controle biológico.
Há registros de que os chineses já se aproveitavam do
controle biológico há milhares de anos, combatendo lagar-
tas e besouros pela inserção de ninhos de formigas no cul-
tivo de citros. Também na China, após identifi cada a mor-
talidade de larvas do bicho-da-seda por Beauveria bassiana,
esse fungo passou a ser utilizado para o controle de outras
lagartas. Atualmente, diversas espécies de organismos são
utilizados no controle biológico de pragas agrícolas, como
aplicações de Bacillus thurigiensis, dispersão de vespas para-
sitoides (ex. Cotesia fl avipes e Trichogramma galloi) e insetos
generalistas como o Doru Luteipes (tesourinha), entre outros.
Dentre as vantagens da utilização do controle biológi-
co, está o fato de que ele não leva ao desenvolvimento de
resistência, nas pragas, como acontece com os agrotóxicos
de síntese química. No Brasil, os principais casos de resis-
tência aos agrotóxicos podem ser ilustrados pela difi culda-
de de controle do caruncho-do-milho (Sitophilus zeamais),
da lagarta-do-cartucho-do-milho (Spodoptera frugiperda),
do bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus grandis), da lagarta-
da-soja (Anticarsia gemmatalis), da vaquinha verde-amare-
la ou larva-alfi nete-do-milho (Diabrotica speciosa).
Há muita diferença nos parâmetros da
União Europeia e do Brasil no controle da água:
os limites para as substâncias de agrotóxicos encontradas
na água no Brasil são muito mais permissivos.
BEBENDO VENENO
Dados sobre a concentração de agrotóxico na água dos municípios brasileiros
Concentração dos agrotóxicos na água
acima dos limites considerados seguros
Percentual de amostras de água
“potável” contaminada por agrotóxicos
ao longo dos anos – Brasil.
2017
2015
2016
2014
84%
92%
88%
75%
Pelo menos um acima do limite brasileiro
Pelo menos um acima do limite europeu
Todos os agrotóxicos dentro do limete
Sem dados
Concentração dos agrotóxicos na água
acima dos limites considerados seguros
Pelo menos um acima do limite europeu
Todos os agrotóxicos dentro do limete
Sem dados
ATLAS DOS INSETOS 2021 / REPORTER BRASIL / SISAGUA
ATLAS DOS INSETOS 2021
28
A
cada ano, a produção mundial de carne aumenta. A
Organização para a Alimentação e Agricultura das
Nações Unidas (FAO) calcula que a produção global
em 2018 foi de 335 milhões de toneladas. Em 1970, era
apenas um terço desse número. A demanda por carne tem
enormes consequências ecológicas, também para os inse-
tos. As práticas de criação de gado determinam as paisagens
agrícolas, a diversidade das plantas, a qualidade do solo e da
água e, assim, o habitat dos insetos. Nenhum outro tipo de
agricultura tem mais influência sobre os ecossistemas do
que a pecuária intensiva.
Pradarias, pastagens e savanas constituem entre 22% e
26% da superfície terrestre do mundo livre de gelo e são o
lar de uma enorme variedade de plantas que, por sua vez,
oferecem aos insetos uma ampla variedade de habitats. As
pastagens geralmente abrigam uma variedade maior de
espécies de insetos e populações maiores do que campos
cultivados. Mas os prados intensamente usados têm menor
diversidade: gramíneas de alto rendimento, fertilização ex-
cessiva, corte frequente e pastoreio intensivo têm seu preço.
O crescimento mais curto da grama e a vegetação mais den-
sa tiram os insetos de seus habitats.
Globalmente, a pecuária mudou fundamentalmente
nos últimos 50 anos. Cada vez menos animais pastam nas
pastagens. A maioria dos animais é alimentada em estábu-
los ou criados em enormes fábricas ou em confinamentos,
onde são amontoados em pequenos cercados ao ar livre.
Essa enorme densidade elimina toda a grama do padoque.
O grande número de animais impulsiona a demanda por ra-
ções fabricadas a partir de cereais e sementes oleaginosas.
Mas ainda assim, há diversos países, como o Brasil, onde a
pecuária extensiva ainda ocupa grandes porções de terras
dematadas. A pecuária tornou-se, portanto, uma das causas
mais importantes de mudanças no uso da terra: a floresta é
desmatada para pastagem ou para o cultivo de lavouras que
acabarão como ração para o gado, e o pasto é arado para se-
mear. O habitat dos insetos diminui ainda mais.
A soja é a fonte de proteína mais importante para gado
de criação intensiva. Agora é cultivada em 123 milhões de
hectares em todo o mundo, uma área de 3,5 vezes o tama-
nho da Alemanha. Apenas três países – Estados Unidos da
América, Argentina e Brasil – juntos produzem cerca de 80%
da soja mundial. Em 1990, a soja cobria 11 milhões de hec-
tares no Brasil; em 2018, o Brasil se tornou o maior produtor
mundial de soja – a superfície aumentou para 36 milhões de
hectares.
O Brasil é também um dos países mais ricos em insetos do
mundo – abriga cerca de 9% de quase 1 milhão de espécies
de insetos que até agora foram classificadas. –, mas a produ-
ção de soja está afetando sua biodiversidade. Especialistas
estimam que até meio milhão de espécies de insetos podem
realmente ser nativas do Brasil. As partes tropicais e subtro-
picais do país, bem como o Cerrado – a mais extensa savana
tropical da América do Sul – abrigam a maior diversidade de
insetos do mundo. Enquanto existem várias áreas protegi-
das na região amazônica, o Cerrado está virtualmente dei-
xado à mercê de uma agroindústria em expansão. A agricul-
tura continua a se espalhar em ambos os ecossistemas, com
a ajuda tanto de meios legais quanto ilegais.
CARNE
DA FLORESTA AO PASTO,
DO PASTO AO CONFINAMENTO
A demanda mundial por carne produz
uma reação em cadeia de desmatamento,
monoculturas e pulverizações químicas.
A natureza está sendo destruída mais
rapidamente nas áreas que são especialmente
ricas em insetos.
Algumas décadas atrás, Phyllophaga cuyabana era apenas
um besouro entre muitos. Então vieram o corte raso e as
monoculturas, e sua carreira decolou.
OBRIGADO PELA REFEIÇÃO
Consumo das safras pelo besouro escaravelho,
Phyllophaga cuyabana
,
em centímetros quadrados de área foliar, em exames laboratoriais
INSECT ATLAS 2020/OLIVEIRA ET AL., ZIYAL
Área foliar consumida, com escolha entre:
Soja e outros cultivos
A transformação das savanas do Cerrado brasileiro em enormes monoculturas é
responsável pelo estabelecimento do escaravelho,
Phyllophaga cuyabana
, como
uma das principais pragas. As larvas se alimentam no subsolo das raízes da soja e
de outras culturas amplamente plantadas. Os besouros adultos se escondem no
solo durante o dia e atacam as folhas à noite. Testes de laboratório estudaram quais
plantas os besouros fêmeas preferem como alimento e a quantidade de danos que
um único inseto pode causar em seis dias.
soja e algodão soja e milho soja sozinhasoja e girassol
10.9 6.7 3.5 5.8 1.7
13.4 12.4
ATLAS DOS INSETOS 2021 29
O boom da soja anda de mãos dadas com o aumento do
uso de agrotóxicos. Ambos, Brasil e Argentina, cultivam
principalmente diferentes tipos de soja geneticamente
modificada. Essas plantas são resistentes ao glifosato, um
herbicida que mata todas as ervas daninhas que crescem no
campo sem prejudicar as plantas de soja. O Brasil é hoje o
segundo maior consumidor de herbicidas do mundo. Desde
a aprovação da soja geneticamente modificada em 1996, a
Argentina também passou a depender cada vez mais do uso
de pesticidas. Nos anos de 1990, aplicou cerca de 40 milhões
de litros; em 2017, último ano com dados disponíveis, pul-
verizou 196 milhões de litros. Os analistas de mercado pre-
veem um boom na pulverização nos próximos anos, com
aumentos anuais acima de 5%. Tanto a Argentina quanto o
Brasil usam agrotóxicos proibidos na União Europeia por
seus efeitos negativos sobre o meio ambiente.
A pecuária intensiva na Europa não seria possível sem
a compra de ração no mercado global de soja. Essa é uma
das razões pelas quais a União Europeia passou 20 anos ten-
tando chegar a um acordo comercial com os países do bloco
do Mercosul – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – que
tornaria os dois blocos na maior área de livre comércio do
mundo. Esta iniciativa foi recebida com críticas massivas de
uma ampla rede de mais de 340 grupos da sociedade civil
tanto na América Latina quanto na Europa. As consequ-
ências ecológicas negativas das novas exportações de car-
ne do Brasil chegaram até mesmo às manchetes da mídia
europeia. Menos conhecido é que o acordo também abran-
ge a ampla liberalização do comércio de produtos quími-
cos. Os maiores produtores de agrotóxicos do mundo – as
empresas alemãs Bayer e BASF, juntamente com a Syngen-
ta, com sede na Suíça – ficaram maravilhados. Os insetos da
região do Mercosul ficaram menos entusiasmados.
A produção de soja do Brasil aumentou acentuadamente
porque a área plantada aumentou e especialmente porque os
rendimentos por hectare aumentaram
As florestas estão desaparecendo no Cerrado ainda
mais rapidamente do que na vizinha Amazônia.
Com eles, um ecossistema rico em espécies está
sendo perdido.
FRONTEIRA DE SOJA DO BRASIL
Transformação da savana do Cerrado em cultivo de soja e
desmatamento para permitir o cultivo da soja
MUITA RAÇÃO PARA O CONFINAMENTO
Produção de soja pelos principais países produtores,
em milhões de toneladas
*estimado
INSECT ATLAS 2020/STATISTA INSECT ATLAS 2020/TRASE
2019/20*1990/92 2000/02 2010/11
0
20
40
60
120
100
80
140
1980/82
Brasil
123.0
EUA
104.6
Argentina
53.0
China 17.0
Cerrado
Amazon
Algum desmatamento é causado pela conversão
de pastagens para o cultivo de soja. As pastagens
podem ser criadas por meio do desmatamento.
Rio de Janeiro
Fronteira do bioma do Cerrado
plantações mais antigas no norte do Cerrado
Expansão de 2005 a 2009
Expansão de 2010 a 2016:
alto desmatamento e alto cultivo
alto desmatamento, cultivo limitado
desmatamento limitado, alto cultivo
desmatamento e cultivo limitados
Brasil
Alemanha
(para comparação)
ATLAS DOS INSETOS 2021
30
A
história da agricultura de milhares de anos reporta à
necessidade de desenvolver práticas agrícolas de uso
do solo, da vegetação e das águas, ou seja, dos bens
naturais, que respondessem às necessidades alimentares
dos povos. Com a intensificação produtiva e mais tarde as
revoluções industriais, a relação com os ecossistemas na-
turais foi se alterando até a emergência do uso de agroquí-
micos, dos monocultivos, da intensificação da produção
agrícola e do aumento de escala. Este processo gerou ao
longo de décadas e décadas um padrão tecnológico de arti-
ficialização da relação da agricultura com a natureza. Assim
chegamos à modernização agrícola capaz de gerar custos
socioambientais muitas vezes irreparáveis, o desequilíbrio
dos agroecossistemas, a degradação dos solos, da vegetação
natural, a poluição e o envenenamento de lençóis freáticos
e a contaminações das águas para uso humano e agrícola.
No Brasil, a Agroecologia surge como resposta à chama-
da modernização conservadora da agricultura, consequên-
cia da revolução verde. O princípio fundador do enfoque
agroecológico se baseia na manutenção e no manejo de
agroecossistemas biodiversificados, nos quais são promovi-
dos efeitos de sinergia e sincronia entre componentes e sub-
sistemas, gerando crescentes níveis de autonomia técnica,
estabilidade produtiva e resiliência ecológica. Esta perspec-
tiva se aplica às unidades agrícolas familiares em transição
agroecológica e em maior escala torna-se um desafio no
âmbito dos sistemas agroalimentares.
Na Agroecologia, tanto sua abordagem científica como
suas práticas na agricultura de base familiar e por popula-
ções tradicionais, encontram no manejo da biodiversida-
de a forma de manter a diversidade genética e cultural de
diferentes agroecossistemas, garantindo um equilíbrio di-
nâmico entre seu uso e conservação. Neste sentido, a agro-
biodiversidade pode ser entendida como um processo de
relações e interações do manejo da diversidade de espécies
e entre elas, com conhecimentos tradicionais e com o ma-
nejo de múltiplos agroecossistemas, sendo um recorte da
biodiversidade.
No agroecossistema é possível distinguir quatro tipos de
biodiversidade: produtiva (plantações e animais), destruti-
va (insetos oportunistas, ervas espontâneas competidoras,
doenças), neutra (herbívoros não pragas que são consumi-
dos pelos predadores) e benéfica ou funcional (como poli-
nizadores, inimigos naturais, vermes e microrganismos do
solo que desempenham papéis importantes em processos
ecológicos como a polinização, controle natural de pragas,
ciclagem de nutrientes, dentre outros).
Uma das hipóteses que justificam o surgimento de pra-
gas em monocultivos está relacionada com a concentração
de recursos onde estes insetos herbívoros têm mais facilida-
de de encontrar e permanecer em suas plantas hospedeiras.
Também podemos considerar que o uso de agrotóxicos,
tanto na área cultivada no agroecossistema quanto no en-
torno, é considerado uma das principais causas de redução
de biodiversidade.
Sabe-se que a agrobiodiversidade pode ser usada para
melhorar o manejo de pragas nos agroecossistemas através
de mecanismos ecológicos internos de controle do equilí-
brio. Quanto maior o número de espécies presentes em um
determinado cultivo, maior será o número de interações
AGROECOLOGIA
UMA AGRICULTURA
AMIGA DOS INSETOS
A agricultura convencional – que faz uso
de agrotóxicos e monocultivos – é uma
das grandes responsáveis pelo declínio
no número e na diversidade de insetos
pelo mundo. No entanto, há alternativas
para a convivência e a promoção dessa
biodiversidade: a agroecologia.
Ao avaliar os efeitos da diversificação nas atividades
agrícolas, um estudo internacional apontou que o aumento
da diversidade nessa prática favorece a biodiversidade e não
compromete a produtividade.
QUANTO MAIS DIVERSIFICADO, MELHOR
Impacto da diversicação de práticas na atividade agrícola*,
na biodiversidade e serviços ecossistêmicos
positiva
negativa
neutra
fertilidade do solo
rendimento da colheita
ciclagem de nutrientes
sequestro de carbono
regulação do clima
regulação da água
controle de pragas
biodiversidade
polinização
0 25 50 75 100
Uma pesquisa internacional avaliou
o impact o de várias prá ticas de
diversi cação em si stemas de cul tivo
sobre a bi odiversid ade e os servi ços
ecossistêmicos, revisando milhares de
estud os e fazendo co mparaçõe s entre
práticas diversicadas e simplica-
das. Os re sultados a pontam par a o
predom ínio de respo stas posit ivas em
relaçã o a maior parte d as prática s de
diversicação, sem comprometer os
rendimentos das lavouras.
* As práti cas avaliad as foram: alte ração orgâ nica, culti vo reduzido, d iversica ção de
culturas, diversicação não ligada ao cultivo, inoculação, agricultura orgânica
ATLAS DOS INSETOS 2021 / TAMBURINI ET AL 2020
ATLAS DOS INSETOS 2021 31
tróficas entre seus componentes e, em consequência, será
possível estabilizar as comunidades de insetos.
Os mecanismos envolvidos na redução da ocorrência de
pragas em agroecossistemas diversificados são vários. Di-
versos estudos têm mostrado que o redesenho da paisagem
e a construção de arquiteturas vegetais beneficiam a manu-
tenção de inimigos naturais na área. Convém ressaltar que
para estes inimigos naturais a oferta de abrigo e alimento é
importante, tais como néctar e pólen, presas e hospedeiros
alternativos. Além disso, deve ser considerada a dificuldade
de insetos pragas em encontrar as plantas hospedeiras, seja
por confusão visual, olfativa, ou efeito de barreira mecâni-
ca, causando um efeito deterrente, isto é, impedindo-os de
se alimentarem.
O planejamento das propriedades rurais deve levar em
consideração algum nível de diversificação vegetal para
evitar surtos de pragas. Dessa forma, será possível diminuir
o número de intervenções com substâncias alternativas em
propriedades rurais em sistemas agroecológicos.
Destaca-se a importância da agricultura familiar cam-
ponesa no manejo da agrobiodiversidade e a Agroecolo-
gia como um caminho natural para uma agricultura com
menos impacto, através de uma diversidade de práticas
no agroecossistema que favorecem ao equilíbrio dinâmico
entre a diversidade natural, as populações de insetos e a di-
minuição do uso de insumos externos (agrotóxicos). Assim
passamos a olhar os insetos como parte do equilíbrio e não
como organismos indesejáveis.
Estudo aponta que a policultura – em vez da
monocultura – em cultivo de tomate orgânico teve
impacto na quantidade de insetos.
Há muito tempo se suspeitava: agora há provas.
Uma análise de numerosos estudos individuais de
pesquisa descobriu que as fazendas orgânicas eram
mais biodiversas do que as convencionais.
POLICULTIVOS SÃO ATRAENTES AOS INSETOS BENÉFICOS
O policultivo de tomateiro com sorgo e coentro incrementou a ocorrência de predadores, principalmente de
Franklinothrips vespiformis
(Crawford) (Thysanoptera: Aeolothripidae)
25 POR CENTO A MAIS DE VISITANTES
Diferenças no número de espécies entre campos manejados orgânica
e convencionalmente, resultados de 528 estudos, em porcentagem
espécie de inseto, média
espécies de plantas
úteis para insetos
INSECT ATLAS 2020/THÜNEN
30
18
21
borboletas
abelhas
94
espécies de plantas
selvagens em campos,
perto da borda
espécies de plantas
selvagens no centro
dos campos
23
visitantes
de ores
61
sementes
em campos
espécies de plantas
selvagens nas
margens do campo
304
ATLAS DOS INSETOS 2021 / SANTOS 2016
Família/espécie
Cocciellidae
Nephaspis
sp.
Desphastus
sp.
Cycloneda sanguinea
Aeolothripidae
Franklinothrips vespiforms
Carabidae
Calleida amethystina
Forculidae
Doru lineare
Chrysopidae
Sirphydae
Primavera / Verão
6
6
6
5
3
5
4
1
1
1
22
2
1
1
1 4
11Tomate
Sorgo
Coentro
Outono / Inverno
1
3
52
122
2
76
2
2
1
1
1
1
52
Tomate
Sorgo
Coentro
Tomate Monocultivo Tomate Policultivo
Tomate PolicultivoTomate Monocultivo
ATLAS DOS INSETOS 2021
32
N
as agriculturas de base ecológica, diversas estraté-
gias podem ser utilizadas para manter as popula-
ções de insetos indesejáveis em níveis populacionais
aceitáveis. O manejo agroecológico desses insetos é uma
alternativa sustentável para mitigar os danos aos cultivos
agrícolas sem o uso de agrotóxicos, e abrange uma série de
medidas preventivas e curativas, com pouco ou nenhum
impacto negativo aos ecossistemas.
Uma forma simples de manejar insetos no campo é oti-
mizar as práticas culturais já utilizadas pelos agricultores
e agricultoras em atividades corriqueiras. Muitos insetos
herbívoros aparecem em maior abundância somente em
determinadas épocas do ano. Escolher as culturas que não
são atacadas por esses insetos nas épocas em que eles ocor-
rem pode ser uma das alternativas mais simples a ser ado-
tada. Quando isso não é possível, pode-se optar pelo uso de
variedades de plantas resistentes aos ataques de insetos.
Atualmente, existe uma ampla disponibilidade de varie-
dades resistentes, além das tradicionais sementes crioulas
adaptadas aos seus locais de origem. A adubação é outro
fator relevante para a ocorrência desses insetos. Em um
estudo com a traça-do-tomateiro (Tuta absoluta), pesqui-
sadores demonstraram que esse inseto geralmente coloca
o dobro de ovos em tomateiros adubados quimicamente
quando comparado às plantas do sistema orgânico. O ma-
nejo da irrigação também pode ter efeitos negativos sobre
os insetos herbívoros e positivos sobre os insetos benéficos.
A irrigação por aspersão, por exemplo, dificulta o estabe-
lecimento de moscas-brancas (Bemisia tabaci) adultas em
diversos cultivos.
Os insetos possuem muitos agentes de controle, conhe-
cidos como inimigos naturais, tais como predadores, para-
sitoides, nematoides, fungos, protozoários, bactérias e até
vírus. Quando esses organismos são utilizados intencional-
mente para controlar populações de insetos herbívoros,
dizemos que está sendo realizado um controle biológico. A
forma mais natural de utilizar esses aliados a nosso favor é
promovendo a sobrevivência e a reprodução desses inimi-
gos naturais nos cultivos agrícolas. Isso pode ser feito atra-
vés da diversificação ambiental. Ecossistemas mais diversos
podem produzir um círculo virtuoso de interações entre os
organismos ao promover diferentes fluxos de energia, criar
“habitats” e possibilitar teias alimentares mais complexas.
Quando se aumenta a diversidade vegetal no entorno e den-
tro das áreas de cultivo, promove-se a atração e preservação
de populações de insetos benéficos responsáveis pela prote-
ção das plantas e controle de insetos herbívoros. O segredo
do sucesso para que essa diversidade proteja o cultivo é a
inclusão de plantas que forneçam presas, alimentos alter-
nativos (pólen e néctar) e local de refúgio para os inimigos
naturais. O manejo da agrobiodiversidade para atender às
diferentes realidades deve ser organizado em várias escalas
de intervenção, podendo ocorrer dentro da área de plantio,
em toda a extensão da propriedade e na paisagem agrícola.
Permitir o crescimento de plantas espontâneas entre as
cultivadas, plantar árvores no entorno das áreas de cultivo
formando barreiras, intercalar plantas herbáceas, arbusti-
vas e arbóreas formando sistemas agroflorestais, manter
áreas de matas nativas conectando áreas de plantio são al-
guns exemplos de diversificação ambiental. Um trabalho
realizado no Brasil mostrou que o café produz frutos mais
pesados e é menos atacado pelo bicho-mineiro do cafeeiro
(Leucoptera coffeella) e pela broca-do-café (Hypothenemus
hampei) quando deixa de ser cultivado em monocultivo e
passa a ser intercalado com árvores de ingá (Inga edulis).
O ingá libera néctar através das suas folhas, que atraem e
alimentam vários grupos de inimigos naturais. Outra pes-
quisa nessa área mostrou que quanto maior a diversidade
ambiental e menor o uso de agrotóxicos nas propriedades,
maior é a conservação de espécies de inimigos naturais da
mosca-branca (B. tabaci) e o controle biológico das ninfas
desse inseto.
Outra maneira de utilizar os inimigos naturais para o
controle dos insetos herbívoros é através da sua criação em
MANEJO AGROECOLÓGICO DE INSETOS
ALIADOS PELA AGROBIODIVERSIDADE
O uso indiscriminado de agrotóxicos é uma
das maiores ameaças à produção agrícola
sustentável, uma vez que ameaçam a
biodiversidade, contaminam o solo, a água e
o ar, além de intoxicar as pessoas.
DIVERSIFICANDO PARA PROTEGER
Trabalho com mosca-branca mostrando o aumento do controle
dessa praga do tomate com o aumento da diversidade e
diminuição de uso de agrotóxicos nas propriedades
Convencional
Valores K de mortalidade (intensidade da mortalidade)
Transição
para o orgânico
Orgânico Agroecológico
0
0,5
1
1,5
2
2,5
3
35%
69%
71%
77%
Biodiversidade de inimigos naturais
Diversidade das fazendas +
+-
+ -
-
Uso de agrotóxicos /
impacto na biodiversidade
Desconhecido
Patógenos
Desalojamento
Parasitismo
Predação
ATLAS DOS INSETOS 2021 / TOGNI ET AL. 2019
ATLAS DOS INSETOS 2021 33
A FORÇA DO INGÁ
Plantas de café distantes até 20 metros de árvores de ingá (
I. edulis
) estão mais protegidas contra o ataque do bicho-mineiro do cafeeiro
(
Leucoptera co eella
) e da broca-do-café (
Hypothenemus hampei
). O ingá libera néctar nas suas folhas, que atrai e alimenta vários inimigos naturais.
Esses insetos permanecem próximos e protegem as plantas de café.
20m20m
biofábricas e liberação nos cultivos. No Brasil, temos casos
de sucesso, como o uso do parasitoide Cotesia fl avipes no
controle da broca-da-cana (Diatraea saccharalis) em culti-
vos de cana-de-açúcar; o uso de parasitoides do gênero Tri-
chogramma no controle de lepidópteros pragas no milho,
soja, cana-de-açúcar e hortaliças. O uso da bactéria Bacillus
thuringiensis e de baculovírus para o controle de lagartas de
lepidópteros em diversas culturas, entre outros. No entan-
to, vale ressaltar que a maior parte desses produtos bioló-
gicos ainda são pouco acessíveis para a agricultura familiar
que produz de forma agroecológica e em pequena escala.
Quando os métodos acima ainda não são sufi cientes
para um controle satisfatório das populações de insetos
herbívoros, podemos utilizar extratos botânicos com efei-
to inseticida e caldas fi toprotetoras para o controle de in-
setos. Dentre os inseticidas botânicos, pode-se destacar o
uso do nim (Azadirachta indica), por ser uma das plantas
mais estudadas e utilizadas para o controle de insetos.
Aproximadamente 400 espécies de insetos e ácaros são
suscetíveis a diferentes produtos à base de nim. A partir
de raízes de plantas leguminosas, como timbó (Derris uru-
cu e D. amazonica), também é possível extrair o composto
rotenona, com ação inseticida conhecida. O extrato das
folhas de timbó pode ser utilizado para controlar os besou-
ros conhecidos popularmente como “vaquinhas” (Ceroto-
ma arcuatus e Diabrotica speciosa) e o caruncho-do-feijão
(Callosobruchus maculatus). Sementes e fl ores de crisânte-
mo (Chrysantemum cinerariaefolium) possuem o composto
inseticida piretro e podem ser utilizados para controlar
pragas de grãos armazenados e insetos sugadores como
pulgões e moscas-branca. Todos os inseticidas botânicos
podem causar impactos negativos a organismos não alvos,
como inimigos naturais e outros insetos benéfi cos, além de
organismos aquáticos caso entrem em contato com corpos
hídricos. Dessa forma, qualquer inseticida botânico preci-
sa ser utilizado com cautela e seguindo as recomendações
técnicas e leis vigentes.
As caldas fi toprotetoras são utilizadas primariamente
visando melhorar a qualidade nutricional das plantas. No
entanto, elas também podem ter efeito inseticida. Dessa
forma, caldas como a bordalesa e a viçosa, compostas por
sulfato de cobre, óxido de cálcio e no caso da última, micro-
nutrientes, podem contribuir para aumentar a resistência
das plantas ao ataque de insetos. A calda sulfocálcica, cons-
tituída de enxofre e cal, pode proteger as plantas direta-
mente através da diminuição da população dos herbívoros
e é utilizada para controlar cochonilhas, ácaro-vermelho, o
ácaro-branco em pimenta e outros.
Outra forma de controle de insetos que tem sido pesqui-
sada em diferentes países é o uso de preparados homeopáti-
cos. Nas plantas, a homeopatia incide diretamente nos seus
processos fi siológicos, sem gerar efeitos tóxicos, podendo
atuar como indutora de resistência a insetos. A homeopatia
também pode atuar diretamente sobre o comportamento
dos insetos, como já observado no forrageamento de formi-
gas cortadeiras. O uso de homeopatia em Acromyrmexspp. e
Atta spp. mostrou redução no número de formigas no car-
reiro com duração por mais de 20 dias após a última aplica-
ção. Também é possível associar o uso da homeopatia a res-
postas negativas na biologia dos insetos herbívoros, como
já constatado em lagartas de Ascia monuste orseis, com re-
duções em até 27% na emergência de adultos e diminuição
de até 42% de ovos viáveis. Há também estudos observando
reduções de até 49% no número de adultos da nova geração
em populações de carunchos do feijão (Acanthoscelides ob-
tectus). Em conjunto, todas essas práticas ajudam a tornar
o sistema de cultivo mais sustentável e menos dependentes
de produtos tóxicos à biodiversidade e ao ambiente.
ATLAS DOS INSETOS, 2021 / REZENDE ET AL., 2021
ATLAS DOS INSETOS 2021
34
A
demanda crescente por alimentos exige o aumento
da produtividade agrícola, que deve ser alcançada
pelo uso de diversas tecnologias ambientalmente se-
guras. O avanço das áreas de plantio gera oferta abundante
de alimento para as pragas que atacam as plantas cultiva-
das. Com mais plantas de um mesmo tipo no campo, mais
pragas são atraídas e assim criam-se condições para que es-
sas se desenvolvam e se multipliquem plenamente, já que
seu alimento está disponível em profusão. O ataque de pra-
gas é responsável pela perda de 10 a 30% da produção agrí-
cola mundial das cinco culturas responsáveis por cerca de
50% da ingestão global de calorias humanas (trigo, arroz,
milho, soja e batata). Apenas no Brasil, as perdas agrícolas
causadas por insetos-praga representam um montante de
US$ 17,7 bilhões ao ano. A principal estratégia utilizada
para controlar as pragas é o controle químico. O volume
de agrotóxicos utilizado mundialmente nas diversas cultu-
ras chega a aproximadamente 2 milhões de toneladas, dos
quais 29,5% são inseticidas. Apesar do uso desse método de
controle, a proteção efi ciente dos cultivos não é alcançada
e observam-se diversos efeitos nocivos à saúde humana e
ambiental.
O manejo integrado de pragas, baseado nas recomen-
dações da Organização das Nações Unidas para a Alimen-
tação e Agricultura (FAO), que remonta aos anos de 1960,
propõe combinar diversas estratégias preventivas e cura-
tivas, quando necessário. Os inseticidas só devem ser usa-
dos como último recurso, quando a infestação da praga
exceder ao nível de controle. Porém, o uso de estratégias
de controle biológico pode ser uma alternativa viável em
contraposição aos inseticidas. O controle biológico de pra-
gas é a estratégia-chave do manejo, no qual um organismo
vivo é utilizado para suprimir a população de uma praga,
tornando-a menos abundante ou menos danosa, seme-
lhante ao que ocorre na natureza. Os inimigos comem os
insetos nocivos, sugam seu conteúdo, ou parasitando-os,
colocando seus ovos sobre eles ou dentro deles, o que acaba
matando-os. Esse método de controle não causa problemas
ao ambiente, à água, ao solo, ao ser humano e aos animais,
e não deixa resíduos nos alimentos.
O controle biológico pode ser utilizado conservando
a diversidade de inimigos naturais já presentes na lavou-
ra (controle biológico conservativo), ou pela introdução
massiva de inimigos naturais criados em laboratório e
posteriormente liberados no campo (controle biológico
aumentativo). Na primeira estratégia, são fornecidas con-
dições ambientais nos cultivos para que os inimigos natu-
rais das pragas que ocorrem naturalmente aumentem em
abundância e efi ciência, como alimento alternativo, locais
de abrigo e microclima favorável. Isso pode ser alcançado,
principalmente, pelo aumento da diversifi cação da vege-
tação nos cultivos, em contraposição ao plantio em mo-
noculturas. As principais estratégias de controle biológico
conservativo de pragas via diversifi cação da vegetação são:
a) introdução de árvores e arbustos (perenes) com caracte-
rísticas favoráveis aos inimigos naturais; b) uso de plantas
de cobertura e adubos verdes nas entrelinhas; c) consórcio
PRAGAS E INIMIGOS NATURAIS
MANTENDO O EQUILÍBRIO
Para limitar o dano que os insetos causam
às plantações, convocamos seus inimigos
naturais, principalmente outros insetos. O
controle biológico de pragas será ainda mais
bem-sucedido se a diversidade de espécies e
do ambiente forem maiores.
Há um crescimento no número de produtos biológicos
registrados no país, o que mostra que as alternativas
disponíveis aos inseticidas químicos são cada vez maiores,
contribuindo para a sustentabilidade agrícola.
ALTERNATIVAS EM CRESCIMENTO
Produtos biológicos registrados no país de 2000 a 2021
microorganismos
macro-organismos
semioquímicos
bioquímicos
2
8
3
3
2
11
1
3
2
2
6
1
7
33
22
2
2
17
5
3
1
3
3
11 3
1
72
5
1
2
2
15
12
34
4
12
3
7
30
3
2
6
41
34
3
6
8
3
48
1
2
27
Total: 405
62,7%
16,8%
12,1%
8,4%
2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2007 2007 2010 2011 2012 2013 2 014 2015 2016 2017 2018 2019 2020 2021
ATLAS DOS INSETOS 2021 / MAPA
ATLAS DOS INSETOS 2021 35
com plantas aromáticas; e d) manejo de plantas espontâ-
neas. Além de se alimentarem das pragas, insetos como
as joaninhas, crisopídeos, vespas, percevejos predadores e
vespas parasitoides são beneficiados quando possuem re-
cursos florais das plantas associadas, como pólen e néctar,
disponíveis. Esses recursos são importantes para garantir
que esse exército esteja presente nos campos de cultivo
mesmo antes da praga aparecer e não deixar a população
das pragas aumentar.
Na outra estratégia de controle biológico, o aumentati-
vo, os inimigos naturais são liberados em campo, de forma
inundativa ou inoculativa. São utilizados macro-organis-
mos como insetos e ácaros predadores e insetos parasitoi-
des, e microrganismos, representados pelos agentes micro-
bianos, como os fungos, vírus, bactérias e nematoides que
podem causar doenças e infecções nos insetos pragas. No
Brasil, existem disponíveis no mercado brasileiro 188 pro-
dutos comerciais registrados no Ministérios da Agricultu-
ra, Pecuária e Abastecimento (MAPA) como biopesticidas,
voltados para a agricultura orgânica. A soja, por exemplo,
conta com um portfolio de produtos biológicos para o con-
trole de pragas. As lagartas desfolhadoras são controladas
com produtos à base de vírus e bactérias; os percevejos que
atacam os grãos, através da liberação de microvespas; e as
moscas-branca e algumas doenças através de fungos. O uso
de vírus para o controle de lagartas da soja é o maior progra-
ma em escala mundial com esse tipo de agente. Na cana de
açúcar, o controle biológico tem assumido o protagonismo
das estratégias de controle: 39% da área plantada no Brasil
já utiliza pelo menos um agente de controle biológico para
a broca-da-cana, que é controlada através da liberação de
microvespas que atacam as lagartas e outras que atacam os
ovos; 20% da área de cana no país é tratada com fungos para
o controle das cigarrinhas. Em mais de 200.000 ha de soja,
milho, algodão, feijão e tomate são liberados microvespas
para o controle de lagartas desfolhadoras. Um outro fato
interessante é que o controle biológico conservativo pode
ainda ser utilizado em conjunto com o aumentativo e me-
lhorar ainda mais a eficiência no controle de pragas.
O uso de um único método de controle coloca em risco
a cadeia produtiva e a própria indústria de agroquímicos
reconhece que o uso exclusivo do controle químico não é
sustentável em longo prazo. A invasão de novas pragas, as
quais não possuem ainda registro de agrotóxicos no país, é
um exemplo também de que a aposta em um único método
pode colocar em risco a produção. Em 2012, uma nova es-
pécie de lagarta invadiu o país e causou grandes danos em
plantações de milho, algodão e soja. Não havia produtos
eficientes disponíveis, uma vez que a praga já apresentava
resistência aos agrotóxicos registrados. A aprovação emer-
gencial de biopesticidas à base de bactérias e vírus e a libe-
ração de microvespas nas lavouras para parasitar os ovos
da praga foram os principais métodos efetivos de controle
disponíveis à época.
Portanto, existe uma ampla gama de tecnologias susten-
táveis baseadas no uso da biodiversidade que estão disponí-
veis como linha de frente antes do uso de inseticidas. No en-
tanto, é necessário combinar diversas estratégias e entender
como a infestação da lavoura ocorre no tempo. Uma propo-
sição interessante é iniciar o manejo de pragas com técnicas
preventivas baseadas no controle biológico conservativo,
rotação de culturas e uso de variedades resistentes. A eta-
pa seguinte seria a liberação de inimigos naturais de forma
aumentativa. O agricultor pode ainda usar produtos menos
nocivos para os insetos benéficos como extratos de plantas e
caldas fitoprotetoras, desde que seguindo a recomendação
técnica para não interferir no controle biológico. Apenas
quando todas essas estratégias falham, os inseticidas quí-
micos entram em ação. Mesmo assim, margens de campo,
faixas de conservação, cercas e outros refúgios quase natu-
rais são pontos de partida indispensáveis para que estraté-
gias preventivas sejam mais usadas do que as curativas. Para
encorajar uma gama tão ampla quanto possível de inimigos
naturais, uma mistura de elementos de paisagem existentes
e recém-estabelecidas é necessária. As rotações de safras e
o manejo de safras que levam em consideração os ciclos de
vida dos insetos benéficos também são úteis. Parte da área
não deveria ser cultivada e o solo deveria ser trabalhado
com moderação, porque muitos tipos de insetos hibernam
abaixo da superfície. Para promover organismos benéficos
de forma adequada, os ecologistas recomendam a criação e
vinculação de habitats quase naturais para pelo menos 20%
de todas as paisagens, associado ao uso agronômico eficien-
te e sustentável das práticas culturais disponíveis.
O PODER DAS PLANTAS AROMÁTICAS
MANJERICÃO
(
Ocimum basilicum
)
Atrai crisopídeos tanto durante
a fase vegetativa como durante
a oração. Suas ores podem
ser usadas por predadores como
fonte de alimento alternativo.
1 Produzem e liberam espontaneamente
compostos orgânicos que podem repelir
ou serem tóxicos aos herbívoros.
2 Atraem parasitoides e predadores.
3 Provém recursos alimentares a estes
organismos benécos.
4 Fornecem abrigo, local de oviposição e
presas alternativas.
5 Em associação com culturas de alta
susceptibilidade ao ataque de
herbívoros, as plantas aromáticas
beneciam tais culturas por meio de
resistência associativa.
COENTRO
(
Coriander sativum
)
Atrai predadores generalistas e
parasitoides da mosca-branca
e da traça do tomateiro, mesmo
antes de orir. Na oração fornece
pólen e néctar a predadores,
sendo indicado seu consórcio
com o tomate.
ATLAS DOS INSETOS 2021 / BATISTA ET AL. 2017 / TOGNI ET AL. 2016
ATLAS DOS INSETOS 2021
36
O
s gafanhotos são insetos pertencentes à Ordem Or-
thoptera, um grupo que se caracteriza por possuir
o terceiro par de pernas do tipo saltatório, apare-
lho bucal mastigador e dois pares de asas. A reprodução é
sexuada e o desenvolvimento ocorre por metamorfose in-
completa, passando pelas fases de ovo, ninfa e adulto. Estes
insetos são polífagos, podendo se alimentar de espécies de
plantas nativas e cultivadas, afetando a agricultura direta-
mente, assim como a pecuária, ao se alimentarem de pas-
tagens.
A Ordem apresenta mais de 20.000 espécies divididas
em duas subordens Caelifera e Ensifera. Na primeira, en-
contramos a Família Acrididae que compreende os gafa-
nhotos propriamente ditos. Dependendo do seu compor-
tamento, eles podem ser classificados como sedentários ou
migradores. As espécies sedentárias apresentam hábitos
solitários, provocando poucos danos, enquanto as espécies
migradoras podem formar as chamadas “nuvens de gafa-
nhotos”, causando grandes prejuízos nas plantações. As
mudanças na densidade populacional, passando da fase so-
litária à gregária e vice-versa, é conhecida como Teoria das
Fases, e provoca alterações no comportamento, cor, tama-
nho e forma destes insetos. Deste modo, o habito gregário
e a capacidade de dispersão aliados à sua voracidade deter-
minam seu potencial destrutivo. Considerando que cada
gafanhoto pode consumir seu próprio peso em vegetais
por dia, uma nuvem formada por milhões de indivíduos é
capaz de devastar grandes áreas, destruindo rapidamente
plantações inteiras.
O deslocamento das “nuvens de gafanhotos” ocorre
nos períodos da manhã e da tarde, dependendo de fatores
climáticos como temperatura, umidade, vento, presença
de nuvens e precipitações. A direção do vento determina
na maior parte dos casos a direção do deslocamento, que
pode alcançar cerca de 150 km/dia, voando entre 9-10 ho-
ras ininterruptas, a mais de 1700 m de altitude.
Relatos de invasões de gafanhotos ocasionando graves
danos às culturas vêm sendo registrados há séculos. Os pri-
meiros podem ser encontrados no Livro do Êxodo, Antigo
Testamento da Bíblia.
No Brasil, ataques desses insetos vêm sendo observados
desde o século XVII, porém com maior ênfase a partir do
início do século XX. Cerca de 20 espécies de importância
econômica ocorrem em diferentes regiões geográficas do
país. Entretanto, a espécie mais devastadora é Schistocerca
cancellata, conhecida popularmente como “gafanhoto
sul-americano”. Esta é a única que pode chegar ao Brasil,
uma vez que os indivíduos adultos possuem comporta-
mento gregário e formam as “nuvens de gafanhotos”. Essa
espécie possui como berçário a região do Chaco (área que
abrange parte do Paraguai, Argentina e Bolívia). A ocor-
rência de vários anos de seca favorece sua gregarização e
deslocamento para o sul e leste da Argentina, Uruguai e es-
tados do sul do Brasil, podendo chegar até o sul do Nordes-
te brasileiro, como já aconteceu em ataques registrados no
século passado.
A última grande ameaça de invasão ao território bra-
sileiro ocorreu entre os meses de junho e agosto de 2020,
quando “nuvens de gafanhotos” de S. cancellata se deslo-
caram sobre os territórios da Argentina e Paraguai, pro-
vocando alarme devido ao risco de entrada no Brasil. Essas
nuvens chegaram a cerca de 150 km da fronteira, próximo
à cidade de Uruguaiana, no Rio Grande do Sul. Em junho de
2020, uma portaria do Ministério da Agricultura, Pecuária
e Abastecimento (MAPA) declarou estado de emergência fi-
GAFANHOTOS
NUVENS DE GAFANHOTOS NO BRASIL:
UMA AMEAÇA JÁ SUPERADA?
Desde muito tempo as chamadas “nuvens
de gafanhotos” são uma ameaça que ronda
áreas de cultivos agrícolas. No Brasil, ataques
destes insetos vem sendo observados desde
o século XVII. Mas será que a intensificação
desses ataques pode estar relacionada a
processos como mudanças climáticas ou
expansão das fronteiras agrícolas?
A existência das nuvens de gafanhoto está relacionada
às rotas de migração desses animais – nem todas
chegam ao território brasileiro.
GAFANHOTO SULAMERICANO
Origem do gafanhoto sul-americano e as rotas de migração
Local de Origem
(berçário)
Rotas migratórias que
chegaram no Brasil no
século passado (décadas
de 20, 30 e 40).
Rotas migratórias
frequentes que
permanecem no
território argentino
ATLAS DOS INSETOS 2021 / ELABORAÇÃO DOS AUTORES
ATLAS DOS INSETOS 2021 37
tossanitária, pelo risco de surto desta espécie em áreas pro-
dutoras de Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Felizmente,
as “nuvens de gafanhotos” não entraram no território bra-
sileiro, porém os órgãos de defesa fitossanitária têm ficado
em estado de alerta, uma vez que o fenômeno migratório
ocorre por períodos que podem durar até uma década.
O gafanhoto sul-americano não ataca humanos e nem
animais, mas pode se alimentar de aproximadamente 400
espécies vegetais cultivadas, especialmente gramíneas, as-
sim como de vegetação nativa. Na fase jovem, a quantidade
de alimento consumida aumenta à medida que crescem.
Mas são os adultos os que causam maior temor, não apenas
pela destruição das plantações, mas por se dispersarem na
forma de nuvens.
O ciclo de desenvolvimento desta espécie tem uma du-
ração de cerca de 100 dias. Os adultos chegam na primave-
ra nas regiões agrícolas em busca de alimento, ocorrendo o
acasalamento durante os descansos. Após 10 dias, as fême-
as perfuram um orifício no solo, onde depositam entre 50
e 120 ovos em forma de espigueta, denominada cartucho.
Após uns 30 dias eclodem as ninfas que apresentam com-
portamento gregário, no primeiro e segundo estádio, e são
chamadas de “mosquitos”.
No terceiro estádio ninfal, observa-se a presença das
asas rudimentares. Nesta fase, as ninfas conhecidas como
“saltões”, não apresentam conduta gregária e se alimen-
tam dia e noite, provocando danos consideráveis. Já os
adultos formam nuvens, destruindo toda a vegetacão por
onde passam.
Felizmente, no Brasil não há berçários para espécies de
origem migratória, mas as espécies endêmicas (que ocor-
rem somente em determinadas áreas) também podem cau-
sar danos locais nos cultivos agrícolas e na vegetação nativa.
Por exemplo, no mesmo período em que houve ameaça de
invasão das “nuvens de gafanhotos” de S. cancellata, foram
registrados também surtos populacionais de espécies em
vários Estados brasileiros, destacando-se o gafanhoto-ver-
de (Zoniopoda iheringi) e o gafanhoto-militar (Chromacris
speciosa). Acredita-se que estes surtos localizados estejam
relacionados a condições de clima seco e baixa precipita-
ção acumulada nas safras de verão, como registrado na re-
gião Centro Sul do Brasil, nos últimos 5 anos.
Outras espécies também têm sido relatadas com frequ-
ência pelos danos causados, destacando-se o gafanhoto-do-
Nordeste (Schistocerca pallens), que predomina nesta região
do Brasil. Em condições de estiagem, ataca principalmente
pastagens e lavouras de milho e feijão. Nas regiões Norte e
Nordeste e no Estado de Minas Gerais, o gafanhoto-das-a-
sas-azuis (Tropidacris collaris) e o gafanhoto-de-coqueiro
(T. cristata) apresentam comportamento gregário na fase
de ninfa, ocasionando danos em numerosos cultivos como
bananeira, mandioca e cana-de-açúcar. Nas regiões Centro
Oeste e Sudeste, o gafanhoto-crioulo (Rhammatocerus schis-
tocercoides), possui habito polífago, mas prefere se alimen-
tar de gramíneas nativas do cerrado e também de planta-
ções de arroz, cana-de-açúcar, milho, sorgo, pastagens, soja
e feijão.
Embora haja possibilidade de ataques de “nuvens de ga-
fanhotos” da espécie migratória S. cancelatta a plantações
brasileiras, cabe destacar que apenas uma pequena quan-
tidade de espécies autóctones (20), causa danos econômi-
cos no Brasil e em períodos aleatórios. As demais espécies
também fazem parte do ecossistema e desempenham im-
portante papel na manutenção do equilíbrio biológico de
outros organismos animais e vegetais.
Muito se tem especulado em relação aos fatores que de-
sencadeiam os surtos, mas ainda não se tem um consenso
a respeito. Sabe-se que a temperatura é um dos principais
fatores abióticos que afeta diretamente o desenvolvimen-
to, comportamento e a reprodução dos insetos. Assim, o
aumento da temperatura, aliada à distribuição irregular
das chuvas e o aumento dos períodos de seca provocados
pelas mudanças climáticas que afetam o planeta, poderia
favorecer os aumentos populacionais da praga. Além dis-
so, a simplificação do ambiente em função das atividades
agropecuárias também poderia favorecer a ocorrência de
determinadas espécies. Talvez essa explicação será dada
pela ciência após um maior período de tempo, já que esses
fenômenos de aumento populacional ocorrem em deter-
minados períodos em pouca frequência.
Consumo das ninfas (%)
1º estádio ninfal: consome 1%
2º estádio ninfal: consome 3%
3º estádio ninfal: consome 10%
4º estádio ninfal: consome 30%
5º estádio ninfal: consome 56%
CICLO DE VIDA DOS GAFANHOTOS
OVOS
São depositados em buracos
que as fêmeas fazem com o
ovipositor no solo.
Eles são colocados em forma
de uma “espiga”. A eclosão das
ninfas pode ocorrer após 15 dias
dependendo da temperatura e da
quantidade de chuva.
NINFAS
Primeiro e segundo estádio ninfal
São chamados de mosquitos, vivem em
grupos, não possuem o desenvolvimento
das tecas alares.
Terceiro, quarto e quinto estádio ninfal
São chamados de saltões, normalmente
vivem isolados, possuem o
desenvolvimento das tecas alares.
ADULTO
Consomem diariamente o
equivalente ao peso de seu corpo.
Após a copula, a fêmea pode
realizar até 6 posturas, sendo que
cada uma pode ter até 100 ovos.
A longevidade pode ser de até
6 meses, dependendo da espécie
e da temperatura.
ATLAS DOS INSETOS 2021 / ELABORAÇÃO DOS AUTORES
ATLAS DOS INSETOS 2021
38
E
ntre 1996 e 2018, a proporção da área cultivada em
todo o mundo com culturas geneticamente modifica-
das (GM) cresceu de 3,6 para 12,8%, segundo dados da
indústria. Hoje, 90% dos 192 milhões de hectares estão con-
centrados em apenas cinco países: Estados Unidos, Brasil,
Argentina, Canadá e Índia. A grande maioria consiste em
apenas três culturas: soja (50%), milho (30%) e algodão (13%).
Isso tem implicações enormes para os habitats dos insetos,
seja pelos métodos de produção empregados, seja pelas no-
vas características das próprias plantações.
As plantas geneticamente modificadas (transgênicas)
são cultivadas em monoculturas de larga escala. A substi-
tuição da vegetação natural por vastas monoculturas dei-
xa os insetos com poucas opções de abrigo e alimentação,
como cercas-vivas, margens de campos ou áreas não cul-
tivadas. Além disso, a maioria das plantas transgênicas é
“tolerante a herbicidas”. Mas as demais espécies vegetais
presentes são suscetíveis ao herbicida e morrem, deixando
a área com poucas espécies que servem de fonte de alimen-
to para os insetos. A agricultura industrial e o uso de agro-
tóxicos restringem os habitats dos insetos ou os eliminam
por completo.
“Resistência a insetos” é a segunda característica mais
importante introduzida nas culturas geneticamente modi-
ficadas. As plantas de milho ou algodão GM produzem em
todas suas células uma toxina que visa matar as pragas mais
importantes dessas culturas. A alegada especificidade da
ação dessas toxinas sobre as pragas alvo é cientificamente
controversa e seus efeitos adversos sobre insetos benéficos,
polinizadores e insetos do solo não foram suficientemente
examinados.
Estudos mostram que as toxinas produzidas pelas plan-
tas de milho GM para combater a broca europeia do milho
(Ostrinia nubilalis) podem também prejudicar gravemente
as lagartas de outras espécies de mariposas ou borboletas.
Especialmente problemático é o fato de que as plantas pro-
duzem a toxina nas suas raízes, folhas, flores e pólen ao lon-
go de todo o seu ciclo de crescimento, prejudicando, assim,
os insetos por meses a fio. Além disso, muitos estudos mos-
tram que a resistência a herbicidas produz efeitos negati-
vos sobre os insetos e a biodiversidade como um todo.
O desenvolvimento de novas técnicas de engenharia
genética vem acontecendo há cerca de 15 anos. Também
chamadas de edição de genes, essas ferramentas estão in-
timamente ligadas à digitalização da informação genética
e tornam a modificação de genes mais fácil, mais barata
e mais direcionada do que as abordagens “antigas” eram
capazes. Genes individuais podem ser desligados, duplica-
dos ou reordenados, mas os efeitos não intencionais dessas
alterações sobre as demais regiões do genoma continuam
pouco compreendidos. Organizações da sociedade civil
temem que as variedades transgênicas derivadas dessas
novas técnicas sejam aprovadas antes que seus efeitos no
meio ambiente e sobre os insetos sejam devidamente es-
tudados e conhecidos. Elas também veem o perigo de que
características como a resistência a herbicidas, que são tão
prejudiciais aos insetos, possam ser incorporadas a outras
culturas de maneira mais fácil e barata, estimulando ain-
da maiores perdas de diversidade. As principais empresas
globais de sementes já estão garantindo para si as patentes
mais importantes ligadas a essas técnicas.
Novas abordagens para a engenharia genética também
têm como alvo os próprios insetos. Um método testado em
ENGENHARIA GENÉTICA
DO LABORATÓRIO PARA O CAMPO
Sob a promessa de rendimentos mais
elevados, empresas anunciam soluções para
danos provocados pela própria engenharia
genética que ajudaram a criar.
Os impulsores genéticos (gene drives) são anunciados
como esperança para o controle de pragas, mas
apresentam riscos desconhecidos. A ONU está
discutindo uma moratória sobre seu uso.
INSECT ATLAS 2020/BUCHMAN ET AL., ZIYAL
inseto com características sem características
geneticamente modicada geneticamente modicada
PASSANDO PARA AS CRIAS
Diagrama de controle da mosca da fruta
Drosophila suzukii
usando um impulsor genético As moscas da fruta, que sobrevivem de 3 a 9
semanas por geração, podem causar danos
imensos para os fruticultores, destruindo até
uma colheita inteira. As frutas que elas atacam
tornam-se pastosas e apodrecem rapidamente.
Uma nova técnica genética conhecida como “gene
drive” foi adaptada para produtores de frutas na
Califórnia. Na herança mendeliana normal, uma
mosca geneticamente modicada para ser estéril
passa essa característica para apenas metade
de seus descendentes. Com o impulsor genético,
a esterilidade é transmitida a todos os seus
descendentes e pode se espalhar rapidamente por
toda a população. No entanto, os insetos podem
desenvolver resistência até mesmo aos impul-
sores genéticos, pois a informação genética que
confere esterilidade não é transmitida a todos os
novos cromossomos. No caso de pragas agrícolas,
essa situação levaria a um cenário de ainda maior
diculdade de controle.
herança
normal herança com
impulsores genéticos
ATLAS DOS INSETOS 2021 39
laboratório, mas ainda não testado em campo, é o impul-
sor genético. Isso pode fixar características desejáveis ou
indesejáveis no genoma de modo a garantir que eles se-
jam transmitidos a todos os descendentes e, assim, even-
tualmente se espalhem por toda a população em poucas
gerações. Por causa de seus curtos ciclos de reprodução, os
insetos são particularmente adequados para essa técnica.
O exemplo mais conhecido de impulsor genético é a ten-
tativa de controlar a malária por meio da erradicação da
espécie de mosquito transmissor da doença. Os primeiros
mosquitos geneticamente modificados já foram lançados
em Burkina Faso. No Brasil, uma técnica diferente, mas com
modo de ação similar foi aplicada sem sucesso em Aedes
aegypti transgênicos com o objetivo de controlar a dengue.
A erradicação de pragas agrícolas como a drosófila de
asa pintada (mosca da fruta que infesta cerejas) e a mosca
da azeitona também está sendo pesquisada, embora ainda
não no campo. Muitos pesquisadores criticam o impulsor
genético porque a liberação de organismos modificados
contendo essa tecnologia pode ser muito arriscada e pode
afetar ecossistemas inteiros. Essas características podem
ser transferidas para espécies ou populações não-alvo, com
o risco de disseminação global e consequências desconhe-
cidas.
Outra área de pesquisa se concentra no uso de insetos na
agricultura como um tipo de drone. Os insetos são inocula-
dos com vírus geneticamente modificados, que os transfe-
rem para as plantas quando estes visitam as flores. Os vírus
então desencadeiam uma mutação genética desejável du-
rante a fase de crescimento da lavoura. A ideia é conseguir
essas mudanças em curto prazo de modo que a população
de plantas possa responder melhor ao seu ambiente ou a
pragas e doenças (muitas das quais resultante das mono-
culturas em grande escala). A introdução de novos cultivos
geneticamente modificados no meio ambiente, capazes de
eliminar outras espécies, é motivo de crescente preocupa-
ção entre os políticos e a sociedade civil.
A resistência a pragas em plantações transgênicas
está crescendo mais rápido do que a criação de novos
meios para combatê-las.
PROMESSAS NÃO CUMPRIDAS
Plantas transgênicas e insetos resistentes
*mais da metade de indivíduos em uma população
** ex. mutação, desregulação de receptores, desativação de genes
INSECT ATLAS 2020/ISAAA, TRANSGEN, XIAO/WU
Países produtores
Países importadores
Sem dados
Países produtores e importadores de culturas geneticamente modicadas e
maiores áreas cultivadas com essas variedades, em milhões de hectares, 2018
Espécies de insetos resistentes *
a toxinas de plantas geneticamente
modicadas
Principais insetos praga controlados por meio de plantios
geneticamente modicados, resistência e área global de culturas
geneticamente modicadas, em porcentagem, 2018
75.0
12.7
11.6
51.3
Brasil
Canadá
EUA
Índia
não resistente
2 resistente número de
estratégias de resistência**
resistente, sem dados
50.0 30.7
13.0
5.3
1.0 colza
outros
2016
2
4
6
8
10
12
14
16
2002 2004 2006 2008 2010 2012 20 14
0
3.8
23.9
Argentina
Apolygus lucorum
Lygus hesperus
1
Helicoverpa punctigera
1
Trichoplusia ni
3
Spodoptera exigua
4
Heliothis virescens
4
Pectinophora gossypiella
8
Helicoverpa armigera
Helicoverpa zea
Chilo partellus
1
Spodoptera frugiperda
3
Ostrinia furnacalis
5
Ostrinia nubilalis
Diabrotica virgifera virgifera
Busseola fusca
Diatraea grandiosella
lagarta-da-soja
(Anticarsia gemmatalis)
lagarta do algodão
(Spodoptera litura)
soja milho
algodão
Paraguai
ATLAS DOS INSETOS 2021
40
A
mudança climática atualmente representa a terceira
maior ameaça à diversidade de espécies – logo atrás
das mudanças no uso da terra, como o desmatamen-
to da floresta e a exploração direta de organismos, como
a pesca. O aumento das temperaturas e da ocorrência de
eventos climáticos extremos como secas, tempestades e
inundações causam danos aos insetos e seus habitats. Au-
mentos nas populações de insetos podem ser facilmente
atribuídos à mudança climática.
As causas do declínio da população, por outro lado, po-
dem ser mais difíceis de se descobrir porque as mudanças
no uso da terra também podem ser um fator. A maioria das
declarações sobre os efeitos das mudanças climáticas tem
se baseado, até agora, em previsões e estudos experimen-
tais. Com base nisso, é possível identificar algumas tendên-
cias gerais para alguns grupos de insetos bem pesquisados.
Libélulas e gafanhotos são insetos amplamente estu-
dados. Muitas espécies respondem positivamente a tem-
peraturas mais altas. A situação é bem diferente para as
borboletas, que possuem demandas mais complexas em
seu ambiente e são mais afetadas por mudanças. Muitas
espécies vivem próximas de plantas que são o alimento
preferencial de suas lagartas, e dependem de uma rede de
habitats adequados nas imediações.
A perda e fragmentação de habitats – principalmente
como resultado da intensificação de áreas agrícolas – reduz
a possibilidade de muitas espécies simplesmente migra-
rem para locais com melhores condições do que aquele em
que estão. Mesmo espécies de insetos altamente móveis,
como libélulas, não conseguem acompanhar a velocidade
da mudança climática. Algumas espécies podem se adap-
tar, pelo menos parcialmente, à permanente instabilidade
dos sistemas. Mas eventos extremos, como ondas de calor
e chuvas fortes que estão ocorrendo com mais frequência
devido ao aquecimento global, podem dizimar populações
locais.
Os principais beneficiários da mudança climática são
espécies de insetos termófilos (amantes do calor), que são
capazes de prosperar em uma ampla gama de situações e
habitats – os chamados organismos generalistas. As espé-
cies prejudicadas são aquelas com menor mobilidade, que
requerem condições úmidas ou frescas e que, portanto,
dependem de nichos específicos – os organismos especia-
listas. Poucas pesquisas foram feitas sobre como a mudança
do clima afetará essas espécies e como isso, por sua vez, afe-
tará os rendimentos agrícolas.
Os rendimentos esperados das principais safras foram
calculados para vários cenários climáticos, mas muitas
vezes sem levar em conta o papel crucial dos insetos. Uma
pesquisa da Universidade de Seattle, nos Estados Unidos,
calculou que as safras de arroz, milho e trigo diminuirão
entre 10 e 25% por grau de aquecimento global como resul-
tado de mudanças nas populações de insetos. Esses núme-
ros são alarmantes, pois esses três alimentos básicos juntos
fornecem 42% das calorias consumidas por humanos em
todo o mundo.
Essas perdas de safra ocorrem por várias causas. A mu-
dança climática altera a relação entre pragas e organis-
mos benéficos. O estresse climático reduz a tolerância das
plantas agrícolas aos ataques de pragas. No Brasil, estudos
relataram que a longevidade e capacidade reprodutiva de
um pulgão que ataca forrageiras, Sipha flava, foram signi-
MUDANÇAS CLIMÁTICAS
A CHAPA ESTÁ ESQUENTANDO”
PARA OS INSETOS
O aquecimento do planeta prejudica muitas
espécies de insetos, mas torna outras mais
abundantes nas áreas agrícolas. Especialistas
alertam que as pragas causarão danos
maiores no futuro.
As fêmeas dos grilos selvagens de Roesel normalmente têm
asas mais curtas do que os machos. Mas se precisam procurar
novos habitats, as asas de ambos os sexos crescem muito mais.
SE TEM ASAS, VAI VOAR
Crescimento de asas longas no grilo-arbusto de Roesel
(
Metrioptera roeselii
), comprimento da asa
em milímetros e números, total de 210 indivíduos
INSECT ATLAS 2020/PONIATOWSKI, ZIYAL
Os grilos de Roesel normalmente têm asas curtas. A população deles aumenta
em anos mais quentes. Alguns grilos cam estressados com a aglomeração e
as asas podem se tornar duas ou três vezes mais longas do que o normal. Isso
permite que esses indivíduos voem para novas áreas mais facilmente.
224 5 7 9 116 8 10 12 14 16 18 2013 15 17 19 21
0
5
10
15
20
25
30
35
milímetros
asas curtas
machos
fêmeas
asas longas
machos
fêmeas
ATLAS DOS INSETOS 2021 41
ficativamente maiores quando os insetos foram mantidos
em nível de CO2 alto e constante. Os polinizadores também
estão sujeitos ao mesmo estresse. Eles ficam doentes mais
facilmente e suas populações encolhem. Um estudo desen-
volvido pela Universidade de São Paulo (USP) aponta, nas
projeções para 2050 e 2080, uma influência negativa sobre
10 espécies de abelhas nativas ao identificar a redução de
habitats. E há o risco de não simultaneidade: a mudança cli-
mática permite que as plantas floresçam antes no ano, em
um período em que muitos insetos polinizadores ainda não
estão ativos. Mas é justamente no começo da estação que
outros polinizadores não estão disponíveis para compen-
sar as espécies usuais. Pesquisadores da Universidade de
Würzburg, na Alemanha, descobriram que o desenvolvi-
mento da espécie Pulsatilla patens, uma flor selvagem que
cresce em pastagens calcárias, mas que agora é rara, ultra-
passa o das abelhas que a polinizam. Existe o risco de que as
primeiras flores morram antes que as abelhas que as utili-
zam como alimento tenham a chance de polinizá-las.
Com a mudança climática, mais 50 milhões de toneladas das
três mais importantes safras de cereais podem ser perdidas
devido aos danos causados por pragas.
APETITES MAIORES EM AMBIENTES MAIS QUENTES
Previsão de perdas nas produções de cultivos devido aos danos sofridos pelos insetos
com o aumento global de temperatura em 2 graus celsius. Em 1.000 tons
perdas adicionais de produção por
região selecionada, em porcentagem
América do Norte
América Central
América do Sul
África do Norte
África Subsariana
Europa
Ásia Central e do Oeste
Ásia do Norte
Ásia do Leste
Ásia Sul e Sudeste
Oceania
INSECT ATLAS 2020/DEUTSCH ET AL.
18%
18%
14%
13%
17%
10%
32%
11%12%
23%
32%
59%
Milho
Arroz
Trigo
149
Brasil
434
Miamar
868
Indonésia
566
Bangladesh
2,464
Tailândia
521
6,276
Índia
China
China
3,383
Índia
1,019
EUA
1,952
Rússia
2,067
Canadá
1,227
Paquistão
335
Austrália
590
Turquia
763
Argentina
202
França
944
Alemanha
535
Ucrânia
688
Reino Unido
780
3,513
553
246
Brasil
Argentina
5,165
México
EUA China
430
França
306
Produção
em milhões
de tons
250
100
10
497
Vietnã
Consumo
Perda de produção pré-colheita atual
devido a insetos
Perda adicional de produções
ATLAS DOS INSETOS 2021
42
B
arras de proteína, hambúrgueres e macarrão feitos
com insetos inteiros ou em farinha: em uma busca
rápida nas mídias sociais você pode facilmente achar
que a antropoentomofagia – o consumo de insetos por hu-
manos – está na moda e é uma das alternativas sustentáveis
de substituição da carne tradicional. Mas apesar de serem
considerados alimentos exóticos e do “fator eca”, que tor-
nam o consumo de insetos um tópico tão popular na mídia,
no Brasil e na América Latina os povos tradicionais já in-
cluem há tempos esse superalimento em suas dietas, como
os gorgulhos das palmeiras (Rhynchophorus palmarum). Al-
guns desses insetos nativos ainda são consumidos nos inte-
riores do Brasil como iguarias – como a farofa de tanajuras
ou içás (Atta spp.) na época em que ocorre a revoada dessas
formigas, ou o óleo extraído do bicho do coco do tucumã
e do babaçu (larvas de besouros). Mas nas grandes cidades
os insetos já não são um alimento tão familiar, e não é algo
que a maioria das pessoas espera ver em seus pratos.
Se fazem parte apenas da alimentação de rotina dos
povos tradicionais no Brasil, em grande parte do mundo
(mais de 130 países), diferentes tipos de insetos constituem
a dieta diária de cerca de 2 bilhões de pessoas. Insetos con-
têm altas quantidades de proteínas e de lipídeos e são ricos
em sódio, potássio, zinco, fósforo, manganês, magnésio,
ferro, cobre e cálcio. Muitas espécies são abundantes em
vitaminas do grupo B, como tiamina (B1), riboflavina (B2) e
niacina (B6). Os lipídeos que constituem seus óleos são, na
maioria, do tipo insaturado e poliinsaturado e necessários
ao organismo e não daninhos. Dessa maneira, a maioria
deles fornece energia necessária para realizar as diferentes
tarefas e funções orgânicas. O exoesqueleto quitinoso dos
insetos não é digerível pelos seres humanos (assim como a
casca da maçã), mas constitui apenas uma pequena parte
da biomassa total (cerca de 4% nas lagartas) e não afeta o va-
lor nutritivo dos insetos como alimento.
Entusiastas da antropoentomofagia apresentam argu-
mentos convincentes, em especial os aspectos de susten-
tabilidade ecológica e nutricional, ressaltando o alto teor
de proteína desses alimentos. Entretanto, no Brasil ainda
não existe legislação que apoie o consumo humano de in-
setos, embora já existam empresas que produzem rações
para criação animal à base de insetos. Em 2009, foi criada
a Associação Brasileira dos Criadores de Insetos Alimentí-
cios (ASBRACIA) que tem por missão difundir o consumo de
insetos no país, tanto por humanos quanto para a criação
de animais, e de promover trocas de experiência entre as
diferentes práticas para o cultivo do inseto, contando com
pesquisadores, empresários e a população em geral. Algu-
mas das espécies que já são criadas para ração animal no
Brasil são: larvas de besouros da farinha (Tenebrio molitor e
Zophobas morio), grilos negros (Gryllus assimilis) e larvas da
mosca-soldado-negro (Hermetia illucens). Dentre essas com
criação estabelecida no Brasil, a Z. morio e a H. illucens são
espécies nativas segundo o Catálogo Taxonômico da Fauna
do Brasil. Visto a biodiversidade de insetos comestíveis já
registrados no Brasil, muitas possibilidades ainda podem
ser exploradas para o desenvolvimento deste ramo.
Vale salientar que a União Europeia, com base no Regu-
lamento de Novos Alimentos, permite o uso de espécies de
insetos individuais como alimento desde o início de 2018.
INSETOS COMESTÍVEIS NO BRASIL
INSETOS COMO ALIMENTOS
Petiscos de larvas de besouros e grilos
crocantes. Almoço com farofa de formigas
tanajuras. Adicionar insetos aos nossos
menus pode ajudar a superar os problemas
mundiais ligados à produção de alimentos de
origem animal. Mas a sua produção em nível
industrial é controversa: seria útil ou perigoso?
Os insetos, além de serem uma fonte de alimento, oferecem
um benefício adicional: apresentam propriedades
imunológicas, analgésicas, diuréticas, antibióticas,
anestésicas, antirreumáticas e afrodisíacas.
Valor Nutricional Carne bovina Peixe Ovo Frango Carne suína Tanajura
Proteína (g) 21,5 % 15,9 % 6,4 % 20,2 % 18,5 % 20,4 %
Tiamina (mg) 0,8 % 0,2 % 0,5 % 6,8 % 0,7 % 1,1 %
Riboavina (mg) 0,23 % 0,1 % 0,14 % 0,16 % 0,25 % 0,6 %
Niacina (mg) 5,1 % 2,0 % -- 5,0 % 2,8 % 4,6 %
SABOROSAS E NUTRITIVAS
Valor nutritivo da formiga tanajura (
Atta spp
.) em relação a outros produtos alimentícios.
ATLAS DOS INSETOS 2021 / ELABORAÇÃO DOS AUTORES
ATLAS DOS INSETOS 2021 43
Ao fazê-lo, segue o exemplo da Organização das Nações
Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), que nos úl-
timos dez anos vem promovendo a ideia de usar insetos
como uma importante fonte de alimento para nutrir a cres-
cente população humana mundial.
No Brasil, mais de 130 espécies de insetos são utilizadas
tradicionalmente como alimento. Dentre a alimentação
dos povos ribeirinhos, quilombolas e indígenas, existem
diversas espécies de larvas de besouros, lagartas, abelhas,
formigas e gafanhotos que compõem uma variada dieta
e que também são usadas como recursos medicinais nas
farmacopéias tradicionais. Na Ilha do Marajó-Pará, região
Amazônica do Brasil, temos o exemplo de produtos co-
mercializados à base de larvas de besouros (Speciomerus
ruficornis), que são retiradas a partir da coleta e abertu-
ra dos coquinhos do tucumã (Astrocaryum vulgare). Essas
larvas são fritas em grandes tachos, onde a banha ou óleo
extraído delas é separado para uso e venda como produto
medicinal e as larvas secas são adicionadas com farinha de
mandioca para fazer uma farofa.
Os insetos são raramente vistos como um ingrediente
culinário. Os consumidores de insetos em grandes cidades
são principalmente pessoas que desejam evitar consumir
outros produtos de origem animal por razões ecológicas
ou éticas. Em contraste com o abate em massa de bovinos,
porcos ou aves, os insetos são abatidos de forma mais hu-
manitária, com o resfriamento para que caiam em um tor-
por natural e morram sem sentir dor ou estresse.
Algumas espécies de insetos comestíveis podem ser cria-
das em massa em biofábricas e, em comparação com a cria-
ção de animais de gado convencional, por exemplo, reque-
rem menos espaço, alimento, água e energia, ao menos em
teoria. Na prática, ainda existem poucos dados empíricos,
mesmo em países onde os insetos fazem parte do cardápio
regularmente. Lá, a maioria dos insetos consumidos é cap-
turada diretamente na natureza. O maior volume dos pou-
cos insetos que são de fato criados para consumo humano
estão localizados na China, sudeste da Ásia e sul da África, e
a proporção de insetos criados para este fim é de apenas 2%.
Com a demanda por insetos comestíveis aumentando,
existe o perigo de superexploração das populações natu-
rais, causando um colapso nos números, como aconteceu
com a sobrepesca nos oceanos. Também é questionável se o
apetite global por insetos pode ser satisfeito com a criação
industrializada. Especialistas alertam que a criação de inse-
tos pode repetir os mesmos erros que ocorrem com porcos,
galinhas e gado, que levaram à perda da diversidade gené-
tica e ao surgimento de doenças inesperadas que podem
destruir plantéis inteiros.
Se consideradas a biodiversidade e a sociodiversidade
presentes no país, pode-se dizer que o fenômeno da an-
tropoentomofagia tem sido subvalorizado pelos poucos
estudos que existem, uma vez que os insetos comestíveis
representam potencial nutritivo devido aos macro e micro-
nutrientes que possuem. Por essa razão, torna-se necessá-
ria a condução de pesquisas interdisciplinares para regis-
trar a antropoentomofagia no Brasil a fim de saber quais e
quantas são as espécies comestíveis, onde são consumidas
e quem as consome. É essencial o registro do conhecimen-
to, costumes e práticas tradicionais de comunidades indí-
genas e não-indígenas, uma vez que são os representantes
vivos de suas culturas, e porque possuem um conjunto de
saberes significativos sobre os recursos biológicos dos quais
dependem para sua sobrevivência material e imaterial.
Comer insetos é um lugar comum em todo o mundo. Mas em
alguns lugares, especialmente na Europa, é tabu.
sem consumo,
sem dados
1 a 99
100 a 199
200 a 299
300 ou mais
GRELHADO, COZIDO OU ASSADO
Número de espécies de insetos e aranhas registrados como sendo consumidas por humanos, 2017
INSECT ATLAS 2020/JONGEMA
37
59
659
362 321 278 237
45
61
15
37
gafanhotos
formigas, abelhas e vespas
lagartas
moscas
libelula
cupins
baratas
aranhas
outros
true bugs
besouros
ATLAS DOS INSETOS 2021
44
O
s besouros da subfamília Scarabaeinae são popular-
mente conhecidos como escaravelhos ou rola-bos-
tas, uma referência ao hábito de remover e manipu-
lar, em formato esférico, porções de fezes. Essas “bolas” de
fezes são transportadas e enterradas pelos rola-bostas, que
as utilizam para construção de ninhos e para a alimenta-
ção de larvas e de adultos. Esses insetos alimentam-se prin-
cipalmente de fezes de mamíferos, mas também podem
se alimentar de fungos, frutas ou carcaças de animais em
decomposição. As fezes de mamíferos onívoros são muito
atrativas aos rola-bostas, pois representam uma rica fonte
de nutrientes devido à presença de bactérias e altos níveis
de nitrogênio, bem como vitaminas e minerais.
Os besouros rola-bostas possuem uma importância his-
tórica e religiosa. Os antigos egípcios consideravam os esca-
ravelhos como símbolos da ressurreição, usando-os como
amuletos e esculpindo-os em tumbas e sarcófagos de gran-
des faraós. Eles acreditavam que o sol nascia e morria todos
os dias e que o deus Khepri se transformava em um besouro
rola-bosta, a fim de “rolar” o sol de um lado para o outro.
Esses besouros apresentam ampla distribuição pelo glo-
bo com cerca de 6.200 espécies de Scarabaeinae classifica-
das em 270 gêneros e grande riqueza principalmente em
regiões neotropicais. No Brasil, segundo o Catálogo Taxo-
nômico da Fauna Brasileira, são registradas 725 espécies e
63 gêneros presentes em todos os ecossistemas terrestres.
Apresentam tamanho e padrões de coloração muito varia-
dos. Dentre as principais características desses insetos, des-
tacam-se o primeiro par de pernas adaptado para escavar
o solo, as antenas do tipo lamelada e em muitas espécies os
machos possuem um par de chifres desenvolvido na cabe-
ça. Os rola-bostas, em geral, se reproduzem mais na estação
chuvosa, e seu ciclo de vida está fortemente relacionado
com a sazonalidade de chuvas. E sua atividade é principal-
mente crepuscular e noturna. Devido à dependência das
fezes como recurso alimentar e para a reprodução, existe
uma relação direta entre a diversidade dos rola-bostas e a
diversidade de mamíferos que lhes fornecem tais recursos.
Portanto, mudanças nas comunidades de mamíferos po-
dem ter um efeito cascata nos besouro rola-bostas, e alterar
os processos ecológicos e a função dos ecossistemas.
Por serem extremamente sensíveis à degradação do
ambiente, são considerados bioindicadores de conserva-
ção ambiental, motivo pelo qual são usados em estudos
para avaliação de riscos gerados pela perda da biodiversi-
dade no mundo.
A dispersão de sementes é uma importante etapa no ci-
clo de vida das plantas e é parte fundamental na estabilida-
de dos ecossistemas. Inicialmente, a dispersão de sementes
é comumente feita por aves e mamíferos que se alimentam
dos frutos e regurgitam ou defecam sementes viáveis e
intactas em diferentes locais. Logo após ocorre a segunda
parte da dispersão, quando as sementes presentes nas fezes
são deslocadas e dispersadas por outros organismos, como
os besouros rola-bostas.
O Brasil é um dos grandes produtores de gado do mundo.
E a conversão de áreas de vegetação nativa para pecuária
BESOUROS ROLABOSTAS
O QUE “ROLA NOS ECOSSISTEMAS?
Os besouros rola-bostas são fundamentais para
a manutenção do equilíbrio dos ecossistemas.
Em um cenário repleto de distúrbios
ambientais e desmatamento de áreas nativas,
a preservação das espécies de besouros rola-
bostas no Brasil e no mundo torna-se urgente.
Os besouros rola-bostas transformam fezes e outros
materiais em nutrientes para o solo e chegam a
enterrar as fezes em até um metro de profundidade.
SE VIRANDO NOS 30
As principais tarefas do besouro rola-bosta
aeração e
fertilização
dos solos
ciclagem de
nutrientes
controle de
pragas e parasitas
(principalmente das
mosca-dos-chifres,
mosca-dos-estábulos
e de vários outros
helmintos)
auxiliam na
redução de
gases do
efeito estufa
em pastagens
bioindica-
dores de
conservação
ambiental
bioturbação
(mistura de
partículas do
solo)
remoção
de fezes
dispersão
de
sementes
aumento da
biomassa de
plantas
ATLAS DOS INSETOS 2021 / ANDRESEN, E. 2002 / MATTHEWS, E. 1963 / NICHOLS, E. ET AL 2008
ATLAS DOS INSETOS 2021 45
ROLANDO PARA DEBAIXO DO SOLO
Tipos funcionais de besouros rola-bostas 1 Moradores (Endocoprídeos): Escavam e nidicam dentro
ou logo abaixo do esterco fresco
2 Tuneleiros (Paracoprídeos): Cavam túneis abaixo do
esterco e movem porções manipuladas de massa fecal
para dentro dos túneis
3 Roladores (Telecoprídeos): Removem porções
manipuladas em formato esférico para que sejam roladas
e enterradas em um túnel longe da fonte do recurso
1
2
3
OS ALQUIMISTAS DA NATUREZA
Quantidade de fezes produzida e acumulada nos pastos
caso não tivéssemos os besouros rola-bostas
Uma cabeça de gado produz
aproximadamente:
O rebanho brasileiro produz
aproximadamente:
fezes/dia fezes/dia
50kg 18.250kg
4 bi. t
fezes/ano fezes/ano
11 mi. t
afeta a diversidade dos besouros rola-bosta. Mas esses orga-
nismos desempenham um papel importante também nas
áreas de pastagem. Um dos maiores problemas em pasta-
gens é o acúmulo de fezes, que pode impossibilitar o cres-
cimento do pasto. O acúmulo dessas fezes também permi-
te que insetos como mosca-do-chifre e mosca-do-estábulo
completem o seu ciclo biológico. Devido às picadas doloro-
sas e incessantes durante todo o dia, essas pragas deixam o
gado doente e estressado. Ao enterrarem as fezes em gale-
rias cavadas no solo, os rola-bostas auxiliam na manutenção
e recuperação do pasto, tornando disponível para as gra-
míneas a área antes ocupada por fezes. Além disso evitam
a proliferação das moscas, melhorando a aeração do solo e
também propiciam maior disponibilidade de nutrientes.
No entanto, nesses ambientes, um dos maiores inimi-
gos dos rola-bostas são os produtos veterinários, principal-
mente a ivermectina, fármaco que é fornecido por via oral
ou injetado nos animais para controle de parasitas. A maior
parte da eliminação desses medicamentos ocorre pelas fe-
zes dos bovinos, o que gera uma considerável diminuição
da atuação dos rola-bostas. Assim, o uso abusivo desses me-
dicamentos resulta em prejuízos para o ambiente e para o
produtor, pois sem a remoção das fezes, que é feito gratui-
tamente pelos besouros, há um impacto negativo na cadeia
de produção de carne e leite, já que os rola-bostas são os
únicos organismos capazes de removerem rapidamente as
fezes dos pastos.
Atualmente no Egito, próximo ao Lago Sagrado, no
Templo de Karnak, é possível ver a estátua de um escara-
velho gigante em granito que representa o deus Khepri.
Pequenas estatuetas de escaravelhos são vendidas aos via-
jantes como símbolo de boa sorte. Uma curiosidade a res-
peito desses insetos é que os besouros rola-bostas usam o
brilho da Via Láctea para se orientarem, sendo capazes de
se guiar pelas estrelas quando não há a presença da lua no
céu. Haja importância e história para um inseto tão menos-
prezado!
Os besouros rola-bostas são os verdadeiros alquimistas da
natureza, ao transformarem as fezes nos pastos em nutrientes
e contribuindo para um solo mais fértil.
ATLAS DOS INSETOS 2021 / BERTONE, M. ET AL 2006ATLAS DOS INSETOS 2021 / IBGE
ATLAS DOS INSETOS 2021
46
O
s produtos das abelhas, como o mel, são muito apre-
ciados e vêm sendo consumidos por milhares de
anos como fonte de energia, pela sua doçura ou por
suas propriedades terapêuticas. A cera produzida pelas
abelhas também tem lugar de destaque nesse apreço da
humanidade por seus produtos; tudo que fornecem é utili-