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Da Escola IT à Escola HER
Helder Filipe Silva Martins
Externato Ribadouro/Colégio da Trofa
heldermartins@ribadouro.com
Uma grande ferida nesses olhos, repete Nuno. Possivelmente, nunca ouvira nada de mais sábio e
mais rigoroso a seu respeito. Uma ferida ou uma simples dor no olhar, eis o que bem pode definir
tudo o que resta de um homem, do seu mundo perdido e de um tempo presente que ainda falta
inventar []
João de Melo, «Gente Feliz com Lágrimas», 1988.
O filme Her, de Spike Jonze, conta a história de um amor heterodoxo passada num futuro
tecnológico, aparentemente, não muito distante. A personagem principal, Theodore Twombly, corresponde
a um escritor de cartas personalizadas, cuja vida solitária, melancólica e saudosista se rege por uma rotina
tediosa e narcotizante. É neste contexto que Theodore se apaixona pela voz de Samantha, uma inteligência
artificial OS1, cuja consciência virtual compreensiva e interativa integra o sistema operacional do seu
computador. O universo ilusório oferecido por Samantha distorce a visão de Theodore em torno da
realidade, levando-o a acreditar que um amor eros (vertigem sentimental e emocional) com uma máquina
possa evoluir para um amor ágape (dádiva completa e incondicional ao outro). Também o espetador é
manipulado nesse sentido, de que é exemplo o recurso, pelo realizador, à interpretação da canção The Moon
Song pelas personagens centrais. Her não vislumbra a distopia de um mundo desumanizado e sob regulação
totalitária, mas imerge-nos numa atmosfera onde cada pessoa é partícula elementar, à mercê do isolamento
emocional e afetivo, numa peripatética digressão quotidiana pela indiferença e solidão.
De escolas consideradas, pelos mais ticos em relação aos sistemas educativos atuais, como caixas
de cimento com cercas passamos, face ao contexto pandémico, para escolas virtuais à distância de um clique.
Assim terá sido? Quantos e quais os alunos que permaneceram algures entre esses dois mundos? Quantos e
quais os professores que passaram a viver a sua prática profissional como sonhos (pesadelos?) lúcidos?
Quantas e que famílias recordam esta experiência, de um modo bem claro e nítido?
Muitos foram os que, na busca de otimismo em período de crise, viram no impulso tecnológico a
oportunidade de disrupção, há demasiado tempo almejada, com o modelo escolar clássico, oriundo do
século XVIII. Mas terá o recurso a plataformas eletrónicas possibilitado a mudança de práticas pedagógicas
institucionalizadas e centradas na reificação da transferência de informação para momentos de produção e
construção de conhecimento? Terá o paradigma do estar quieto e calado, do decorar a matéria e cumprir os
programas, do fazer figura de corpo presente sido alvo de curto-circuito? Tal desígnio não continua a ser
apenas miragem?
É consensual que a digitalização escolar corresponde a uma inevitabilidade que possui uma miríade
de potencialidades. O sistema de b-learning é, assim, uma realidade que se impõe e que poderá acelerar
determinados procedimentos numa lógica de gestão racional de tempo em prol de aprendizagens que se
pretendem significativas e integradas. Todavia, nesta fase, quais os maiores perigos associados ao fluxo
frenético de dados e à contínua estimulação a que os agentes educativos foram sujeitos? Quais terão sido os
comportamentos por estes acionados perante a necessidade de autopreservação?
Na esteira das teorias de Georg Simmel de 1903 (como um tempo presente que ainda falta inventar
não dispensa o recurso aos olhares sensatos do passado!) e, tendo por base uma reflexão pessoal em torno
de perceções recolhidas em contexto escolar a distância e presencialmente assinalo sete perigos:
- Perigo um: a racionalização exacerbada da realidade para a salvaguarda da parte emocional;
- Perigo dois: a impessoalidade crescente;
- Perigo três: a atitude blasé;
- Perigo quatro: a reserva quanto à sociabilidade e ao individualismo da aversão e da estranheza;
- Perigo cinco: o xico-espertismo que serve a realização de instrumentos de avaliação;
- Perigo seis: a superficialidade das aprendizagens;
- Perigo sete: a exaustão, o desencanto e o mal-estar dos agentes educativos.
Tais perigos destacam os cuidados a ter com a dimensão relacional do ato educativo, onde parecem
assentar as maiores debilidades do ensino a distância, pois um upgrade ao nível das literacias mediática e
digital não garante, necessariamente, melhorias significativas em todas as áreas de competências, em
particular, no que concerne às aprendizagens sociais, emocionais e pessoais.
A função social da escola não se coaduna com a metáfora do IT, a coisa que é uma plataforma
eletrónica de acesso à educação formal, é de uma pobreza extrema quando comparada com a metáfora do
HER. A escola Ela vai muito para além da voz da Samantha do filme, pois ao nutrir-se da dimensão relacional
oferece um manancial de estratégias que, de um modo interdisciplinar, integrado, inclusivo e diferenciador,
poderão servir os interesses e as necessidades de cada um, visando o desejado sucesso para todos os alunos.
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