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Levantamento geográfico da produção de linho cânhamo na América Portuguesa (1716-1822): análise preliminar

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Levantamento geográfico da produção de linho cânhamo na América Portuguesa (1716-1822): análise preliminar

Abstract

A expansão ultramarina moderna, entre os séculos XV e XIX, ocorreu em parte graças ao desenvolvimento do poder militar e naval das potencias europeias. Logo, as tecnologias de navegação do período aprimoraram a construção das naus e caravelas que, por sua vez, possibilitaram a exploração em alto-mar. As velas e as cordoarias dessas embarcações eram fabricadas a partir de cânhamo (Cannabis). Diante dessa importância, a Coroa Portuguesa incentivou a produção de cânhamo na Colônia do Brasil, entre 1716 e 1822. Nesse período, Portugal realizou uma série de tentativas em diferentes espaços do território colonial. Este trabalho realiza um primeiro mapeamento geográfico dessas tentativas. Para tal, foram consultados documentos disponíveis no Projeto Resgate e documentos produzidos pela administração da Real Feitoria do Linho Cânhamo.
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9, 10, 11 e 12 de novembro
2020
Levantamento geográfico da produção de linho
cânhamo na América Portuguesa (1716-1822):
análise preliminar
Lilian da Rosa
X Encontro de Pós-Graduação em História Econômica & 8ª Conferência
Internacional de História Econômica
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Levantamento geográfico da produção de linho cânhamo na América Portuguesa (1716-
1822): análise preliminar
1
Geographical survey of hemp flax production in Portuguese America (1716-1822):
preliminary analysis
Lilian da Rosa
2
Resumo
A expansão ultramarina moderna, entre os séculos XV e XIX, ocorreu em parte graças ao
desenvolvimento do poder militar e naval das potencias europeias. Logo, as tecnologias
de navegação do período aprimoraram a construção das naus e caravelas que, por sua vez,
possibilitaram a exploração em alto-mar. As velas e as cordoarias dessas embarcações
eram fabricadas a partir de cânhamo (Cannabis). Diante dessa importância, a Coroa
Portuguesa incentivou a produção de cânhamo na Colônia do Brasil, entre 1716 e 1822.
Nesse período, Portugal realizou uma série de tentativas em diferentes espaços do
território colonial. Este trabalho realiza um primeiro mapeamento geográfico dessas
tentativas. Para tal, foram consultados documentos disponíveis no Projeto Resgate e
documentos produzidos pela administração da Real Feitoria do Linho Cânhamo.
Palavras-chave: produção, cânhamo, expansão ultramarina, Brasil Colonial, Portugal.
Abstract
The modern oversea expansion, along the fifteenth and nineteenth centuries, occurred in
part because of the development of military and maritime force of European powers. In
this sense, nautical technologies of that period improved the construction of ships and
1
O presente artigo é parte de uma pesquisa de Pós-doutorado realizado no Programa de História Econômica do Departamento de
História na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, sob supervisão do Prof. Dr. Henrique Soares Carneiro.
Agradeço ao Programa de História econômica da USP e ao Professor Carneiro pela acolhida. Agradeço ainda a Profª. Drª Ligia Maria
Osório Silva pelas sugestões.
2
Lilian da Rosa é doutora em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Pós-doutoranda
no Departamento de História na na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. ORCID [http://orcid.org/0000-0001-
6901-4476]. E-mail: lilianrosa.rs@gmail.com
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caravels, enabling ultramarine navigation. The cordages and sails of such watercraft were
manufactured from hemp (Cannabis). In view of this importance, the Portuguese Crown
tried to produce hemp in the Colony of Brazil, between 1716 and 1822. In this period, the
Crown realized a series of attempts in different spaces of the colonial territory. This work
performs a first geographical mapping of these attempts, considering documents from the
Resgate Project and from the administration of Real Feitoria do Linho Cânhamo.
Keywords: production, hemp, oversea expansion, Brazilian Colony, Portugal.
Introdução
Portugal inaugurou a expansão ultramarina do início da era moderna, por volta
de 1415. Em 1480, os portugueses controlavam as rotas e os entrepostos comerciais
com o Marrocos, navegavam pelo extremo sul da costa africana e exploravam as Ilhas da
Madeira e dos Açores. Essas explorações estimularam o estabelecimento de
empreendimentos econômicos tais como o comércio de bens de luxo, o apresamento de
escravos e a introdução da cana-de-açúcar nos açores. No final do século XV, Portugal
era considerado um império vasto e diversificado (BOXER, 1969; GODINHO, 2008;
AZEVEDO,1929). Seu feito, inclusive, despertou o interesse de outros Estados europeus:
espanhóis, holandeses e ingleses, ao longo do século XV, irromperam como fortes
competidores. Todos esses Estados consolidaram o movimento de expansão ultramarina
europeia (BOXER,1969).
No século XVI, essa expansão ultramarina avançou para as terras a Oeste e
culminou com a ocupação e a exploração da América, de tal forma que, entre outros
aspectos, essa apropriação se traduzisse em uma expansão dos solos cultiváveis das
potências europeias (POMERANZ, 2000). Nesse sentido, a ocupação territorial, o
povoamento e a organização da produção em modelo de plantation estavam entre os
principais meios de atuação dessas potências. A partir da segunda metade dos Setecentos,
essa conjunção de fatores tornou as Colônias da América fornecedoras de matéria-prima
à Europa ao mesmo tempo em que receptoras das manufaturas europeias, ao combinar
colônia e metrópole, súdito colonial e cidadão, produtor e consumidor europeu e, por fim,
escravo e proletário (MINTZ, 1985; 2003). Os espaços americanos foram, de fato,
integrados à lógica do Mercantilismo.
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Assegurados pelo poder militar e econômico europeu, os descobrimentos
marítimos levaram a uma economia em escala mundial, assentada na circulação de
mercadorias, na divisão internacional do trabalho e nas trocas desiguais (PEDREIRA,
1994). Essa organização forjou uma certa hierarquia de capacidades, certos níveis de
desenvolvimento econômico, bem como uma integração estratificada e assimétrica dos
espaços um centro dominante, uma semiperiferia intermediária e uma periferia
dominada o que, ao longo do século XVI, suscitou a emergência de um sistema-mundo
moderno (WALLERSTEIN, 1974, 1996).
De certo modo, essa emergência e expansão do sistema-mundo moderno só foi
possível graças ao desenvolvimento do poder militar e naval. Nesse sentido, as
tecnologias de navegação do período aprimoraram a construção de naus e caravelas, que
possibilitaram, por sua vez, o trânsito de homens, plantas e mercadorias pelos oceanos.
Particularmente, as velas e cordoarias dessas embarcações eram fabricadas a partir de
cânhamo (Cannabis) planta que, por essa razão, tem ganhado destaque nos estudos
historiográficos sobre a época do Mercantilismo.
Alguns indícios arqueológicos, datados com mais de 6.000 anos, sugerem que a
Cannabis seja originária da Ásia Central, mais precisamente da China, onde suas
sementes eram utilizadas para a alimentação e suas fibras para a fabricação de utensílios
como calçados, vestimentas e cestos (LI, 1974). Aos poucos, suas variedades se
espalharam pela Ásia e África e, depois, pela Europa. Registros indicam que, nesse último
continente, do século XIV ao XVIII, o cânhamo e suas sementes eram utilizados para as
produções de óleo, de remédio, de tecido e de papel (CARNEIRO, 2002). Em especial, a
produção de fibras de cânhamo merece destaque porque foi de grande valor econômico
para as grandes potências europeias. De fato, como mencionado há pouco, ao longo do
período mercantilista, o cânhamo era a principal matéria-prima na produção de cordoarias
e velas de navios (DÍAZ-ORDÓÑEZ, 2016; CONTRERAS, 1974), a tal ponto que
algumas estimativas indicam que as embarcações europeias utilizaram mais de 300 mil
toneladas só para a primeira armação, sem contar as reposições conforme o desgaste do
tempo (DÍAZ-ORDÓÑEZ, 2009).
Nesse contexto das grandes navegações do período mercantilista, o leque
temático aberto pela historiografia internacional configura terreno bastante profícuo à
análise da produção de cânhamo. Isso porque já existe uma discussão bibliográfica
alavancada por diferentes centros de pesquisas, principalmente os europeus. Alguns
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desses centros
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analisam o papel decisivo do comércio e da mobilidade dos chamados
produtos estratégicos aço, madeira, cânhamo, mastro, entre outros e relacionam esses
produtos com a política defensiva dos Estados Nacionais no período mercantilista. Nessa
linha interpretativa, o cânhamo é entendido como um dos produtos fundamentais de
defesa das potências europeias, sobretudo porque “os veleiros militares e mercantes, que
criaram e sustentaram essas mesmas instituições políticas nos séculos modernos, foram
combinados com centenas de milhares de toneladas de cordame e velas feitas de
cânhamo” (DÍAZ-ORDÓÑEZ, 2016).
Devido a essa importância econômica, vários historiadores estrangeiros se
debruçaram sobre a relevância do cânhamo nesse período. Hopkins (1998) e Robert
Deitch (2003), por exemplo, trataram sobre a produção de hemp nas 13 colônias
britânicas. Segundo esses autores, essa produção foi inserida por volta de 1619, com o
intuito de fornecer matéria-prima para a indústria naval. Além do cânhamo produzido nas
13 colônias, uma parcela da historiografia aponta que a Inglaterra também importava da
Rússia uma grande parte do cânhamo que consumia (MORRIS,1990; MORRIS 2011;
CONTRERAS, 1974; MILLS, 2003).
De fato, existe um relativo consenso na historiografia internacional de que a
Rússia foi uma das maiores produtoras de cânhamo entre os séculos XIV e XVIII e o
exportava sobretudo para a Inglaterra e a Espanha nesse último caso, por meio de uma
rede de comércio controlado pela Holanda (SOLANA, 2007; GOODMAN, 2001). Nesse
período, a Rússia possuía uma economia agrária e seu comércio de longa distância se
baseava em 3 produtos: grãos, rebanhos e cânhamo. No século XVIII, por exemplo, o
cânhamo representou em torno de 34% das exportações russas em 1710, 16% em 1725,
28% em 1759 e 19% em 1769 (MIRONOV, 1992).
Ainda em relação à Espanha, Díaz-Ordóñez (2016) aponta que esse Império
Ultramarino foi deficitário em cânhamo entre os séculos XVI e XVII. Contudo, a partir
de 1740, para resolver tais dificuldades produtivas e tentar garantir uma certa autonomia,
a Secretária da Marinha da Espanha investiu maciçamente nessa produção. O autor
analisou dados da referida Secretária e calculou que, em 1784, Granada colheu 134 mil
arrobas, Catalunha 190 mil, Valência 270 mil, Arragón 202 mil e Agreda 25 mil. Nesse
período o cânhamo era produzido tanto no Oriente quanto no Ocidente.
3
Como por exemplo, o historiador Manuel Diaz-Ordóñez, da Universidade de Sevilha e o grupo de estudos
“Commodities of Empire” membros da Open University’s Ferguson Centre for African and Asian Studies.
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Em Portugal, o cânhamo foi inserido no século XIV e se tornou um produto
importante. Pedreira (1994), por exemplo, recupera o testemunho de Duarte Ribeiro de
Macedo e mostra que, por volta de 1680, o cânhamo português abastecia o mercado
interno e o excedente era exportado para Castela. Nesse período, essa produção ocorria
principalmente na vila de Moncorvo, Comarca de Trás-os-Montes. Considerada a maior
produtora de cânhamo de Portugal, Moncorvo desfrutou de uma certa prosperidade
econômica entre os séculos XVI e meados do século XVII (SÁ, 1991; SOUSA, 2009),
antes de ser invadida pelos exércitos espanhóis: na Guerra da Restauração (1640-1668),
houve conflitos, saques e cercos em localidades do vale de Vilariça; na Guerra de
Sucessão (1703-1713), houve a ocupação de Trás-os-Montes; e, finalmente, na Guerra
dos Sete Anos (1762-1763), houve a rendição de Bragança, Outeiro e Moncorvo. Como
consequência, essas beligerâncias contribuíram para um acentuado processo de
emigração e de desestruturação da produção de cânhamo na região de Trás-os-Montes
(SÁ, 1991; SOUSA, 2009; LEONARDO, 2013; SOUSA et al., 2009). Com a decadência
dessa produção, o governo de Marques de Pombal, em 1755, criou a Real Fábrica da
Cordoaria, em Lisboa, com o objetivo de manter a produção de velas e cordoarias
necessárias à indústria naval (PEREIRA, 1972)
4
.
Assim, dada a importância do cânhamo para a sociedade portuguesa nesse
período e dado o declínio dessa produção na região transmontana, não surpreende o fato
de que a Coroa tentou por diversas vezes estabelecer a agricultura de cânhamo em suas
colônias. Em particular, no caso da América Portuguesa, as experiências perduraram por
mais de um século, de 1716 a 1822. Com base nisso, este trabalho mapeia algumas dessas
tentativas de produção de cânhamo na Colônia do Brasil.
Projeto resgate: novas perspectivas sobre a produção de linho cânhamo
De maneira geral, a história do cânhamo no Brasil ainda é pouco estudada pelos
historiadores brasileiros. Com esforços centrados na Real Feitoria do Linho Cânhamo
(RFLC), a maior parte dos estudos aponta que o estímulo à cultura do linho cânhamo
4
Embora trabalhos clássicos como os de Boxer, Godinho, tenham destacado a importância da frota naval, eles não
analisaram com profundidade o modo como as caravelas, os galões e as naus eram fabricadas. Boxer (2008), por
exemplo, até ressaltou a importância da madeira na construção dessas embarcações; no entanto, nada registrou sobre
as cordoarias e velas e nem sobre o uso do cânhamo. Por outro lado, essa matéria-prima tem ganhado espaço na
historiográfica portuguesa com os trabalhos de Pereira (1972), Pedreira (1994), Sá (1991), Freitas (2006), Sousa (2009),
Sousa et al. (2009) e Leonardo (2013).
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vinha ao encontro da grande demanda por matérias-primas para a confecção das
cordoarias e velas da indústria naval. Esses estudos buscaram compreender a lógica de
produção, as relações familiares dos escravos, bem como as justificativas para a
emergência e posterior decadência da RFLC. Menz (2003, 2005 e 2006), por exemplo,
analisou a organização dos escravos da Feitoria e defendeu que a autonomia conquistada
por estes, especialmente se comparada à situação dos demais no período, permitiu a
formação de uma rede de solidariedade, sobretudo em momentos de conflitos com os
administradores. Segundo o autor, os escravos souberam explorar os problemas
administrativos da Feitoria para inviabilizar o regime de plantation no qual estavam
inseridos. Wehling (2010), outro exemplo, analisou a agricultura de cânhamo nas
Capitanias de Santa Catarina e de Rio Grande de São Pedro e defendeu que a falta de
interesse dos colonos em adquirir e cultivar as sementes foi determinante para que essa
agricultura não prosperasse. Outros autores também abordaram a produção de cânhamo
em tópicos de livros e teses, mas sem que esta fosse o objeto central da análise. Miranda
(2000) analisou a agricultura de cânhamo, nas Capitanias de Santa Catarina e de Rio
Grande de São Pedro, como uma política do Estado Português. Pesavento (2009), por sua
vez, defendeu que o linho cânhamo recebera incentivos da Coroa semelhantes ao café, ao
arroz e ao anil; entretanto, não obteve êxito. Alves (2017), por fim, analisou os projetos
portugueses de desenvolvimento agrícola, com enfoque nas tentativas de produção de
cânhamo em Pernambuco.
Os trabalhos de trabalhos Menz (2003, 2005 e 2006), Wehling (2010) e Miranda
(2000) avançaram no debate sobre a produção de cânhamo, sobretudo, através de um
conjunto de manuscritos produzidos pela administração da RFLC que estão sob custódia
do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul (AHRS). Este arquivo guarda um conjunto
de documentos, reunidos em um maço único
5
, que abrange todo o período de existência
da Feitoria. Esse conjunto documental reúne uma série de informações relacionadas à
administração e produção da Feitoria. De modo geral, tais documentos disponibilizam as
seguintes informações: (a) dois mapas que mostram a planta da RFLC no Faxinal do
Courita, com a especificação das instalações; (b) uma subpasta com documentos que
apontam as “formalidades” do plantio de cânhamo; (c) relatórios com a contabilização
dos escravos; e (d) ofícios e relatórios que abordam a vida dos escravos, tanto no aspecto
5
Rio Grande do Sul. AHRS. Caixa Feitoria do Linho Cânhamo.
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do trabalho quanto no da manutenção da vida e de suas relações pessoais e familiares,
entre outros.
Os trabalhos de Pesavento (2009) e Alves (2017), por sua vez, se basearam em
documentos parciais disponibilizados através do Projeto Resgate e sinalizaram a
existência de outro conjunto documental que permite uma análise mais pormenorizada e,
ao mesmo tempo, mais ampla sobre a produção de linho cânhamo na América Portuguesa.
De certo modo, esse avanço neste campo de pesquisa é um reflexo de acordos
diplomáticos entre Brasil e Portugal, por intermédio da UNESCO
6
, que disponibilizou
documentos de países que, no passado, estiveram ligados pelas políticas coloniais. O
projeto Resgate Barão do Rio Branco teve início em 1995 e permitiu a digitalização de
aproximadamente 195 mil documentos
7
que estavam sob custódia do Arquivo Histórico
Ultramarino (AHU), em Portugal. Com o término do projeto em 2003, todos os
documentos contidos no Fundo do Conselho Ultramarino foram distribuídos para
diferentes centros de pesquisa e disponibilizados para consultas online.
Os documentos contidos no Fundo do Conselho Ultramarino contêm: (a) ofícios
do Vice-Rei do Brasil, do Intendente Geral da Polícia da Corte e do Reino, de
Governadores e de Capitães-Gerais, para reportar à administração portuguesa o processo
de desenvolvimento de cânhamo em solo colonial; (b) minutas e ofícios dos Secretários
de Estados e Ultramar enviadas ao Vice-Rei, aos Governadores e Capitães-Gerais, para
informar as decisões do Estado Português sobre os projetos de produção de cânhamo; (c)
ofícios dos administradores da Real Fabrica de Portugal sobre a análise de amostras de
cânhamo recebidas da Colônia; e (d) cartas de representantes da Coroa enviadas ao
secretário da Marinha e Ultramar, para informar sobre as incumbências da produção de
cânhamo na Colônia. De modo geral, esses documentos trazem informações valiosas para
inferir os desejos e anseios da administração portuguesa no tocante à produção de
cânhamo na Colônia e permitem construir uma visão de Estado sobre esse assunto. Assim,
neste acervo, como forma de consulta prévia, foram localizados uma série de documentos
que permitiram um primeiro esforço para mapear a produção de linho cânhamo na
América Portuguesa. O texto a seguir, traz um primeiro mapeamento geográfico sobre a
6
O Projeto Resgate se fundamentou na Resolução da UNESCO nº 4212 de 1974, que considerou patrimônio comum
todos os documentos de países que estiveram ligados pelas políticas coloniais (BERTOLETTI, 2000).
7
Conforme apresentação do Projeto Resgate, realizada em outubro de 2000, relacionado ao Catálogo dos Códices do
Fundo do Conselho Ultramarino relativos ao Brasil existente no Arquivo Histórico Ultramarino.
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Produção de cânhamo no Brasil a partir dos documentos da RFLC e do Fundo do
Conselho Ultramarino.
O cânhamo na Colônia do Brasil
A Coroa Portuguesa adotou duas estratégias para inserir esse produto na
economia colonial. Na primeira, colonos e lavradores, residentes em diferentes espaços
do território, eram incentivados a produzir cânhamo em suas propriedades; enquanto, na
segunda, a própria Coroa era a responsável pela produção, em estabelecimentos
administrados por seus representantes. Segue uma breve descrição de ambas estratégias
e segue um breve panorama sobre algumas tentativas associadas a elas.
Tentativas realizadas por particulares
O incentivo à produção de particulares teve início em 1716, na Colônia de
Sacramento, quando 40 casais da Província de Trás-os-Montes migraram para lá com o
objetivo de povoar a região e de se dedicar à agricultura, inclusive de cânhamo
8
. Na
ocasião, cada casal recebeu 3 alqueires desse cultivar
9
. Já em 1747, o Estado Português
realizou uma política semelhante em Santa Catarina. Nesse caso, o Governador Gomes
Freire de Andrade recebeu sementes de cânhamo para distribuí-las à população açoriana
recém-chegada (WEHLING, 2009). De certo modo, essas tentativas em espaços
meridionais da Colônia visavam a ocupação do território para garantir a posse portuguesa,
bem como a produção de um produto estratégico para Portugal.
Além dos espaços meridionais, a produção de cânhamo também foi implantada
na Capitania do Maranhão e Pará. Em 1750, um ofício do Secretário da Marinha e
Ultramar informou que, depois de examinadas, uma parte das espigas de linho cânhamo,
enviadas por essa Capitania à Portugal, foi utilizada na fabricação de cordas; enquanto a
outra parte, de pior qualidade, não foi utilizada por estarem muito secas. Na mesma
correspondência, o referido Secretário indicou que um cânhamo de boa qualidade deveria
possuir mais folhas e concentrar um pouco de umidade em seu interior
10
. Um ano mais
tarde, em 1751, o Governador do Maranhão e Pará, Gomes Freire de Andrade, informou
8
AHU. Projeto Resgate. Rio de Janeiro Avulsos (1614 1830) Cx. 10. Doc. 1032; e Cx. 12. Doc. 1352.
9
AHU. Projeto Resgate. Cx. 31. Doc. 7278-7310. 17/07/1732.
10
AHU. Projeto Resgate. Cx. 34. Doc. 3224. 30/05/1753
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o Secretário da Marinha e Ultramar, Diogo Mendonça Corte Real, que as experiências
feitas com as sementes de linho cânhamo não alcançaram os resultados esperados. Em
sua opinião, a dificuldade de produzi-lo residia no fato de que o transporte, nos porões
das naus, fazia com que as sementes envidas pela Coroa chegassem na Colônia em más
condições. A despeito disso, o Govenador reivindicou novas sementes para dar
andamento no projeto de produção de linho cânhamo
11
.
Apesar dos reveses, a Coroa não abandonou o projeto do cânhamo na Colônia.
A partir de 1780, houve um aparente aumento no incentivo e nas tentativas de produzi-
lo. No final do século XVIII, especialmente a partir do governo de D. Maria I, as ideias
do iluminismo influenciaram o pensamento e as ações políticas do Estado Português. Um
desses reflexos foi a fundação da Academia de Ciências de Lisboa, em 1789. Essa
instituição fomentou a investigação científica e econômica, ao estimular a criação de
museus e bibliotecas e estimular a produção intelectual nos vários campos. Nesse
contexto, houve uma valorização da natureza, bem como uma valorização de estudos
sobre os diferentes espaços do Reino e das Colônias, principalmente sobre aqueles com
alguma importância agrícola para a economia portuguesa (NOVAIS, 2005).
Esses estudos preconizavam uma agricultura em moldes técnicos e logo
passaram a influenciar as políticas de incentivo à produção de cânhamo na Colônia. Nesse
sentido, Portugal começou a enviar, além de sementes, manuais de produção que
explicavam os métodos mais eficazes para cultivá-lo. De maneira geral, o Vice-Rei, D.
Luís de Vasconcelos e Sousa, recebia as sementes e os manuais e os reencaminhava para
os Governadores e Capitães Gerais os quais, por sua vez, encarregavam-se de
redistribuí-las às pessoas “curiosas” e capazes de investir nessa produção. Além disso, a
Coroa começou a enviar especialistas na produção de cânhamo, com a missão de
solucionar os problemas relativos a essa agricultura em solo colonial
12
.
Com essas iniciativas da Coroa, a agricultura de cânhamo se disseminou pela
Colônia: há registros de tentativas na Capitania do Maranhão e Piauí, no Estado do Pará
e Rio Negro, na Capitania de Pernambuco, na Capitania da Bahia, na Capitania do Rio
Grande de São Pedro e na Ilha de Santa Catarina. Na Capitania do Maranhão e Piauí, em
1780, a tentativa contou com a participação de 26 lavradores
13
. Quatro anos mais tarde,
11
AHU. Projeto Resgate. Cx. 64. Doc. 15.135. 14/05/1751
12
AHU. Projeto Resgate. Cx. 132. Doc. 10739.
13
AHU. Projeto Resgate. Maranhão (1614-1833). Ofício do Governador e Capitão Geral do Maranhão e Piauí D.
Antônio de Sales e Noronha, para o Secretário de Estado da Marinha e Ultramar. Doc. 5233. 25/09/1780.
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10
em outra correspondência, o Governador e Capitão-Geral do Maranhão e Piauí, José Teles
da Silva, enviou, para o Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, Martinho de Melo
e Castro, um relatório sobre a existência de “grandes sementeiras” de cânhamo, bem como
amostras produzidas
14
.
No Estado do Pará e Rio Negro, em 1780, o Governador e Capitão Geral, José
de Nápoles Telo de Menezes, escreveu, ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar,
para informar que recebera um saco de sementes de linho cânhamo e manuais com
instruções de plantio. A maior parte dessas sementes foi enviada para a praça de Macapá
aos cuidados do Vigilante do Estado, Manuel L. de Almeida, o responsável pela produção.
O restante das sementes foi enviado ao Diretor da Vila de Bragança, para que nas “férteis
e dilatadas campinas de Caeté fosse feito as experiências com o plantio do cânhamo”
15
.
Na Capitania de Pernambuco, em 1785, o Governador, José César de Meneses,
em correspondência enviada para Lisboa, confirmou o recebimento de sementes de linho
cânhamo e linho donzela, assim como o de exemplares de uma publicação que tratava
dos métodos de cultivo. Esses materiais seriam distribuídos para as pessoas “inteligentes
e cuidadosas”, residentes em diversas localidades da Capitania, com o intuito de descobrir
em quais terrenos as referidas sementes se adequariam melhor. (ALVES, 2007).
Na Capitania da Bahia, a partir de 1780, as experiências com sementeiras de
linho cânhamo e linho donzela ocorreram na Comarca de Ilhéus. Neste local, um dos
principais responsáveis pela inserção dessa produção foi o lavrador Manuel Rodrigues da
Costa
16
, trazido diretamente de Portugal com ajuda de custo da Coroa
17
. Esse lavrador
registrava suas tentativas em relatórios e os enviava ao Governador Geral da Capitania
que, por sua vez, os remetia ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar
18
.
Em 1782, o próprio Vice-Rei do Brasil, D. Luís de Vasconcelos e Sousa,
recebeu, do Secretário de Estado da Marinha e Ultramar, 23 alqueires e meio de semente
de linho cânhamo e manuais com instruções sobre o modo como devia ser tratado e
fabricado. O Vice-Rei tinha a ordem expressa para distribuí-los as pessoas que se
“parecessem mais inteligentes a cultura desse gênero”. Ele enviou as sementes e os
14
AHU. Projeto Resgate. Maranhão (1614-1833). Ofício do Governador e Capitão Geral do Maranhão e Piauí D.
Antônio de Sales e Noronha, para o Secretário de Estado da Marinha e Ultramar. Cx. 63. Doc. 5665. 13/09/1784.
15
AHU. Projeto Resgate. Cx. 85. Doc. 6950. 17/04/1780
16
AHU. Projeto Resgate. Rio de Janeiro (1614-1830). Ofício do Vice-Rei do Brasil. 17/11/1795.
17
AHU. Projeto resgate. Cx. 191. Doc. 14021. 14/01/1870
18
AHU. Projeto Resgate. Rio de Janeiro (1614-1830). Ofício do Vice-Rei do Brasil. 17/11/1795.
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11
materiais a lavradores do Rio Grande de São Pedro, de Santa Catarina e do Rio de Janeiro,
que já possuíam alguma experiência
19
.
Ademais, em 1799, a Junta da Fazenda Real do Rio de Janeiro enviou, para a
Capitania do Rio Grande de São Pedro, sementes de linho cânhamo e modelos de
instrumentos a serem distribuídos a lavradores escolhidos. Também foram encaminhadas
instruções sobre a forma de preparo das sementeiras, com o objetivo de garantir o sucesso
do empreendimento (MIRANDA, 2000, p. 143). Em 1804, por sua vez, o Vice-Rei do
Brasil recebeu 3 barris de sementes de cânhamo, dos quais 2 foram enviados ao
Governador do Rio Grande
20
. Além desses casos brevemente apresentados, documento
oficiais da época indicam que a Coroa pretendia inserir a produção de cânhamo em São
Paulo
21
e Minas Gerais
22
.
Apesar de todo o incentivo da Coroa no tocante à produção de cânhamo envio
de manuais, de especialistas e de sementes , correspondências de Governadores enviadas
ao Secretário da Marinha e Ultramar revelam as dificuldades na realização dessa
produção. Em 1780, o Governador e Capitão Geral do Estado do Pará e Rio Negro, José
de Nápoles telo de Menezes, escreveu, ao Secretário de Estado da Marinha e Ultramar,
para informar que as experiências com o plantio de cânhamo nas praças de Macapá, Caeté
e Cametá eram frustrantes porque as sementes não germinavam
23
. Em 1784, o mesmo
Governador voltou a relatar problemas relacionados à produção e, como providência, a
Coroa enviou naturalistas para ajudar a investigar e a solucionar tais problemas. Em 1788,
o Governador Geral de Pernambuco, D. Tomas de Melo, alegou que suas Comarcas
receberam sementes de cânhamo deterioradas e, por isso, solicitou, do Secretário da
Marinha e Ultramar, o envio de mais sementes embora estivesse um tanto quanto
desiludido com essa produção, uma vez que, na Capitania de Pernambuco, eram
“raríssimas” as pessoas “curiosas” e dispostas a fazer experiências com sementes
estranhas
24
.
19
AHU. Projeto Resgate. Cx. 119. Doc. 9675. 3/08/1782
20
AHU. Projeto Resgate. Cx. 216. Doc. 14912. 18/-2/1804
21
AHU. Projeto Resgate. Cx. 168. Doc. 12480. 21/11/1798.
22
AHU. Projeto Resgate. Cx. 168. Doc. 12480. 21/11/1798.
23
AHU. Projeto Resgate. Cx. 86. Doc. 7060. 31/10/1780.
24
AHU. Projeto Resgate. Cx. 162. Doc. 11604. 18/02/1788.
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Internacional de História Econômica
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Diante das dificuldades nessa estratégia de incentivo à produção de cânhamo por
particulares, a Coroa passou a se responsabilizar diretamente pela produção, em
estabelecimentos reais administrados por seus representantes (MIRANDA, 2000).
Tentativas realizadas pela Coroa
Em 28 de julho de 1783, o Vice-Rei Marquês de Lavradio sancionou um Decreto
para fundar a Real Feitoria do Linho Cânhamo (RFLC), no rincão de Canguçu, próximo
à Lagoa dos Patos. A Feitoria foi, inicialmente, administrada pelo padre Francisco
Rodrigues Prates Xavier, que contava com o apoio dos irmãos e soldados do Regimento
de Bragança João e Mathias Martins, experientes em lavouras de cânhamo na Europa
(BRANDÃO, 2014). A RFLC contava com aproximadamente 20 casais de cativos. “Com
esse estabelecimento, o governo metropolitano objetivava desenvolver a cultura do
cânhamo e, ao mesmo tempo, criar um centro produtor de sementes, a partir do qual a
cultura fosse disseminada entre os lavradores privados” (MIRANDA, 2000, p. 143). Em
1788, a Feitoria foi transferida para o Faxinal do Courita, próximo a Porto Alegre e a Rio
dos Sinos. Nesse local, a RFLC recebeu 53 novos escravos confiscados de
contrabandistas e registrou um aumento de produção: o rendimento anual passou de 111
arrobas, em 1785, para 329 arrobas e 16 libras, em1789 (MENZ, 2005). O aparente
sucesso da RFLC inclusive encorajou o Secretário do Consulado de Buenos Aires,
Manual Belgrano, a inserir o cultivo de cânhamo em Buenos Aires, no ano de 1790
(COONEY, 1979).
A Real Fazenda de Santa Cruz
25
, no Rio de Janeiro, também foi utilizada para o
desenvolvimento da agricultura de cânhamo
26
. A produção nessa Fazenda teve início na
primeira metade de 1790 e, como a da RFLC, estava assentada em mão de obra escrava.
Em oficio de 1799, o Vice-Rei do Brasil, D. José Luís Castro, informou, ao Secretário de
Estado da Marinha e Ultramar, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, que o linho cânhamo,
plantado na Fazenda de Santa Cruz, crescera a altura de 8 a 12 palmos e rendera um
alqueire de sementes
27
.
25
Após a expulsão dos jesuítas, em 1759, a Fazenda de Santa Cruz foi incorporada ao patrimônio da Coroa portuguesa
entrando em um período de decadência em sua produção. Foi apenas a partir de 1790 que a Fazenda de Santa Cruz se
tornou alvo de interesse da Coroa que procurou recupera-la e torná-la mais rentável. Ainda vale destacar que a Fazenda
de Santa Cruz não era utilizada somente pela Coroa, tal como a RFLC. Em suas terras viviam foreiros, sesmeiros,
índios e intrusos de toda ordem (VIANA, 1974; PEDROZA, 2018).
26
AHU. Projeto Resgate. Avulsos, Rio de Janeiro (1614-1830). Ofício do Vice-Rei do Brasil. 17/11/1795.
27
AHU. Projeto Resgate. Cx. 171. Doc. 12685.
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Internacional de História Econômica
13
Embora não se saiba os detalhes sobre a produção de cânhamo na Fazenda de
Santa Cruz, sabe-se, contudo, que a RFLC funcionou por cerca de 40 anos. Em 1824, o
estabelecimento foi extinto por decisão do governo imperial brasileiro e suas terras foram
destinadas aos imigrantes alemães que ali chegaram naquele ano. De certo modo, o novo
momento político caracterizado pelo Império brasileiro (1822-1889) priorizava outros
projetos políticos e econômicos e a produção de cânhamo por meio da Real Feitoria
aparentemente não se incluía nestes. Os escravos existentes foram transferidos para a Real
Fazenda de Santa de Santa Cruz. (MENZ, 2005)
Os casos vistos até aqui fornecem uma breve descrição sobre a importância do
cânhamo para Portugal que, por meio de uma política de Estado, tentou por um longo
período 1716 e 1822 inseri-lo em território colonial como um produto econômico.
Considerações finais
A inserção do cânhamo no Brasil colonial ocorreu como desdobramento das
políticas de Portugal, que visavam a produção de um produto estratégico para a indústria
naval no período das grandes navegações, uma vez que as velas e cordoarias das
embarcações eram fabricadas a partir de cânhamo, sua principal matéria-prima.
Do que foi mapeado até o presente momento, as primeiras tentativas iniciaram
em 1716 e perduraram até 1822 e foram sendo implementadas aos poucos em diferentes
espaços geográfico do território colonial: na Capitania do Maranhão e Piauí, no Estado
do Pará e Rio Negro, na Capitania de Pernambuco, na Capitania da Bahia, na Capitania
do Rio Grande de São Pedro, no Rio de Janeiro e na Ilha de Santa Catarina. Além desses
casos, os documentos oficiais da época indicam que a Coroa pretendia inserir a produção
de cânhamo em São Paulo e Minas Gerais, projetos que, aparentemente, não foram
implementados.
Para fomentar essa produção, a Coroa Portuguesa adotou duas estratégias: na
primeira, colonos e lavradores particulares eram incentivados a produzir cânhamo em
suas propriedades; enquanto, na segunda, a própria Coroa era a responsável pela
produção, em estabelecimentos administrados por seus representantes que faziam uso de
mão de obra escrava, como um típico regime de plantation.
De modo geral, o texto apresenta um primeiro esforço de mapear alguns espaços
utilizados para inserir o cânhamo como um produto econômico no território colonial e
coloca no horizonte analítico um objeto de pesquisa que demanda outras investigações,
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Internacional de História Econômica
14
ou seja, é necessário avançar sobre as especificidades de cada uma dessas iniciativas, bem
como analisar se havia algum critério na escolha do local e dos particulares escolhidos e
identificar a forma como o cânhamo era produzido.
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Projeto Resgate Bahia Eduardo de Castro e Almeida (1613-1807)
Projeto Resgate Pará (1616-1833)
Projeto Resgate Rio de Janeiro Eduardo de Castro e Almeida (1617-1757)
Projeto Resgate Bahia Avulsos (1604-1828)
Projeto Resgate Rio Grande do Norte (1623-1823)
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Projeto Resgate Rio de Janeiro (1614-1830).
Projeto Resgate São Paulo Avulsos (1644-1830)
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Ships in the Modern Age sailed using thousands of tons of hemp in the form of cordage and sails. This plant substance, a strategic commodity, was a major Spanish necessity fulfilled in the main by Russian hemp. Promotion of its national cultivation thus became another factor in Spanish imperial defence strategy. To better understand the development of hemp’s commission in Granada, various archives have been analysed. This has turned up evidence of an important Bourbon-era project intervening into Granadine agrarian structure, with the aim of encouraging cannabis farming in the Kingdom
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