ChapterPDF Available

Análise da atividade no contexto da mineração: pesquisa e intervenção na perspectiva das Abordagens Clínicas do Trabalho.

Authors:

Abstract

Neste estudo, discutimos os resultados preliminares de uma pesquisa-intervenção realizada em uma mineradora situada na região norte do Brasil, em uma das principais reservas minerais do mundo.
© 2021 Os Organizadores
Todos os direitos reservados pela Editora PUC Minas. Nenhuma parte desta publicação poderá ser
reproduzida sem a autorização prévia da Editora.
Esta publicação foi nanciada através de recursos provenientes do Acordo de Cooperação
Técnico-Cientíca celebrado entre a PUC Minas e a Vale S.A., em 12/12/2017, com intermediação
do Instituto Tecnológico Vale (ITV).
Esta publicação foi objeto de avaliação por pares.
FICHA CATALOGRÁFICA
Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
P974 Psicologia, trabalho e processos psicossociais : pesquisas e intervenções /organizadores:
João César de Freitas Fonseca ... [et al.]. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2021.
328 p. : il.
ISBN: 978-65-88547-15-1
Outros organizadores: Bruno Márcio de Castro Reis, Jesus Alexandre Tavares Monteiro,
Carlos Eduardo Carrusca Vieira, José Newton Garcia de Araújo.
1. Trabalho - Aspectos psicológicos. 2. Minas e recursos minerais - Brasil. Ergonomia.
3. Condições de trabalho - Fatores de risco. 4. Testes psicológicos - Técnica. 5. Pessoal -
Avaliação. 6. Psicologia social. 7. Ambiente de trabalho. I. Fonseca, João César de Freitas. II.
Programa de Operadores de Alto Desempenho. III. Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais. IV. Vale (Firma). V. Título.
CDU: 658.013
Ficha catalográca elaborada por Fernanda Paim Brito - CRB 6/2999
E PUC M
Direção e coordenação editorial: Mariana Teixeira de Carvalho Moura
Comercial: Paulo Vitor de Castro Carvalho
Revisão: Ana Paula Paiva e úllio Salgado
Projeto gráco, e diagramação: Christiane Costa
Conselho editorial: Édil Carvalho Guedes Filho, Eliane Scheid Gazire, Ev’Ângela Batista Rodrigues de
Barros, Flávio de Jesus Resende, Jean Richard Lopes, Javier Alberto Vadell, Leonardo César Souza Ramos,
Lucas de Alvarenga Gontijo, Luciana Lemos de Azevedo, Márcia Stengel, Meire Chucre Tannure Martins,
Mozahir Salomão Bruck, Pedro Paiva Brito, Sérgio de Morais Hanriot.
Editora PUC Minas
Rua Dom José Gaspar, 500 - Prédio 30
Coração Eucarístico 30535-901
Belo Horizonte - MG
Fone: (31) 3319-9904
editora@pucminas.br
www.pucminas.br/editora
19
CAPÍTULO 1
ANÁLISE DA ATIVIDADE NO
CONTEXTO DA MINERAÇÃO: PESQUISA
E INTERVENÇÃO NA PERSPECTIVA DAS
ABORDAGENS CLÍNICAS DO TRABALHO
José Newton Garcia de Araújo
João César de Freitas Fonseca
Carlos Eduardo Carrusca Vieira
Rodrigo Padrini Monteiro
INTRODUÇÃO
Neste estudo, discutimos os resultados preliminares de uma pesqui-
sa-intervenção realizada em uma mineradora situada na região norte do
Brasil, em uma das principais reservas minerais do mundo1. Com o objetivo
de maximizar o nível de produtividade de seu complexo mineral, a empresa
em questão implantou ali um novo sistema, denominado truckless. Com esse
sistema, elimina-se o uso de caminhões, os quais passam a ser substituídos
por correias transportadoras de longa distância, que levam o material extraído
até a usina que realiza seu tratamento. Em seguida, o produto nal segue, de
trem, para os terminais marítimos, a m de ser exportado para outros países.
Este complexo sistema de produção é marcado pela automatização, o
que implica uma redução expressiva de postos de trabalho. Uma das poucas
funções não automatizadas é a dos Operadores de Escavadoras a Cabo, cuja
atribuição consiste em extrair o minério de ferro. Com o objetivo de ampliar a
produtividade, a empresa criou o “Programa de Operadores de Alto Desempe-
nho, que visa desenvolver as competências e habilidades destes prossionais,
1 A pesquisa intervenção teve origem em um acordo rmado entre a PUC Minas e a Vale S.A.,
no m de 2017, com o objetivo de estudar os fatores psicossociais presentes no desempenho
de Operadores de Escavadeira a Cabo em um sistema de exploração de minério de ferro no
estado do Pará.
20
em suas múltiplas dimensões (física, psicológica, cognitiva e técnica), bem
como a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores.
Convém lembrar que a expressão “alta performance” é normalmente
aplicada aos atletas prossionais que devem atingir ou ultrapassar seus limi-
tes no âmbito de grandes competições esportivas, nacionais e internacionais
(SAMULSKI, 2009). No vocabulário da gestão neoliberal, a expressão “atleta
corporativo” é usada no sentido instrumental: trata-se de extrair do trabalha-
dor-atleta seu rendimento máximo. Neste sentido, Ehrenberg (2010) refere-se
ao culto da performance no âmbito organizacional, associando-o a um “esporte
fora do esporte. Aliás, não é difícil encontrar, na prática gerencial, discursos
relativos a um “tornar-se atleta, algo típico da sociedade contemporânea
doente do tempo, na qual predomina o “culto da urgência” (AUBERT e
GAULEJAC, 1991; AUBERT, 2003; GAULEJAC, 2005).
Com o objetivo de sustentar cienticamente esse projeto, a organização esta-
beleceu acordos de cooperação técnica com pesquisadores de diferentes univer-
sidades e áreas do conhecimento (psicologia, medicina, estatística, neurociência,
ciências da computação, entre outras). Os pesquisadores convidados compuseram
quatro Núcleos de Ação: 1) Núcleo Cognitivo (formado por pesquisadores da
Universidade Federal do Pará (UFPA) e do Instituto Tecnológico Vale – ITV); 2)
Núcleo Clínico-Físico (Universidade Federal de Ouro Preto); 3) Núcleo Técnico
(formado por prossionais da própria empresa contratante); 4) Núcleo Psicossocial
(PUC Minas). O presente texto se refere às ações deste último núcleo.
Nos contatos preliminares com a empresa, determinados critérios prévios
foram negociados, visando uma melhor denição do trabalho: a) tratava-se de
uma pesquisa aplicada: o projeto deveria ter uma dimensão empírica, por não
visar à pura investigação teórica; b) deveria ter um caráter interdisciplinar, de
diálogo entre as diferentes áreas de conhecimento ligadas aos Núcleos de Ação
mencionados acima; c) a pesquisa seria essencialmente focada nos aspectos
psicossociais que afetam a performance das escavadoras a cabo, performance
esta considerada, inicialmente, como cerne da investigação.
Estes critérios remetiam à “encomenda da organização, vinculada prioritaria-
mente a uma expectativa de promoção do rendimento máximo dos Operadores.
Este objetivo, no entanto, confrontava desde o início nossa perspectiva de trabalho,
crítica e clínica, fundamentada nas Abordagens Clínicas do Trabalho (CLOT, 2007,
2010, 2010a; SCHWARTZ, 2000, 2011; LHUILIER, 2014; GAULEJAC, 2007).
Tivemos, assim, que enfrentar a seguinte questão: seria possível fazer
a pesquisa e a intervenção na ótica das Abordagens Clínicas do Trabalho,
21
em uma organização cujo principal objetivo é garantir o aumento da pro-
dutividade? E fazê-lo levando em conta a dimensão coletiva do trabalho, a
variabilidade associada às situações reais de trabalho, os valores, os saberes e
as experiências dos trabalhadores? Em outros termos, perguntávamo-nos se
a encomenda nos imporia uma intervenção nos moldes preestabelecidos pela
empresa ou se ela comportaria outras alternativas, que nos permitiriam, e aos
trabalhadores, agir sobre as formas de organização e de gestão do trabalho,
bem como sobre as suas condições de saúde e a segurança.
Apostamos na possibilidade de que, no decorrer da intervenção, outras
leituras de trabalho pudessem ser construídas pelos gestores, para além do
projeto inicial da organização, de aumento da produtividade.
O projeto que apresentamos à empresa, privilegiando a dimensão coletiva
da atividade de trabalho, bem como a participação ativa dos trabalhadores, foi
aceito, para a nossa surpresa. No entanto, a proposta precisou ser remodela-
da diversas vezes, ao longo da intervenção, de modo a atender às demandas
emergentes, tanto dos trabalhadores como da própria organização, como
mostraremos adiante. Com efeito, nos encontrávamos diante de interesses
diversicados e, com frequência, antagônicos: os da empresa, dos gestores,
dos trabalhadores e dos pesquisadores. Assim, nossa participação implicava
riscos, como o uso meramente instrumental do conhecimento cientíco, a
serviço dos interesses da empresa. Pensávamos, no entanto, que esses riscos
poderiam gerar oportunidades de mudanças, ainda que limitadas ou não
planejadas, no sentido atribuído pela psicossociologia (RHÉAUME, 2002).
A seguir, vamos expor e discutir os resultados preliminares da investiga-
ção. Na primeira parte, apresentaremos o contexto institucional da pesquisa-
-intervenção realizada, as referências teóricas e a abordagem metodológica
adotadas. Avaliaremos depois os resultados obtidos até o primeiro semestre de
2021, indicando as contribuições e o que estará em jogo no futuro, assim como
os limites de nossa pesquisa no âmbito das Abordagens Clínicas do Trabalho.
CONTEXTO INSTITUCIONAL DA PESQUISA-INTERVENÇÃO
A organização na qual a pesquisa-intervenção ocorreu foi criada pelo
Governo Federal brasileiro na primeira metade do século XX, para ser mais
exato em 1942
2
, a m de operar no campo da mineração. Durante o período da
2
Companhia Vale do Rio Doce S/A, disponível em: http://www.vale.com/Documents/nossahis-
toria2.pdf.
22
ditadura militar do Brasil (1964-1985), seu crescimento se deu em um ritmo
acelerado, levando ao aumento da exportação de sua produção.
Em 1997, durante o governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso,
a mineradora Vale do Rio Doce foi privatizada no âmbito de um processo
marcado por contestações (ADÃO, 2006) a respeito da concessão da explo-
ração para o capital privado, inclusive pelo fato de que o enorme valor das
reservas de ferro no País não foi considerado, quando passou para as mãos
da iniciativa privada. Uma vez concluída a privatização, a concessão custou
para a empresa um preço ínmo e deu a ela extraordinários ganhos de capital
(OLIVEIRA, LUSTOSA e SALES, 2007).
Em 2016, a Vale inaugurou
3
uma unidade de produção no sudeste do
Estado do Pará, no norte do Brasil, anunciando que instalaria ali o maior
projeto de mineração do mundo. Uma de suas novidades tecnológicas foi
justamente a substituição dos caminhões por correias de transportadoras,
reduzindo em cerca de 70% o consumo de diesel no processo de extração e
de transporte do minério. Deste fato deriva o nome do sistema: truckless. No
sistema tradicional, o material é extraído da terra e colocado em caminhões
que o transportam para um britador. No sistema truckless, o minério extraído
pela escavadeira a cabo é jogado diretamente em um britador móvel, que ca
ao lado da escavadeira, e, em seguida, é mandado para a usina, em esteiras de
transporte de longa distância (PINHEIRO, OLIVEIRA e MESQUITA, 2016,
PALMEIRA, 2013; MESQUITA et al., 2011).
A escavadeira a cabo é uma máquina sosticada de extração de minério,
produzida por encomenda para esse projeto e manobrada por Operadores
especialmente treinados para a execução. É justamente para estes operado-
res, considerados “de alta performance, que a empresa criou um programa
especíco de acompanhamento, gestão e treinamento, convocando para isso
os grupos de ação. Cabia a nosso Núcleo Psicossocial, neste modelo, estudar
as variáveis psicossociais relativas à performance dos operadores.
Entendíamos que a implantação de um projeto de desenvolvimento de
alta performance dos operadores, ao fazer com que trabalhassem em ritmo
intenso e acelerado, só fazia repetir e sosticar os princípios clássicos do taylo-
rismo, no sentido em que segmentava a execução e o planejamento das tarefas,
objetivando maior controle sobre os tempos e movimentos. A diferença era
3 Localizado no município de Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, o S11D é o maior com-
plexo minerador da história da Vale.
23
a adoção de uma versão contemporânea dos trabalhadores, comparando-os
a atletas de alta performance, o que lhes exigia ultrapassar constantemente
seus limites individuais.
A unidade de produção mineral, aqui analisada, apresenta caracterís-
ticas especícas que convém detalhar, para compreendermos seu contexto
organizacional, a saber:
trata-se de um dos maiores greenelds (planta sem nenhuma estrutura
física anterior) da história da mineração;
em sua implantação e construção (mina, usina, estrada de ferro e porto),
cerca de 40.000 empregos foram criados na região, e os trabalhadores,
em sua maioria, eram dos Estados do Pará e do Maranhão;
o momento mais intenso do trabalho, no sentido de criação de postos
ocupacionais, ocorreu em dezembro de 2016, quando a unidade S11D
começou a operar. Meses depois, um “Plano de desmobilização” foi
executado pela empresa e pelos agentes públicos, como a prefeitura
local, para mandar os trabalhadores de volta para suas cidades de ori-
gem. Isso levou ao despovoamento de Canaã dos Carajás, construída
articialmente em volta do novo sistema de mineração, com graves
problemas sociais, econômicos e ecológicos nas áreas do comércio, da
educação, da saúde e do lazer;
a empresa tem cerca de 70.000 funcionários, mundo afora. Seu objetivo
para a unidade de produção em questão é de funcionar com cerca de
2.000 funcionários, entre os quais o grupo de Operadores de escavadeiras
a cabo, com trinta e seis indivíduos, que recebem um salário mensal que
varia de R$ 1.500,00 a R$ 3.800,00, ou seja, trata-se de um salário bem
precário para um operador comparado a um atleta de alto rendimento;
todos os operadores são do sexo masculino, têm entre 25 e 51 anos de
idade, a maioria é casada (54%) e seu tempo de serviço na empresa va-
ria de 2 a 14 anos (muitos deles trabalhavam anteriormente em outras
unidades da empresa);
a empresa pretende produzir anualmente 90 milhões de toneladas nessa
unidade, aproveitando o alto teor de ferro (66,7%) do minério extraído
e a facilidade da mineração de superfície, dita “a céu aberto4.
4
Conforme informações obtidas em documentos disponibilizados pela instituição e em nossa
interação no campo de pesquisa.
24
AS ABORDAGENS CLÍNICAS DO TRABALHO E
SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA A LEITURA CRÍTICA E A
TRANSFORMAÇÃO DA ENCOMENDA ORGANIZACIONAL
O projeto de pesquisa-intervenção que apresentamos para a empresa
fundamentava-se, em sua formulação original, essencialmente nas Abordagens
Clínicas do Trabalho, lançando mão, especialmente, da Clínica da Atividade,
da Ergologia e da Psicossociologia do Trabalho5.
Com o objetivo de estudar e intervir no âmbito das vivências de mal-estar
e de sofrimento no trabalho, tais abordagens adotam uma visão crítica e com-
preensiva das relações entre trabalho, poder, organização, subjetividade e saúde
(BENDASSOLI e SOBOLL, 2011; LIMA, 2011). Para tanto, lançam mão, dentre
outros elementos teóricos, de saberes indispensáveis, produzidos pela Ergono-
mia da Atividade, tal como o reconhecimento da distância inelutável entre o
trabalho prescrito e o trabalho real, assim como as variabilidades presentes nas
situações reais de trabalho e a gestão dessas variabilidades pelos trabalhadores.
É certo que tais abordagens apresentam uma diversidade epistemológica,
metodológica e teórica, mas notamos que elas “tentam sempre decifrar a maneira
pela qual a subjetividade e a atividade se articulam” (LIMA, 2011, p. 228). Na
qualidade de clínicas e herdeiras da psicologia do trabalho de língua francesa,
essas abordagens têm um projeto de cienticidade distinto dos paradigmas
positivistas (focados na previsão e no controle), voltando-se para um estudo
compreensivo dos fenômenos num confronto dialógico com a realidade
(BENDASSOLI e SOBOLL, 2011). Para estes autores, o quadro compreensão
versus controle está presente na psicologia cientíca, dene as metodologias
(qualitativas ou quantitativas) e os usos que fazemos dos elementos teóricos
e dos instrumentos. Em determinados casos, a escolha de um desses campos
pode até mesmo denir a postura ética e política assumida pelo pesquisador.
Todavia, os princípios positivistas de generalização, justicação, neutrali-
dade e universalidade das leis e dos modelos encontram limites no desenvol-
vimento das ciências humanas e sociais. No m das contas, para as ciências
humanas, “explicar a ação equivale a elucidar seu sentido, o que requer uma ati-
vidade hermenêutica, interpretativa” (BENDASSOLI e GONDIM, 2014, p. 17),
5 As reformulações do projeto, com inclusão de outras perspectivas teórico-metodológicas,
serão abordadas rapidamente nesse mesmo texto. Relatos mais detalhados sobre cada uma
dessas modicações, que denominamos “Linhas de Ação dentro do Projeto, podem ser
encontrados nos demais capítulos deste livro.
25
na qual as teorias são constituídas e, ao mesmo tempo, constituintes da reali-
dade social. Tal argumento postula que os dados empíricos não são somente
algo à espera de desvelamento, mas também algo construído. Aqui, ca eli-
minada a noção de pesquisa asséptica, através da qual seria possível entrar e
sair do campo deixando intactos os pesquisadores e os sujeitos da pesquisa.
Além disso, para Bendassoli e Gondim (2014), essa concepção requer que o
conhecimento seja produzido através da interação entre os sujeitos pesquisa-
dores e os sujeitos-objeto da pesquisa, marcando uma grande diferença com
relação ao projeto de cienticidade positivista.
Com base nisso, a noção de neutralidade é criticada e superada, dando
lugar à premissa da implicação do pesquisador, como ator social, na prática
de pesquisa. Neste trabalho, buscamos recuperar e rearmar os princípios
da centralidade do trabalho e das condições concretas de existência, para
uma compreensão mais abrangente e aprofundada da realidade. É sob essa
perspectiva crítica que as Abordagens Clínicas do Trabalho se encontram e
nos guiam no âmbito das pesquisas e intervenções, junto a trabalhadores e
instituições, bem como na construção do conhecimento cientíco.
Vamos agora identicar determinados elementos teórico-metodológicos
relativos às Abordagens Clínicas do Trabalho nas quais nos fundamentamos.
Em primeiro lugar, citamos a Clínica da Atividade, disciplina formulada
pelo professor e pesquisador francês Yves Clot (2007) e colaboradores, nos
últimos quarenta anos. Inuenciado principalmente pelo médico do trabalho
Ivar Oddone, pela psicologia socio-histórica de Vygotsky, Leontiev e Luria,
bem como pelo linguista Mikhail Bakhtin, Yves Clot constituiu uma disciplina
que pretende ser um instrumento de transformação dos contextos de trabalho
(LIMA, 2007) pela via da coanálise da atividade de trabalho (FONSECA et
al., 2019; BATISTA e RABELO, 2013). Nela destacamos os conceitos de gê-
nero prossional e de estilo. Entre o que é prescrito e a atividade individual
do sujeito existe um trabalho de reorganização da atividade pelos coletivos
prossionais, denominado gênero prossional ou gênero de atividade, o que
constitui-se como uma espécie de prescrição informal partilhada pelos sujeitos
que atuam em um dado meio prossional, situado transitoriamente na história
e no tempo (CLOT e FAITA, 2016; CLOT, 2010). No contato com o gênero da
atividade, o sujeito constrói seu estilo pessoal, uma forma de apropriação e,
ao mesmo tempo, transformação do gênero. Nessa perspectiva, o gênero está
em constante metamorfose, e oferece tanto restrições quanto recursos para os
trabalhadores, sendo sempre retocado pelos estilos singulares.
26
Outro elemento teórico a ser considerado: a atividade individual está
sempre vinculada a uma história construída coletivamente. Nessa perspectiva,
qualquer trabalho é uma atividade dirigida, ao mesmo tempo, pelo sujeito,
pela tarefa e para os outros” (CLOT, 2010, p. 144). Por este motivo, ainda que
o trabalhador esteja sozinho, “qualquer atividade prossional é considerada
uma coatividade, uma contra-atividade, no sentido de que se trata sempre
de uma resposta à atividade dos outros (SANTOS, 2006, p. 35). A atividade
é, ao mesmo tempo, mediada e mediadora, no universo do trabalho dos ou-
tros. A atividade de trabalho é, como indica Clot (2007), simultaneamente
pessoal, interpessoal, transpessoal e impessoal. Ela é pessoal pela sempre
presente singularidade do sujeito que está trabalhando. Ela é interpessoal por
ser sempre dirigida aos outros. Ela é transpessoal porque não só é atravessada
pela história coletiva do ofício, mas também mobiliza e atravessa essa mesma
história. E é impessoal pela prescrição externa oriunda da organização do
trabalho, do que é atribuído e deve ser feito. Assim, no que diz respeito aos
aspectos teóricos e metodológicos da abordagem de Yves Clot, a atividade de
trabalho supõe uma dimensão fundamentalmente coletiva. Observe-se que o
enfraquecimento dos coletivos é recorrente nas situações de precarização das
condições trabalho e, como destaca Clot (2010), a ausência, a falta ou a perda
da dimensão simbólica e coletiva da ação individual dão origem à maior parte
das experiências dolorosas no mundo do trabalho.
Em segundo lugar, lançamos mão da Ergologia, cujo principal criador é o
professor francês Yves Schwartz (2011). Essa disciplina pode ser considerada
como “um método de investigação pluridisciplinar em função do fato de que a
atividade humana é muito complexa para se entender e analisar a partir de uma
disciplina única, qualquer que seja” (TRINQUET, 2010, p. 94). Essa postura
leva em consideração os diversos saberes vinculados ao domínio da atividade
humana, particularmente na atividade humana do trabalho, o que coloca
em perspectiva o saber constituído (formal e acadêmico) e o saber investido
(adquirido na experiência real do trabalho), na busca de uma terceira via, esta
fundamentada no encontro desses dois saberes, construtora de novos conhe-
cimentos e de transformações nas situações de trabalho (TRINQUET, 2010).
Para Trinquet (2010, p. 107), “trabalhar nunca é simplesmente aplicar,
mas sempre se adaptar às variabilidades organizacionais, materiais, ambientais
e humanas, em tempo real”. Levando em consideração a imprevisibilidade
das situações de trabalho e do vazio de normas que o trabalhador tem que
responder na atividade realizada, Schwartz (2011) reforça a importância do
27
coletivo, uma vez que, tendo em vista as normas prévias, “o tratamento do
vazio de normas sempre comporta, mais ou menos, uma gestão coletiva
(SCHWARTZ, 2011, p. 139). Em outros termos, a memória individual e co-
letiva sempre presente na execução da atividade e dos gestos é o que garante
que o trabalho seja executado. Sob essa ótica, não seria possível conceber a
performance ou a produtividade como fruto ou atributo individual, justamente
por ser algo produzido coletivamente.
Para concluir, usamos a Psicossociologia, que, como indicam Amado e
Enriquez (2014, p. 101), “não é baseada numa única ‘teoria social forte’, mas
em várias delas”. Trata-se de uma abordagem que visa investigar as reciproci-
dades entre o individual e o coletivo, o psíquico e o social, articulando diversas
perspectivas e autores que contemplam, entre outras áreas, a sociologia fran-
cesa (Marcel Mauss), a psicanálise freudiana ou o interacionismo simbólico
(George Mead), ramicando-se em vários grupos e escolas, de acordo com
os países (BARUS-MICHEL, ENRIQUEZ e LEVY, 2005).
No que diz respeito aos instrumentos, Mata-Machado (2010, p. 176)
apresenta uma síntese:
[...] coletâneas de informações sobre a história e a vida da orga-
nização feitas através de entrevistas e discussões individuais e em
grupo [...], inseridas nas relações mais importantes e apresentadas
nas reuniões; a análise de documentos, a análise das pessoas no
exercício de seus papéis, a observação [...], o relatório sistemático
de informações nas assembleias e nas reuniões habituais de tra-
balho, que dão oportunidade aos membros de conversarem [...],
teorizações sobre a organização social referente às novas coletâneas
de informação, às observações e às análises.
Devemos observar a convergência desses instrumentos com as outras
abordagens clínicas mencionadas acima. Além disso, a psicossociologia fornece
as matrizes dos processos de intervenção que fundamentam este trabalho,
por intermédio de noções essenciais à compreensão da atividade, tais como o
sentido da demanda (BARUS-MICHEL, 2004) ou a noção de transformação
(RHÉAUME, 2002), entre outros.
Esse referencial teórico que nos permitiu progredir na condução da pes-
quisa-intervenção, delimitando a distinção entre encomenda e demanda, um
ponto fundamental na condução desse projeto. No que se refere à perspectiva
sociológica, Amado e Lhuilier (2012), bem como Carreteiro e Barros (2014),
28
especicam que a “encomenda” é feita por quem ocupa as posições de poder,
enquanto a “demanda” exige, em sua formulação, interrogações e questiona-
mentos. A encomenda diz respeito ao serviço a ser feito, enquanto a demanda
se refere a um processo de construção na interação. Sob a mesma perspectiva,
Barus-Michel (2001) lembra que o questionamento da transformação esperada
deve integrar a análise da demanda, o que pressupõe as seguintes questões:
transformar para quê, através de quem e para quem?
Na perspectiva da ergonomia da atividade, Guérin et al. (2001, p. 40)
também destacam a necessidade de reformulação dos problemas inicialmente
colocados a partir do “ponto de vista da atividade de trabalho. A análise dos
pedidos de uma organização, sob a perspectiva da atividade de trabalho, cons-
titui-se, assim, como uma ação obrigatória, um pré-requisito do diagnóstico,
e, ao mesmo tempo, um ponto de partida para a intervenção.
Segundo Bendassoli (2015), a elucidação da demanda é um desao para
as Abordagens Clínicas do Trabalho. Ao fazer a distinção entre “demanda” e
encomenda, o autor arma que a demanda pode ser implícita ou explícita
e consiste em um pedido mais ou menos formalizado que, quando feito ao
psicólogo, supõe um trabalho de coanálise que exige a integração de todas as
pessoas implicadas, inclusive dos gestores. Já a encomenda, por outro lado,
diz respeito a uma demanda formulada, normalmente, por quem tem o maior
poder na organização e que, geralmente, dá mostras de estar “mais interessado
na recuperação da performance dos trabalhadores e na ecácia do trabalho do
que nas questões do trabalho real” (BENDASSOLI, 2015, p. 168).
Com base nas reexões oriundas de tais abordagens do trabalho, ideali-
zamos e propusemos uma pesquisa-intervenção que visava reforçar os cole-
tivos prossionais e introduzir processos de transformação da realidade do
trabalho, com o objetivo de evitar acidentes e processos que levam a doenças,
bem como fazer do trabalho um produtor de saúde, uma atividade criativa
e não uma simples adaptação ao meio e uma obediência cega às normas
(CANGUILHEM, 2009). Sob esta perspectiva, interrogamos a encomenda
inicial feita pela empresa.
A seguir, descreveremos os princípios metodológicos e os instrumentos
usados em nossa intervenção.
METODOLOGIA
A m de atingir os objetivos deste estudo, nós consideramos como indis-
sociáveis a pesquisa e a ação, caracterizando-as como uma pesquisa qualitativa
29
do tipo estudo de caso, examinando a realidade sob a perspectiva de sua
especicidade e singularidade (THIOLLENT, 2008; SÉVIGNY, 2001).
Em consonância com nosso referencial teórico, pensamos em ações que
destacassem o ponto de vista dos trabalhadores (CLOT, 2008; SCHWARTZ,
2011; LHUILLIER, 2014; MATA-MACHADO, 2010), bem como a comuni-
cação e os relatórios sistemáticos que dão aos participantes a oportunidade
de trocar informações, apesar do risco de que a organização lhes imponha
determinadas restrições relativas à nossa proposta. A pesquisa-intervenção
associa-se aos processos de comunicação entre nossa equipe, os trabalhadores
e os gestores, através do conjunto de ações que constituíram a intervenção. Em
nossa opinião, no contexto de uma transformação organizacional, a nalidade
maior estava próxima do que Mahy (2008) chamou de “processo de criação
coletiva de sentido.
Privilegiamos o uso de dispositivos que convocam os próprios trabalhado-
res a reetirem sobre suas práticas. Assim, o projeto de pesquisa-intervenção
apresentado à empresa estava centrado na abordagem coletiva e não indivi-
dual, usando métodos que incluíam não somente os Operadores – objetivo
inicial da instituição –, mas também outros membros da equipe, os superiores
hierárquicos imediatos e as famílias.
Além disso, ao invés de adotar um paradigma scalizador, fomos guiados
por uma abordagem compreensiva, uma vez que buscávamos “o aumento do
poder de agir dos sujeitos, uma coprodução de conhecimento-ação vincula-
da às situações reais e às vivências dos sujeitos” (BENDASSOLI e SOBOLL,
2011, p. 68).
Nesse sentido, como já mencionamos, questionamos a encomenda da
instituição, que só havia solicitado um estudo dos fatores psicossociais que
afetavam diretamente a performance dos Operadores. Ora, nosso projeto era
de desenvolver ações distintas do objetivo instrumental de modelar os Ope-
radores e adaptá-los às exigências de uma maior produção.
Precisávamos adotar, todavia, uma estratégia capaz de satisfazer uma
parte da encomenda da instituição, para podermos desenvolver nosso pro-
jeto. Apresentado ao nal de 2017, o projeto foi sendo reformulado durante
os meses seguintes, organizando-se, por m, em quatro Linhas de Ação: 1) a
avaliação psicológica, que acarretava a aplicação de testes individuais nos Ope-
radores; 2) as ações junto às famílias dos Operadores; 3) a análise da atividade,
considerada como sendo o eixo central da pesquisa-intervenção, em torno do
coletivo de trabalho; 4) o desenvolvimento gerencial, a partir de uma demanda
30
dos superiores hierárquicos imediatos dos Operadores, que foi captada pelos
pesquisadores posteriormente ao início das atividades.
Essa ampliação do escopo original visava compreender, em profundidade,
o trabalho na organização, propondo a triangulação de métodos e conside-
rando que cada dispositivo usado contribuía para nosso propósito (FLICK,
2009). A seguir, vamos resumir o desenvolvimento de cada linha de ação, sem
exaurir seus resultados.
A avaliação psicológica (Linha de Ação 1) atendia à encomenda
organizacional, já que dizia respeito às diferenças individuais entre os Opera-
dores, e isso, para os gestores, poderia comprometer sua produtividade. Esta
Linha de Ação reuniu os elementos e os pressupostos da área da avaliação
psicológica, elaborando especialmente os conceitos de inserção ecológica e
de validade preditiva (DE CHRISTO e ALCHIERI, 2010; PRATI et al., 2008).
Na prática, essa atividade comportava dois momentos: a primeira etapa,
realizada em março de 2018, usava os seguintes instrumentos (citados segundo
a ordem de aplicação): Teste Palográco; Bateria Psicológica para Avaliação da
Atenção (BPA); Teste de Inteligência Geral – Não Verbal (TIG-NV) e Inven-
tário Fatorial de personalidade (IFP). O conjunto das avaliações psicológicas
foi aplicado em 32 (trinta e dois) dos 36 (trinta e seis) Operadores.
A segunda etapa, realizada ao longo de todo o ano de 2019, com a aplicação
do Teste de personalidade MAPA – Método de avaliação de pessoas (DUAR-
TE, 2011), buscava enriquecer o processo anterior e incluiu 17 (dezessete)
Operadores, sendo 11 (onze) da equipe do turno do dia e 6 (seis) da equipe
do turno da noite. Além do teste, nós realizamos uma entrevista individual
semiestruturada com cada participante.
As ações junto às famílias dos Operadores (Linha de Ação 2) não existiam
na encomenda original da organização. Nós as introduzimos depois de
constatarmos sua necessidade, a partir das visitas de campo, inclusive nas
formulações feitas pelos próprios Operadores. Com efeito, observamos que
as relações familiares exerciam forte impacto na performance no trabalho
(BARHAM e VANALLI, 2012; MIOTO, 2015; OIT, 2011).
A intervenção junto às famílias foi estruturada em dois momentos. O
primeiro, baseado em pressupostos da Análise Institucional e da Psicologia
Social (OSÓRIO SILVA, 2016), realizou-se durante o ano de 2018, originan-
do-se de um conito entre os Operadores e a organização. Esta última havia
prometido dar moradia aos funcionários e suas famílias, no seu recrutamento
e seleção. No entanto, depois de quase dois anos de emprego, a promessa ainda
31
não havia sido cumprida para todos os Operadores, o que gerou enorme
insatisfação. Então, realizamos dois encontros em grupo com as esposas dos
Operadores, além de quatro visitas em domicílio, para conversas informais
com quinze esposas, a m de criar com elas um espaço de expressão e de
partilha de experiências, bem como fortalecer o vínculo entre a equipe de
pesquisa e as famílias dos Operadores.
Paralelamente, aplicamos um questionário, respondido por 22 (vinte
e dois) dos 36 (trinta e seis) Operadores, explorando variáveis como: con-
dições de trabalho, relações interpessoais no trabalho e em família, relação
trabalho-família, apoio psicossocial. Os resultados desse questionário in-
dicavam a necessidade de um reforço dos laços entre colegas de trabalho
(Operadores) e, em seguida, entre suas famílias, bem como a solicitação
de um apoio da empresa para essa linha de ação. Para mais análises sobre
essa fase, ver Mendes, Fonseca e Silva (2018), que discutiram alguns dos
resultados então obtidos.
Num segundo momento (em 2009), já privilegiando a Psicossociologia
como referencial, realizamos ocinas visando reforçar os laços inter e intra-
familiares, com a participação de nove famílias. Nesses ateliês, onde estavam
presentes os Operadores, suas esposas e seus lhos, desenvolvemos a redação
de um livro baseado na metodologia da “história de vida” e em métodos
narrativos (NOGUEIRA, BARROS, ARAÚJO e PIMENTA, 2017). Esse livro
foi intitulado “Livro da vida, e os autores eram as próprias famílias. Usando
escrita e desenho, cada família foi convidada a contar sua história, a partir
de suas memórias e através dos eventos que julgavam mais signicativos. Daí
saíram nove livros autorais, cada um escrito por uma família diferente. Suas
narrativas incluíam temas como a migração, a perda dos laços comunitários
e a falta de reconhecimento social.
Tremblay (2012) evoca, a esse respeito, o tema freudiano do romance
familiar, retomado por Vincent de Gaulejac, Jacques Rhéaume e, particular-
mente, por Catherine Montgomery, que se interessa pelo percurso migratório
das famílias. Com efeito, a migração dentro do território brasileiro implica
todas as famílias autoras dos “livros”, obrigadas a morar em diferentes cida-
des, de acordo com os projetos da empresa mineradora. Os “livros” são a
concretização das narrativas de vida e representam, segundo Mahy (2008),
veículos individuais e sociais de comunicação ao mesmo tempo racionais e
sensíveis. Esse trabalho permitiu liberar parcialmente as famílias do doloroso
sentimento de invisibilidade social. Os ateliês tornaram possível, em seguida,
32
a constituição de um comitê de recepção das famílias, do qual falaremos na
discussão dos resultados.
A terceira Linha de Ação, voltada para a análise da atividade de trabalho
dos Operadores, comportou os seguintes dispositivos: 12 (doze) entrevistas
individuais semiestruturadas (FLICK, 2009); uma ocina de análise psicosso-
cial do trabalho, elaborada pela equipe de pesquisa e inspirada pelo método
dos grupos focais (KIND, 2004; OSÓRIO SILVA, 2014) e baseada na ideia da
problematização (BERBEL, 1998); 7 (sete) instruções ao sósia
6
, método criado
por Oddone (1986) e retomado pela clínica da atividade (CLOT, 2007); 12
(doze) autoconfrontações7 simples e 5 (cinco) cruzadas (CLOT, 2011, OSÓ-
RIO-SILVA, 2014); e, para concluir, a observação dialogante (DUJARIER,
2016) nos locais de trabalho. Segundo Clot (2010), essa observação produz
conhecimento não só para quem observa: ela também gera um diálogo interno
na pessoa do observado, que passa então a ocupar o lugar de analista de sua
própria atividade. Em outros termos, o observado sai do lugar de objeto da
observação. Alguns dos resultados dessa Linha de Ação, ainda que de forma
preliminar, também estão sendo publicados (FONSECA et al., 2019) inclusive
em outros capítulos deste livro.
No âmbito de uma quarta Linha de Ação, realizamos atividades de de-
senvolvimento gerencial dedicadas aos chefes imediatos dos Operadores (ditos
Técnicos) e a seus Supervisores imediatos. Executada no segundo semestre
tanto de 2018 quanto de 2019, essa etapa do trabalho teve caráter explorató-
rio e também se originou de uma demanda não prevista no projeto inicial.
Essa ação incluiu 22 (vinte e dois) Técnicos de mina e de geologia, pela via
da realização de: nove entrevistas individuais abertas (BONI e QUARESMA,
2005); duas ocinais de análise psicossocial do trabalho, elaboradas por nossa
equipe de acordo com o modelo de grupos de encontro com as famílias; e a
observação dialogante, nos locais de trabalho desses técnicos. Os resultados
obtidos com essa Linha de Ação foram detalhados e discutidos em uma dis-
sertação de mestrado (MENDES, 2020).
Apresentaremos agora os aportes especícos da intervenção, destacando
os impasses que encontramos e as estratégias adotadas para ultrapassá-los.
6 Trata-se de uma encenação em que o pesquisador toma o lugar do trabalhador e este deve lhe
dizer, em detalhes, de que maneira realiza suas atividades durante todo seu período de trabalho.
7
Aqui, trata-se de um método que estabelece um diálogo entre o pesquisador e os trabalhadores
a partir de uma sequência lmada de sua atividade.
33
RESULTADOS DO PROCESSO E DA DISCUSSÃO
Lembramos que este texto foi elaborado antes da conclusão de nossa
pesquisa-intervenção. Trata-se, portanto, dos resultados preliminares de um
trabalho baseado numa perspectiva crítica e clínica no contexto de uma empresa
privada multinacional, e que examina, inclusive, o processo ocorrido ao longo
de toda a pesquisa. Vamos discutir nesta seção determinados elementos que
chamaram a atenção, considerando o modus operandi da organização estudada.
Nossas atividades começaram em janeiro de 2018, com várias visitas a
campo e com o estabelecimento das vias de comunicação (inclusive a distân-
cia), em intervalos variáveis, com o gerente local e o coletivo de trabalhadores.
Notamos, desde o início, as diculdades para desenvolver uma abordagem
clínica da intervenção, no âmbito de uma gestão fortemente aderida a um
discurso produtivista, marcada por relações hierárquicas verticalizadas e
rígidas. No entanto, mantivemos o objetivo de ir além da encomenda inicial,
buscando dar lugar a uma demanda oriunda do coletivo de trabalhadores,
favorecendo a emergência da solidariedade entre eles.
Não bastava, portanto, que nos limitássemos a identicar os fatores psi-
cossociais relativos à performance dos Operadores com o objetivo de obter
deles o rendimento máximo. Ao invés de aplicarmos medidas quantitativas e
de scalização e ajustamento, baseamo-nos num paradigma compreensivo.
Assim, a emergência das demandas ocorreu pela via da interação da equipe
de pesquisa com o campo e com os trabalhadores.
Uma vez implantadas todas as Linhas de Ação, intervenções de cunho
político e gerencial se seguiram. Em diversas ocasiões, os gerentes do projeto
nos apresentaram solicitações não previstas ou tomaram decisões contrárias
à nossa proposta inicial. Por isso, tivemos que reagir com respostas precisas
e rápidas, visando rearmar o contrato rmado. Felizmente, tais impasses
não impediram o desenvolvimento de nossos trabalhos. A prova disso é que
a empresa conrmou a continuidade do projeto, por mais dois anos, antes
mesmo de sua nalização, inicialmente prevista para abril de 2020.
Dito isto, vamos agora discutir os resultados de cada Linha de Ação, a
partir das quatro categorias de análise: a) a gestão que qualicamos de quan-
tofrênica e as tentativas de captação da subjetividade dos trabalhadores; b)
os riscos de enquadramento da pesquisa-intervenção com predominância
quantitativa; c) o prescrito e o real da pesquisa; d) a comunicação enquanto
elemento especíco da intervenção.
34
Panorama geral
No que se refere à avaliação psicológica (Linha de Ação 1), os resultados
demonstram que, de maneira geral, o grupo de Operadores tinha caracterís-
ticas intrapsíquicas compatíveis com uma execução satisfatória do trabalho,
inclusive sob a dimensão das relações interpessoais. Isso nos levou a propor
um relatório para cada Operador, com os resultados de sua própria cartograa
psicológica. No entanto, a empresa não teve acesso a esses dados, apesar de
ter expressado sua expectativa em relação a isso no início do trabalho.
Essa Linha de Ação estava ligada mais diretamente, como dissemos, às
demandas da gerência, ávida por informações a curto prazo, a m de melhor
selecionar e scalizar/controlar os Operadores, de acordo com a matriz posi-
tivista da psicologia industrial clássica. Assim, rearmamos nossa ética pros-
sional relativa aos resultados, apresentando-os à empresa sob o formato de um
retrato do grupo. Não cedemos à solicitação da Vale S.A. de fornecimento de
resultados individuais e nominativos dos Operadores. Além disso, elaboramos
recomendações gerais, destacando a importância tanto das ações de valorização
da equipe quanto de um diálogo mais efetivo entre os trabalhadores, por um
lado, e entre trabalhadores e gerentes, por outro. Observe-se que, para além
das características individuais relativas à performance, precisávamos continuar
a análise das condições da organização do trabalho. Anal, elas condicionam
a performance individual com repercussões diretas no desenvolvimento da
atividade e, claro, no rendimento de cada trabalhador.
Quanto às ações com as famílias (Linha de Ação 2), era evidente que os
problemas vividos em família impactavam negativamente a relação com o
trabalho. Os Operadores queixavam-se de problemas relativos à moradia e à
incerteza da ajuda nanceira para pagar as despesas dos lhos que estavam no
ensino superior. Na escrita dos livros – anteriormente mencionados –, quan-
do as esposas expuseram suas angústias falando de suas histórias familiares,
elas evidenciaram questões até então negligenciadas pela empresa. Ora, este
acesso à palavra e à escrita surtiu efeitos muito positivos, já que despertou
nos gerentes o interesse em valorizar esses testemunhos, inclusive apoiando
o lançamento dos livros em eventos institucionais.
Outro resultado importante diz respeito ao fato de que a organização
aceitou a implantação – ainda em fase de consolidação, no primeiro semestre
de 2021 – do “Comitê de Acolhimento, ou seja, de um grupo composto por
membros das famílias dos Operadores e por pesquisadores, voltado para a
35
discussão e a realização de ações de interesse coletivo no local de trabalho e
em outros espaços de socialização.
No que se refere à análise da atividade (Linha de Ação 3) e ao desenvolvi-
mento gerencial (Linha de Ação 4), destacamos que, curiosamente, a primeira
apresentou resultados muito convergentes com a avaliação psicológica (Linha
de Ação 1): o grupo de Operadores demonstrou ter uma compreensão crí-
tica elevada de sua própria atividade, percebendo sua fraca participação na
organização do trabalho.
Outro dado positivo da intervenção diz respeito ao desenvolvimento ge-
rencial (Linha de Ação 4) dos Técnicos, considerados os chefes imediatos dos
Operadores. Num primeiro momento, os Técnicos haviam sido ignorados pela
organização, mas foram progressivamente incorporados, graças à iniciativa de
nossa equipe. A partir daí, sugerimos que o programa substituísse a palavra
“Operadores” por “Equipes, ganhando a denominação de “Programa de Equipes
de Alta Performance, de maneira a destacar a dimensão coletiva do trabalho.
Do ponto de vista teórico, cou claro que os Operadores e os Técnicos
constituíam um grupo que estava recriando o gênero prossional em suas
constantes interações, no âmbito do cotidiano do novo sistema truckless. Isso
implicava não só a solução criativa dos problemas internos ligados à mineração
em si, mas dinamizava o conjunto de representações da condição de funcio-
nários da “grande empresa multinacional”, numa cidade criada articialmente
para produzir e exportar minério.
Por outro lado, foi possível identicar, in loco, a inuência da organização
do trabalho de acordo com determinadas variantes, tais como: a divisão do
trabalho em equipes diurnas e noturnas; o trabalho em dupla nas escavadeiras;
os objetivos, normas e exigências de produção; as avaliações de performance,
em que a gerência negligenciava as variabilidades e as imprevisibilidades
do ambiente no processo de trabalho; as relações hierárquicas, marcadas
pelas decisões unilaterais dos gerentes: tudo isso por causa da precariedade
da participação dos trabalhadores. Essas questões foram mais detidamente
discutidas por Fonseca et al. (2019).
O resultado mais expressivo de nossa intervenção, a partir das ações da aná-
lise da atividade (Linha de Ação 3) e do desenvolvimento gerencial (Linha de Ação
4), foi o acordo da gerência para a implantação de um “Comitê de Pilotagem” –
fórum permanente formado por Operadores, Técnicos, gerentes e pesquisadores
–, a m de discutir e formular propostas de ação, a partir de demandas oriundas
do cotidiano de trabalho (voltaremos a falar sobre isso a seguir).
36
Gestão “quantofrênica” e tentativas de captação
da subjetividade dos trabalhadores
No início desta pesquisa, um dado chamou nossa atenção: ao nos apre-
sentar o sistema de mineração truckless, um dos gestores fazia a contabilidade
das vantagens nanceiras oriundas do ganho de nada mais que um segundo
de cada vai e vem da escavadeira a cabo (movimento de pegar o minério de
ferro e jogá-lo no britador).
Essa exposição desvela a lógica de gestão da organização. O cálculo me-
ticuloso e economicista adota uma premissa de “assepsia” do real que afasta
as imprevisibilidades e as condições efetivas do trabalho. De acordo com
essa obsessão da gestão pelos números e pelo cálculo matemático, ou seja,
a quantofrenia, como a denomina Gaulejac (2007), os acidentes, os riscos,
os acasos e as vicissitudes inerentes ao real da atividade não são levados em
conta. Além disso, essa lógica negligencia os conitos relativos às relações
hierárquicas, às relações interpessoais, à baixa remuneração dos operários,
suas expectativas frustradas e as condições de vida precárias8. Nesse sentido,
o destaque que se dá à produção e ao retorno nanceiro coloca em segundo
plano as outras questões relativas à vida dos trabalhadores e de suas famílias.
A quantofrenia ou a “doença da medida” está baseada, segundo Gaulejac
(2007), na crença segundo a qual a objetividade consiste em traduzir a rea-
lidade em termos matemáticos. Os “calculocratas”, escreve o autor, oferecem
uma ilusão de domínio sobre o mundo e de certeza, face a uma realidade
cheia de incertezas.
A exposição matemática demonstrada pelo gestor, vista como certa e
incontestável, repetiu-se diversas vezes, reforçada pela analogia à atividade
das equipes de Fórmula 1, durante o pit-stop, que requer grande agilidade
e precisão. Assim, o esporte se torna a referência para a gestão da força de
trabalho e a ideia de “alto nível” integra o discurso sedutor da motivação.
Notamos que essa insistência na performance, como promessa de retorno
nanceiro e busca da implicação afetiva dos trabalhadores e de suas famílias,
foi naturalizada no discurso gerencial. O argumento central seria de que o
crescimento da produção sempre resulta em vantagens individuais, razão
pela qual cada trabalhador tem a obrigação de dar sua melhor contribuição.
8 O detalhamento sobre as condições de vida dos Operadores e suas famílias poderá ser en-
contrado em outros capítulos desse livro
37
A resistência de nossa pesquisa-intervenção
ao parâmetro quantitativo
Como mencionado acima, nosso Núcleo Psicossocial devia agir de maneira
articulada com os Núcleos de ação (Núcleo Cognitivo; Núcleo Clínico-Físico e
Núcleo Técnico), que se baseiam, essencialmente, em métodos quantitativos que
visam atingir resultados passíveis de vericação métrica. Tais núcleos analisam,
por exemplo, os níveis sucientes ou insucientes de vitaminas especícas no
organismo dos trabalhadores; ou ainda a relação da intensidade das conexões
neurais com a realização mais ou menos rápida da atividade, bem como o maior
ou menor tempo de resposta no treinamento em simulador.
No entanto, esses grupos também são críticos no que diz respeito ao
uso puramente instrumental do resultado de seus estudos. Segundo eles,
para se manter uma boa performance, não basta que o organismo esteja bem
alimentado ou cognitivamente bem treinado, pois uma intensicação do
trabalho pode provocar danos físicos e mentais, além da insatisfação dos
trabalhadores. Todavia, a empresa insistia no aumento da produtividade,
deixando à margem o debate sobre as reais melhorias das condições de vida
e de trabalho dos Operadores.
Durante uma reunião com os outros núcleos, demonstramos que nossa
análise da atividade não estava inserida nas matrizes quantitativista e organi-
cista, e que nossa proposta de trabalho era a de interpretar a atividade situada
e seu sentido para os trabalhadores. Destacamos que, apesar da importância
dos fatores físicos e biológicos, a análise da atividade situada desvela os sig-
nicados das condutas e a intencionalidade dos atores. Essa análise é sempre
baseada em condições concretas quando analisamos os fenômenos do tra-
balho. Também entendemos que a pesquisa qualitativa não é prisioneira das
armadilhas da “subjetividade” e de seus vieses, e que a pesquisa estatística ou
quantitativa não é a “pura e el descrição das verdades” a respeito da natureza
humano-societária, como bem demonstra Besson (1995). Aliás, segundo este
autor, as estatísticas não são uma fotograa, mas uma modelagem da reali-
dade através da qual o pesquisador lhes impõe ltros, a m de convertê-las
em números. Neste processo, com efeito, aspectos qualitativos e quantitativos
interagem. A observação estatística não pode, portanto, ser reduzida a um
processo neutro. O “fetichismo estatístico” (BESSON, 1995) pode nos levar a
confundir seus índices com a realidade.
Não se trata aqui, portanto, de opor as perspectivas qualitativas às quan-
titativas, mas de articulá-las, se for o caso, e de atribuir a cada uma delas seu
38
valor próprio, no lugar certo. Quando usamos abordagens métricas, como no
caso da aplicação de testes individuais, julgamos que estes seriam capazes de
nos fornecer determinadas pistas que, estrategicamente – já que a empresa
está ávida por números ou por “dados concretos” – abririam a via para as
metodologias compreensivas que nos interessavam particularmente.
O prescrito e o real da pesquisa
Nesta pesquisa, cou muito claro que o Acordo de Cooperação estabelecido
entre a empresa e a Universidade representava para nós o que a ergonomia
chamou de trabalho prescrito. Na execução de nosso trabalho de campo, esse
prescrito chocava-se com o trabalho “real” por razões logísticas ou mesmo
políticas. Além dos imponderáveis de cada situação concreta, muitas vezes
tivemos diculdades de realizar determinadas ações, tais como a observação
sistemática e a lmagem da atividade dos Operadores, bem como a realização
das autoconfrontações simples e/ou cruzadas. Várias diculdades surgiram a
respeito da abordagem coletiva dos trabalhadores e da abertura dos espaços
de debate, relativos a seu cotidiano de trabalho.
No início do trabalho, a empresa também limitou nosso acesso a infor-
mações importantes tais como: acidentes de trabalho, dados sobre a saúde e
a segurança dos Operadores, avaliações de performance e dados históricos a
respeito da produtividade.
Outros imprevistos também demonstraram que o real da atividade
de pesquisa escapa ao que foi previsto. Por exemplo: em uma das visitas a
campo, estava prevista, em nosso cronograma, a realização de entrevistas
semiestruturadas, de lmagens das atividades dos Operadores, de uma au-
toconfrontação direta e de uma autoconfrontação cruzada, com pelo menos
quatro trabalhadores (Linha de Ação 3). No entanto, durante a semana que
antecedeu nossa visita, em julho de 2018, camos sabendo que um funcio-
nário administrativo havia usado as senhas do cartão de crédito corporativo
dos Operadores para a prática de atos ilícitos, armando, falsamente, ter
recebido para isso a autorização de seus superiores hierárquicos. Todavia,
os Operadores que forneceram suas senhas foram obrigados a assinar um
termo de advertência, reconhecendo sua culpa no caso, uma vez que, no
código de conduta da empresa, eles são proibidos de fornecer as senhas a
quem quer que seja. Na verdade, eles cederam à solicitação do funcionário
administrativo, pressupondo ali uma orientação de postos aos quais estavam
hierarquicamente submetidos.
39
Diante do mal-estar causado por esse episódio, nossa equipe, no lugar
das ações previstas, ofereceu aos Operadores um espaço privilegiado de es-
cuta, o que é raro no contexto da mineração. Eles estavam sendo vítimas de
uma injustiça. Essa intervenção operou de modo a reduzir a tensão, já que
acolhemos suas queixas e demandas de providências (a tomar em seu favor).
Neste caso, o gerente local reconheceu que a solução do caso ocorreu graças
à nossa intervenção, que não havia sido prevista.
Os Técnicos (que supervisam os Operadores) também tinham queixas
a respeito das decisões unilaterais dos gerentes. Eles observaram, por exem-
plo, que lhes foi retirado, sem consulta prévia, o veículo necessário para
deslocamento na zona de mineração, sob a alegação de que este estava sendo
usado de maneira abusiva, gerando desperdício de recursos. Nesse momento,
negociamos com a empresa a expansão de nossas ações, a m de ouvir esses
Técnicos e compreender melhor sua realidade de trabalho. Esse episódio deu
origem à Linha de Ação 4 mencionada antecedentemente.
A comunicação como elemento específico da intervenção
Durante dois anos, vimos que determinados impasses entre a gestão local
do sistema e nossa equipe de trabalho haviam encontrado sua solução, graças
a um esforço permanente para renar nossas comunicações e apresentar de
maneira consistente os resultados obtidos até então. Na verdade, no contexto
de uma intervenção organizacional, colocamos à disposição dos trabalhado-
res e dos gestores um conjunto de ações, visando uma interlocução efetiva
entre eles e os pesquisadores. Com os gerentes, isso se traduziu em diversas
reuniões presenciais ou à distância, pela internet. Com os trabalhadores e
suas famílias, a interlocução passou por entrevistas individuais, observações
dialogantes, ocinas de análise da atividade (grupos focais), instrução ao só-
sia, autoconfrontação (simples e cruzada), além das ocinas de redação dos
“livros”. Depois, com os trabalhadores e gestores reunidos, ocorreram várias
reuniões na presença dos pesquisadores. Assim, realizamos diversos “vetores
de expressão e de mobilização” (MAHY, 2008).
Convém observar que, desde o início da pesquisa, o gestor queria resul-
tados tangíveis que justicassem a ecácia de nossa intervenção. Se, por um
lado, tínhamos – nas Linhas de Ação 1 (Avaliação Psicológica) e 2 (Famílias)
– resultados bastante concretos, materializados respectivamente na síntese
dos recursos psicológicos dos coletivos de trabalho (testes) e nas produções
textuais (os livros produzidos pelas famílias), por outro lado o gestor não
40
estava convencido de que a Linha de Ação 3 (Análise da atividade) era
realmente importante e ecaz. Com efeito, um processo não tem a mesma
visibilidade de um produto escrito. No entanto, mantivemos com o gestor uma
comunicação transparente e sempre fundamentada na análise do trabalho
real. Ele acabou entendendo que os efeitos de nossas intervenções, visando
reforçar os coletivos de trabalho, poderiam melhorar o ambiente organiza-
cional, o grau de satisfação e de participação dos trabalhadores e, ao mesmo
tempo, a qualidade do trabalho.
Na verdade, houve diversas situações nas quais a comunicação foi decisiva
para ultrapassar os impasses oriundos do mundo da gestão e da organização
do trabalho. Tomemos o exemplo de nossas ponderações junto ao gestor, a
respeito da decisão unilateral de retirar o veículo dos Técnicos. Nossos argu-
mentos eram arriscados e delicados, uma vez que poderiam gerar resistências
por parte do gestor quem ocupa uma posição de autoridade. Em outro mo-
mento, analisamos, junto ao gestor, duas outras mudanças feitas sem consulta
prévia aos interessados: a primeira foi a troca das duplas de Operadores que
trabalhavam nas escavadeiras; e a segunda foi a alteração de suas grades (dias
e horários) de trabalho. Nossas análises, nesses casos, diziam respeito não
somente ao mal-estar dos Operadores, mas a uma eventual baixa de produção
(argumento mais facilmente assimilado pela gestão). Ora, pelo menos nesses
momentos, nossas discussões possibilitaram uma reexão até então ausente,
a respeito das decisões unilaterais impostas aos trabalhadores.
Uma dimensão de nossa intervenção é de apostar na comunicação como
instrumento de transformação das relações de trabalho. Note-se que esse pro-
cesso frutuoso de comunicação com o gestor em questão continuou ocorrendo
à distância, depois de nossa visita em campo. Também mantivemos contato
com os trabalhadores, apesar das diculdades ditadas pela distância. Eles
reconheciam que nossas ações levaram a empresa a se dar conta, pelo menos
parcialmente, da necessidade de seu bem-estar nos âmbitos individual, coletivo
e familiar. Além disso, eles passaram a se perceber como participantes, como
nossos parceiros na pesquisa-intervenção, já que continuaram a discutir as
ações e as propostas nas diferentes Linhas de Ação.
O projeto está, no primeiro semestre de 2021, atualmente em fase de
discussão e de consolidação de acordo com três medidas principais: a) im-
plantação de um Comitê de Pilotagem, formado por pesquisadores, Opera-
dores e Técnicos, prioritariamente dirigido para a discussão da organização
do trabalho; b) implantação de um Comitê de Acolhimento, formado por
41
pesquisadores e membros das famílias; c) conclusão do processo de avaliação
psicológica, que começou no primeiro semestre de 2019.
Os recentes contatos com o gestor demonstram que o esforço para desen-
volver nossa comunicação – através de discussões especícas sobre questões
pontuais – foi positivo. Do gestor decorreu a proposta de continuarmos nosso
trabalho com destaque na intervenção. A este respeito, foi apresentado um
novo projeto aos trabalhadores e à gerência, tendo recebido seu apoio. Para
a próxima etapa, visamos realizar ocinas para consolidar os Comitês de Pi-
lotagem e o Comitê de Acolhimento, com posteriores reuniões de avaliação
e acompanhamento de cada ocina.
Observe-se que a proposta de implantação do Comitê de Pilotagem remete
à ideia de valorização dos saberes dos trabalhadores, inspirada no Modelo
Operário Italiano (MOI) de Oddone (1986). Esse dispositivo propõe um diá-
logo menos hierarquizado e permanente, realimentado pelos pesquisadores e
trabalhadores, objetivando o desenvolvimento da atividade, em ressonância
com as Abordagens Clínicas do Trabalho.
Durante o ano de 2020, com a deagração das diretrizes de distanciamento
social resultantes da pandemia de Covid-19, a implantação dos Comitês de
Acolhimento e de Pilotagem foi suspensa. A expectativa é retomar a proposta
a partir de 2021, ainda que em caráter virtual.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O desenvolvimento do projeto discutido neste estudo evidenciou que, ao
aceitar a encomenda inicial da empresa, nossa equipe enfrentaria contradições
macrossociais, inerentes a uma organização multinacional. Uma organização
cujas políticas de gestão são denidas em função da produção crescente e
acelerada de sua mercadoria, independentemente de seus efeitos nocivos para
os trabalhadores e para o meio ambiente.
Em nossas discussões internas, não nos foi possível escapar do clássico
debate ideológico a respeito dos possíveis destinatários de nossos trabalhos,
ou seja: “a quem queremos servir?” Em outras palavras, ao aceitarmos essa
encomenda da organização, nos perguntávamos se seria possível redirecio-
ná-la, no sentido das demandas dos trabalhadores. Com efeito, aceitar a en-
comenda, tal como foi feita, não implicaria uma cumplicidade com o modelo
de expropriação do homem e da natureza? De todo modo, estavam claros os
limites de nossa proposta de trabalho: não tínhamos o objetivo de contestar
abertamente nem de transformar a macroestrutura deste poderoso sistema
42
que, além de tudo, encontra apoio na secular cumplicidade dos representantes
do poder público.
O que poderíamos então propor e fazer? Concordamos com as ações
a priori a nós destinadas, observamos e apostamos na experiência concreta
dos trabalhadores e permitimos que os mesmos, pelo menos parcialmente,
exercessem o poder da palavra e das decisões, poder este que não consta nos
princípios da gestão neoliberal.
Por outro lado, com uma encomenda nas mãos, em vez de uma demanda,
não sabíamos se nosso projeto, baseado nas Abordagens Clínicas do Traba-
lho, seria ou não acolhido pela empresa, cuja preocupação era desenvolver
as habilidades e competências técnicas, com o m de ampliar a produção dos
Operadores, intensicando o trabalho. De todo modo, conseguimos reformular
a encomenda inicial e estender a intervenção aos outros trabalhadores, ou seja,
aos funcionários de apoio à preparação do campo, Técnicos e Supervisores,
bem como às famílias (esposas e lhos). Sob este aspecto, atendemos a uma
demanda de ação coletiva mais criativa.
Acrescente-se que nossa intervenção conseguiu fornecer às famílias um
objeto material, ou seja, os seus escritos, “um objeto familiar, como um álbum
de fotos, que lhes faz rememorar suas lembranças e suas histórias” (Michèle
Vatz Laaroussi, apud TREMBLAY, 2012). Além disso, criamos outros obje-
tos institucionais concretos, como o Comitê de Pilotagem, que deverá ser
conduzido em conjunto pelos trabalhadores, gestores e pesquisadores. Num
sentido próximo, nosso trabalho fez com que os produtos de nossa pesquisa
se tornassem “utilizáveis ou apreciáveis por diferentes públicos” (Catherine
Montgomery, apud TREMBLAY, 2012). Isto porque, de acordo com esta
autora, ao divulgarem suas atividades os pesquisadores raramente têm como
alvo as populações objeto da pesquisa: “não nos lembramos muito de fazer
uma devolutiva, diz ela. Enm, a nossa pesquisa serviu, também, aos traba-
lhadores analisados.
A riqueza das vivências e das situações experimentadas durante esse
estudo favoreceu a inovação, através das características singulares que ali se
apresentaram, entre as quais a articulação entre a avaliação psicológica e as
Abordagens Clínicas do Trabalho. A multiplicidade de fenômenos abordados
nesta pesquisa-intervenção ainda está longe de ser exaurida por nossa equi-
pe. Será necessário muito tempo para trabalhar toda a diversidade de seus
elementos, tempo que acompanha a natureza do processo de produção do
conhecimento cientíco.
43
REFERÊNCIAS
ADÃO, Sonia Maria. Os discursos confrontados no processo de privatização: o caso Com-
panhia Vale do Rio Doce. Tese (Doutorado em Letras) – Faculdade de Filosoa, Letras e
Ciências Humanas. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2006.
AMADO, G.; ENRIQUEZ, E. Psicodinâmica do trabalho e psicossociologia. In: BEN-
DASSOLLI, P. F.; SOBOLL L. A. (org.). Clínicas do trabalho: novas perspectivas para a
compreensão do trabalho na atualidade. São Paulo: Atlas, 2011. p. 99-109.
______; LHUILIER, D. L’activité au cœur de l’intervention psychosociologique. Bulletin
de psychologie, n. 3, p. 263-276, 2012.
AUBERT, N.; GAULEJAC, V. Le coût de l’excellence. Paris: Éditions du Seuil, 1991.
______. Le culte de l’urgence. Paris: Flammarion, 2003.
BARHAM, E. J.; VANALLI, A. C. G. Trabalho e família: perspectivas teóricas e desaos
atuais. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, v. 12, n. 1, p. 43-54, 2012.
BARUS-MICHEL, J. Intervir enfrentando os paradoxos da organização e os recuos do
ideal. In: ARAÚJO, J. N. G.; CARRETEIRO T. C. (org.). Cenários sociais e abordagem
clínica. São Paulo: Escuta, 2001. p. 171-186.
______. O sujeito social. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2004.
______; ENRIQUEZ, E.; LEVY, A. Dictionnaire de Psychosociologie. Ramonville Saint-
-Agne, França: Érès, 2002.
BENDASSOLLI, P. F.; SOBOLL, L. A. Clínicas do trabalho: liações, premissas e desaos.
Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, v. 14, n. 1, p. 9-72, 2011.
______. Clínicas do trabalho. In: ______; BORGES-ANDRADE, J. E. (org.). Dicionário de
Psicologia Organizacional e do Trabalho. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2015. p. 163-170.
______; GONDIM, S. M. G. Projeto de cienticidade das clínicas do trabalho e seus de-
saos no campo da Psicologia Organizacional e do Trabalho. In:______; SOBOLL, L. A.
(org.). Métodos de pesquisa e intervenção em psicologia do trabalho: clínicas do trabalho.
São Paulo: Atlas, 2014.
BERBEL, N. A. N. A problematização e a aprendizagem baseada em problemas: diferentes
termos ou diferentes caminhos? Interface – Comunicação, Saúde, Educação, v. 2, n. 2, p.
139-154, fev. 1998.
BESSON, J. L. (org.). As estatísticas: verdadeiras ou falsas? In: A ilusão das estatísticas. São
Paulo: Editora Unesp, 1995. p. 25-67.
BONI, V.; QUARESMA, S. J. Aprendendo a entrevistar: como fazer entrevistas em ciências
sociais. Em Tese , Florianópolis, v. 2, n. 1, p. 68-80, 2005.
CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.
44
CARRETEIRO, T. C.; BARROS, V. A. Intervenção psicossociológica. In: BENDASSOLLI,
P. F.; SOBOLL, L. A. (org.). Métodos de pesquisa e intervenção em psicologia do trabalho:
clínicas do trabalho. São Paulo: Atlas, 2014. p. 101-128.
CHRISTO, F. H. V.; ALCHIERI, J. C. Validade preditiva de instrumentos psicológicos
usados na avaliação psicológica de caondutores. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 26, n. 4,
p. 695-706, 2010. Disponível em: http://bit.ly/2JtLCiR. Acesso em: 7 jun. 2021.
CLOT, Y. La fonction psychologique du travail. Paris: PUF, 2007.
______. Travail et pouvoir dagir. Paris: PUF, 2008.
______. A psicologia do trabalho na França e a perspectiva da clínica da atividade. Fractal:
Revista de Psicologia, v. 22, n. 1, p. 207-234, 2010.
______. Clínica do trabalho e clínica da atividade. In: BENDASSOLLI, P. F.; SOBOLL,
L. A. (org.). Clínicas do trabalho: novas perspectivas para a compreensão do trabalho na
atualidade. São Paulo: Atlas, 2011. p. 71-83.
______; FAITA, D. Gêneros e estilos em análise do trabalho: conceitos e métodos. Trabalho
& Educação, Belo Horizonte, v. 25, n. 2, p. 33-60, 2016.
DUJARIER, M.-A. Lactivité en théories – regards croisés sur le travail. Toulouse, França:
Octarès, 2016.
EHRENBERG, A. Le culte de la performance. Paris: Calman-Lévy, 1995.
FLICK, U. Conceitos de triangulação. In: ______. Qualidade na pesquisa qualitativa. Porto
Alegre: Artmed, 2009. p. 57-75.
FONSECA, J. C. F.; ARAÚJO, J. N. G.; VIEIRA, C. E. C.; MONTEIRO, R. P. A cooperação
e a dimensão coletiva da atividade, em um sistema de exploração de minério de ferro. La-
boreal, v. 15, n. 1, p. 1-22, 2019. Disponível em: https://dx.doi. org/10.4000/laboreal.1131.
Acesso em: 7 jun. 2021.
GAULEJAC, V. La société malade de la gestion. Paris: Seuil, 2005.
GUÉRIN, F.; LAVILLE, A.; DANIELLOU, F.; DURAFFOURG, J.; KERGUELEN, A.
Compreender o trabalho para transformá-lo: a prática da ergonomia. São Paulo: Fundação
Vanzolini, 2001.
KIND, L. Notas para o trabalho com a técnica de grupos focais. Psicologia em Revista, v.
10, n. 15, p. 124-136, 2004.
LHUILIER, D. Introdução à psicossociologia do trabalho. Cadernos de Psicologia Social
do Trabalho, São Paulo, v. 17, n. 1, p. 5-19, 2014. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/
scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-37172014000100003. Acesso em: 7 jun. 2021.
LIMA, M. E. A. Contribuições da Clínica da Atividade para o campo da segurança no
trabalho. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, v. 32, n. 115, p. 99-107, 2007. Disponível
em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext &pid=S0303-76572007000100009.
Acesso em: 7 jun. 2021.
45
______. Abordagens clínicas e saúde mental no trabalho. In: BENDASSOLLI, P. F.;
SOBOLL, L. A. (org.). Clínicas do trabalho: novas perspectivas para a compreensão do
trabalho na atualidade. São Paulo: Atlas, 2011. p. 227-253.
MATA-MACHADO, M.N. Intervenções psicológicas, método clínico, de pesquisa e de
construção teórica. Pesquisas e Práticas Psicossociais, v. 5, n. 2, p. 175-181, 2010.
MAHY, I. « Il était une fois... ». Ou la force du récit dans la conduite du changement.
Communication & Organisation, n. 33, p. 50-60, 2008. Disponível em: https://journals.
openedition.org/communicationorganisation/446. Acesso em: 7 jun. 2021.
MENDES, T. C.; FONSECA, J. C. F.; SILVA, B. C. A terra prometida: discursos e impac-
tos psicossociais na relação familiar de operadores da mineração. UNINOVE, Campus
Memorial, São Paulo/SP. Anais do V Congresso Brasileiro Psicologia: Ciência e Prossão.
São Paulo, 14-18 nov. 2018. Disponível em: http://www2.pol.org.br/inscricoesonline/
cbp/2018/anais/detalhe.cfm?id=19114. Acesso em: 7 jun. 2021.
______. Nosso trabalho é invisível: fatores de riscos psicossociais da atividade de trabalho de
Técnicos em Mina e Geologia em um sistema de exploração de minério de ferro. (Mestrado
em Psicologia). Belo Horizonte: Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, 2020.
MIOTO, R. C. T. Política social e trabalho familiar: questões emergentes no debate con-
temporâneo. Serviço Social & Sociedade, n. 124, p. 699-720, 2015.
MONTEIRO, R. DE M.; DUARTE, N. V.; BAUER, R. C.; SILVA, K. F. Método de avaliação
de pessoas (mapa): estudo psicométrico para o contexto da aviação. Pretextos - Revista da
Graduação em Psicologia da PUC Minas, v. 4, n. 7, p. 430-445, 19 jul. 2019.
NOGUEIRA, M. L. M.; BARROS, V. A.; ARAÚJO, A. D. G.; PIMENTA, D. A. O. O mé-
todo de história de vida: a exigência de um encontro em tempos de aceleração. Pesquisas
e Práticas Psicossociais, v. 12, n. 2, p. 466-485, 2017.
ODDONE, I. Ambiente de trabalho: a luta dos trabalhadores pela saúde. São Paulo: Hu-
citec, 1986.
OLIVEIRA, Pedro Henrique Duarte; LUSTOSA, Paulo Roberto Barbosa; SALES, Isabel
Cristina Henriques. Comportamento de custos como parâmetro de eciência produtiva:
uma análise empírica da companhia Vale do Rio Doce antes e após a privatização. Revista
Universo Contábil, v. 3, n. 3, p. 54-70, 2007.
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO (OIT). Notas da OIT sobre
Trabalho e Família em Língua Portuguesa. Lisboa: OIT Lisboa, 2011.
OSÓRIO-SILVA, C. Clínica da atividade e análise institucional: inexões do transformar
para compreender. In: ______; ZAMBON, J.; BARROS, M. E. B. (org.). Clínica do trabalho
e análise institucional. Rio de Janeiro: Nova Aliança Editora, 2016. p. 37-64.
______. (2014). Pesquisa e intervenção em clínica da atividade: a análise do trabalho em
movimento. In: BENDASSOLLI, P. F.; SOBOLL, L. A. (org.). Métodos de pesquisa e inter-
venção em psicologia do trabalho: clínicas do trabalho. São Paulo: Atlas, 2014. p. 81-100.
46
PINHEIRO, K. A.; OLIVEIRA, E.; MESQUITA, A. L. A. Sistema truckless e dimensiona-
mento de transportadores de correia. Anais do Congresso Amazônico de Meio Ambiente
e Energias Renováveis (CAMAER), Belém, Pará, Brasil, 2016. Disponível em: https://
www.even3.com.br/anais/camaer2016/30811-sistema-truckless-e-dimensionamentode
-
-transportadores-de-correia. Acesso em: 7 jun. 2021.
RABELO, L. Imagine que eu sou seu sósia... Aspectos técnicos de um método em clínica
da atividade. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, v. 16, n. 1, p. 1-8, 2013.
RHÉAUME, J. Changement. In: J. BARUS-MICHEL, J.; ENRIQUEZ, E.; LEVY, A. (org.).
Dictionnaire de Psychosociologie. Ramonville Saint-Agne, França: Érès, 2002. p. 65-72.
SAMULSKI, D. M. Psicologia do esporte: conceitos e novas perspectivas. Barueri, São Paulo:
Editora Manole, 2009.
SCHWARTZ, Y. Manifesto por um ergoengajamento. In: BENDASSOLLI, P. F.; SOBOLL,
L. A. (org.). Clínicas do Trabalho: novas perspectivas para a compreensão do trabalho na
atualidade. São Paulo: Atlas, 2011. p. 132-166.
______. A comunidade cientíca ampliada e o regime de produção de saberes. Trabalho
& Educação, Belo Horizonte, v. 7, p. 38-46, 2000.
SÉVIGNY, R. Abordagem clínica nas ciências humanas. In: ARAÚJO, J. N. G; CARRE-
TEIRO, T. C. (org.). Cenários sociais e abordagem clínica. São Paulo: Escuta, 2001.
THIOLLENT, M. J. M. Concepção e organização da pesquisa. In: ______. (org.). Meto-
dologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez, 2008. p. 51-78.
TREMBLAY, L. Raconter et redonner: utilisation des récits dans l’intervention auprès des
familles immigrantes et réfugiées. Entre-vues, v. 3, n. 2, p. 1-4, 2012.
TRINQUET, P. Trabalho e educação: o método ergológico. Revista HISTEDBR On-line,
Campinas, SP, v. 10, n 38e, p. 93-113, 2012. DOI: 10.20396/rho.v10i38e.8639753. Dispo-
nível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/histedbr/article/view/8639753.
Acesso em: 7 jun. 2021.
ResearchGate has not been able to resolve any citations for this publication.
Conference Paper
Full-text available
Nas etapas de beneficiamento de minério, vários processos podem resultar em agressões ao meio ambiente. Diante disso, muitas mineradoras estão buscando processos alternativos para minimizar esse quadro. Uma das ações é a implantação do sistema truckless, que visa a substituição do uso de caminhões fora de estrada (no transporte do minério da mina à usina) pelo uso de transportadores de correias de longos comprimentos. Dentre as vantagens desse sistema de transporte está a grande redução de emissão de gás carbônico ao meio ambiente, resultando numa produção mais limpa. Assim, o presente trabalho mostra os fundamentos do sistema truckless, a metodologia de dimensionamento eficiente de transportadores de correia de longos comprimentos e apresentação de um estudo de caso de dimensionamento de correia por meio de software.
Article
Full-text available
This paper discusses the preliminary results of a research on the work of cable excavators in the extraction of iron ore. The research responds to the demand of the company, which seeks to develop a program of “high-performance” operators. Based on assumptions of the Clinic of Activity, using interviews, field observation, instructions to the look-alike and self-confrontation, we focus on the collective nature of the work, articulated with the notion of cooperation. That practical-theoretical alternative is opposed to the demand for individualized training, limited to the “operator-athlete”. It is understood that the collective dimension of the activity bases the cooperation, structuring the productive process and the solidarity of the work teams. Preliminary results show that, although the organization does not privilege the logic of cooperation in the demands of productivity and in the preservation of workers’ health and safety, it opens for the debate on this new perspective of collective work.
Article
Full-text available
O objetivo deste artigo é mostrar que a ergologia, um método pluridisciplinar inovador,permite abordar, com pertinência, a complexidade intrínseca da atividade humana do trabalho.Com o intuito de considerar o trabalho real e o prescrito, convém colocar em dialéticaos saberes elaborados pelas disciplinas científicas concernentes (saberes constituídos) comos saberes adquiridos (saberes investidos). Também será apresentado aqui, porque e comose deve apreender a complexidade da atividade humana do trabalho para abordar o conjuntode problemas que a constitui: a formação profissional, a prevenção dos riscos profissionais,a gestão dos Homens, a gestão econômica, etc. Para isso, desenvolveremos algunsconceitos chave da ergologia, tais como: atividade do trabalho, pluridisciplinaridade ergológica,função ontológica e antropológica do trabalho, desconforto intelectual, saber constituídoe saber investido, e explicitaremos as metodologias praticadas nessa abordagem:Dispositivo Dinâmico de Três Pólos (DD3P), Grupos de Encontro de Trabalho (GRT),ergoformação e ergogestão. Entretanto, como a atividade do trabalho está fortemente correlacionadacom as relações sociais no seio das empresas e das nações, o estado atual dessasrelações nem sempre favorecem processos de trabalho construtivos e humanistas.
Article
Full-text available
Neste artigo abordamos a importância da entrevista como uma técnica de coleta de dados que é utilizada em Sociologia para a captação de dados subjetivos. São diversos os tipos de entrevistas, diante disso, explicitamos os mais utilizados que são: a entrevista projetiva, entrevistas com grupos focais, história de vida, entrevista estruturada, aberta e semi-estruturada. Discutimos sobre a importância destes tipos de entrevistas, suas vantagens e desvantagens. Relatamos sobre a preparação do pesquisador para ir a campo e também expomos algumas sugestões tecidas por Bourdieu de como fazer uma entrevista utilizando o método científico.
Article
Full-text available
The interaction towards a sociopsychological approach The aim of this article is to introduce a sociopsychological approach focusing upon the core of an intervention linked to a crisis situation and to the command of “treatment” of the suffering employees. The authors first describe the command and its institutional environment (a human rights association), then they present the basic principles of their approach, then describe the processes at stake through their intervention and the dynamics of one of the sessions. The live case reported here allows to underline the relevance of an entry by the door of the activity in its organizational context. It also illustrates the “mediative” role played by the activity in the understanding of the intricacies between psychic life, professional practice and the organizational context.
Article
Full-text available
This article aims at contributing to further debate about the relation between family and social policy, highlighting family work. It starts discussing its historical and conceptual aspects and discusses the issue of social protection in contemporary capitalism. In this context it emphasizes the split between the production and the reproduction world, as well as the incorporation of family work in the social policy debate. The integrating synthesis derives from the bibliography material, which makes it possible to through dialogue with the examined material.
Article
In the field of research focused on adult development, efforts have been directed to the study of the different trajectories that people follow in establishing their professional and family lives, as a result of the fact that the majority of younger couples face demands that provoke significant levels of stress. In this paper, we first discuss social cultural factors that continue to result in differences between men and women in these two spheres, as well as recent changes in their involvement in the workforce and in family life. This is followed by a discussion of theoretical models about the impacts of dealing with concurrent demands in these two areas. Next, a new model of work and family balance is presented, based on concepts that underlie theories that describe the coping process, as a means of guiding further research in this area. In conclusion, some of the strategies that can be used in the workplace to combat work-family tensions are outlined, with the intention of encouraging research on the conditions that can contribute to making beneficial use of these arrangements, along with other efforts that may improve work-family balance.
Article
Réédition 1995 et 2008 : Hachette Littérature (collection Pluriel (Paris), issn 0296-2063 ; 8783)