BookPDF Available

Práticas Textuais 18|19

Authors:

Abstract

Práticas Textuais 18|19 visa dar a conhecer o trabalho levado a cabo no âmbito de duas Unidades Curriculares – Práticas Textuais e Linguística do Texto – oferecidas pelo Departamento de Linguística, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCSH), ao longo do ano letivo referido. Partindo dos pressupostos de Vygotksy, privilegiou-se uma abordagem prática (com vista à consciencialização dessa mesma prática de escrita) que visa ampliar o campo de ação dos e das estudantes no que toca a questões de produção textual no âmbito académico e profissional. Desse modo, assume-se que a escrita (consciente) permite aceder a um nível superior de desenvolvimento – que, passando pelo uso e funcionamento da língua, tem impacto na escrita académica. Estruturado em torno de duas partes (Texto e posicionamento crítico e Texto e sociedade), o trabalho que se desenvolveu com as discentes procurou fomentar uma formação sólida associada a capacidades de escrita académica, de autorreflexão, de inovação e de criação que, simultaneamente, as incentive e leve a atuarem como protagonistas de uma sociedade inclusiva e inovadora (e não serem, meramente, agentes passivas).
PRÁTICAS
TEXTUAIS
18|19
Editado por
Matilde Gonçalves
Noémia Jorge
Antónia Coutinho
Marta Fidalgo
Rute Rosa
Ficha técnica
Título
Práticas Textuais 18|19
Organizadoras
Matilde Gonçalves, Noémia Jorge, Antónia Coutinho,
Marta Fidalgo, Rute Rosa
Autoras
Ana Mafalda Lamarosa, Ana Sofia Santos Filipe, Beatriz Zorro, Cláudia
Castro, Esmeralda Leong, Joana Oliveira, Mariana Tscherkas, Sílvia
Vasconcelos, Teresa Palma.
Imagem da capa
Museu da Escrita do Sudoeste
Ano
2020
ISBN
978-989-54081-1-5
Como citar
Gonçalves, M., Jorge, N., Coutinho, M. A., Fidalgo, M., & Rosa, R. (Eds.).
(2020). Práticas Textuais 18|19. Lisboa: CLUNL-NOVA FCSH.
Apoio
Museu da Escrita do Sudoeste
Município de Almodôvar
Departamento de Linguística da Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa
Abóbada I - Almodôvar
Estela epigrafada com Escrita do Sudoeste
I Idade do Ferro
Séc. VII-V a.C.
Imagem gentilmente cedida por
Museu da Escrita do Sudoeste (MESA)|Município de Almodôvar
Índice
5|7
Nota de abertura
Matilde Gonçalves, Antónia Coutinho, Noémia Jorge
8|9
Equipa Editorial
Parte I Texto e posicionamento crítico
11|18
Texto e construção de um posicionamento crítico: o caso das
recensões críticas
Matilde Gonçalves & Rute Rosa
19|22
Recensão crítica
Ana Mafalda Lamarosa
23|26
Recensão crítica
Ana Sofia Santos
27|30
Recensão crítica
Esmeralda Leong
31|33
Recensão crítica
Mariana Tscherkas
34|37
Recensão crítica
Sílvia Vasconcelos
38|41
Recensão crítica
Teresa Palma
Parte II Texto e sociedade
43|49
Práticas de texto: entre processo e produto
Matilde Gonçalves, Marta Fidalgo, Noémia Jorge
50|67
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber
Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
68|81
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais
ultrapassam as normas linguísticas
Cláudia Castro
82|96
Análise textual de “A alma dos bichos in Visão
Joana Oliveira
5
Nota de abertura
Nota de abertura
Dando continuidade ao trabalho iniciado com Práticas Textuais 17|18, a
presente publicação surge no âmbito de duas Unidades Curriculares Práticas
Textuais e Linguística do Texto oferecidas pelo Departamento de Linguística,
na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa
(NOVA FCSH). Práticas Textuais 18|19 visa dar a conhecer o trabalho levado a
cabo no contexto das unidades curriculares atrás mencionadas, ao longo do
ano letivo 2018/2019.
As duas unidades curriculares apresentam objetivos específicos, que
constam das respetivas fichas, disponíveis na apresentação da licenciatura no
Guia Curricular da NOVA: “exercitar a especificidade das tarefas de leitura e de
produção de textos, em contexto académico e científico, com vista a
desempenhos eficazes”, no que concerne a Unidade Curricular Práticas
Textuais; e “descrever a organização textual, promovendo um conhecimento
explícito relevante em diferentes situações profissionais”, no que toca à
Linguística do texto. Ambas as unidades curriculares assentam em pressupostos
teóricos e epistemológicos comuns no âmbito dos estudos linguísticos sobre os
textos e os discursos (desenvolvidos pelo grupo Gramática & Texto|vertente
MultiText do Centro de Linguística da Universidade NOVA de Lisboa). Esses
pressupostos, herdados dos trabalhos de Vygotsky (2007), privilegiam uma
abordagem prática (com vista à consciencialização dessa mesma prática de
escrita) e visam ampliar o campo de ação dos e das estudantes no que toca a
questões de produção textual no âmbito académico e profissional. Desse
modo, assume-se que a escrita (consciente) permite aceder a um nível superior
de desenvolvimento que, passando pelo uso e funcionamento da língua, tem
impacto na escrita académica. O processo de aprendizagem de cada
estudante envolveu materiais de análise das práticas sociais de referência e de
textos produzidos no âmbito da investigação desenvolvida pelas editoras da
presente publicação. De acordo com o que atrás ficou dito, este processo de
aprendizagem teve como pressuposto o potencial de desenvolvimento
associado à apropriação e aplicação (ou replicação) desses materiais, através
6
Nota de abertura
de um trabalho em interação e colaboração, quer entre a discente e a
docente, quer entre discentes entre elas.
A par do trabalho realizado com as discentes, a experiência permitiu
também aprofundar a reflexão sobre a docência em contexto universitário e
sobre o papel de docente de práticas textuais, em particular, face aos vários
desafios que se apresentam à docência no século XXI. De facto, o ensino
superior desempenha um papel crucial na formação pessoal, uma vez que
corresponde a uma etapa-charneira no percurso de cada estudante, antes de
ingressar na vida profissional, cada vez mais exigente. Assim, criar condições
para que cada estudante adquira uma base sólida de conhecimentos e
desenvolva, simultaneamente, capacidades reflexivas e críticas deverá fazer
parte da missão da universidade e da docência universitária, na medida em
que são esses os meios que possibilitam a adaptação ao mundo em
permanente evolução, a criação de valor e a aptidão para a tomada de
decisões adequadas às necessidades (e aos desafios) societais.
Assim, o trabalho que se desenvolveu com as discentes procurou
fomentar uma formação sólida associada a capacidades de autorreflexão, de
inovação e de criação que, simultaneamente, as incentive e leve a atuarem
como protagonistas de uma sociedade inclusiva e inovadora (e não serem,
meramente, agentes passivas). A publicação que agora se apresenta é
produto dessa formação.
A primeira parte de Práticas Textuais 18|19 é constituída por uma
apresentação dos objetivos e da metodologia utilizada no âmbito da unidade
curricular Práticas Textuais, cujo foco foi a aprendizagem das marcas
genológicas da recensão crítica, bem como a escrita de uma recensão.
Apresentam-se igualmente os trabalhos realizados pelas discentes que
aceitaram o desafio da publicação: Ana Sofia Lamarosa, Ana Sofia Santos
Filipe, Esmeralda Leong, Mariana Tscherkas e Sílvia Vasconcelos.
A segunda parte da publicação conta com um texto em que se
perspetivam os objetivos e a metodologia escolhida para o bom
desenvolvimento da unidade curricular Linguística do Texto, alicerçados numa
7
Nota de abertura
reflexão sobre o texto como produto e como processo. Beatriz Zorro, Cláudia
Castro e Joana Oliveira prestaram-se a dois tipos de textualização: uma
apresentação oral com suporte em PowerPoint e um trabalho escrito, resultante
dessa mesma apresentação.
Para além dos trabalhos, foi solicitada a cada discente uma nota
biográfica através da qual se consolida uma tomada de consciência do papel
sociossubjetivo de autora, em contexto académico e científico.
Agradecemos a todas as discentes por terem aceitado o desafio que
esta publicação representa, bem como o trabalho, o entusiasmo e o empenho.
Que esta publicação alimente a reflexão em torno das práticas de texto,
em geral, e em contexto académico, em particular e que seja instigadora de
outras (renovadas) formas de implicação e de desenvolvimento, através da
escrita.
Matilde Gonçalves
Antónia Coutinho
Noémia Jorge
8
Equipa editorial
EQUIPA EDITORIAL
Matilde Gonçalves
Doutorada pela Université Paris 8 (Études Portugaises) e pela Universidade NOVA
de Lisboa (Linguística Teoria do Texto), é professora auxiliar na Faculdade de
Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa e investigadora
do Centro de Linguística da Universidade NOVA de Lisboa (CLUNL), no qual
desenvolve trabalho no grupo Gramática & Texto | Multitext. Enquadrado na
linguística do texto e do discurso, o seu trabalho centra-se nas práticas de
linguagem digitais, na literacia científica e na divulgação de ciência, bem
como na transposição de instrumentos linguísticos para fins específicos.
E-mail: matilde.goncalves@fcsh.unl.pt
Noémia Jorge
Doutorada em Linguística (área de especialização em Linguística do Texto e do
Discurso) pela Universidade NOVA de Lisboa. Professora adjunta convidada na
Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Leiria.
Investigadora no CLUNL (grupo Gramática & Texto, tem como interesses
específicos a descrição e a didatização de géneros de texto.
E-mail: njorge@fcsh.unl.pt
Antónia Coutinho
Professora Associada na NOVA FCSH (Departamento de Linguística) e
doutorada em Linguística Teoria do Texto, é responsável pela unidade
curricular Práticas Textuais desde que a mesma foi criada (2005-2006). É
investigadora integrada do CLUNL (grupo Gramática & Texto) e desenvolve
investigação no âmbito dos estudos linguísticos sobre os textos e os discursos,
centrando-se em questões como: caracterização diferencial de géneros de
texto, relação entre géneros de texto e estilos, ensino/aprendizagem de
gramática e de texto, escrita e desenvolvimento da escrita, linguagem paritária.
E-mail: acoutinho@fcsh.unl.pt
9
Nota de abertura
Marta Fidalgo
Mestre em Consultoria e Revisão Linguística e doutoranda em Linguística (área
de especialização em Linguística do Texto e do Discurso) pela Universidade
NOVA de Lisboa. Foi bolseira de doutoramento no CLUNL (grupo Gramática &
Texto), no âmbito do programa KRUse, e desenvolve investigação na área da
revisão de textos. No ano de 2018/2019 dinamizou uma sessão da unidade
curricular Práticas Textuais sobre estratégias de produção textual com recurso a
ferramentas eletrónicas. É tradutora/revisora de Alemão e Inglês.
E-mail: mfidalgo@fcsh.unl.pt
Rute Rosa
Doutorada em Linguística (área de especialização em Linguística do Texto e do
Discurso) pela Universidade NOVA de Lisboa. A sua investigação foca a
descrição e didatização de géneros de texto, privilegiando o quadro teórico do
Interacionismo Sociodiscursivo. É mestre em Consultoria e Revisão Linguística
pela Universidade NOVA de Lisboa e licenciada em Estudos Portugueses pela
Universidade Aberta. Em 2019/2020, no âmbito da unidade curricular Práticas
Textuais, dinamizou uma sessão sobre planificação, textualização e revisão.
E-mail: ruterosa@fcsh.unl.pt
10
PARTE I
TEXTO E POSICIONAMENTO CRÍTICO
Texto e construção de um posicionamento crítico: o caso das recensões críticas
Matilde Gonçalves & Rute Rosa
11
Texto e construção de um posicionamento crítico:
o caso das recensões críticas
Matilde Gonçalves & Rute Rosa
Com a unidade curricular Práticas Textuais, integrada na licenciatura
em Ciências da Linguagem, lecionada na Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa, propõe-se uma
abordagem da língua tal como funciona e circula em sociedade, em
particular no contexto científico e académico, visando-se,
simultaneamente, a promoção das capacidades de leitura e de escrita
de textos científicos e académicos, com vista a desempenhos de
qualidade, de acordo com os seguintes objetivos:
Para alcançar os objetivos traçados, as aulas assumem,
metodologicamente, um caráter teórico e prático, com uma clara
predominância da vertente prática, recorrendo igualmente a
exposição, demonstração, discussão conjunta, bem como a reflexão
sobre os temas e conteúdos abordados. Privilegia-se,
concomitantemente, a aplicação prática da teoria, pela interação e
pela participação ativa dos alunos individualmente e em grupo.
reconhecer a especificidade das práticas textuais em função
do tipo de atividade em que se inserem;
usar recursos metacognitivos suscetíveis de facilitarem as
tarefas de leitura e de produção textual;
manipular mecanismos linguísticos responsáveis pela
organização textual e pela marcação das responsabilidades
enunciativas;
distinguir as atividades de paráfrase, resumo e comentário;
integrar adequadamente as atividades de paráfrase, resumo
e comentário em textos de géneros diferentes;
dominar, em termos de reconhecimento e de produção,
regularidades relativas a diferentes géneros da atividade
académica.
12
Texto e construção de um posicionamento crítico: o caso das recensões críticas
Matilde Gonçalves & Rute Rosa
Para além das relações entre atividades, géneros e textos
específicos da atividade científica e académica, abordam-se,
igualmente, os mecanismos linguísticos e textuais responsáveis pela
organização macrotextual, a marcação de responsabilidades
enunciativas, bem como as tarefas de paráfrase, de resumo e de
comentário. Para esses conteúdos, assumiu-se uma abordagem
diferenciada em função de géneros textuais específicos, a saber como
um mesmo mecanismo funciona conforme o género textual no qual é
convocado.
No que toca às atividades desenvolvidas ao longo da UC
Práticas Textuais 18|19, estas incidiram especificamente sobre a
recensão crítica (relembramos que em 2018|2019 o trabalho visou o
artigo científico). A escolha do género recensão crítica prende-se, por
um lado, com a possibilidade exercitar as capacidades de: 1) discernir
o que é relevante para o trabalho em causa; 2) resumir (tendo em
causa o que é pertinente e descartando o que é interessante); 3)
apropriar-(se) do conhecimento (científico); 4) desenvolver um ponto
de vista crítico e consciente. Este último tópico constitui um dos aspetos
mais desafiantes, tendo em conta a ideia comum de que a escrita
académica requer objetividade e que esta inúmeras vezes é
confundida com neutralidade (Boch & Frier (ed.) 2015: 214). Deste
modo, para além do que foi referido anteriormente, deu-se primazia aos
mecanismos linguísticos que semiotizem a construção de um ponto de
vista objetivo, mas não neutro, ou seja, não há ausência da tomada de
posição por parte do produtor. Na esteira dos trabalhos de Boch & Frier
(ed.) (2015: 214), assume-se que na escrita científica há,
simultaneamente, um “apagamento simbólico do eu”, no caso da
objetividade, e uma “construção simbólica do eu” na tomada de
posição, na construção de um ponto de vista individual e
individualizado. Uma abordagem dos mecanismos enunciativos e de
responsabilidade enunciativa na escrita científica auxilia quer a tomada
de consciência dessa construção do eu, quer da sua construção
efetiva.
13
Texto e construção de um posicionamento crítico: o caso das recensões críticas
Matilde Gonçalves & Rute Rosa
Ainda na continuidade do que foi exposto anteriormente sobre a
construção de um ponto de vista, importa realçar a importância que
reverte ter um conhecimento mais amplo sobre a temática a ser
recenseada. Assim, para promover um posicionamento crítico
encarando o crítico, não como uma valoração necessariamente
negativa, mas fundamentada o trabalho das discentes foi sustentado
pelo acesso a diversos autores (e pontos de vista) sobre a mesma
temática do texto a ser recenseado, convidando-as, deste modo, a
terem conhecimento da comparação e pela confrontação sobre um
mesmo aspeto. Posicionamento pelo facto de comparar e confrontar
diversos autores (e pontos de vista) sobre uma mesma temática a do
texto. Para além do texto sobre o qual incidiu a recensão crítica,
constitui-se um conjunto de textos científicos que incidissem sobre a
mesma temática, e que se apresentam a seguir:
Texto a ser recenseado
Marcuschi, L. A. (2008). Produção textual, análise de gêneros e
compreensão (pp. 71-81). São Paulo: Parábola.
Textos de apoio
Azeredo, J. C. de (2008). Gramática Houaiss da Língua
Portuguesa (p. 476). São Paulo: Publifolha.
Charaudeau, P. & Maingueneau, D. (2006) Dicionário de Análise
do Discurso (pp. 466-468). São Paulo: Editora Contexto.
Mendes, A. (2008) Organização textual e articulação de
orações. In Raposo et al. Gramática do Português (pp. 1691-1694).
Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
14
Texto e construção de um posicionamento crítico: o caso das recensões críticas
Matilde Gonçalves & Rute Rosa
Apresentam-se, seguidamente, alguns traços característicos da
recensão, a nível do texto e do género. Foram esses traços que
pautaram o trabalho de observação das práticas de escrita de
recensões, bem como a produção das mesmas.
Marcas genológicas da recensão crítica
Embora o género recensão crítica seja mobilizado em diferentes
quadros sociais, os contextos académico-científico e escolar são os
mais usuais, nos quais a recensão é objeto de investigação, instrumento
de trabalho, bem como ferramenta de ensino-aprendizagem, dado
que possibilita o desenvolvimento de competências argumentativas, de
expressão linguística de pontos de vista e valorações, de síntese e de
reformulação.
Nas últimas décadas, a partir de múltiplas perspetivas e quadros
teóricos, têm sido realizados vários estudos nacionais e estrangeiros que
evidenciam algumas das marcas genológicas da recensão crítica,
como, por exemplo, Machado (2005), Barros e Nascimento (2008), Vian
Jr. e Ikeda (2009), Motta-Roth e Hendges (2010), Ruiz e Faria (2012), Rosa
(2015), Silva et al. (2015) e Jorge et al. (2018).
Outros textos (referenciados em Marcuschi, 2008)
Bakhtin, M. ([1979] 1992). Os gêneros de discurso. In M. Bakhtin,
Estética da criação verbal (pp. 277-326). São Paulo: Martins Fontes.
Beaugrande, R. de (1997). New foundations for a Science of
Text and Discourse: Cognition, Communication, and the Freedom
of Access to Knowledge and Society. Norwood: Ablex.
Beaugrande, R. de & Dressler, W. (1981). Introduction to Text
Linguistics. London: Longman.
Chomsky, N. ([1965] 1975). Aspectos da teoria da sintaxe.
Coimbra: Armênio Amado Editora.
Chomsky, N. ([1986] 1994). O conhecimento da língua. Sua
natureza, origem e uso. Lisboa: Editorial Caminho.
Saussure, F. de ([1916] 1974). Curso de lingüística geral. São
Paulo: Cultrix.
15
Texto e construção de um posicionamento crítico: o caso das recensões críticas
Matilde Gonçalves & Rute Rosa
A recensão crítica, independentemente do contexto em que o
género é mobilizado, visa apresentar uma apreciação crítica sobre um
objeto, podendo este ser concreto, no caso dos textos, ou abstrato,
como, por exemplo, se o objeto de recensão for uma experiência (Rosa,
2015; Jorge et al., 2018). Além disso, a identidade genérica dos textos é
invariavelmente explicitada pela etiqueta recensão crítica marcador
de género autorreferencial (Miranda, 2010).
Quando o objeto de recensão é um texto empírico, a recensão
crítica dá a ver um confronto de perspetivas: a perspetiva do autor do
texto recenseado, a perspetiva de outros autores que tenham tratado
o tema do texto objeto da recensão e a perspetiva e as valorações do
autor da recensão (Rosa, 2015). Com estas últimas, o autor assume ou
“chama para si o papel de especialista(autoridade) frente ao leitor que,
por sua vez, se constitui como membro (aspirante ou especialista) de
uma comunidade acadêmica" (Motta-Roth & Hendges, 2010: 36). Para
além da presença do nome do autor da recensão, ocorrem, por vezes,
outros elementos que procuram legitimar o papel de especialista que
se assume, como, exemplo, uma nota biográfica. Na recensão crítica,
as valorações e pontos de vista do autor podem ser mais ou menos
linguisticamente explicitados, sendo expressos através unidades e
estruturas linguísticas que evidenciam diferentes níveis de implicação,
como, por exemplo, formas verbais e pronomes na 1.ª pessoa do
singular ou do plural, adjetivação, frases não declarativas e
modalizações apreciativas (Rosa, 2015).
Com a perspetiva do autor da recensão cruzam-se as outras
perspetivas convocadas, estabelecendo-se, assim, múltiplas relações
intertextuais, o que se concretiza nos textos pela presença de citações,
alusões, paráfrases, entre outros (Ruiz & Faria, 2012; Jorge et al., 2018).
Em termos composicionais, o conteúdo temático da recensão
crítica é sequencialmente organizado, segundo a ordem retórica
introdução, desenvolvimento e conclusão (Rosa, 2015), predominando
sequências descritivas que orientam o leitor nos conteúdos tematizados
16
Texto e construção de um posicionamento crítico: o caso das recensões críticas
Matilde Gonçalves & Rute Rosa
nos textos recenseados, obedecendo à sua ordem de ocorrência nos
mesmos (Motta-Roth, 2002). A introdução é dedicada à apresentação
e contextualização do texto recenseado na área científica e/ou na
obra do autor; o desenvolvimento contempla a descrição do texto
recenseado, relacionando o texto ou partes deste (capítulos ou
subcapítulos) com outras obras e realçando os aspetos/partes mais
relevantes; na conclusão, faz-se uma apreciação global do texto
recenseado, sublinhando os aspetos que se destacaram pela positiva
ou pela negativa e recomendando ou não o texto objeto de recensão.
Estas três etapas, introdução, desenvolvimento e conclusão,
correspondem, assim, a quatro movimentos retóricos: movimento 1
(apresentação e avaliação inicial); movimento 2 (descrição);
movimento 3 (avaliação de partes); movimento 4 (avaliação final)
(Motta-Roth, 2002).
Em última instância, pela leitura dos diversos trabalhos poderá
verificar-se que não há necessariamente coincidência entre os diversos
trabalhos, quer pela forma como o texto fonte foi recenseado, quer
pelas próprias avaliações levadas a cabo pelas discentes. Essas
divergências evidenciam que os posicionamentos não são
forçosamente consensuais, nem fixos, nem rígidos. Neste sentido, o que
faz o avanço do conhecimento é a multiplicidade de pontos de vista,
bem como a sua discussão, criando, deste modo, uma visão
assumidamente ampla e abrangente, não unificada, nem dogmática.
Assumem-se estas divergências como úteis e necessárias para a
construção de um ponto de vista crítico específico e único de cada
pessoa que se posiciona face a outro texto, face a outra perspetiva. É,
portanto, nessa diferença que a pessoa se torna singular, entrando na
grande corrente dialógica das práticas de escrita académico-científica
e, que, simultaneamente, se constrói e se assume como (futuro) cientista
e académico.
17
Texto e construção de um posicionamento crítico: o caso das recensões críticas
Matilde Gonçalves & Rute Rosa
Referências bibliográficas:
Barros, E. M. D. & Nascimento, E. L. (2008). O ato de resenhar na e
para a academia. Linguagem & Ensino, Pelotas, v. 11, n. 1, 33-57.
Boch, F. & Frier, C. (Ed.) (2015). Écrire dans l’enseignement
supérieur. Des apports de la recherche aux outils pédagogiques.
Grenoble: Éditions littéraires et linguistiques de l’université de Grenoble
(ELLUG), collection Didaskein.
Jorge, N., Gonçalves, M., Fidalgo, M. & Rosa, R. (2018, setembro).
Contributos para a descrição do género recensão crítica.
Comunicação apresentada no XXXIV Encontro Nacional da
Associação Portuguesa de Linguística, Universidade Aberta, Palácio
Ceia, Lisboa, Portugal.
Machado, A. (2005). A perspectiva interacionista sociodiscursiva
de Bronckart. In J. L. Meurer; A. Bonini & D. Motta-Roth (Orgs.). Gêneros:
teorias, métodos, debates (pp. 237-259). São Paulo: Parábola.
Motta-Roth, D. (2002). A construção social do gênero resenha
acadêmica. In D. Motta-Roth & J.L. Meurer. (Orgs.) Gêneros textuais e
práticas discursivas: subsídios para o ensino da linguagem (pp. 77-116).
Bauru, SP: EDUSC.
Motta-Roth, D. & Hendges, G. (2010). Produção textual na
Universidade. São Paulo: Parábola.
Rosa, R. (2015). Proposta Interacionista para a Prática de Revisão
de Texto: o padrão discursivo dos textos académicos. Dissertação de
Mestrado em Consultoria e Revisão Linguística. Universidade NOVA de
Lisboa. Disponível em http://hdl.handle.net/10362/15754
Ruiz, E. & Faria, M. (2012). La intertextualidad en el género reseña.
Linguagem em (Dis)curso, 12(1), 99-128.
Silva, F., Leal, A., Silvano, P., Oliveira, F. & Ferreira I. (2015). Marcas
linguísticas da apreciação crítica. Literatura e Gramática: um diálogo
18
Texto e construção de um posicionamento crítico: o caso das recensões críticas
Matilde Gonçalves & Rute Rosa
infinito. Lisboa: Atas do 11º Encontro Nacional da Associação Professores
de Português. Disponível em https://repositorio-
aberto.up.pt/handle/10216/80614
Vian Jr., O. & Ikeda, S. N. (2009). O ensino do gênero resenha pela
abordagem sistêmico-funcional na formação de professores.
Linguagem & Ensino, Pelotas, v.12, n.1, 13-32.
19
Recensão crítica
Ana Mafalda Lamarosa
Recensão crítica por Ana Mafalda Lamarosa
Ao longo dos anos, a definição de texto foi-se desenvolvendo,
adquirindo diversas propriedades e relacionando diferentes elementos
entre si. Assim, a linguística de texto, que surgiu nos anos 60, teve como
objeto de estudo as propriedades que compõem um texto, as suas inter-
relações, bem como a evolução verificada até aos dias de hoje.
Para um melhor entendimento deste tópico, Marcuschi elabora
um subcapítulo, dividido em três partes, da sua obra Produção textual,
análise de gêneros e compreensão. A primeira parte trata da noção de
texto, a segunda refere as implicações da linguística de texto e, por fim,
na terceira parte, faz-se referência ao modo como ambas se articulam
para formar uma boa produção de um texto de modo a ser
compreendido pelo público.
Na primeira parte, Marcuschi começa por introduzir a noção de
texto, caracterizando-o como uma unidade de sentido composta por
frases que se organizam para um fim, sendo o “único material linguístico
observável” pelos linguistas (Marcuschi, 2008: 71). Um texto inter-
relaciona diversos elementos para que se possa formar um todo
organizado, ou seja, é uma unidade de sentido em contexto que não
se define pelo seu tamanho, mas sim pelas integrantes de que é
composto e, por isso, não funciona como uma unidade isolada, pois
não é uma unidade formal que se guie e se caracterize por um conjunto
de propriedades restritas e previamente estabelecidas.
De seguida, na segunda parte, apresenta-se o termo linguística
de texto que, nos anos 60, apenas tratava de textos escritos e nos
últimos 30 anos passou também a tratar da produção e da
compreensão de textos orais. A linguística de texto é uma vertente de
investigação que faz parte da linguística e estuda todas as
propriedades relacionadas com a produção de textos em uso, tendo
surgido devido ao facto de as teorias linguísticas não tratarem de todos
Ana Mafalda
Duarte Lamarosa
optou, no ano
letivo de
2015/2016, por um
curso científico-
humanístico na
área das Línguas,
na Escola
Secundária de
São João da
Talha. Atualmente,
encontra-se no
Ensino Superior,
integrando o curso
de Ciências da
Linguagem, da
Faculdade de
Ciências Sociais e
Humanas da
Universidade
NOVA de Lisboa.
20
Recensão crítica
Ana Mafalda Lamarosa
os fenómenos associados a textos. Estuda, portanto, o uso e o
funcionamento da língua tal como é utilizada pelos indivíduos.
Não obstante, surgem questões sobre como e onde situar o texto
na linguística, uma vez que pode ser apenas um fenómeno do
funcionamento do sistema ou estar ao nível do sistema. As respostas
dadas a estas questões apresentam dois pontos de vista distintos: o
ponto de vista de que a frase não é uma unidade do uso, mas sim da
fala (Saussure, 1916) e o de que a frase é a unidade básica da língua
(Chomsky, 1965). A linguística textual distingue conteúdo (aquilo que se
designa no mundo) de sentido (efeito produzido pelo que se diz de
diferentes formas através do conteúdo). Trata de resultados da língua
em uso baseada em processos sociocognitivos e das relações entre a
teoria e a prática e, por isso, para a boa formação textual, tem de
considerar a sociedade em questão e também as diferentes áreas da
linguística.
Na terceira e última parte, destaca-se a relação entre linguística
de texto e o conceito de texto. Um texto não se produz a partir de regras
formais, mas sim através de critérios meramente indicativos e necessita
tanto de conhecimentos linguísticos como não-linguísticos. Por este
motivo, a linguística de texto torna-se fundamental para a
compreensão de um texto, pois é uma perspetiva que observa o
funcionamento da língua e que utiliza processos sociocognitivos.
O texto é uma unidade de sentido realizada ao nível do uso e ao
nível do sistema, tendo ambos funções essenciais na produção textual.
Contudo, não uma regra que indique qual o conteúdo que deve
necessariamente seguir-se a outro numa sequência textual. Porém, para
que um texto atinja o seu objetivo, é crucial que os autores relacionem
a situação com os interlocutores para quem escrevem e é por isso que
Marcuschi o compara a um jogo, no qual existe um conjunto de regras,
um espaço de manobra e jogadores com diferentes funções, que
devem interagir entre si. Assim, os autores e os recetores de um texto
21
Recensão crítica
Ana Mafalda Lamarosa
devem colaborar para um mesmo fim, de acordo com um conjunto de
normas iguais.
Marcuschi aborda ainda a problemática relacionada com o
facto de, em âmbito escolar, os alunos desconhecerem o seu público-
alvo, o que dificulta a escolha da sua linguagem e levanta uma série
de questões que mostram a complexidade do problema. Deste modo,
um texto envolve diversos aspetos e não é apenas um conjunto de
palavras, pois necessita de relações entre vários elementos (palavras,
frases, contextos, etc.) de diferentes graus de complexidade, que
estabelecem relações de interdependência.
Por fim, o autor remete para a ideia de que os indivíduos
aprendem uma língua através do contacto direto e, nas primeiras fases
da vida, de modo restrito (através da família e do dia-a-dia), uma vez
que possuem um conjunto de competências que lhes permite interagir
socialmente, escolhendo e especificando sentidos mediante a
linguagem que usam.
A mais-valia desta obra reside no facto de este texto ser
fundamental, pois permite a comunicação entre os indivíduos,
implicando diversos aspetos para que possa ser compreendido em uso
e em contexto e para que carregue consigo um sentido próprio.
Marcuschi compara o texto com um tecido, sendo que os seus fios se
entrelaçam para formar uma unidade de sentido, podendo o seu
suporte ser tanto escrito como oral.
Em suma, o texto que foi objeto desta recensão constitui uma
abordagem elucidativa da importância de uma boa construção de
texto. Neste sentido, é necessário relacionar o seu uso com o sistema, o
que é essencial para a produção textual; para isso, cada indivíduo
necessita de articular as ideias coerentemente e logicamente, existindo
um fio condutor que guie o leitor de maneira a formar uma unidade de
sentido. Desta forma, o subcapítulo de Marcuschi vinca a importância
22
Recensão crítica
Ana Mafalda Lamarosa
e os aspetos que tornam um texto acessível em termos de
compreensão.
23
Recensão crítica
Ana Sofia Santos Filipe
Recensão crítica por Ana Sofia Santos Filipe
O texto para objeto de recensão crítica consiste na primeira parte da
obra de Luiz Antônio Marcuschi, denominada Produção Textual, análise
de gêneros e compreensão. O texto encontra-se dividido em três partes
e o seu objetivo é abordar as noções de texto como meio
comunicativo, de linguística de texto, bem como demonstrar os
mecanismos de elaboração textual, pondo em evidência a sua
evolução ao longo do tempo.
Na primeira parte, onde é analisada a noção de texto nos
tempos modernos, Marcuschi refere-se a texto como o resultado de
uma ação linguística do meio em que se insere, avançando que este
pode ser tido como um tecido estruturado, uma entidade de
comunicação e um artefacto socio-histórico. Para complementar o seu
ponto de vista, utiliza a perspetiva de Bakhtin, referindo que a
linguagem “refrata” o mundo na medida em que o reordena e
reconstrói. Anuncia também a utilização da noção de texto
desenvolvida por Beaugrande (1997: 10): “O texto é um evento
comunicativo em que convergem ações linguísticas, sociais e
cognitivas”.
Na segunda parte, Marcuschi define linguística de texto como o
estudo das operações linguísticas, discursivas e cognitivas reguladoras
e controladoras da produção, construção e processamento de textos
escritos ou orais em contextos naturais de uso, tratando atualmente da
produção e compreensão dos mesmos. Considera que a língua não
funciona em unidades isoladas, mas em unidades de sentido, isto é, em
textos. A motivação inicial da linguística de texto foi a de que as teorias
linguísticas tradicionais não consideravam alguns fenómenos linguísticos
evidenciados nos textos, sendo esses fenómenos resumidos em relações
interfrásicas. A linguística de texto configura assim uma linha de
investigação interdisciplinar dentro da linguística e, como tal, exige
Ana Sofia Santos
Filipe completou o
ensino secundário
na Escola
Secundária Rafael
Bordalo Pinheiro,
no curso de
Línguas e
Humanidades,
ambas na cidade
de Caldas da
Rainha.
Atualmente,
encontra-se a
frequentar a
licenciatura em
Ciências da
Linguagem, na
Faculdade de
Ciências Sociais e
Humanas, da
Universidade
NOVA de Lisboa.
24
Recensão crítica
Ana Sofia Santos Filipe
métodos e categorias de várias procedências. Marcuschi apresenta
ainda a diferença entre linguística teórica e linguística de texto, sendo
que a primeira se dedica ao estudo do sistema virtual da língua,
enquanto a segunda se dedica ao estudo da atualização desse sistema
em situações concretas de uso. É feita também a distinção entre sentido
e conteúdo, sendo que o conteúdo é aquilo que se diz, descreve ou
designa no mundo, enquanto sentido resulta do efeito produzido pelo
facto de se dizer de uma ou outra forma esse mesmo conteúdo, sendo
então um efeito do funcionamento da língua.
Assim, a linguística de texto constitui uma perspetiva de trabalho
que observa o funcionamento da língua em uso, sendo que a maior
preocupação recai sobre os processos sociocognitivos e não no
produto. Não se dedica ao estudo das propriedades gerais da língua,
reduzindo o campo de análise e descrição. Segundo Beaugrande
(1997), a linguística de texto dedica-se então a domínios mais fluentes
como a pragmática, as operações cognitivas e o aspeto social, por
exemplo, focando-se nas atuais relações dinâmicas entre a teoria e a
prática, o processamento e o uso do texto.
A língua não tem autonomia sintática, semântica e cognitiva.
Assim sendo, “a linguística de texto é uma perspetiva de trabalho com
a língua que recusa a noção de autonomia da língua.” (Marcuschi,
2008: 76).
Em suma, a linguística de texto supõe que o trabalho com a
língua portuguesa teria de se ocupar com mais do que o ensino e a
aprendizagem de regras, tratando-se de um estudo no qual se privilegia
a variada produção e as contextualizações na vida diária.
Contudo, não há uma regra que indique qual o conteúdo que se
deve necessariamente seguir a outro conteúdo numa sequência
textual. O que se pode afirmar com alguma segurança é que a
sequência dos enunciados num texto não pode ser aleatória sob os
pontos de vista linguístico, discursivo ou cognitivo. Marcuschi compara
25
Recensão crítica
Ana Sofia Santos Filipe
a produção textual a um jogo, considerando que existe um conjunto de
regras, um espaço de manobra, uma série de atores, cada um com os
seus papéis e funções. Refere que produtores e recetores de texto
devem colaborar para um mesmo fim e dentro de um conjunto de
normas iguais. Considera então que existe um problema baseado no
facto de que não se define exatamente quais os sistemas de controlo
da produção textual, o que observar ou ao que dar importância. O
autor afirma que o mais certo é admitir que o texto se dá num ato de
comunicação unificado, num complexo universo de ações humanas
interativas e colaborativas. Segundo a perspetiva de Beaugrande (1997:
10), “O texto é um sistema atualizado de escolhas extraído de sistemas
virtuais entre os quais a língua é o sistema mais importante” e continua
referindo que “é essencial tomar o texto como um evento comunicativo
no qual convergem ações linguísticas, cognitivas e sociais” (1997: 10).
O texto é assim visto como um sistema de conexões entre vários
elementos, sendo constituído numa orientação de multissistemas.
Para Beaugrande (1997), as pessoas usam e partilham facilmente
a língua, precisamente porque esta consiste num sistema em constante
interação com os seus conhecimentos partilhados sobre o mundo e
sociedade. É nessa ideia que Marcuschi fundamenta a essência do
tema que analisa, visto que aponta para o estudo das condições
sociocomunicativas identificadas nos processos sociointerativos.
O texto que foi objeto desta recensão aborda a noção de texto
e a linguística de texto. Marcuschi utiliza a perspetiva de Beaugrande
para fundamentar a sua definição de texto e o seu ponto de vista em
relação aos temas em causa. Neste sentido, considero que algumas
ideias poderiam ter sido mais bem fundamentadas e organizadas para
uma melhor compreensão por parte do leitor. Na minha opinião, os
temas tratados no texto de Marcuschi poderiam ter sido organizados de
outra forma, de maneira a não serem repetidas algumas ideias, tendo
assim melhor aproveitamento por parte de quem lê. Um outro fator
importante a ser referido é o facto de serem apresentados poucos
26
Recensão crítica
Ana Sofia Santos Filipe
exemplos para o que é descrito. Na obra de Mendes (2013), são
apresentados mais exemplos para aquilo que é dito, o que
complementa o texto e as ideias essenciais.
27
Recensão crítica
Esmeralda Leong
Recensão crítica por Esmeralda Leong
De entre as várias obras de Luiz Antônio Marcuschi, destaca-se
Produção textual, análise de gêneros e compreensão, produzida em
2008, que integra estudos e conceitos introdutórios da temática
Linguística do Texto , com exemplos extraídos dos corpora dos media
e da sociedade.
Esta obra de grande excelência possui, para além de uma breve
introdução geral e da explicitação dos conceitos introdutórios do texto,
uma estrutura de fácil identificação, estando dividida em três partes
“Processos de Produção Textual”, “Gêneros Textuais no Ensino de
Língua” e “Processos de Compreensão”.
-se relevância à primeira parte “Processos de Produção
Textual” –, que está subdividida por treze pontos, destacando-se o
ponto 1.7., intitulado “Noção de texto e linguística de texto”, que inclui
como principais temáticas o Texto (intercalada com um breve subtema:
Produção Textual) e a Linguística de texto.
Como primeira temática, Marcuschi apresenta, de forma
sintetizada, como a comunicação linguística e a produção discursiva se
concretizam em textos, sendo este o único material observável. Ou seja,
o texto é o produto resultante de uma ação linguística geralmente
delimitada e estabelecida por relações que possui com o mundo. Isto
significa que um fenómeno linguístico que transcende a frase e
constitui uma unidade de sentido (texto) que ocorre e opera no mundo.
A partir dos trabalhos de Bakhtin e Beaugrande, Marcuschi (2008:
72) sublinha que “o texto é uma (re)construção do mundo e não uma
simples refração ou reflexo”, baseando-se na definição dada por
Bakhtin que, por sua vez, assenta a construção do texto numa
perspetiva de enunciação, cujos processos não são simples nem
obedecem a regras fixas.
Esmeralda Leong
exerceu funções
de tradutora
voluntária de
excertos e obras
literárias
estrangeiras,
paralelamente,
também se
dedicou à
produção de
contos e
romances, tendo
sido publicados
em suporte digital,
em diversas
plataformas, sob
múltiplos
pseudónimos.
Atualmente,
encontra-se a
frequentar a
licenciatura em
Ciências da
Linguagem, na
Faculdade de
Ciências Sociais e
Humanas da
Universidade
NOVA de Lisboa.
28
Recensão crítica
Esmeralda Leong
Como o texto é uma unidade comunicativa e uma unidade de
sentido que ocorre no nível de uso e no nível de sistema da língua, tanto
o sistema como o uso possuem funções importantes na produção
textual. Deste modo, Marcuschi demonstra a importância da produção
textual, ao referir que esta requer: seguir algumas normas, não enunciar
aleatoriamente os conteúdos e adequar os textos aos interlocutores e a
situações definidas nas quais os textos devem estar enquadrados. Assim
sendo, os produtores e recetores de texto devem cooperar para o
mesmo propósito e estar inseridos num conjunto de iguais princípios. Esta
situação é verídica, porque os textos raramente são rejeitados pelos
seus recetores, ou seja, raramente não cumprem a sua função
comunicativa (cf. Mendes, 2008) e porque devem “expressar algum
significado pretendido por seu enunciador” (Azeredo, 2008: 476).
Conforme sublinhado Marcuschi (2008: 79), os princípios da
textualidade postulados por Beaugrande e Dressler (1981) não são
adequados para a boa formatação textual, pois o texto concretiza-se
como um “ato de comunicação unificado num complexo universo de
ações humanas interativas e colaborativas”. Isto também é
comprovado por Charaudeau e Maingueneau (2006: 467) “O texto
revelou ser uma unidade muito complexa” e Mendes (2013: 1691)
“adequado a determinados propósitos comunicativos”. Sendo assim, a
definição de texto dada por Beaugrande (1997: 10) “O texto é um
evento comunicativo em que convergem ações linguísticas, sociais e
cognitivas.” –, na qual Marcuschi se baseou, adequa-se ao seu estudo,
pois representa os pontos essenciais da produção textual a ter em conta
no discurso social.
Em suma, numa perspetiva sociointerativa, um dos principais
aspetos no processo interlocutivo é a relação mútua dos indivíduos com
a situação discursiva. Estes aspetos exigem por parte dos falantes e dos
escreventes que se preocupem na articulação dos seus textos ou
considerem os seus interlocutores quando falam ou escrevem. Quanto
à segunda temática, Marcuschi introduz a linguística de texto, explica e
29
Recensão crítica
Esmeralda Leong
demonstra como esta e o texto se relacionam e interligam, de forma
sucinta e de fácil compreensão.
Sob um ponto de vista técnico, a linguística de texto privilegia o
estudo da produção, do processamento e das contextualizações dos
textos (orais e escritos) introduzidos nos contextos naturais de uso. Esta é
compreendida como um domínio empírico e informal, cuja perspetiva
de trabalho é orientada pela análise controlada de dados verídicos e
empíricos retirados do desempenho real, tendo em consideração a
sociedade onde a língua se encontra introduzida.
O autor assume paralelamente que a linguística de texto
compreende e abrange a coesão superficial, a coerência conceitual e
o sistema de pressuposições. Acrescenta também que esta parte do
princípio de que a língua não possuiu autonomia sintática, semântica e
cognitiva. Além disso, a linguística de texto faz a distinção entre o
sentido e o conteúdo; contudo, não tem como objetivo a análise do
conteúdo; na realização da análise textual é relevante considerar os
aspetos estritamente linguísticos indispensáveis para a estabilidade
textual.
Resumindo, a “linguística de texto é uma perspetiva de trabalho
com a língua que recusa a noção de autonomia da língua” (Marcuschi,
2008: 76) e trata da “produção como da compreensão de textos orais
e escritos” (Marcuschi, 2008: 73), a partir dos pontos referidos
anteriormente.
Este ponto 1.7. Noção de texto e linguística de texto é
concluído com uma correlação das temáticas o Texto e a Linguística
de Texto , com uma definição escolhida por Marcuschi, de
Beaugrande (1997: 11): “As pessoas usam e partilham a língua tão bem
precisamente porque ela é um sistema em constante interação com
seus conhecimentos partilhados sobre o seu mundo e sua sociedade”,
pois está relacionada com “o estudo das condições
sociocomunicativas identificadas nos processos sociointerativos”
30
Recensão crítica
Esmeralda Leong
(Marcuschi, 2008: 81). Além disso, Marcuschi coloca, inclusive, uma
questão pertinente e de grande interesse que suscita curiosidade no
leitor: “Como se explica então que em qualquer situação nos
encontremos […], conseguimos obter tanto consenso sobre o que
dizemos […]?”. O autor responde que a sociedade tem a capacidade
automática e autónoma de produzir textos e discursos, mas que a nossa
atual função deveria ser aplicada à compreensão do funcionamento e
à melhoria da nossa habilidade textual-discursiva.
Em suma, este capítulo privilegia uma linguagem clara, “rica” em
exemplos e questões “aliciantes”, cujo conteúdo se encontra
organizado e intercalado com as temáticas (já referidas anteriormente),
sendo destinado a leitores especializados e não especializados. Assim,
o autor demonstra uma maior proximidade com o leitor, assegura a
veracidade da informação por si disponibilizada e demonstra a
importância do texto como um meio de comunicação dependente da
situação, dos enunciadores e dos recetores.
31
Recensão crítica
Mariana Tscherkas
Recensão crítica por Mariana Tscherkas
O texto de Marcuschi, Produção textual, análise de gêneros e
compreensão, fala de textos e da linguística de texto, discutindo o que
compõe cada um, como são vistos e como são usados. A definição de
texto usada pelo autor é de Beaugrande (1997: 10): “o texto é um
evento comunicativo em que convergem ações linguísticas, sociais e
cognitivas.”. Desta definição, segue-se para a linguística de texto,
referida LT, sendo esta a responsável pelo estudo da produção e da
compreensão de textos, sejam eles orais ou escritos.
A criação da LT decorreu da necessidade de explicar a
complexidade dos fenómenos linguísticos que existem no texto, pois o
sentido de uma frase somente era compreensível, quando esta era
relacionada com uma nova frase. Isso demandou que a teoria
linguística fosse além. Como o texto é mais do que uma unidade formal,
não se discute mais gramática de texto. Ao invés, pelo facto de as
regras para produção de cada género textual serem essencialmente
inviáveis, fala-se em LT. Marcuschi menciona que, de acordo com
Saussure (1916), “a frase não é uma unidade da langue e sim da parole”
(Marcuschi, 2008: 74). A LT, portanto, faz distinção entre o que é dito ou
escrito e o efeito da língua nos textos produzidos em situações
específicas.
A LT é importante no ensino da língua, ainda que não seja
‘descritivista’, pois aborda a ativação de “estratégias, expectativas,
conhecimentos linguísticos e não-linguísticos” (Marcuschi, 2008: 75).
Diferente da linguística clássica, entretanto, a LT é focada em relacionar
a teoria e a prática textual, e a sociedade na qual está situada a língua.
Além disso, Marcuschi argumenta que “a língua não tem autonomia
sintática, semântica e cognitiva” (Marcuschi, 2008: 75), e que a LT lida
com o “funcionamento efetivo” da mesma. Isso é possível pela
utilização de informação retirada de usos reais. A dificuldade de usar a
Mariana Tscherkas
fez o ensino básico
no Colégio Marista
Arquidiocesano
de São Paulo.
Cursou Fundação
Internacional e
Língua Inglesa e
Comunicação e
Publicação de
Nova Mídia na
Universidade de
Hertfordshire, na
Inglaterra.
Atualmente, cursa
Ciências da
Linguagem na
Faculdade de
Ciências Sociais e
Humanas da
Universidade
NOVA de Lisboa.
32
Recensão crítica
Mariana Tscherkas
língua vem de que nem todas as sequências textuais seguem relações
de relevância. A LT estuda, ainda assim, o seu uso em produção e a
contextualização diárias.
Um ponto que é enfatizado pelo autor é o de que “a sequência
dos enunciados num texto não pode ser aleatória sob o ponto de vista
linguístico discursivo ou cognitivo” (Marcuschi, 2008: 77). Deve existir
então uma clara relação entre os interlocutores para que o texto seja
produzido de forma que o leitor compreenda. A partir disto, é levantada
a questão de que a produção de texto possui normas, e que é do
conhecimento geral que estas são construídas para um interlocutor, ou
interlocutores, e situações específicos. Ainda assim, é comum que as
escolas não tenham essa precisão, quando pedem que um aluno
formule os seus textos, gerando falta de clareza na sua linguagem.
Assim, neste texto, o autor aborda a noção de texto e a linguística
de texto, desenvolvendo um trabalho que abrange desde os textos até
à sua produção e tudo o que entre. bons exemplos e
simplificações que podem ajudar a melhor compreender os conceitos
apresentados, deixando bastante claro o que é ou não abordado pelos
mesmos. Existem ainda algumas relações feitas entre matérias e ideias
que são úteis para um melhor entendimento das diferenças e das razões
para o uso ou não de certos métodos, como as diferenças entre sentido
e conteúdo, e o porquê de se usar mais gramática de texto. No entanto,
observa-se o uso excessivo de conceitos alheios, especificamente de
Beaugrande (1997), o que transmite falta de ideias próprias. Por outro
lado, o que também dificulta a leitura é a constante mudança de
tópicos, deixando-os incompletos, enquanto um novo assunto é
abordado, retornando depois ao que se tratava anteriormente sem
relacioná-los. Com esta mesma consequência, o uso das mesmas
definições, como, por exemplo, quando o autor afirma que os textos
não constituem “unidades isoladas, tais como fonemas, morfemas ou
palavras soltas” (Marcuschi, 2008: 71). Em algumas passagens, o mesmo
tema é abordado com palavras similares e na mesma ordem,
33
Recensão crítica
Mariana Tscherkas
enfatizando a sensação de desordem. Finalmente, o autor utiliza
metáforas longas, o que desvia a atenção do leitor do tema e conduz
à distração. Apesar de o texto abordar pontos essenciais, o modo como
são tratados torna a leitura longa e incómoda, com a informação
facilmente perdida enquanto se devaneia.
34
Recensão crítica
Sílvia Vasconcelos
Recensão crítica por Sílvia Vasconcelos
O texto e a linguística de texto revelam aspetos explícitos sobre o ponto
de vista linguístico nem sempre percetíveis, devido à forma espontânea
como comunicamos. Quando se pensa em texto remete-se para um
objeto físico ou digital, sem levar em consideração que toda a
comunicação, seja ela oral ou escrita, é por si mesma um texto. A obra
Produção textual, análise de gêneros e compreensão é constituída por
um preliminar intitulado “Breve excurso sobre a Lingüística no século XX”
e, por três partes, sendo que a primeira tem por título “Processos de
produção textual”, a segunda, “Gêneros textuais no ensino de língua”
e a terceira, “Processos de compreensão”. Esta recensão vai incidir no
ponto 1.7., “Noção de texto e lingüística de texto”, integrado na
primeira parte da obra.
Inicialmente, Marcuschi faz uma introdução sobre a noção de
texto e o desenvolvimento da linguística de texto. Para o autor, o texto
constitui uma produção discursiva, ou seja, uma urdidura estruturada
com significado próprio, uma ação comunicacional e um objeto socio-
histórico, sendo essa urdidura consequência de um acontecimento
linguístico e de como ele pode ser interpretado. O texto é uma
estruturação em permanente remodelação, cujos confins são
vinculados pela forma como emerge e exerce a sua função no mundo.
Na segunda parte, o autor apresenta uma síntese sobre o
desenvolvimento da linguística de texto, desde os anos 60 do século XX
até ao século XXI; por conseguinte, trata-se de um campo de estudo
em constante evolução. Baseando-se nos pontos de vista de outros
autores relativamente à interpretação que fazem da linguística de
texto, Marcuschi revela que, outrora, a linguística de texto apenas
estudava a produção textual escrita e a forma de processar essa
produção, mas, atualmente, já entende como texto toda a produção
oral ou escrita como também a sua compreensão. O autor refere,
Sílvia Vasconcelos
estudou até ao 12.º
ano de
escolaridade, na
Escola Secundária
da Trofa. Em 1998,
tirou um curso de
informática na ótica
do utilizador. Em
2007, tirou um curso
de inglês e outro de
mandarim, em 2010.
Atualmente,
encontra-se a
frequentar as
cadeiras Práticas
Textuais e
Gramática do
Português, da
Licenciatura de
Ciências da
Linguagem, na
Faculdade de
Ciências Sociais e
Humanas da
Universidade NOVA
de Lisboa.
35
Recensão crítica
Sílvia Vasconcelos
ainda, a distinção que a linguística faz entre sentido e conteúdo, uma
vez que este último é objeto de estudo de uma outra área,
apresentando um leque de informações sobre as quais incide as
distintas vertentes do estudo da linguística de texto. Segundo Marcuschi,
a linguística de texto estuda a coesão superficial, a coerência
concetual e o sistema de pressuposições, pois estes são os tópicos
basilares no estudo da linguística, uma vez que não se estudam apenas
os seus temas mais evidentes, como a sintaxe, a fonologia, a morfologia,
etc.
O texto é um acontecimento comunicacional sociointerativo
cujo processo de construção não é estanque. Para explicar esta ideia,
o autor faz uma analogia entre a noção de texto e um jogo, ajudando
a entender melhor todo o domínio que envolve uma produção textual
e a linguística de texto. Um texto, entendido como um jogo, tem de se
submeter a regras e os intervenientes (jogadores) têm de cumprir
individualmente a função que lhes compete em sintonia com os
restantes. “O significado é parte do evento discursivo que envolve o
produtor do texto e seu destinatário, ouvinte ou leitor” (Azeredo, 2008:
476). Contudo, esta analogia espelhada de forma simplista deixa de
lado outras questões demasiado importantes para serem ignoradas,
Marcuschi dá a conhecer de seguida.
De facto, Marcuschi apresenta a problemática entre o produtor
textual e o auditório a quem se dirige a produção textual, questionando
as implicações que o objeto textual vai sofrer em função disso mesmo.
Manifesta, portanto, essas mesmas interrogações: Quais serão os
princípios gerais admitidos na produção e no seu sentido? Qual a
função dos interlocutores na enunciação e na forma da produção
textual? É inelutável que cada produção textual tenha de se submeter
a uma estrutura basilar? Os géneros textuais exerceriam uma primordial
função relativamente a essa estrutura base? Sob que paradigma os
desígnios influenciariam essas unidades linguísticas? A intensidade das
expressões linguísticas formais ou informais tem um desempenho
36
Recensão crítica
Sílvia Vasconcelos
determinante na realização textual? Na construção das produções
enunciativas, tanto orais como escritas, reclamar-se-iam táticas textuais
distintas?
Todas estas questões foram sublevadas pelo autor, muito
embora, algumas ainda desapossadas de resposta efetiva devido à
complexidade desta área do conhecimento. Todavia, o autor cinge-se
a duas questões transversais: Qual o conjunto de princípios dominantes
de uma produção textual? O que se deve examinar e ao que se deve
dar autoridade? Para o ajudar na resposta a estas perguntas, apoia-se
na seguinte citação: “O texto é um sistema actualizado de escolhas
extraído de sistemas virtuais entre os quais a língua é o sistema mais
importante” (Beaugrande, 1997: 11).
Ainda na esteira de Beaugrande, Marcuschi procura desenvolver
e apreender os seguintes aspetos: o texto é entendido como um vínculo
entre vários recursos; o texto é edificado assente em elementos
linguísticos e não-linguísticos; o texto não é uma ação solitária; o texto
forma-se sob diferentes elementos, tendo como obrigação ser
administrado por todos esses aspetos multifuncionais: “Opor texto escrito
a discurso oral reduz a distinção ao suporte ou meio e dissimula o facto
de que um texto é, na maioria das vezes, plurisemiótico” (Charaudeau
& Maingueneau, 2006: 466).
O autor conclui que será necessário aferir como é que toda esta
dinâmica no decurso sociointerativo depreende a qualidade
sociocomunicativa e como se poderá torná-la mais eficaz, uma vez que
os falantes aprendem a língua desde a infância, e também como
conseguem adquirir unanimidade sobre o que falam até ao fim da vida
e de um modo que, de tão natural, se torna fascinante, dado que
somos possuidores dessa aptidão de forma intrínseca.
Em suma, o trabalho desenvolvido pelo autor é fundamental
para se entender toda a essência e implicações que uma ocorrência
comunicacional impõe. A forma como fez a analogia entre texto e um
37
Recensão crítica
Sílvia Vasconcelos
jogo teve o efeito de tornar este tema acessível ao(s) leitor(es), mesmo
àquele(s) que não possua(m) um conhecimento profundo sobre a
noção de texto e o trajeto da linguística de texto. Uma obra a ler por
quem se interessar por este tema.
38
Recensão crítica
Teresa Palma
Recensão crítica por Teresa Palma
O texto para objeto de recensão crítica consiste numa parte de um
capítulo integrado numa obra sobre produção textual e géneros
textuais no ensino de língua, cujo objetivo é apresentar um conjunto de
reflexões sobre as noções de língua, texto e género textual, à luz da
perspetiva sociointeracionista da língua.
O texto, intitulado "Noção de texto e linguística de texto”, divide-
se em sete partes, através das quais se pretende explorar a noção de
texto no âmbito da linguística de texto, tendo em conta as perspetivas
de vários autores.
Na primeira parte, Marcuschi define, em traços gerais, o conceito
de texto (oral e escrito), como um fenómeno linguístico que extrapola o
domínio da frase e se apresenta como uma unidade de sentido, um
objeto estruturado e uma entidade comunicativa que, não sendo um
mero decalque do mundo, é produto linguístico, social e cognitivo,
resultante do contacto e circulação neste. Esta definição, apoiada em
Beaugrande (1997), que é esmiuçada adiante, serve de sustentáculo
ao estudo da produção textual, baseado na abordagem
sociodiscursiva.
Na segunda parte, é apresentada uma breve panorâmica da
história da linguística de texto (LT), desde os seus primórdios até à
atualidade, sendo também traçada a sua definição e a evolução dos
seus interesses e objeto de estudo. O autor começa por referir que a LT
incide a sua abordagem no domínio da produção e análise dos textos
escritos e orais, podendo esta ser entendida como o estudo dos atos de
natureza linguística, discursiva e cognitiva que norteiam a produção de
textos, que são unidades de sentido não formais, em diferentes
contextos de utilização. Nesta parte, Marcuschi menciona ainda que,
se inicialmente havia a pretensão de desenvolver uma gramática que
definisse normas para a produção textual, hoje essa ideia é recusada,
considerando-se irrealista traçar, para cada género textual, regras
Teresa Palma é
licenciada em
Estudos Portugueses,
mestre em Ciências
da Informação e da
Documentação e
pós-graduada em
Português Língua
Segunda e
Estrangeira pela
Faculdade de
Ciências Sociais e
Humanas da
Universidade NOVA
de Lisboa.
Atualmente,
frequenta o
Mestrado em Ensino
de Português no 3.º
Ciclo do Ensino
Básico e no Ensino
Secundário na
mesma instituição.
Leciona Português e
Português Língua
Não Materna no
Colégio do Sagrado
Coração de Maria,
Lisboa, desde 2015,
onde também
exerce funções de
bibliotecária e
arquivista.
39
Recensão crítica
Teresa Palma
específicas e rígidas. Assim, os critérios de produção, de acordo com a
teoria textual, serão essencialmente princípios norteadores e sugestivos.
Numa terceira parte, o autor procura delimitar as fronteiras da LT
e do respetivo objeto de estudo. Começa por distingui-la dos estudos
literários, da retórica e da estilística, situando-a no campo da linguística,
dentro do qual assume uma abordagem interdisciplinar e se vale de
vários métodos, sendo assim hoje considerada o instrumento
privilegiado para o estudo da língua em contexto escolar e para a
construção de manuais. O autor questiona ainda o lugar do texto nos
estudos linguísticos, invocando teorias de autores, como Saussure (1916)
e Chomsky (1965, 1986), que se debruçaram sobre o estudo do sistema
virtual da língua. Segundo estas teorias, a LT estaria excluída do estudo
da língua num sentido restrito, uma vez que esta se interessa pelo estudo
desse sistema em diferentes situações de utilização, assim como pela
exploração do sentido, enquanto reflexo do funcionamento da língua
em diferentes contextos, em detrimento do conteúdo.
Na quarta parte, Marcuschi, partindo do pressuposto de que não
existe apenas uma LT, elenca diferentes posições preconizadas pelas
várias vertentes da LT, entre as quais se destacam as seguintes: interesse
pelo funcionamento da língua em contextos de uso; abordagem da
língua que privilegia os processos sociocognitivos; interesse pela relação
de enunciados, pelo sentido, pelos processos de compreensão, pelas
diferenças entre géneros textuais e pela linguagem em diversos
contextos; foco na relação entre a produção e a utilização dos textos.
Na quinta parte, é explorado o domínio empírico da LT. É exposta
a ideia de que a perspetiva adotada na análise de textos, apesar de
contemplar aspetos de ordem linguística, tem em conta os contextos
comunicativos, pois a língua não está desligada da sociedade. A
perspetiva adotada pela LT baseia-se então em elementos recolhidos a
partir do mundo real, pois trabalha com textos que funcionam em
sociedade. Neste sentido, é mencionado que uma abordagem da
língua portuguesa, baseada na LT, extrapolaria o processo de ensino-
aprendizagem de regras de construção de sequências linguísticas,
40
Recensão crítica
Teresa Palma
focando também o contexto de produção e a utilização no quotidiano.
Nesta parte, Marcuschi retoma a ideia de texto enquanto unidade
comunicativa e de sentido que ocorre, simultaneamente, nos planos do
sistema linguístico e do uso ambos cruciais na produção textual.
Privilegiando a visão sociointerativa, desenvolve ainda a conceção de
texto na perspetiva da enunciação, transmitindo, a partir do exemplo
metafórico da produção textual como jogo coletivo, a ideia de que a
produção de texto envolve um processo interlocutivo, ou seja,
pressupõe um eu (produtor), um tu (recetor) e uma situação discursiva.
Na sexta parte, o autor levanta um problema que se prende com
as normas para a produção textual, pois, apesar de não se defender o
cumprimento de regras rígidas, conforme é mencionado em momentos
anteriores, reconhece-se a importância de seguir determinadas normas
para que a compreensão da mensagem do texto não seja
comprometida. Assim, aquando da produção dos textos, deverão ser
tidos em conta os interlocutores aos quais os enunciadores se dirigem e
o propósito para o qual são produzidos problema que, de acordo com
o autor, se verifica nas redações escolares, em que não há uma clara
definição do interlocutor ao qual o aluno se deve dirigir, o que
condiciona o uso da linguagem. É neste sentido que Marcuschi coloca
um conjunto de questões de modo a expressar a complexidade da
problemática inerente às normas de produção, incitando o leitor à
reflexão e elucidando-o de que não é sua pretensão esclarecê-las a
todas. Posteriormente, foca-se num problema relacionado com os
sistemas de controlo da produção textual e justifica que os princípios da
textualidade, definidos por Beaugrande e Dressler (1981), não
correspondem a regras de produção textual. Porém, assume, na esteira
de Beaugrande (1997), o texto enquanto ato de comunicação em que
na sua produção estão implicadas escolhas feitas por parte do leitor ou
falante, baseadas no sistema virtual da língua. A partir desta conceção,
Marcuschi menciona ainda que o texto é um evento comunicativo e
não uma mera sequência de palavras, destacando a sua riqueza e
41
Recensão crítica
Teresa Palma
complexidade, que pressupõe, por exemplo, a conexão entre vários
elementos (sons, palavras, significações, etc.).
Na sétima parte, o autor destaca, por fim, a dimensão
sociointerativa da língua, recorrendo ainda a Beaugrande (1997). É
referida a capacidade de o ser humano comunicar e se entender em
situações muito diversas, o que se justifica pela partilha de uma língua,
enquanto um sistema em permanente interação com os
conhecimentos que cada indivíduo tem sobre o mundo. Partindo da
ideia da preexistência de uma competência textual-discursiva, o autor
menciona que não cabe particularmente à LT ensinar algo, mas sim
deslindar a engrenagem do sistema e contribuir para o seu
funcionamento.
O texto que foi objeto de recensão apresenta-se como um
importante contributo para a compreensão da noção de texto e de
linguística textual, ainda que, na minha opinião, a linguagem utilizada
nem sempre seja acessível para leitores iniciantes no estudo destas
matérias. Tomando como exemplos outros autores que se debruçaram
sobre estas temáticas, nomeadamente Azeredo (2008), Charaudeau e
Maingueneau (2006) ou Mendes (2013), reconhece-se que o estudo de
Marcuschi explora a noção de texto de forma mais reflexiva, minuciosa
e, por vezes, exaustiva. No entanto, carece de exemplos que
contribuam para a compreensão dos conceitos, como oportunamente
o faz Mendes (2013). Considero ainda que o estudo de Marcuschi é
particularmente interessante e útil para os leitores mais atentos às
questões do ensino-aprendizagem da língua materna terreno onde o
texto poderá ser utilizado como uma importante matéria-prima.
Parte II
Texto e sociedade
43
Práticas de texto: entre processo e produto
Matilde Gonçalves, Marta Fidalgo & Noémia Jorge
Práticas de texto: entre processo e produto
Matilde Gonçalves, Marta Fidalgo & Noémia Jorge
A unidade curricular Linguística do Texto, integrada na licenciatura em
Ciências da Linguagem da Universidade NOVA de Lisboa, visa o
desenvolvimento de aprendizagens no âmbito da descrição da
organização macro, meso e microtextual, com base na observação e
na análise de textos que circulam em sociedade e em diversas
atividades de linguagem (académica, científica, jornalística,
publicitária, quotidiana). Essas aprendizagens incidem, igualmente, no
uso da língua em função dos textos e dos diversos contextos de
produção e circulação e, consequentemente, promovem o
conhecimento a ser aplicado, no futuro, em situações profissionais
diversificadas, tais como o ensino das línguas, a edição de textos ou
ainda a redação de textos para fins específicos. São constitutivos dos
objetivos da Linguística do Texto os seguintes pontos:
dominar instrumentos adequados para a descrição dos
contextos de produção textual (contexto físico e contexto
sociossubjetivo);
descrever os diversos níveis de textualidade (macro, meso e
micro) e os recursos linguísticos mobilizados em cada nível;
manipular instrumentos adequados para a descrição da
arquitetura interna dos textos (infraestrutura geral,
mecanismos de textualização e mecanismos de
responsabilização enunciativa);
analisar a arquitetura interna de textos de géneros
diferentes no interior de um mesmo tipo de atividade ou
associados a atividades diversificadas (académica,
publicitária, jornalística, didática, jurídica, etc.).
44
Práticas de texto: entre processo e produto
Matilde Gonçalves, Marta Fidalgo & Noémia Jorge
O alcance dos objetivos apresentados pauta-se pelo conteúdo
programático, que a seguir se apresenta de forma sintetizada:
Modelada por uma abordagem heurística (Coutinho, 2017), a
articulação entre os objetivos e os conteúdos motiva uma metodologia
que implique as discentes no próprio processo de aprendizagem, tendo
como ponto de partida quer os textos que circulam em sociedade, quer
as temáticas que possam interessar às estudantes. Esta abordagem
heurística sustenta-se, numa primeira fase, na observação e na intuição
das discentes relativamente à organização textual nos seus diversos
níveis, e, num segundo momento, é sustentada (ou alterada) pela
docente com os instrumentos de análise desenvolvidos no âmbito da
Linguística do Texto e do Discurso, enquadrados em particular pelo
interacionismo sociodiscursivo (Bronckart, 1997). Sublinhe-se que essas
observações suportadas por instrumentos de descrição e análise, para
além de darem validade científica e enquadrarem a reflexão, guiam o
próprio percurso de análise das estudantes.
Nível macrotextual
Noção de texto
Implicações entre atividades de linguagem, géneros e boa
formação textual
Influência dos contextos físico e sociossubjetivo na
produção textual
Arquitetura textual e os seus diversos níveis
Planos de texto
Nível mesotextual
Tipos de discurso
Sequências prototípicas
Outras unidades não tipificadas
Nível microtextual
Mecanismos de organização textual
Mecanismos de coesão nominal e verbal
Mecanismos de responsabilidade enunciativa
45
Práticas de texto: entre processo e produto
Matilde Gonçalves, Marta Fidalgo & Noémia Jorge
No que diz respeito às atividades desenvolvidas ao longo da UC
Linguística do Texto 18|19, centradas na natureza dos textos, nas
diversas configurações que podem assumir, no(s) modo(s) como
circulam em sociedade, foi seguido metodologicamente um percurso
marcado por duas etapas: a primeira, maioritariamente prático-teórica,
baseou-se na observação, discussão e análise de textos concretos
(selecionados pelas discentes, e pela docente); a segunda,
essencialmente prática, teve como objetivo foi a realização do trabalho
final, com o planeamento, a formulação de ideias (conteúdo), a
textualização (escrita), a revisão e a reescrita. Nesse trabalho final,
solicitou-se às discentes uma análise de textos, empíricos e atestados,
em que discutissem as relações entre as atividades de linguagem, os
formatos textuais (ou géneros) e os mecanismos de textualização,
recorrendo aos instrumentos de análise apresentados e utilizados ao
longo do semestre. A escolha deste tipo de trabalho prendeu-se com o
desenvolvimento de aptidões para: 1) descrever e compreender como
funcionam os textos em sociedade; 2) tomar consciência das diversas
etapas de textualização; 3) apropriar(-se) do conhecimento (científico);
4) desenvolver um ponto de vista crítico, sustentado cientificamente,
com vista à sua reutilização no âmbito profissional.
Descrevem-se, a seguir, de forma mais pormenorizada, as etapas
que delinearam o trabalho das discentes. A partir dessa descrição,
elaborar-se-á uma reflexão em torno do dinamismo que envolve a
textualização, a saber o facto de um texto ser simultaneamente produto
e processo.
O texto como produto e processo
No âmbito da unidade curricular, as discentes foram
confrontadas com alguns desafios propostos pela docente,
naturalmente relacionados com práticas textuais efetivas, no sentido de
se apropriarem de modelos que serão necessários ao longo do seu
46
Práticas de texto: entre processo e produto
Matilde Gonçalves, Marta Fidalgo & Noémia Jorge
percurso académico. Assim, numa primeira fase, as estudantes
começaram por apresentar um trabalho oral às restantes colegas de
turma, trabalho esse que incluiu igualmente a elaboração de uma
breve esquematização, em formato PowerPoint, que serviu de suporte
à apresentação. Num segundo momento, foi-lhes solicitado que
procedessem à transposição do seu trabalho oral para um texto escrito,
no qual poderiam também incorporar os comentários e observações
que a docente e as colegas lhes haviam dirigido, com o intuito de
potenciar os eventuais efeitos desta interação entre pares. Desta forma,
foi possível obter dois conjuntos de trabalhos, isto é, dois conjuntos de
produtos textuais, apresentados nas páginas XX.
Esta experiência de construção textual faseada teve como
objetivo envolver as estudantes na relação dinâmica que se estabelece
entre as modalidades de uso da língua oralidade e escrita , na
medida em que os dois produtos textuais se complementam e estão
relacionados entre si numa espécie de continuum textual (cf.
Marcuschi, 1997: 132), não devendo, por isso, ser perspetivados como
polos opostos. Concomitantemente, por resultarem de etapas
processuais diferentes, esses produtos possuem características
igualmente distintas, pelo que houve a preocupação de trabalhar esses
dois processos, designadamente a textualização e a retextualização. Se
o primeiro exercício exigiu maior capacidade de sistematização, até
para respeitar o tempo definido para a apresentação oral em contexto
de aula, o segundo implicou a confrontação do texto inicial (subjacente
à apresentação oral) com textos de outros autores, assim como um
maior posicionamento crítico por parte das estudantes. Não obstante,
apesar de distintas, ambas as tarefas obrigaram a uma planificação
prévia e a uma produção controlada, para que os textos cumprissem o
seu propósito comunicativo, permitindo às estudantes refletir sobre as
regularidades linguísticas, textuais e discursivas dos textos produzidos e
potenciando o seu desenvolvimento pessoal e académico através da
prática dos géneros textuais em causa.
47
Práticas de texto: entre processo e produto
Matilde Gonçalves, Marta Fidalgo & Noémia Jorge
Neste sentido, perspetivar as práticas textuais enquanto
atividades propiciadoras do desenvolvimento humano permite
considerar cada texto na sua dupla dimensão, isto é, como processo e
como produto. Diversos são os autores que focam esse dinamismo.
Plane et al. (2010) distinguem o texto e o texto em devir e refletem sobre
os constrangimentos que exerce o texto já produzido no texto em devir,
propondo uma metodologia que encare a temporalidade redacional
para “comprendre comment le texte déjà produit et le texte à venir
peuvent interagir, voire parfois interférer l’un avec l’autre” (2010: 7).
Cislaru e Olive (2018) evocam a necessidade de trabalhar as
articulações entre o processo (da textualização) e o texto (enquanto
produto), tendo em conta a Linguística do Texto e a Psicolinguística da
escrita.
No que se refere ao nosso trabalho, e tendo em conta o objetivo
de aprendizagem da descrição da organização textual nos seus
diversos níveis, com base na observação e na análise de textos que
circulam em sociedade, interessa sustentar o que se entende por texto.
Na continuidade dos trabalhos de Coutinho (2003, 2006, 2017),
assumimos texto como uma unidade de comunicação global, empírico,
circulando nas e pelas atividades de linguagem, que segue as regras
organizacionais dos modelos (os géneros) por que se rege. Dentro deste
quadro, sendo uma unidade de comunicação, o texto é encarado
como produto. Numa outra vertente, coincidente com a primeira, um
texto insere-se sempre num fluxo contínuo e dialógico (Voloshinov,
1981), fluxo esse materializado e semiotizado pelo processo de fazer
texto a textualização.
Retomando o contexto formativo e académico no qual se insere
esta reflexão, para produzir um texto e alcançar a qualidade textual
desejável, torna-se imprescindível a deslocação da atenção do
produto (texto) em direção à do processo (textualização) ou seja, dos
conhecimentos declarativos (os saberes sobre) aos conhecimentos
processuais (o saber-fazer, a ação), tal como preconiza Alamargot
48
Práticas de texto: entre processo e produto
Matilde Gonçalves, Marta Fidalgo & Noémia Jorge
(2013: 146). Apropriando-nos e transpondo a reflexão de Vygotsky
referente à mudança do oral para o escrito, na qual se evidencia a
passagem do “plano inconsciente e automático” para “um plano
voluntário intencional e consciente” Vygotsky (2007: 261), acreditamos
que o deslocamento do produto para o processo possibilita essa
passagem do plano inconsciente ao consciente.
Ainda no âmbito das práticas efetivas de texto, é igualmente
premente o retorno do processo ao produto, num movimento perpétuo
e dialético, entre o saber e o fazer, no qual o texto não é mais uma
forma de comunicar e veicular informação, mas sim uma ferramenta de
construção do conhecimento humano (Bronckart, 1997, 2008;
Gonçalves & Magalhães, 2019).
Referências bibliográficas
Alamargot, D. (2013). Du produit rédigé au processus
rédactionnel: vers la nécessaire interdisciplinarité. Le français
aujourd'hui, 181(2), 145-151. doi:10.3917/lfa.181.0145.
Bronckart, J.-P. (1997). Activité langagière, textes et discours. Pour
un interactionnisme socio-discursif. Lausanne: Delachaux et Niestlé.
Bronckart, J.-P. (2008). Genre de textes, types de discours, et
“degrés” de langue. Texto!, XIII (1). Disponível em www.revue-
texto.net/index.php?id=86
Cislaru, G. & Olive, T. (2018). Le processus de textualisation:
Analyse des unités linguistiques de performance écrite. Paris: DeBoeck
Supérieur.
Coutinho, M. A. (2003). Texto(s) e competência textual. Lisboa:
FCT/FCG.
Coutinho, M. A. (2006). O texto como objecto empírico:
Consequências e desafios para a linguística. Veredas, 10(1-2), 1-13.
49
Práticas de texto: entre processo e produto
Matilde Gonçalves, Marta Fidalgo & Noémia Jorge
Disponível em
https://periodicos.ufjf.br/index.php/veredas/article/view/25234
Coutinho, M. A. (2017). Da natureza heurística da Teoria do Texto.
Investigações, 30(2), 153-172. Disponível em
https://periodicos.ufpe.br/revistas/INV/article/view/231381
Gonçalves, M., & Magalhães, M. (2019). Corpus e géneros textuais
nas práticas de divulgação de ciência ou as novas hierarquias na
construção do conhecimento. Revista da Associação Portuguesa de
Linguística, (5), 145-157. Disponível em https://doi.org/10.26334/2183-
9077/rapln5ano2019a11
Marcuschi, L. A. (1997). Oralidade e escrita. Signótica, 9, 119-145.
Plane, S., Alamargot, D. & Lebrave, J. (2010). Temporalité de
l'écriture et rôle du texte produit dans l'activité rédactionnelle.
Langages, 177(1), 7-28. doi:10.3917/lang.177.0007
Voloshinov, V. N. (1981). La structure de l'énoncé. In T. Todorov
(Ed.), Mikhaïl Bakhtine, le principe dialogique. Suivi des Écrits du Cercle
de Bakhtine (pp. 287-316). Paris: Seuil.
Vygotsky, L. ([1934] 2007). Pensamento e linguagem. Lisboa:
Relógio d’Água Editores.
50
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da
youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
Introdução
Este portefólio foi feito no âmbito da cadeira Linguística do Texto,
lecionada pela professora Matilde Gonçalves no ano letivo 2018/2019.
Neste trabalho, vão ser analisados 3 vídeos da youtuber portuguesa
Mariana Cabral, mais conhecida como Bumba na Fofinha, que define
o seu humor como uma “fusão”: “É um humor de fusão. Como aqueles
buffets chineses especializados em tudo baratucho, potencialmente
indigesto, mas por 7,50€ enche-se o bandulho com sushi, burritos e
maminha no churrasco. No fundo, é um humor 360°, híbrido, eclético e
todos aqueles vocábulos que começam em “multi” e acabam em “al”
e que querem dizer quase tudo sem significarem quase nada. O meu
humor é tudo isto e muito mais.”
Mariana Cabral define-se como Moçoila em idade casadoira,
com estudos e uma boa anca (uma “anca parideira”, diria a minha
avó, perante as mais variadas audiências) boa para uma ninhada.
Estes vídeos, que têm como objetivo ridicularizar um tema do
quotidiano, vão ser estudados, tendo em conta os níveis contextual e
textual, e, também, vai ser feita uma abordagem sobre os elementos
linguísticos comuns e singulares utilizados nos vídeos.
Enquadramento teórico
O trabalho aqui apresentado tem como objetivo analisar os
traços linguístico-textuais, comuns e particulares, de três vídeos de uma
youtuber portuguesa, tendo em conta o contexto de produção, que se
refere ao conjunto de fatores (referentes ao mundo físico e/ou social)
que influenciam o modo como um texto se organiza (Leal & Gonçalves,
2007), bem como o modelo da arquitetura interna dos textos (Bronckart,
Beatriz Zorro,
estudante da
Universidade NOVA
de Lisboa, na
Faculdade de
Ciências Sociais e
Humanas, está de
momento a
frequentar a
licenciatura em
Ciências da
Linguagem e
pretende continuar
a enveredar por
essa área.
51
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
[1997]1999, 2006), a partir do qual são analisados o plano de texto, os
mecanismos de textualização e os mecanismos enunciativos (Bronckart,
[1997]1999).
No que se refere ao contexto de produção, serão analisados,
sucintamente, os parâmetros físicos (produtor e recetor) e
sociossubjetivos (finalidade) (Leal & Gonçalves, 2007). ao nível da
arquitetura interna do texto, será dada ênfase à linguagem utilizada,
aos tipos de discurso (ordem do expor e do narrar) (Bronckart,
[1997]1999). Além disso, serão observados certos mecanismos discursivos
utilizados, como a sátira, a paródia, a polifonia (Ducrot, 1984) e o
dialogismo (Voloshinov, 1977).
Análise textual
No trabalho que se segue, e como já referido na introdução, são
analisados 3 vídeos da youtuber portuguesa Mariana Cabral, que têm
os seguintes títulos: “Temos mesmo de nos beijar?”, “As mentiras que
dizemos no Natal”, “10 mandamentos para ver séries”.
Cada vídeo vai ser analisado individualmente, tendo em conta
os parâmetros de análise referidos anteriormente.
Primeiramente, vai ser feito um levantamento dos parâmetros
que todos os vídeos têm em comum, seguindo-se a apresentação
individual de cada vídeo, considerando os parâmetros que os
distinguem.
Parâmetros comuns
Em todos os seus vídeos, Mariana Cabral apresenta factos ou
eventos do quotidiano. O contexto de produção (físico e
sociossubjetivo) tem uma repercussão decisiva no teor dos vídeos, em
particular a identidade social da produtora. Conhecida como Bumba
na Fofinha, Mariana Cabral é uma jovem humorista portuguesa com o
52
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
devido reconhecimento, sobretudo nas redes sociais (Facebook) e nas
plataformas de partilha de vídeos (YouTube). Por outro lado, sendo
Bumba na Fofinha a produtora destes vídeos, que são publicados na
plataforma YouTube, os recetores serão os visualizadores destes vídeos.
Podem, ou não, subscrever o canal da youtuber e comentar, ou não,
os seus vídeos através da plataforma.
O segundo outro traço comum, merecedor de destaque, refere-
se ao objetivo comunicativo (ou finalidade) dos vídeos. A produtora
perspetiva o quotidiano através de um olhar cómico, fazendo paródias
sobre determinados temas do dia-a-dia. Numa primeira análise, pode-
se pensar que os seus vídeos são feitos através de humor com efeito
satírico, no entanto a sátira nem sempre é de carácter cómico,
podendo chegar a ser trágica. A paródia, por sua vez, tem sempre o
objetivo de ridicularizar um determinado tema (Marta, 2015). Tendo em
conta a diferenciação entre a sátira e a paródia, o humor construído
por Bumba na Fofinha é de caráter paródico.
Outro aspeto em comum, que, de facto, não se altera em
nenhum dos vídeos, é a linguagem caricata que Mariana Cabral utiliza.
Começando todos os seus vídeos com “Oi, malta. Daqui é a Bumba na
Fofinha” e, ainda em alguns, acrescentando “Tiveram saudades
minhas?”, Mariana Cabral cria um ambiente informal, caracterizado
pela sua linguagem, pelos temas abordados e até mesmo pelo modo
como os vídeos são feitos (através expressões faciais e físicas cómicas,
o facto de a cara da youtuber estar sempre em primeiro plano, dando,
assim, a entender que está a ter uma conversa coloquial com os seus
visualizadores).
O último parâmetro comum dos vídeos diz respeito à presença e
à interação de diversas vozes nos textos. A polifonia (Ducrot, 1984) e o
dialogismo (Voloshinov, 1977), noções relevantes no âmbito da
linguística do texto e do discurso, são ferramentas que evidenciam esse
fenómeno de pluralidade das vozes. Pela polifonia, é possível
compreender a convocação de enunciadores diferentes, em
53
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
consonância ou dissonância com a da youtuber. De facto, Bumba
assume o “papel” de várias pessoas, como, por exemplo, no seu vídeo
“Bumba na Fofinha e as mentiras que dizemos no Natal”, no qual
interpreta o papel de mãe, filha e até pai e avô, recorrendo a
elementos paralinguísticos, tais como a mudança de voz, de mímica e
de conteúdo. Pela utilização de exemplos e de recortes de discurso de
outras pessoas, ou até mesmo dela, e daquilo que observa no seu dia-
a-dia, marcados nos seus vídeos pela mudança de imagem a cores
para preto e branco, ou até pela mudança de voz, observa-se,
igualmente, a presença do dialogismo, fenómeno constitutivo de todas
as atividades de linguagem, nas quais se recupera, se repete e se
apropria o que foi dito anteriormente, evidenciando, deste modo, que
o dito se situa num fluxo contínuo de interações.
Conclui-se assim que o dialogismo é um mecanismo constante,
e, por outro lado, a criação da polifonia é o objetivo desta youtuber. A
presença de várias vozes, que a partir da interpretação que Mariana
Cabral faz, cria um ambiente, no qual o efeito cómico é acentuado,
permitindo ao visualizador “rever-se” no que está a ser dito (Barros,
1997).
Parâmetros particulares
Vídeo 1 Temos mesmo de nos beijar?
54
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
Imagem 1: extraída do vídeo Temos mesmo de nos beijar?; disponível em:
https://youtu.be/13FlFPmhfwE
Bumba na Fofinha começa este vídeo com uma pequena
introdução, dizendo que “o tema de hoje são os beijos”. De seguida,
comenta a sua perspetiva: não é uma pessoa que valorize o contacto
físico indesejado com pessoas que não conhece. Neste segmento, é
utilizada a ordem do expor implicado, que se caracteriza
predominantemente pela presença de formas verbais no presente do
indicativo “começa”, “puxa-nos” e com a presença pontual do
pretérito imperfeito “achávamos”, “íamos” e do pretérito perfeito
composto “tenham gostado”, marcando um valor de conjunção
temporal e continuidade, em relação à temporalidade da situação de
produção e, também, pela implicação do produtor nas ações
verbalizadas: “Eu confesso que sou uma pessoa que não aprecia
contacto físico indesejado com pessoas”.
De seguida, inclui os visualizadores no seu discurso continuando
na ordem do expor implicado; no entanto, fá-lo com marcas da 3.ª
pessoa do plural: “Se pensarem bem, se nós cumprimentarmos todos os
nossos colegas de trabalho de beijinho todos os dias”, “depois ficamos
no abraço demasiado tempo”. Continuamente utiliza a ordem do expor
implicado.
55
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
Neste vídeo, também são utilizados alguns estrangeirismos, como,
por exemplo: “Man, isto é um beijo de bom dia.”, say what?” e gíria,
caracterizada por ser um tipo de linguagem de carácter popular: “até
invejo os países nórdicos que se cumprimentam sempre de bacalhau”.
Vídeo 2 As Mentiras que dizemos no Natal
Imagem 2: extraída do vídeo As Mentiras que dizemos no Natal; disponível
em: https://youtu.be/xs-UK_lgITU
Neste segundo vídeo, Mariana Cabral tem como objetivo
reproduzir as mentiras mais caricatas que são ditas durante a época
natalícia.
Começa por fazer uma pequena introdução do tema, estando
presente a ordem do expor implicado marcado pela presença da 1.ª
pessoa do plural: “somos todos boas pessoas, mas aqui entre nós, é o
dia em que mais mentiras dizemos por minuto (…)”. No entanto, quando
a introdução acaba, não existem mais marcas da 1.ª pessoa do plural,
passando a existir marcas da 1 pessoa do singular “Não estou
56
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
nada bêbeda, estou alegre” e também referência à 3.ª pessoa do
singular “A tua filha não está gorda. Está só assim cheiinha.”.
Este segundo vídeo caracteriza-se também pela presença de
elementos não verbais: a youtuber enumera, neste caso, cada mentira
e essa enumeração é visível no vídeo.
Vídeo 3 10 mandamentos para ver séries
Imagem 3: extraída do vídeo 10 mandamentos para ver séries; disponível em:
https://youtu.be/H0aw8k9umKk
Neste vídeo, a youtuber não faz qualquer tipo de introdução,
passando diretamente aos “10 mandamentos”, parodiando o
Decálogo, livro bíblico pertencendo ao Antigo Testamento. Estes são
marcados no vídeo por elementos não verbais, ou seja, são
enumerados e, para além da enumeração, também é visível o “tópico”
que irá ser abordado nesse mandamento.
A forma verbal no futuro do indicativo, bem como as frases
declarativas são fortemente usadas ao longo deste vídeo “Não verás;
Não adormecerás; Não criticarás”, "Não taparás os olhos em nenhum
57
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
momento. Nem quando um crânio humano se desfizer à tua frente”,
construindo deste modo a ordem do expor implicado.
Também, neste vídeo, são utilizados alguns estrangeirismos como:
“(…) a girl has no name (…)”, “(…) Do not spoilerate (…)”, “(…) You know
nothing, John Snow”, e ainda termos do calão.
Considerações finais
A partir deste trabalho, compreende-se que, para a realização
de um vídeo, são utilizados diversos mecanismos textuais e discursivos,
tais como a polifonia, o dialogismo, a paródia, bem como mecanismos
não linguísticos, a saber o tom de voz, as expressões faciais, a
alternância entre da imagem do vídeo a cores e a preto e branco.
Bumba na Fofinha, jovem youtuber portuguesa, parodia factos e
eventos do quotidiano, a partir dos diversos mecanismos evidenciados
ao longo deste trabalho. Pelo humor e pela paródia, é possível a cada
visualizador rever-se numa dada situação, criando assim uma relação
de proximidade entre a humorista e o público. A esfera informal e
coloquial, que se prende com a sua imagem enquanto youtuber,
contribui indubitavelmente para essa proximidade.
Corpus
Cabral, M. 2016. Bumba na Fofinha e As mentiras que dizemos no
Natal
Cabral, M. 2017. 10 Mandamentos para ver séries
Cabral, M. 2017. Temos mesmo de nos beijar?
58
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
Referências Bibliográficas
Barros, D. L. P. (1997). Contribuições de Bakhtin às teorias do
discurso. In B. Brait (Ed.) Bakhtin, dialogismo e construção do sentido (pp.
25-36). Campinas, SP: Editora da Unicamp.
Bronckart, J.-P. (1999). Atividade de linguagem, textos e discursos:
por um interacionismo sociodiscursivo. São Paulo: EDUC.
Bronckart, J.-P. (2006). Atividade de linguagem, discurso e
desenvolvimento humano. Campinas : SP: Mercado das Letras.
Ducrot, O. (1984). Le dire et le dit. Paris: Minuit.
Leal, A. & Gonçalves, M. (2007). "Géneros ficcionalizados e
identidade de género". In A. Bonini, D. C. Figueiredo, F. J. R. (Eds) Atas
do SIGET, Tubarão Santa Catarina. ISSN 1808-7655. (pp. 696-707).
Disponível em:
http://linguagem.unisul.br/paginas/ensino/pos/linguagem/eventos/cd/
Port/25.pdf
Marta, E. (2015). Paródia vs sátira. Consultado a maio 7, 2019, em
https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/parodia-vs-
satira/30088
Voloshinov, V. N. ([1929] 1977) Le marxisme et la philosophie du
langage. Paris: Minuit.
Anexo - Transcrição da componente verbal dos vídeos
analisados1
Nota: A transcrição, aqui apresentada, corresponde a um recorte dos
vídeos. A escolha recaiu sobre as partes mais relevantes para a análise
linguística e textual.
1O símbolo “*”
(asterisco) indica que
o que a youtuber disse
não foi percetível.
59
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
Vídeo 1 - Temos mesmo de nos beijar?
Oi, malta, daqui é a Bumba na Fofinha. O tema de hoje são os
beijos.
Eu confesso que sou uma pessoa que não aprecia contacto físico
indesejado com pessoas que, portanto, não conheço ou com quem
não tenho intimidade e neste pequeno pormenor eu até invejo os países
nórdicos que se cumprimentam sempre de bacalhau.
“‘Tá tudo bem ou quê?”
“Que nojo…”
Se pensarem bem, se nós cumprimentarmos todos os nossos
colegas de trabalho de beijinho todos os dias [e se as colegas não se
chamarem * ou Carlota, repararam que para falarem à tia basta
fingirem que têm dois fios a puxar os cantos da boca, têm de ter assim
o braço desmaiado (isto foi super creepy, não foi?)]
Portanto vamos dar pelo menos um beijinho em cada bochecha,
que dois por dia, cinco vezes por semana, o que se acaba quase
por traduzir em 600 beijos por ano.
E se trabalhares numa empresa grande e multiplicarmos pelos
nossos 400 colegas, dá sensivelmente cerca de 212797 mil beijos.
‘Tão proibidos de me perguntar como é que eu fiz as contas,
porque nem eu sei!
Acaba por ser mais beijos do que aqueles que nós realmente
queremos dar às pessoas de quem gostamos e escolhemos beijar, não
é o vosso namorado, marido, amante.
* pessoas que têm imensa intimidade connosco, porque nos
tocam inusitadamente durante a conversa. Aquela malta que, em vez
de fazer o simples encosto de cara, vira a cabeça para ficar mesmo
perpendicular à nossa bochecha e mandar mesmo assim os lábios
diretamente.
Ou pior, aqueles colegas que não dão beijos dizem-nos “Muah,
muah” e às vezes achávamos que íamos ter um beijo completamente
desprovido e * mas de repente a pessoa começa a fazer-nos festas no
60
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
ombro, puxa-nos pelo nosso pescoço, man isto é um beijo de bom dia,
não um linguado, ou faz coceguinhas, ou, pior ainda, beliscões. Malta,
não é aceitável beliscar pessoas. Não interessa se o vosso parceiro vos
deixa beliscar os mamilos, por favor não belisquem os outros.
E aquele colega que insiste no abracinho, depois ficamos no
abraço demasiado tempo, e diz expressões tipo: “que bom, abracinho
bom.” E nós não sabemos o que havemos de fazer, ficamos tipo a dar
palmadinhas awkward nas costas dele.
Mas pior dos piores são aqueles colegas que produzem muito
mais saliva do que é aceitável no ser humano, então acumulam-na aqui
nos cantinhos da boca, fica tipo assim uma concentração de espuma
e que muitas vezes forma uma estalactite e uma estalagmite de cuspo,
que se unem no meio e formam ponta elástica que se abre tipo
acordeão quando ele fala.
Eu sou aquela pessoa que às vezes tenta entrar num grupo cheio
de gente e dizer o famoso “Olá geral”: “Olá, tudo bem?” “não se
levantem, não se levantem”. Eu juro que tento. Mas há sempre um gajo
no escritório que é um beijoqueiro em série, não sei, ele é carente, faz
questão de vir ter connosco para reclamar o seu beijo TODOS OS DIAS.
E mesmo sem ser beijos, às vezes até o próprio passou-bem é assim
suadinho, e nós não estamos à espera e de repente damos o passou-
bem e parece que tamos a agarrar num sabonete de lampreia mole.
Às vezes até escorrega assim.
Ou então aquela malta que fala connosco a dar-nos festas como
se fôssemos um Golden Retriever: “Quem é este menino lindo, quem
é?”, “Coçar o peitinho”, “Atrás das orelhas”.
E quando nós temos que cumprimentar uma pessoa que está
sentada e nós estamos de pé e não decidimos a tempo para que lado
vai a cara de quem “oh… não, ah”; ficamos ali num limbo bué da
awkward tipo “Oi, oh oh oooh”, que parece que ‘tamos a fazer uma
battle de hip hop, só para evitarmos dar um beijo na boca. Depois até
acabamos a dar um beijo num ângulo super estranho e antinatura.
61
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
Há muitos problemas logísticos para superar, malta, portanto eu
defendo totalmente a abolição dos beijos no local de trabalho e deixo-
vos aqui várias razões lógicas para isso acontecer já:
1. Porque quando são duas pessoas a cumprimentar-se com
óculos isto acontece. “‘Tá tudo bem ou quê?”
2. Às vezes há um pelo no buço que faz faísca e dá choque. “Ah,
desculpa!”.
3. Porque no trabalho nem sempre é claro o protocolo da coisa,
então às vezes achamos que a pessoa nos vai dar um beijo, mas afinal
é um passou-bem. Eu, por exemplo, costumo investir sempre nas duas
beijocas, mas já me aconteceu estar errada e quando vou, portanto,
para o encosto, levo assim upper cut no estômago. Que era o passou-
bem falhado, mas depois era tarde demais para dar na bochecha,
então ficamos ali um bocado wow wow.
Portanto, acho mesmo que temos de abolir esta prática no local
de trabalho.
Já temos coisas suficientemente humilhantes a acontecer no
escritório, nomeadamente o valor do nosso salário.
Espero que tenham gostado, malta, que comentem, que
partilhem e que me apoiem nesta iniciativa e fiquem atentos ao meu
fb, porque ainda esta semana vou partilhar a parte dois deste vídeo,
exclusivamente sobre um flagelo da nossa sociedade, que é, portanto,
o dar um ou dois beijinhos, porque parece que para 1% da nossa
população ainda não ‘tá claro, ‘tá a ver, isso gera imenso penduranço.
Beijos
Vídeo 2 As mentiras que dizemos no Natal
Oi, malta. Daqui é a Bumba na Fofinha. O tema de hoje são as
mentiras que dizemos no dia de Natal. É incrível como supostamente o
Natal é aquela época de boas ações, somos todos boas pessoas, mas,
aqui entre nós, é o dia em que mais mentiras dizemos por minuto. É certo
que são mentiras ligeiras, para não ofender, e, para provar esta teoria,
62
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
reuni só para vocês, o top de mentiras no dia de Natal e vocês têm a
obrigação natalícia de, no final deste vídeo, se chibarem nos
comentários de quantas mentiras destas usaram. Vamos fazer assim
uma lavagem de roupa suja. Em três, dois, um, go.
- Ai, gosto imenso deste presente. Não preciso do talão de troca,
eu, eu adorei.
- Por acaso não acho que o peru esteja seco. Qual precisa de
molho? ‘Tá bom. Custa só um bocadinho a engolir, se calhar.
- Estas rabanadas são sem glúten, não engordam.
- Não ‘tou nada bêbeda, ‘tou alegre.
- Por acaso gosto de ir em família para a missa do galo. Apesar
de ‘tar 1 grau negativo e de eu já ‘tar a bocejar, não me importo de ir
à missa à meia-noite. É tradição.
- Ai, filho. Qual obesidade infantil? A tua filha não ‘tá gorda. ‘Tá
assim cheiinha. Ela sempre foi mais p‘ó… 67 quilos? Isso são ossos
pesados, filho. Tem anca parideira como a avô.
- Ahhhmmm, eu acho que ainda consigo comer mais uma
sobremesa.
- A sério, avó, o bacalhau ‘tá ótimo, não ‘tá salgado.
- Não faz mal, tia. As calças podem não me servir agora, mas vão
me servir p‘ó ano, porque eu vou emagrecer… 10 quilos. Vou memo
ficar seca. As minhas perninhas vão ficar tipo assim.
- Não, ora essa! Eu uso muito écharpes.
- Achas que eu me importo de receber o mesmo presente de
anos e de Natal porque faço anos em dezembro? Não, eu adoro
fazer anos perto do Natal. Não me importo que Jesus Cristo leve a
atenção toda.
- Dar dinheiro é muito impessoal.
63
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
- Não, meu amor. A mãe adora os presentes que és tu a fazer. Em
barro, plasticina, guache, aguarela e tudo aquilo que suja muito. Adoro.
- Não, isto é só uma lembrancinha. Depois o presente a sério vem
depois.
- Uma pessoa a partir de uma certa idade já não dá tanta
importância aos presentes, compreendes? amadureceu um
bocado. Não importa tanto o lado material.
- Não, mãe. Eu não ‘tou * porque o presente que ofereceste ao
irmão mais velho é mais caro do que o meu. Eu nem ‘tou a contar o
dinheiro. Eu não acho que tenhas filhos preferidos…
- O quê?! Uma caixa de Ferrero Rocher? O meu preferido?
Vídeo 3 10 mandamentos para ver séries
1. Não verás episódios novos na ausência do parceiro. Não senhor,
é que isso é infidelidade da grossa.
2. Não adormecerás a meio. Criando desfasamento e obrigando o
outro a ver outra vez contigo. Não. Tomarás Redbull, se
necessário.
3. Não interromperás para fazer xixi, aguentar-te-ás, se necessário.
4. Não criticarás a comoção ou choro alheio, alegando: “Mas tu
sabes que isto é ficção, certo?”. Não, senhor.
5. Não criticarás os pop-ups de anúncios que surgem aos berros no
teu browser, porque estás a ver em sites piratas. Não criticarás,
porque os hackers também têm sentimentos e ‘tão a prestar um
serviço público.
6. Não perguntarás: “então, mas e este, quem é que é?”, “Este era
quem mesmo?”, “‘Tão, mas este era filho de quem?”, “‘Tão e este
é quem?”. Explicar em tempo real é perder tempo de episódio
em vão. A girl has no name, mas há que saber o nome dela. Faz
o teu TPC, car****!
64
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
7. Não terás uma internet de bosta. Arranjarás uma internet que
permita ver o site pirata, sem fazer (…). ‘Tava a brincar, que
engraçado.
8. Não spoilarás, nunca, nunca, nunca spoilarás. Do not spoilarate.
Nem com teorias da conspiração que leste no Reddit e que
queres fingir que são tuas para parecer que és bom e que tás
bué à frente, não. You know nothing, John Snow.
9. Não taparás os olhos em nenhum momento, nem quando um
crânio humano se desfizer em lascas à tua frente.
10. Não recusarás ver “só mais um episódio”, se o parceiro ou
parceira te pedir. demasiadas séries boas e a vida é
demasiado curta pra as ver todas. Portanto, varrerás sete
episódios até de madrugada, se necessário, desde que uma das
partes assim o queira. De nada.”
65
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
Apresentação em PowerPoint realizada no âmbito
da unidade curricular Linguística do Texto
Diapositivo 1
Diapositivo 2.
66
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
Diapositivo 3.
Diapositivo 4.
67
Análise linguístico-textual do humor nos vídeos da youtuber Bumba na Fofinha
Beatriz Zorro
Diapositivo 5.
Diapositivo 6.
68
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais ultrapassam as
normas linguísticas
Cláudia Castro
O linguístico e o extralinguístico: como as
convenções sociais ultrapassam as normas
linguísticas
Cláudia Castro
Introdução
Para além do material linguístico, os textos são constituídos por
componentes sociais, históricos e culturais. Estudiosas do texto, como
Coutinho (2003, 2006) e Miranda (2010), frisam a importância do “social”
na organização textual, em particular, o facto de as convenções
criadas em sociedade serem simultaneamente inerentes e constitutivas
do texto. A conceção desta unidade comunicativa, que é o texto, é
enformada por regras sociais que vão para além do que é estritamente
linguístico. Assim, assumimos que a boa formação textual ultrapassa as
normas linguísticas, pois deverá também obedecer a princípios
situacionais e contextuais.
Estas regras sociais, por estarem num nível superior à língua,
podem criar discrepâncias. Dito de outro modo, podem ir contra uma
norma linguística, onde o valor social (exterior/contexto) prevalece em
relação ao que é tido como correto linguisticamente (interior/cotexto).
A dicotomia entre exterior e interior procura evidenciar, por um lado, a
dinamicidade entre as regras sociais e as normas linguísticas,
perspetivando a influência mútua, que as dimensões social e linguística
podem exercer, e, por outro, o texto como objeto empírico no qual essa
dinamicidade pode ser observada.
No que aqui se apresenta, vão ser analisados dois cartazes
promocionais referentes ao filme Captain Marvel, estreado, a nível
mundial, em março de 2019. Os dois cartazes, aqui observados,
circularam em diferentes contextos, Brasil e Portugal, e ambos se
inscrevem no âmbito das atividades artística e publicitária. O objetivo
do presente trabalho é observar e discutir como se dá a dinamicidade
Cláudia Castro,
estudante da
Universidade NOVA
de Lisboa, na
Faculdade de
Ciências Sociais e
Humanas, está de
momento a
frequentar a
licenciatura em
Ciências da
Linguagem.
69
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais ultrapassam as
normas linguísticas
Cláudia Castro
entre o linguístico e o social nos cartazes, em particular, no que diz
respeito ao uso do masculino e do feminino. Para tal, far-se-á um breve
enquadramento teórico, seguido de uma descrição dos cartazes, bem
como das diversas unidades verbais e não verbais convocadas.
Metodologicamente e para facilitar o aprofundamento do tópico,
cada texto será analisado individualmente.
Texto aspetos semióticos e socio-históricos
Partindo dos estudos de van Dijk, em particular da obra Ciência
del Texto (1983), Florencia Miranda perspetiva o texto como um “objeto
psico-sócio-semiótico” (2010: 29), no qual se interrelacionam, na
construção textual, as três vertentes, mais precisamente as
propriedades cognitivas ou psíquicas, os parâmetros sociais e históricos
na dinâmica de funcionamento dos textos e os aspetos linguísticos e/ou
semióticos, na qual há articulação entre o verbal e o não verbal. No
presente trabalho, o foco será fundamentalmente a dimensão
semiótica e socio-histórica dos dois textos em análise.
De acordo com a linguística do texto e do discurso (Adam, 2008;
Bronckart, 1999; Coutinho, 2003, 2006, entre outros autores), o contexto,
diferente do cotexto, exerce uma influência capital na produção e na
organização textuais. Sem nos determos nesta questão, importa referir
que os elementos externos ao texto intervêm na escolha dos recursos
semióticos, como se verá, posteriormente, na descrição dos cartazes
promocionais do filme.
Alguns aspetos sobre a categoria de género em português
Embora nas gramáticas não se encontre um estudo
aprofundado, a nível morfológico, sobre a marcação de género, é
assumido que em português há flexão em género. A herança latina faz
com que várias classes de palavras da língua portuguesa sejam
diferenciadas pela marcação morfológica do género (Cunha & Cintra,
70
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais ultrapassam as
normas linguísticas
Cláudia Castro
1984). Verifica-se, assim, na descrição tradicional do género gramatical
do português uma dependência, por norma, entre a flexão nominal em
género e a categoria sexual do referente nominal:
No português, o género é uma categoria morfo-sintáctica
que possui dois valores: masculino e feminino. Quando
associado a um nome animado, o masculino refere
geralmente uma entidade de sexo masculino, e o feminino
refere uma entidade de sexo feminino. (Mateus et al., 2003:
929)
Cartazes promocionais do filme Captain Marvel
Os cartazes de filme são formatos textuais utilizados para divulgar
a estreia de um filme e, simultaneamente, o promover a nível nacional
e internacional, circulando dentro e fora dos cinemas, na rua ou nas
lojas, por exemplo. Frequentemente constituídos por unidades verbais,
como o nome do filme, das atrizes e atores, ou ainda o nome do
realizador ou da realizadora, bem como por unidades não verbais,
fotografia da ou das personagens principais, os cartazes apresentam
uma mancha gráfica estabilizada, permitindo distinguir este género
facilmente.
Realizados por profissionais da comunicação e emitidos pelos
distribuidores do filme, os cartazes adaptam-se em função do país onde
o filme é exibido, daí ser comum um mesmo filme ter cartazes diferentes
em função do local onde circula, como é o caso dos exemplos
escolhidos para este trabalho. Sendo o objetivo comunicativo dos
cartazes o de captar a atenção do recetor e promover o filme, os
mesmos recorrem a um conjunto de unidades verbais e não verbais
para criar um efeito estético e de fácil entendimento.
No caso que nos interessa, a divulgação do filme Captain Marvel,
através de cartazes, realizou-se em março de 2019. Produzido pelos
estúdios da Marvel e distribuído pelos estúdios da Walt Disney, o filme
71
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais ultrapassam as
normas linguísticas
Cláudia Castro
contou com um grande financiamento, quer para a produção, quer
para a sua promoção a nível internacional1.
Para além do sucesso que teve nas bilheteiras, o filme levantou
alguma discussão referente ao título do mesmo no contexto português,
como se pode verificar num artigo da revista Visão intitulado “Afinal,
porque é que a nova heroína da Marvel se chama Capitão e não
"Capitã"?”, da autoria de Teresa Campos e publicado a 11 de março
de 20192.
É esse ponto que nos propomos descrever e discutir a seguir,
sumariamente.
Cartaz do filme em versão portuguesa
Enquanto género textual que integra o meio artístico e
publicitário, o cartaz promocional de filme obedece a regras
específicas: em grande plano, tem como imagem principal a figura da
Figura 1. Versão portuguesa do cartaz do filme
Captain Marvel
1 As informações
foram retiradas do
sítio da Marvel:
https://www.marvel.
com/movies/captai
n-marvel,
consultado a 17 de
maio de 2019.
2 Disponível aqui:
http://visao.sapo.pt/
actualidade/socied
ade/2019-03-11-
Afinal-porque-e-
que-a-nova-
heroina-da-Marvel-
se-chama-Capitao-
e-nao-Capita_ ,
consultado a 17 de
maio de 2019.
72
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais ultrapassam as
normas linguísticas
Cláudia Castro
protagonista, destacando-a com o título em baixo para promover o
filme. É de notar o título original em inglês Captain Marvel e a respetiva
tradução para português, abaixo do título original, Capitão Marvel,
entre parênteses. Produzido com a intenção de ser casual para
ambientes como a rua e os cinemas, e também digitalmente, este
cartaz atua como unidade comunicativa, transmitindo informação
sobre o tema, e com significado, ainda que predominantemente não
verbal. Todavia, e tendo em conta que a imagem funciona como
criação do referente, observa-se, no caso em apreço, uma
incongruência entre a imagem de uma mulher e o recurso ao género
masculino em “capitão”, embora a língua portuguesa disponha da
possibilidade, para os nomes animados, de referir uma entidade de sexo
masculino ou de sexo feminino, em função do referente a ser construído.
A palavra “captain”, em inglês, tem marca de género neutro; um
fenómeno permitido pela língua inglesa, pois alguns nomes não têm
marca nem de número nem de género. Isto torna-se difícil para uma
língua latina como o português, onde tal fenómeno não acontece. Na
tradução portuguesa, a opção de “capitão” deve-se não a questões
gramaticais, mas sim contextuais. De facto, existe, em Portugal, o
equivalente feminino de capitão, capitã, todavia este não se aplica à
esfera militar, como é o caso do filme. De acordo com as normas dos
postos e dos distintivos da Força Aérea Portuguesa1, mesmo que os
nomes refiram pessoas do género feminino, os nomes não são
feminizados. Portanto, esta escolha do título foi feita a partir de
elementos extralinguísticos.
1Verifique-se aqui,
no sítio da Força
Aérea
(https://www.emfa.
pt/p-201-postos-e-
distintivos) e no
seguinte artigo da
Revista Militar
(https://www.revista
militar.pt/artigo/825)
, nos quais ocorrem
nomes de mulheres
associados ao posto
na versão
masculina, como,
por exemplo,
“Capitão Bruna
Oliveira”.
73
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais ultrapassam as
normas linguísticas
Cláudia Castro
Cartaz do filme em versão brasileira
No segundo cartaz, correspondente à versão brasileira, a
situação é diferente, como se pode ver na figura 2. Observam-se, neste
caso, imagens das personagens em grande plano e o título em baixo,
mas, neste caso, um título e está traduzido para português “Capitã
Marvel”. Este título único, em português, respeita a norma portuguesa
de feminização dos nomes, Capitã Marvel.
Tal como em Portugal, no Brasil não feminização dos nomes
dos postos na Força Aérea1, ou seja, não existe o equivalente de
capitão para feminino nas Forças Armadas. Assim, no cartaz da versão
brasileira, poderá pensar-se que foi dada prioridade aos elementos
estritamente gramaticais. Por outro lado, e tendo em conta a
importância da língua na criação da identidade pessoal e social
(Bronckart, 1999), o recurso à feminização do nome do posto da Força
Aérea contribui, em certa medida, para dar visibilidade ao papel das
mulheres nas Forças Armadas.
Figura 2. Versão brasileira do cartaz do filme
Captain Marvel
1Cf.
http://www.fab.mil.br/
postosegraduacoes,
consultado a 19 de
maio de 2019.
74
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais ultrapassam as
normas linguísticas
Cláudia Castro
Outro aspeto que merece destaque por ser problemático é a
dimensão semiótica. Neste cartaz, temos várias personagens, mas a
marca de género continua feminina. Pelo contrário, no primeiro cartaz
(figura 1), só existe uma personagem (feminina), mas a marca de
género continua masculina. Este aspeto poderá evidenciar que houve
um esforço deliberado por parte dos produtores textuais para
contemplar o papel de uma personagem feminina, neste filme.
Notas conclusivas
Neste trabalho, a partir da descrição de dois cartazes referentes
a um mesmo filme, Captain Marvel, procurámos evidenciar a
dinamicidade que se tece entre o linguístico e o social. Para tal,
observou-se que, apesar de a forma capitã ser legítima em português,
de acordo com as regras gramaticais, o uso da língua portuguesa
dentro das Forças Aéreas em Portugal e no Brasil não admite a
feminização de capitão, ou seja, capitã. Apesar de essa regra existir, o
cartaz na versão brasileira assumiu a feminização do posto e optou-se
por capitã.
Tecemos, ao longo deste trabalho, uma reflexão sobre um cartaz
cinematográfico, sobre como a língua é “normalizada” e usada em
sociedade e, também, sobre a presença (ou ausência) da mulher
através da feminização dos nomes. Relembremos que, em Portugal,
Maria de Lourdes Pintassilgo foi a única mulher “primeiro-ministro” e que,
no Brasil, Dilma Roussef foi a primeira mulher a ser “presidenta”.
Pretendemos, igualmente, ao longo do que foi exposto, alimentar uma
discussão dos efeitos linguísticos num contexto socio-histórico, e
repensar a herança social relacionada com a história do papel da
mulher na sociedade, em que os nomes foram criados no masculino e
são tradicionalmente mantidos no masculino, apesar de serem mulheres
a assumir o cargo.
75
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais ultrapassam as
normas linguísticas
Cláudia Castro
Referências bibliográficas
Adam, J.-M. (2008). A linguística textual: Introdução à análise
textual dos discursos. São Paulo: Cortez Editora.
Bronckart, J.-P. (1999). Atividade de linguagem, textos e discursos:
Por um interacionismo sociodiscursivo. São Paulo: EDUC.
Coutinho, M. A. (2003). Texto(s) e competência textual. Lisboa:
FCT/FCG.
Coutinho, M. A. (2006). O texto como objecto empírico:
Consequências e desafios para a linguística. Veredas, 10(1-2), 1-13.
Disponível em
https://www.ufjf.br/revistaveredas/files/2009/12/artigo076.pdf
Cunha, C. & Cintra, L. (1984). Gramática do Português
Contemporâneo. Lisboa: Sá da Costa.
Miranda, F. (2010). Textos e géneros em diálogo: uma abordagem
linguística da intertextualização. Lisboa: FCT/FCG.
Mateus, M. H. M. et al. (Orgs.). (2003). Gramática da Língua
Portuguesa (6.ª edição). Lisboa: Caminho.
Outras referências
Campos, T. (2019, março 11). Afinal, porque é que a nova heroína
da Marvel se chama Capitão e não "Capitã"? Visão. Consultado em
maio 17, 2019, disponível em
http://visao.sapo.pt/actualidade/sociedade/2019-03-11-Afinal-porque-
e-que-a-nova-heroina-da-Marvel-se-chama-Capitao-e-nao-Capita-
Fachada, C., Martins, N. Q., Oliveira, M. J., Quintas, R. & Telha, A.
C. (2013). Mulheres nas forças armadas portuguesas: A realidade da
força aérea. Revista Militar, 2536. Consultado em maio 19, 2019, em
https://www.revistamilitar.pt/artigo/825
Força Aérea. (2019). Postos e distintivos. Consultado em maio 19,
2019, em https://www.emfa.pt/p-201-postos-e-distintivos
76
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais ultrapassam as
normas linguísticas
Cláudia Castro
Força Aérea Brasileira. (2019). Postos e graduações. Consultado
em maio 19, 2019, em http://www.fab.mil.br/postosegraduacoes
77
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais ultrapassam as
normas linguísticas
Cláudia Castro
Apresentação em PowerPoint realizada no âmbito
da unidade curricular Linguística do Texto
Diapositivo 1.
Diapositivo 2
78
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais ultrapassam as
normas linguísticas
Cláudia Castro
Diapositivo 3
Diapositivo 4
79
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais ultrapassam as
normas linguísticas
Cláudia Castro
Diapositivo 5
Diapositivo 6
80
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais ultrapassam as
normas linguísticas
Cláudia Castro
Diapositivo 7
Diapositivo 8
81
O linguístico e o extralinguístico: como as convenções sociais ultrapassam as
normas linguísticas
Cláudia Castro
Diapositivo 7
82
Análise textual de “A Alma dos bichos” in Visão
Joana Oliveira
Análise textual de “A alma dos bichos” in Visão
Joana Oliveira
Introdução
Este trabalho enquadra-se na unidade curricular de Linguística do Texto
2018|2019, no âmbito do curso de Ciências da Linguagem, da
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de
Lisboa (NOVA FCSH).
Como o título indica, o trabalho irá incidir sobre a análise do texto
“A Alma dos Bichos”, retirado da revista Visão, n.º 1359, publicada a
21/03/2019, e redigido pela repórter Rosa Ruela, com o intuito de
descrever quais os mecanismos utilizados para divulgar dados científicos
sobre os animais, principalmente, a pessoas não especialistas, através
de uma reportagem.
A reportagem é um género textual plurissemiótico, que usa a
interação do verbal (unidades linguísticas) e do não verbal (imagens,
infografias, entre outras). Distingue-se de outros géneros da esfera
jornalística, por apresentar um maior desenvolvimento dos factos
jornalísticos, daí ter um grande número de páginas. No caso de “A Alma
dos Bichos”, há uma grande articulação entre o não verbal e o
linguístico, que visa a informação científica relativa à vida dos animais,
em particular os pensamentos, os sentimentos e o conhecimento deles.
Para analisar a reportagem, recorrer-sea trabalhos de Audria
Leal (2018a, 2018b) e de Rute Rosa (2018) e ao livro de estilo do Público,
bem como aos ensinamentos obtidos no âmbito da unidade curricular
de Linguística do Texto relativamente aos parâmetros de análise textual.
O trabalho está organizado em três partes: a primeira parte terá
como foco o enquadramento teórico, no qual se explicitam os critérios
utilizados na análise que têm como base estudos de outros
investigadores; a segunda parte irá centrar-se na análise do texto,
segundo os parâmetros estabelecidos, bem como numa grelha em que
se esclarece, sucintamente, a informação analisada; por último, uma
Joana Oliveira
estuda atualmente
Ciências da
Linguagem, do 2.º
ano, na Faculdade
de Ciências Sociais e
Humanas da
Universidade NOVA
de Lisboa, tendo
como objetivo tirar
um minor em
Tradução.
83
Análise textual de “A Alma dos bichos” in Visão
Joana Oliveira
terceira parte que assinala a distinção dos tipos discursivos (Bronckart,
[1997]1999).
Enquadramento
Enquadrado na disciplina de Linguística do Texto, o objetivo
deste trabalho consiste na observação de um texto à escolha,
sustentada nos parâmetros lecionados na disciplina. Partindo de uma
abordagem qualitativa e interpretativa, o estudo que a seguir se
apresenta baseou-se em artigos desenvolvidos na área da Linguística
do Texto (Coutinho, 2006; Gonçalves & Miranda, 2007; Coutinho &
Miranda, 2009). Para apoiar o presente estudo, foi concebida uma
grelha, apresentada mais à frente, a qual distingue o nível contextual e
o nível textual a ter em conta na análise.
Os parâmetros que constituem o nível contextual referem-se ao
nível extralinguístico:
Produtor textual (quem produz o texto);
Recetor;
Intenção comunicativa (qual o objetivo comunicativo);
Suporte (de que forma circula este texto).
Os parâmetros do nível textual dizem respeito ao nível
intralinguístico:
Conteúdo temático (qual o conteúdo de que o texto fala);
Plano do texto (de que forma o texto foi estruturado);
Mecanismos linguísticos (em que se destacam as atitudes
enunciativas, referentes à ordem do expor e à ordem do narrar).
Esta análise não se baseou nos artigos científicos de Audria
Leal (2018a, 2018b), que teve como objeto de estudo saber identificar
e explicar em que consiste uma reportagem, como também num artigo
de Rute Rosa (2018), no qual a autora apresenta uma análise de textos
84
Análise textual de “A Alma dos bichos” in Visão
Joana Oliveira
de divulgação científica, a partir da distinção ordem do expor/ordem
do narrar, desenvolvida por Jean-Paul Bronckart ([1997]1999), no âmbito
do quadro teórico do Interacionismo Sociodiscursivo.
Análise do texto
Começarei por analisar a foto de capa da reportagem, de
seguida passarei para a página principal da mesma, em que analisarei
a interação do linguístico com o não verbal. Mais à frente, terei um
quadro teórico-explicativo que apresentará cada parâmetro utilizado
para a análise. Logo depois, também analisarei os mundos discursivos e
os tipos discursivos.
Na primeira abordagem à capa de revista, é possível observar
um cão, de raça Boiadeiro de Berna (em alemão: Berner Sennenhund),
sentado com ar de “comportado”, e como os humanos identificam
como aquilo que parece ser um sorriso, e também um gato sentado, à
partida de raça Bobtail Americano, também com ar de “comportado”,
com o focinho de lado. Ora, estas fotografias têm como objetivo
chamar à atenção do leitor/amante de animais. Os editores da revista
escolheram animais considerados “bonitos”, de modo a suscitar ternura
e afeto. Também o título em letras garrafais “O que pensam, sentem
e sabem os animais” – visa despertar interesse no comprador/leitor por
uma melhor compreensão dos animais em questão.
85
Análise textual de “A Alma dos bichos” in Visão
Joana Oliveira
Imagem 1: capa da revista (com destaque para a reportagem)
Os subtítulos da capa, relativamente ao tema principal, também
têm a sua importância, na medida em que constatam factos citados
na reportagem, também com o objetivo de influenciar o leitor.
Ao longo do processo de leitura, até à página inicial da
reportagem correspondente, nota-se a apresentação de duas páginas
inteiras para uma só fotografia de um cão, juntamente com o título da
reportagem (“A Alma dos Bichos”) e outros subtítulos com letras
garrafais, indicando também o nome da autora.
86
Análise textual de “A Alma dos bichos” in Visão
Joana Oliveira
Imagem 2: primeira imagem da reportagem, pp. 30-31
Os subtítulos contêm uma pergunta que remete para uma
questão existente, “Os animais também sentem?”, em que os
humanos sempre tentaram comparar os animais com eles próprios,
devido aos comportamentos que pensam ser semelhantes. Por
conseguinte, explica, de seguida, o motivo da pergunta feita. Por
também ser uma questão dirigida ao leitor, resulta num maior impacto
com o mesmo de modo a que ele responda. Neste caso, influencia-o a
pensar se, de facto, os animais têm sentimentos tal como o ser humano.
Em cada página de imagem completa que a reportagem
contém, haverá uma legenda em formato circular, que apresenta
elementos que explicitam as peculiaridades daquele animal,
retomando-o. No caso da imagem anterior, tem como legenda CÃO e
um pequeno texto que explica o seu comportamento “Como
comunica connosco milhares de anos, aprendeu a ler as nossas
emoções”.
É interessante notar que a autora foi usando variadíssimas
imagens ao longo das ginas da reportagem, de modo a servirem
87
Análise textual de “A Alma dos bichos” in Visão
Joana Oliveira
para uma abordagem mais detalhada dos argumentos expostos.
Segundo Leal (2018: 341), “os significados das representações visuais
participam como argumentos da reportagem.”
Imagem 3: reportagem, pp. 32-33
À medida que o texto da reportagem é redigido, emoldurando
cada imagem apresentada na página, procura-se destacar os textos
em pequenos blocos, fora do corpo principal, que funcionam como
informação extra, talvez importante para o leitor. Como exemplos, tem-
se informações sobre ‘O QUE DIZ A LEI’ que fala dos animais domésticos,
uma vez que a 1 de maio de 2017 entraram em vigor novas leis sobre
estes; ‘E AS PLANTAS, SENHORES?’ (na página 34 da revista) em que,
sendo também seres vivos, apresentarão características semelhantes
aos animais, algo que os leitores desconhecem; ‘TODOS DIFERENTES’ (na
página 36) em que explica como funciona o córtex de cada ser vivo,
comparando o ser humano com os primatas e os felinos; ‘ABELHAS
SOFISTICADAS’ em que transmite informação específica sobre o
trabalho destes seres tão importantes para o nosso ecossistema; por
último, mas não menos importante, na página 40, um pequeno texto
88
Análise textual de “A Alma dos bichos” in Visão
Joana Oliveira
sobre os morcegos, ‘MORCEGOS DISTANTES’, em que esclarecem como
estes animais se comportam para a sua sobrevivência.
Para além desses focos, o produtor textual também utiliza
pequenas frases do corpo do texto, juntamente com uma imagem para
a sustentar, colocando-a nas páginas anteriores, construindo assim um
referente que é retomado e desenvolvido no corpo do texto. Destaca
estas frases a vermelho e com letras garrafais. É o que se segue na
imagem a seguir, em que no canto inferior esquerdo, retoma o que disse
sobre a galinha, destacando-se do resto da página.
Imagem 4: reportagem, p. 34
89
Análise textual de “A Alma dos bichos” in Visão
Joana Oliveira
Grelha de análise
Em seguida, apresenta-se uma grelha de análise, concebida
com base em Coutinho (2006), Gonçalves e Miranda (2007) e Coutinho
e Miranda (2009), tendo como objetivo explicitar cada parâmetro
analisado, ao longo da observação da reportagem.
Figura 1: grelha de análise
Categorias de análise
Regularidades
Nível
contextual
Produtor textual
Autora Rosa Ruela da revista, que faz
uso de algumas citações de
investigadores científicos e psicólogos
Recetor
Qualquer leitor interessado na revista
Visão ou mesmo amante de animais
domésticos/selvagens
Intenção
comunicativa
Informar e influenciar o leitor acerca
dos comportamentos dos animais e
outros factos interessantes sobre os
mesmos
Suporte
Escrito para quem comprar a Visão
em formato papel;
digital para quem subscrever a revista
online
Nível textual
Conteúdo
temático
Comportamentos animais, de como
os humanos tendem a “humanizá-
los”, comparando os seus
comportamentos com os deles por
serem idênticos
Estrutura do texto
Capa de revista; 12 páginas, em que
algumas delas são imagens inteiras
que ocupam uma página; nessas
páginas por vezes existem pequenos
destaques sobre outros animais, não
fazendo parte do corpo do texto
Mecanismos
linguísticos
Presença da ordem do expor por se
tratar de uma reportagem com
conteúdo científico e da ordem do
narrar por relatar descobertas
precedentes das investigações
científicas
90
Análise textual de “A Alma dos bichos” in Visão
Joana Oliveira
Mundos discursivos| Tipos discursivos (Bronckart, [1997]1999): ordem
do expor e ordem do narrar
Existe uma predominância da autonomia do repórter quer na
ordem do narrar, que funciona para relatar o processo de investigação,
quer na ordem do expor, que tem como função explicar alguns
acontecimentos que outrora existiram, mas que até à data ainda estão
marcados na sociedade.
A ocorrência da ordem do expor associa-se ao objetivo
comunicativo, à divulgação de iniciativas, resultados e pesquisas
científicas atuais, enquanto a ordem do narrar é usada para relatar os
factos históricos e/ou investigações precedentes que complementam e
contextualizam a informação atual.
Com efeito, Rosa Ruela faz perguntas de carácter científico, de
modo a introduzir uma explicação das mesmas, em que apresenta
citações/testemunhos de alguns especialistas. Na verdade, a autora
Nala é uma rafeira de porte médio, com olhos pequenos e
tendência para posar de língua de fora. Quando Emiliano Sala a
adotou, há três anos, ela e o futebolista argentino tornaram-se logo
inseparáveis, perceberam os fãs pelas constantes imagens dos dois
nas redes sociais. Quase 15 dias depois de o monomotor em que o
jogador seguia desaparecer dos radares, sobre o Canal da Mancha,
ninguém estranhou, por isso, ver no Facebook da sua irmã uma
fotografia da cadela, sentada à porta de casa, com a frase: “Nala
também te espera…”
Quadro 1: ordem do expor autónomo (a cinzento)
Recorde-se aquilo que António Damásio tem escrito e dito sobre este
tema tão central na sua obra. O neurologista comparou a
consciência com “uma grande peça sinfónica”, lembrando que a
mente consciente tem diversos níveis de “si”: o “eu primordial”, o “eu
nuclear”, o “eu autobiográfico”. E defende que compartilhamos
com diversos animais um tipo de consciência muito simples, que
pode ser distinguida com o termo “senciente”.
Quadro 2: ordem do narrar autónomo (a verde), ordem do expor autónomo
(a cinzento) e expor implicado (a amarelo)
91
Análise textual de “A Alma dos bichos” in Visão
Joana Oliveira
implica-se na reportagem de modo a integrar-se na maneira em que
também se questiona sobre o mesmo tema.
Quadro 3: ordem do narrar autónomo (a verde), ordem do expor implicado
do cientista citado (a azul) e expor implicado (a amarelo)
Considerações finais
Através deste trabalho, pode ser entendido que esta reportagem
apresenta um estilo científico-informativo, uma vez que usa dados e
investigações científicas para poder explicar como é que cada animal
mencionado se comporta, pensa e sabe. A autora chega até a
integrar-se nesta reportagem, o que leva o leitor a entender que
também ela se questionou sobre os factos citados. Fala-se de
variadíssimas espécies, de modo a dar importância a todas elas, pois
não se refere apenas os “gatinhos” e os “cãezinhos” “fofinhos”, uma vez
que o ecossistema depende de todas as ações e comportamentos de
todos os animais.
De um modo geral, a reportagem tem como característica um
olhar subjetivo, quando o repórter opta por um foco na abordagem da
descrição e observação dos factos. Torna-se diferente de uma notícia,
na medida em que apresenta um tempo e um espaço diferentes.
Apesar de apresentar um “lead noticioso” semelhante ao nível da
construção de uma notícia, esta ainda apresenta “ambientes”,
“emoções” (referem-se aos recursos não linguísticos que se tornam
fundamentais na argumentação da reportagem) “o inesperado”,
criando assim “um clima propício para mergulhar o leitor na viagem”
(Público, 1998).
Mas como resistir a encantarmo-nos, por exemplo, com o polvo, mais
um animal extraordinário, capaz de desenroscar tampas de frascos
que contêm comida e outras proezas dignas de um ser inteligente?
“Um encontro com um polvo pode deixar-nos com a sensação de
que encontrámos uma outra mente”, escreveu na revista The Atlantic
a bióloga inglesa Olivia Judson.
92
Análise textual de “A Alma dos bichos” in Visão
Joana Oliveira
Referências Bibliográficas
Bronckart, J. P. ([1997] 1999). Atividade de linguagem, textos e
discursos: por um interacionismo sócio-discursivo (trad. A. R. Machado).
São Paulo: EDUC.
Coutinho, A. (2006). O texto como objeto empírico:
consequências e desafios para a linguística. Vereda, 10(1-2), 1-13.
Disponível em
https://www.ufjf.br/revistaveredas/files/2009/12/artigo076.pdf
Coutinho, A. & Miranda, F. (2009). To describe textual genres:
problems and strategies. In Ch. Bazerman, D. Figueiredo & A. Bonini
(Org.). Genre in a Changing World, (pp. 35-55). Colorado & Indiana:
Parlor Press & WAC Clearinghouse. EDUC. ]
Coutinho, M. A. & Miranda, F. (2009). To describe textual genres:
problems and strategies. In C. Bazerman, A. Bonini & D. Figueiredo (Eds.)
Genre in a Changing World, ed. 1 528 (pp. 35-55). Fort Collins,
Colorado: The WAC Clearinghouse and Parlor Press.
Gonçalves, M. & Miranda, F. (2007) Analyse textuelle, analyse de
genres: quelles relations, quels instruments?. In Autour des langues et du
langage: perspective pluridisciplinaire (pp. 47-53.) Grenoble: Presses
Universitaires de Grenoble.
Leal, A. (2018a). Multimodalidade e argumentação no género
textual reportagem. In M. Gonçalves & N. Jorge (Orgs.), Literacia
científica na escola (pp. 43-54). Disponível em
https://issuu.com/matildegoncalves5/docs/literacia_cient_fica_na_esc
ola
Leal, A. (2018b). Representações semióticas no género
reportagem em revistas portuguesas. Linguagem em (Dis)curso, 18(2),
341-357. Disponível em
http://www.portaldeperiodicos.unisul.br/index.php/Linguagem_Discurs
o/article/view/6517/3872
Público. (1998). Livro de Estilo. Disponível em
http://static.publico.pt/nos/livro_estilo/12-regras-c.html
93
Análise textual de “A Alma dos bichos” in Visão
Joana Oliveira
Rosa, R. (2018). A ordem do expor e a ordem do narrar nos textos
de divulgação científica. In M. Gonçalves & N. Jorge (Orgs.), Literacia
científica na escola (pp. 70-78). Disponível em
http://hdl.handle.net/10362/65431