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Museu Educação Global e Diversidade Cultural
Cadernos
Cartas da Guiné
Experiencias Patrimoniais
Museu Educação Global e Diversidade Cultural
2020
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 2
Ficha Técnica:
Informal Museology Studies
Nº 25 2020
Editor: Pedro Pereira Leite
Marca D’Água - Edições e Projeto
ISSN 2182-8962
Documentos usados de acordo com:
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 3
Apresentação............................................................................... 5
. Crónica da Guiné ............................................................................... 6
Crónica da Guiné (I) ........................................................................... 7
Cronica da Guiné II ............................................................................. 8
Crónica na Guiné III ........................................................................... 9
Crónica da Guiné IV .......................................................................... 10
Mercado do Badim (Crónica da Guiné V) ........................................... 11
Retratos (Crónica da Guiné VI) ......................................................... 12
Caldo Branco (Crónica da Guiné VII) ................................................ 13
Museu Etnográfico de Bissau (Cronica da Guiné VIII) ...................... 14
Universidade Amílcar Cabral (Crónica da Guiné IX) .......................... 15
Na escuta (Crónica da Guiné X) ........................................................ 16
Um país suspenso (Crónica da Guiné XI) .......................................... 17
A cultura do Contentor (Crónica da Guiné XII) ................................. 19
Pano di Pinti (Crónica da Guiné XIII) ............................................... 20
Caldi di Djeben (Crónica da Guiné XIV) ............................................ 20
Cabral (Crónica da Guiné XV) ........................................................... 21
Sintadu i ka djuntu ku djungutudu (Crónica da Guiné XVI) .............. 22
Nô Sta Djunto (Cronica da Guiné XVII) ............................................. 23
Kunsi Balun de si (Crónica da Guiné XVII) ........................................ 24
O Gerador (Crónica da Guiné XVIII) ................................................. 25
A escuta (Crónica da Guiné XIX) ....................................................... 27
Canchungo (Crónica da Guiné XX) .................................................... 28
Drogas e desenvolvimento (Crónica da Guiné XXI)........................... 29
Tiná Silá mulher africana (Crónica da Guiné XXII) ........................... 30
Senhores do chão (Crónica da Guiné XXIII) ..................................... 31
As ONG'S e o Desenvolvimento em África ......................................... 32
Os buracos (Crónica da Guiné XXIV) ................................................ 32
Cacheu (Crónica da Guiné XXV) ........................................................ 34
Saúde Comunitária versus Saúde Global ........................................... 34
Os meninos de Deus ......................................................................... 36
O anjo branco ................................................................................... 37
Os europeus em África ...................................................................... 38
Mulheres com Chama ........................................................................ 39
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 4
Relíquias: Do iluminismo ao sal da terra ........................................... 40
Misses em África ............................................................................... 41
Nuvens e ventos ............................................................................... 42
Luz e sombras................................................................................... 42
Aprendizes de executivos ................................................................. 44
A cobra e o professor ........................................................................ 45
Nô Papi - Homem Grande .................................................................. 46
Jogos de rua ..................................................................................... 47
Patrimónios e Heranças .................................................................... 48
A picada do mosquito ....................................................................... 49
Mana Clea ......................................................................................... 50
Trânsitos guineenses ........................................................................ 51
Nok e Wak ........................................................................................ 52
Nada de novo na frente leste ............................................................ 53
Karnaval ........................................................................................... 54
Karnaval em Bissau .......................................................................... 55
Os Bantabás...................................................................................... 56
Ecomuseu vivo de Canchungo ........................................................... 57
A luz ................................................................................................. 58
Sissoco Virtual .................................................................................. 59
N'to N're Tucpa ................................................................................. 60
Primado da lei e realidade virtual ..................................................... 61
Bubake Bijagós .............................................................................. 62
Melchior de Bubake .......................................................................... 63
Reno e dono di xão ........................................................................... 65
Chez Amy carrefour de cuisine africaine ........................................... 66
Bojan de Ingoré ................................................................................ 67
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 5
Apresentação
Neste número dos Estudos de Museologia Informal, apresentamos o Diário
da Vigem à Guiné-Bissau, realizada nos primeiros meses do ano de 2020.
Escrito ao sabos dos dias, será melhorado e revistado em função dos fluxos
do pensamento sobre a experiencia e sobre o lugar.
Bibaque Bijagós, março de 2020
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 6
Crónica da Guiné
Voo TP 4791 A 320 para Bissau-Cacheu. Movimento de retorno de férias no
aeroporto. Caras de quem regressa ao trabalho e se vai dedicar ao seu próprio
sustento.
Viajo pela primeira vez para Africa ocidental. Avanço com um velho projeto, com
mais de trinta e cinco anos.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 7
Crónica da Guiné (I)
No arranque do projeto. Uma sala vazia. Cadeiras e mesas. Gente com
vontade de criar encontros.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 8
Cronica da Guiné II
Através do desenho das questões geradoras o trabalho no terreno começa
a ser preparado. Algumas visitas à cidade de Bissau ajudam a preencher
o ambiente. A Tabanca do Ze Manel oferece um momento de repouso
retemperador e permite capturar o espírito do lugar.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 9
Crónica na Guiné III
Prosseguindo a exploração da Tabanka Ku saudi. Há luz e sombra. Toda a busca
de luz deixa um rasto de sombra. E uma alegoria interessante, ainda que,
pensando que a luz ė energia em movimento, sendo que roda a energia esta em
movimento, o que chamarmos sombra é um outro tipo de movimento. Assim,
iluminar e uma forma de desvelar. De tornar excecional o normal.
O que e que isto tem que ver com a Tabanca? Provavelmente nada. Mas talvez
seja uma perspetiva para olhar o esforço de subverter a logica da comunidade.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 10
Crónica da Guiné IV
Flanando por Bissau velho, resgatando memórias da cidade. Centros simbólicos,
espirituais e gastronômicos. Afinal o corpo necessita de ser nutrido.
Aqui e acolá surgem restos de destino cruzados. Tenho vontade de escrever em
poesia, cansado, esgotado da prosa que tolhe o sonho e a criatividade.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 11
Mercado do Badim (Crónica da Guiné V)
A vitalidade duma cidade pode se observada nos seus mercados. Dediquei por
isso o dia ao mercado do Badim em Bissau. Atravessei o a olhando para a
diversidade de gentes e produtos. Tudo em grande reboliço. Negócios de ocasião.
Tude se vende e tudo se encontra. Nigerianos, senegaleses, gambianos.
As migrações de hoje um fenômeno universal. Não só para norte. São hoje para
todo o lado.
O que pode unir. Talvez o futebol. No campo, complexo chamado Estádio Lino
Correia, os jovens entretinham se a jogar nesta manhã de domingo.
Acabei a tarde no espaço verde. Restos das festas de Natal, onde com os pés
assentes na terra se pode observar um dia de lazer em Bissau.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 12
Retratos (Crónica da Guiné VI)
Rostos de pessoas que passam na rua. Fluxos de histórias que se cruzam, cada
parte como um conjunto dum todo.
Palavras que se repetem nos olhos empeirados das gentes. Diferenças diluídas
ao longo do tempo, que subitamente jorram de dentro raivas de diferença.
Capturar a essência em fluxo.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 13
Caldo Branco (Crónica da Guiné VII)
Um dos pratos tradicionais da Guiné é o Caldo Branco. Servido com uma
base de arroz com um peixe cozido ou estufado, por vezes colorido com
um molho de caril (cebola, gindungo, ou quiabo) e servido nas tascas de
Bissau ou da província.
E um bom prato, comido numa única gamela, com colher, debaixo de uma
árvore frondosa, no pico do calor, com conversa em crioulo.
E isto para dizer que passei o dia entre Bissau e Quinhamel, no distrito de
Biombo. Jornada intensa que passa por varias picadas, escolas, centros de
saude, com crianças a jogar à bola em campos de terra batida.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 14
Museu Etnográfico de Bissau (Cronica da Guiné VIII)
Ao sétimo dia em Bissau visitei o Museu Etnográfico da Guiné. Criado no
tempo colonial, principalmente com estatuária de madeira dos povos
Nadau, passou por diversas vicissitudes. Apos a independência foi feita
uma mostra do espólio num Museu na Nigéria que não voltou. Na guerra
civil, o edifício albergou o ministério do interior e das peças foram para a
universidade Amílcar Cabral.
Albano Mendes, o diretor manifestou preocupações sobre o futuro.
Acompanhou nos na visita pelas duas salas do museu. Há falta de
conservação, falta de inventários, falta de documentação. Tem problemas
na área dos audiovisuais. Na Guiné não formação na área do património.
Museus na Guiné: Museu Militar, Museu Etnográfico, Memorial de Cacheu.
Museu de Bafatá. Museu de Goleje e Ecomuseu de Tombali. Parque
Nacional.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 15
Universidade Amílcar Cabral (Crónica da Guiné IX)
As universidades africanas estão sitiadas. A ajuda internacional deixou de
contemplar o ensino superior público.
A universidade Amílcar Cabral em Bissau é um caso paradigmático. Boas
instalações, com ar de abandono, apesar dos patrocínios. La vi Gulbenkian, IPL,
Universidade Nova de Lisboa. A estratégia e fazer com que os estudantes se
formem nas antigas metrópoles e evitar ao máximo a produção de conhecimento
local.
Estão assim criadas as condições necessárias para a manutenção da dependência
e da injustiça cognitiva.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 16
Na escuta (Crónica da Guiné X)
Na escuta do outro vamos tecendo encontros.
Teresa. Vestiu se de carmim para nos receber no seu templo de vida. Deu nos
um pouco do seu tempo. Um tempo que traz vidas a Ilonde na Guiné-Bissau.
Conta histórias vividas nas suas mãos.
Cabe-lhe acompanhar a saude na comunidade. Diz-nos: - Temos que aprender
com quem sabe. Não devemos ter medo de perguntar. Todos juntos cuidamo-
nos.
Teresa. Parteira que traz a luz os meninos e meninas que andam de jangada no
rio Cacheu.
A museologia social e a infância em diálogo
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 17
Um país suspenso (Crónica da Guiné XI)
A Guiné-Bissau está numa situação curiosa. Está em curso uma greve dos
funcionários públicos, que decorreu, nestas duas últimas semanas de terça
a quinta-feira. Na prática trabalha se apenas dois dias por semana. Como
há uma influência islâmica, a sexta-feira tende a ser atividade pela
metade.
A greve e contra a falta de pagamento dos salários, que acontece desde
setembro. Embora escasso, em 4 meses sem salários, há menos dinheiro
a circular. E claro que a economia informal e a base que faz funcionar as
coisas. O mercado do Badim continua a fervilhar de gente. Mas na praça,
as vendedeiras deixaram de vender.
Não existe na Guiné-Bissau uma classe média, de pequenos funcionários
urbanos. Existem, não sei como nomear, remediados. Gente que, não
vivendo no limiar da pobreza (com menos de 15.000 Francos XOF) que
serão provavelmente 95 %da população; e que não são a elite da
governação (os tais 1 %, ligados aos diversos sistemas se poder). Em
termos práticos Uma cerveja custa, numa tasca de rua 500 XFS. Se
excluirmos os que não conseguem pagar a cerveja e os que podem beber
as cervejas que quiserem temos cerca de 150.000 pessoas que passaram
a racionar a cerveja. Pessoas que podemos considerar como urbanas
remediadas.
Isso sente-se nas ruas!
Adicionado a isso, ou talvez fazendo parte do problema, a bizarra situação
eleitoral, sobre a qual, mesmo estando em Bissau, é difícil de entender
sem fontes de informação consistentes.
Passei ontem, por acaso, na sede do candidato putativamente vencedor
das eleições. Aquele que na segunda volta das eleições presidenciais teve,
de acordo com a CNE local mais votos. E a democracia. Por um se ganha
e por um se perde. Contudo, o candidato derrotado, recorreu à justiça,
denunciando uma alegada fraude na contagem de votos.
Em termos práticos. Ouve um vencedor proclamado e há dúvidas sobre o
processo. Está tudo em suspenso.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 18
Ontem, ao passar na sede do candidato vencedor, dia em que a CNE
proclamou os resultados sobre os quais existem duvidas havia festa. Uma
festa sem gente. Suspensa.
Passei e segui, cautelosamente a ver o futebol (o sporting-Benfica) na TV.
Sim aqui vê se e segue se o futebol português. Também o espaço parecia
suspenso. Sem gente. E olhando para o ecrã também nada se via. Havia
um nevoeiro que obrigou a suspender o jogo uns dez minutos.
O estar em suspensão parece que passou a ser o estado natural.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 19
A cultura do Contentor (Crónica da Guiné XII)
Sabemos os efeitos multiplicadores das vias de comunicação para as
economias locais. Em Bissau, o mercado do Badim, na Autoestrada que
liga a cidade ao Aeroporto, e um exemplo do comércio da cidade. Dum
lado, para quem entra na cidade, comércio de retalho. Do outro, para
quem sai, comércio por grosso, incluindo transportes (de passageiros e
mercadorias).
uma ordem no caos. Melhor, uma segmentação por atividades. Por
exemplo os frescos concentram nas rotundas. Para encontrar têxteis, (com
o celebre pano de ponti a escassear e a ser substituído pelos têxteis
chineses) é necessário entrar para o interior.
Mas o que realmente é uma inovação são os contentores. Em Bissau
constituem a maioria dos bares. Mas saindo para Biombo, são espaços
comerciais. Alguns assentados em base de cimento. Outros com
telhados de colmo para evitar os efeitos do barulho das gotas de chuva.
Vendo bem, tratam se de espaços móveis, baratos e seguros. Se o
comércio não esta a dar desloca-se. Sao ao preço da chuva, pelo que evita
a especulação imobiliária. No final do dia fecha se a porta a cadeado e não
entradas por janelas, portas do fundo ou buracos no telhado.
Olha se a cooperação portuguesa, o Camões ou Gulbenkian se lembrassem
de fazer bibliotecas em contentores. Isso e que era literalmente espalhar
a língua português no espaço do Kriole.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 20
Pano di Pinti (Crónica da Guiné XIII)
A malta cooperante que antigamente vinha para a Guiné-Bissau,
geralmente professores envolvidos nos processos de alfabetização,
regressavam sempre com os célebres panos de pente (em Crioulo Pano di
Pinti). De padrão geométrico, de cor cinzenta, geralmente usado à volta
do pescoço, ajudava a suportar a invernia lisboeta e ao mesmo tempo
dava um ar exótico.
Ora hoje decidi explorar o mercado do Badim, a procura dos ditos panos,
património da Guiné-Bissau, hoje com concorrência feroz dos panos
sintético made in Indonésia.
A diferença de qualidade é grande. Feitos à mão pelo Faiçal, em fibras
naturais foram eram usados pelas personagens mais relevantes da
sociedade manjaca e os seus padrões contavam histórias dos griôts.
Caldi di Djeben (Crónica da Guiné XIV)
Nas férteis terras do Cacheu, come se o Caldo de Djeben, um caril com cebola e
óleo de Palma. Come se com arroz branco e peixe fresco.
Adentrando na região para por a mão na massa dos agentes comunitários. Gente
simples. Dedicada ao outro. Rostos empenhados na tarefa. Dos melhores que
encontramos. Gente que que ser útil ao outro. Cada traz uma lição de vida. De
Pecixe, de Ingoré.
Viajam em picada para olhar nos olhos do que nascerem. Olhos da esperança
numa vida.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 21
Cabral (Crónica da Guiné XV)
O 20 de janeiro é feriado na Guiné-Bissau. Recorda se Amilcar Cabral (1924-
1973) o fundador do PAIGC. Assassinado neste dia na Guiné Conacri, de onde
dirigia a guerra de libertação.
Neste país, por ele desejado, embora feriado, não existem grande lembrança no
espaço público. Um fim-de-semana prolongado deixou a cidade vazia. Ou então
e mesmo assim, o modo como a lembrança funciona.
Datas são marcas do tempo. Marcas que se vão dissolvendo. Mas há, para além
do tempo uma herança. Uma herança que persiste em ser disputada.
Cabral foi um homem político, protagonista dum tempo de libertação africano.
Dum tempo em que África se liberta da dominação colonial, e se afirma no mundo
global. Cabral foi nesse tempo um ator relevante.
Cabral é hoje, por via dessa ação uma figura de referência sobre o pensamento
político africano. Os seus escritos continuam a enunciar problemas persistentes.
Não deixa de ser curioso observar, que para além da espuma dos dias, as letras
pensadas e juntas por Cabral, neste português que se vai tornando Krioul, é
simultaneamente um instrumento de resistência e de libertação e um lastro qua
nos convoca ao passado e nos faz presente. Um dilema para resolver.
Eu lembro-me.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 22
Sintadu i ka djuntu ku djungutudu (Crónica da Guiné XVI)
De regresso a Bissau, dia 23 de janeiro, dia em que nos idos de 1963, o PAIGC
inicia a Luta de Libertação Nacional, Portugal conhecida como Guerra Colonial.
Não e certo que seja feriado, mas ninguém trabalha. A Praça esta deserta
enquanto no mercado do Badim se mercadeja.
Passo indolentemente pelo novo jardim do N' Batonha, um presente da
cooperação portuguesa a cidade de Bissau. Trata-duma área lagunar,
provavelmente resquícios dum antigo tarrafe, certamente açorado como era
vulgar noas anos 30. Agora está bem bonitinho. Com desenho de arquiteto,
explicações sobre a importância das zonas húmidas, da água, das alterações
climáticas, da fauna e flora local. Enfim valorização imobiliária da envolvente e
mosquitos na estação das chuvas.
Curiosamente, saindo da praça, na fachada do hotel Ancor, um mural. Paro para
tirar a fotografia da praxe. Melhor um silhar com uma representação africana.
Um guineense já idoso, amigavelmente corre para mim e fala" sintadu i ka djunto
ku djungutudu". Saúdo- o, um pouco apreensivo sobre a intenção. Os guineenses
são amigáveis, mas nós europeus brancos, vacilamos com a familiaridade
excessiva de estranhos na rua. Diz me então tu português. Estás cá sentado ou
de cócoras. E que estar sentado não e o mesmo que estar de cócoras.
Descodificada a conversa, o convenci sobre a minha estada. La me explicou
que o painel era do pintor guineense Augusto Trigo e la me contou a história do
pintor e dos seus desenhos.
Afinal são bem curtos os laços da memória. Estava longe de pensar encontrar o
desenhador da minha juventude, dos desenhos do mundo de aventuras numa
rua de Bissau. Ao lado uma pomposa intervenção de requalificação urbana.
Estranha valorização do património local.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 23
Nô Sta Djunto (Cronica da Guiné XVII)
Olhando as gentes nas ruas entende se o tempo vivido. O ocidente teima em
tornar o africano, neste caso o guinéu, numa réplica dos povos do norte. Povos
que vivem sem tempo, alienados nas suas rotinas kafkianas.
Em Bissau, nas sextas-feiras, a poesia sai rua. Jovens passeiam se as ruas.
Entrelaçam se de amores ao som do tráfego. Os mais velhos procuram um frango
assado e levam para casa saboreando o fresco da noite num Páteo frondoso.
São modos de estar, que Cabral identificou com poesia nas suas formas de
resistência. Os guinéus resistem e recriam-se. Estão no penúltimo lugar dos mais
pobres entre os mais pobres. Mas aqui estou convencido que a pobreza e da
medição estatística. Se a felicidade e o tempo fossem medidos, eram talvez mais
ricos. Externalidade diriam os economistas.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 24
Kunsi Balun de si (Crónica da Guiné XVII)
"Tomar conhecimento de si" é o modo tacanho como traduzi uma frase que me
foi dita hoje em Bissau por uma quitandeira. Não sei se é assim que aqui se
chama as vendedoras de rua. Aqui, ao longo da rua Osvaldo Vieira, quando se
desce em direção ao porto, ao sábado de manhã um mercado de rua. E
possível comprar ostras, camarões, lambujinhas e outros peixes.
Expostos ao sol e a inclemência do tempo, não me parece recomendável o
consumo ao natural das ostras, que são apanhadas nos tarrafes. Um outra
palavra que aqui apendi, de onde vem o nome do Tarrafal, que nos anos 30,
quando ali se instala o campo de concentração, estava cheio de mangais.
Ia eu pela avenida que leva o nome do tal comandante da frente leste, paro em
frente da quitandeira, pergunto-lhe o preço das ostras, 1.500 Francos.
-Caro digo-lhe. Responde me ela: Cada um sabe se si em Criol.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 25
O Gerador (Crónica da Guiné XVIII)
por aqui um velho gerador. Jaz triste, empeirado, exposto às intempéries
inclementes de África.
Foi feito para trazer luz. Para dar energia a quem dela necessite. Jaz emudecido.
Tem inscrito as organizações doadoras. Foi gasto dinheiro para o comprar, para
o manter. Podia dar luz e energia. Dá dó vê-lo ali no canto, abandonado. Castrado
de sua função.
Podíamos pensar que e incúria dos homens. Desleixo de quem devia zelar pelo
bem comum. Talvez seja apenas esquecimento.
A cooperação em Africa é hoje uma espécie de gerador abandonado. Ouvimos as
histórias de milhões que transitam sobre o Atlântico. Vemos poucos a fazer um
trabalho desinteressado para ajudar os outros
Este gerador podia dar luz. Mas jaz aqui emudecido. E seria simples torna-lo útil.
Ou talvez não? Estranha forma de trabalhar.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 26
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 27
A escuta (Crónica da Guiné XIX)
Um dos exercícios mais interessantes de se fazer e olhar para o modo como as
pessoas se escutam.
Hoje, numa rara experiência, participei numa reunião de expatriados, como agora
se nomeiam os cooperantes, e fiquei com a triste convicção de que ninguém
escuta ninguém.
Isso é, digamos assim vulgar em Portugal. Mas convenhamos. Numa terra como
esta, para quem está a construir com as comunidades, a escuta é meu ver, um
exercício básico. A escuta do mundo e a escuta do outro.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 28
Canchungo (Crónica da Guiné XX)
Ao longo do dia viajei par Canchungo pela 2 vez numa semana. O objetivo e dar
apoio a distribuição de medicamentos na comunidade.
A indústria farmacêutica encarrega se de fazer chegar genéricos em frascos
brancos, pilulas de cor. Vermelhas para desparasitação, azuis para suplemento
vitamínico às crianças com menos de 5 anos. O objetivo e prevenir a desnutrição.
Depois de abertos, o responsável pela manipulação dos medicamentos espalha
os comprimidos numa mesa e conta-os em pequenos montinhos. Seguirão
amanhã, pelas 7 para suzana, varela e São Domingos, e serão distribuídos pela
rede de Agentes de Saúde Comunitária nas diversas tabancas.
Uma rotina que alimenta una roda gigante de atores. Mobiliza a comunidade e
que dá oportunidade de conhecer uma realidade local.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 29
Drogas e desenvolvimento (Crónica da Guiné XXI)
Que as sociedades desenvolvidas ganharam a batalha contra a mortalidade
através dos sistemas de saude e um dado conhecido. Também o ė na relação
entre a redução das doenças infeciosas com o desenvolvimento do saneamento
básico e da higiene. A descoberta dos antibióticos foi uma importante ferramenta
contra endemias como as pneumonias as tuberculosas.
E certo que não resolveu tudo. Ciclicamente surgem '"fenómenos" estranhos
como os ébolas, o VIH/sida; as gripes das aves e os Corono vírus. A esperança
desenvolve se mais uma vez no desenvolvimento da farmacopeia. Por vezes,
cada vez mais sonoro, chama se a atenção para as práticas de vida saudável,
com apelo ao combate ao sedentarismo, o uso do tabaco, o consumo de álcool,
a dieta alimentar, etc.
Há uma crença que a replica dos sistemas de saude ou das praticas de saude do
norte, permitirão aos povos do Sul, entenda se Africa e Sudoeste Asiático, sair
da pobreza extrema, da elevada taxe se mortalidade infantil, e da redução de
fome e pobreza. A saude e a escola são dois instrumentos potentes, que sao a
base dessa *crença*
Talvez esta não seja a palavra mais adequada. Mas traduz uma parte do que
pretendo pro lematizar. Não basta distribuir medicamentos ou fazer os alunos ir
à escola para qui isso suceda.
Nos próximos dias ampliaremos essa reflexão a partir da experiencia da Gui
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 30
Tiná Silá mulher africana (Crónica da Guiné XXII)
Dia 30 de janeiro há tolerância de ponto para as mulheres guineenses. Foi neste
dia que Tina Sila, combatente do PAIGC , que morreu em combate em 1973,
quando atravessava o rio Farim, no norte da Guiné.
A questão esta pouco reconhecida na sociedade. A tolerância de ponto e isso
mesmo, uma tolerância, que é muitas vezes arrumada para a sexta-feira, numa
questão de conveniência.
As ONG que estão no terreno podiam ser um elemento que valoriza se a presença
e o contributo da mulher guineense na sociedade. Sao elas que trabalham a terra,
sao elas que dão há luz. Sao elas que cuidam das crianças.
Esta data podia ser mais do que um simples incómodo de quebra de trabalho e
ser usado para algo mais relevante.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 31
Senhores do chão (Crónica da Guiné XXIII)
Existe na Gui-Bissau uma tradição que afirma que em cada tabanca existe um
senhor do chão. Aquele que foi ou descende daquele que primeiramente assentou
tabanca no sítio.
A subida dos níveis das águas estão a afetar as populações ribeirinhas. O governo
remove as para outras terras, com outros senhores do chão. Conflitos
anunciados.... ou talvez não.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 32
As ONG'S e o Desenvolvimento em África
Faz a 4 de fevereiro, 59 anos sobre os eventos de Luanda que originaram aquela
que ficou conhecida como Guerra Colonial. Como guerra que foi, defrontaram se
duas forças. Hoje sabemos bem que estas guerras tinham também os seus
contextos.
Passados estes anos, os da guerra e os das independências, novos países se
formaram, todos eles com realidades distintas. Uns mais ricos, com matérias-
primas ou commodities que alavancaram riquezas e exuberantes e duvidosas.
Outro menos ricos, que sobrevivem das ajudas internacionais.
Ouve tempos, em que os Estados, do norte, canalizavam ajudas de forma direta
- estado/estado, apoiando por vezes as ONGd, estruturas frágeis da "sociedade
civil". Hoje é prática comum a cooperação por delegação. Os apoios são mais
robustos, voltados para objetivos concretos, balizados no tempo. Mas as
fragilidades das ONGd não desapareceram.
Ora no caso da Guiné, com um estado frágil, as ditas "ajudas" são em muitos
sítios um fator de circulação de riqueza. O problema e saber se a fragilidade das
ONGd em estados frágeis, gera efetivamente riqueza ou se são apenas fogachos
lançados ao ar.
Serie Cronica da Guiné XXVI
Os buracos (Crónica da Guiné XXIV)
A estrada entre Bissau e Canchungo é um mundo de diversidades que mostra o
que e a transição entre a cidade e o campo. Com quase meio milhão de
habitantes, quase todos alojados em moradias geminadas de telhados de quatro
águas em zinco, com um varandim sem muro, por vezes vivem varias famílias
num chão.
Bissau tem um traçado regular. A partir das vias estruturantes os bairros
sucedem se cada vez mais orgânicos, com populações mais vulneráveis. Embora
seja uma cidade agradável, e difícil de flanar devido ao pó o ao intenso cheiro de
gasóleo.
A medida que saímos da cidade, pela rotunda do aeroporto em direção a Safim,
o espaço torna se progressivamente mais rural. Aumentam os animais e as
crianças, as casas vão-se progressivamente distanciando. Apenas ficam os
buracos na estrada.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 33
A Guiné deve ser o único sitio em que os pões andam no meio da estrada, já que
os carros procuram as bermas para fugir ai alcatrão esburacado.
Enfim coisas da Guiné-Bissau. minha frente um 7place com o emblema do
Sporting e a cara do Che Guevara. Na escola de Caió a, construída pelo governo
revolucionário bolivariano da Venezuela. Mais adiante uma escola com a esfinge
do Eng.º. Guterres. Paramos num contentor transformado em bomba de
Gasolina.
Estranho mundo este. Há que entender a lógica do buraco.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 34
Cacheu (Crónica da Guiné XXV)
Viajo entre Canchungo e Cacheu num 7place. Na verdade iam 15 pessoas
amontoadas em 3 filas de bancos mais as suas cargas. Os 7places partem da
praça, a um km da bomba da Galp, o único sítio onde se toma café em Cachungo.
Sigo a pé e procuro o ponto de partida.
Ensanduichado la partimos, numa viagem de cerca de uma hora, com o vento a
bater na cara, parando aqui para largar pessoas, acolá para deixar carga, num
processo de disseminação de cargas.
Chegado ao Cacheu, procuro o Memorial. Breves conversas com Cambraima
Cassama responsável pelo memorial. Falamos de uma rede de museus da Guiné,
de formações e acabamos a comer uma corvina no restaurante da Gabriela,
instalados em cima do pontão, embalados na suave brisa do rio Cacheu.
Tempos de conversa fluida. Modos de entender o local. Terminado o almoço la
fui ver o forte. Um pequeno fortim, alcandorado sobre o rio. Dentro as estátuas
coloniais. De fora o mangal e os pescadores mandingas.
Um domingo que valeu a pena ser vivido.
Saúde Comunitária versus Saúde Global
Saude comunitária na Guiné-Bissau está num estado caótico. E difícil num postal
desta dimensão desenvolver completamente a questão.
questões mais gerais, que se prendem com a organização do "Estado" da
saude publica no país. Estado aqui como organização política, geralmente
caracterizado com frágil. Portanto sem uma capacidade de ser ator soberano na
totalidade do território. E estado, como diagnóstico do sistema, também frágil
porque dependente de muitos fatores externos.
Mas, e isto e uma grande supressa para mim, ao contrário do que e a opinião
vulgariza, funciona com pessoas dedicadas, responsáveis e com grandes
competências humanas.
O sistema sofreu muitas influências. Tendências europeias de planeamento
centralizado. Influências cubanas, com os sistemas de planeamento também
centralizado. Algumas tendências de sistemas africanos (senegal e Nigéria) da
China. Mas apesar de todas estas influências vai funcionando com as pessoas.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 35
O tal "sistema" funciona dentro desse caos. Múltiplas influências, falta de
dinheiro. (Diz-se que despareceram algumas dezenas e milhares de dólares), o
que tem como natural consequência, atrasos nos salários. Apesar disso funciona.
Com os seus médicos e enfermeiros.
E a tal ajuda ao desenvolvimento não poderia ser uma ajuda. Sim. Claro que sim
dirão os mais crédulos nos princípios da ajuda humanitária.
Mas talvez não seja isso que esteja a acontecer. Parece que as ONGd estão a
transviar a ajuda humanitária. Vejamos o caso da saude comunitária no âmbito
da saude global:
Os indicadores de saúde não são completamente fiáveis. Mas sabe-se que por
analogia com a região, que uma elevada taxa de mortalidade materno infantil,
uma elevada taxa de incidência de desnutrição, de doenças infeciosas (diarreias,
pneumonias), etc. Aqui a Saude comunitária tem vindo a atuar para reduzir a
intensidade destes indicadores. Com algum sucesso moderado. Mas faz a
diferença.
A questão que esta atualmente em jogo e saber se essa saude comunitária se
concretiza como complementar ou como componente do sistema.
As tais ONGd parecem estar ainda a definir as suas estratégias, quando a
dinâmica já esta no terreno. Um dinâmica centralizadora, como e prática habitual
das agencias das NNUU. Talvez ai uma estratégia comunitária mais clara pudesse
fazer a diferença.
Serie cronica da Guiné XXVII
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 36
Os meninos de Deus
Vai para uma dezena de anos, na velha cidade de Lisboa, ainda revolucionária e
popular, vagueavam, inviavelmente aos pares, sempre com o nome de Helder ou
Inga, trajados com camisas brancas e calças ou saias cinzentas. Abordavam os
mais incautos nas ruas divulgando a mensagem divina os "meninos de deus".
Eram jovens, imaturos, provavelmente lançados para terras agrestes para
ganhar calo, perseverança e fortalecer a sua crença. Poderemos comparar esses
meninos de deus com os atuais expatriados em África, lançados em terras
inóspitas, com costumes e comida estranha, a quem compete "evangelizar" com
a doutrina tecnocrata, que os ajude a encontrar o "caminho" para a redenção ou
para o desenvolvimento como agora se diz.
Por várias razões tenho tido contato com essa realidade desde os anos oitenta. E
não posso deixar de notar a transformação que se sente na presença de
"quadros" técnicos em África. Não sei se será uma deficiência cultural, ou uma
diferença técnica, ou mesmo uma diferença de processos educativos. Mas dum
modo geral o que eu vejo é uma grande incapacidade de lidar com o outro, de
reconhecer ou outro, de sair da sua zona de conforto para explorar a diversidade,
e sobretudo uma enorme desadequação dos processos às realidades locais.
O que me admira muito ė como e que isso é aceite localmente. Talvez seja a
velha sabedoria africana a funcionar. Eles sabem que mais tarde ou mais cedo
todos partem, os projetos acabam e outros lhe sucederão. Entretanto vão vivendo
e divertindo se, presumo eu, com os afãs tecnocráticos dos anjinhos, sempre com
pilhas de papéis e bolsas de pc, onde se amontoam letras, palavras, linhas e
parágrafos que retratam uma realidade que não conseguem ver.
Serie Crónica da Guiné-Bissau XXVII
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 37
O anjo branco
Estes postais estão com conteúdos um tanto escatológicos. Mas a escrita dum
diário tem destas coisas. Uma vez o olhar fixa se num determinado tipo de coisas,
outras vezes noutras, balançando ao ritmo das diferentes jornadas.
Vem o título "Anjo Branco" a propósito dos tais meninos que na ansia de se
encontrarem com as comunidades acabam por participar em atividades que se
reconheçam. Há, grosso modo, dois tipos de pessoas expatriadas. As que se
encerram nas suas redomas, contando os dias que passam; e aqueloutro que
aproveita o tempo e o espaço, ainda que nele inscreva a diferença.
A história e narra se numa forma simples. Estávamos ao fim da tarde debaixo
duma mangueira, em amena cavaqueira, dando uma charlas. Quando a Carol
conta a sua história; Havia chegado há pouco tempo à Guiné. Procurava
aproximar se à comunidade. Seguia os passos reconhecidos, e vai juntar se ao
coro da paróquia. Isto apesar de não ser dotada para as cantorias, acabando por
mais fazer play back para evitar contaminar as poderosas vozes femininas.
O coro corria com regularidade, eis quando o padre pede Voluntarios para fazer
um presépio vivi. Voluntária acaba por lhe caber o papel de "anjo branco".
Fiquei um bocado cismado na imagem dum presépio vivo, onde no fundo da cena
sobressaia, na sua alvura um anjo.
Veio me a memória o filme de Wenders. Esse diálogo civilizacional tomado no
alto do muro de Berlim, num mundo que ruía a leste, submerso pelo potencial de
acumulação desenfreada de emoções. Há quem diga que esse mundo está
condenado. Talvez resista ou se transforme. Mas essa imagem de Anjo Branco
não me tem deixado ao longo do dia de hoje, a ponto de sobre ele me rir debaixo
duma mangueira.
Não há duvidas somos anjos brancos que testemunham o fim de um determinado
tempo.
Série Crónica da Guiné XXVIII
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 38
Os europeus em África
Nos tempos em que se estudava África, isto é, os problemas inerentes ao
continente africano, da diáspora dos seus povos originários (entre as quais a
tragédia que foi o tráfico negreiro), das suas línguas e culturas, das suas
economias e das questões do desenvolvimento, da sua natureza única, era norma
alertar para a sua especificidade. Isto e para aquilo que nela é essencialmente
diferente dos europeus.
Uma dessas diferenças é a relação que se tem com a palavra. Em África, a
palavra, ou se quisermos a oratura tem um espaço privilegiado.
Ora os meninos que hoje aportam a estas terras chegam cheios de tecnologias,
impingem papéis e mais papeis para procurar retratar a realidade. Esquecem com
isso o essencial, que é pela ação concertada com o outro, através do acordo, que
se produz mudanças.
No final dos projetos, sempre cheios de objetivos, de medidas e ações, de
propostas de parcerias, que pagam durante alguns meses as necessidades dos
atores locais que se encontram posicionados em instituições replicadas da
europa, em instituições que não conseguem mobilizar recursos, em estados
frágeis em situações de volatilidade, os projetos acabam, os meninos vão-se
embora e sao substituídos por outros meninos, por outros projetos, que se
replicam a si mesmos.
E eis que os Europeus teimam em não entender África.
Serie Crónica da Guiné XXIX
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 39
Mulheres com Chama
Viajo de 7place de Canchungo para São Domingos com o objetivo de ir conhecer
a Cachupa da Mana Queta. Apertado, no banco de trás, entre duas muçulmanas
que me oferecem laranja e agua nuns saquinhos de plástico. Paragem em Ingore
e abasteço me com caju. Compro uns bolinhos de mandioca e sigo.
Ao chegar a São Domingos desço na bomba de Gasolina e faco um repasto duma
Cachupa rica. O restaurante da Manaqueta é conhecido como um dos melhores
da zona.
A caminho da cidade paro no campo para ver o jogo de futebol entre o Sao
Domingos e Ingore. Uma espécie de Porto Braga da Guiné. Duas equipas rivais.
Um campo fechado, onde se paga 25 francos para entrar, com gente apinhada
numa bancada rustica. Em cima das árvores. Os jovens arrastam a asa. As
meninas olham de soslaio. Eles vão atrás com olhar se Carneiro mal morto.
De súbito golo. Adeptos correm atras do marcador. A polícia atrás dos adeptos.
O marcador fogem dos adeptos e da polícia. Acaba em empate.
Fechamos a noite no Otavio. O Porto joga com o Benfica Há mulheres com garra.
Mais mulheres do que homens. Comemos uns camarões. O jogo vai começar.
Elas gritam, saltam São adeptas dos dragões. A sala vibra.
O futebol reúne toda a gente. E um rasto de cultura.
Série Crónica da Guiné XXX
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 40
Relíquias: Do iluminismo ao sal da terra
Da parte da manhã, em São Domingos há festa da paróquia da Santa Bakhita.
(Josefina Bakhita). Uma mártir somali de que se guarda uma relíquia.
Recordo me da novela do Eça de Queiroz, cuja personagem vai a Jerusalém
procurar uma relíquia a expensas da tia. Uma relíquia é algo que conecta. Alfo
que vindo do passado nos faz membros duma comunidade.
Na Guiné-Bissau a igreja católica entende essa necessidade de fazer o sincretismo
entre Roma e a tradição Africana. Em cada lugar vai buscar elementos da cultura
local, que integra na missa.
O tempo, pausado, solene com a gramatica clássica, integra vários elementos da
cultura local. O crioulo com língua de comunicação, a música e a dança em vários
momentos performativos, tal com recomenda o Vaticano II.
A missa crioula e mais um sinal da falência a política da língua em Portugal. E
podia ser um elemento de força integradora.
Mas regressando a questão da relíquia. A relíquia cumpre uma dupla função.
Conserva uma memória e ilumina o futuro, com o deus janus, que olha
simultaneamente para o passado e para o futuro. A luz que ilumina
simbolicamente o caminho, junta se o sal, que simbolicamente conserva.
Cabe a cada comunidade conservar as suas relíquias, mas ao mesmo tempo
encontrar caminho de futuro. Uma comunidade necessita de luz e sal.
Continuo um tanto escatológico. Mas são estes os reais com que tropeço.
Série Crónica da Guiné XXXI.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 41
Misses em África
jovens que são naturalmente irradiante. De pés no solo, devido a uma
formação integra, dedicam se aos outros, na procura de caminhos.
São tortuosas as soluções possíveis. Mas as viagens para África são sempre
possibilidade que potenciam o benefício do encontro com o outro. E situações que
implicam esse tipo de encontros sao formas de crescimento.
Vem isto a propósito das voluntárias de São Domingos. Gente que se dedica aos
outros, graciosamente, mas que se torna muito rica culturalmente.
Foram misses, atletas de competição, concluíram com sucesso cursos e procuram
completar a formação com o "grã tour" com que a aristocracia britânica brindava
os lords Byron. Afinal o turismo ainda serve para alguma coisa. Trabalhos
notáveis que sao sementes lançadas no tempo.
Serie cronica da Guiné 32
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 42
Nuvens e ventos
O 7place bordeja com cautela a estrada esburacada. A caminho de Ingore, na
região do Cacheu, passo baixas de tarrafes, onde as marcas das chuvas
permanecem no macadame. Ultrapassada a baixa, sobe se uma ligeira colina
onde assentam, por vezes as Tabancas, geralmente de pescadores recolectores
que armadilham com redes as baixas da mare. Apesar de ligeiramente melhor, a
estrada nestas colinas, apresenta de quando em vez grande crateras, o que
obriga o condutor a cuidados redobrados.
Os 7place são uma espécie de todo o terreno, que à força de viagens sem fim,
mostram mazelas nas suspensões, nas chapas, nos vidros. Cada chegada com
sucesso e um pequeno milagre.
E para acumular as mazelas, o excesso de carga e passageiros também não
ajuda. Mas cabe sempre mais um.
Avançava eu para Ingore, quando ao longe se formavam umas nuvens
avermelhadas. Vinha de norte, da fronteira com o Senegal, que dista a poucos
km para norte.
Chegados a Ingore, a estrada divide-se. Para Leste para Bigene, para sul, para
Bara-Bissau. Na verdade a região administrativa do Cacheu apanha toda a área
entre o Senegal/ Casamansa e o Rio Mansor, que constitui a região do Biombo.
E portanto um importante entreposto, que as ligações fluviais não existem.
Como entreposto comercial que é, quando o 7place para, logo as quitandeiras se
apressam a oferecer água fresca, laranjas, caju, bolinhos de mandioca, bananas.
Com algum tempo pode se mesmo negociar uma galinha, uma cabra ou um
porco, para oferecer aos parente ou a alguém da família alargada.
Vendedeiras que afluem como o vento. Chegam e partem como bandos de
pardais, embora não visto pardais por aqui.
Na Guiné-Bissau quando as nuvens de avolumam, logo vem o vento que dissipa.
Serie Crónica da Guine # 33
Luz e sombras
A questão da energia elétrica é um problema em África, sobretudo em meio
urbano. As populações estão a concentrar se nas áreas urbanas. E algo se lógico.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 43
serviços, comercio, oportunidades de negócio. Já não falo de equipamentos,
escolares ou de saude, pois isso é necessidade que ainda está longe da maioria
da população.
Na Guiné-Bissau, em Canchungo, na região de Cacheu, uma pequena capital
regional a 150 de Bissau (2 horas de caminho) concentra, cerca de 20.000
habitantes, numa media de 10% do total.
O povoamento é essencialmente disperso, mas na cidade, tendem a afluir
populações que reproduzem pequenos modos de vida das tabancas. Aqui e acolá
nota se já algum investimento numa habitação melhorada, mas ainda assim. Não
estamos longe da vida numa Tabanca.
A questão da energia aqui poderá fazer alguma diferença. Acesso a energia e
acesso a internet, a frigorífico, a carregamento de telemóveis e a tudo o mais
que constitui o chamado "modo de vida moderno".
Tenho mais tempo para escrever estes postais, que ficam invariavelmente em
espera ate ao ressurgimento da rede. Aproveito o fim da tarde para cozinhar, já
que o frigorífico para, trabalho ao ritmo do dia. Entre a luz do dia e a sombra que
periodicamente me isola do mundo.
A questão todavia não ė que não haja energia de todo. É que há energia, gerada
num velho motor diesel, um pequeno negócio que oferece energia por tempo
balizado. No período diurno das 10 às 16; e no período noturno das 20 às 4 am.
Simples. É só ajustar o ritmo de vida às contingências.
Série Cronica da Guiné #34
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 44
Aprendizes de executivos
me arrepios a impreparação dos cooperantes (expatriados na nova
nomenclatura) em territórios africanos.
Questões tão simples como o valor da palavra e o exercício da escuta são pura e
simplesmente ignorados, valorizando a ação de imposição da autoridade
conferida pela distribuição de incentivos, como por aqui se chama ao pagamento
de atividades dos locais (objetos de ação de desenvolvimento) quando são
chamados para participar em atividades.
Os locais, que por vezes nem salario recebem, e que sabem que mais cedo ou
mais tarde os "doadores" concluem os seus projetos e zarpam satisfeitos com os
resultados, sempre atingidos, mas que logo se desvanecem como a espuma das
ondas ao vento, aceitam divertidos as ofertadas dos "brancos". Afinal, o
importante e a ajuda.
Será que estas ajudas ao desenvolvimento são incluídas no VAB para efeito da
redução da pobreza?
Serie Crónica da Guiné # 34
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 45
A cobra e o professor
Avançava pela avenida central de Canchungo quando uma pequena cobra desliza
por entre os meus pés. Paro na dúvida do potencial risco. Ela medrosa, retira se
veloz serpentando pela estrada. Nunca usei esta palavra com tanta propriedade.
Ambos, eu e o réptil nos amedrontamos. Faz parte do jogo. Na dúvida
interrompemos os movimentos. O réptil mais lesto, talvez instintivamente, recua.
Eu mais supresso paro e perante a fuga, descontraio.
E claro que penso sobre o risco de uma cobra entrar em casa, ou em qualquer
outro sítio. Mas enfim, talvez seja melhor não pensar mais no assunto.
Enquanto isso, o professor, do outro lado da rua dava a sua lição. Professor de
adultos, diz a teoria, é um mediador. Mas na Guiné-Bissau, o educador de adultos
replica a lição magistral. Os brancos tugas, que supostamente estão a "capacitar"
aproveitam também para se ouvir. No final todos saem e não se medem
resultados.
Lição. A cobra, instintivamente, perante um obstáculo resolve. O humano,
perante um obstáculo insiste em falar. Toma a palavra para se ouvirem a si
próprios na vã ilusão que as palavras simples mudam o mundo.
Sim. Há palavras que mudam o mundo. Mas sao palavras que geram vida e não
palavras que replicam vaidades.
Serie Crónica da Guiné # 36
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 46
Nô Papi - Homem Grande
O Sr. Fernando e homem grande de Canchungo. O Régulo que regula o poder
social. Autoridade tradicional dispõe de um poder de influência e persuasão.
Entra na sala dos Técnicos de Saude comunitária no hospital de Canchungo,
pronuncia breves palavras sobre a importância dos agentes de saude
comunitária. Com voz pausada, em tom suave, persuasivo, gesticulando com as
mãos em largos movimentos.
O silêncio da sala deixa notar respeito e admiração. Peça determinante para que
as vozes dos agentes da comunidade sejam também respeitadas ouvidas nas
tabancas.
Chamam carinhosamente Nô Papi! E homem grande!
Crónica da Guiné #37
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 47
Jogos de rua
O futebol, já aqui escrevemos, é um fenómeno global. Na Guiné-Bissau segue se
com religiosidade o campeonato português. Há adeptos do Benfica, do Sporting,
e do Porto. Em Bissau, talvez resquícios do tempo antigo, casas dos dois
primeiros. Não vi ainda casa do Porto, embora, nos dias dos jogos, se vejam aqui
e acolá "adeptos" com t-shirts azuis e brancas.
Em Canchungo, joga-se futebol na rua. No bairro dos pescadores, na ponta oeste
da vila, ao pé das pedreiras, num largo de convívio, juntam se ao fim da tarde
os jovens, já adolescentes juntam se para uma peladinha. Literalmente num
campo pelado, com balizas improvisadas com troncos, despicam arduamente a
bola. O calor faz suar os corpos. Alguns deixam as camisetas de lado, deixando
brilhar os peitorais com o suar. Al longe, as jovens fêmeas passam, deixando
tímidos olhares de soslaio. Eles esforçam se ainda mais, talvez para ficar bem
visto na fotografia, e marcar pontos no coração da dama eleita.
De quando em quando, uma motorizada interrompe o jogo. Espera-se que passe.
Outras vezes e uma criança na sua bicicleta. Outras vezes eu passo e param. Eu
desvio me para a zona da loja do Mohamed, e paro durante alguns minutos. Olha
para os jogadores em ação. No geral pouca técnica, muito entusiasmo. Tal como
em qualquer outro lugar. os mais jeitosos e os mais atrapalhados. Os que
correm muito, os mais pausados; os que gesticulam e gritam e os mais discretos.
De quando em vez um golo, entusiasma um dos lados com festejos.
Estava hoje nas minhas observações, quando de repente a turma dispersa rápida,
perdendo se nas tabancas. O jogo do Benfica ia começar. Interroguei me, onde
raio iam ver o jogo. Não havia luz, pelo que teria que ser em algum sítio com
gerador, e com RTP África.
O futebol une gentes e torna se progressivamente num esforço coletivo. Este
campo pelado situa se no Polo de Apoio Pedagógico do Camões em Canchungo.
Uma estrutura fechada, aparentemente abandonada. Como já escrevi num outro
postal, a solução para este centro talvez esteja mesmo a sua frente.
Crónica da Guine #38
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 48
Patrimónios e Heranças
Depois de 2 dias sem net com energia pela metade, regresso a Bissau. A cidade
prepara-se para o carnaval. Saio do Bairro da Cooperação para um petisco no
Bairro da Ajuda. No Frango Criollo juntam alguns residentes, para ao fim da tarde,
conviveram à roda da mesa.
Domingo ė dia de descanso semanal e as gentes encontram se debaixo das
árvores, em roda. Alguns com chá, noutros com sumos ou aguardente de cana,
os mais sofisticados com vinho português. De pias, JP ou Monte Velho.
Na TV vem se imagens do jogo. Ao longe, sem som, percebe se uma polémica,
racista.
Nas redes sociais, dá-se conta das polémicas patrimoniais em Portugal.
Substituições nos órgãos do estado - que suscitam apreensão da sociedade civil.
Quadros / objetos de museu, subitamente transformados em peças decorativas.
Polémica. Tesouros não são turismo dizem muitos.
Entre racismo e gentrificção, visto a esta distância, a partir dom lugar de
observação , num país sem estado, o velho terrão mátrio teima em se enveredar
nas questões levantadas pelo Luís Vaz, entre velhos do restelo e empreendedores
de ocasião.
O mundo está mesmo a mudar muito rapidamente.
Crónica da Guine #39
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 49
A picada do mosquito
A simples picada duma mosquita, duma estripe, vulgarmente chamada de
plasmpdiun egiptae, produz febres, dores de cabeça, vômitos, calafrios.
Ao fim da tarde, ou ao amanhecer o silencioso inseto ataca. Uma ferroada e zas.
Umas larvas viajam pela corrente sanguínea, instalam se no fígado e la esta a
sessão. Por vezes, instala se no cérebro e é fatal.
Tratamentos há. O coartem a quinina. Nada que uma água tônica não substitua.
São cada vez mais os mosquitos que por ai param. Secamos lhes os pântanos, e
eles tomam conta da cidade. A procura da sua picada. Zzzzzz!
#Crónica da Guiné #40
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 50
Mana Clea
Chegam de manhã cedo, naquele andar característico das gentes da Guiné.
Balançando o corpo ao sabor da brisa morna da manhã enovoada no Biombo.
Falam alta e expressivamente. Em Kriol. O tom de voz é expressivo. Segue um
padrão musical. Vou entendendo umas coisas aqui e outras acolá.
Falam das Tabancas. Dos ASC, um jovem escolhido pelo chefe tradicional,
treinado para seguir a comunidade e assegurar uma ligação ao centro de saude
local. Boas intenções que aqui e ali vão funcionando porque manas cleas e
tios costa que acreditam que esse trabalho é importante.
Mesmo ao lado, a Universidade de Medicina cubana Jose Arguelles inicia os
trabalhos de Semana. Cantam o hino da Guiné-Bissau e de Cuba. Velhos
resquícios dos tempos heroicos da revolução. Continuam a fazer sentido.
Curiosamente os "comunitários" alheiam se da encenação. Estão noutro filme.
Crónica da Guiné-Bissau #41
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 51
Trânsitos guineenses
Há uma particularidade guineense, em que as coisas acontecem, quando
tem que acontecer. Lentamente.
Os drivers sao simpáticos mas ao mesmo tempo loucos. Guiam sempre
em frente e só param se houver obstáculo.
Na terra é assim mesmo. Um pé de cada vez. La dentro uma ordem.
Branco vai à frente. Criança de escola não paga, nas partes de traz, “na
parti di traz”. Estão a ver como o kriol flui. A senhora di traz tem galinha.
Agora entra uma professora. De óculos, livro di materia, cheirosa. Sai mais
a frente, na tabanca da ponta di gori. A meu lado o motorista barafusta
com o motar. Sai para colocar óleo de 5 em 5 minutos. Cada vez que para
na paragem o motor emudece. É preciso empurrar.
Mas ca chego a Bissau. Um bom momento e uma viagem rápida.
Crónica da Guiné # 42
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 52
Nok e Wak
Vermelho e negro. Seria assim, em Kriol, o nome da obra de Stendhal. Duvido
que o kriol consiga servir para traduzir na íntegra a densidade psicológica das
personagens deste romance fundador do realismo.
Mas se em crioulo não existam, talvez, honras literárias escritas, há uma poética
na narrativa oral que da vivacidade ao discurso. Todos os discursos em kriol sao
vivos e expressivos.
Mas a sua expressividade e linear. Cresce, arredonda-se. Passeia-se. Regressa
ao crescimento e arredonda se, com frases mais ou menos longas.
Será que se consegue ter a nuance dual do nok e wak?
Crónica da Guiné #42
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 53
Nada de novo na frente leste
Salvo erro, era este o título dum livro de Erich Marie Remarke, que recontava
uma história dum soldado germânico, durante a 1 guerra europeia.
Aqui vai a sensação da ilusão que nada se passa. Mas tudo esta a mudar. A mudar
muito rapidamente.
Foi um livro que li na juventude, e que agora recordo com a ideia da inutilidade
da solução guerra.
Por entre a espuma dos dias tudo muda
Cronica da Guiné 43
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 54
Karnaval
E carnaval em Bissau. As pessoas saem para a rua e festejam, dançando ou
bebericando. Sentadas em cadeiras que trazem de casa, normalmente com uma
aparelhagem com uma sonoridade resplandecente, saboreiam a festa. Aqui e
acolá crianças dançam. Alguns adultos montam esplanadas em cima de caixa de
camionetas de mercadorias.
A festa estende se do Espaço Verde para o Badim. Toma conta da praça, onde os
jovens circulam, cheirosos e com a pele brilhante das hormonas.
A municipalidade, este ano, ao invés de manter a festa popular, decidiu transferir
la para o estádio 23 de agosto. Meia bancada cheia.
Em suma a tendência para a asneira e grande na Guine
Cronica da Guiné 44
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 55
Karnaval em Bissau
Carnaval e mesmo assim. São três dias de folia. Em qualquer parte do mundo. E
também tempos de excessos.
Na Guiné-Bissau o Carnaval e tempo de folia. Mas sem excessos. Tudo e contido.
Não deve haver muitas cidades onde se sai simplesmente a rua. Passeia se e
bebe-se. Sem excessos visíveis.
Crónica da Guine 45
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 56
Os Bantabás.
Os Bantabás são lugares de convívio nas aldeias da Guiné-Bissau. No terreiro da
aldeia, sao lugares de encontro onde se conversa, onde se fala do quotidiano e
de coisas sociais. São nas aldeias tradicionais.
O processo de modernização na cidade tende a substituí estes lugares tradicionais
por outros mais "modernos". Bares, discotecas, contentores de vendas, salas de
jogos, etc. Em Bissau a cidade vai se modernizado. As roupas tradicionais passam
a artefactos de carnaval. Aqui e acolá ainda subsiste, ou melhor vai convivendo
com a modernidade. Paradoxalmente outras tradições vão se reforçando, que tal
como a modernidade, se distinguem pelos sinais exteriores.
Nas aldeias, estes sinais tansvéem-se. São visíveis. Sobretudo nas tabancas mais
próximas das redes viárias. Nas pontas como lhe chamam. Sao conexões radiais
com as tabancas interiores. Ainda que aqui e acolá sejam visíveis Bantabás, a
olho nu é visível que também a modernidade se vai instalando.
Resta a pergunta. E onde se encontram hoje os homens. Pelo que vi nos
varandins e percolas. O modelo de casa é hoje a casa retangular com a tal soleira
para os dias de chuva. Ai se cozinha, ai se conversa. Ai se estende as roupas. Ai
as mulheres aí reúnem para catar piolhos aos catraios. Os homens tomam chá
feitos em bules sob as brasas. As casas modernizaram-se. O coletivo dá lugar ao
individual. Nuns lugares mais, noutros menos.
Crónica da Guine #46
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 57
Ecomuseu vivo de Canchungo
A cidade de Canchungo é um pequeno ecomuseu vivo da região. No espaço
urbano, muito africanizado, com animais (porcos, ovelhas, cabras, vacas,
galinhas e outros animais domésticos), organizado a partir de dois eixos
perpendiculares, é um exemplo dos tempos atuais de transição.
A estrada que vem de Có-Bissau/Sao Domingos desagua na Praça de Canchungo,
a roda da qual várias tabancas de desenvolvem em forma de estrela.
Perpendicular a praça a avenida desenvolve se para sul, ao longo da qual se
encontram os equipamentos sociais e edifícios administrativos. A praça em um
lugar de comércio. Sempre cheio de vendedeiras, vários armazéns grossistas, a
praça de táxis. O mercado formal e o informal de rua. Mais a frente a igreja, o
liceu, a missão católica, o antigo depósito de água. Mais à frente o antigo quartel,
o antigo cinema, ambos em ruinas, e os edifícios administrativos. Atualmente a
Câmara, a polícia, a CNE guardada por uma força de Ecocomb, o edifício das
finanças, o registo, etc.
A partir desta avenida, perpendicular desenvolvem de novo os bairros. Aqui a
acolá pequenos comércios locais
E um museu vivo. Eco. Não deixa de ser curioso que nada existe de "cultural"
embora o espaço seja em si cultural. Um dos paradoxos destas novos tempos,
onde a cultura deixa de ter forma de equipamento e se dilui em práticas. Como
e que se treina essa leitura?
Crónica da Guine #47
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 58
A luz
Levam se três dias consecutivos sem luz. As comunicações vão se perdendo, os
frigoríficos deixam de conservar. A noite e mesmo noite Longa e quente.
Em Canchungo a eletricidade e privada. Isto ė, em tempos deve ter sido pública.
Pelo menos o lugar do gerador revela um edifício do tempo colonial. A meio da
vila, para distribuir pelas casas mais abastadas. Atualmente, o Sr. Augusto, um
dinâmico empresário local, e concessionário ou prioritário do gerador. Um
gerador já velhinho, de fabrico chinês.
Habitualmente a eletricidade é fornecida por dois períodos. Um diurno, e outro
noturno. Recentemente, o diurno foi sendo suprimido. A agora também o
noturno.
Dizem que os serviços públicos, naturalmente consumidores diurnos, não pagam
há vários meses. Logo não há dinheiro para repor o combustível. E sem
combustível não há eletricidade.
E uma situação recorrente. Literalmente não há dinheiro na administração
pública. Não há salários. Os fornecedores não são pagos. O dinheiro que circula
e escasso. A sociedade civil troca, mas numa escala de pequena dimensão.
Um país suspenso e sem luz!
Crónica da Guiné #48
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 59
Sissoco Virtual
O país esta suspenso desde o final de dezembro. Entre contagens, recontagem,
atas e decisões do supremo tribunal, acusações mútuas e suspeitas de fraude, a
novela presidencial conheceu hoje um novo episódio.
Um episódio que faz lembrar a Venezuela, quando Gaidó se autoproclamou
presidente interino a partir do parlamento, num golpe, ou tentativa de golpe a
que muitos vêm mão americana e cumplicidades europeias.
Aqui em Bissau, a diferença é que Embalo Seissoco, o General di Povi. Para além
do apoio que recolheu, e será certamente muito, não dispõe dos instrumentos
coercivos do poder.
Por isso hoje assistimos a uma ópera bufa, duma encenação de posse num hotel,
procurando criar um movimento de revolta.
Para além de algumas escaramuças na praça do império, expressas na tentativa
de invadir a sede do PAIGC, nada se passou. As pessoas, sem dinheiro, alhearam
se da questão política. Os militares estão calmos. Em suma nada se passa a não
set a agitação carnavalesca do Parque Verde que prossegue.
Crónica da Guiné #49
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 60
N'to N're Tucpa
50 Crónicas da Guiné. Nos Bijagós a saborear o vento doce do Atlântico. A
travessia e feita de ferryboat. Concentração uma hora antes. Bilhete comprado
para residente. Com o aproximar da hora de partida o movimento cresce.
Com um silvo rouco inicia se a marcha. Soltam as amarras e em marcha a
revolvem se as águas. Bissau distancia se nas águas barrentas. Com os abutres
a acompanhar numa pequena parte, procurando um peixe mais incauto, a cidade
vai ficando mais pequena, ate se diluir na paisagem verdejante.
Indolentemente o barco rasga as águas, balançando com as ondas. No primeiro
piso um bar com bebidas frescas. Na ponte as conversas animam se e vão
passeando ao sabor dos assuntos. Ao longe paisagens verdes de onde
sobressaem os coqueiros. A meio da vigam passamos a ser escoltados por um
par de golfinhos. Prateados, saltam sobre as ondas.
Rumamos para Bubaque. A ilha das galinhas com os seus hotéis de luxos passa.
O barco abranda a velocidade e prepara-se para amarar. Bubaque surge as suas
tabancas. As peixeiras juntam se nas bancas a mostrar o peixe fresco. Os
passageiros dos barcos dispersam se pelas ruelas.
Procuro um hotel. O Saldo mar. Limpo. Barato. Conforto que basta. Luz elétrica.
Uma boa pizza.
Saldomar ... N'to N're Tucpa.
E vão 50 cronicas
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 61
Primado da lei e realidade virtual
Escrevi num postal anterior sobre a relação da política com a realidade
virtual. A simbólica do poder tem os seus lugares e rituais. O exercício do
poder faz se através da ocupação do espaço pelo ritual.
Como todos os atos simbólicos, a estabilidade ou continuidade pode ser
alterada por eventos transitórios. Ruturas da legitimidade, que criam
outras legitimidades.
A era da realidade virtual trouxe para a arena das relações internacionais,
outras legitimidades.
Tivemos o caso da Venezuela, onde a partir do parlamento, se procurou
criar um movimento inssurecional popular,
A ação saiu gorada. Embora muitos problemas se continuem a manifestar,
a ordem da legitimidade. O primado da lei manteve-se.
No caso da Guiné Bissau, no que podemos chamar a questão presidencial,
assistimos a um interessante caso da relação entre a realidade virtual e o
primado da lei.
Do impasse eleitoral. Isto e a partir dum conjunto de questões que
resultam da verificação dos resultados do pleito presidencial suscitaram se
varias diligências nos órgãos de justiça. Entre CNE e Tribunal Supremo
verifica se um pleito sobre o primado da lei.
Enquanto tal, a presidência ficou em suspenso. O candidato declarado
vencedor, embora com as duvidas a dirimir no pleito legal, assume
virtualmente o poder. Fora dos lugares do poder, replicando o ritual. Conta
naturalmente com apoios de peso, Entre os quais o do presidente
cessante, com mandato há vários meses ultrapassado, aceita o general do
povo, como diz o slogan eleitoral, como seu sucessor.
A questão dirime-se agora na Praça pública. A população, fora os apoiantes
diretos dos candidatos, segue a distância. Tudo dependerá então da força
militar. Do sentido em que se movimentarem ou não.
Enquanto navego para os Bijagós vão caindo notícias dos movimentos em
Bissau. Ministérios ocupados. Militares nas ruas. A distância é difícil de
confirmar o que se passa.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 62
Recebemos entretanto informações, da embaixada, pata manter a
descrição. E como quem diz. Para ficar suspenso. A virtualidade peleja
para se tornar realidade. Dentro de em breve se saberá o desfecho. O
tempo não para.
#Guiné 51
Bubake Bijagós
O arquipélago dos Bijagós, um conjunto de ilhas na embocadura dos rios
de Sena e Guiné, é uma das regiões de rara beleza na Guiné. Visitei hoje
a ilha de Bubake.
A pé percorri a estrada que leva a Tabanca de Bijante. Ai, acompanhado
de uns miúdos locais, infleti para a esquerda, e por entre uma picada
repleta de mangai e cajueiros, desemboquei nom praia paradisíaca. Areia
branca. Coqueiros. Ao fundo um pescador e sua canoa. Duas vacas
pachorrentas na praia. Os pássaros esvoaçavam. Com o calor, tudo
amainou.
Umas bananas a taparem o buraco do estômago. Agua carregada na
mochila. Na areia o Edu e seus amigos brincavam, como brincam as
crianças. Pinotes, mergulhos no mar. Uma velha boia a servir de bola.
Uma espécie de paraíso. Regresso ao porto. Entardece na Baia. A calma e
a serenidade toma conta do mundo. Sempre foi assim. Umas vezes com
mais movimento. Outras com gentes que partem. Estrangeiros que sao
sempre.
GUINÉ #52
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 63
Melchior de Bubake
Ontem dos mais velhos de Bubake, sentados na sombra da cabaceira grande,
com vista para o soberbo tarrafe de Bidim, que há um oxum poderoso em
Bubake.
Melchior, como lhe chamam e simultaneamente poderoso e frágil. Poderoso
porque todos verga a sua vontade. Frágil porque aparece sempre desorientado.
Depois da história, regressei ao Saldomar, o B&Bio. Sentei me no terraço e pedia
uma cerveja. Estava cansado do dia de praia. Do sol e da caminhada. Uma brisa
suave enxia o ar, agitando o espanta espíritos com uma música suave. De baixo
vem vinham fumaças com cheiro de cedro. Balanceio a cabeça e, por breves
momentos, passo pelas brasas.
Acordo estremunhado. Belchior estava por ali e perguntava se queria mais uma
cerveja. Ainda estremunhado disse-lhe que estava bem. Ainda entorpecido senti
lhe a inquietação.
Questionei-o: Que passa?
-Nada. Nada! Exclamou. Na mão um braço de ogum. Agitado continuou. Então.
Aldo se passa disse lhe eu. Estás muito branco. Procurei tocar lhe, mas a mão
apenas encontrou ar.
Melchior desloca se nervoso. Irrequieto. Parece uma sombra deslizando por entre
os farrapos de nevoeira que entrava do lado dos fanados.
-Va lá! Sossega um bocado. Conta me o que se passa.
É que eu não encontro o caminho? Diz-me. Não encontro o caminho da Tabanca
grande. O sítio onde mora Anjita a rainha de Badim.
Como não encontras o caminho. E para cima. Mas agora de noite é mais difícil
caminhar na picada.
-Não. Não e esse o caminho que procura. Eu vou pelo caminho de Oxum. Só que
me esqueci como se abre a porta.
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 64
a desconfiar da história, perguntei-lhe¨-Que porta. Os caminhos não tem
portas. Talvez queiras dizer pontas?
-Não não. E mesmo preciso encontrar a porta. E vai, lança uma fala e faz uns
gestos. De repente para. Estás a ver! Esqueci-me do fim. E isto que falta. E
recomeça.
Espera! Disse-lhe Eu acompanho-te. E repeti os gestos. Cuidadosamente. Passo
a paço. Movo os braços em círculos. Estalo os dedos. Faço os sons de cânticos
que parecem vir dos tempos grisalhos dos Bijagós.
De súbito estalei os dedos e ....
Desapareci!
Guiné #53
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 65
Reno e dono di xão
Augusto, régulo de Canchungo estudou na escola dos franciscanos. Na boa
tradição colonial, a política colonial procurava seduzir as chefaturas locais,
deixando lhes algumas prebendas e, claro, procurando educar os filhos. Augusto
estuda até a 4 classe e depois segue a pisadas do seu pai. No sei tempo áureo
teve 13 mulheres. Agora restam lhe duas, finada que foi uma terceira na passada
semana.
Foi tempo de fanado. Cerimônias fúnebres de despedida dos mortos, onde família
e amigos se reúnem durante uma semana. Diz se na Guiné que ninguém liga aos
vivos. Só quando uma pessoa morre e que se juntam as lembranças.
Depois, com mais vagar descreveremos os fanados.
Crónica da Guine #55
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 66
Chez Amy carrefour de cuisine africaine
Na rua Eduardo Mondlane em Bissau um restaurante conhecido como a
senegalesa, oferece uma cozinha elaborada, saborosa e com gosto.
A cozinha guineense poderia ser rica. Há praticamente todos os vegetais
da gastronomia mediterrânica, e influência dos vegetais africanos.
mesmo livros de receitas elaborados. Em Canchungo o Ian cozinha com
mão de autor. Mas em quase todo o sítio se encontra o caldo de peixe, a
galinha assada. Talvez seja um misto da situação do país. Pouco dinheiro,
pouco exigentes consigo mesmo, a proverbial indolência do calor. Mas há
sempre um gosto em estar com o outro.
Cronica da guine #56
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 67
Bojan de Ingoré
Bojan é homem grande de Ingoré. Filho de dono de Chão, herdou o reno por via
da sia tia, rainha, que havia herdado de sua tia, e assim sucessivamente, até que
no tempo dos portugueses, Chefe tinha que ser homem.
Assim, ao invés de seguir a via do serviço aos fanados, foi entronado regulo. A
casa da sua tia ficou vazia. Segundo a tradição, a casa de chefe e terreno
sagrado. Mesmo quando parte, o chão é dele e não serve para habitação dos
vivos. Com o tempo na tabanca vão se sucedendo os filhos e as memórias ficam
mais empobrecidas. Menos lembradas. Também o tempo vai dissolvendo a terra
da casa, que se funde com a terra, consumando se a união entre os vivos, melhor
a memoria dos vivos e os antepassados, que doravante se tornam um tronco
único, como o tronco da cabaceira.
Mas a casa da sua Tia Gaudência, sabe se lá porquê, foi resistindo ao tempo. Os
miúdos tinham medo de lá brincar, pois dizia-se que lá habitavam os fanados.
Bojam, que ainda tinha uns rudimentos da iniciação como fanado, varias vezes
la foi, procurando esses espíritos. Mas sempre que ia, eles brincavam com ele.
Faziam um barulho aqui, um ruido acolá E por mais rezas e fumos que queima-
se, Bodjan só conseguia afastar os espíritos.
Hoje, o seu filho Djalo, chegou esbaforido a chorar, dizendo que na casa de
Gaudência, tinha ouvido vozes que lhe diziam para ir procurar o balafom sagrado.
Bojan olhou para Djalo e lembrou-se que antes de morrer, Gaudência lhe tinha
pedido o balafom e lhe tinha cantado uma canção antiga, que agora lhe vinha à
memória.
Remexeu nas coisas antigas, de outros tempos, que jaziam abandonadas num
canto da tabanca. Pegou no balafom e foi a velha tabanca e cantou a velha canção
que a memória lhe trazia.
E, do nada surgiram os antigos. As rainhas e feiticeiros. Cantavam em conjunto,
uma doce melodia. Traziam vestidos os panos sagrados da família.
Comiam e bebiam sem ligar a Bodjam, que cansado de tocar para por breves
momentos. A festa fica suspensa. Gaudência, que se desatacava pela riqueza das
suas indumentárias, olha para Bodjam e diz-lhe:
tempo de mudanças. Quando eu te dei o reno, cantei a canção dos tempos
antigos. Sao tempo que já passaram. Vai e canta o novos tempos....
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 68
Bodjam acorda na madrugada estremunhado. O Sol ainda não subira no
horizonte. A névoa cobria as cópulas das árvores. A seu lado o Balafom fazia siar
acordes, como se alguém estivesse a dedilhar cordas. De dentro da Tabanca, sai
Ingoré, sua filha. Papá, papá, hoje sonhei que as estrelas que brilham são como
notas da tua música.
Bodjam levanta se e de mão dada com Ingoré e Djalo vão pela tabanca procurar
o lugar do poço, onde a tradição diz que nos tempos passados ao se sentou um
homem com sede e da terra a agua brotou.
Crónica da Guiné #57
IMS#27 Cartas da Guiné Educação Patrimonial 69
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