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Abstract

É analisado o cenário para 2021-2025 para a taxa de desemprego no Brasil. Argumenta-se que o longo período de baixo crescimento, desde a crise de 2015, agravado pela deflagração da pandemia, provoca um efeito histerese, com uma taxa de desemprego elevada, mesmo num cenário de recuperação econômica. A trajetória irá depender da taxa de participação que caiu substancialmente durante a pandemia. Ou a pessoa permanece fora da força de trabalho e portanto sem o rendimento do trabalho, ou volta, mas muitos não acharão emprego. Será necessário um robusto e longo período de crescimento econômico, especialmente se o objetivo for a geração do emprego formal. O desdobramento em termos de política econômica é a necessidade de continuação de um programa de transferência de renda, como o Auxílio Emergencial, por mais um período de tempo.
1
O DESEMPREGO DISFARÇADO REVELADO
JULIA BRAGA
1
(A ser publicado no Livro “O Mito de Sísifo: mais dois séculos para a independência
econômica?” organizado pelo André Galhardo e o Franklin Lacerda).
1
Professora Associada da Faculdade de Economia da UFF. A autora agradece (sem responsabilizar) a
Monica de Bolle e Marco Rocha pelos comentários, ao Prof. Franklin Serrano pelas sugestões no texto, e
a estudante de economia Brenda Ayres pela assistência na pesquisa.
2
Introdução
Joan Robinson (1936) caracterizava o fenômeno do desemprego disfarçado (disguised
unemployment) como aquele que surge após situações de crise ou estagnação econômica, que
impulsiona pessoas que perderam seu emprego e não tinham acesso a seguro-desemprego ou
condição financeira de se manter sem trabalhar por um tempo procurando um novo emprego,
a procurarem alguma ocupação que gerasse alguma renda. Estas ocupações, são inferiores em
termos de requisitos de qualificação, muitas vezes no setor de subsistência (como agricultura
familiar) ou no setor informal urbano. Robinson argumentava que uma queda da demanda
efetiva e de empregos na indústria não geraria necessariamente uma completa desocupação
por parte dos indivíduos, uma vez que muitos destes seriam forçados a procurar alguma forma
de sustento. Para ilustrar seu argumento a autora utilizou exemplos que observava na vida
cotidiana inglesa: venda de caixas de fósforos em Strand (uma rua central em Londres), corte de
madeira no mato ou o plantio de batatas. Além disso, a autora argumentava que tais posições
teriam produtividade menor que os postos de empregos perdidos por aqueles trabalhadores,
que eram oriundos da indústria à época.
Robinson conclui que a estatística tradicional agregada da taxa de desemprego não capta
apropriadamente a situação do mercado de trabalho.
2
“A decline in one sort of employment leads to an increase of another sort, and at first
sight it may appear that, in such a case, a decline in effective demand does not cause
unemployment at all. (..) Thus a decline in demand for the product of the general run of
industries leads to a diversion of labour from occupations in which productivity is higher
to others where it is lower. The cause of this diversion, a decline in effective demand, is
exactly the same as the cause of unemployment in the ordinary sense, and it is natural
to describe the adoption of inferior occupations by dismissed workers as disguised
unemployment.” (Robinson, 1936, página 3)
Além do desemprego disfarçado acabar limitando o aumento da taxa de desemprego frente a
uma queda da demanda efetiva e nos níveis de emprego industrial, outro fator importante, que
também atua no sentido de limitar um aumento ainda mais intenso da taxa de desemprego, são
as mudanças que ocorrem no comportamento da população em idade para trabalhar, isto é, na
própria oferta de mão de obra. Arrow (Arrow, 1983, p.200) argumentou que, empiricamente, o
fato de que as taxas de desemprego aberto não tendem a aumentar indefinidamente seria
evidência de que no longo prazo se observaria na realidade um ajustamento entre oferta e
demanda pelo fator trabalho. Segundo Arrow isso confirmaria a visão neoclássica tradicional de
que o aumento da oferta de trabalho acabaria gerando, via flexibilidade de salários reais e o
consequente efeito substituição de fatores, um aumento na demanda por trabalho. Garegnani
(1990) critica Arrow afirmando que o ocorre na realidade é o mecanismo oposto: a própria
oferta de trabalho acaba tendo que seguir a evolução das oportunidades de emprego:
2
O conceito de desemprego disfarçado de Robinson (1936) foi adotado por Arthur Lewis (1954) no
trabalho clássico de sobre as economias em desenvolvimento e a partir de então teve grande difusão na
literatura de desenvolvimento econômico. Para uma aplicação relativamente mais recente do conceito à
experiência dos países mais avançados ver Eatwell (2011).
3
“tal coincidência aproximada a longo prazo entre emprego do fator trabalho e
trabalhador buscando emprego”... “é esperada, na extensão em que os trabalhadores
não podem viver de ar. Esta coincidência aproximada pode na verdade resultar do
trabalhador procurando ocupações, ajustando-se a oportunidades de emprego ao invés
do contrário” (Garegnani, 1990, p. 116-117).
Dessa forma, num período de queda da demanda efetiva , além do desemprego disfarçado, a
própria força de trabalho se adapta às oportunidades de emprego através de processos como
imigração, mudanças nas taxas de participação de determinados segmentos da sociedade, como
jovens e mulheres, que podem eventualmente acabar por sair da força de trabalho, seja pelo
efeito desalento, seja pela impossibilidade de direcionar suas atividades para fora do lar.
O ponto de partida
Adaptando o conceito de desemprego disfarçado para os tempos atuais e a realidade brasileira,
poderíamos usar como exemplos a economia de subsistência no campo e serviços pessoais
urbanos tradicionais (faxineiras, por exemplo). Adicionalmente são exemplos de desemprego
disfarçado casos cotidianos da vida urbana moderna, como uma trabalhadora que perdeu seu
posto de trabalho no mercado formal e começou a utilizar um aplicativo de carona para auferir
alguma renda ou ainda um trabalhador que resolveu montar, por conta própria (sem CNPJ), um
ponto digital de vendas de produtos de beleza a partir das redes sociais.
O mercado de trabalho brasileiro começou a apresentar sinais de enfraquecimento a partir de
2015, com a natural defasagem que lhe é peculiar, seguindo o ritmo de crescimento do PIB
brasileiro. A taxa de desemprego, que flutuava em um patamar de 7% até 2014, começou a subir
em 2015, alcançando 12,7% em 2017, permanecendo nesse patamar elevado, com leve queda
em 2018 e 2019. A deflagração da pandemia da Covid19 provocou um novo processo de
mudança de patamar da taxa, desta vez mais veloz, para próximo a 14%. O último dado de 2020
até o fechamento desse artigo indica taxa de desemprego aproximadamente de 14,4% (dados
da PNAD-Covid)
3
. A figura abaixo mostra os dados da PNAD-Contínua, original e ajustado
sazonalmente.
3
Referente à semana de 20 a 26 de setembro. https://covid19.ibge.gov.br/pnad-covid/trabalho.php
4
Figura 1
Fonte: Elaboração própria com base nos dados da PNAD Contínua/IBGE. Dessazonalizado pelo método X13.
Dados mensalizados da PNAD Covid19
4
indicam que a população ocupada crescia cerca de 2%
(na comparação mês contra mesmo mês do ano anterior) em 2013 quando começou a sofrer
queda no ritmo de variação, até alcançar taxas negativas em 2016 (-2%). A partir de 2017, o
crescimento da população ocupada voltou ao patamar de 2%, porém com uma diferença
estrutural marcante. O enquanto o emprego formal (com carteira) ficou estagnado (0%) e
posições sem carteira assinada no setor privado ou por conta própria cresceram acima da média
(Duque, Martins e Peruchetti, 2020a).
A reforma trabalhista de 2017 facilitou juridicamente a precarização do mercado de trabalho e
diminuiu os direitos trabalhistas ao estender a possibilidade de terceirização da força de
trabalho para qualquer atividade econômica, facilitar a contratação de trabalhadores como
autônomos, criar instrumentos que flexibilizam a jornada de trabalho (e inviabilizam o acesso a
remunerações extras, como diárias de viagens, ajudas de custos e abonos) e criar a figura do
trabalho intermitente, o que permite a prestação de serviço de forma descontínua, tendo o
trabalhador que ficar à disposição do empregador para caso seja convocado, e limita seu
4
A pesquisa da PNAD Contínua cada dado mensal refere-se à média dos últimos três meses, assim a série mensal
constitui-se a realidade em uma média móvel de três meses. Alguns pesquisadores de instituições como o Banco
Central, IPEA e o IBRE tem feito um esforço de mensalizar esses dados para poder captar melhor o que está
acontecendo na margem (o que é importante para política públicas, especialmente nesse cenário muito incerto e
mutante como esse da economia na pandemia).
0
2
4
6
8
10
12
14
16
abr-mai-jun 2012
ago-set-out 2012
dez-jan-fev 2013
abr-mai-jun 2013
ago-set-out 2013
dez-jan-fev 2014
abr-mai-jun 2014
ago-set-out 2014
dez-jan-fev 2015
abr-mai-jun 2015
ago-set-out 2015
dez-jan-fev 2016
abr-mai-jun 2016
ago-set-out 2016
dez-jan-fev 2017
abr-mai-jun 2017
ago-set-out 2017
dez-jan-fev 2018
abr-mai-jun 2018
ago-set-out 2018
dez-jan-fev 2019
abr-mai-jun 2019
ago-set-out 2019
dez-jan-fev 2020
abr-mai-jun 2020
ago-set-out 2020
Taxa de Desemprego (%)
TaxaDesemprego Taxa de Desemprego Sazonalmente Ajustada
5
pagamento às horas efetivamente trabalhadas. Ou seja, podemos dizer que a reforma gera um
certo respaldo jurídico ao desemprego disfarçado de Joan Robinson.
Dessa forma, o quadro de lenta recuperação econômica depois da recessão de 2015 e 2016
junto com a Reforma Trabalhista implicaram em um mercado de trabalho precarizado, com
maior participação do setor informal no Brasil, mesmo antes da deflagração da pandemia
(FILGUEIRAS, LIMA e SOUZA, 2019).
Uma medida de taxa de desemprego mais ampla capaz de capitar uma parte do desemprego
disfarçado é a taxa conjugada de desemprego e subocupação por insuficiência de horas
trabalhadas. Nesse grupo estão as ocupações informais e atividades em tempo parcial, por
tempo determinado ou sob contrato intermitente. Esta taxa era de cerca de 18% em 2019 e
configurava uma das mais altas em comparação com outros países (Figura 2). Quando se
computa, adicionalmente, os trabalhadores que estão fora da força de trabalho, mas que
possuem potencial para serem integrados nessa força (a taxa composta de subutilização da força
de trabalho) o número sobe para 24%, em 2019.
6
Figura 2
Fonte: Elaboração própria a partir de dados da International Labour Organization (ILOSTAT). Para alguns países,
como a Coréia do Sul ou a China, não existe dado dessa taxa combinada, segundo o banco de dados da ILOSTAT.
0 5 10 15 20 25 30 35 40
Zimbábue
África do Sul
Ruanda
Botswana
Território Palestino
Azerbaijão
Argentina
Grécia
Cabo Verde
Costa Rica
Espanha
Bósnia e Herzegovina
Macedônia do Norte
Brasil
Uruguai
Colômbia
Jordânia
Chile
Montenegro
Sérvia
Honduras
Albânia
Georgia
França
Peru
Brunei Darussalam
Líbano
Austrália
Paraguai
Itália
Chipre
República Dominicana
Panamá
Peru
Portugal
Finlândia
El Salvador
Mongólia
Irlanda
Suécia
Suíça
Letônia
Bélgica
Reino Unido
Croácia
Dinamarca
Maurício
Nova Zelândia
Eslovênia
Áustria
Luxemburgo
Lituânia
Indonésia
Seychelles
Eslováquia
Canadá
Países Baixos
Noruega
Islândia
Republica da Coréia
Romênia
Bolívia
Alemanha
Estônia
Malta
Israel
Japão
Polônia
Bulgária
Estados Unidos
Hungria
Hong Kong, China
Emirados Árabes Unidos
Myanmar
Czechia
Vietnã
Tailândia
Taxa Combinada de Desemprego e Subocupação
(%) - 2019
7
A figura 3 ilustra uma dinâmica de aceleração da ocupação no setor informal após a recessão de
2015, crescendo acima do que seria justificado pelo baixo desempenho da atividade econômica
que. A recuperação da atividade econômica ocorreu em ritmo muito lento, caracterizando a
mais lenta recuperação da econômica brasileira das últimas crises.
Figura 3
Por outro lado, os postos de trabalho com carteira assinada do setor privado acompanham a
trajetória da atividade econômica. Como é esperado no mercado de trabalho formal, existe
certa defasagem entre as decisões no mercado de trabalho em relação à atividade econômica,
uma vez que empregadores esperam as perspectivas de vendas se consolidarem tanto para
contratar como para os desligamentos de seus empregados.
A dinâmica da ocupação do setor informal parece ilustrar com bastante precisão aquilo que Joan
Robinson havia caracterizado há quase um século atrás. Assim, após a brutal queda da demanda
efetiva ocorrida nos anos 2015 e 2016, a economia brasileira padecia de um desemprego
disfarçado.
O mercado de trabalho durante a pandemia
É nesse cenário que a crise da pandemia abate a economia brasileira e o resultado é uma queda
expressiva da população ocupada. No setor informal a queda (15,5%) foi mais do que o dobro
daquela que ocorreu no setor formal (7,2%), como ilustra a figura 1. Desta forma, aqueles
-6.48%
-15.32%
-25.00%
-20.00%
-15.00%
-10.00%
-5.00%
0.00%
5.00%
10.00%
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2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020
Fonte: IBGE. Elaboração Própria.
Taxa de Crescimento da População Ocupada em ocupações formais e informais (%) -
Variação mesmo trimestre do ano anterior
Formais Informais
8
trabalhadores informalizados
5
, que haviam aflorado após a recessão econômica de 2015-2016,
foram os que ficaram mais expostos à crise e perderam suas posições no mercado de trabalho.
É possível dizer que a pandemia revelou a precariedade do mercado de trabalho brasileiro e o
desemprego que estava disfarçado.
Dados desagregados indicam que as únicas ocupações que não sofreram com a pandemia foram
os chamados trabalhadores familiares auxiliares (postos que não auferem remuneração, mas
ajudam alguém que trabalha em casa) e os empregados do setor público (somatório daqueles
com e sem carteira assinada, militares e estatutários) que cresceu cerca de +5,0% durante a
pandemia. Hecksher (2020) mostra que o número de aumento dos postos no setor público foi
ainda maior (8,5%), quando os dados da PNAD contínua é mensalizado e conjugado com os
dados da PNAD Covid.
Figura 4
É interessante notar como esse aumento do emprego no setor público durante a pandemia
rompe uma tendência de queda ou baixo crescimento dos anos anteriores. Dados desagregados
mostram que esse aumento ocorreu especificamente na categoria “militar e funcionário público
estatutário”, enquanto setorialmente observa que esse aumento ocorreu na “administração
pública, defesa, seguridade, educação, saúde humana e serviços sociais” (+6,5%).
Dessa forma, com exceção apenas desse segmento, todos os outros apresentaram quedas
expressivas sendo o setor de serviços, que concentra cerca de 70% dos empregos gerado no
país, o mais atingido, segundo Hecksher, M. (2020) as quedas dos segmentos de serviços foram:
comércio (-9,2%), transporte (-9,6%) e outros serviços (-25,5%). No segmento da Construção
Civil a queda não foi tão intensa (-6,8%), porém é importante notar que essa queda se dá a partir
de uma base de comparação já deprimida, uma vez que esse foi segmento mais sofreu na
recessão de 2015 e 2016 e não conseguiu se recuperar após 2017, permanecendo praticamente
estagnado até 2019.
Um trabalho utilizando o modelo insumo-produto calculando multiplicadores de emprego para
os setores que compõe a estrutura produtiva brasileira mostra que, entre os 42 setores que
compõem a estrutura produtiva brasileira, o setor de construção civil se destacou como setor
5
“O IBGE considera como informais cinco grupos de trabalhadores - empregados do setor privado sem
carteira assinada; empregados domésticos sem carteira assinada; empregadores sem registro no CNPJ;
trabalhadores por conta própria sem registro no CNPJ; e trabalhadores familiares auxiliares.” Saboia e
Razafindrakoto (2020)
9
prioritário na geração de empregos (diretos e indiretos) induzidos pela formação bruta de capital
fixo. Isso significa que decisões de gasto com a componente de investimento da demanda
agregada, inclusive o investimento público, tem a capacidade de induzir a geração de emprego
no setor Dos Santos, R. Braga, J. e Costa, K. (2020).
Por características individuais, os grupos que mais perderam vagas no mercado de trabalho
foram jovens, mulheres, pretos e menos escolarizados.
6
Vale notar que entre os jovens a taxa
de desemprego, que tinha saltado de 15% em 2014 para 25% em 2019, subiu mais ainda na
pandemia, alcançando 30% dos jovens.
A partir do terceiro semestre do ano, houve um processo de recuperação da atividade
econômica, após a forte queda do segundo trimestre. A recuperação do emprego veio junto com
a própria recuperação da atividade econômica. Dados mensalizados da PNAD Contínua
conseguem capitar esse movimento na margem (Duque, D. Martins, T. e Peruchetti, P. 2020b).
Esses estudos indicam rápida recuperação do emprego no setor informal, já a partir de julho. O
emprego formal também passou a crescer a partir de agosto (como indica as figuras 3 e 4).
Porém, ainda assim, o efeito líquido é uma forte queda do emprego no ano de 2020: 10 milhões
de brasileiros perderam sua ocupação.
Além do forte recuo no emprego, a crise causada pelo Covid-19 elevou drasticamente o número
de pessoas com idade para trabalhar que saíram da chamada da força de trabalho (ou seja
pessoas que procuram emprego), de forma a reduzir bastante a taxa de participação (força de
trabalho divido por população em idade para trabalhar) seja por opção de não trabalhar fora
por causa da pandemia, seja pela falta de possibilidade de deixar o lar (como as mães com
crianças cujas escolas foram fechadas), seja por causa do efeito desalento, que ocorre quando
a pessoa desiste de procurar emprego por ter perdido a esperança de encontrar. A queda
ocorreu a partir de um patamar estável de 61% nos últimos anos para 56%. Caso a taxa de
participação não tivesse caído, a taxa de desemprego em vez de 14% teria alcançado patamar
próximo a 20%. Veremos mais a frente a relação matemática entre essas variáveis e como a taxa
de participação acaba tendo grande influência no comportamento da taxa de desemprego.
A taxa combinada de desocupação e subocupação por insuficiência de horas trabalhadas
(indicador mostrado na Figura 1 para o ano de 2019) alcançou 20,9%, último dado de 2020
(trimestre de agosto a outubro de 2020).
7
. Além de desocupados, são trabalhadores que têm
jornada de trabalho inferior a 40 horas semanais, mas que gostariam de trabalhar mais horas e
estão disponíveis. Quando se computa, além desses casos, os trabalhadores que estão fora da
força de trabalho, mas que possuem potencial para serem integrados nessa força, a taxa sobe
para 29,5% (taxa composta de subutilização da força de trabalho). Saboia e Razafindrakoto
(2020). A partir de agosto a força de trabalho também demonstra leve sinais de recuperação, de
forma que a taxa de participação subiu um ponto percentual Dados mensalizados da PNAD
Continua indicam que em “em parte pelo já mencionado aumento da população ocupada, mas
sobretudo pelo aumento da população desocupada, à procura de trabalho.” (Hecksher, M.
2020).
6
http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/10186/1/bmt_69_mercdetrabalho.pdf
7
A taxa de subutilização é igual ao percentual de pessoas desocupadas, subocupadas por insuficiência de
horas trabalhadas e na força de trabalho potencial em relação à força de trabalho ampliada.
10
A tabela abaixo faz um resumo dos principais indicadores do mercado de trabalho.
Figura 5
Fonte: Elaboração própria com base nos dados da PNAD Contínua/IBGE.
O período da pandemia também foi marcado por perdas salariais. O gráfico abaixo mostra que
o salário nominal cresceu abaixo do IPCA durante os meses de junho, julho e agosto. Algumas
categorias (como emprego doméstico) tiveram queda em termos reais até mesmo no
acumulado do ano (na comparação com igual período do ano anterior). Ficou bem marcado um
grande descolamento entre o rendimento habitual e o efetivamente recebido, mostrando o
caráter excepcional da pandemia (Carvalho, 2021).
Figura 6
Fonte: Elaboração própria com base nos dados da PNAD Contínua e SNIPC/IBGE.
Indicador 2012 - 2014 2015 - 2019 2020
PIB - Taxa de Crescimento 1.8% -0.5% -5.0% *
Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) 1.2% -1.1% -4.9% *
Taxa de Desemprego 7.1% 11.4% 14.3% **
Taxa de Desemprego dos Jovens 15.1% 25.3% 31.4% **
Taxa de Participação na Força de Trabalho 61% 62% 56% **
Rendimento Real Efetivamente Recebido - Taxa de Crescimento 2.8% 0.6% 0.6%
***
Rendimento Real Habitualmente Recebido - Taxa de Crescimento 2.7% 0.0% 4.7%
***
População Ocupada Total -Taxa de Crescimento 1.4% 0.5% -10.8%
***
População Ocupada Formal -Taxa de Crescimento 2.2% -0.6% -7.6%
***
População Ocupada Informal -Taxa de Crescimento 0.3% 1.9% -15.0%
***
Taxa composta de desemprego e subutilização 11.5% 16.7% 20.9% **
Taxa de subutilização da força de trabalho 15.5% 22.0% 29.5% **
* cescimento acumulado no ano até o terceiro trimestre
** trimestre finalizado em outubro
*** variação até outubro de 2020
0.0
2.0
4.0
6.0
8.0
10.0
12.0
2017.01
2017.03
2017.05
2017.07
2017.09
2017.11
2018.01
2018.03
2018.05
2018.07
2018.09
2018.11
2019.01
2019.03
2019.05
2019.07
2019.09
2019.11
2020.01
2020.03
2020.05
2020.07
2020.09
2020.11
Salário Nominal e Inflação
Taxa de crescimento (%)
Rendimento Habitual Rendimento Efetivo IPCA
11
Segundo Duque (2020) a Renda do Trabalho Efetiva Domiciliar per Capita (deflacionada por
Estado da Federação) caiu cerca de 10% no segundo trimestre de 2020 em relação ao mesmo
período do ano anterior. A queda da renda do trabalho só não foi mais intensa porque a maior
parte das ocupações destruídas são de salário menor. Dessa forma, existe um efeito
composição, com ocupações com maiores remunerações passando a ter mais peso no total. Em
agosto de 2020, 27% das pessoas receberam menos do que normalmente recebiam e 69,6% não
tiveram alteração.
8
A renda dos trabalhadores do setor informal (concentrado nos setores de comércio e demais
serviços, necessita de maiores aglomerações e, ao mesmo tempo, é ocupado por trabalhadores
de menor qualificação e experiência) caiu mais do que a renda dos trabalhadores do setor
formal. Dessa forma, o setor informal foi o mais teve queda no emprego como também do
rendimento real.
Houve uma piora na distribuição da renda do trabalho, captada no índice de Gini da renda do
trabalho, com aumento significativo no segundo trimestre, na comparação em relação ao
mesmo trimestre do ano anterior.
9
Nesse ponto, vale notar a importância do Auxílio
Emergencial
10
, forte o suficiente para fazer diminuir o índice de Gini do rendimento total da
economia brasileira.
Por outro lado, houve aumento de trabalhadores com zero horas trabalhadas, mas que
receberam alguma renda em relação a 2020, concentrados no setor formal (seja privado ou
servidores). O governo compensou (ainda que parcialmente) a redução da renda do trabalho
(com diminuição da jornada de trabalho) através da Programa Emergencial de Manutenção do
Emprego. O programa se mostrou exitoso em assegurar postos no mercado formal de trabalho
(entre julho e outubro, foram processados 18,5 milhões de acordos, sendo 9,4 milhões de
pessoas beneficiadas e R$ 28,7 bilhões executados)
11
. Porém, o programa não compensou
integralmente a renda dos trabalhadores com carteira acima de R$ 1.045,00. O governo na
prática pagou valores entre R$ 261,25 (25% do seguro-desemprego) e R$ 1.813 (teto do seguro-
desemprego), dependendo do salário e do tipo de alteração na jornada de trabalho ou
suspensão de contrato, de forma que muitos viram suas rendas caírem com a respectiva redução
da jornada de trabalho.
As medidas de suporte ao emprego e à renda, seja no mercado formal e principalmente pelo
auxílio emergencial, sustentaram a demanda efetiva e com isso amorteceram significativamente
a já esperada queda da atividade econômica, devido aos meses de lockdown. Nesse sentido, as
medidas podem ser avaliadas como bem sucedidas e acertadas ao contexto do mercado de
trabalho brasileiro fragilizado.
8
https://covid19.ibge.gov.br/pnad-covid/trabalho.php
9
https://blogdoibre.fgv.br/posts/distribuicao-de-renda-do-trabalho-tem-piora-recorde-no-segundo-
trimestre
10
Em julho de 2020 66 milhões de brasileiros foram beneficiários do Auxílio Emergencial, recebendo
valores entre R$ 600 e R$ 1200 mensais.
11
https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/tcu-analisa-acoes-do-programa-emergencial-de-
manutencao-do-emprego-e-da-renda.htm
12
Histerese e a Cicatriz de Longo Prazo
A deflagração da pandemia da Covid levou a órgãos públicos e centros de pesquisa a dedicarem
especial atenção aos efeitos não somente de curto, mas de médio e longo prazo que podem
ocorrer no mercado de trabalho no mundo inteiro. No relatório de novembro de 2020 o World
Economic Fórum discute o futuro do emprego (WEF, 2020), refletindo que a pandemia acelerou
o processo de automação que já tinha sido iniciado com a quarta revolução industrial. Os
períodos de lockdowns e a contração econômica causada durante a pandemia junto com essas
alterações que as novas tecnologias propiciam, impõe um cenário de potencial destruição de
funções no processo produtivo. O Fórum estima cerca de 85 milhões de empregos destruídos
em 35 países até 2025, traçando um cenário desafiador para o mercado de trabalho.
Estima-se que as políticas públicas voltadas para suporte de emprego e renda tenham
subsidiado o salário de cerca de 60 milhões de trabalhadores em 35 países. Alguns países, como
a Alemanha, estenderam suas políticas de amparo ao emprego, inicialmente foram pensadas
para ser temporárias, para 2021. Essa também é a recomendação de algumas instituições, como
o FMI, que recomenda que tais medidas de suporte do emprego e renda não sejam
interrompidas abruptamente (FMI, 2020).
O Fórum estima que novas oportunidades também surgirão com a transição tecnológica (91
milhões de ocupações) e que muitos trabalhadores conseguirão fazer a transição para novas
funções e propõe políticas públicas para auxiliar a força de trabalho a se modernizar, estudar,
atualizar para ser capaz inclusive, eventualmente, de mudar completamente de função. A clara
preocupação do Fórum é a preservação e construção de capital humano que permita essa
transição. Outra preocupação importante do Fórum é o combate dos possíveis efeitos desiguais
sobre a força de trabalho, o que acentua desigualdades já existentes, ou seja, menos favoráveis
a determinadas camadas da população, seja de baixa renda, ou jovens e mulheres.
Não deixa de chamar a atenção, contudo, que o Fórum acabe deslocando a discussão apenas
para as políticas de suporte ao capital humano, mesmo que considerando ainda os aspectos da
desigualdade sobre a força de trabalho.
A Figura 1 abaixo mostra uma simulação de acordo com diferentes cenários para o valor da taxa
de desemprego a partir de um modelo econométrico de estimação da relação entre o emprego
(ocupação) no setor privado formalizado e a atividade econômica.
Por definição, o nível de emprego (E) pode ser escrito como o produto vezes o coeficiente de
trabalho por unidade de produto (l): E = l Y. O nível de longo prazo do emprego do trabalho
ocorre quando o capital está plenamente utilizado e o produto é equivalente ao potencial (Y*)
Y=Y*. Logo, E* = l Y*. A relação, ilustrada na figura abaixo, é bastante robusta
econometricamente quando se considera o emprego formal no setor privado.
13
Figura 7
Fonte: Elaboração própria com base nos dados da PNAD Contínua/IBGE e o Banco Central do Brasil.
Já com os dados agregados de ocupação a relação econométrica não é tão robusta. Isso ocorre
uma vez que depende da política dos governos federal, estuaduais e locais em relação à
contratação no setor público e também por causa de certa imprevisibilidade do que acontece
no setor informal, que por sua vez depende muito do que está havendo com a oferta de mão de
obra.
Dessa forma, as estimativas abaixo não levam em consideração a dinâmica do setor público e
do “desemprego disfarçado”. Ao invés disso, será suposto que a ocupação tanto no setor publico
quanto no setor informal acompanha o ritmo de crescimento da população em idade para
trabalhar.
As estimativas corroboram estatisticamente a relação esperada teoricamente e sugerida na
Figura 7.
12
Para isso foram utilizados testes de hipótese e estimativas de séries de tempo
utilizando as séries históricas da PNAD Contínua de ocupação no setor privado com carteira
assinada e o índice IBCbr do Banco Central, que serve como uma proxy do PIB, com a vantagem
de ter divulgação mensal. Levando em consideração a força de trabalho, também denominada
de população economicamente ativa (PEA), o emprego (E) e a população em idade para
trabalhar (PIA), temos que a taxa de desemprego pode ser escrita, a partir de sua definição,
como:
   
   

12
As duas séries têm raiz unitária, coerente com a ideia de histerese forte nos níveis de emprego formal
e de produto, onde choques perduram e são incorporados na tendência. Ambas também cointegram.
Para o exercício de previsão condicionada foi utilizado um modelo autorregressivo com defasagens
distribuídas que modela tanto o comportamento de curto como de longo prazo desta relação. Testes
para os erros apontaram para as hipóteses de resíduos bem comportados.
-15,00
-10,00
-5,00
0,00
5,00
2013.06
2013.10
2014.02
2014.06
2014.10
2015.02
2015.06
2015.10
2016.02
2016.06
2016.10
2017.02
2017.06
2017.10
2018.02
2018.06
2018.10
2019.02
2019.06
2019.10
2020.02
2020.06
2020.10
EMPREGO FORMAL E ATIVIDADE
(taxa de crescimento t / t-12, %)
IBCBr Popupação Empregada do Setor Formal Privado
14
Em que é a taxa de participação da força de trabalho sobre a população em idade para
trabalhar (  
 ). Chamando de PIB o produto interno bruto, da estimativa de relação entre
emprego e atividade econômica (uma adaptação da Lei de Okun), obtemos a seguinte relação:
   

A figura 9 mostra diferentes cenários para a taxa de desemprego a partir de uma suposição de
que o PIB crescerá a 3% nos próximos cinco anos e a população em idade ativa crescendo ao
mesmo ritmo da média da série (0,12% ao ano). A taxa de crescimento da ocupação no setor
privado formal dessa categoria (ocupação no setor privado formal) resultante dessa previsão
condicionada a crescimento de 3,0% em 2021 e 2,5% ao ano da atividade econômica de 2022 a
2025 foi então somada ao resto da ocupação, este último seguindo o mesmo crescimento da
população em idade ativa aplicada (0,12% ao ano).
Figura 8
Fonte: Autora.
A figura 10 faz um resumo dos resultados para o ano de 2025:
Figura 9
Fonte: Autora.
Repare em primeiro lugar que a única ocupação reativa ao nível atividade de econômica nesse
exercício é a do setor privado formal, e o resto das ocupações crescem com o ritmo da população
em idade para trabalhar. Portanto, não se trata de um exercício de previsão, mas deve ser
entendido como uma análise de simulação a variações da taxa de participação. Os dados
mostram que mesmo com a recuperação da atividade econômica, a taxa de desemprego
Taxa de
crescimento %
Taxa de
Participação
Taxa de
Desemprego
Taxa de
Participação
Taxa de
Desemprego
Taxa de
Participação
Taxa de
Desemprego
2020 -4.3 56 14.2 56 14.2 56.0 14.2
2021 3.0 56 13.5 57 15.0 57.0 15.0
2022 2.5 56 12.4 58 15.4 57.5 14.7
2023 2.5 56 11.5 59 16.0 58.0 14.5
2024 2.5 56 10.6 60 16.6 58.5 14.4
2025 2.5 56 9.7 61 17.1 59.0 14.3
Atividade
Cenário 1
Cenário 2
Cenário 3
Simulação da Taxa de Desemprego para 2025
Taxa de Participação: Constante Pré Pandemia Novo Normal
Hipótese PIB:
3,0% em 2021 9.7% 17.1% 14.3%
2,5% de 2022 a 2025
15
continuará alta (perto de 10%) mesmo se a taxa de participação fique constante (em 56%). A
taxa chega a 17,1% na suposição de que a taxa de participação retorne paulatinamente ao
patamar pré-pandemia (61%). No cenário intermediário (“novo normal”), a taxa de participação
reage à recuperação econômica, mas não volta ao que era antes (chegando a 59% em 2025).
Nesse caso a taxa de desemprego fica em patamar elevado próximo ao do final de 2020.
O fato de a taxa de desemprego continuar alta mesmo com uma retomada da atividade
econômica vai descrever um cenário que muitas vezes na literatura é caracterizado de histerese.
Esse efeito é caracterizado como aquele em que a tendência da taxa de desemprego, que
conceitualmente é entendida como uma taxa natural de desemprego, ou a NAIRU (taxa de
desemprego que não acelera a inflação), é uma função da própria taxa de desemprego efetiva
passada.
Outro fenômeno catalogado na literatura sobre mercado de trabalho é o assim chamado
unemployment scarring, que se quando um trabalhador, após passar alguns anos
desempregado ou subempregado tende a passar a vida nessa condição, alternando entre
momentos de desemprego ou subemprego, com empregos de baixa remuneração. O
unemployment scarring é portanto a ideia que o desemprego por algum tempo causa uma
cicatriz de longo prazo na trajetória daquele trabalhador. Já existe bastante evidência deste tipo
de fenômeno para a economia americana, especialmente para os jovens (Arulampalam, Gregg
e Gregory (2001).
“The best predictor of an individual's future risk of unemployment is his past history of
unemployment; unemployment tends to bring future unemployment.” (Arulampalam,
Gregg e Gregory (2001).
O unemplyment scarring é portanto um efeito sobre indivíduos resultante do fenômeno
macroeconômico da histerese. Existem várias interpretações ortodoxas para a existência de
histerese (ver Ball e Mankiw, 2002) e a mais comum é que os trabalhadores que saem da força
de trabalho acabam padecendo de um processo de perda de qualificações profissionais, não
conseguindo se inserir novamente, uma vez passado o período de recessão, perdendo assim
capital humano (a literatura sobre unemployment scarring é voltada para buscar confirmação
empírica destes efeitos a nível de indivíduos).
Naturalmente, nessas interpretações, o nível de emprego a longo prazo depende do lado da
oferta da economia. O crescimento do produto potencial é dado pelo progresso técnico, pelo
aumento da própria oferta de trabalho, o capital humano, e pelo crescimento do estoque de
capital cujo crescimento, por sua vez, depende da poupança de pleno emprego da economia.
Portanto, não seria determinado pelos mesmos fatores que determinam o produto efetivo a
curto prazo, isto é, a evolução da demanda agregada.
Apesar destes efeitos de relativa persistência na taxa de desemprego, estudos empíricos
mostram que, num prazo ainda mais longo, esse fenômeno de histerese da taxa de desemprego
é parcial e não completo (ver Braga, 2008, para uma discussão a respeito no caso da economia
americana). Dessa forma, no curto e médio prazo a taxa de desemprego pode tender a
apresentar o chamado efeito histerese, de forma que a taxa de desemprego possa permanecer
em patamar elevado por vários anos, mesmo num cenário que a atividade econômica se
recupere. Porém, num prazo mais longo acaba existindo algum tipo de ajustamento entre
16
demanda e oferta do fator trabalho que faz com que, por exemplo, aumentos muito grandes na
taxa de desemprego aberto em períodos de baixo crescimento acabem sendo parcialmente
revertidos, no longo prazo.
Na interpretação deste artigo, tal ajustamento acontece devido às mudanças que ocorrem no
tamanho da força de trabalho e no desemprego disfarçado, como comentado no início desse
artigo, e não por uma aceleração endógena na criação de novos empregos. A oferta de trabalho
é alterada através de mudanças na taxa de participação de determinados grupos sociais (como
jovens, mulheres e idosos), movimentos migratórios internacionais e internos em um país,
variação do tamanho do setor informal e efeito “desalento”, quando o trabalhador desiste de
procurar emprego. Por outro lado, o “desemprego disfarçado” e o progresso tecnológico
incorporado nas máquinas e equipamentos alteram a produtividade do trabalhador (em termos
de horas trabalhadas). No longo prazo, o ajustamento da taxa de desemprego se dá por
alterações endógenas no tamanho da força de trabalho que busca emprego, como argumenta
Garegnani (1990).
Nesse artigo entendemos que o efeito histerese (parcial) na taxa de desemprego não pode ser
explicado pelo lado da oferta, isto é, pelo capital humano, mas sim pelo lado da demanda pelo
fator trabalho. O fenômeno não se deve às características da força de trabalho, mas sim da
geração de empregos, que depende essencialmente do estado da tecnologia e do ritmo do
crescimento econômico.
Seguindo uma abordagem demand-led-growth (Serrano, 1995), capital e trabalho são
essencialmente complementares, o produto potencial é determinado essencialmente pelo
estoque de capital e sua eficiência, numa situação em que o crescimento da oferta de trabalho
, como vimos, tende a ser endógena. Assim uma queda persistente na taxa de crescimento da
demanda e do produto, através dos seus fortes efeitos sobre o investimento das empresas, afeta
decisivamente a evolução do estoque de capital. Essa queda diminui o produto potencial e o
emprego da força de trabalho correspondente.
Dessa forma, uma diminuição persistente do crescimento da demanda tem efeitos permanentes
sobre o produto e, portanto, tem efeitos de longo prazo sobre o crescimento do emprego.
Consequentemente, a tendência do emprego, a longo prazo, assim como no curto, é
determinada pela tendência do crescimento da demanda e da produtividade do trabalho (ver
Braga, 2008). Tanto a tendência do emprego quanto suas flutuações seguem a evolução do
produto no curto e no longo prazo e, portanto, a trajetória da demanda efetiva acaba
influenciando a trajetória não só do produto, mas como do próprio emprego, no curto e no longo
prazo.
Evidências fortes a favor desta interpretação vem do fato de que, embora na literatura em geral
a taxa de desemprego aberto só tenha histerese parcial , os níveis de produto e emprego em
geral tem histerese completa , como estimamos para o produto e emprego formal no Brasil
acima. A existência desta histerese completa é evidência de que as mesmas causas que
determinam o produto e o emprego a curto prazo também o fazem a longo prazo: a evolução
da demanda efetiva (ver Braga, 2008).
17
A partir dessa abordagem, podemos concluir que foi o fato de a economia apresentar um
crescimento medíocre (perto de zero) na década de 2010s que o nível de ocupação caiu,
fortemente agravado pela depressão econômica da pandemia.
Se é bastante intuitivo e claro nas relações estimadas entre emprego e atividade econômica que
o emprego formal sofre de um longo período de lento crescimento, seguindo a trajetória da
atividade econômica, o mesmo não pode ser dito a respeito do capital humano. De fato, dados
da PNAD Contínua mostram que as taxas de escolaridade do brasileiro aumentaram ao longo da
última década. O percentual de brasileiros com superior completo passou de 8,6% em 2012 para
14,1% em 2020, enquanto o percentual com ensino médio completo evoluiu de 20,8% para
25,3% (dado do 3o trimestre de 2020).
Figura 10
Fonte: Elaboração própria com base nos dados da PNAD Contínua/IBGE.
Segundo a iDados, a partir de 2014 o número de vagas criadas no mercado de trabalho que
exigem o grau de escolaridade de nível superior passou a crescer em ritmo mais lento do que o
número de pessoas com nível superior.
13
Ou seja, a economia brasileira não está gerando
empregos de qualidade que atenda a essa força de trabalho qualificada. Em 2019 os brasileiros
com ensino superior somaram 18 milhões enquanto as ocupações que requerem ensino
superior, apenas 14, milhões (iDados).
Se a taxa de desemprego agregada tende a sofrer do processo de histerese nos próximos anos,
um dos grupos mais atingidos serão os jovens que estão iniciando a sua trajetória no mercado
de trabalho, cuja taxa de desemprego correspondente alcançou um patamar de 30% , já vindo
de patamar elevado de 25%.
13
https://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/2019/12/06/quase-4-milhoes-de-
trabalhadores-com-ensino-superior-nao-tem-emprego-de-alta-qualificacao.ghtml
8
10
12
14
16
18
20
22
24
26
Percentual da População Escolarizada
Ensino médio completo Ensino superior completo
18
Figura 11
Fonte: Elaboração própria com base nos dados da PNAD Contínua/IBGE.
Será necessário um longo e robusto período de crescimento econômico para que o nível de
ocupação cresça o suficiente de forma a incorporar novamente esses trabalhadores,
especialmente se o objetivo for a formalização do emprego. O grande perigo da crise que
atravessa o mercado de trabalho no Brasil desde 2015 e foi agravada na pandemia é que está
deixando uma “cicatriz” de longo prazo.
Conclusão
As simulações feitas nesse estudo indicam que a taxa de desemprego ficará alta nos próximos
cinco anos, mesmo com a hipótese de uma recuperação da atividade econômica. A taxa de
desemprego aumenta em relação ao patamar de 14% atingido em 2020 no cenário de uma
recuperação na taxa de participação. Ainda que a taxa de participação não volte completamente
ao patamar anterior, mas sim a algum valor intermediário, numa espécie de “novo normal”,
podendo atingir até 17% no caso mais pessimista (com taxa de participação voltando ao patamar
pré-pandemia). Dessa forma, ou as pessoas ficam fora da força de trabalho e sem salário ou
voltam, mas muitas não acharão emprego.
A taxa de desemprego cai lentamente num cenário de inalteração da taxa de participação. Essa
taxa de participação, contudo só poderia ficar inalterada caso essas famílias que saíram da força
de trabalho durante a pandemia tiverem algum tipo de auxílio de renda por parte do setor
público. Na ausência de um programa de transferência de renda maior que o Bolsa Família, o
cenário mais provável é que, conforme a atividade econômica retome o crescimento, essa
população volte a procurar emprego e seja computada dentro da força de trabalho.
Além desse suporte aos trabalhadores do setor informal ou fora da força de trabalho, a
continuidade de medidas de suporte de renda e emprego ao setor formal também preserva o
trabalhador e as empresas na transição de um estágio de uma economia que perdeu renda,
ainda sem solucionar o estágio de pandemia, para uma economia mais forte e em que haja
cobertura vacinal o suficiente para conter o contágio do vírus ou e evolução da doença.
0
5
10
15
20
25
30
35
Taxa de Desemprego dos Jovens
18 a 24 anos
19
Vimos ainda a forte relação entre a atividade econômica a geração de empregos. Nesse sentido,
uma vez que a própria atuação do Estado na contenção da pandemia, com o fortalecimento do
SUS, é fundamental para permitir a própria recuperação da economia, como aponta Bolle
(2020). Esta mesma atuação acaba sendo também uma maneira de gerar empregos no setor
formal.
Num prazo mais longo, destaca-se a importância dos investimentos públicos e políticas pró-
ativas de desenvolvimento que elevem a complexidade do tecido econômico, sofisticação da
estrutura produtiva e fortaleçam a ligação entre setor público e privado, como ressaltam
Carvalho (2020) e Roncaglia e Gala (2020). Vale notar que existe um forte efeito dos
investimentos públicos na geração de empregos no setor de construção civil (Dos Santos, Braga
e Costa, 2020). A viabilidade financeira desses gastos e transferências públicas e a visão geral de
política fiscal foram discutidos em Rossi e Dweck, 2020. Os investimentos públicos são
fundamentais em áreas em que não haja demanda efetiva que os justifique pelo setor privado
e que gerem fortes potenciais ganhos de produtividade e externalidades positivas, como a
infraestrutura, saúde e educação. Nesses setores ainda, uma política de geração de emprego
público é também uma forma de fortalecer a formalização do mercado de trabalho.
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Book
Full-text available
Este livro é a antítese da agenda econômica dominante no Brasil. Professores e pesquisadores revelam como a agenda da austeridade é anacrônica ao negar o papel da política fiscal como indutora do crescimento e do emprego e é cruel ao propor sacrificar as garantias constitucionais do financiamento dos direitos sociais. Seus capítulos denunciam as consequências sociais dos cortes de gastos e mostram como o discurso da austeridade fiscal é ideológico, falacioso e dogmático. Além disso, o livro aponta para o futuro e propõe uma nova agenda econômica para o país que reafirma os direitos sociais, o papel do Estado no provimento desses direitos e a política fiscal como ferramenta para o crescimento, preservação ambiental, redução das desigualdades sociais, regionais, raciais e de gênero, em direção a um projeto de desenvolvimento transformador da realidade brasileira.
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O objetivo deste texto é analisar os impactos jurídicos, econômicos e sociais da(s) reforma(s) trabalhista(s) em alguns países nas últimas décadas, comparando-os com o caso brasileiro após a implementação da Lei 13.467, em vigor desde novembro de 2017. A despeito das particularidades de cada país, e das mudanças legais em cada um deles não serem unívocas, é possível identificar as seguintes semelhanças: 1) no campo jurídico, há tendência ao recrudescimento da mercadorização da força de trabalho, reduzindo a proteção aos trabalhadores; 2) no campo econômico, as promessas das reformas não se confirmam ou seus impactos são controversos, e sua generalização é limitada; 3) os impactos sociais são parecidos e generalizáveis, e implicam piora na venda e uso da força de trabalho na medida da efetividade das reformas. Os mercados de trabalho vivem, em geral, uma trajetória que se inicia desde a década de 1990, que deteriora, mas (ainda) sem desestruturar, o conjunto do padrão de gestão do trabalho.
Introduction: Unemployment Scarring
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Ruptura -Serie A Pilha de Areia -Livro 1
  • M Bolle
Bolle, M. (2020) Ruptura -Serie A Pilha de Areia -Livro 1, Ed. Intrínseca.
Ajustamento nos Mercados de Fatores, Raiz Unitária e Histerese na Economia Americana
  • J Braga
Braga, J. (2008) Ajustamento nos Mercados de Fatores, Raiz Unitária e Histerese na Economia Americana. Texto para Discussão, 241
Curto-circuito -O vírus e a volta do Estado. 1ªED. Editora: Todavia
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