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Jornalismo e gênero: a emergência de uma disciplina e um relato de docência compartilhada

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Resumo Neste artigo apresentamos o surgimento da disciplina Jornalismo e Gênero no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e debate sobre a sua necessidade e emergência na formação de jornalistas. Os debates no campo do Jornalismo sobre/a partir das temáticas de Gênero ainda são incipientes, apesar da urgência da construção de discussões que repensem as práticas da profissão, as relações entre os profissionais e o ensino. Neste relato, tecemos algumas considerações sobre nossa experiência docente à frente da disciplina, apresentando os avanços, dificuldades e procurando contribuir para o crescimento do campo e a construção de conhecimento sobre os temas de Gênero no Jornalismo.
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Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 28(2): e58720
DOI: 10.1590/1806-9584-2020v28n258720
Jornalismo e gênero: a emergência deJornalismo e gênero: a emergência de
Jornalismo e gênero: a emergência deJornalismo e gênero: a emergência de
Jornalismo e gênero: a emergência de
uma disciplina e um relato de docênciauma disciplina e um relato de docência
uma disciplina e um relato de docênciauma disciplina e um relato de docência
uma disciplina e um relato de docência
compartilhadacompartilhada
compartilhadacompartilhada
compartilhada
Daiane Bertasso1 0000-0002-7528-3709
Fernanda Nascimento1 0000-0003-2332-5396
Jessica Gustafson1 0000-0002-7056-9046
1Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.
88040-900 – jornalismo@contato.ufsc.br
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Resumo: Resumo:
Resumo: Resumo:
Resumo: Neste artigo apresentamos o surgimento da disciplina Jornalismo e Gênero no curso de
Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e debate sobre a sua necessidade e
emergência na formação de jornalistas. Os debates no campo do Jornalismo sobre/a partir das
temáticas de Gênero ainda são incipientes, apesar da urgência da construção de discussões que
repensem as práticas da profissão, as relações entre os profissionais e o ensino. Neste relato, tecemos
algumas considerações sobre nossa experiência docente à frente da disciplina, apresentando os
avanços, dificuldades e procurando contribuir para o crescimento do campo e a construção de
conhecimento sobre os temas de Gênero no Jornalismo.
PP
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Palavras-chave: alavras-chave:
alavras-chave: alavras-chave:
alavras-chave: Jornalismo; gênero; educação; docência; ensino superior.
Journalism And Gender: A Rising of a Subject and a Shared TJournalism And Gender: A Rising of a Subject and a Shared T
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Journalism And Gender: A Rising of a Subject and a Shared Teaching Reaching R
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Abstract: Abstract:
Abstract: Abstract:
Abstract: This article presents the rising if the subjetive known as Journalism and Gender in Journalism
Course of Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) and discusses its needs and emergence on
journalists’ education. The discussions in Journalism area about/from Gender topics are still incipient, in
spite of construction of discussions that reconsider journalism practices urgency, relationships between
professionals and teaching. In this report, some observations were made about our experience teaching
this subject, showing advances, struggles and seeking to contribute to the growth of the area and the
construction of knowledge about Gender topics in Journalism.
Keywords: Keywords:
Keywords: Keywords:
Keywords: Journalism; Gender; Education; Teaching; College education.
IntroduçãoIntrodução
IntroduçãoIntrodução
Introdução
Transgredir, no sentido de desacomodar, instigar, desconstruir determinadas maneiras
tradicionais de pensar as relações de gênero historicamente constituídas socialmente. Este foi o
principal objetivo da disciplina Jornalismo e Gênero da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC) e o mote inicial daquele seis de março de 2017, o primeiro encontro com a turma, um dia
inesquecível para nós docentes e, certamente, para os estudantes de Jornalismo da UFSC que
participaram da disciplina e da dinâmica de abertura intitulada Caminhada dos Privilégios.
Iniciamos a caminhada em espaço aberto, fora da sala de aula, lado a lado, e fomos respondendo
às perguntas realizadas por uma das docentes, também participante da caminhada. Conforme
a pergunta cada pessoa deveria dar um passo à frente ou um passo para trás. Foram 30 perguntas,
tais como: 1. Se os seus pais trabalharam noites e finais de semana para sustentar a sua família, dê
um passo para trás. (Classe); 2. Se você consegue andar pelo mundo sem sentir medo de assédio
sexual, dê um passo para frente. (Gênero); 3. Se você consegue demonstrar afeto pelo seu
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companheiro romântico em público sem sentir medo de ridicularização ou violência, dê um passo
para frente. (Gênero e Sexualidade); 4. Se você já foi diagnosticado com alguma doença ou
deficiência mental/física, dê um passo para trás. (Capacitismo); 5. Se você veio de um ambiente
familiar que te apoiava, dê um passo para frente. (Classe, Gênero, Sexualidade). Ao final dos 30
questionamentos já não estávamos lado a lado na Caminhada dos Privilégios, já que os mais
privilegiados estavam à frente, enquanto que os menos ou muito pouco privilegiados estavam
mais atrás, alguns até no final do caminho, e todos se visualizaram e sentiram o impacto das
diferenças – mesmo estando em grupo formado por inúmeras semelhanças, como estarem no
ensino superior e possuírem entre 18 e 26 anos.
Ao retornarmos ao debate em sala de aula, a participação da turma foi ampla e gratificante.
Pudemos refletir sobre privilégios, identidades, diferenças, desigualdades, preconceitos de classe,
raça, gênero, religião etc. Essa foi a aula inaugural da disciplina Jornalismo e Gênero, que reuniu
cerca de 30 estudantes e teve mais 16 encontros no decorrer do primeiro semestre de 2017, em que
debatemos sobre identidades, diferenças, desigualdades, gênero, práticas culturais e discursivas,
relações de poder, movimentos feministas, sexualidade etc. até chegarmos na abordagem sobre
os avanços conquistados por meio de resistências e transgressões na perspectiva de gêneros em
Comunicação e Jornalismo. Será um pouco dessa experiência que vamos relatar neste artigo.
O campo dos Estudos de Gênero se consolidou a partir da segunda metade do século XX
(Joana Maria PEDRO, 2005). Em sua emergência, este debate estava associado a uma discussão
sobre problemáticas relacionadas às mulheres (PEDRO, 2005). Posteriormente, ainda que não sem
disputas e tensionamentos (Donna HARAWAY, 2004), o conceito se desloca da compreensão de
uma relação binária e oposta entre homens e mulheres, para um campo de disputas de poder.
Neste sentido, nos associamos à Joan Scott (1995), compreendendo o gênero como
“elemento constitutivo das relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos”,
ou seja, “uma forma primeira de significar as relações de poder” (SCOTT, 1995, p. 21). Como afirma
Teresa de Lauretis (1994, p. 208): o gênero não é “uma propriedade de corpos nem algo existente
a priori nos seres humanos”.
Categoria fundamental para a constituição e organização das sociedades colonizadoras
e colonizadas no Ocidente, o sistema sexo/gênero é uma das formas primordiais de regulação dos
corpos e das instituições (María LUGONES, 2014). Nestas sociedades generificadas, como no Brasil,
esta construção acontece a partir dos mais diversos espaços, sendo o Jornalismo um dos locais
privilegiados no processo. Esfera de mediação e também de construção de sentidos, o Jornalismo
é um dos espaços sociais de consolidação e/ou transformação dos valores sociais.
Se o “Jornalismo é masculino”, tal qual nos demonstrou Marcia Veiga da Silva (2014), a
construção deste posicionamento ocorre em articulação com a sociedade na qual se insere, mas
também na agência dos sujeitos que constituem o campo. E neste processo, a universidade é um
espaço privilegiado nesta formação e tem, com raras exceções, reproduzido valores sociais
dominantes masculinistas, racistas e cisheteronormativos. Conforme Veiga da Silva (2015), ao
analisar especificamente o contexto do ensino de Jornalismo, persiste uma “prevalência das
racionalidades do sistema-mundo (capitalista, masculinista, racista, heterossexista, ocidentalista)
nas relações de poder e de saber no âmbito universitário” (p. 262).
Estas visões de mundo, compartilhadas em todas as esferas, começaram a ser
problematizadas há algumas décadas por outras áreas do conhecimento. Entretanto, a produção
reflexiva na comunicação, realizada por pesquisadores do próprio campo, ainda é recente e
escassa (Ana Carolina D. ESCOSTEGUY; Márcia MESSA, 2006; Monica MARTINEZ; Cláudia LAGO;
Mara Coelho de Souza LAGO, 2016; Tainan Pauli TOMAZETTI; Paula CORUJA, 2017; Gabriela ALMEIDA,
2018; VEIGA DA SILVA, 2014; 2015; Jessica GUSTAFSON, 2019). Destaca-se que esta é uma área em
emergência e este panorama pode se alterar, com o tensionamento oriundo de alunos, que
começam a demandar, a partir de coletivos ou por meio de suas pesquisas, um ensino de Jornalismo
que contemple as discussões de gênero e as problemáticas que necessariamente devem
acompanhá-las, como de raça, sexualidade e classe.
Com a proposta de contribuir para o debate, refletimos neste texto sobre a nossa experiência
coletiva docente de lecionar a disciplina de Jornalismo e Gênero, no Departamento de Jornalismo
da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no primeiro semestre de 2017.
A criação da disciplina e o Coletivo Jornalismo Sem MachismoA criação da disciplina e o Coletivo Jornalismo Sem Machismo
A criação da disciplina e o Coletivo Jornalismo Sem MachismoA criação da disciplina e o Coletivo Jornalismo Sem Machismo
A criação da disciplina e o Coletivo Jornalismo Sem Machismo
A criação da disciplina de Jornalismo e Gênero no Departamento de Jornalismo da UFSC
está diretamente relacionada à emergência do Coletivo Jornalismo Sem Machismo. A organização
estudantil surgiu no segundo semestre de 2014, a partir das demandas de alunas do curso de
Jornalismo da UFSC. De acordo com a página oficial do grupo, a criação do Coletivo Jornalismo
Sem Machismo aconteceu após “uma roda de conversa sobre o machismo presente no curso e na
profissão”, na qual as alunas dividiram histórias e problemas em comum (COLETIVO JORNALISMO
SEM MACHISMO, 2018).
JORNALISMO E GÊNERO: A EMERGÊNCIA DE UMA DISCIPLINA E UM RELATO DE DOCÊNCIA COMPARTILHADA
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Entre as reivindicações do Coletivo junto à coordenação do Departamento de Jornalismo
da UFSC, estava a criação da disciplina de Jornalismo e Gênero, compreendida como um espaço
fundamental para as discussões sobre a responsabilidade do Jornalismo na produção/reprodução
de narrativas que perpetuam o machismo, o sexismo e a misoginia – além de sua importância
para a mudança nas próprias relações entre os integrantes da comunidade acadêmica.
O tensionamento culminou na realização da primeira edição da disciplina, no primeiro
semestre de 2016. A coletividade foi uma das marcas deste primeiro momento: o professor Carlos
Augusto Locatelli, então chefe do Departamento, foi responsável pela disciplina e construiu o
plano de ensino de modo conjunto com as integrantes do Coletivo. Neste primeiro momento, o
plano de ensino foi composto por aulas lecionadas por professoras convidadas, oriundas de
diversas áreas de ensino, mas com pesquisas consolidadas no campo de estudos de gênero. A
demanda dos alunos pela disciplina pode ser observada na quantidade de inscrições, que
superou o número de vagas – assim como ocorreria também na segunda edição da disciplina (no
primeiro semestre de 2017), que apresentaremos na sequência.
Na finalização da primeira edição da disciplina, os(as) alunos(as) participantes
responderam a um questionário dotado das seguintes perguntas: “O que achou do formato de
uma professora por aula? Como avalia a falta de textos para leitura? Os temas eram relevantes ou
repetitivos? Sentiu falta de algum assunto? O nível das aulas estava correto, muito aprofundado ou
iniciante? O que achou do trabalho final? Críticas e sugestões”. A maioria dos respondentes
avaliou positivamente o formato e os temas, mas sentiu falta de uma estruturação da ordem dos
conteúdos e de leituras básicas. Essa pesquisa foi utilizada por nós nas reuniões de planejamento
para a edição de 2017/1 da disciplina. Um pouco da percepção das alunas do Coletivo Jornalismo
Sem Machismo pode ser conferida no relato de experiência apresentado no I Aquenda de
Comunicação, Gêneros e Sexualidades:
Organizamos o plano de ensino de forma que, para cada tema específico, fosse possível trazer
uma pesquisadora do assunto como convidada, já que não havia essa formação acadêmica
suficiente seja por parte docente ou discente no Departamento de Jornalismo da UFSC. Porém,
ainda que a presença das convidadas tenha acrescentado muito à disciplina, a metodologia
das aulas variava bastante, pois dependia da palestrante e as aulas tinham alguma dificuldade
de dialogar entre si. Também era bastante novo para nós sermos responsáveis pelas questões
metodológicas e de ensino, pois, por mais que houvesse nosso esforço – e ainda que tenha sido
uma experiência bastante enriquecedora –, não éramos professoras (Eduarda PEREIRA; Manoela
dos Santos BONALDO, 2018 [online]).
Em agosto de 2016, houve um impasse sobre a realização da segunda edição e foi neste
momento em que nos reunimos para construir esta edição da disciplina. Neste encontro de mulheres
feministas e pesquisadoras do campo da Comunicação Social, se fizeram presentes diferentes
experiências e contribuições: Daiane Bertasso, Professora Adjunta do Departamento de Jornalismo
da UFSC, iniciava seus estudos no campo de gênero; Fernanda Nascimento e Jessica Gustafson,
doutoranda e mestranda (na época), respectivamente, já tinham trajetória de pesquisa e militância,
sendo a disciplina o espaço escolhido para os estágios de docência.
Em nossos primeiros encontros, com a parceria voluntária da Professora Substituta na época,
Silvia Mendes, definimos a importância de dialogar com as alunas integrantes do Coletivo Jornalismo
Sem Machismo. Fizemos o convite para que pudessem discutir conosco teorias e metodologias, a
partir da primeira experiência da disciplina. Ao longo dos encontros, dialogamos com Aline Ramalho
e Manoela dos Santos Bonaldo, que participaram como representantes do Coletivo Jornalismo Sem
Machismo. Foi na troca entre alunas, professoras e estagiárias docentes que elaboramos os conteúdos
que são apresentados a seguir, conforme corrobora o relato das representantes do coletivo:
Durante sucessivas reuniões junto com as representantes do Coletivo e as estagiárias de docência,
foi criado o plano de ensino que é usado atualmente. Finalmente, no início de 2017 a disciplina
foi implementada no currículo oficial do curso. Hoje ela é oferecida como uma optativa e
possui grande demanda. A construção desse novo plano, agora com a participação de
mulheres que já pesquisavam gênero e comunicação, somadas à experiência adquirida pelas
alunas e ao conhecimento didático da professora Daiane, possibilitou que a disciplina se
consolidasse na grade do curso. As transformações no curso, que envolvem o surgimento do
Coletivo e a criação da disciplina de Jornalismo e Gênero, apontam para a importância da
relação entre os movimentos sociais e a produção de conhecimento acadêmico (PEREIRA;
BONALDO, 2018 [online]).
Saberes em produção: a organização dos conteúdosSaberes em produção: a organização dos conteúdos
Saberes em produção: a organização dos conteúdosSaberes em produção: a organização dos conteúdos
Saberes em produção: a organização dos conteúdos
A primeira edição da disciplina, como apresentado anteriormente, foi marcada pela
fragmentação do conteúdo, em decorrência de seu formato, abordado de acordo com a
contribuição de diversas professoras convidadas. A partir da avaliação desta primeira edição,
compreendemos a necessidade de trabalhar por meio de um referencial mais consistentemente
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organizado e, em alguma medida, linear, situando o Jornalismo em uma perspectiva
comunicacional, enquanto uma prática social e cultural, que contribui na manutenção das
desigualdades de gênero, raça, sexualidade, geração e etnia, a partir do debate de cada
conceito.
Organizamos a disciplina em três módulos, sendo o primeiro sobre as temáticas de Gênero,
cultura, linguagem e poder (1), com aulas específicas para trabalhar as seguintes questões: -
Identidade, diferença e desigualdades; - Teorias de gênero; - Práticas culturais e discursivas que
evidenciam relações de gênero e relações de poder. No segundo módulo, tratamos sobre Gênero
e interseccionalidades (2), com o intuito de refletir sobre: - Movimentos Feministas; - Gênero e
sexualidade; - Gênero, raça, classe, etnia e geração; - Masculinidades e identidades trans. O
terceiro módulo da disciplina foi Representações de gênero, mídia e jornalismo (3), em que
trabalhamos as seguintes questões: - Representações de gênero nas mídias; - Questões de gênero
abordadas pelo Jornalismo; - Resistências e transgressões na perspectiva de gêneros em
Comunicação e Jornalismo. Os principais aspectos trabalhados em cada módulo serão descritos
a seguir.
Desta forma, iniciamos a disciplina com uma abordagem mais geral sobre identidades e
as relações de poder existentes na linguagem e na produção discursiva, conduzindo os alunos na
reflexão sobre o Jornalismo enquanto uma esfera de produção simbólica, atuante também na
construção das identidades. Para tratar deste eixo, tivemos como enfoque o processo de
classificação existente na construção da linguagem, que transforma a diferença em desigualdade
social a partir da hierarquização, como destaca Tomaz Tadeu da Silva (2000):
São outras tantas marcas da presença poder: incluir/excluir (“estes pertencem, aqueles não”);
demarcar fronteiras (“nós e eles”); classificar (“bons e maus”; “puros e impuros”; “desenvolvidos e
primitivos”; “racionais e irracionais”); normalizar (“nós somos normais, eles são anormais”) ( p. 81).
Ao discutir sobre os essencialismos e estereótipos presentes nos discursos jornalísticos, partimos
da perspectiva de Stuart Hall (2005) sobre a fragmentação das identidades, em que a concepção
moderna de existência de um sujeito centrado e com uma identidade fixa passa por uma série de
rupturas teóricas, incluindo a atuação feminista. As identidades são vistas, assim, como
fragmentadas, múltiplas, inacabadas e até mesmo contraditórias.
Posteriormente, iniciamos a abordagem sobre as Teorias de Gênero, dividindo o conteúdo
em duas aulas. Frente à diversidade de perspectivas construídas em décadas de militância
feminista dentro e fora da academia, nossa opção foi intercalar textos clássicos sobre gênero, mas
que demonstram as diferentes frentes de pensamento, incluindo o feminismo descolonial, com
autoras que realizam análises sobre a importância desses estudos no contexto brasileiro. Entre as
autoras deste primeiro momento estavam teóricas brasileiras como Guacira Lopes Louro (2008) e
Joana Maria Pedro (2005) e internacionais, como Donna Haraway (1995; 2004), Joan Scott (1995)
e María Lugones (2014).
A proposta deste primeiro eixo era demonstrar que os Estudos de Gênero, enquanto disciplina
teórica, se sustentam em um amplo e sólido lastro teórico, conhecido hegemonicamente como
tendo seu início na Europa e nos Estados Unidos, mas que está em contínuo tensionamento. A
leitura do texto de Lugones (2014) certamente foi a que exigiu maior esforço, pois a teórica faz uma
ruptura com categorias da Modernidade muito consolidadas dentro do próprio feminismo, ao
abordar a racialização dos corpos como processo interligado à colonização do gênero.
Entendemos que a compreensão total do texto demanda uma carga de leitura prévia tanto dos
Estudos de Gênero quanto dos Estudos Descoloniais. Contudo, o objetivo foi demonstrar a potência
e existência de estudos críticos elaborados na América Latina que levam em consideração as
experiências das mulheres não brancas no violento processo de colonização moderno:
A consequência semântica da colonialidade do gênero é que “mulher colonizada” é uma
categoria vazia: nenhuma mulher é colonizada; nenhuma fêmea colonizada é mulher. Assim, a
resposta colonial a Sojourner Truth é, obviamente, “não”. Diferentemente da colonização, a
colonialidade do gênero ainda está conosco; é o que permanece na intersecção de gênero/
classe/raça como construtos centrais do sistema de poder capitalista mundial. Pensar sobre a
colonialidade do gênero permite-nos pensar em seres históricos compreendidos como oprimidos
apenas de forma unilateral (LUGONES, 2014, p. 939).
O interesse em conhecer as teorias de gênero pelos alunos e a consequente importância
destas primeiras aulas puderam ser percebidas ainda no início da disciplina. Em nosso primeiro
encontro, vários alunos expuseram que seu interesse na disciplina estava na ampliação de sua
capacidade teórica, que poderia balizar experiências de militância que já mantinham dentro e
fora da universidade. Desta forma, consideramos importante realizar uma aula apresentando as
correntes feministas contemporâneas. Inicialmente propomos às integrantes do Coletivo Jornalismo
Sem Machismo para que elas conduzissem a apresentação, realizando uma pesquisa prévia
sobre o tema. Entretanto, tivemos dificuldade em contatá-las e organizar definitivamente a proposta.
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Decidimos, por fim, dividir entre nós as vertentes que consideramos as mais mobilizadoras
atualmente para apresentação (Feminismo Negro; Feminismo Interseccional/Pós-Moderno; Feminismo
Materialista/Radical; Feminismo Liberal; Feminismo Socialista; Transfeminismo; Anarcofeminismo/
Feminismo Libertário; Ecofeminismo; Feminismo Descolonial). Juntamente com as pesquisas realizadas
em sites, blogs e textos acadêmicos sobre as correntes feministas, propomos a leitura, para a turma,
de mais dois textos escritos por Betty Friedan (1971) e Cynthia Andersen Sarti (2004).
Com a primeira leitura (FRIEDAN, 1971), o intuito foi ilustrar a discussão teórica relacionada
ao emblemático período da chamada “segunda onda” do feminismo, permeada pelo sentimento
de descontentamento das mulheres brancas, heterossexuais e de classe média norte-americanas
e que, posteriormente, foi muito contestada pelas mulheres negras, latinas e lésbicas que não se
viam incluídas nas pautas de luta do movimento. A segunda leitura (SARTI, 2004) faz um apanhado
do movimento feminista brasileiro a partir desta época, trazendo as especificidades locais da
militância, principalmente no que se refere ao contexto de ditadura militar enfrentado pelas
feministas.
Uma situação interessante, que demonstra a necessidade de permanência do diálogo
com os alunos e de escuta de suas demandas, ocorreu no encerramento do segundo mês de aula.
Percebendo que a maioria dos alunos não conseguia ler todos os textos definidos para as aulas,
conversamos com toda a turma para saber a avaliação que estavam fazendo sobre o andamento
da disciplina. A maioria dos alunos afirmou que tentava realizar a leitura dos textos (geralmente
dois por aula), mas que acabava conseguindo, de fato, ler apenas um deles (geralmente aquele
com menor número de páginas). A carga horária de outras disciplinas e a realização de estágios
fora da universidade foram apresentados como dificuldades. Nesse momento, repensamos a
proposta, limitando a um texto obrigatório por aula e dialogamos sobre a responsabilidade
compartilhada do aprendizado, o que tornou as discussões mais interessantes e engajadas.
Após a abordagem mais geral dos Estudos de Gênero, iniciamos o eixo sobre as
interseccionalidades de gênero, sexualidade, raça, etnia, classe e geração, perspectiva que
consideramos de extrema importância para refletir sobre a construção das notícias jornalísticas a
partir do entendimento de que gênero não opera sozinho e que outros marcadores de diferença
situam os sujeitos em diferentes posições de opressão e privilégio.
Formulado por Kimberlé Crenshaw (2004), o conceito de discriminação interseccional parte
do reconhecimento dos direitos das mulheres enquanto direitos humanos, no âmbito internacional,
do mesmo modo como a discriminação racial é condenada como uma violação de direitos
humanos. Entretanto, a questão do racismo articulado ao gênero não era tratada de uma forma
específica, sendo necessário que se compreendesse que “homens e mulheres podem experimentar
situações de racismo de maneiras especificamente relacionadas ao seu gênero” (CRENSHAW,
2004, p. 9). As articulações mais específicas entre gênero, raça e classe foram debatidas a partir
de Angela Davis (2016), que enfatiza a indissolubilidade das lutas no contexto da militância
feminista:
Como a abolição da escravatura era a necessidade política mais premente da época, elas
incitavam as mulheres a se juntar à luta a partir da premissa de que a sua própria opressão era
sustentada e perpetuada pela continuidade do sistema escravagista. Por terem uma consciência
tão profunda na indissociabilidade entre a luta pela libertação negra e pela libertação feminina,
as irmãs nunca caíram na armadilha ideológica de insistir que um combate era mais importante
do que o outro. Elas reconheciam o caráter dialético da relação entre as duas causas (p. 56).
Na continuação do módulo sobre interseccionalidades, discutimos sobre gênero e
sexualidade, um dos temas mais aguardados pelos alunos. A proposta de textos para essa aula
precisou ser, inclusive, atualizada em decorrência da demanda da turma. Inicialmente pensamos
em trabalhar a partir de textos clássicos sobre sexualidade (Gayle RUBIN, 2017) e, de forma mais
específica, sobre homossexualidade (Peter FRY; Edward MacRAE, 1991), mas com uma demanda
de discussão mais específica sobre bissexualidade apresentada pela turma, utilizamos também
textos deste campo (Fernando SEFFNER, 2004).
O eixo de interseccionalidades contou ainda com a discussão sobre masculinidades,
tendo como enfoque os discursos midiáticos que reforçam a masculinidade hegemônica (Luiz
Paulo da MOITA LOPES, 2006) e as identidades trans enquanto expressão identitária que revela
divergências com as normas de gênero, que são fundadas no dimorfismo sexual, na
heterossexualidade e em idealizações (Berenice BENTO, 2008). Por fim, o encerramento deste
segundo eixo contou com as contribuições dos estudos Queer (Judith BUTLER, 2013), com a presença
do doutorando em Comunicação Social da UFRGS, Dieison Marconi.
No eixo de encerramento teórico da disciplina, apresentamos discussões mais específicas
sobre a mídia e gênero, discutindo pesquisas que versaram sobre o tema (VEIGA DA SILVA, 2014;
Fernanda NASCIMENTO, 2015; Pâmela STOCKER; Silvana DALMASO, 2016; Rosa Maria Bueno FISCHER,
2002). Após todas as discussões realizadas em aula, acreditamos ter ficado mais compreensível
aos alunos o entendimento de que gênero extrapola os corpos, constituindo e sendo constituído
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pelas instituições sociais e práticas sociais. De acordo com Veiga da Silva (2014), a generificação
no Jornalismo, enquanto uma dessas instituições, acontece a partir da reprodução das relações
de gênero e de poder hegemonicamente prevalecentes na cultura, tanto nas relações dentro das
redações quanto nas notícias produzidas, refletindo em hierarquias e desigualdades.
Por fim, concluímos o conteúdo da disciplina demonstrando que existem resistências dentro
do campo, que têm se empenhado na construção de sentidos alternativos que se opõem aos
discursos masculinistas, racistas e cisheteronormativos presentes na mídia. Entre os exemplos de
experiências transgressoras no Jornalismo, convidamos Paula Guimarães, uma das jornalistas do
portal Catarinas, criado em 2016, na cidade Florianópolis-SC, a partir de uma campanha de
financiamento coletivo, para conversar com a turma sobre a experiência de criação do portal.
Metodologias: processos de ensino e aprendizagemMetodologias: processos de ensino e aprendizagem
Metodologias: processos de ensino e aprendizagemMetodologias: processos de ensino e aprendizagem
Metodologias: processos de ensino e aprendizagem
O desafio de lecionar uma disciplina de Jornalismo e Gênero se estende para a metodologia
de ensino utilizada. Refletir sobre gênero significa também refletir sobre o processo de ensino e
aprendizagem. Neste sentido, apresentamos como proposta a realização de aulas expositivas e
dialogadas, nas quais a participação dos alunos foi fundamental para as trocas e aprendizados
de todos.
Definimos que algumas aulas teriam a realização de dinâmicas, outras a participação de
convidados e as demais a participação dos alunos com análises de produtos culturais, midiáticos
e/ou jornalísticos. No que se refere às dinâmicas, estas já se iniciaram na apresentação da disciplina,
na primeira aula, com a realização da dinâmica Caminhada dos Privilégios, como relatamos na
introdução deste artigo. Outra dinâmica utilizada para compreender as atribuições de gênero
que marcam os corpos ocorreu a partir da leitura do texto “O Corpo”, de Novas Cartas Portuguesas
(Maria Isabel BARRENO et al., 1974), e ainda uma atividade com sinônimos, pensando na
abundante proliferação de discursos que é responsável pela criação da identidade na relação
com o Outro, especialmente aqueles fora da norma (SILVA, 2000; Michel FOUCAULT, 2014).
Os alunos tiveram como responsabilidade apresentar produtos culturais, midiáticos e
jornalísticos que se relacionassem com as temáticas discutidas em sala de aula. A atividade
realizada em grupos teve como proposta o diálogo entre teoria e prática e a reflexão sobre a
agência dos jornalistas e comunicadores na construção das narrativas. As escolhas referentes aos
produtos foram muito variadas, incluindo trechos de filmes, vídeos do YouTube e reportagens da
mídia hegemônica e da independente. Entre elas, tivemos exemplos que foram considerados
pelos estudantes como positivos, que promoviam rupturas com as normas sociais debatidas
anteriormente, e negativos, que reforçavam as hierarquias de gênero. Acreditamos que a proposta
foi importante ainda para a reflexão sobre o que seria produzido no trabalho final da disciplina.
Para o trabalho final da disciplina, que poderia ser realizado tanto em grupos, duplas ou
individualmente, foi proposto para a turma que desenvolvesse um produto jornalístico que tivesse
como objetivo transgredir em relação às práticas jornalísticas hegemônicas no que se refere às
questões de gênero. Os trabalhos finais foram bem variados, tais como: - dois programas de rádio,
sendo um deles em formato de entrevista sobre arte e visibilidade das temáticas que envolvem
sujeitos lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis (LGBTs) e outro sobre um histórico das lutas
feministas no Brasil; - um programa televisivo com entrevistas sobre visibilidade LGBT; - uma
reportagem multimídia com o tema “Identidades”, com um conjunto de reportagens que abordam
como as pessoas se percebem e como os padrões impostos socialmente influenciam as
manifestações dessas identidades; - um fanzine sobre a imprensa feminina e feminista, destacando
as primeiras publicações no mundo e no Brasil, e, no final, as atuais publicações brasileiras; - três
reportagens em texto, sendo uma sobre a vida de um jovem transgênero, a outra sobre a vida de
um jovem homossexual, e a terceira reportagem sobre as mulheres que sofrem assédio nas redações
jornalísticas; - um texto mais teórico relacionando as concepções de gênero com os valores-
notícia nas reportagens esportivas; - uma crônica sobre a mudança de pensamento do autor
sobre as perspectivas de gênero e a sua experiência ao entrevistar uma travesti.
Considerações finaisConsiderações finais
Considerações finaisConsiderações finais
Considerações finais
A experiência docente compartilhada na disciplina Jornalismo e Gênero foi única,
desafiadora, construtiva e transformadora das práticas e relações entre nós, que estávamos
diretamente envolvidas(os) com a disciplina, assim como de outras(os) professoras(es) e estudantes
do curso de Jornalismo da UFSC.
Durante o cotidiano de desenvolvimento da disciplina, muitas(os) colegas professoras(es)
relataram as mudanças nos interesses temáticos dos estudantes ao realizarem suas reportagens e
demais trabalhos em aula, assim como ao escolherem seus temas para o Trabalho Final de
Conclusão de Curso (TCC), os quais passaram a priorizar o trabalho com a temática de Gênero no
Jornalismo sobre diversas perspectivas. Por parte das(os) estudantes, os relatos foram no sentido de
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terem tido a oportunidade de pensar sobre as práticas sociais e jornalísticas sob outros olhares,
tendo discernimento e embasamento teórico sobre a diversidade e complexidade em torno das
questões de identidades de gênero e do quanto essas questões estão presentes em todas as
temáticas possíveis de serem abordadas pelo Jornalismo.
As transformações ocorridas no curso de Jornalismo da UFSC – iniciadas a partir do
protagonismo das estudantes do Coletivo Jornalismo Sem Machismo – alteraram em definitivo a
formação de jovens estudantes em Jornalismo e também o modo de aprendizado em sala de aula
no que se refere ao relacionamento professores e alunos. Foi desafiador buscar conhecimentos,
leituras sobre a temática conjuntamente com os estudantes e aprender de modo coletivo,
horizontalmente, respeitando as diferenças uns dos outros.
A emergência da disciplina pode ser constatada também na grande procura dos
estudantes por cursá-la, tanto que, apesar de não ter tido uma edição em 2017/2, por organização
da oferta de outras disciplinas pelo Departamento, no primeiro semestre de 2018 a disciplina
voltou a ser ofertada e já houve outra edição da disciplina no segundo semestre de 2018.
Consideramos, neste sentido, que a disciplina Jornalismo e Gênero ruma para uma consolidação,
bem como os estudos de gênero no campo da Comunicação, sendo imprescindível para a
construção de novos conhecimentos entre os futuros jornalistas.
Cabe destacar, por fim, a urgência que sentimos de que as temáticas debatidas na disciplina
específica não se restrinjam ao ambiente e espaço das aulas de Jornalismo e Gênero. Tratar sobre
gênero e sexualidade, assim como outros marcadores de diferença, como raça, classe, etnia e
geração, enquanto assuntos transversais, se torna outro grande desafio da empreitada assumida
por nós e por um expressivo número de estudantes que aposta no Jornalismo como prática de
transformação social.
ReferênciasReferências
ReferênciasReferências
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Daiane Bertasso Daiane Bertasso
Daiane Bertasso Daiane Bertasso
Daiane Bertasso (daianebertasso@gmail.com) é Professora Adjunta no Departamento
de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e no Programa de Pós-Graduação
em Jornalismo da UFSC. Pesquisadora nos Grupos de Pesquisa do CNPq Jornalismo, Cultura e
Sociedade (UFSC) e TRANSVERSO: Estudos em Jornalismo, Interesse Público e Crítica (UFSC).
Jessica GustafsonJessica Gustafson
Jessica GustafsonJessica Gustafson
Jessica Gustafson (je.g.costa@gmail.com) é doutoranda no Programa de Pós-Graduação
em Jornalismo (PPGJOR) da Universidade Federal de Santa Catarina, mestra em Jornalismo (PPGJOR/
UFSC), especialista em Gênero e Sexualidade pelo Centro Latino-Americano em Sexualidade e
Direitos Humanos (CLAM/IMS/UERJ). Integra o grupo de pesquisa TRANSVERSO: Estudos em Jornalismo,
Interesse Público e Crítica (UFSC).
Fernanda NascimentoFernanda Nascimento
Fernanda NascimentoFernanda Nascimento
Fernanda Nascimento (fn.imprensa@gmail.com) é Professora Substituta no Departamento
de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutoranda no Programa de
Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH) na mesma instituição. Bolsista
Capes.
COMO CITCOMO CIT
COMO CITCOMO CIT
COMO CITAR ESSE ARTIGO DE AAR ESSE ARTIGO DE A
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A REVISTA REVIST
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A
BERTASSO, Daiane; NASCIMENTO, Fernanda; GUSTAFSON, Jessica. “Jornalismo e gênero: a emergência de
uma disciplina e um relato de docência compartilhada”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 28,
n. 2, e58720, 2020.
CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIACONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA
CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIACONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA
CONTRIBUIÇÃO DE AUTORIA
Daiane Bertasso: concepção da proposta, coleta de dados e análise de dados, elaboração do
manuscrito, redação, discussão de resultados.
Fernanda Nascimento: concepção da proposta, coleta de dados e análise de dados, elaboração do
manuscrito, redação, discussão de resultados.
Jessica Gustafson: concepção da proposta, coleta de dados e análise de dados, elaboração do
manuscrito, redação, discussão de resultados.
FINANCIAMENTOFINANCIAMENTO
FINANCIAMENTOFINANCIAMENTO
FINANCIAMENTO
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.
CONSENTIMENTO DE USO DE IMAGEMCONSENTIMENTO DE USO DE IMAGEM
CONSENTIMENTO DE USO DE IMAGEMCONSENTIMENTO DE USO DE IMAGEM
CONSENTIMENTO DE USO DE IMAGEM
Não se aplica.
APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISAAPROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISAAPROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Não se aplica.
CONFLITO DE INTERESSESCONFLITO DE INTERESSES
CONFLITO DE INTERESSESCONFLITO DE INTERESSES
CONFLITO DE INTERESSES
Não se aplica.
LICENÇA DE USOLICENÇA DE USO
LICENÇA DE USOLICENÇA DE USO
LICENÇA DE USO
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você pode compartilhar, adaptar, criar para qualquer fim, desde que atribua a autoria da obra.
HISTÓRICOHISTÓRICO
HISTÓRICOHISTÓRICO
HISTÓRICO
Recebido em 18/08/2018
Reapresentado em 24/10/2019
Aprovado em 01/11/2019
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Article
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Em Heterosexualism and the Colonial/Modern Gender System (2007), propus uma leitura da relação entre o colonizador e o/a colonizado/a em termos de gênero, raça e sexualidade. Com isso eu não pretendia adicionar uma leitura gendrada e uma leitura racial às já sabidas relações coloniais. Ao invés disso, eu propus uma releitura da própria modernidade capitalista colonial moderna. Isso se dá porque a imposição colonial do gênero atravessa questões sobre ecologia, economia, governo, relaciona-se ao mundo espiritual e ao conhecimento, bem como cruza práticas cotidianas que tanto nos habituam a cuidar do mundo ou a destruí-lo. Proponho este quadro conceitual não como uma abstração da experiência vivida, mas como uma lente que nos permita ver o que está escondido de nossas compreensões sobre raça e gênero e sobre as relações de cada qual à heterossexualidade normativa.
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A proposta deste artigo é mapear os comentários ofensivos de leitores direcionados à presidenta Dilma Rousseff e analisar os sentidos relacionados ao preconceito de gênero em duas publicações da página do jornal Folha de S. Paulo no Facebook. As postagens, realizadas no dia 16 de março de 2015, são relativas à primeira declaração oficial da presidenta após os protestos pró-impeachment do dia 15 de março. Por meio da Análise do Discurso e ancorandose nos estudos feministas pós-estruturalistas, foram mapeados 1.158 comentários de leitores. Verificou-se que 56% dos comentários constituem-se de ofensas que contêm preconceito de gênero. A análise destes textos levou a seis núcleos de sentido, cinco deles estritamente ligados a questões de gênero: Gaslighting e Manplaining; Misticismo e Religiosidade; Ódio e Misoginia; Machismo e Sexismo; e Bropriating
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Este artigo investiga a relacao entre os estudos de genero e a pesquisa em Jornalismo no Brasil. A analise esta centrada nos trabalhos apresentados desde o primeiro encontro anual da Associacao Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), em 2003, ate 2014, que foram rastreados pela palavras-chave "genero". Como metodo, emprega a analise de conteudo (Bardin, 2011), sendo que as categorias analisadas foram a) referencial teorico sobre relacoes de genero; b) perfil do pesquisador. O corpus consiste em cinco pesquisas identificadas no banco de dados da associacao no periodo de 2010-2014. Notamos, portanto, uma presenca emergente de pesquisas que, contudo, ate o presente ainda nao dialogam com a solida tradicao dos estudos de genero no pais em outras areas do conhecimento.
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The misadventures of the Author in writing about a "key-word" for a famous marxist dictionary are recounted here. In her own words: "Also, even if Marx and Engels – or Gayle Rubin, for that matter – had not ventured into sexology, medicine, or biology for their discussions of sex/gender or the woman question, I knew I would have to do so. At the same time, it was clear that other BIG currents of modern feminist writing on sex, sexuality, and gender interlaced constantly with even the most modest interpretation of my assignment. Most of those, perhaps especially the French and British feminist psychoanalytic and literary currents, do not appear in my entry on Geschlecht. In general, the entry below focuses on writing by US feminists. This is not a trivial scandal."
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Neste artigo, estão sendo historicizadas categorias de análise como: "mulher", "mulheres", "gênero" e "sexo", através de um diálogo com a história dos movimentos sociais de mulheres, de feministas, de gays e de lésbicas. Embora sejam categorias usadas de forma interdisciplinar, neste artigo focaliza-se principalmente o uso destas por historiadoras e historiadores, fazendo uma revisão do que se tem publicado no Brasil sobre o assunto. Dialoga-se com as teorias e busca-se, de forma didática, apresentar para estudantes e pesquisadoras/es um panorama de como estas categorias de análise têm sido constituídas e questionadas.
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O presente trabalho documenta a presença da temática das relações de gênero na pesquisa em comunicação, no período de 1992 a 2002, através de um levan-tamento de dissertações e teses, apresentadas nos programas de pós-graduação no país. Tal inventário destaca, também, os meios de comunicação privilegiados no conjunto de 65 pesquisas que trataram o tema. estudos de gênero, pesquisa em comunicação, Brasil, meios de comunicação. This paper aims to describe the relations between gender and media studies, through an inventory of Brazilian graduate research developed from 1992 to 2002. This analysis also emphasizes the different media focused in each research. gender studies, media studies, Brasil. Este trabajo documenta las relaciones entre el tema del género y los estudios de comunicación, en el período de 1992-2002, atraves de un inventario de la producción académica brasileña. Para tal, toma como objeto los trabajos de maestría y doctorado, destacando en la analisis los medios de comunicación privilegiados en dichas investigaciones. Estudios de género, estudios de comunicación, Brasil.
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As questões do multiculturalismo e da diferença tornaram-se, nos últimos anos, centrais na teoria educacional crítica e até mesmo nas pedagogias oficiais. Mesmo que tratadas de forma marginal, como "temas transversais", essas questões são reconhecidas, inclusive pelo oficialismo, como legítimas questões de conhecimento. O que causa estranheza nessas discussões é, entretanto, a ausência de uma teoria da identidade e da diferença. Em geral, o chamado "multiculturalismo" apóia-se em um vago e benevolente apelo à tolerância e ao respeito para com a diversidade e a diferença. É particularmente problemática, nessas perspectivas, a idéia de diversidade. Parece difícil que uma perspectiva que se limita a proclamar a existência da diversidade possa servir de base para uma pedagogia que coloque no seu centro a crítica política da identidade e da diferença. Na perspectiva da diversidade, a diferença e a identidade tendem a ser naturalizadas, cristalizadas, essencializadas. São tomadas como dados ou fatos da vida social diante dos quais se deve tomar posição. Em geral, a posição socialmente aceita e pedagogicamente recomendada é de respeito e tolerância para com a diversidade e a diferença. Mas será que as questões da identidade e da diferença se esgotam nessa posição liberal? E, sobretudo: essa perspectiva é suficiente para servir de base para uma pedagogia crítica e questionadora? Não deveríamos, antes de mais nada, ter uma teoria sobre a produção da identidade e da diferença? Quais as implicações políticas de conceitos como diferença, identidade, diversidade, alteridade? O que está em jogo na identidade? Como se configuraria uma pedagogia e um currículo que estivessem centrados não na diversidade, mas na diferença, concebida como processo, uma pedagogia e um currículo que não se limitassem a celebrar a identidade e a diferença, mas que buscassem problematizá-las? É para questões como essas que se volta o presente ensaio. Identidade e diferença: aquilo que é e aquilo que não é Em uma primeira aproximação, parece ser fácil definir "identidade". A identidade é simplesmente aquilo que se é: "sou brasileiro", "sou negro", "sou heterossexual", "sou jovem", "sou homem". A identidade assim concebida parece ser uma positividade ("aquilo que sou"), uma característica independente, um "fato" autônomo. Nessa perspectiva, a identidade só tem como referência a si própria: ela é autocontida e auto-suficiente. Na mesma linha de raciocínio, também a diferença é concebida como uma entidade independente. Apenas, neste caso, em oposição à identidade, a diferença é aquilo que o outro é: "ela é italiana", "ela é branca", "ela é homossexual", "ela é velha", "ela é mulher". Da mesma forma que a identidade, a diferença é, nesta perspectiva, concebida como auto-referenciada, como algo que remete a si própria. A diferença, tal como a identidade, simplesmente existe. É fácil compreendel~ entretanto, que identidade e diferença estão em uma relação de estreita dependência. A forma afirmativa como expressamos a identidade tende a esconder essa relação. Quando digo "sou brasileiro" parece que estou fazendo referência a uma identidade que se esgota em si mesma. "Sou brasileiro" -ponto. Entretanto, eu só preciso fazer essa afirmação porque existem outros seres humanos que não são brasileiros. Em um mundo imaginário totalmente homogêneo, no qual todas as pessoas partilhassem a mesma identidade, as afirmações de identidade não fariam sentido. De certa forma, é exatamente isto que ocorre com nossa identidade de "humanos". É apenas em circunstâncias muito raras e especiais que precisamos afirmar que "somos humanos".
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Gênero, Gram. Categoria que indica por meio de desinência uma divisão dos nomes baseada em critérios tais como sexo e associações psicológicas. Há gêneros masculino, feminino e neutro. Novo Dicionário da Língua Portuguesa (Aurélio B. de Hollanda Ferreira). Aqueles que se propõem a codificar os sentidos das palavras lutam por uma causa perdida, porque as palavras, como as idéias e as coisas que elas significam, têm uma história. Nem os professores de Oxford, nem a Academia Francesa foram inteiramente capazes de controlar a maré, de captar e fixar os sentidos livres do jogo da invenção e da imaginação humana. Mary Wortley Montagu acrescentava a ironia à sua denúncia do "belo sexo" ("meu único consolo em pertencer a este gênero é ter certeza de que nunca vou me casar com uma delas") fazendo uso, deliberadamente errado, da referência gramatical. Ao longo dos séculos, as pessoas utilizaram de forma figurada os termos gramaticais para evocar traços de caráter ou traços sexuais. Por exemplo, a utilização proposta pelo Dicionário da Língua Francesa de 1879 era: "Não se sabe qual é o seu gênero, se é macho ou fêmea, fala-se de um homem muito retraído, cujos sentimentos são desconhecidos". E Gladstone fazia esta distinção em 1878: "Atenas não tinha nada do sexo a não ser o gênero, nada de mulher a não ser a fama". Mais recentemente – recentemente demais para encontrar seu caminho nos dicionários ou na enciclopédia das ciências sociais – as feministas começaram a utilizar a palavra "gênero" mais seriamente, no sentido mais literal, como uma maneira de referir-se à organização social da relação entre os sexos. A conexão com a gramática é ao mesmo tempo explícita e cheia de possibilidades inexploradas. Explícita, porque o uso gramatical implica em regras que decorrem da designação do masculino ou feminino; cheia de possibilidades inexploradas, porque em vários idiomas indo-europeus existe uma terceira categoria – o sexo indefinido ou neutro. Na gramática, gênero é compreendido como um meio de classificar fenômenos, um sistema de distinções socialmente acordado mais do que uma descrição objetiva de traços inerentes. Além disso, as classificações sugerem uma relação entre categorias que permite distinções ou agrupamentos separados. No seu uso mais recente, o "gênero" parece ter aparecido primeiro entre as feministas americanas que queriam insistir na qualidade fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra indicava uma rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como "sexo" ou "diferença sexual". O "gênero" sublinhava também o aspecto relacional das definições normativas de feminilidade. As que estavam mais preocupadas com o fato de que a produção dos estudos femininos centrava-se sobre as mulheres de forma muito estreita e isolada, utilizaram o termo "gênero" para introduzir uma noção relacional no nosso vocabulário analítico. Segundo esta opinião, as mulheres e os homens eram definidos em termos recíprocos e nenhuma compreensão de qualquer um poderia existir através de estudo inteiramente separado. Assim, Nathalie Davis dizia em 1975: "Eu acho que deveríamos nos interessar pela história tanto dos homens quanto das mulheres, e que não deveríamos trabalhar unicamente sobre o sexo oprimido, da mesma forma que um historiador das classes não pode fixar seu olhar unicamente sobre os camponeses. Nosso objetivo é entender a importância dos sexos, dos grupos de gêneros no passado histórico. Nosso objetivo é descobrir a amplitude dos papéis sexuais e do simbolismo sexual nas várias sociedades e épocas, achar qual o seu sentido e como funcionavam para manter a ordem social e para mudá-la".