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Abstract

Originally appeared as Thesis (Masters)--Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofía, Letras e Ciências Humanas, 2000. Includes bibliographical references (p. 233-237).
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A AÇÃO POLÍTICA DO MST
E
A AÇÃO POLÍTICA DO MST
Resumo: Estudo do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) como ator político. A partir de
uma ampla pesquisa em material jornalístico, verificou-se que o MST conquistou um espaço político impor-
tante no quadro público atual, contrariando toda uma suposta tradição de passividade e anomia do povo bra-
sileiro, ao conseguir se organizar, ter força política e desafiar os poderes constituídos.
Palavras-chave: reforma agrária; MST; ator político.
BRUNO KONDER COMPARATO
Cientista Político, Doutorando na FFLCH-USP
m reação à ocupação da sua fazenda pelo Movi-
mento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST), em abril de 2001, o embaixador do Brasil
ma diferente de reivindicação social, ou, se preferirmos,
de uma nova forma de atuação política.
A partir de uma ampla pesquisa em material jornalístico,
verifica-se que o MST conquistou um espaço político im-
portante no quadro público atual, e, contrariando toda uma
suposta tradição de passividade e anomia do povo brasilei-
ro, consegue se organizar, ter força política e desafiar os
poderes constituídos. Uma análise detalhada do relaciona-
mento entre o MST e o governo, o Congresso, a imprensa,
a Igreja e a opinião pública, revelou que o movimento cres-
ceu e se expandiu durante a presidência de Fernando
Henrique Cardoso, e não pode mais ser ignorado.
O MST E A LUTA PELA TERRA
O MST surgiu da reunião de vários movimentos popu-
lares de luta pela terra, os quais promoveram ocupações
de terra nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina,
Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, na primeira me-
tade da década de 80. Oficialmente, o MST foi fundado
em janeiro de 1984, na cidade de Cascavel, no Estado do
Paraná, por ocasião do Primeiro Encontro Nacional do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, com 80
representantes de 13 Estados. Atualmente, o movimento
está presente em 23 dos 26 Estados da federação, e é ca-
paz de organizar manifestações em duas dezenas de capi-
tais simultaneamente. Pelas últimas estimativas, os efeti-
na Itália, Paulo Tarso Flecha de Lima, comentou que o
objetivo da invasão era político e sem justificativa
fundiária e social. De maneira semelhante, o ministro do
Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, acusou o MST
de agir politicamente e se recusou a receber o movimento
(O Estado de S.Paulo, 03/04/2001; Folha de S.Paulo, 05/
04/2001). Essas reações são significativas porque mos-
tram que o governo brasileiro considera o MST um grupo
que atua de forma política. Mas elas ilustram também a
tática do governo de desqualificar constantemente esse mo-
vimento e dificultar as negociações.
Em um país de dimensões continentais como o Brasil,
no qual a maioria dos partidos políticos é tradicionalmen-
te fraca e regionalizada, os outros atores políticos não po-
dem ser negligenciados. Principalmente quando estão pre-
sentes em escala nacional, caso do MST. Deve-se prestar
especial atenção aos grupos que estabelecem uma novi-
dade no cenário político nacional. Pode-se dizer que o
MST constitui um ator político novo, mesmo que nenhu-
ma de suas ações ou características organizativas seja ori-
ginal. A novidade está na articulação, feita a partir de tá-
ticas e elementos já conhecidos, e na habilidade política
que o movimento tem demonstrado, ao fazer aliados em
vários segmentos da sociedade civil. Trata-se de uma for-
SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 15(4) 2001
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vos do MST se elevam a 350 mil famílias assentadas e 70
mil famílias em acampamentos, o que representa cerca de
1,5 milhão de pessoas.
Naturalmente, o MST não é o primeiro movimento de
luta pela terra. Na história do Brasil há vários relatos de
revoltas camponesas. Todos os movimentos anteriores,
contudo, permaneceram limitados à região em que sur-
giram. A ação das Ligas Camponesas, nos anos 60 con-
centrou-se no Estado de Pernambuco e adjacências. O mes-
mo aconteceu com Canudos, no final do século XIX, e
com o Contestado, no começo do século XX, que ficaram
restritos ao nordeste da Bahia e ao oeste catarinense. Além
disso, tanto em Canudos quanto no Contestado, os
revoltosos eram animados por aspectos messiânicos e
místicos, e ansiavam mais por um retorno ao passado do
que por uma transformação do presente (Candido, 1998;
Cunha, 1979; Martins, 1995; Monteiro, 1974; Queiroz,
1965 e 1977). Outra característica importante destaca o
MST de todos os movimentos anteriores de luta pela ter-
ra: trata-se do primeiro movimento que identifica como
seu principal adversário o governo federal, e não os gran-
des proprietários de terras.
Faz-se necessário lembrar, também, que o MST não é
o único movimento de luta pela reforma agrária. Existem
atualmente dezenas de outros movimentos, inspirados no
MST ou dissidências dele, como os próprios nomes suge-
rem, por exemplo, o MAST (Movimento dos Agriculto-
res Sem Terra), ligado à Social Democracia Sindical, o
MLST (Movimento de Libertação dos Sem Terra), ligado
a segmentos da esquerda, e o MUST (Movimento Unido
dos Sem Terra), ligado à Força Sindical. Os dados reuni-
dos por Bernardo Mançano Fernandes (1999) mostram que
o MST é responsável por apenas um terço das ocupações
de terras realizadas no Brasil desde 1996, e representa
aproximadamente dois terços das famílias acampadas
recenseadas desde aquele ano. Esses outros movimentos
de luta pela terra disputam, portanto, o mesmo espaço
político que o MST. A leitura cotidiana do noticiário po-
lítico revela, contudo, que o maior adversário do governo
nesse campo é o MST.
O MST E O GOVERNO
Para se ter uma idéia da força política conquistada pelo
MST durante o governo de Fernando Henrique Cardoso,
basta verificar a evolução da atenção que o governo fede-
ral tem dispensado ao movimento. Em 1994, ainda no go-
verno de Itamar Franco, a Folha de S.Paulo informava
que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrá-
ria (Incra) não sabia quantas invasões tinham sido efeti-
vadas nos anos anteriores (Folha de S.Paulo, 05/04/94).
Cinco anos mais tarde, as informações sobre o MST pas-
saram a ser sistematicamente compiladas por um “gabi-
nete de crises”, ligado ao Gabinete de Segurança Institu-
cional (GSI) da Presidência da República, e instalado no
quarto andar do Palácio do Planalto. Num grande mapa
são periodicamente registradas as áreas ocupadas, os acam-
pamentos, as escolas de formação de militantes e até as
dissidências do MST (Valor, 09/06/2000). Faz-se neces-
sário ressaltar que, entre essas duas datas, dois aconteci-
mentos importantes obrigaram o governo a dedicar maior
atenção ao MST: o massacre de Eldorado dos Carajás,
ocorrido em 17 de abril de 1996, e a Marcha a Brasília,
realizada de fevereiro a abril de 1997. Com efeito, apesar
de ter incluído a reforma agrária no plano de governo anun-
ciado durante a campanha eleitoral (O Globo, 06/07/97),
de ter afirmado que “a base da política fundiária do meu
governo é a reforma agrária” (Folha de S.Paulo, 24/03/95),
e de ter anunciado a intenção de dialogar com o MST em
audiência, em 27 de julho de 1995, o Presidente da Repú-
blica não percebeu imediatamente a gravidade do massa-
cre de Eldorado dos Carajás, em que 19 militantes do MST
foram mortos pela polícia militar do Pará.
Exatamente uma semana antes, ao comentar para a rede
de notícias americana CNN a ocupação simultânea de lo-
cais de grande movimento em 18 capitais do País, por dez
mil agricultores coordenados pelo MST, no dia 10 de abril
de 1996, Fernando Henrique Cardoso demonstrava a pouca
importância que seu governo atribuía ao MST até então.
Em artigo publicado na revista Istoé (17/04/96), lê-se: “A
direção nacional do MST também quer audiência com o
presidente FHC. Toda a movimentação obteve repercus-
são internacional, ao ser mostrada pela rede CNN. Ques-
tionado por um correspondente da emissora no País, FHC
disse que seu governo está preocupado, mas não pelo ta-
manho da marcha de quarta-feira. ‘O Brasil é um país ur-
bano e temos mais de 75% da população nas cidades. Es-
ses são problemas localizados’, reagiu.”. No dia seguinte
ao massacre de Eldorado dos Carajás, o presidente pro-
curou minimizar o problema: “os sem-terra e a polícia mi-
litar são representantes do Brasil arcaico”. Alertado por
assessores, e atento à repercussão internacional, o presi-
dente foi obrigado a mudar o tom. Novamente na revista
IstoÉ (24/04/96), lê-se: “No dia seguinte à chacina, o pre-
sidente (...) classificou de ‘representantes do Brasil arcai-
co’ os sem-terra e a polícia. (...) Na tarde de quinta-feira,
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A AÇÃO POLÍTICA DO MST
18, de olho na repercussão internacional atingida pela
matança, o presidente resolveu ele próprio conceder uma
entrevista coletiva no Palácio do Planalto. (...) Em 1996,
o governo ainda não assentou nenhuma família.”. No dia
18 de abril, um dia depois do massacre de Eldorado dos
Carajás, o ministro da Agricultura José Eduardo Andrade
Vieira, proprietário de grandes extensões de terras, foi
destituído. Logo em seguida, o Ministério da Agricultura
foi desmembrado, com a recriação do Ministério da Re-
forma Agrária, que tinha sido extinguido ao final do go-
verno Sarney, com Raul Jungmann como titular da pasta.
A postura do governo diante do MST mudou após o
massacre de Eldorado dos Carajás. Fernando Henrique
Cardoso percebeu a necessidade de coordenar melhor as
ações para poder enfrentar o movimento. Essa mudança
foi percebida pelos meios de comunicação: “O governo
resolveu adotar uma linha mais dura para enfrentar o MST.
O objetivo é impedir não apenas as invasões de sedes do
Incra, como o MST vem fazendo nas grandes cidades, mas
também a ocupação de fazendas, ação preferencial dos
sem-terra. A proposta aprovada na reunião foi coordenar
a repressão ao MST no Gabinete Militar da Presidência,
em vez de deixar a tarefa para os governadores de Esta-
do, como aconteceu até a semana passada. Toda vez que
se verificar que as polícias militares não estão dando con-
ta dos conflitos, tropas do Exército serão chamadas.” (Veja,
26/06/96). De fato, o general Alberto Mendes Cardoso,
chefe da Casa Militar do Palácio do Planalto, passou a
supervisionar diariamente as atividades do MST, como
informa outro artigo da revista Veja (23/04/97). Foi no
exercício dessa nova função que ele visitou Eldorado dos
Carajás, assim como sete acampamentos em áreas de con-
flito. A revista informa ainda que o general controlava 900
homens, em 12 agências regionais de inteligência, e pro-
duzia um relatório que, durante os dois meses de duração
da marcha do MST a Brasília, em 1997, era enviado dia-
riamente ao presidente. Mesmo com toda essa organiza-
ção, o governo subestimou a capacidade do MST de rea-
lizar uma marcha de dois meses até Brasília. Esse mesmo
artigo sustenta que o ministro da Reforma Agrária, Raul
Jungmann, convenceu Fernando Henrique Cardoso a acei-
tar receber as lideranças do MST com o argumento de que
a Marcha a Brasília fracassaria e o encontro não seria rea-
lizado. “Até a chegada da marcha, o Planalto achava que
a questão da terra tinha sido artificialmente inflada pelo
massacre de Eldorado dos Carajás e pela novela O Rei do
Gado. (...) Depois de um clamoroso erro de cálculo e de
educação política, de desprezar o poder de mobilização
dos sem-terra, de falar de ‘primitivismo’ e de ‘utopia regres-
siva’ mesmo quando as pesquisas de opinião informavam que
80% da população queria a reforma agrária, o governo sen-
tou-se à mesa para conversar.” (Veja, 23/04/97).
Seja como for, o despreparo do governo para lidar com
a questão agrária é claro. A seguinte frase, que segundo a
revista Veja teria sido pronunciada pelo ministro Raul
Jungmann, por exemplo, não é exatamente o que se espe-
raria de um ministro da Reforma Agrária: “O MST é um
movimento numericamente pequeno. Está trazendo 1.500
pessoas para Brasília. O Rotary e o Lions têm muito mais
gente.” (Veja, 23/04/97). Essa reação somente pode ser
compreendida quando se leva em conta que uma das es-
tratégias do governo ao lidar com o MST é desqualificá-
lo e buscar constantemente diminuir a importância e o al-
cance de suas ações.
Outra linha de conduta adotada pelo governo, para en-
frentar a pressão exercida pelo MST, é tentar descarac-
terizá-lo como movimento social, para enquadrá-lo como
um movimento criminoso, que realiza um conjunto de
ações fora da lei. A partir desse ponto de vista, torna-se
possível compreender como um ministro da Justiça, no
caso, Iris Rezende, pôde afirmar, numa reunião com se-
cretários de segurança de vários Estados, que: “Polícia e
fazendeiros têm de andar de mãos dadas para cumprir
mandados judiciais.” (Veja, 24/09/97). Nessa mesma oca-
sião, de acordo com a revista Veja, o ministro da Justiça
disse estar arrependido de não ter apoiado a polícia do
Pará no episódio de Eldorado dos Carajás.
Como mostram esses exemplos, as principais estraté-
gias do governo para combater o MST não enfrentam di-
retamente o movimento, mas buscam atingir a sua ima-
gem e popularidade junto à opinião pública. De modo
análogo, as análises dos discursos oficiais, das falas do
Presidente da República e de seus representantes, fazem
perceber que o governo evita referir-se diretamente ao
MST.
Ao iniciar o seu primeiro governo, Fernando Henrique
Cardoso acreditava que esvaziaria o MST fazendo alguns
assentamentos. O raciocínio era o seguinte: a média his-
tórica de desapropriações de terra que deram origem a as-
sentamentos para a reforma agrária no Brasil sempre foi
muito pequena. De acordo com os dados do governo, era
de 12 mil famílias assentadas por ano. Os analistas do go-
verno estimaram ser possível assentar 40 mil famílias em
1995, 60 mil em 1996, 80 mil em 1997 e 100 mil em 1998,
totalizando, assim, 280 mil famílias assentadas em quatro
anos. Caso esse plano fosse executado com sucesso, de
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um lado, os movimentos de trabalhadores sem terra se
esvaziariam por falta de militantes, e, de outro, a perda de
legitimidade que essa questão levantaria na opinião pú-
blica, à medida que as reivindicações fossem sendo aten-
didas.
A análise dos pronunciamentos do Presidente da Re-
pública que abordam a reforma agrária indica que, se num
primeiro momento o governo se mostrava favorável à re-
forma agrária, evitando, contudo, referir-se diretamente
ao MST, Fernando Henrique Cardoso foi progressivamente
se dirigindo de forma cada vez mais explícita ao MST,
que passou a ser tratado como adversário. Até que, a par-
tir de maio de 2000, quando o movimento promoveu ma-
nifestações e ocupações de prédios públicos em quase
todos os Estados, o governo adota um tom mais duro para
se referir ao MST, deixando claro que, no seu ponto de
vista, o movimento tem exagerado.
Os encontros entre o Presidente da República e repre-
sentantes do MST também são importantes, pois é a par-
tir deles que tanto o governo quanto o movimento se re-
conhecem mutuamente como interlocutores políticos. A
partir do momento em que estabelecem um diálogo, por
mais truncado que seja, eles se reconhecem como adver-
sários, mesmo em campos opostos, e não como inimigos.
Com efeito, para ambos seria um erro estratégico preten-
der eliminar o outro, pois o MST precisa do governo, da
mesma forma que o governo não pode ignorar o MST. Os
dirigentes do movimento têm plena consciência de que
precisam da mediação do governo para atingir os seus
objetivos. Apenas o governo pode desapropriar terras,
conceder indenizações, garantir crédito aos assentados,
estabelecer uma política agrária e executá-la. Em outras
palavras, o governo é o único ator que pode conciliar os
interesses em jogo e impedir que o conflito entre os pro-
prietários de terra e os sem-terra se radicalize. Por outro
lado, sem a presença do MST, o número de mortes no
campo seria, provavelmente, muito maior. A morte de um
militante do MST é muito mais constrangedora para o
governo do que o assassinato de um trabalhador rural não
pertencente ao movimento. Qualquer ação na qual esteja
envolvido o MST adquire mais visibilidade do que ou-
tras, nem que seja pelo fato de ser automaticamente con-
siderada um ato de desafio ao governo. Por essa razão é
que podemos afirmar que o governo não pode ignorar o
MST, e deve sempre levar em conta a resposta do movi-
mento quando estabelece sua política agrária.
De 1995 até o final de 2000, foram realizados cinco
encontros importantes entre Fernando Henrique Cardoso
e o MST. De maneira geral, o movimento está sempre dis-
posto a dialogar com o Presidente da República. Nota-se,
contudo, que na maioria dos casos as audiências podem
ser relacionadas com acontecimentos importantes, como
a primeira delas, que ocorreu em 27 de julho de 1995, por
ocasião do 3o Congresso Nacional do MST, ou com situa-
ções em que o movimento desafia o governo e o obriga a
negociar. Os encontros realizados em 2 de maio de 1996
e 18 de abril de 1997, por exemplo, estão relacionados
com o massacre de Eldorado dos Carajás e a Marcha a
Brasília. Houve, em seguida, uma reunião em 8 de julho
de 1999 e outra em 3 de julho de 2000, diante da ameaça
de ocupação da fazenda da família de Fernando Henrique
Cardoso, em Minas Gerais.
As reivindicações apresentadas pelo MST durante es-
ses encontros são muitas. Todas elas poderiam, contudo,
ser resumidas em apenas dois itens: o assentamento das
famílias acampadas e a concessão de créditos para possi-
bilitar a produção das famílias assentadas. Os valores en-
volvidos nessa discussão são consideráveis, da ordem de
um ou dois milhões de reais anuais.
Uma parte desses recursos é efetivamente aplicada
na reforma agrária. Mesmo que o MST discorde dos nú-
meros apresentados pelo governo e diga que são artifi-
cialmente inflacionados, não se pode negar que o nú-
mero de famílias assentadas aumentou significa-
tivamente a partir de 1995. O MST consegue, dessa for-
ma, alguns resultados positivos, e a sua principal arma,
até agora, tem sido a pressão exercida por meio das ocu-
pações. Apesar das ameaças do governo de que terras
invadidas não serão desapropriadas, os estudos de
Fernandes (1999) mostram ser possível estabelecer uma
correlação positiva entre o número de ocupações e os
assentamentos realizados.
Uma análise dos enfrentamentos entre o MST e o go-
verno mostra que a luta pela reforma agrária dá origem a
duas formas de pressão sobre o governo. A primeira for-
ma é aquela exercida por sem-terra acampados e só se
desfaz quando o assentamento é conquistado. Surge en-
tão o segundo tipo de pressão, aquele exercido pelos as-
sentados para ter acesso aos créditos de reforma agrária,
e viabilizar a produção até que o assentamento adquira
autonomia suficiente para ser emancipado.
A tarefa do governo, portanto, não é nada fácil: é pre-
ciso romper o ciclo de pressão que se forma na ocupação,
ou no assentamento. O sucesso do MST e a razão princi-
pal do seu crescimento podem ser explicados justamente
pela sua habilidade em construir esses dois ciclos e mantê-
109
A AÇÃO POLÍTICA DO MST
los sempre ligados à organização do movimento, de modo
que eles se reforcem mutuamente.
Agora é possível entender com maior clareza o motivo
das ações do governo que se destinam a romper esses dois
ciclos de pressão: cadastramento de famílias sem-terra in-
teressadas em receber um lote em um assentamento de re-
forma agrária; proibição de desapropriações em terras ocu-
padas durante os dois anos subseqüentes à desapropriação;
emancipação precoce dos assentamentos ou não-conces-
são de créditos aos mesmos, o que tem praticamente o
mesmo resultado; tentativa de cooptação de lideranças com
promessa de vantagens pessoais; repressão; criminalização
do movimento; descentralização da reforma agrária, para
evitar que a luta seja caracterizada como um enfrentamento
entre o governo federal e o MST; e, por fim, o incentivo à
divisão e ao surgimento de movimentos rivais. Em todas
essas ações, o governo conta com um aliado fundamental,
os meios de comunicação, que passamos a analisar a se-
guir.
O MST E A IMPRENSA
Não é preciso ser um observador muito atento para cons-
tatar que, quando o assunto é sem-terra, há consenso dos
meios de comunicação a favor do governo. Sem querer
diminuir a importância da televisão e do rádio, acredita-
mos ser possível limitar a nossa investigação à imprensa
escrita, e, mais particularmente, aos jornais. O motivo para
privilegiar os jornais, em relação às revistas, é que, a par-
tir da análise dos editoriais, pode-se ter uma boa idéia do
posicionamento de cada jornal diante das questões mais
relevantes para o país. Consideramos importante, sobre-
tudo, o fato de a pauta diária do noticiário dos órgãos de
rádio e televisão ser sempre influenciada pelas matérias
veiculadas na imprensa.
Ao comparar os editoriais que abordam temas relati-
vos à reforma agrária e ao MST, nos quatro maiores jor-
nais do país (Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo,
Jornal do Brasil, O Globo), constata-se que, no que diz
respeito à questão agrária, não faz sentido a distinção en-
tre jornais mais ou menos governistas. A presença do MST
nos editoriais dos jornais mais importantes do país já cons-
titui uma prova bastante conclusiva da sua relevância como
ator político na cena nacional. Ao mesmo tempo que
espelham os acontecimentos políticos de maior destaque,
os editoriais fazem alertas ao governo e aos leitores, e
comunicam a opinião oficial de cada jornal. Como, por
exemplo, o editorial intitulado “O novo ator político”,
publicado no primeiro ano do governo de Fernando
Henrique Cardoso, no jornal O Estado de S.Paulo (03/11/95):
“(...) O Movimento dos Sem-Terra é hoje um ator de pri-
meira grandeza na cena política quer pelo assentamento
legal dos invasores, quer pela permanência deles nas ter-
ras ocupadas, quer pelo convencimento das autoridades
públicas de que não se deve impor o respeito à lei, mas
aceitar as invasões e negociar. Pelas razões acima expos-
tas e outras mais, o fato é que a organização nacional do
movimento conseguiu êxitos políticos inegáveis na sua
política de invasão. As autoridades federais e estaduais,
especialmente as primeiras, não se deram conta do dano
que a acomodação diante das violações da lei poderia cau-
sar para todo o ordenamento jurídico do País, que assen-
ta, gostemos ou não, sobre uma certa idéia de hierarquia e
ordem.(...)”.
Numa tentativa de quantificar a presença do MST em
editoriais, pode-se contar o número dos dedicados ao mo-
vimento, e acompanhar a evolução dos resultados duran-
te todo o governo Fernando Henrique Cardoso. Considera-
se que um editorial fala do MST quando cita explicitamente
a sigla MST, ou se refere por extenso ao Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra, ou ainda, quando faz alu-
são a um líder do movimento, como José Rainha Júnior,
ou a um acontecimento diretamente relacionado ao MST,
como a Marcha a Brasília. Alguns editoriais tratam da
reforma agrária ou da situação de agricultores sem-ter-
ra, mas não se referem diretamente ao MST. Nesse caso
eles foram contabilizados como editoriais sobre a re-
forma agrária.
Como parâmetro de comparação, são considerados tam-
bém os editoriais que aludem à Contag (Confederação
Nacional dos Trabalhadores na Agricultura) e à CUT (Cen-
tral Única dos Trabalhadores). A primeira foi escolhida
porque é a maior organização de empregados rurais do
Brasil, reunindo 25 federações estaduais e 3.630 sindica-
tos, incorporando 15 milhões de trabalhadores,1 enquan-
to a segunda é geralmente considerada, junto com o PT
(Partido dos Trabalhadores), adversária constante do go-
verno. Uma segunda razão para essa comparação é que,
para o governo, seria bastante confortável que o MST se
transformasse num sindicato nos moldes da Contag ou da
CUT, com regras claras de atuação devidamente institu-
cionalizadas. Os resultados foram agrupados na Tabela 1
e podem ser melhor analisados no Gráfico 1.2
A interpretação desses resultados mostra que o MST
vai progressivamente tomando o lugar da CUT como tema
mais freqüente. Se nos anos de 1995, com a greve dos pe-
SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 15(4) 2001
110
troleiros, e 1996, com a reforma da previdência social, a
CUT teve presença assegurada nos editoriais desses jor-
nais, nos anos seguintes a sua presença foi se tornando
cada vez mais rara. Uma explicação pode ser a estratégia
bem sucedida do governo de desmoralizar os movimen-
tos sindicais ao reprimir duramente a greve dos petrolei-
ros, de um lado, e de anular as pressões dos sindicatos no
Congresso, com a aprovação da reforma da previdência,
de outro.
Quanto ao MST, observa-se um pico no ano de 1997,
que corresponde à Marcha a Brasília. Nos anos subseqüen-
tes há uma diminuição progressiva do número de edito-
riais sobre o movimento. Mantém-se, contudo, um pata-
mar significativo, principalmente quando comparado com
os números correspondentes à Contag.
Outro dado interessante é que o tema reforma agrária
apresenta um pico no ano de 1996, quando aconteceu o
massacre de Eldorado dos Carajás e foi aprovada a nova
lei sobre o ITR (Imposto Territorial Rural). Os proble-
mas agrários eram comentados, mas não eram automati-
camente relacionados com o MST que, nos anos seguin-
tes, foi tomando conta do assunto.
Em suma, a identificação como adversário principal do
governo, que antes era uma característica da CUT, passa
a ser atribuída ao MST. Essa é, aliás, precisamente a aná-
lise feita por Luís Inácio Lula da Silva em novembro de
1995, quando afirmou que o MST exerce hoje o mesmo
peso político para a esquerda brasileira que o movimento
dos operários do ABC paulista teve no fim do regime
militar. Lula admitiu, na ocasião, que a organização do
MST na disputa pela terra forçou a direção dos partidos
de esquerda a assumir a bandeira da reforma agrária (O
Estado de S.Paulo, 03/11/95).
Uma análise mais detalhada mostra que, nos anos mais
recentes, a CUT aparece, cada vez mais, associada ao MST
nos editoriais. Em O Estado de S.Paulo, por exemplo, no
qual antes se lia “Estas manifestações têm em comum ser
preparadas, conduzidas e feitas por pessoas ligadas ao PT, à
CUT e ao PC do B, que se utilizam, como linha auxiliar, de
movimentos sociais controlados ou infiltrados” (O Estado
de S.Paulo, 18/05/97), lê-se agora “A reação de nativismo
equivocado é compreensível quando vem de Lula e do baixo
clero do PT, da CUT e do MST.” (O Estado de S.Paulo,
02/08/98). Uma evolução parecida acontece com a Contag.
Faz-se necessário assinalar, ainda, que a aproximação
da CUT e da Contag com o MST não acontece apenas no
plano dos editoriais, a partir da identificação de maiores
adversários do governo. Essa aproximação é real, e a CUT,
que surgiu no meio bem urbano da indústria metalúrgica
de São Bernardo do Campo, em 1983, se interessa cada
vez mais pelos problemas rurais.3 A filiação da Contag à
CUT, em abril de 1995, é um bom indício dessa nova ten-
dência. O fato mereceu um editorial em O Estado de
S.Paulo (01/05/95), no dia do trabalho, que confirma a
importância do acontecimento: “A adesão da Confedera-
ção Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag)
à Central Única dos Trabalhadores (CUT) é tida e havida
nos currais da CUT como o mais relevante fato do movi-
mento sindical brasileiro em 30 anos. (...) Conquistar a
Contag era um sonho alimentado pela CUT há anos.”
A CUT também promove ações de solidariedade ao
MST e realiza manifestações conjuntas com o movimen-
to dos sem-terra. O fato mais significativo, no entanto, é a
TABELA 1
Evolução do Número Total de Editoriais sobre o MST, a Reforma Agrária, a
Contag e a CUT nos Principais Jornais do País
Brasil – 1995-2000
Editoriais 1995 1996 1997 1998 1999 2000
MST 47 94 147 108 62 77
Reforma Agrária 24 58 38 30 17 6
Contag 4 6 5 1 4 3
CUT 98 93 46 35 19 17
Fonte: Folha de S.Paulo; O Estado de S.Paulo; Jornal do Brasil; O Globo.
GRÁFICO 1
Evolução do Número Total de Editoriais sobre o MST, a Reforma Agrária, a
Contag e a CUT nos Principais Jornais do País
Brasil – 1995-2000
Fonte: Folha de S.Paulo; O Estado de S.Paulo; Jornal do Brasil; O Globo.
111
A AÇÃO POLÍTICA DO MST
realização de ocupações de terra incentivadas pela CUT.
Durante o mês de junho de 2000, o Departamento dos Tra-
balhadores Rurais da CUT promoveu 13 invasões em fa-
zendas do Mato Grosso do Sul.
A Contag, por sua vez, também resolveu adotar uma
linha de ação mais agressiva, e vem promovendo a ocu-
pação de propriedades rurais, a exemplo do MST. Trata-
se de uma mudança significativa, para uma organização
que, até este momento, preferia a negociação com base na
sua grande representação sindical.
Nem é preciso falar que o governo acompanha com preo-
cupação o fato de Contag e CUT passarem a defender a re-
forma agrária e a incluir ocupações de terra nas suas es-
tratégias de ação. O Jornal do Brasil (24/04/99) cita o
ministro-chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso:
“Desde que a Contag se filiou à CUT, ela entrou na estraté-
gia da violência, no sentido de praticar a invasão de terras.
Esta competição entre as duas organizações é maléfica por-
que acirra os ânimos, fugindo de uma linha racional de dis-
cussão”. O que o general esconde, e o jornal não menciona,
contudo, é que o próprio governo incentiva a rivalidade en-
tre as organizações que lutam pela reforma agrária, com o
objetivo de diminuir a força do MST.
Faz-se necessário notar que, ao se considerar o núme-
ro de filiados a essas organizações, a Contag e a CUT são
bem maiores do que o MST. Por outro lado, o número de
ocupações de terras é comparável com o número de gre-
ves, como pode ser comprovado pelas Tabelas 2 e 3.
Ao confrontar esses dados e a freqüência com que tais
organizações aparecem nos editoriais de jornal, pode-se
fazer duas afirmações. Em primeiro lugar, a visibilidade
de uma organização não depende do seu tamanho. Em se-
gundo lugar, ocupações de terras têm chamado muito mais
a atenção do que greves. Esse resultado já era esperado,
pois as ocupações de terra e a defesa da reforma agrária
vão de encontro ao sistema de propriedade privada, en-
quanto greves para a melhoria das condições de trabalho,
o aumento dos salários ou a manutenção do emprego afe-
tam apenas indiretamente o conjunto da população brasi-
leira. Pode-se argumentar, também, que, por um lado, com
a democratização, as greves deixaram de ser considera-
das subversivas e, por outro, com a crise de emprego, o
potencial de mobilização das greves diminuiu bastante.
Dessa forma, acredita-se que o MST assumiu um lugar de
destaque no imaginário das classes proprietárias e empre-
sariais como o adversário que oferece perigo, ou seja, pode
obrigar a uma mudança na organização da sociedade. O
que acontece é que a luta pela reforma agrária assusta muito
mais do que a luta sindical. Uma ocupação de terra é mui-
to mais visível do que uma greve ou a ocupação de uma
fábrica. E isso acontece porque o governo e as classes pro-
prietárias já aprenderam a lidar com a luta sindical e a
contorná-la, mas ainda não sabem muito bem o que fazer
para enfrentar a luta pela reforma agrária.
Outra consideração, contudo, precisa ser feita. O sen-
so de oportunidade do MST, ou seja, a habilidade que seus
líderes têm em prever quais manifestações mobilizam mais
a imprensa nacional, é um fator importante para a visibi-
lidade do movimento nos meios de comunicação. O MST
sempre organiza manifestações de massa, sejam elas mar-
chas, acampamentos ou ocupações, pois, como afirmam
seus líderes, essas são a melhor maneira de evitar a re-
pressão aos manifestantes. O mais importante, contudo, é
que cada passo sempre leva em conta o apelo jornalístico,
pois os estrategistas do MST sabem muito bem que um
acampamento à beira de uma rodovia tem muito mais vi-
sibilidade do que no interior das terras, do mesmo modo
que montar um acampamento provisório em frente ao pa-
lácio do governo, ou diante de órgãos do governo ou agên-
cias bancárias, garante presença no noticiário da televi-
são e nos jornais. A ocupação de prédios públicos ou a
TABELA 2
Comparação entre o Número de Ocupações de Terras e
o Número de Greves
Brasil – 1996-99
Anos Número de Número
Ocupações de Terras de Greves
1996 389 -
1997 462 (1) 563
1998 446 580
1999 495 -
Fonte: Incra; Dieese.
(1) De março a dezembro.
TABELA 3
Características Organizacionais do MST, Contag e CUT
Brasil – 2000
Entidades Número de Filiados Sindicatos
MST 420 mil famílias (1) 2.000
Contag 15 milhões 3.630
CUT 21 milhões 3.088
Fonte: MST; Contag; CUT.
(1) São 500 acampamentos + 1.500 assentamentos.
SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 15(4) 2001
112
concentração de militantes em frente à fazenda da fa-
mília do Presidente da República, por sua vez, garante
um lugar de destaque na imprensa, enquanto durar a mo-
bilização.
O que incomoda mais o governo é a dificuldade em
combater a habilidade que o MST demonstra em aparecer
na mídia. Com efeito, seria muito mais confortável, para
o governo, que o MST adotasse uma forma institucionali-
zada de oposição política. Já vimos, contudo, que, não so-
mente os sindicatos não são uma alternativa atraente para
o MST, como também eles começam a adotar as estraté-
gias de ação próprias do movimento. Outra alternativa,
bastante explorada pela oposição, é o caminho parlamen-
tar e a organização em partidos políticos. Aliás, muitos se
perguntam se esse não é o futuro do MST.
Interessa, portanto, verificar qual é a relação entre o
MST e o Congresso.
O MST E O CONGRESSO
Uma prova incontestável da força política do movimen-
to dos sem-terra é que ele não precisa, ou não quer, pas-
sar pela intermediação de um deputado para fazer com que
suas reivindicações cheguem ao Executivo. De fato, os di-
rigentes do MST são recebidos diretamente pelo Presi-
dente da República ou por seus ministros. Os parlamentares
podem até facilitar o encontro, mas não são indispensá-
veis, o que vai contra a teoria da representação, de acordo
com a qual os representantes do povo são os responsáveis
por fazer chegar as reivindicações da população ao co-
nhecimento do governo.
A situação mais comum é aquela em que alguns parla-
mentares, geralmente de oposição, oferecem-se para so-
lucionar uma situação de impasse, entre o governo e o
MST. Dessa forma, quando nenhum dos dois lados está
disposto a fazer concessões, é freqüente ver parlamenta-
res interessados num acordo se desdobrarem para marcar
um encontro entre as duas partes. A atuação do Congres-
so nessa questão, no entanto, poderia ser muito maior. Com
efeito, no que diz respeito às questões agrárias, o Con-
gresso deixa as iniciativas para o Executivo. As leis que
foram apreciadas desde 1995, como a que estabelece o
rito sumário para fins de reforma agrária, ou a que intro-
duziu mudanças no cálculo do Imposto Territorial Rural,
foram propostas pelo presidente. A relativa facilidade com
que essas leis foram aprovadas pelo Congresso fez o pre-
sidente afirmar que, “hoje, os latifundiários não passam
de tigres de papel.”
Não é uma tarefa fácil, contudo, determinar com pre-
cisão quem são os deputados e senadores que apóiam o
MST, de um lado, e quem são aqueles que se opõem a
esse movimento, de outro lado. Uma estimativa razoável
consiste em identificar o apoio ao MST com os partidos
de esquerda, e o seu repúdio com a direita. Se considerar-
mos como partidos de direita o PFL, o PPB, o PTB, o bloco
PL-PSL, e o PSC, os adversários do MST no Congresso
representariam, seguramente, mais de um terço dos parla-
mentares. Se considerarmos como partidos de esquerda o
PT, o PDT, o PSB, o PC do B, o PPS e o PV, os deputa-
dos favoráveis ao MST representariam aproximadamente
um quinto dos parlamentares, ou seja, a metade da direi-
ta. Dentro da oposição, o partido que oferece o apoio mais
constante ao MST é o PT. Certamente, os deputados e
senadores petistas se apresentam várias vezes como in-
terlocutores entre o MST e o governo. Quanto aos parla-
mentares de partidos de centro, que podem ser identifica-
dos como sendo o PSDB e o bloco PMDB-PST-PTN, cuja
bancada é um pouco maior do que a da direita, sua posi-
ção em relação ao MST é indefinida.
Outra linha de ação consiste em investigar quem são
os parlamentares mais preocupados com as questões rela-
tivas à terra e à produção agrícola. Nesse grupo, há os que
defendem os interesses dos grandes proprietários de terra
e os que estão mais próximos da agricultura familiar. O
primeiro grupo é freqüentemente rotulado como a “ban-
cada ruralista”. Sua origem remonta ao lobby exercido pela
União Democrática Ruralista (UDR), durante a Assem-
bléia Nacional Constituinte (1987/88), para impedir que
a nova constituição facilitasse a realização de uma refor-
ma agrária.4 Como mostrou o episódio da votação do rito
sumário e do novo ITR, nas legislaturas mais recentes a
bancada ruralista tem sido bastante enfraquecida. Ao res-
ponder a um jornalista do Jornal do Brasil, que indagava
por que a bancada ruralista, com seus 150 parlamentares,
se movimenta para combater a reforma agrária e negociar
as dívidas dos agricultores, mas não aponta nem formula
soluções para os problemas da agricultura, um grande fa-
zendeiro e membro da Sociedade Rural Brasileira expli-
cou que “o problema é que a bancada só é acionada para
questões agudas, como dívida ou reforma agrária. Não para
resolver problemas, mas para contorná-los.” (Jornal do
Brasil, 22/04/96).
Deve-se observar, contudo, que não é fácil estimar o
tamanho da bancada contrária à reforma agrária. Um es-
tudo recente identifica como membros da bancada ruralista,
na atual legislatura, 83 deputados dos partidos PFL,
113
A AÇÃO POLÍTICA DO MST
PMDB, PSDB, PPB, PTB, PDT, PL, PSD, PMN, ou seja,
16,5% dos 513 deputados federais (Oliveira, 2000). Para
a legislatura passada, outro estudo do mesmo autor citava
121 deputados como ruralistas (Oliveira, 1995). O pró-
prio autor, contudo, ressalta a dificuldade em identificar
um deputado como ruralista. No caso desses estudos, o
critério utilizado foi a declaração do deputado sobre suas
fontes de renda. O deputado foi considerado como com-
ponente potencial da bancada ruralista se entre as fontes
de renda declaradas houvesse alguma forma de renda agrí-
cola. Analisar os resultados das votações de interesse da
bancada ruralista pode parecer uma boa idéia. O resulta-
do, no entanto, seria falseado pois os interesses dos
ruralistas são próximos aos dos representantes dos peque-
nos agricultores.
Faz-se necessário ressaltar, ainda, que o fato de um de-
putado pertencer à bancada ruralista não significa que ele
seja contra a reforma agrária. Com efeito, Edélcio Vigna
de Oliveira relata que, no início da legislatura de 1995, o
Instituto de Estudos Sócio Econômicos (INESC) aplicou
um questionário a todos os parlamentares sobre os temas
mais polêmicos da agenda política nacional. Entre as per-
guntas elaboradas foi incluída uma questão sobre os con-
flitos de terra e a reforma agrária: “O que é necessário
para inibir os conflitos agrários?”. O questionário foi res-
pondido por 165 parlamentares. Mesmo sabendo que o
número de entrevistados representa apenas um terço do
total de congressistas, vale a pena observar os resultados:
quase a metade dos que responderam apontou a reforma
agrária como a melhor solução.
Como diz Oliveira (1995), “mais importante que a aná-
lise do quadro, é o resultado que aponta a reforma agrária
como solução para o caso dos conflitos fundiários no país.
Esse resultado indica que na Câmara dos Deputados, ape-
sar da demonstração de força da bancada ruralista, há uma
tendência que considera viável a implementação da refor-
ma agrária como política pública. Essa colocação é ne-
cessária para que não se entenda o forte lobby dos ruralistas
como um fato consumado contra as aspirações daqueles
que propugnam pela democratização da terra.” Natural-
mente, os conflitos de terras podem ser mais prejudiciais
para os fazendeiros do que a reforma agrária. Nas pala-
vras de um grande fazendeiro do Paraná: “O problema
chegou a este ponto, porque, em vez de negociar, quem
cuida da reforma agrária no governo fez uma aposta no
confronto. Veja o que aconteceu no Pontal do Parana-
panema. Com a crise de hoje, com os preços das fazendas
despencando por causa das invasões, seria muito fácil
comprar aquelas terras e fazer os assentamentos. Por que
o governo não propõe acordos? Porque há interesse no
confronto. A incompetência e a demora do governo desa-
ponta fazendeiros e os sem-terra. As soluções são prome-
tidas, mas não ocorrem. O resultado é o radicalismo. Os
fazendeiros vão buscar seus direitos na Justiça. Mas não
temos interesse em agravar este problema. O MST é que
tem interesse no problema. Nós temos interesse na solu-
ção dos conflitos fundiários, que nos trazem muita dor-
de-cabeça e desvalorizam as terras.” (Jornal do Brasil,
22/04/96).
Por fim, da mesma forma que se pode falar numa ban-
cada ruralista, é possível considerar a existência de uma
bancada da reforma agrária, no Congresso. A edição de O
Globo (23/04/2000) informa que Adão Pretto (PT-RS),
eleito graças aos votos de militantes do MST e de peque-
nos agricultores, foi o deputado federal que realizou a cam-
panha mais barata, tendo recebido apenas R$ 500 em doa-
ções. Deve-se lembrar, ainda, a existência do núcleo
agrário do PT, constituído por 16 deputados eleitos com
uma base rural e favoráveis ao MST.
A despeito do potencial eleitoral demonstrado por al-
guns dos seus integrantes, o MST não acredita que a con-
quista de cadeiras no Congresso seja o melhor caminho
para a luta pela reforma agrária. “O eixo da luta pela re-
forma agrária se deslocou do Parlamento para outros se-
tores. (...) O tempo de lutar pela reforma agrária no Parla-
mento foi o da Constituinte,” (Jornal do Brasil, 22/10/
90) dizia João Pedro Stédile, em 1990. “Nunca despreza-
mos o caminho eleitoral. Vários de nossos militantes são
deputados, prefeitos. Agora, as mudanças nesse país não
vão se dar pelo Parlamento. O Parlamento é apenas res-
sonância da correlação de forças na sociedade e a corre-
lação de forças na sociedade só vai mudar se os pobres
forem para as ruas, se organizarem e lutarem contra o
governo. Mas não devemos imaginar que o MST vá virar
partido. O dia que virar, acabou com o movimento. Essa
ilusão nunca tivemos nem queremos,” (Jornal do Brasil,
21/05/2000) continua ele a dizer, hoje em dia. Na opinião
dele, a organização e o fortalecimento do movimento são
prioritários: “O senhor será candidato a deputado nas pró-
ximas eleições? Stédile: De jeito nenhum. A minha fun-
ção é continuar a ajudar a construir o movimento dos sem-
terra e lutar pela reforma agrária. Mas não desmereço o
trabalho parlamentar e institucional. Ele é necessário, mas
o fundamental é a organização de massas. Em toda a his-
tória da humanidade só o povo organizado em mobiliza-
ção de massas fez mudanças profundas.” (Veja, 06/08/97).
SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 15(4) 2001
114
Podemos afirmar, portanto, que o MST não despreza
nem desmerece o trabalho parlamentar, embora ele não
seja visto como prioritário. Os congressistas podem ser
importantes intermediários quando é preciso resolver um
impasse entre o movimento e o governo. Ademais, todo
apoio é considerado bem-vindo, principalmente se faz
parte de uma instituição reconhecida como interlocutor
confiável na cena política. Esse parece ser, igualmente, o
caso da Igreja, que passamos a analisar em seguida.
O MST E A IGREJA
A importância da Igreja como ator político, no Brasil,
foi evidenciada durante o processo de redemocratização.
Com efeito, no final dos anos 70 e começo dos 80, todos
os que lutavam contra o regime militar encontravam apoio
em setores importantes da Igreja (Cava, 1988; Martins,
1994). O fato de a Igreja, tradicionalmente alinhada com
as posições mais conservadoras das elites ao longo de toda
a história do Brasil, ter-se empenhado na defesa da causa
dos camponeses, a partir da década de 60, pode parecer
paradoxal. É preciso considerar, contudo, que naquele
momento a Igreja se opunha ao comunismo. Tornava-se
preferível, portanto, aproximar-se dos camponeses a vê-
los transformados em revolucionários. Esse ponto é im-
portante, pois a partir daquele momento, e mesmo que a
parte mais progressista da Igreja fosse depois duramente
combatida pelo governo militar, estavam lançadas as ba-
ses para que a Igreja viesse a ser considerada, hoje, um
interlocutor confiável entre o governo e os trabalhadores
rurais. Para o governo, sobretudo, trata-se de um
interlocutor muito mais confiável do que os partidos de
esquerda.
A Igreja apresenta uma vantagem decisiva, em relação
aos partidos e aos sindicatos, quando se trata de organi-
zar os trabalhadores do campo, pois, de acordo com José
de Souza Martins (1986), a Igreja “tem um êxito muito
grande na mobilização de populações camponesas, na cria-
ção de comunidades de base, etc. Acho que ela fala uma
língua que é entendida pelas populações trabalhadoras, e
é isso que a torna um elo essencial nas lutas populares no
campo”. De acordo com uma reportagem publicada na
revista Veja (28/10/98), é justamente essa proximidade
entre os padres e os trabalhadores rurais que explica a
importância da Igreja na formação do MST: “O berço do
movimento sem terra e o de boa parte dos padres é o mes-
mo: as cidades mais pobres do interior dos Estados do Sul.
Segundo uma pesquisa feita neste ano pelo Centro de Es-
tatística Religiosa e Investigações Sociais – Ceris, quase
a metade do clero brasileiro veio da Região Sul do país.
Dois terços pertencem a famílias de classe baixa ou mé-
dia-baixa. Enquanto 78% da população brasileira vive nos
centros urbanos, 64% do clero tem origem na zona rural.
Três em cada quatro padres nasceram em cidades com
menos de 20 mil habitantes”.
Outros dois aspectos marcaram decisivamente a in-
fluência da Igreja sobre o MST. O primeiro deles é o ca-
ráter ecumênico da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que
evitou que a luta pela terra se fracionasse em várias orga-
nizações.5 O segundo, também a característica mais im-
portante da CPT, é a capilaridade dessa entidade nas ca-
madas populares, principalmente no campo e sobretudo
nas áreas de fronteira, onde ocorre a maioria dos confli-
tos de terras. Daí sua posição privilegiada quando se trata
de quantificar com precisão o número de assassinatos no
campo, os conflitos agrários ou as ocupações de terras
(Martins, 1985).
O apoio da Igreja à reforma agrária não se limita, con-
tudo, à sistematização e denúncia de dados sobre confli-
tos no campo. O apoio logístico também é muito impor-
tante, como por exemplo o que foi oferecido ao MST
durante a Marcha a Brasília, em 1997, quando a Igreja
Católica permitiu a hospedagem em igrejas e casas paro-
quiais durante todo o trajeto, além de auxiliar na arreca-
dação de alimentos para os manifestantes. Outro apoio
material importante, conseguido por meio das conexões
que a Igreja tem no exterior, é a ajuda financeira ofereci-
da por organizações cristãs internacionais. Estima-se que
cerca de 15% dos recursos do MST sejam provenientes
dessa rede de solidariedade internacional (O Estado de
S.Paulo, 01/06/98).
Feitas essas considerações, pode-se dizer que é possí-
vel distinguir dois grupos distintos entre os eclesiásticos
brasileiros: os progressistas e os conservadores. Os pri-
meiros, em grande parte adeptos da Teologia da Liberta-
ção, costumam posicionar-se a favor da reforma agrária e
das lutas operárias, enquanto os segundos condenam es-
tas atitudes e permanecem fiéis às determinações do
Vaticano (Moura, 1981; Gusmão, 1981).
Naturalmente, o governo brasileiro tem considerado
com preocupação o envolvimento dos bispos progressis-
tas com as causas populares e, em especial, com a luta
pela reforma agrária. A reação mais freqüente tem sido a
tentativa de obter do papa João Paulo II, conhecido por
sua posição conservadora quando o assunto são os movi-
mentos sociais, alguma manifestação a favor da ordem e
115
A AÇÃO POLÍTICA DO MST
contra o envolvimento político de padres e militantes ca-
tólicos.
Em 1985, José Sarney esteve com o papa João Paulo
II, no Vaticano. O ex-governador paulista Abreu Sodré,
alarmado com o surgimento do MST, alertara o então Pre-
sidente da República para o perigo potencial de um le-
vante no campo. Sarney pediu então ao Itamaraty que or-
ganizasse uma viagem a Roma cujo objetivo principal era
pedir ao papa que desautorizasse os setores da Igreja com-
prometidos com a reforma agrária. A missão, no entanto,
resultou num retumbante fracasso. De acordo com o de-
poimento de Rubens Ricupero,6 que na qualidade de as-
sessor especial da Presidência acompanhou Sarney nessa
viagem, não somente o papa se recusou a se manifestar
publicamente contra os padres que militavam junto com
trabalhadores rurais, mas também, durante a missa em ho-
menagem ao povo brasileiro, os textos escolhidos trata-
ram da função social da terra, além de outros que tinham
sido escritos por D. Hélder Câmara para a Campanha da
Fraternidade. Na saída da celebração, um jornalista que
acompanhava a delegação brasileira, numa atitude inteira-
mente não-protocolar, interpelou o sumo pontífice indagan-
do se ele tinha uma última mensagem para os brasileiros.
“Sim”, respondeu o papa, voltando-se para o jornalista e fa-
lando em português, “desejo que se dê mais atenção aos po-
bres do Brasil e que se faça a reforma agrária”.
A posição do papa no que diz respeito à questão agrá-
ria no Brasil é a de que é preciso fazer a reforma agrária,
mas sem desrespeitar o direito de propriedade. O Vaticano
entende como justas as reivindicações do MST, apesar de
não apoiar os seus métodos de ocupar propriedades parti-
culares e agências bancárias para forçar o governo a libe-
rar créditos. A Igreja prefere uma reforma preventiva, com
o objetivo de evitar que a luta pela terra se transforme em
movimento revolucionário, a uma reforma confiscatória
e radical, mais afinada com os princípios socialistas. Daí
os apelos do papa para que a reforma agrária seja feita de
acordo com a lei.
Esse ponto de vista não impediu, contudo, que, uma
semana após o massacre de Eldorado dos Carajás, o papa
enviasse à CNBB uma carta na qual condena o massacre
de sem-terra no Pará e pede uma reforma agrária “corajo-
sa e de longo alcance” (Folha de S.Paulo, 25/04/96). A
resposta do governo foi insistir na tradicional posição de
tentar conseguir um posicionamento mais firme, por par-
te do Vaticano, contra os movimentos sociais e os bispos
progressistas, de modo a reforçar a identidade entre o clero
conservador e o papa. O que se deve evitar a todo custo,
para o governo brasileiro, é que a luta pela terra resulte
na união das duas tendências da Igreja, forçando o gover-
no a se envolver de maneira mais séria com a questão agrá-
ria. Como parte desses esforços, deve-se considerar a vi-
sita oficial de Fernando Henrique Cardoso ao Vaticano,
em 14 de fevereiro de 1997, além das cinco viagens a Roma
empreendidas pelo ministro da Reforma Agrária, Raul
Jungmann, para prestar contas pessoalmente ao papa so-
bre o andamento da reforma agrária no país. Essas via-
gens revelam, também, uma questão fundamental: a im-
portância que o governo atribui à opinião pública,
principalmente internacional, quando o assunto é o MST.
O MST E A OPINIÃO PÚBLICA
No caso específico do MST, a opinião pública tem se
revelado um elemento importante para as decisões do go-
verno e também para tomadas de posição de representan-
tes no Legislativo. Podemos distinguir duas realidades se-
paradas: de um lado, temos a opinião pública nacional,
do outro, a opinião pública internacional. No segundo caso,
talvez seja mais correto falar em imagem do governo bra-
sileiro no exterior.
No que diz respeito à opinião pública nacional, é pre-
ciso considerar que, numa sociedade majoritariamente ur-
bana como a sociedade brasileira contemporânea, as lu-
tas do campo só conseguem se projetar nacionalmente se
tiverem o respaldo e o reconhecimento da população das
cidades. Com efeito, os moradores de áreas rurais repre-
sentam apenas um quinto da população brasileira. Dessa
maneira, os 80% restantes que moram em áreas urbanas
são decisivos para o futuro de qualquer movimento agrá-
rio. Da mesma forma que o MST tem consciência que ape-
nas com os votos de áreas rurais não é possível mudar a
correlação de forças na Câmara dos Deputados ou no Se-
nado, seus dirigentes sabem perfeitamente que o apoio da
população urbana é fundamental para sua luta. Daí a im-
portância de atos e manifestações nas cidades. Realizam-
se marchas pelas estradas e grandes avenidas das capi-
tais, organizam-se manifestações e acampamentos em
frente às sedes do poder público (Incra, Palácio do Go-
verno) ou diante de agências bancárias que estejam su-
postamente retendo os créditos destinados à reforma agrá-
ria. Os locais são estrategicamente escolhidos de forma a
garantir a maior visibilidade possível, porém sem atrapa-
lhar o cotidiano da cidade. Do ponto de vista dos dirigen-
tes do MST, trata-se de conscientizar, e não de atrapa-
lhar. De fato, raramente vêem-se militantes do MST
SÃO PAULO EM PERSPECTIVA, 15(4) 2001
116
bloqueando uma avenida ou impedindo funcionários pú-
blicos de entrar no seu local de trabalho. Quando se diz
que o MST invadiu prédios públicos, na maioria das ve-
zes os manifestantes estão ocupando a entrada ou o sa-
guão principal do prédio para forçar uma audiência com
as autoridades responsáveis.
O objetivo principal das manifestações nas cidades é
fazer conhecer as suas reivindicações e conseguir o apoio
das populações urbanas à causa da reforma agrária. O apoio
do MST às lutas urbanas, como manifestações pelo au-
mento do salário mínimo, passeatas de professores ou ser-
vidores da saúde pela melhoria das condições de traba-
lho, greves organizadas pelas centrais sindicais, ou até
mesmo passeatas de policiais por melhores salários, é
considerado uma forma de solidariedade entre trabalha-
dores. Daí as manifestações públicas de incentivo aos
movimentos populares urbanos da parte de alguns diri-
gentes do MST, e que são interpretadas pela imprensa
como a prova de que o movimento não está interessado
apenas na reforma agrária, mas também na revolução e na
agitação política.
Pesquisas de opinião pública realizadas ao longo dos
últimos anos mostram que o MST conta com o apoio da
maioria da população brasileira. O apoio à reforma agrá-
ria varia entre 80% e 94%, enquanto aproximadamente
dois terços da população considera o MST um movimen-
to legítimo. Durante a marcha do MST a Brasília, em 1997,
a popularidade do movimento esteve no seu auge, che-
gando a 77% de apoio.
Uma ressalva faz-se necessária, contudo, pois apesar
de grande parte da população brasileira ser favorável à
reforma agrária, ela não está disposta a tomar iniciativas
que a viabilizem, seja porque não a considera uma priori-
dade absoluta, seja porque não tem uma idéia clara do que
é uma reforma agrária. No primeiro caso, de acordo com
o qual a reforma agrária não é considerada prioridade, é
importante lembrar que a questão da escravidão só foi
resolvida no Brasil quando passou a bloquear o desenvol-
vimento de uma indústria nacional. No segundo caso, é
preciso considerar que há vários projetos de reforma agrá-
ria, e que todos os que se dizem favoráveis a ela não con-
cordam necessariamente com a reforma agrária pretendi-
da pelo MST. Esse é, precisamente, o entendimento de
Martins (1997): “Não basta a opinião pública dizer-se
favorável à reforma agrária. Você faz pesquisa de opinião
e descobre que 70% das pessoas são favoráveis à reforma
agrária. Só que elas não sabem o que é reforma agrária.
Tanto que, na hora de votar, votam em partidos e pessoas
que, por razões de classe social e de opção ideológica,
são contrárias a essa reforma. Esses partidários da refor-
ma não condicionam seu voto à adoção da reforma agrá-
ria como plataforma política daqueles que elegem”.
É necessário ressaltar que várias cartas de leitores e
artigos assinados, publicados em jornais e revistas, suge-
rem que uma grande parte da população tem uma idéia
romântica do que seja uma reforma agrária. De acordo com
essa visão, o homem do campo ainda é considerado um
personagem simples, modesto, apático e preguiçoso, que
precisa ser protegido, à imagem do personagem Jeca Tatu,
de Monteiro Lobato (Lobato, 1998). Assim, não são pou-
cas as manifestações que consideram os sem-terra o res-
quício de um Brasil arcaico, ou que identificam na atua-
ção política do MST um desvirtuamento do movimento.
A questão fundamental que se coloca para o MST é, por-
tanto, saber como o movimento vai fazer para enfrentar o
desafio de transformar a simpatia que angaria da popula-
ção em apoio permanente. O futuro do movimento depen-
de da sua capacidade de conseguir convencer a opinião
pública nacional de que a sua atuação política é, não so-
mente legítima, mas também a própria essência do movi-
mento. De nada adianta, dessa perspectiva, apoiar huma-
namente e caridosamente a reforma agrária se a atuação
política dos sem-terra for condenada. Uma parcela impor-
tante da população brasileira ainda parece concordar com
a opinião da burguesia francesa do começo do século XIX
a respeito do homem do campo, como foi retratada por
Balzac (1961): “se, politicamente, as suas agressões de-
vem ser impiedosamente reprimidas, humanamente e re-
ligiosamente, ele é sagrado”.
Resta ainda tratar da repercussão internacional do MST.
O movimento foi objeto de diversas reportagens em gran-
des jornais estrangeiros, periódicos e emissoras de televi-
são, sobretudo depois do massacre de Eldorado dos Carajás,
noticiado em 61 idiomas (IstoÉ, 24/04/97). Uma conseqüên-
cia imediata à condenação internacional de Eldorado dos
Carajás foi o cancelamento de uma viagem do presidente a
Washington, por temer protestos e manifestações por parte
de defensores dos direitos humanos (O Globo, 27/04/96).
A marcha dos sem-terra a Brasília teve como resultado au-
mentar ainda mais o interesse no assunto, como testemu-
nha o ministro da Saúde, José Serra: “A marcha a Brasília
comandada pelo MST elevou ao máximo a simpatia inter-
nacional pelos pobres brasileiros. Acrescentou, nos países
desenvolvidos, um quarto ponto na agenda de suas preocu-
pações com o Brasil, até há pouco centralizada em três
questões: índios, direitos humanos e meio ambiente” (Fo-
117
A AÇÃO POLÍTICA DO MST
lha de S.Paulo, 21/04/97). O MST tem consciência da im-
portância desse apoio externo e da sua influência no trata-
mento dispensado ao movimento pelo governo. Por isso,
dedica um cuidado particular aos contatos com organiza-
ções não-governamentais internacionais e envia vários de
seus militantes ao exterior.
Como se pode verificar, o MST não ocupa apenas ter-
ras e prédios públicos, mas ocupa também reuniões de
ministros, discursos do presidente, relatórios dos servi-
ços de inteligência, editoriais de jornais, manchetes nos
noticiários, pronunciamentos de parlamentares, conversas
entre o presidente e o papa, pesquisas de opinião pública
e até protestos nas visitas do presidente ao exterior. Foi
possível provar que o MST cresceu e se expandiu durante
a presidência de Fernando Henrique Cardoso, mas o go-
verno só percebeu a força do movimento em 1997, a par-
tir da Marcha a Brasília. De fato, naquele ano o MST es-
teve no auge, e podemos dizer que foi a partir daí que o
movimento se tornou definitivamente um ator político: nos
seus discursos o presidente passou a se referir explicita-
mente ao movimento, os editoriais de jornais passaram a
tratar periodicamente do MST e a reforma agrária conta-
va com o apoio de 94% da população.
Quatro anos depois, no entanto, o MST enfrenta gran-
des dificuldades, desde que o governo resolveu cortar os
créditos aos assentados. Mesmo que um cenário pessimista
venha a se confirmar e o movimento venha a ser comple-
tamente desmantelado, contudo, a experiência das suas
lutas e das conquistas provocará conseqüências. Não po-
demos esquecer que são 400 mil famílias, aproximada-
mente um milhão e meio de pessoas. Nas palavras de um
jovem militante, “a maior revolução é dentro da nossa
cabeça”.
NOTAS
E-mail do autor: brunaao@hotmail.com
Este artigo é uma versão resumida da dissertação de mestrado do au-
tor (Comparato, 2001), sob orientação da Professora Doutora Maria
Teresa Sadek.
1. A Contag foi criada em 22 de dezembro de 1963, no Rio de Janeiro,
reunindo 14 federações e 475 sindicatos de trabalhadores rurais. O
reconhecimento oficial da Contag ocorreu no dia 31 de janeiro de 1964,
por meio do Decreto Presidencial no 53.517. O golpe militar de 1964
resultou na intervenção da entidade e na prisão e exílio de vários diri-
gentes. O MSTR retomou a entidade em 1968, derrotando o interventor.
A Contag realizou sete congressos nacionais de trabalhadores e traba-
lhadoras rurais, sendo o último em 1998, no qual foi eleita a atual di-
retoria da entidade. A Contag representa os interesses dos trabalhado-
res e trabalhadoras rurais assalariados, permanentes ou temporários;
dos agricultores familiares, proprietários ou não, dos sem-terra e, ain-
da, daqueles que trabalham em atividades extrativistas. Essas e outras
informações sobre a Contag podem ser obtidas na página que a Contag
mantém na internet, no endereço: http://www.contag.org.br
2. Os resultados foram agrupados para resumir a exposição. A evolu-
ção da quantidade de editoriais sobre os temas considerados é muito
semelhante para os quatro jornais. Em média, aproximadamente uma
vez por semana é publicado um editorial sobre um desses temas em
cada um dos jornais. Para ter acesso aos dados completos, para cada
jornal, consultar Comparato, 2001.
3. Em “O ‘novo sindicalismo’ na transição brasileira”, Keck (1988)
mostra que a CUT teve um papel importante no processo de transição
para a democracia, no Brasil. Os sindicatos rurais e a Contag não ocu-
pam um lugar de destaque nas análises sobre aquele momento políti-
co, que privilegiam os movimentos urbanos e a fundação do PT. É in-
teressante notar, contudo, que foi justamente nessa época que surgiu o
MST.
4. Desmobilizada após a aprovação da Constituição de 1988 e a derro-
ta de Ronaldo Caiado nas eleições presidenciais de 1989, a UDR res-
surgiu em 1996 para enfrentar os avanços do MST na região do Pontal
do Paranapanema, em São Paulo. Na mesma época também reapare-
ceu o obscuro Movimento Direita Volver (MDV), integrado por anti-
gos militantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) e que
mantém ligações com a Tradição Família e Propriedade (TFP), Jornal
do Brasil (22/09/96).
5. Segundo as informações fornecidas pela página que essa entidade
mantém na internet, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) foi criada em
1975 com o objetivo de assessorar sindicatos, associações de peque-
nos produtores, movimentos sociais e outras iniciativas populares, pres-
tando-lhes assessoria pastoral, teológica, metodológica, jurídica, polí-
tica e sociológica. A CPT colabora diretamente com a Igreja Católica
e a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, atuando em
conjunto com muitas dioceses, paróquias e comunidades eclesiais.
6. Depoimento dado ao autor em novembro de 2000.
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... O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), por exemplo, passou a ser, a partir dos anos 1990, um dos atores coletivos mais estudados no país (Bringel, 2014) e também no exterior (Gohn, 2014). Tais trabalhos invariavelmente revelam aspectos bastante negativos da cobertura que os meios dedicam ao MST, marcada por elementos como: (1) intenção clara de criminalização do movimento, (2) relatos que destoam bastante daqueles que o MST veicula em suas mídias independentes, (3) ênfase na violência e na radicalidade, a despeito das pautas defendidas nas ações do movimento e (4) ínfimo espaço dado à voz dos militantes e a suas demandas (Ayoub, 2007;Comparato, 2001;Mourão, 2011;Reis, 2011;Cruz, 2012;Souza e Silva, 2013). ...
Article
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Resumo O paradigma de protesto é um conceito amplamente utilizado pela literatura internacional nos estudos do tratamento dispensado pela grande mídia a manifestações políticas e sociais. Há três explicações para sua ocorrência: (1) varia com a orientação ideológica do meio (quanto mais conservador, maior a probabilidade de adotar o paradigma de protesto); (2) varia com a posição do protesto em relação ao status quo ; e (3) nem sempre ocorre. Neste artigo analisamos a cobertura que a grande mídia brasileira dispensou às greves gerais de 2017 contra as reformas trabalhista e previdenciária, examinando os discursos e imagens associados aos grupos envolvidos nas greves gerais no Jornal Nacional e nos impressos Folha de S. Paulo , O Estado de S. Paulo e O Globo . Para tal utilizamos as metodologias da análise de enquadramento, interpretação de imagens e nuvens de palavras. Os resultados encontrados confirmam a ocorrência de paradigma de protesto nesses casos e revelam cinco modos predominantes de enquadrar as greves: (1) violência e vandalismo, (2) ação egoísta e desorganizada, (3) transtorno ao espaço público, (4) fonte de prejuízo à economia e (5) ausência de legitimidade popular. Na conclusão refletimos sobre a contribuição do presente artigo para o debate internacional sobre o assunto.
... -Solange, MST member The Brazilian Landless Movement (MST) was formed in 1984 to push for agrarian reform for the poor in a country with one of the most unequal land and income distributions in the world. Often considered the most successful social movement in Latin American, the MST has carried out 250,000 land occupations in the past three decades (Wolford 2003a, p. 201) and, in the process, pressured successive governments into redistributing seven million hectares of agricultural land on which one and a half million of its members now farm (Comparato 2003;Rossetto 2005). Studies by the Brazilian government and the Food and Agricultural Organization have found that the livelihoods of land reform settlers have generally improved. ...
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O INCRA foi analisado de duas formas: de um lado, em Paulo Mello, com etnografia e análise dos processos administrativos, com base na teoria e metodologia de Olivier de Sardan e Thomas Bierschenk, complementadas com o aporte de Bourdieu. A burocracia é pensada como uma arena onde grupos estratégicos mobilizam recursos e agem informados por lógicas de ação, tais como corporativismo, clientelismo, neopatrimonialismo etc. Deste entrelaçamento de lógicas, redunda a entrega de bens e serviços à população, no caso estudado, baixa. Os três capítulos de Mello são comentados por Zander Navarro que também apresenta um depoimento pessoal com base numa vida atuando na temática. De outro lado, enfocando os Programas Terra legal e Brasil Sem Miséria, Carlos Guedes, com base em um aporte teórico plural, relata a ações, dificuldades e tensões internas para a implementação dos programas, em face das questões maiores do desenvolvimento rural e reforma agrária no País.
Thesis
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Esta pesquisa parte de inquietações sobre as formas de ação política experimentadas na sociedade contemporânea, na qual reconhecemos a existência de mutações sociais e tecnológicas, destacadamente na área da comunicação social, que possibilitam aos diversos sujeitos inovações do ponto de vista de suas práticas, bem como mudanças políticas que desafiam aqueles que buscam efetivar alterações substanciais na forma de organização social hegemônica. A partir do olhar acerca do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, a pesquisa discute a inter-relação entre comunicação e política e questiona como o desenvolvimento das comunicações tem alterado o fazer político, se os movimentos sociais acompanham as transformações nesse campo ou se vivenciam novos modos de atuação por conta dele; bem como se as práticas comunicativas contribuem para a efetivação de suas estratégias contra-hegemônicas. Para verificar o exposto, analisa o 5° Congresso Nacional do MST, ocorrido em 2007, último dos cinco congressos já realizados, um momento importante por ser o espaço de definição política e de diálogo com a base do Movimento e com a sociedade em geral. É salutar, ainda, por ter consolidado uma mudança na avaliação política sobre a conformação das relações sociais no campo e dos desafios para a realização da Reforma Agrária, em uma conjuntura política desfavorável para as organizações populares, no Brasil. Nesse sentido, o trabalho aponta os limites da ação contra-hegemônica do MST, mas também as potencialidades acumuladas ao longo dos quase trinta anos do Movimento, em especial aquelas relativas à área da comunicação, pois percebe a ação construção contra-hegemônica como um processo que deve ser deflagrado antes mesmo da tomada efetiva do poder.
Article
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Resumo: Os movimentos sociais rurais têm sido foco de vários estudos que apontam para o seu papel ativo na luta por direitos dos grupos excluídos dentro da sociedade brasileira. Através de ações coletivas, agem como resistência à exclusão e provocam novas dinâmicas sociais no campo. Partindo da concepção teórica de novos movimentos sociais apresentada por Alain Touraine, este artigo se propôs a mapear e a discutir o estado da arte referente a teses e dissertações sobre movimentos sociais rurais. Adotamos os períodos compreendidos entre 2002 a 2014 para o mapeamento das teses e dissertações e 1980 a 2015 para as análises das temáticas relativas aos movimentos sociais rurais. Utilizou-se, para a realização das análises, o software Alceste (Análise Lexical por Contexto de um Conjunto de Segmentos de Texto). Os resultados mostraram que o período posterior a 2003 marcou a passagem do viés combativo para a rotinização dos movimentos sociais, tendo as contestações sociais se deslocado do mundo do trabalho para a vida cotidiana, com uma pluralidade de demandas materiais e simbólicas que giraram em torno do reconhecimento de identidades e do modo de vida camponês, evidenciando-se a politização dos costumes e práticas relativos ao modo de vida tradicional.
Chapter
Social protest, actions of discontent, and alternative practices are frequently studied as result of opportunities opened up by the dynamic of sociopolitical cycles;2 as the effect of grievances experienced because of durable inequalities,3 or, finally, as the consequence of state withdrawal from its regulatory functions.4 In other words, most accounts of social protest tend to explain social processes, including uprisings and demonstrations, by applying existing theoretical narratives to emerging sociopolitical phenomena, leaving little room for the arrival of new sociopolitical practices outside preestablished conceptual boxes This tendency emphasizes repetition, like for example the idea of “protest cycles,”5 over the emergence of something new, potentially disruptive with lasting consequences, able to change the structures of “path dependencies.”6 In order to be able to detect such transformations, we need to work with unfixed notions of both “the social” and “the political.” To put it bluntly, social subjects operate in specific contexts that condition their actions, but, importantly, the latter in turn can affect the nature of the former. Against this backdrop, the aim of this chapter is to delve into the array of meanings emerging from, primarily, different forms of social protest, on the one hand, and “alternative forms of doing,”7 on the other, in order to understand the meaning of hidden patterns of relationships within apparently dissimilar forms of actions.
Article
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In the article Land and Ethnicity: Case Studies of Raposa/ Serra do Sol and Morro Seco, we intend to consider the issue of developing identities, underlining elements that undergo this kind of process among the indigenous and remaining quilombo communities in Brazil, through the analysis of two cases: Quilombo Morro Seco, in São Paulo, and Terra Indigena Raposa/Serra do Sol, in Roraima. This will be done in order to highlight the presence of factors beyond the question of creating better conditions of subsistence, presuppositions found in a large part of the literature on the subject, especially in those that place land ownership as the primary objective of the populations involved in these kind of identity movements.
Chapter
This is an introductory chapter of the book Gramsci: Space, Nature, Politics that takes forward Antonio Gramsci's absolute immanence, arguing that space, nature, and politics are constitutive moments within an overall philosophy of praxis. In Part I of the book, Gramsci's sensitivity to various modalities of producing space – territory, scale, place, network – is most explicit. Part II of the collection focuses on Gramsci's writings on nature and what can be read as his nascent understanding of environmental thought and politics. From different perspectives, the chapters in Part III, on “Politics,” focus on how Gramsci can illuminate the conditions of possibility for the emergence of an alternative subaltern hegemony from within specific configurations of political, economic, and social forces. This introduction closes by considering what an engagement with Gramsci might mean for geographical debates.
Article
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O livro Os parceiros do Rio Bonito traz uma contribuição admirável ao pensamento social brasileiro por sua relevância ético-política, como obra de denúncia política e crítica social; por sua contribuição formal ou estética, uma fina arquitetura da palavra e da argumentação sociológica e antropológica; e por sua contribuição metodológica, a pertinência do ato crítico aberto e pautado pela fluidez, em contraposição à adesão irrestrita a determinado aparato teórico. À atitude crítica associa-se a atitude mental de empatia pelo objeto, que se afasta de um frio e distante "sociologismo", mas, ao mesmo tempo, se recusa a atribuir-lhe as características que "gostaríamos" que tivesse, conforme a ideologia ou as crenças que partilhamos. A radicalidade dessa obra reside no espírito aberto para a "aventura sociológica", daí resultando a inexistência de "manifestos"ou "normas" de conduta. Todavia, Candido demarca os limites entre o espírito aberto à diversidade e à versatilidade no trato do fenômeno social, de um lado, e a adesão aventureira a um relativismo estéril, de outro. Finalmente, discute-se aqui a íntima relação entre a conduta intelectual do autor - sua postura ética diante do mundo acadêmico - e sua própria obra.
La comédie humaine VIII – études de moeurs: scènes de la vie de Campagne – les paysans
  • Referências Bibliográficas Balzac
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BALZAC, H. La comédie humaine VIII – études de moeurs: scènes de la vie de Campagne – les paysans. Paris, Gallimard, 1961.
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A reforma agrária e os limites da democracia na
________. A reforma agrária e os limites da democracia na "Nova República". São Paulo, Hucitec, 1986.
La comédie humaine VIII -études de moeurs: scènes de la vie de Campagne -les paysans
  • H Balzac
BALZAC, H. La comédie humaine VIII -études de moeurs: scènes de la vie de Campagne -les paysans. Paris, Gallimard, 1961.
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