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Crime e criminalização de movimentos sociais, trabalhadores e vida urbana na imprensa (Manaus, 1985-1989)

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Abstract

Este artigo é resultado das discussões do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) intitulado “Crime e Criminalização na Imprensa: Movimentos Sociais e vida Urbana na cidade de Manaus (1985-1989)”, possibilitado pela reflexão sobre a imprensa periódica escrita como força ativa na representação da criminalidade e na criminalização de movimentos sociais e outros fazeres urbanos na cidade de Manaus, entre os anos de 1985 e 1989. Tendo como foco a produção de jornal de grande circulação, buscou-se compreender os interesses e as disputas regionais que encadeiam, naquele momento, também valores em torno da ideologia do progresso. A esfera política de atrelamento desses diferentes conteúdos se dá por perspectivas culturais amplas, contribuindo a matéria, de forte apelo midiático, para a articulação de interesses comerciais e empresariais, sendo igualmente alvo da resistência de trabalhadores e trabalhadoras organizados de dentro de seus modos próprios de vida na cidade. O recorte temporal analisado marca o fim da ditadura civil-militar de 1964 e seu após, passando pela promulgação da Constituição Federal do Brasil de 1988 com a consolidação, nesse texto, de importantes políticas sobre o direito à cidade, as quais avançaram o marco civilizatório no país. Tais debates também estiveram presentes na imprensa do período, inclusive com a participação, nessas páginas, de sujeitos históricos diversos que então lutaram por democracia.
OPEN ACCESS
http://dx.doi.org/10.15448/2178-3748.2022.1.41942
Artigo está licenciado sob forma de uma licença
Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.
1  Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Manaus, AM, Brasil.
OFICINA DO
HISTORIADOR
Oficina do historiador, Porto Alegre, v. 15, n. 1, p. 1-13, jan.-dez. 2022
e-ISSN: 2178-3748
Artigo está licenciado sob forma de uma licença
Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.
Paola da Cruz
Rodrigues1
orcid.org/0000-0001-5256-8448
paolacrodrigues1998@gmail.
com
Nelson Tomelin Jr.1
orcid.org/0000-0002-2764-5840
nelsontomelin@yahoo.com.br
Recebido em: 8 out. 2021
Aprovado em: 5 jan. 2022.
Publicado em: 23 maio 2022.
SEÇÃO: ARTIGOS
Crime e criminalização de movimentos sociais, trabalhadores
e vida urbana na imprensa (Manaus, 1985-1989)
Crime and criminalization of social movements, workers and urban life in the press
(Manaus, 1985-1989)
Resumo: Este artigo é resultado das discussões do Programa Institucional de
Bolsas de Iniciação Cientíca (PIBIC) intitulado “Crime e Criminalização na Im-
prensa: Movimentos Sociais e vida Urbana na cidade de Manaus (1985-1989)”,
possibilitado pela reexão sobre a imprensa periódica escrita como força ativa
na representação da criminalidade e na criminalização de movimentos sociais e
outros fazeres urbanos na cidade de Manaus, entre os anos de 1985 e 1989. Tendo
como foco a produção de jornal de grande circulação, buscou-se compreender
os interesses e as disputas regionais que encadeiam, naquele momento, também
valores em torno da ideologia do progresso. A esfera política de atrelamento des-
ses diferentes conteúdos se dá por perspectivas culturais amplas, contribuindo
a matéria, de forte apelo midiático, para a articulação de interesses comerciais
e empresariais, sendo igualmente alvo da resistência de trabalhadores e traba-
lhadoras organizados de dentro de seus modos próprios de vida na cidade. O
recorte temporal analisado marca o m da ditadura civil-militar de 1964 e seu
após, passando pela promulgação da Constituição Federal do Brasil de 1988 com
a consolidação, nesse texto, de importantes políticas sobre o direito à cidade, as
quais avançaram o marco civilizatório no país. Tais debates também estiveram
presentes na imprensa do período, inclusive com a participação, nessas páginas,
de sujeitos históricos diversos que então lutaram por democracia.
Palavras-chave: Imprensa. Criminalização. Trabalhadores.
Abstract:
This article is the result of the discussions of the Institutional Program
of Scholarships for Scientic Initiation (PIBIC) entitled “Crime and Criminalization
in the Press: Social Movements and Urban Life in the city of Manaus (1985-1989)”,
made possible by the reection on the written periodical press as an active force
in the representation of criminality and criminalization of social movements and
other urban actions in the city of Manaus, between the years 1985 and 1989. Fo-
cusing on the production of a large circulation newspaper, we tried to understand
the interests and regional disputes that chained, at that moment, also values
around the ideology of progress. The political sphere in which these dierent
contents are intertwined has broad cultural perspectives, and the article, with
strong media appeal, contributes to the articulation of commercial and business
interests, being equally the target of resistance from workers organized within
their own ways of life in the city. The time frame analyzed marks the end of the
1964 civil-military dictatorship and its aftermath, going through the promulgation
of the 1988 Federal Constitution of Brazil with the consolidation, in this text, of
important policies on the right to the city, which advanced the civilizing miles-
tone in the country. Such debates were also present in the press of the period,
including the participation, in these pages, of diverse historical subjects who
fought for democracy at the time.
Keywords: Press. Criminalization. Workers.
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Introdução
A partir da problematização do eixo temático
“Crime e criminalização na imprensa: movimentos
sociais e vida urbana em Manaus (1985-1989)”
buscamos compreender as relações da imprensa
como força social ativa na representação do crime
e em processos de criminalização de fazeres e
lutas de movimentos sociais na capital do esta-
do do Amazonas entre os anos de 1985 e 1989.
Com foco prioritário de análise para a produção
de todas as edições do jornal A Crítica dos anos
de 1985 a 1989, visamos entender os diferentes
discursos e como eles são construídos no jornal,
seja relacionado ao cotidiano, como também à
violência, entre outros temas. A esfera desses
atrelamentos temáticos de motivações diferentes
envolve, na imprensa, perspectivas políticas e
culturais, contribuindo a matéria analisada, de
forte apelo midiático, para a articulação de inte-
resses variados da vida urbana. A periodização
da pesquisa se justica em razão de demarcar
o declínio da ditadura civil-militar e a transição
democrática simbolizada pela Constituição de
1988. A partir desse documento, houve a de im-
portantes políticas e discussões sobre o direito à
cidade que então avançaram o marco civilizatório
no país, debates também presentes na imprensa
daquele período, inclusive no campo das disputas
sobre a segurança pública.
O discurso da segurança na imprensa, e com
ele o tema do crime e da criminalização de va-
lores da vida e das lutas de segmentos sociais
urbanos nessas páginas – com atenção aqui para
jornal A Crítica, de grande circulação na cidade
de Manaus –, mantinha forte atrelamento com
setores produtivos da sociedade amazonense,
e colaborou, entre 1985 e 1989, para articular
posicionamentos e reposicionamentos novos
de antigas disputas da luta de classes na região,
servindo muitas vezes o tema da violência para
relacionar classes pobres com o perigo social
(CHALHOUB, 1990, 2001; UGARTE, 2001). Con-
tribuem, ainda, para essas análises, importantes
avanços na pesquisa no campo da história social
do crime e da criminalização de valores da vida
urbana em diferentes contextos e temporalida-
des, no Brasil e em outras sociedades (ADORNO,
2002; CHALHOUB, 2001; FAUSTO, 1984; LINE-
BAUGH, 1983; THOMPSON, 1997).
Ademais, é importante também evidenciar o
papel das políticas territoriais de controle social
urbano impostas pela ditadura civil-militar (arro-
cho salarial com repressão sistemática contra a
classe trabalhadora e suas formas de organiza-
ção nas cidades e no campo), o que propiciou o
aparecimento de novas e expressivas áreas de
favelização nas regiões urbanas do país. O tema
das favelas, imediatamente relacionado com o
da violência nas páginas da imprensa escrita
periódica, contribuiu para edificar, no âmbito da
informação e comunicação, bem como forma-
ção de opinião de seus leitores, a associação
entre insegurança e aqueles espaços, sem que
se observasse a necessária discussão do tema
pelo viés da necessidade de políticas públicas
de seguridade social. Como observa Alba Zaluar
no importante capítulo “Para não dizer que não
falei de samba: os enigmas da violência no Brasil”,
publicado na coletânea História da Vida Privada
no Brasil, o tema “rende” (ZALUAR, 1994, 2003,
2006, 2007).
A imprensa é importante fonte de análises
históricas (VIEIRA et al., 1991), podendo evidenciar
processos de formação social com dimensões
culturais e disputas entre valores e interesses
contraditórios e ambíguos. O jornal enquanto
empresa, se distingue por projetos e articula-
ções também no campo do poder social, por
anidade com grupos sociais determinados. O
que conguram disputas pela memória inclusive
por meio da evidenciação ou ocultamento de
projetos alternativos da sociedade. O tema da
violência na cidade, associado ao do direito ao
trabalho, à memória, à cultura, e à organização em
movimentos sociais da classe trabalhadora, tem
espaço nessas páginas, seara farta de relações
e rastros sobre resistências e desigualdades de
forças na produção e reprodução da vida.
Ocorre, por exemplo, de observarmos em
jornais da imprensa escrita aqui em foco (meio
prossional também marcado por vozes dissonan-
tes), movimentos sociais e de trabalhadores que,
Paola da Cruz Rodrigues • Nelson Tomelin Jr.
Crime e criminalização de movimentos sociais, trabalhadores e vida urbana na imprensa (Manaus, 1985-1989) 3/13
possuindo altíssima capacidade de organização
e articuladas práticas políticas em conjuntura
socialmente adversa, são transformados em
“turbas”, em movimentos espasmódicos (THOMP-
SON, 1997), como grupo de “desavisados” ou
“violentos”, desconhecedores do fato de que “a
propriedade privada tem dono”, ou, ainda, como
ameaça pública, sendo então, criminalizados
pelos jornais. (SADER, 1988).
Após o m da ditadura civil-militar, em 1985,
trabalhadores submetidos a condições de explo-
ração e pobreza, ampliam dimensões de lutas
sociais na cidade de Manaus por direitos traba-
lhistas (SANTIAGO, 2010; SERÁFICO, 2005), pelo
direito à moradia, à saúde, à cultura, à cidadania
etc. A importância em estudar tais relações se
justica no fato de compreendermos os próprios
movimentos sociais como experiência e prática
de um determinado grupo social, que nutre e cria
valores próprios, de solidariedade, luta, coletivi-
dade, organização e justiça, evidenciando proje-
tos alternativos da sociedade, e descosturando
o bloco hegemônico do progresso (BENJAMIN,
1996), por disputas em diferentes dimensões de
utopia e futuro.
Em suma, naquele período, a cidade de Ma-
naus vivencia conitos sociais de grandes dimen-
sões, ao mesmo tempo em que se destacava
forte industrialização e divisão da sociedade
por concentração de latifúndios urbanos, pro-
jeto herdado e que se dinamiza enormemente
ao longo da ditadura civil-militar no país (REIS
FILHO, 2000). Formas “legitimadas” de invasões,
de terras historicamente ocupadas por setores
privados, distantes dos propósitos de segurança
social, por vezes merecem aí discursos brandos e
apaziguadores, em um pacto social “neutro” pelo
suposto “interesse de toda a sociedade”. Nessa
conjuntura, o crime aparece como disfunção so-
cial, eventualmente associado aos trabalhadores
e trabalhadoras e seus movimentos, e demais
parcelas socialmente vulneráveis da cidade.
O papel da imprensa
A partir de perspectivas da análise e pes-
quisa histórica sobre a imprensa escrita (CRUZ;
PEIXOTO, 2007), pretende-se problematizar o
papel social de parte desses periódicos frente
aos projetos e perspectivas político-empresariais
igualmente presentes no período de 1985 a 1989,
numa relação de dimensões conitadas e con-
traditórias, dissidências e alinhamentos, quanto
a exclusões no campo do direito de reprodução
da vida na cidade (WILLIAMS, 1989). Assim como
eventualmente se evidencia em processos tais
como o acima descrito, ou como abaixo se vê
em associações de força que demarcam campos
opostos de interesses e valores sociais (VIEIRA
et al., 1991).
Nessa mesma perspectiva, Heloisa de Faria
Cruz (2000) também compreende a imprensa
como “instituição privilegiada da constituição
da vida pública burguesa”, quando seu projeto
editorial se articula com as novas “sociabilidades
urbanas” por meios advindos do desenvolvimento
econômico, do mercado e das práticas mercantis.
A historiadora chama a atenção para o fato de que
a imprensa é também o contrário de algo como
um “depositário” de notícias e fatos, ou ainda
mera “ilustração” da história, correndo-se o risco
de tomar o relato, a narrativa do jornal “tal como
ela é”, como “algo dado”. Seria preciso entender
a imprensa como uma instituição que se articula
com diversas dimensões, conjunturas, proces-
sos político-econômicos, formações culturais,
correlação de forças etc., e estas articulações
apontam o meio para o qual se move a impren-
sa nestas disputas, evidenciando seu “corte de
classe”, na defesa de valores e posicionamentos,
e dissonâncias nesse campo.
Em notícia do quadro “Cidade Aita” do dia
18 de novembro de 1987 do jornal A Crítica, com
a manchete “Beira-Rio invadida por favelas”,
lemos que:
Os assessores do Prefeito Manoel Ribeiro
insistem em fazer vista grossa para os pro-
blemas existentes na cidade de Manaus. A
Avenida Beira – Rio no Bairro do Coroado, por
exemplo, está se transformando numa imensa
favela do dia para a noite, sem que apareça
um scal no local para proibir a construção
de palatas à margem do igarapé que corta o
bairro. A Avenida Beira-Rio era uma das vias
mais bonitas e largas existentes no bairro do
Coroado, porém, agora, se transformou numa
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das favelas mais feias e sujas, devido à constru-
ção de dezenas de palatas dentro do igarapé
sujando-o (BEIRA-RIO..., 1987, p. 5).
Importante destacar a relação articulada pela
imprensa entre a proposta de expulsão e “crimi-
nalização” de espaços de vida e moradia daquela
população pobre – “poluidores” dos poluídos
igarapés da cidade – e a produção de uma pai-
sagem “limpa”. Nessas páginas, a especulação
imobiliária do período pós-ditadura (SILVA, 2006)
se fundamenta também na determinação de
quem o jornal parece denir como atores centrais
e exclusivos do planejamento urbano, os “scais”,
as “autoridades” municipais.
Avanços no campo da história social do crime
e da criminalização de valores da vida urbana
em diferentes contextos e temporalidades, no
Brasil e em outras sociedades, já estão consoli-
dados na pesquisa histórica e suas metodologias
(ADORNO, 2002; BRETAS, 1991; CHALHOUB, 2001;
FAUSTO, 1984; LINEBAUGH, 1983; THOMPSON,
1997). Nessa linha, o campo de análise e de pes-
quisa anunciados neste artigo se dará no trato do
tema do direito à cidade, na abordagem sobre a
construção de valores negativos de memória, de
desvalorização de trabalhadores e trabalhadoras
e de movimentos sociais que lutam pela função
social da propriedade (GOHN, 2011; KOWARICK,
1993; MARICATO, 2008).
O que também se pode alcançar pela presente
pesquisa é a problematização histórica desse pro-
cesso por projetos e entendimentos alternativos
sobre a cidade, e sobre o direito à memória e aos
modos próprios de vida, presentes nas páginas da
imprensa no mesmo momento em que práticas
de exclusão são enfrentadas pela resistência
de organizados movimentos de moradia. Sendo
trabalhado o jornal de forma completa em toda
a sua periodicidade, cadernos, artigos, principal-
mente os “Caderno Cidade”, “Policial” e “Cidade
Aita” que dão destaque a crimes e situações
cotidianas, mas também atentamos as charges,
aos destaques das capas para compreender
como a imprensa se articula e quais as notícias
e informações são priorizadas.
O jornal A Crítica foi fundado em 1949 pelo
jornalista Umberto Calderaro Filho e sua cônjuge
Ritta de Araújo Calderaro, pertencendo até os dias
atuais a família, hoje dona da Rede Calderaro de
Comunicação. É um jornal diário, que chegava ao
leitor às 11 horas, sendo o de maior circulação
do estado. Ficou muito tempo conhecido como
“onzeiro” devido a estratégia de publicação às
11 horas que foi criada pelo seu fundador, o
jornalista Umberto Calderaro Filho (1927–1995)
para enfrentar os grandes jornais da época, sair
primeiro que os concorrentes da tarde e depois
que os da manhã e, assim, consolidar-se como
um meio-termo e conquistar um nicho de leitores.
Priorizamos a leitura completa do jornal para
observar a sua articulação, suas diversas narra-
tivas, muitas construídas visando interesses da
elite da época, como a desocupação de bairros
nobres e criminalização de bairros periféricos. Os
mais diversos tipos de crimes vão sendo abor-
dados a m de se moldar um imaginário social,
logo não poderíamos dar destaque apenas a
ler um caderno, ou somente alguns textos, mas
sim ao periódico por completo, até mesmo para
compreender as mudanças de discurso em torno
dos projetos políticos da época e as discussões
referentes a Constituinte em 1988. Como o jornal
A Crítica não existe em meio on-line o mesmo foi
lido impresso, em material disponibilizado pela
Biblioteca Pública do Estado do Amazonas, e as
manchetes abordadas foram escaneadas visando
manter o material para consulta, os fascículos
retirados do jornal foram catalogados de acordo
com ano, edição, caderno e paginação.
Assim, também a obra de Antonio Gramsci
contribui para se pensar a imprensa no campo
da produção social de “hegemonias e contra-he-
gemonias” (GRAMSCI, 2001), o que pode explicar
o porquê de visões de mundo e interesses par-
ticulares serem apresentados e reproduzidos
nessas páginas como um “bem comum”, “valores
universais”, ainda que enfrentando resistências
inúmeras por movimentos organizados e não
organizados.
A partir destas breves perspectivas, poder-se-á
constituir um mosaico de questões fundamentais,
que poderão vir a compor uma reexão mais
Paola da Cruz Rodrigues • Nelson Tomelin Jr.
Crime e criminalização de movimentos sociais, trabalhadores e vida urbana na imprensa (Manaus, 1985-1989) 5/13
detida através do “olhar da imprensa” sobre a
luta dos trabalhadores e trabalhadoras e de seus
movimentos sociais por moradia e vida urbana
dignas, pelo direito a terra e à cidade. Busca-se
aqui problematizar o discurso da imprensa na
produção e preservação da memória, pela ma-
neira como constrói os fatos (VESENTINI, 1997).
Como esforço central da pesquisa, será preciso
problematizar os “valores” defendidos pela im-
prensa escrita periódica de Manaus, explicando
articulações políticas no campo das lutas sociais
em que se constitui, evidenciando concepções
de propriedade, direitos e cidadania, e como os
temas da habitação e do acesso à terra são
apresentados, sem descuidar de sublinhar di-
ferenças e dissonâncias nesse meio no período
de 1985 a 1989.
Ao m e ao cabo, são dimensões históricas
que podem ser esclarecidas sobre a cidade e
seus trabalhadores organizados em movimentos,
resistindo em espaço de disputas, que, para a
pesquisa em história, e o debate aqui proposto,
deve ser problematizado também como território
da memória. São estes lugares em que a impren-
sa, inclusive aquela mais acima problematizada,
explicita o seu papel de força ativa constitutiva
do social (BARBERO, 1997), sendo necessário,
portanto, “desvendar a cada momento, as re-
lações imprensa /sociedade, e os movimentos
de constituição e instituição do social que esta
relação propõe” (CRUZ; PEIXOTO, 2007).
Crime, criminalização e violência: “caso
de polícia
O jornal A Crítica, tal como analisado, evidencia
diversas disputas no que diz respeito à urba-
nização, seja no próprio meio urbano ou rural.
A cidade de Manaus aparecia então cada vez
mais inserida no debate sobre o progresso, com
base, no mais das vezes, nas propostas da Nova
República. O adjetivo “nova”, no caso, reforçava
então alinhamentos de diversos interesses já
presentes nos governos anteriores da ditadura
civil-militar (1964/1985), como o tema da inte-
gração da Amazônia, que alijava a população de
trabalhadores rurais, ribeirinhos, donas de casa, e
outros sujeitos da cidade, da lógica excludente do
desenvolvimento, senão incluindo-os como força
de trabalho. Desvalorizada ideologicamente pela
elite da época, seja a representada pela classe
dominante presente no próprio governo, seja o
setor econômico interessado naqueles projetos,
a classe trabalhadora se organiza a partir de sua
própria experiência por forma de resistência e
projetos alternativos de sociedade.
Tal perspectiva de progresso supostamen-
te denida para a região, associada ao desen-
volvimento urbano, incentivos scais, normas
restritivas do direito à habitação e investimento
em segurança pública pelo viés militar-policial,
aparece em todas as edições do jornal no período.
O jornal A crítica começa o ano de 1985 narrando
crimes violentos na cidade, ao mesmo tempo em
que dedica um caderno exclusivo para discutir
as “reformas” propostas por Gilberto Mestrinho
para o município. Na capa do fascículo de 2 de
janeiro de 1985 temos a manchete “Entrada de
ano violenta com 3 crimes de morte”. O conteúdo
da matéria jornalística informa que
Três homicídios marcaram a passagem do ano
novo em Manaus, além de uma criança morta
no trânsito. O pedreiro Raimundo Magno Filho
(40 anos) foi a primeira vítima do ano, assas-
sinado com uma facada no peito, em meio a
uma briga generalizad a, tent ava sair da boate
“Abacaba” no Coroado 3, por volta das 4:30
horas de ontem. O biscateiro Francisco das
Chagas Ro drigues da Silva (25 ano s) foi assa s-
sinado com um tiro na cabeça, mas ninguém
sabe onde ou como ocorreu o crime, pois sua
família já o encontrou morto no HGV. E ontem
o corpo do vigia Olivar das Chagas Rodrigues
foi encontrado pelo dono da estância onde ele
morava há dois meses, na rua Ferreira Pena.
Ele, que era homossexual, teria sido morto
durante uma de suas aventuras com homens
que frequentavam seu quarto no sábado ou
no domingo (ENTRADA..., 1985, p. 1).
A violência aparece demarcada na imprensa
como resultado do comportamento da classe
trabalhadora, segundo o jornal, reprovável. Tra-
ta-se, no mais das vezes, de crimes de sangue,
desavenças e brigas como resultado de imbró-
glios amorosos, excesso de consumo de álcool
etc. A violência social, fruto da divisão de classes,
produção urbana da pobreza, não aparecerá com
esse qualicativo. Tampouco a inação e a desídia
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do governo aparecerão como violência social.
Além da capa, no contexto de uma narrativa de
medo, e outras supostas apreensões daquele
momento, arma aquela edição que a população
está conante na mudança de governo, e rearma
a importância das reformas de Gilberto Mestrinho
para o desenvolvimento e melhora da cidade de
Manaus e, portanto, das condições de vida da
população. No caderno Especial, do dia 2 de ja-
neiro, temos a manchete “Mestrinho: As reformas
para a grande transformação”. Nesse caderno, são
apresentadas as principais reformas aplicadas por
Gilberto Mestrinho. São elas, o incentivo scal, a
produção agropecuária, a exploração de matérias
primas, porém justicadas como necessárias para
a questão social, tendo o caráter econômico um
papel secundário, sendo os objetivos maiores
do governo a educação, saúde, abastecimento
e habitação. E mesmo o programa não tendo a
questão da segurança pública em destaque, o
caderno apresenta um bloco especíco com a
seguinte manchete “Polícia Militar: Segurança nas
ruas e assistência nos bairros”. Nesse bloco, se
justicam as ações da operação Aciso, apresen-
tada como uma operação com objetivo de levar
assistência social e segurança aos bairros, uma
espécie de postos da polícia militar com funções
de emissão de documentos, orientações jurídicas
e até mesmo extrações dentárias.
No último parágrafo do mesmo bloco, em
elaborada construção do texto, destaca-se que
Hoje, pela ação eciente da polícia civil, pra-
ticamente retirou do noticiário policial os fa-
mosos crimes insolúveis, que para a tristeza
de todos caiam no rol do esquecimento. Hoje
os fatos revelam uma nova era na segurança
da população. Pelas ações preventivas e re-
pressivas da polícia, a segurança dos cidadãos
é algo garantido (POLÍCIA..., 198 5, grifo noss o).
Aqui podemos perceber a justicativa de uma
repressão em nome da segurança da popula-
ção, perspectiva contraditória se pensarmos
os números seguintes dos jornais que narram
como a violência e o crime se tornam cada vez
mais frequentes na cidade de Manaus. Segundo
a linha editorial daquele período, esses crimes
eram, muitas vezes, associados ao surgimento
de novos bairros compostos por pessoas pobres,
por vezes migrantes do interior. Trata-se também
aí da associação ideológica entre classes pobres
e classes perigosas (CHALHOUB, 1990).
Compreender o processo histórico no qual
esse debate está inserido é importante para
entender qual polícia interessa para os valores
econômicos, políticos e sociais da época. Como
a polícia se congura para se adequar ao ideal
democrático que se pretende armar, e como
o jornal congura esse jogo entre o crime e a
violência policial. E, com base nisso, como a so-
ciedade está reagindo, quais as congurações
de resistência que temos e os impactos dessa
postura para a população que no jornal é tida
como disseminadora de problemas para a cidade.
O discurso da ação policial nas ruas se inten-
sica conforme os meses do primeiro semestre
de 1985 avançam. Diversas manchetes dão foco
então para um tipo de crime especíco, aplicado
aos designados pela imprensa como “pivetes”,
jovens em sua maioria negros e pobres que co-
metem o crime de “puxar carros” no centro da
cidade. A primeira manchete que se refere ao
crime é do dia 10 de janeiro de 1985, publicada
no caderno “Polícia”, trazendo como manchete:
“Polícia às tontas: Quadrilha de ladrões puxou
sete carros no nal de semana”.
Seguindo a linha dessa tipicação de crime,
no dia 18 de janeiro de 1985, no caderno “Polícia”,
temos como manchete “Quadrilha a solta: Puxa-
dores levaram mais quatro veículos”. No corpo do
texto da matéria camos sabendo que
Os puxadores continuam agindo na cidade.
Não encontram barreiras para levar os carros
da frente das casas e garagens. As denún-
cias foram feiras na Delegacia de Furtos de
Veículos, cujos agentes encontram diculdade
para dar combate aos marginais. Segundo o
delegado Almir de Souza Lima, os policiais
não contam com carros adequados para pro-
ceder batidas, percorrendo os varadouros
e estradas para onde os carros são levados
(QUADRILHA..., 1985).
Conforme essa narrativa se congura, o jornal
noticia que a população cobra uma ação mais
enérgica da polícia. Sem especicar a parcela
da sociedade que reivindica aquelas ações, o
Paola da Cruz Rodrigues • Nelson Tomelin Jr.
Crime e criminalização de movimentos sociais, trabalhadores e vida urbana na imprensa (Manaus, 1985-1989) 7/13
jornal narra a forma como os crimes aterrorizam
a população, e, que, apesar das tentativas do
governo de sanar os problemas da violência, o
crime organizado se congura e foge do alcance
policial.
Não demora para que o jornal traga a notícia
de que carros novos foram adquiridos (eventual-
mente locados com o custo de altas diárias) para
a polícia militar e novas companhias de choque
instaladas nos bairros, com a justicativa de que
o governo estaria dinamizando a polícia militar
para atender à população. Com rádio patrulha,
policiamento ostensivo e batalhões enviados aos
interiores do estado, a polícia militar se coloca
para garantir a segurança da população, narrativa
colocada e articulada pelo jornal com sentido
prático e atendendo a interesses especícos.
Enquanto o jornal dá destaque em grandes
manchetes para os crimes relacionados ao roubo
de carros, pequenos roubos de frutas, de botijões
de gás, e assaltos a feiras, recebem pouco espaço
nos cadernos. Muito se fala de “desocupados”,
“pivetes”, “vadios” que cometem pequenos fur-
tos, todos presos com sucesso pelos batalhões
de polícia, crimes com menos destaque, o que
passa uma ideia de menor importância, relacio-
nada claramente ao valor que o capital exerce.
A um roubo de carro não se compara um furto
em estabelecimento comercial hortifrutigranjeiro,
mas a prisão se dá justamente no crime que o
jornal aborda com menos destaque.
Também se dá no periódico destaque ao “caos”
que alguns bairros vivenciam cotidianamente,
muito semelhante ao discurso de higienização
de bairros com número signicativo de traba-
lhadores, com trabalhos que não embelezam a
cidade. Como na notícia “Beth denuncia: Bairro
dos Remédios vive situação de caos”, publicada
no Caderno “Política” do dia 25 de janeiro de
1985, página 11. A então deputada Beth Azize
(PMBD) denuncia que, pela inúmera quantidade
de lanchonetes localizadas no calçadão do bairro
dos Remédios, a vida de quem ali exerce suas
atividades ou reside se tornou impossível, com
“muito lixo, uma balburdia no trânsito e a falta de
saneamento”, mesmo após terem sido retirados
todos os feirantes daquela área, não citando o
jornal onde eles teriam sido realocados.
A perspectiva de que o trabalho exercido por
essas pessoas no bairro dos remédios suja, polui
e causa caos é óbvia. A ideia exercida não é a
de regularização do trabalho ou de melhores
condições para essa população, é a de embele-
zamento do bairro, expulsão dos trabalhadores,
criminalização de suas práticas. Isso para atender
aos interesses de uma classe dominante que
não se conforma em não poder estacionar seus
carros em uma rua, eventualmente ocupada por
uma barraca de lanche. Trata-se também aí de
uma disputa pela cidade, precisamente quanto
ao direito produtivo.
Disputa pela cidade e pelo espaço
político: movimentos sociais
As disputas que ocorrem são não apenas
pelo espaço da cidade, mas por direitos, ainda
com grande reexo da crise econômica e do
arrocho salarial, tendo em vista que em 1985,
o índice anual da inação já batia 231%. Quatro
anos depois, durante o governo Sarney, eleito
indiretamente pelo Congresso, a inação chegou
a quase 2.000% em 12 meses. O endividamento
do país subiu de 15,7% do Produto Interno Bruto
(PIB) em 1964 para 54% do PIB quando os milita-
res deixaram o poder, em 1984. A dívida externa
cresceu 30 vezes. Passou de US$ 3,4 bilhões
em 1964 para mais de US$ 100 bilhões em 1985.
Os trabalhadores tiveram aumentos salariais
que eram insucientes para recompor as perdas
causadas pela elevação dos preços, reduzindo
o poder de compra. Entre 1964 e 1985, o salá-
rio-mínimo caiu 50% em valores reais, ou seja,
já ajustados pela inação. Esse arrocho salarial
aconteceu em parte como resultado da inter
-
venção dos militares sobre os sindicatos, o que
diminuiu o poder dos movimentos e de nego-
ciação dos operários. Muitas dessas associações
foram desmanteladas. Vários dirigentes sindicais
foram presos ou substituídos por simpatizantes
do regime.
O achatamento dos salários diminuiu o custo
de mão de obra. Além disso, foi reduzida a alíquo-
8/13 Oficina do historiador, Porto Alegre, v. 15, n. 1, p. 1-13, jan.-dez. 2022 | e-41942
ta máxima do Imposto de Renda, beneciando os
mais ricos, e concedidas várias isenções scais
ao empresariado. Foi criada a chamada correção
monetária, um instrumento que protegia os inves-
timentos da inação e favoreceu mais quem tinha
dinheiro para investir no mercado nanceiro. O
que prejudicava os trabalhadores em detrimento
dos interesses empresariais.
No caderno Cidade do dia 19 de março de 1985
é publicada a manchete “Empresas tomaram
precaução: Policiais mobilizados até o início da
noite”, com o seguinte texto:
Depois que anunciado o acordo entre em
-
presários e motoristas, os ônibus voltaram a
circular normalmente pela cidade como se
nada tivesse acontecido. Como única prova do
movimento caram alguns estilhaços de vidros
quebrados pela Getúlio Vargas e Leonardo
Malcher [...] (EMPRESAS..., 1985, p. 6).
A notícia se refere à greve dos motoristas de
ônibus que durou, segundo o jornal, cinco horas,
e ocorreu em função do atraso nos pagamentos
e de uma tentativa de reajuste do salário da cate-
goria anteriormente negada pelos empresários.
Conforme consta em outras manchetes, uma pro-
posta de reajuste da tarifa de ônibus concedida
pelo prefeito Amazonino Mendes fez com que
a categoria também reivindicasse um aumento
no salário. Sem sucesso nessas negociações, os
trabalhadores colocaram piquetes nas garagens
e impediram a saída dos ônibus.
No jornal, as manchetes com maior destaque
são de “caos”, narrando que a cidade cou imo-
bilizada por conta da greve e que a população
cou desassistida. Cabe aqui ressaltar que a
postura com que o jornal destaca o tema não é
a dos trabalhadores, tão pouco a do resultado
da greve, haja vista que a categoria conseguiu
negociar os benefícios e o reajuste salarial. O que
o jornal destaca é o dano que a greve causa, e
inclusive a postura de se precaver das empresas
colocando policiais na rua contra os grevistas.
Além disso, dá-se destaque para pronunciamento
do prefeito de que existiam muitos motoristas
desempregados, quase que armando que os
2  Ver: A crítica, 19 mar. 1985. Caderno Cidade, p. 7.
que estavam em greve poderiam car também
ou deveriam valorizar o trabalho independente
das condições.2
No contexto político, o jornal destaque à
mencionada Nova República. O periódico traz
a manchete “Nova República vai debater a vio-
lência”, na qual destaca a fala do então vereador
Francisco Marques:
[...] fez, ontem, uma reexão diante das preocu-
pações da sociedade brasileira com a violência
alertando os demais vereadores para o fato de
que “essa violência na sua verdadeira dimen-
o, não pode ser reduzida ape nas à criminali-
dade”. Mostrando que a violência é tudo aquilo
que fere ou esmaga a dignidade de qualquer
pessoa humana ... Ele chamou a atenção para
a violência cometida contra menores infrato-
res e carentes; a violência cometida contra os
decientes físicos abandonados à própria sorte
além da vioncia que se consub stancia na fa lta
de moradia, de al im entação, de assistê nc ia-
dica, e de escolas, bem como a discriminão
da mulher, explorada sob diversas formas [...]
(NOVA..., 1985).
A citação da fala de Francisco Marques (PMDB)
ainda segue, e abarca trabalhadores rurais, negros
e indígenas, completando, segundo o jornal, com
um ponto que, para o vereador, seria a maior das
violências, que é impedir o povo de participar
da vida política, econômica e social da nação
por meio de eleições livres. Precisamente o que
entendia representar a gura de Tancredo Neves,
a oportunidade que a maioria dos miseráveis do
país então teria.
A fala representa a defesa da “redemocratiza-
ção”, quando todos os setores, classes sociais e
população no geral se sentiriam contemplados,
com os preços subindo, o processo de faveliza-
ção cada vez mais intensicado. Uma fala nesse
aspecto representa o sentimento de esperança,
daquilo que o governo poderia e deveria ser ou
fazer, correspondendo aos anseios da população
pobre ou, mais especicamente, do eleitorado
pobre.
Na segunda metade de 1985, os destaques
para os crimes, que até então eram muito cen-
tralizados nos roubos de carros, passam a ser
mais direcionados ao consumo de entorpecentes
Paola da Cruz Rodrigues • Nelson Tomelin Jr.
Crime e criminalização de movimentos sociais, trabalhadores e vida urbana na imprensa (Manaus, 1985-1989) 9/13
ilegais, principalmente maconha. Uma hipótese
possível para a introdução desse tema é a de
que o jornal alimentasse a ideia de que a Nova
República debateria e defenderia a legalização
ou liberação do uso de maconha. Mas o que su-
cede é um conjunto de notícias que evidenciam
trabalhadores, pedreiros, pivetes, agrados com
cigarros, trouxinhas de consumo próprio, prática
não enquadrada como tráco.
Também nesse período se intensicam os
debates sobre a constituinte, publicizando o
jornal uma posição editorial mais clara. No dia
03 de julho de 1985, é veiculada a manchete
“Constituinte: Nasce o Estado de Direito”, em
que se lê que
O país tem excelente oportunidade para criar
seu Estado de Direito. A Nação soberana, em
clima de liberdade e pelo processo democráti-
co, faz uma nova Constituição, reorganiza suas
forma s de vida e regra s de convivência social.
Poucos tiveram chance de conseguir tanto
através de meios pacícos (CONSTITUINTE...,
1985, p. 5).
A armação de que a nova constituinte será
alcançada por meios pacícos abre amplo debate
sobre a repressão na ditadura. O silenciamento
dos grupos que participam do processo de reivin-
dicação de eleições diretas, de combate à ditadu-
ra e outros, marca um processo de invisibilização,
camuado no termo “pacíco”. De todo modo, o
jornal passa a fazer a defesa da constituinte e do
processo democrático de eleições.
Na segunda metade do ano, o jornal também
dá início a um novo caderno, além do caderno
Cidade, que já trazia problemas urbanos, as di-
culdades da população, transporte, moradia,
entre outros. Passa a ser publicado o Caderno
“Cidade Aita”, destacados aí os problemas de for-
ma ainda mais explícita, evidenciando a pobreza
como principal fator de criminalização, doenças
etc., e condicionando todos os problemas dos
bairros a esse processo de gentricação.
Essas questões podem ser observadas em
diversos momentos em que a disputa pela cidade
é evidenciada no jornal. Em manchete do dia 1
de novembro de 1985 na capa do jornal, temos
o enunciado “Esperança na área de invasão”,
tratando a notícia sobre um grupo de possei-
ros que teria invadido a área da Ponta Negra e
construído barracões. O espaço teria logo sido
cercado por policiais, enquanto os posseiros es-
peravam uma decisão referente à propriedade do
local. Na imagem que acompanha a manchete,
vemos mulheres costurando à mão a bandeira
do Brasil, ao lado de um bebê que dorme em
uma rede (Figura 1).
Figura 1 – Esperanças na área de invasão
Fonte: A crítica, 1 nov. 1985, capa.
Por vezes, a ideia que o jornal passa é a de
que aquelas pessoas estão ali por escolha, que
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foram avisadas de que não deveriam estar ali,
logo não sendo legítima a sua resistência con-
tra a reintegração de posse do terreno. Mas,
para além do jornal, ao observarmos como se
davam perspectivas excludentes de relações
sociais daquele momento, e também de agora,
percebemos que o período enfrenta altas taxas
de desemprego, acompanhadas de uma inação
elevadíssima dos preços, quando muitas dessas
famílias perderam o lugar em que moravam,
não tendo então condições de se readequarem
ao novo perl do mercado imobiliário. E nesse
momento, o debate sobre a habitação parece
se voltar para o exclusivo interesse de remoção
daquelas pessoas, tidas como indesejáveis, sem
que seja abordado pelo jornal o seu destino após
aquele despejo.
O que se observa aí, contudo, são trabalhado-
res e trabalhadoras organizados em movimentos
sociais que lutam pela terra e moradia digna
(GOHN, 2011; MARICATO, 2008; ROLNIK, 1997;
SADER, 1988), sob a liderança de Irmã Helena,
mulher negra que protagonizaria então impor-
tante capítulo da organização social e popular
na cidade a partir de perspectivas solidárias e
religiosas de base. A notícia, veiculada no caderno
policial, dá conta da recepção por perspectivas
criminalizadoras daqueles movimentos sociais e
seus sujeitos históricos pela imprensa e socie-
dade do período.
Algo importante também de salientar nessa
notícia é a participação de padre Luciano, atu-
ante no movimento de moradia da época ligado
a pastoral da terra da Igreja Católica, que na
semana anterior àquele episódio, ao tentar rezar
uma missa no local, tinha sido jogado no chão por
policiais. Nas reportagens posteriores ao ocorrido,
é cada vez mais frequente a participação direta
de Irmã Helena.3 Em manchete do dia seguinte, 2
de novembro de 1985, já temos a notícia de que
os “posseiros” foram retirados do local. A imagem
associada à manchete mostra duas crianças
carregando uma bandeira do Brasil, como se o
3  Cf. A crítica, 1 nov. 1985. Capa.
4  Cf. A crítica, 2 nov. 1985. Capa.
5  Cf. A crítica, 24 nov. 1985. Caderno Cidade, p. 10.
jornal zesse alusão à imagem anterior, na qual
a bandeira era confeccionada, ou seja, o jornal,
ao mesmo tempo em que condena as invasões,
escolhe uma postura de sensibilização sobre o
tema. No texto da matéria, que também está
destacada na capa daquele fascículo do jornal,
camos sabendo que 200 homens do batalhão
de polícia zeram a reintegração de posse, e que
Irmã Helena só deixou o local após a garantia
de que nenhum dos moradores seria preso pela
resistência à derrubada de suas casas.4
Em manchete do dia 24 de novembro de 1985,
outro processo de desocupação é destacado,
dessa vez envolvendo moradores do Trevo, epi-
sódio sublinhado pela manchete “Promessa de
Terra: Posseiros retirados”. A notícia menciona
que as famílias abrigadas no bairro do Trevo, no
conjunto Ayapuá, foram retiradas do local pela
guarda municipal, com a promessa de que seriam
reassentados no bairro São José. A matéria pu-
blicou naquela capa a fotograa de Irmã Helena
chorando, ao lado dos moradores. Contudo, no
“Caderno Cidade” daquele mesmo fascículo,
a notícia aprofunda a discussão, evidenciando
resistências e lutas naquele enfrentamento. Com
o título “Operação surpresa: Clima de tensão para
retirar os invasores”, a reportagem menciona
que os ocupantes, de acordo com Irmã Helena
cerca de 70 famílias, só estariam sendo retira-
dos do local porque no dia seguinte ocorreria aí
uma festa, e que para o prefeito eles sujavam a
aparência festiva e sem conitos que se queria
para o momento. Irmã Helena ainda denuncia o
autoritarismo e a violência com que os moradores
são retirados, pontuando que diversas vezes eles
procuraram algum diálogo com o prefeito, mas
não tiveram retorno. As famílias acabam sendo
retiradas em caminhões da prefeitura, sem sa-
ber ao certo para onde estariam sendo levadas,
com a promessa evasiva de supostas moradias
no São José.5
A participação da igreja católica, a partir de
frentes de luta e mobilização popular organizadas
Paola da Cruz Rodrigues • Nelson Tomelin Jr.
Crime e criminalização de movimentos sociais, trabalhadores e vida urbana na imprensa (Manaus, 1985-1989) 11/13
pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) nes-
se processo, é marcante. Em manchete do dia 25
de novembro de 1985, lemos que “Igreja chama
povo na luta pela reforma agrária”, sendo este
tema levantado pela Campanha da Fraternidade
daquele momento. Além disso, reforça aquela
política de relação da Igreja com a sociedade,
que a habitação e o direito pela terra deviam ser
temas amplamente debatidos pela sociedade.
Com o protagonismo do movimento de mora-
dia, tendo Irmã Helena à frente, observamos a
articulação desses grupos com a igreja, seja por
esta integrar uma organização que tem um local
de destaque nas instituições, ou mesmo pelo
respeito que ela agrega. Em muitos momentos
do período analisado nesta pesquisa, é essa
respeitabilidade, na gura de irmã Helena, e
dos próprios padres envolvidos naquelas lutas,
que se coloca como possibilidade social mais
amplamente organizada pela defesa de direitos
e políticas públicas.
Somente no dia 29 de novembro de 1985 é
que o jornal noticia que “Termina o drama dos
sem-terra”, quando lemos que a população que
teria sido retirada do trevo estava instalada no
bairro São José – contudo, nem todas as famí-
lias. No trecho em que se reproduz uma fala de
irmã Helena, camos sabendo que 29 famílias
continuavam em um abrigo provisório.6 Todo o
processo relatado aqui mostra a forma como
esses trabalhadores, mães, donas de casa, se
articulam no processo de disputa pela cidade,
condições de habitação, saneamento, o básico
que deveria ser assegurado.
Em contrapartida, o processo de criminaliza-
ção não apenas dessas famílias, mas de outros
espaços da cidade, segue. No caderno “Polícia”
do dia 29 de novembro de 1985, lemos sobre “As-
saltantes baleados no tiroteio da favela”. Damos
destaque aqui para o termo “favela” empregado
pelo jornal, como denição imediata de local
perigoso, portanto espaço social marcada pela
convivência exclusiva de tiroteios, mortes, crimes.
Ao abordar o tema, destaca a reportagem que
6  Cf. A crítica. Caderno Cidade, p. 9.
Durante um tiroteio na favela no morro da
Japinlândia, os assaltantes conhecidos como
Caveira e Waldinho foram baleados e encontra-
dos a morte pela rádio patrulh a. [...] Os pol ícias
da delegacia de plantão estiveram em investi-
gação no local, encontrando balas deagradas,
cigarros de maconha e duas facas deixadas
pelos marginais que fugira (ASSALTANTES...,
1985, p. 10).
Outros bairros também passam a ser referidos
no jornal como “favelas”, com a pressuposição
daquelas características desvalorizadoras. São
bairros como a Compensa de Santo Antônio,
bairros que surgem de ocupações, muitos pró-
ximos do bairro Ponta Negra, reservado para a
especulação imobiliária de elite na capital. Os
bairros pobres ao redor daquela região passam a
ser designados pela percepção editorial daquela
imprensa como lugares perigosos, marcados
por problemas como o roubo e a violência. Por
extensão, tais perspectivas desvalorizadoras
passam a ser atribuídas aos moradores dessas
localidades, pessoas pobres, trabalhadores e
trabalhadoras de baixa renda. Trata-se de luga-
res marcados pela falta de políticas públicas, de
assistência social, saneamento básico, saúde
pública, educação e outros.
O processo contínuo de ignorar a falta de ges-
tão pública de qualidade nesses espaços aparece
então diretamente relacionado ao movimento de
sua desvalorização social por aquela imprensa,
quando são os seus próprios moradores culpados
pelas diculdades e mazelas urbanas que enfren-
tam. Contudo, a resistência a essa dinâmica de
exclusões evidencia que a criminalização da vida
na cidade de Manaus entre 1985 e 1989 jamais
foi aceita pacicamente por aqueles manauaras
pobres e organizados, processo que mesmo a
imprensa se viu obrigada a noticiar. São lutas
que marcaram positivamente a produção social
do espaço urbano naquele momento, memória
que dialoga historicamente com resistências
que também articulam os movimentos sociais
de moradia pelo direito à cidade, e à história.
12/13 Oficina do historiador, Porto Alegre, v. 15, n. 1, p. 1-13, jan.-dez. 2022 | e-41942
Considerações finais
O entendimento aqui desenvolvido acerca do
jornal A crítica no período de 1985 a 1989 situa-se
na perspectiva de entender a imprensa como
um espaço privilegiado de disputas de poder
e de forte mobilização de opiniões populares.
Assim, entendemos a atuação do jornal sob as
condições especícas do contexto social, político
e econômico no qual se insere. Desse modo, a
partir dessas fontes, buscou-se reetir sobre as
estruturas sociais e políticas que se constroem
no processo do nal da ditadura civil-militar
brasileira, bem como no processo de redemo-
cratização, alinhando por vezes o discurso da
imprensa ao discurso dos interesses políticos de
grupos especícos daquele primeiro período para
o seguinte, como a classe social que se consolida
no mercado industrial de Manaus.
São inúmeras as compreensões que se abrem
a partir da pesquisa com a imprensa e período
aqui enfocados. O debate sobre as grandes gre-
ves, a constituinte, e a narrativa sobre os bairros
pobres e marginalizados, vão sendo articulados
dia a dia pelo jornal A Crítica. Aos processos de
criminalização, com a polícia militar atuando
como instrumento de controle da violência, estão
relacionados outros arranjos políticos, sociais,
econômicos e culturais da sociedade de classes
brasileira e da grande imprensa escrita aqui em
tela.
Reetir sobre esses temas contribui para di-
mensionarmos o papel dos movimentos sociais,
da organização de trabalhadores e trabalhadores
na construção e planejamento da cidade. Desde
suas práticas cotidianas, a organização e resis-
tência desses trabalhadores está presente desde
o sair de casa para o trabalho, até a organização
de suas greves, articuladas de dentro da cultura,
como todo um modo de vida global (WILLIAMS,
1989). Tanto no distrito industrial como em seus
locais de moradia, os trabalhadores e trabalha-
doras denunciam e lutam contra a carestia, se
organizam então em grupos para reivindicar es-
trutura de escolas, postos de saúde nos bairros,
segurança pública. E, apesar das hostilizações
que sofrem, relacionam-se e se fazem como
classe e sujeitos históricos, evidenciando, a partir
de sua participação social, concretos avanços
urbanos, culturais e políticos, quanto ao direito à
cidadania e o direito à memória. Ao m e ao cabo,
fazem-se ouvir, e dividem conosco seus saberes
e conquistas, contribuindo para ampliar com-
preensões e entendimentos do fazer histórico.
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Paola da Cruz Rodrigues
Graduanda do curso de licenciatura plena em História
pelo departamento de História do Instituto de Filosoa,
Ciências Humanas e Sociais (IFCHS) da Universida-
de Federal do Amazonas (UFAM). Pesquisadora dos
temas de Crime e Criminalização de Movimentos
Sociais, Trabalhadores e Vida Urbana em Manaus,
Mulheres, Trabalhadoras, Gênero e Movimento Negro
com ênfase no período de 1968-1989. Associada ao
POLIS - Núcleo de Pesquisa em Políticas, Instituições
e Práticas Sociais. Atualmente Bolsista do Programa
de Iniciação Cientíca - PIBIC, com o projeto “Nossos
passos vêm de longe”: movimento negro e a luta por
direitos (Manaus, 1978-1988).
Nelson Tomelin Jr.
Doutor em História Social pela Universidade de São
Paulo (USP), em São Paulo, SP, Brasil. Professor do
Departamento de História e do Programa de Pós-
-Graduação em História da Universidade Federal do
Amazonas (UFAM), em Manaus, AM, Brasil.
Endereço para correspondência
Paola da Cruz Rodrigues
Universidade Federal do Amazonas
Av. General Rodrigo Octávio, 6200
Coroado, 69080-900
Manaus, AM, Brasil
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THE INTEGRATION to the nation and the threats of internationalization are constant issues in the history of the Amazon. The Amazon Operation and the implantation of the Manaus Free Zone, one of its most important parts, raised those expectations but also some worries. In this article the historical conditions in which the Amazon Operation as well as the Manaus Free Zone were conceived are analysed, as well as some of the ways through which local political and intellectual leaders understood them. We propose that these processes should be comprehended in reference to the change of the project of national capitalism to other of associated capitalism, what might help the understanding of contemporary situations.
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The article discusses two paradoxes and one enigma that have developed in this country during the last decades: a process of democratisation that started in 1978 coming forward with increasing criminality rates, especially homicide; a nation constituted on the idea of cordiality and conciliation that changed recently its dominant ideas and developed vengeance mechanisms and uncontrollable aggressive behaviour for there was never a public discussion of pacification and forgiveness; the enigma of a fierce violence among men, mainly young men has affected women comparatively much less. This suggests a model of violence dissimilar to the model present in ethnic conflicts where everybody is victim. To understand them, I have used four dimensions: the international context related to drug and gun trafficking, the institutional inertia that explains the malfunctioning of the justice system; the importance and limits of macro social explanations for violent criminality, such as poverty and social exclusion; the necessary look at micro social processes concerning subjective formations on masculinity linked to exhibition of force, money and guns.
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Este artigo focaliza dois itens básicos ñas teorías dos movimentos sociais. O primeiro relativo aos paradigmas analíticos que orientam estas teorías, destacando-se os conceitos e as categorías utilizadas. Nomeiam-se os autores que construíram as teorías clássicas e demarcaram o campo de estudo de urna Sociologia dos Movimentos Sociais. O segundo apresenta um panorama geral das abordagens contemporâneas sobre os movimentos sociais e seus suportes teórico-metodológicos, com destaque para América Latina. Partindo de um breve cenário de movimentos sociais em países latino-americanos, destacam-se os enfoques teóricos utilizados ñas análises desses movimentos. Sistematizam-se os enfoques em seis eixos temáticos: fatores culturáis, justiça social, resistência, saberes colonizados, aspectos institucionais das ações coletivas e a repolitização dos movimentos nos protestos transnacionais e ñas redes sociais de comunicação.
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