DataPDF Available

Abstract

Resumo 1. Os povos indígenas vêm gerindo paisagens propensas ao fogo há milênios, especialmente nas savanas tropicais, mantendo assim os estoques de carbono e a pirodiversidade e garantindo a sua segurança alimentar. Em algumas terras indígenas no Brasil, as brigadas de combate a incêndios são compostas por indígenas, integrando seus conhecimentos tradicionais nas políticas de manejo do fogo; no entanto, a eficácia da sua gestão é em grande parte não documentada. Deste modo, precisamos conhecer a eficácia das brigadas de combate a incêndios indígenas e sua influência nos padrões do fogo. 2. Neste estudo, avaliamos uma série histórica de 18 anos de padrões de incêndio e cicatrizes de queima, comparando períodos com e sem atividade de brigadas indígenas, para descrever o papel das brigadas na Terra Indígena Kadiwéu. Neste Território, desde 2009, brigadas de incêndio compostas por indígenas são instituídas, treinadas e mantidas pelo Centro Nacional de Prevenção e Combate a Incêndios (PREVFOGO/IBAMA). Estas brigadas são responsáveis pelo manejo do fogo em todo o território Kadiwéu, utilizando técnicas como a queima prescrita, queima controlada e o combate a incêndios. 3. Constatamos que o manejo de incêndios realizado pelas brigadas indígenas reduziu a frequência de incêndios em 80% nas áreas com alta frequência de incêndios (mais de 70% do tempo analisado). O manejo também reduziu em 53% o tamanho da área anual queimada e também a influência do clima sobre a área total queimada. De acordo com nossos modelos, a área afetada pelos incêndios é influenciada principalmente pelas chuvas anuais na ausência de brigadas indígenas; em contrapartida, os fatores climáticos não puderam explicar a variação da área queimada no período com brigadas indígenas. Síntese e aplicações — O manejo do fogo realizado pelas brigadas indígenas pode modificar o regime de fogo. Essas alterações no regime de fogo podem incluir: mudanças nos padrões espaciais, na magnitude dos incêndios e redução na influência do clima sobre os regimes de fogo. Assim, o manejo realizado pelas brigadas indígenas pode ser considerado uma importante ferramenta para o manejo do fogo. Além disso, demonstra a importância de programas que integrem o conhecimento tradicional indígena com políticas de manejo do fogo, como o Manejo Integrado do Fogo (MIF), para a construção de estratégias de manejo eficazes.
Brigadas indígenas alteram os padrões espaciais de incêndios florestais e a
influência do clima sobre o regime de fogo
Maxwell R. Oliveira¹; Bruno H. S. Ferreira¹; Evaldo B. Souza¹; Aline A. Lopes²; Fábio P. Bolzan¹; Fábio O.
Roque¹; Arnildo Pott¹, Alexandre M. M. Pereira³; Letícia C. Garcia¹ Geraldo A. Damasceno Jr. ¹; Ademilson
Costa4; Mesaque Rocha4; Silvio Xavier4; Rubens A. Ferraz4; Danilo B. Ribeiro¹
1 - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Instituto de Biociências, UFMS, Brazil, 2 - Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG,
Belo Horizonte, Brazil, 3 - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, Campo Grande, Brazil; 4 -
Associação dos Brigadistas Indígenas da Nação Kadwéu, Brazil
Resumo
1. Os povos indígenas vêm gerindo paisagens propensas ao fogo milênios,
especialmente nas savanas tropicais, mantendo assim os estoques de carbono e a
pirodiversidade e garantindo a sua segurança alimentar. Em algumas terras indígenas no
Brasil, as brigadas de combate a incêndios são compostas por indígenas, integrando seus
conhecimentos tradicionais nas políticas de manejo do fogo; no entanto, a eficácia da sua
gestão é em grande parte não documentada. Deste modo, precisamos conhecer a eficácia das
brigadas de combate a incêndios indígenas e sua influência nos padrões do fogo.
2. Neste estudo, avaliamos uma série histórica de 18 anos de padrões de incêndio e
cicatrizes de queima, comparando períodos com e sem atividade de brigadas indígenas, para
descrever o papel das brigadas na Terra Indígena Kadiwéu. Neste Território, desde 2009,
brigadas de incêndio compostas por indígenas são instituídas, treinadas e mantidas pelo
Centro Nacional de Prevenção e Combate a Incêndios (PREVFOGO/IBAMA). Estas
brigadas são responsáveis pelo manejo do fogo em todo o território Kadiwéu, utilizando
técnicas como a queima prescrita, queima controlada e o combate a incêndios.
3. Constatamos que o manejo de incêndios realizado pelas brigadas indígenas reduziu a
frequência de incêndios em 80% nas áreas com alta frequência de incêndios (mais de 70% do
tempo analisado). O manejo também reduziu em 53% o tamanho da área anual queimada e
também a influência do clima sobre a área total queimada. De acordo com nossos modelos, a
área afetada pelos incêndios é influenciada principalmente pelas chuvas anuais na ausência de
brigadas indígenas; em contrapartida, os fatores climáticos não puderam explicar a variação
da área queimada no período com brigadas indígenas.
Síntese e aplicações O manejo do fogo realizado pelas brigadas indígenas pode
modificar o regime de fogo. Essas alterações no regime de fogo podem incluir: mudanças nos
padrões espaciais, na magnitude dos incêndios e redução na influência do clima sobre os
regimes de fogo. Assim, o manejo realizado pelas brigadas indígenas pode ser considerado
uma importante ferramenta para o manejo do fogo. Além disso, demonstra a importância de
programas que integrem o conhecimento tradicional indígena com políticas de manejo do
fogo, como o Manejo Integrado do Fogo (MIF), para a construção de estratégias de manejo
eficazes.
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 1
Introdução
O fogo tem desempenhado um papel fundamental na formação da paisagem
milênios em muitos ecossistemas, sendo um importante distúrbio nos processos ecológicos e
estabelecendo padrões de distribuição da vegetação globalmente (Bond et al., 2005; Scott,
2000). No entanto, grandes incêndios florestais estão se tornando mais frequentes em todo o
mundo, com impacto extraordinário nas pessoas, na biodiversidade e nos serviços
ecossistêmicos (Bowman et al., 2020). Comunidades tradicionais e povos indígenas manejam
o fogo de forma controlada em savanas neotropicais e outras paisagens propensas ao fogo há
milhares de anos (Bowman et al., 2011; Mistry et al., 2005). Estes têm utilizado o fogo como
estratégia durante as guerras, para gerir os recursos naturais na caça, agricultura e pecuária,
em várias práticas culturais e para gerir e prevenir incêndios destrutivos (Mistry et al., 2005;
Mistry et al., 2016; Trauernicht et al., 2015). A experiência adquirida ao longo do tempo,
conferiu aos indígenas o acúmulo de vasto conhecimento sobre o uso e o domínio do fogo
(Huffman, 2013; Mistry et al., 2005; Welch, 2014). No entanto, a longevidade do
conhecimento e uso tradicional do fogo enfrenta graves ameaças, particularmente frente a
tendência que os regimes de fogo estão sendo alterados como resultado das mudanças
climáticas que irão prejudicar tanto as populações indígenas, quanto as não indígenas
(Huffman, 2013). A perda desse conhecimento pode agravar os riscos de degradação
ambiental e social que os territórios e os povos indígenas sofrem devido aos atuais planos
políticos do governo brasileiro (Begotti & Peres, 2019).
Apesar das evidências do papel relevante das comunidades indígenas no manejo do
fogo na América do Sul, a integração de tais conhecimentos em políticas de gestão de
incêndio é relativamente recente (Mistry et al., 2016, 2019). Por exemplo, no Brasil, as
políticas de manejo do fogo só começaram a integrar o conhecimento tradicional indígena em
2014, por meio do Manejo Integrado do Fogo - MIF (Eloy L et al., 2019; Schmidt et al.,
2018). Anteriormente, por décadas a política adotada era “fogo zero” (Durigan & Ratter,
2016; Schmidt et al., 2018). No entanto, essa política de “fogo zero” tem se mostrado
ineficaz, pois leva ao acúmulo de combustível e consequentemente os incêndios se tornam
mais intensos, com graves consequências para a biodiversidade e as pessoas (Durigan &
Ratter, 2016). O MIF considera as circunstâncias locais, incluindo os tipos de vegetação
presentes, para definir as melhores estratégias/ferramentas de manejo (Schmidt et al., 2018).
Os objetivos do MIF são diminuir a probabilidade de grandes incêndios florestais e aumentar
o intervalo entre as ocorrências de incêndios em áreas sensíveis ao fogo (Schmidt et al.,
2018).
O MIF prevê o uso de diferentes estratégias de gestão, como queima controlada e
queima prescrita, estratégias de manejo que utilizam o fogo de forma planejada para atingir
seus objetivos (Myers, 2006). A diferença entre essas duas estratégias é que as queimadas
controladas geralmente são feitas por indivíduos, como proprietários de terras e moradores
tradicionais, geralmente com objetivos voltados para atividades econômicas, como limpeza
de áreas para plantio; em contrapartida, a queima prescrita é realizada prioritariamente por
brigadas de incêndio, e tem objetivos voltados para a manutenção e conservação dos
ambientes e gestão da paisagem (Myers, 2006). Outra estratégia é a formação de brigadas de
incêndio, um dos principais agentes do MIF no Brasil. Essas brigadas de incêndio estão
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 2
implantadas em áreas consideradas estratégicas para o manejo do fogo, como unidades de
conservação e Territórios Indígenas. Nos Territórios Indígenas, as brigadas de incêndio são
compostas exclusivamente por habitantes locais para integrar o conhecimento tradicional
indígena às atividades de gestão (Falleiro et al., 2016; Mistry et al., 2019). Em 2021, o Centro
Nacional de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais (PREVFOGO/IBAMA) contou com
44 brigadas indígenas no Brasil, com aproximadamente 798 brigadistas (IBAMA, 2021).
Os efeitos do manejo do fogo nos padrões de queima podem ser avaliados através da
caracterização dos regimes de fogo (McLauchlan et al., 2020). Com base nas mudanças nos
padrões de incêndio ao longo do tempo, podemos entender os fatores subjacentes
(McLauchlan et al., 2020), como clima, vegetação e atividade humana (Abatzoglou et al.,
2019; Grau & Veblen, 2000; Judson, 2017). A atividade humana alterou os regimes de
incêndio principalmente por meio de atividades de manejo, incluindo mudanças no uso da
terra, distribuição espacial modificada de ignição, disponibilidade e distribuição de
combustível e supressão de incêndios (Bowman et al., 2011; Chergui et al., 2018;
McLauchlan et al., 2020). As consequências dessas alterações causadas pelo homem incluem
mudanças na frequência do fogo, nos padrões espaciais e no tamanho da área queimada
(Aldersley et al., 2011; Bowman et al., 2011; Trauernicht et al., 2015). Espera-se que o
gerenciamento eficaz do fogo mude os padrões espaciais e reduza a frequência de incêndios e
a área queimada. Em nosso estudo, procuramos responder às perguntas: A atuação dos
brigadistas indígenas reduz a área queimada ou a escala dos incêndios florestais? o manejo de
incêndios, conduzido por essas brigadas, altera padrões espaciais, como o tamanho das
cicatrizes e os padrões de frequência dos incêndios? a disponibilidade dessas brigadas reduz
as queimadas em vegetação sensível ao fogo? e até que ponto o clima afeta os padrões de
incêndio na presença do manejo do fogo promovido pelas brigadas indígenas? Para responder
a essas questões, avaliamos os padrões espaciais e temporais de cicatrizes de incêndios e
focos de incêndios florestais ao longo de 18 anos (2001-2018), divididos em períodos com e
sem manejo por brigadas indígenas. Também relacionamos esses padrões a fatores climáticos
e tipo de vegetação. Utilizamos como modelo a Terra Indígena Kadiwéu (TI Kadiwéu), como
sua brigada de incêndio, atualmente composta por 30 brigadistas residentes, atuando desde
2009. A TI Kadiwéu está localizada na região de transição entre o Pantanal e o Cerrado
biomas onde a recorrência de fogo é frequente e sofrem queimadas de proporções crescentes
com consequências catastróficas em 2020 (Garcia et al., 2021). Neste estudo, consideramos
como incêndios florestais os incêndios não planejados de causa natural ou antropogênica,
seguindo a definição de McLauchlan et al. (2020).
Materiais e métodos
Área de estudo e manejo do fogo local
O estudo foi realizado na TI Kadiwéu, no Estado de Mato Grosso do Sul, abrangendo
aproximadamente 540.000 ha (Figura 1). Cerca de 1576 habitantes de cinco etnias diferentes
(principalmente Kadiwéu e Terena) vivem em seis aldeias dentro da TI Kadiwéu (IBGE,
2020). A TI Kadiwéu está situada em uma zona de transição entre dois biomas brasileiros, o
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 3
Pantanal (área úmida) e o Cerrado (savana), englobando uma vegetação heterogênea de um
complexo mosaico formado por diferentes fisionomias (Ferreira et al., 2021). O fogo é um
fenômeno natural e recorrente no Cerrado, com cerca de 60.000 km² afetados pelo fogo todos
os anos (Araújo et al., 2012; Libonati, Belém, et al., 2020). A situação é semelhante no
Pantanal, com cerca de 10.000 km2 queimados anualmente (Araújo et al., 2012; Libonati,
Belém et al., 2020), atingindo recordes superiores a 40.000 km² em 2020 (Garcia et al.,
2021). Historicamente, no Pantanal, o fogo tem sido utilizado como ferramenta de manejo
para estimular a rebrota ou remover espécies nativas invasoras em pastagens cultivadas ou
nativas, principalmente no final da estação seca (Damasceno-Junior et al., 2021). Entre as
principais causas de incêndios no Pantanal estão as ignições antrópicas, causadas por diversos
motivos; porém, no bioma também há registros, em menor escala, de incêndios iniciados por
raios (Damasceno-Junior et al., 2021).
Figura 1 - Mapa da Terra Indígena Kadiwéu, com localização das cinco aldeias. As cores indicam
biomas e altitude.
Na TI Kadiwéu, as atividades das brigadas indígena começaram em 2009, realizadas
por duas brigadas de 15 bombeiros cada. A principal estratégia de gestão foi o ‘fogo zero’,
visando extinguir ou reduzir ao máximo a ocorrência de incêndios na TI Kadiwéu. A partir de
2014, iniciou-se uma transição gradual das políticas de gestão do fogo, passando de “fogo
zero” para o Manejo Integrado do Fogo (MIF). O PrevFogo desenvolveu todas as estratégias
de gestão em conjunto com os indígenas, considerando as características locais (Falleiro et
al., 2016; PrevFogo, 2018; Schmidt et al., 2018). Diálogos com a comunidade mostraram que
historicamente os Kadiwéus usavam o fogo para caça, comunicação e manejo do gado
(Falleiro et al., 2016; PrevFogo, 2018). Além disso, esta consulta chamou a atenção para
espécies de plantas culturalmente relevantes que eram sensíveis ao fogo (Falleiro et al., 2016;
PrevFogo, 2018; para mais detalhes sobre o uso tradicional do fogo na TI Kadiwéu, ver
Anexo S2). Estratégias de Manejo Integrado do Fogo foram então desenvolvidas com base
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 4
nessas informações e em outras análises modernas, como o sensoriamento remoto (Schmidt
et al., 2018).
Na TI Kadiwéu, os incêndios florestais apresentam uma sazonalidade, com agosto-
setembro apresentando as maiores frequências de incêndios florestais e os demais meses com
menores frequências. Portanto, as queimadas prescritas e outras atividades preventivas são
realizadas em maio-julho. Queima prescrita é a queima de áreas estratégicas que cria um
padrão de mosaico sazonal, reduzindo a probabilidade de grandes incêndios florestais (Laris,
2002). Na TI Kadiwéu, essas áreas são selecionadas com base em imagens de satélite e no
conhecimento territorial e tradicional dos povos indígenas. Algumas das áreas que recebem
queimadas prescritas são selecionadas para proteger áreas de importância econômica ou
cultural, como as de pastagem, agricultura ou ricas em recursos naturais. De agosto a
dezembro, a gestão limita-se principalmente ao monitoramento e combate a incêndios
florestais, usando aceiros e combate direto.
Quantificando focos de incêndio e mapeando as cicatrizes de queima
O número de focos de incêndio foi quantificado usando o sistema de detecção de focos
de calor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (BDQueimadas – INPE; INPE, 2020).
Os focos de incêndio detectados pelo BDQueimadas representam anomalias térmicas (altas
temperaturas) registradas por satélites (INPE, 2020). Assim, cada foco de incêndio indica
uma área que teve um incêndio ativo no momento da passagem do satélite. Usamos os
Índices de Vegetação MOD13Q1 v.6 para mapear cicatrizes de incêndio (USGS, 2020)
utilizando o software Spring v. 5.5 (Câmara et al., 1996). Para o mapeamento, aplicamos a
classificação não supervisionada, utilizando a classificação K-means pixel a pixel, com nove
tipos de valores de parâmetros e 100 repetições, parâmetros estes que melhor se adequam aos
nossos objetivos. Como o sensoriamento remoto não consegue distinguir bem os incêndios
florestais e os incêndios prescritos, nós os mapeamos como uma categoria (para mais detalhes
sobre a quantificação de focos de incêndio e mapeamento de cicatrizes, consulte o Apêndice
S1).
Mapa de Vegetação e Variáveis climáticas
Para o mapeamento da vegetação, utilizamos informações do projeto MapBiomas
(www.mapbiomas.org), que mapeia o uso do solo no Brasil com base em imagens Landsat
com resolução espacial de 30 m (MapBiomas, 2020). Para as variáveis climáticas, obtivemos
dados das estações meteorológicas e pluviométricas do Instituto Nacional de Meteorologia
(http://www.portal.inmet.gov.br; INMET, 2020) e da Agência Nacional de Águas
(http://www. snirh.gov.br/hidroweb/; ANA, 2020). A partir desses dados, calculou-se
precipitação média anual (MAR), precipitação média do trimestre chuvoso (MRT),
precipitação acumulada no trimestre chuvoso (ART), precipitação média do trimestre seco
(MRDT), precipitação acumulada do trimestre seco ( ARDT), precipitação máxima anual
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 5
(MaxR), precipitação anual mínima (MinR) e número de dias sem chuva no ano (DWR; para
mais detalhes sobre essas variáveis climáticas, ver Apêndice S1).
Análises
Padrões espaciais de frequência de fogo e vegetação
Para investigar mudanças nos padrões espaciais, usamos os mapas anuais de cicatrizes
de incêndio para obter métricas anuais de incêndio para 2001–2018. Calculou-se o número de
cicatrizes de fogo, distância média entre as cicatrizes, tamanho médio e máximo das
cicatrizes e área média anual queimada em todo o ano. Também consideramos a média anual
de área queimada nos meses de agosto a dezembro, quando a incidência de incêndios é maior.
Portanto, a redução dos incêndios florestais nesta temporada é um objetivo do MIF. Como
variáveis preditoras e de resposta, calculamos anualmente, compreendendo um ciclo de
estação seca e chuvosa. Aplicamos o teste t a essas métricas, comparando períodos com
(2001–2008) e sem brigadas indígenas (2009–2018).
Sobrepondo os mapas de cicatrizes anuais de incêndios nos dois períodos, criamos
duas camadas de frequência de incêndios (ou seja, com e sem atuação de brigadas de
incêndio indígenas, para detalhes, consulte o Material Complementar). Como 8 anos que não
tiveram atuação de brigadas indígenas e 10 anos que tiveram atuação de brigadas indígenas,
convertemos frequência absoluta em frequência relativa para comparar os tratamentos. As
camadas de frequência de fogo também são classificadas em 10 classes de frequência de igual
amplitude para facilitar a comparação entre os tratamentos. Sobrepusemos mapas de
frequência de incêndios e vegetação para calcular a área de cada tipo de vegetação afetada
por diferentes classes de frequência de incêndios. Também usamos mapas de vegetação para
cada ano entre 2001 e 2018 para calcular as mudanças na área de cada tipo de vegetação para
encontrar tendências na mudança da paisagem resultantes dos diferentes regimes de fogo.
Influência do Clima
Nós testamos a influência das variáveis ambientais e da atuação dos brigadistas
indígenas sobre o número de focos de incêndio, número de cicatrizes, área média anual
queimada e área queimada nos meses de agosto a dezembro, tamanho médio e máximo das
cicatrizes e distância média entre as cicatrizes, e por regressão linear múltipla para cada
variável de resposta, usando GLMs. Utilizamos distribuição binomial negativa para o número
de focos e cicatrizes e distribuição gama para áreas queimadas, distância média entre
cicatrizes e área média e máxima das cicatrizes. Para selecionar o melhor conjunto de
variáveis preditoras, usamos a seleção stepwise. Após executar o modelo completo,
removemos as variáveis não significativas (p < 0,5) e menos críticas (aquelas com os maiores
valores de p) de forma gradual. Com base no critério de informação de Akaike (AIC),
classificamos os modelos e selecionamos o melhor ajuste (Faraway, 2015). Também usamos
o D² ajustado (adjD²) como medida da proporção do desvio ajustado explicado por um GLM
(Faraway, 2015), usando a função D ao quadrado no pacote modEvA (Barbosa et al., 2015).
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 6
Para avaliar a significância das variáveis nos modelos finais, calculamos ANOVA tipo
III, usando a função Anova do pacote cAr (Fox & Weisberg, 2019). Todas as análises
estatísticas foram feitas usando R v. 4.1 (Equipe R Core, 2019). Para minimizar problemas de
colinearidade entre variáveis climáticas e evitar o overfitting, eliminamos variáveis com
valores de correlação de Pearson acima de 0,85 (Figura S4 no Apêndice S1; Guisan et al.,
2017). Como as tendências climáticas temporais podem afetar as variáveis de resposta entre
os períodos confundindo os efeitos do manejo, realizamos um teste t para cada variável
climática entre os períodos com e sem brigadas indígenas
Resultados
Padrão espacial, frequência de incêndios e vegetação
Os focos de incêndio foram menores para o período com brigadas indígenas quando
comparado ao período sem brigadas indígenas (Figura 2a). A área média queimada
anualmente diminuiu 53%, de 176.669 ha no período sem brigadas indígenas para 82.256 ha
no período com as brigadas indígenas (Figura 2b e Figura S2 no Apêndice S1). Da mesma
forma, a área queimada de agosto a dezembro também diminuiu (Figura 2c). O tamanho
máximo das cicatrizes foi 18,5% menor sob a gestão das brigadas indígenas, caindo de
1.074,4 para 199,2 ha (Figura 2d). Enquanto o tamanho médio das cicatrizes foi 46% menor
com brigadas indígenas, essa métrica não foi significativamente diferente entre os dois
períodos.
Figura 2 - Influência do manejo do fogo no número de focos (a), na área queimada (b) e área
queimada apenas para o mês de agosto a dezembro (c) e área máxima de cicatrizes (d) na TI Kadiwéu.
Letras diferentes entre boxplots representam diferenças significativas (p < 0,05)
As classes de alta e média frequência de incêndios tiveram a maior representatividade
no período sem brigadas indígenas, enquanto no período com brigadas indígenas
predominaram as classes de baixa frequência (Figura 3). As altas frequências de incêndios
(>70%) atingiram 39.674 ha no período sem brigadas indígenas e apenas 6.312 ha com
brigadas indígenas, uma redução de 80%. As áreas sem ocorrência de incêndio aumentaram
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 7
cerca de 46%, passando de 100.265 ha no período sem brigadas indígenas para 186.912 ha
com brigadas indígenas.
Figura 3 - Frequência relativa de incêndios nos períodos sem brigadas indígenas (2001 a 2008) e com
brigadas indígenas (2009 a 2018) na Terra Indígena Kadiwéu. As imagens superiores mostram o mapa
de frequência de incêndios para ambos os períodos. As imagens inferiores mostram a área queimada e
as classes de frequência de incêndio na TI Kadiwéu
A área com baixa frequência de incêndio (0%–10%) aumentou para todos os tipos de
vegetação no período com brigadas indígenas. As formações florestais tiveram o maior
aumento (20% ou cerca de 67.000 ha), seguidas pelas formações de savana (15% ou cerca de
88.000 ha), formações campestres (9,5% ou cerca de 20.000 ha) e pastagens plantadas (7,4%
ou cerca de 492 ha de aumento; Figura 4). No período sem brigadas indígenas, as classes de
frequência de 30%–40% e 50%–60% foram mais comuns em campos e savanas, que cobrem
44,1% da área da TI Kadiwéu (Figura 4). No período com brigadas indígenas, 10%–20% e
20%–30% foram as classes de frequência de incêndios predominantes, em 46,1% e 49,1% da
área do tipo de vegetação para campo e savana respectivamente (Figura 4). A distribuição
entre as classes de frequência de incêndios na vegetação foi mais uniforme sem brigadas
indígenas do que com as brigadas indígenas atuando(Figura 4). Para o período sem brigadas
indígenas, a área de formações florestais e de savana diminuiu enquanto as pastagens
aumentaram. Por outro lado, a área ocupada por florestas aumentou, os campos diminuíram e
a savana não apresentou alteração. A pastagem cultivada apresentou um leve aumento
independente do período analisado (Figura 5).
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 8
Figura 4 - Porcentagem de área correspondente a cada uma das classes de frequência relativa de
incêndios por tipo de vegetação, no período sem brigadas indígenas (2001 a 2008) e com brigadas
indígenas (2009 a 2018) na TI Kadiwéu
Figura 5 - Mudanças na área coberta pelo tipo de vegetação, no período sem manejo de fogo (2001 a
2008) e com manejo de fogo (2009 a 2018) na TI Kadiwéu
Influência climática
O número de dias sem chuva afetou positivamente a média anual de áreas queimadas
no período sem brigadas indígenas (Figura 6a); em contraste, a precipitação média anual
afetou negativamente o número de focos de incêndio, mas apenas no período sem as brigadas
indígenas (Figura 6b; Tabela 1). O tamanho médio das cicatrizes foi reduzido com o aumento
da precipitação média durante o trimestre mais seco; no entanto, não houve interação entre o
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 9
manejo e a precipitação média do trimestre seco (Figura 6c; Tabela 1). Todos os fatores
climáticos (número de dias sem chuva no ano, precipitação anual e precipitação média do
trimestre seco) tiveram efeitos menores (ou seja, menor valor de p e adjD²) nas variáveis de
resposta no período com brigadas indígenas em comparação com o período sem brigadas, ou
seja, no período de atuação das brigadas indígenas, os fatores climáticos explicaram menor
percentual da variação da média anual de área queimada, número de focos e tamanho médio
das cicatrizes (Figura 6a–c; Tabela 1). Não encontramos variação climática nem tendências
significativas entre os períodos (Figura S1 no Apêndice S1), sugerindo que as mudanças nas
variáveis de resposta entre os períodos resultaram do manejo realizado pelas brigadas.
Figura 6 - Relações do número de dias sem chuva e área queimada (a), da precipitação média anual
sobre o número de focos (b) e precipitação média do trimestre mais seco sobre a distância média entre
cicatrizes na TI Kadiwéu
Discussão
Nossos resultados sugerem que o manejo do fogo realizado por brigadas indígenas na
TI Kadiwéu é eficaz, cumprindo os objetivos do MIF. A atuação dessas brigadas reduziu o
número de focos de incêndio e a área queimada no segundo semestre (período crítico de
incêndio na região). Detectamos uma redução de 53% na área média queimada anualmente
sob manejo do fogo; no entanto, esse valor pode ser ainda maior porque as áreas afetadas
pelas queimas prescritas também foram incluídas na área total. Os tamanhos máximo e médio
das cicatrizes de incêndio foram menores com brigadas indígenas, indicando que os incêndios
florestais não afetaram extensas áreas contínuas neste período. As brigadas indígenas também
reduziram em 80% as classes de frequência de incêndios mais altas (>70%), diminuindo a
frequência de incêndios em cada tipo de vegetação. Por exemplo, áreas com baixa frequência
de incêndios (0%–10%) aumentaram 20% nas florestas, o que pode ser considerado positivo,
uma vez que as florestas são sensíveis ao fogo; além do que, florestas são consideradas áreas
prioritárias a serem protegidas de incêndios pelo MIF (Schmidt et al., 2018). Além disso,
todas as variáveis climáticas tiveram um efeito mais fraco nas variáveis de resposta com o
manejo do que no período sem manejo. Esse efeito de diminuição foi mais proeminente no
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 10
número de dias sem chuva e precipitação média anual, o que explica a variação da área
queimada e o número de focos de fogo no período sem manejo, mas não no período sob o
manejo do fogo. Assim, nosso estudo acrescenta evidências de que em ecossistemas
propensos ao fogo (por exemplo, campos, savanas, matagais e florestas sazonalmente secas),
a integração do conhecimento tradicional indígena no manejo do fogo é essencial para o
sucesso do manejo, como demonstrado por um número crescente de estudos em todo o
mundo, incluindo América do Sul, América do Norte, Austrália e África (Butz, 2009; Lake
et al., 2017; Mistry et al., 2019; Trauernicht et al., 2015).
Efeito do manejo sobre padrões espaciais, frequência de incêndios e área ocupada por
vegetação
Encontramos uma distribuição mais uniforme entre as classes de frequência de
incêndio no período com brigadas indígenas do que no período sem brigadas, configurando
uma paisagem mais heterogênea, com manchas de diferentes frequências de incêndio e tempo
desde o último fogo. A variação temporal e espacial dos incêndios pode criar uma variedade
de nichos permitindo maior coexistência de espécies (Kelly & Brotons, 2017). Assim,
paisagens mais heterogêneas podem suportar mais espécies, maior diversidade e estrutura
mais complexa de assembleias, juntamente com uma maior diversidade de grupos funcionais,
teias alimentares e interações planta-polinizador (Durigan et al., 2020; Ponisio et al., 2016).
Por outro lado, a redução drástica de incêndios florestais também pode reduzir a diversidade,
incentivando espécies não sensíveis ao fogo (Fill et al., 2015) e reduzindo a diversidade de
polinizadores e interações planta-polinizador (Ponisio et al., 2016).
Além de distribuição mais uniforme na frequência de incêndios, o período com
brigadas indígenas apresentou redução no tamanho médio e máximo das cicatrizes em relação
ao período sem brigadas. Mudanças espaciais no regime de fogo, como mostrado pelo nosso
estudo, podem provocar diferentes respostas na biodiversidade. Por exemplo, no manejo do
fogo promovido por brigadas indígenas, áreas queimadas menores promovem um mosaico
sazonal de manchas queimadas e não queimadas, facilitando o acesso aos recursos devido à
disponibilidade de ‘refúgios de incêndio’ (Andrus et al., 2021). Por outro lado, os ‘refúgios
de incêndio’ são escassos quando os incêndios florestais são enormes, como aconteceu no
Pantanal em 2020, quando os mega-incêndios queimaram 43% da área que não foi queimada
anteriormente nas últimas duas décadas (Garcia et al., 2021). Além disso, o tamanho total da
área queimada pode afetar a regeneração pós-fogo, principalmente em formações florestais
onde a distância da fonte dos propágulos pode afetar o tempo de regeneração (Gosz, 1992;
Santos et al., 2019). Entretanto, , na vegetação de savana, a capacidade de rebrota das
espécies é a principal fonte de regeneração pós-fogo (Pilon et al., 2021). No entanto, muitas
espécies se adaptaram ao regime de fogo local apresentando outras estratégias de regeneração
pós-fogo, como o banco de sementes (Ferreira et al., 2021; Fichino et al., 2016). Assim,
espera-se que cada elemento do mosaico da paisagem desempenhe um papel na regeneração
pós-fogo. No entanto, os efeitos da magnitude e frequência do fogo sobre a biodiversidade do
Pantanal ainda precisam ser melhor compreendidos.
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 11
Como resultado da atuação das brigadas indígenas, a área nas classes de menor
frequência de incêndio aumentou em todas as vegetações. A área ocupada por alguns tipos de
vegetação também mudou, pois as áreas florestais aumentaram enquanto os campos
diminuíram. Esses resultados podem estar relacionados uma vez que o fogo no Pantanal é um
processo estruturante de diferentes fisionomias. Em formações florestais sensíveis ao fogo,
baixas frequências de queimadas podem manter a estrutura da vegetação, enquanto altas
frequências podem levar à redução de biomassa, transformando ambientes florestais em
ambientes com estruturas de savana ou favorecendo formações de monodominância (Pivello
et al., 2021; Rivaben et al., 2021). Por outro lado, para formações dependentes de fogo, como
savanas e campos, baixas frequências de fogo podem levar a um processo de invasão de
espécies arbóreas, enquanto uma alta frequência de fogo pode promover a estabilização
desses tipos de formações vegetais (Manrique-Pineda et al., 2021; Pivello et al., 2021). No
entanto, em ambientes resistentes ao fogo, como na TI Kadiwéu, tal mudança tende a ocorrer
apenas em situações extremas, sob extrema frequência e intensidade do fogo (Case & Staver,
2017), o que pode explicar a estabilidade das formações de savana sob diferentes manejos de
fogo.
Como os incêndios de alta frequência diminuem a área das florestas, um dos objetivos
do MIF é proteger as florestas (Schmidt et al., 2018). Nossos dados também sugerem que o
MIF permitiu a expansão das florestas ao reduzir a frequência de incêndios, protegendo assim
as espécies florestais utilizadas pelo povo Kadiwéu. Por outro lado, as áreas de campo
diminuíram, o que é preocupante, pois os campos são um importante tipo de vegetação na
região. O fogo elimina arbustos e outras espécies não herbáceas que podem crescer nos
campos (Damasceno-Junior et al., 2021), portanto a redução da frequência de incêndios
nessas áreas pode estar relacionada à redução da área ocupada pelos campos.No entanto,
essas áreas também podem ser vegetação de savana degradada devido às altas frequências de
queimadas e retornando ao seu estado natural devido à baixa frequência de queimadas
atualmente vivenciada (Schmidt et al., 2019). Assim, os efeitos a longo prazo da redução da
frequência de incêndios em diferentes tipos de vegetação merecem estudos aprofundados.
O efeito do clima sobre o regime de fogo é modulado pelo manejo
A ocorrência e propagação de incêndios florestais são limitadas principalmente pela
flamabilidade, disponibilidade e continuidade do combustível e limitação da ignição
(McLauchlan et al., 2020). Esses fatores limitantes e sua relação com o clima explicam a
diminuição da área queimada e o tamanho das cicatrizes de incêndio no período com brigadas
indígenas em nossa área de estudo. Antes da criação das brigadas na TI Kadiwéu, a área
queimada e o número de focos de incêndio eram determinados pelo volume e distribuição das
chuvas anuais, pois mais precipitação junto com temperaturas mais amenas favorecendo a
produção de biomassa (Grau & Veblen, 2000; Nunes, 2012), e quando sucedida por períodos
mais secos, a biomassa seca torna-se combustível (Grau & Veblen, 2000). Assim, anos com
estações chuvosas intensas precedidas por longos períodos de estiagem podem apresentar alta
disponibilidade e continuidade de combustível. A disponibilidade de combustível, juntamente
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 12
com a ignição (número de focos), aumenta as chances de grandes incêndios florestais que
podem afetar áreas maiores (McLauchlan et al., 2020). No entanto, nossos resultados
sugerem que o manejo do fogo, realizado por brigadas indígenas locais, pode reduzir a
influência do clima no regime de fogo. Assim, nossos resultados são de suma relevância no
contexto das mudanças climáticas, pois a previsão de longo prazo para o Pantanal é de
aumento de temperatura, redução de chuvas e ocorrência de secas extremas (Marengo et al.,
2016; Thielen et al., 2020). Os modelos também precisam incluir o comportamento humano
para uma compreensão mais realista dos padrões de incêndios florestais em paisagens
manejadas (Bowman et al., 2011).
No período de atuação das brigadas indígenas, os fatores climáticos não puderam
explicar a variação da área queimada na TI Kadiwéu, quando a única variável relevante foi o
número de focos de incêndio. Como as condições climáticas foram semelhantes nos dois
períodos com e sem brigadas indígenas, seria de esperar incêndios florestais de proporções
semelhantes. No entanto, nos anos com brigadas indígenas, as áreas queimadas foram
menores do que no período sem brigadas. Embora não tenhamos avaliado anos após 2019,
46% da TI foi queimada entre janeiro e novembro de 2020 (Libonati, Belém, et al., 2020),
menos do que a área afetada em 2005 (59%). Não houve brigadas indígenas em 2005, sendo
este o pior ano da série avaliada. Portanto, embora 2020 seja considerado o pior ano
registrado na história dos incêndios florestais no Pantanal, essa redução de 10% na TI é
possivelmente um efeito positivo do MIF, resultante do controle eficiente do acúmulo de
combustível e outros esforços pelos brigadistas locais(Garcia et al., 2021). Nossos resultados
indicam que o manejo de incêndios, realizado por brigadas indígenas na TI Kadiwéu, reduz
as chances de incêndios florestais de proporções massivas e de alta intensidade, o que é
excelente, pois mega-incêndios (consideramos mega-incêndios os incêndios florestais que
podem atingir mais de 40% da área total de uma região, por exemplo, incêndios florestais no
Pantanal em 2020) podem ser prejudiciais à biodiversidade e trazer risco para infraestruturas
e comunidades humanas.
O conhecimento tradicional indígena abrange muito mais do que apenas o uso do fogo.
Territórios indígenas estão entre as áreas mais bem preservadas do Brasil, devido a eficácia
dos povos indígenas brasileiros na gestão de suas terras (Falleiro et al., 2016). Da mesma
forma, o manejo de incêndio realizado pelas brigadas de incêndio da TI Kadiwéu mostrou-se
eficaz, alcançando resultados além dos objetivos do MIF. Integrantes das brigadas de
incêndio indígenas Kadiwéu também relatam vantagens da aplicação do MIF, como facilitar
o acesso ao território, refúgio de vida selvagem, facilitar a supressão de incêndios no período
de maior frequência de incêndios, reduzir o número de focos de incêndio, mudanças na
vegetação e na fauna e como ferramenta de conservação do território indígena. As brigadas
indígenas não são apenas brigadas que combatem incêndios, mas pessoas que administram e
têm uma relação profunda com suas terras. O conhecimento local é essencial para as
atividades de gestão na região. Além de extensa (540.000 ha), a TI Kadiwéu é de difícil
acesso para as pessoas. O acesso é um dos principais desafios para o manejo do fogo em
algumas áreas do Cerrado e do Pantanal (Ferreira et al., 2021; Libonati, Sander, et al.,
2020). Nesse cenário, o conhecimento local dos integrantes indígenas das brigadas de
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 13
incêndio permite a rápida identificação de incêndios florestais e aumenta a mobilidade das
brigadas, reduzindo o tempo de resposta. Portanto, o MIF em terras indígenas pode ser aceito
como uma ferramenta relevante para uma gestão autônoma e sustentável.
O manejo do fogo é necessário, pois as queimadas estão entre as principais ameaças
em território indígena não apenas no Pantanal, mas em outros biomas brasileiros, como o
Cerrado e a Amazônia (Lima et al., 2020). Por isso, também precisamos ampliar os espaços
de co-aprendizagem gerencial e relatar casos de sucesso, como os que envolvem o PREV-
Fogo e os brigadistas indígenas, que são especialmente relevantes agora, pois o Brasil sofre
críticas em relação à política ambiental e à criminalização dos indígenas (Begotti & Peres,
2019). Nesse contexto, nossos resultados reforçam a importância do manejo para manter a
frequência e distribuição espacial dos incêndios que criam mosaicos sazonais associados ao
conhecimento tradicional (Laris, 2002; Mistry et al., 2019; Parr & Andersen, 2006; Welch,
2014). Mostramos que o manejo do fogo, realizado por brigadas indígenas, é um serviço
eficaz para manter a heterogeneidade da paisagem, evitando a conversão de campos em
savana e a perda de floresta. Além disso, mostramos que o manejo do fogo pode evitar
grandes incêndios florestais, reduzindo a influência climática nos eventos de incêndio.
Agradecimentos
Esta pesquisa foi financiada pelo CNPQ (Edital 33/2018; processo 441948/2018-9) e
em parte pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil
(CAPES) - Código Financeiro 001, Fundo Brasileiro para a Biodiversidade FUNBIO e
Instituto Humanize (bolsa 041/2021). Os autores agradecem à Fundação Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS/MEC - Brasil e ao Instituto Brasileiro do Meio
Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA)/Centro Nacional de Prevenção e
Combate aos Incêndios Florestais (PREVFOGO) pelo apoio técnico e logístico.
Agradecemos aos indígenas da Aldeia Alves de Barros, Terra Indígena Kadiwéu, Porto
Murtinho, Mato Grosso do Sul, Brasil. Agradecemos também à CAPES pela concessão de
bolsas aos autores B.H.S.F., M.R.O., E.B.S., A.A.L. e F.P.B., e bolsa CNPq para A.P.
(303191/2017-1).
Referências
Abatzoglou, J. T., Williams, A. P., & Barbero, R. (2019). Global emergence of
anthropogenic climate change in fire weather indices. Geophysical Research Letters, 46,
326–336. https://doi.org/10.1029/2018G L080959
Aldersley, A., Murray, S. J., & Cornell, S. E. (2011). Global and regional analysis of climate
and human drivers of wildfire. Sci. Total Environ, 409, 3472–3481.
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 14
ANA - Agência Nacional de Águas, (2020). Hidroweb: Sistemas de informações
hidrológicas. Available at: http://www.snirh.gov.br/hidroweb/apresentacao. Access on
30/06/2020.
Andrus, R. A., Martinez, A. J., Jones, G. M., & Meddens, A. J. (2021). Assessing the quality
of fire refugia for wildlife habitat. Forest Ecology and Management, 482, 118868.
Araújo, F. M., Ferreira, L. G. & Arantes, A. E. (2012). Distribution Patterns of Burned Areas
in the Brazilian Biomes: An Analysis Based on Satellite Data for the 2002-2010 Period.
Remote Sens, 4, 1929–1946.
Barbosa, A. M., Real, R., Munoz, A. R. & Brown, J. A. (2015). New measures for assessing
model equilibrium and prediction mismatch in species distribution models. Divers.
Distrib. 19, 1333–1338.
Begotti, R. A., & Peres, C. A. (2019). Brazil’s indigenous lands under threat. Science,
(2017), 2017–2019.
Bond, W. J., Woodward, F. I., Midgley, G. F. (2005). The global distribution of ecosystems
in a world without fire. New Phytologist, 165, 525–538.
Bowman, D. M., Balch, J., Artaxo, P., Bond, W. J., Cochrane, M. A., D'Antonio, C. M.,
DeFries, R., Johnston, F. H., Keeley, J. E., Krawchuk, m. A., Kull, C. A., Mack, M.,
Moritz, M. A., Pyne, S., Roos, C. I., Scott, A. C., Sodhi, N. S., Swetnam, T. W.,
Whittaker R.. (2011). The human dimension of fire regimes on Earth. J Biogeogr, 38,
2223–2236.
Bowman, D. M., Kolden, C. A., Abatzoglou, J. T., Johnston, F. H., van der Werf, G. R.,
Flannigan, M. (2020). Vegetation fires in the Anthropocene. Nat Rev Earth & Env, 1,
500–515.
Butz, R. J. (2009). Traditional fire management: historical fire regimes and land use change
in pastoral East Africa. International Journal of Wildland Fire, 18(4), pp.442-450.
Câmara, G., Souza, R. C. M., Freitas, U. M., Garrido, J. (1996). SPRING: Integrating remote
sensing and GIS by object-oriented data modelling. Computers & graphics, 20, 395-403.
Case, M. F., & Staver, A. C. (2017). Fire prevents woody encroachment only at higher‐than‐
historical frequencies in a South African savanna. J Appl Ecol, 54, 955–962.
Chergui, B., Fahd, S., Santos, X., Pausas, J. G. (2018). Socioeconomic factors drive fire-
regime variability in the Mediterranean Basin. Ecosystems, 21, 619–628.
Damasceno-Junior, G. A., Roque, F. de O., Garcia, L. C., Ribeiro D. B., Tomas W. M.,
Scremin-Dias, E., Dias, F. A., Pott, A. (2021). Lessons to be learned from the
Wildfire Catastrophe of 2020 in the Pantanal Wetland. Wetland Science & Practice,
107–115.
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 15
Durigan, G., Pilon, N. A. L., Abreu, R. C. R., Hoffmann, W. A., Martins, M., Fiorillo, B. F.,
Antunes, A. Z., Carmignotto, A. P., Maravalhas, J. B., Vieira, J., Vasconcelos, H. L.
(2020). No Net Loss of Species Diversity After Prescribed Fires in the Brazilian
Savanna. Front for Glob Change, 3, 1–15.
Durigan, G., & Ratter, J. A. (2016). The need for a consistent fire policy for Cerrado
conservation. J. Appl. Ecol., 53, 11–15.
Eloy, L., A. Bilbao, B., Mistry, J., & Schmidt, I. B. (2019). From fire suppression to fire
management: Advances and resistances to changes in fire policy in the savannas of
Brazil and Venezuela. Geogr. J., 185, 10–22.
Falleiro, M. R., Santana, M. T., Berni, C. R. (2016). As contribuições do Manejo Integrado
do Fogo para o controle dos incêndios florestais nas Terras Indígenas do Brasil.
Biodiversidade brasileira, 6, 88–105.
Faraway, J. J. (2015). Linear Models with R. Chapman & Hall, 2ed, p. 286.
Ferreira, B. H. S., Guerra, A., Oliveira, M. R., Reis, L. K., Aptroot, A., Ribeiro, D. B.,
Garcia, L. C. (2021) Fire damage on seeds of Calliandra parviflora Benth. (Fabaceae), a
facultative seeder in a Brazilian flooding savanna. Plant Species Biology, 1–12.
https://doi.org/10.1111/1442-1984.1233512
Fichino, B. S., Dombroski, J. R. G., Pivello, V. R., Fidelis, A. (2016). Does fire trigger seed
germination in the Neotropical savannas? Experimental Tests with Six Cerrado Species.
Biotropica, 48, 181–7 (2016).
Fill, J. M., Platt, W. J., Welch, S. M., Waldron, J. L., Mousseau, T. A. (2015). Updating
models for restoration and management of fiery ecosystems. For. Ecol. Manag., 356,
54–63.
Fox, J., Weisberg, S. (2019). An {R} Companion to Applied Regression, Third Edition.
Thousand Oaks CA: Sage. URL:
https://socialsciences.mcmaster.ca/jfox/Books/Companion/
Garcia, L. C., Szabo, J. K., Roque, F. D. O., Pereira, A. M. M., Cunha, C.N., Damasceno-
Júnior, G.A., Morato, R.G., Tomas, W.M., Libonati, R.,Ribeiro, D.B. (2021). Record-
breaking wildfires in the world’s largest continuous tropical wetland: Integrative fire
management is urgently needed for both biodiversity and humans. Journal of
Environmental Management, 293, 112870.
Gosz, J. R. (1992). Gradient Analysis of Ecological Change in Time and Space: Implications
for Forest Management. Ecol Appl., 2, 248–261.
Grau, H. R., & Veblen, T. T. (2000). Rainfall variability, fire and vegetation dynamics in
Neotropical montane ecosystems in north-western Argentina. J. Biogeogr, 27, 1107–
1121.
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 16
Guisan, A., Thuiller, W., Zimmermann, N. E. (2017). Habitat suitability and distribution
models. Cambridge University Press, Cambridge.
Huffman, M. R. (2013). The many elements of traditional fire knowledge: synthesis,
classification, and aids to cross-cultural problem solving in fire-dependent systems
around the world. Ecology and Society, 18, 3. http://dx.doi.org/10.5751/ES-05843-
180403
IBAMA- (2021) - PORTARIA CONJUNTA SEDGG/ME-MMA Nº 48, DE 3 DE MAIO DE
2021. Available at: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-conjunta-sedgg /me-
mma-n-48-de-3-de-maio-de-2021-317633626. Access on 20/05/2021
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, (2020). Censo demográfico do Brasil.
Available at: https://censo2010.ibge.gov.br/terrasindigenas/. Access on 30/06/2020.
INMET - Instituto Nacional de Meteorologia do Brasil. (2020). BDMEP - Banco de Dados
Meteorológicos para Ensino e Pesquisa. Available at:
http://www.inmet.gov.br/portal/index.php?r=bdmep/bdmep. Access on 30/06/2020.
INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, (2020). Banco de Dados do Programa de
Monitoramento de Queimadas e Incêndios. Available at:
http://www.inpe.br/queimadas/bdqueimadas. Access on 30/06/2020.
Judson, O. P. (2017). The energy expansions of evolution. Nature Ecology & Evolution, 1.
https://doi.org/10.1038/s4155 9-017-0138
Kelly, L. T., & Brotons, L. (2017). Using fire to promote biodiversity. Science 355, 1264–
1265.
Laris, P. (2002). Burning the seasonal mosaic: preventative burning strategies in the wooded
savanna of southern Mali. Hum. Ecol., 30, 155–186.
Lake, F. K., Wright, V., Morgan, P., McFadzen, M., McWethy, D., Stevens-Rumann, C.,
(2017). Returning fire to the land: celebrating traditional knowledge and fire. Journal of
Forestry, 115(5), 343-353.
Libonati, R., Belém, L. B. C., Rodrigues, J. A., Santos, F. L. M., Sena, C. A. P., Pinto, M.
M., Carvalho, I. A. (2020b). Sistema ALARMES Alerta de área queimada Pantanal,
situação atual – segunda semana de novembro de 2020. 15p, Rio de Janeiro, Laboratório
de Aplicações de Satélites Ambientais - UFRJ.
Libonati, R., Sander, L. A., Peres, L. F., da Camara, C. C., Garcia, L. C. (2020a). Rescue
Brazilʼ s burning Pantanal wetlands. Nature 588, 217–220.
Lima, M., Vale, J. C. E. do, Costa, G. de M., Santos, R. C. dos, Correia Filho, W. L. F.,
Gois, G., … da Silva Junior, C. A. (2020). The forests in the indigenous lands in Brazil
in peril. Land Use Policy, 90, 104258.
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 17
Manrique-Pineda, D. A., de Souza, E. B., Paranhos Filho, A. C., Cáceres Encina, C. C.,
Damasceno-Junior, G. A. (2021). Fire, flood and monodominance of Tabebuia aurea in
Pantanal. Forest Ecology and Management, 479, 118599. doi:
10.1016/j.foreco.2020.118599
MapBiomas (2020). Projeto MapBiomas - Coleção [4.0] da Série Anual de Mapas de
Cobertura e Uso de Solo do Brasil. Available at: https://mapbiomas.org. Access on
30/06/2020.
Marengo, J. A., Alves, L. M., Torres, R. R. (2016). Regional climate change scenarios in the
Brazilian Pantanal watershed. Clim. Res., 68, 201–213.
McLauchlan, K. K., Higuera, P. E., Miesel, J., Rogers, B. M., Schweitzer, J., Shuman, J. K.,
Tepley, A. J., Varner, J. M., Veblen, T. T., Adalsteinsson, S. A., Balch, J. K., Baker, P.,
Batllori, E., Bigio, E., Brando, P., Cattau, M., Chipman, M. L., Coen, J., Crandall, R.,
Watts, A. C. (2020). Fire as a fundamental ecological process: Research advances and
frontiers. Journal of Ecology, 108(5), 2047–2069. https://doi.org/10.1111/1365-
2745.13403
Mistry, J., Berardi, A., Andrade, V., Krahô, T., Krahoˆ, P., Leonardos, O. (2005). Indigenous
fire management in the Cerrado of Brazil: The case of the Krahoˆof Tocantıns. Hum.
Ecol 33, 365–386.
Mistry, J., Bilbao, B., Berardi, A. (2016). Community owned solutions for fire management
in tropical ecosystems: Case studies from indigenous communities of South America.
Philos. Trans. R. Soc. Lond., B, Biol. Sci. 371, 20150174.
Mistry, J., Schmidt, I. B., Eloy, L., Bilbao, B. (2019). New perspectives in fire management
in South American savannas: The importance of intercultural governance. Ambio, 48,
172–179.
Myers, R. L. (2006). Convivir con el fuego - Manteniendo los ecosistemas y los medios de
subsistencia mediante el Manejo Integral del Fuego. The Nature Conservancy.
Nunes, A. N. (2012). Regional variability and driving forces behind forest fires in Portugal
an overview of the last three decades (1980–2009). Appl. Geogr., 34, 576–586.
Oliveira M. R (2022). Data article Indigenous brigades changes the spatial patterns of
wildfires and the influence of climate on fire regimes. Zenodo Repository.
https://doi.org/10.5281/zenodo.6038858
Parr, C. L. & Andersen A. N. (2006). Patch mosaic burning for biodiversity conservation: a
critique of the pyrodiversity paradigm. Conserv. Biol., 20, 1610–1619.
Pilon, N. A. L., Cava, M. G. B., Hoffmann, W. A., Abreu, R. C. R., Fidelis, A., & Durigan,
G. (2021). The diversity of post-fire regeneration strategies in the cerrado ground layer.
Journal of Ecology, 109(1), 154–166. doi: 10.1111/1365-2745.13456
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 18
Pivello, V. R., Vieira, I., Christianini, A. V., Ribeiro, D. B., da Silva Menezes, L., Berlinck,
C. N., Overbeck, G. E. (2021). Understanding Brazil’s catastrophic fires: Causes,
consequences and policy needed to prevent future tragedies. Perspectives in Ecology and
Conservation, 19(3), 233–255. doi: 10.1016/j.pecon.2021.06.005
Ponisio, L. C., Wilkin, K., M'Gonigle, L. K., Kulhanek, K., Cook, L., Thorp, R., Griswold,
T., Kremen, C. (2016). Pyrodiversity begets plant–pollinator community diversity. Glob.
Change Biol. 22, 1794–1808.
PrevFogo (2018) Relatório da compilação dos resgates do conhecimento tradicional sobre o
uso do fogo em Terras Indígenas brasileiras. IBAMA/MMA. Brasília, DF.
R Core Team. (2019). R: A language and environment for statistical computing. <www.r-
project.org>
Rivaben, R. C., Pott, A., Bueno, M. L., Parolin, P., Cordova, M. O., Oldeland, J.,
Damasceno-Junior, G. A. (2021). Do fire and flood interact to determine forest islet
structure and diversity in a Neotropical wetland? Flora: Morphology, Distribution,
Functional Ecology of Plants, 281, 151874. doi: 10.1016/j.flora.2021.151874
Santos, J.F.C., Gleriani, J.M., Velloso, S.G.S., Souza, G.S.A., Amaral, C.H., Torres, F.T.P.,
Medeiros, N.D.G. & Reis, M. (2019). Wildfires as a major challenge for natural
regeneration in Atlantic Forest. Sci Total Environ, 650, 809–821.
Schmidt, I. B., Ferreira, M. C., Sampaio, A. B., Walter, B. M. T., Vieira, D. L. M., & Holl,
K. D. (2019). Tailoring restoration interventions to the grassland-savanna-forest complex
in central Brazil. Restoration Ecology, 27(5), 942–948. doi: 10.1111/rec.12981
Schmidt, I. B., Moura, L. C., Ferreira, M. C., Eloy, L., Sampaio, A. B., Dias, P. A., Berlinck,
C. N. (2018). Fire management in the Brazilian savanna: First steps and the way
forward. J. Appl. Ecol., 55, 2094-2101.
Scott, A. C. (2000). The pre-quaternary history of fire. Palaeogeogr. Palaeocl. 164, 281–329.
Thielen, D., Schuchmann, K. L., Ramoni-Perazzi, P., Marquez, M., Rojas, W., Quintero, J.
I., & Marques, M. I. (2020). Quo vadis Pantanal? Expected precipitation extremes and
drought dynamics from changing sea surface temperature. Plos one, 15, e0227437
Trauernicht, C., Brook, B. W., Murphy, B. P., Williamson, G. J., Bowman, D. M. (2015).
Local and global pyrogeographic evidence that indigenous fire management creates
pyrodiversity. Ecology and Evolution, 5(9), 1908-1918.
USGS - U.S. Geological Survey, (2020). Search Data Catalog - MOD13Q1v006. Available
at: https://lpdaac.usgs.gov/products/mod13q1v006/. Access on 30/06/2020.
Welch, J. R. (2014). Xavante ritual hunting: anthropogenic fire, reciprocity, and collective
landscape management in the Brazilian cerrado. Hum. Ecol., 42, 47–59.
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 19
.
Trabalho original publicado na revista científica Journal of Applied Ecology. DOI:
https://doi.org/10.1111/1365-2664.14139. 20
ResearchGate has not been able to resolve any citations for this publication.
ResearchGate has not been able to resolve any references for this publication.