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A "CEBOLA DOS CONTEÚDOS" DA EDUCAÇÃO FÍSICA: uma alternativa à BNCC

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1 PROIBIDO REPRODUZIR E/OU COMPARTILHAR INTEGRALMENTE
MODO DE CITAR: BETTI, Mauro. A cebola dos conteúdos da educação física. Apostila, 2020. Disponível em:
<https://www.researchgate.net/publication/342672062_A_CEBOLA_DOS_CONTEUDOS_DA_EDUCACAO_FISICA_uma_alternativa_a_BNCC>.
A "CEBOLA DOS CONTEÚDOS" DA EDUCAÇÃO FÍSICA:
UMA ALTERNATIVA À BNCC
MAURO BETTI
julho 2020
Introdução: a abordagem culturalista da Educação Física Escolar
O que ensinar (o "conteúdo") costuma ser a maior preocupação d@s professor@es,
embora os processos de ensino e aprendizagem, o currículo, o projeto político-pedagógico
de cada escola e o planejamento de ensino devem levar em conta outros quatro elementos:
porquê (finalidade gerais e objetivos específicos); como (estratégias de ensino); quando
(alocação e distribuição do tempo de aprendizagem) e para quem (os sujeitos da
aprendizagem, @s alun@s, ou "aprendentes", como prefiro denominar)
O QUE
PORQUÊ
PARA
QUEM
COMO
QUANDO
Mauro Betti, 2019
Poderíamos colocar qualquer um dos outros elementos no papel central: o "como", o
"para quem" etc. Mas, em geral, professor@s e gestor@s colocam "o que" ensinar (o
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MODO DE CITAR: BETTI, Mauro. A cebola dos conteúdos da educação física. Apostila, 2020. Disponível em:
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conteúdo) no foco central. Vou então, sem aderir contudo a esta supervalorização, tratar
aqui apenas dos conteúdos da Educação Física.
Inicialmente, vou apresentar algumas diferenças entre a abordagem culturalista e a
abordagem semiótica, a qual se desdobra em uma proposição didático-pedagógica.
Na abordagem culturalista destacam-se as proposições crítico-superadora (COLETIVO DE AUTORES,
1992) e crítico-emancipatória (KUNZ, 2001), e, em termos de abordagens mais amplas, a
antropológico-cultural de Daolio (1994) e a abordagem sociológico-sistêmica de Betti (1991, 2009a).
Um bom panorama dessas proposições pode ser encontrado em Daolio (2010)
A abordagem culturalista levou a um consenso mais ou menos bem estabelecido de
que os conteúdos da Educação Física são o jogo, o esporte, a luta, a dança e ginástica, os
quais, no meu entendimento (BETTI, 2001, 2003, 2009b) são formas culturais específicas
resultantes da exercitação intencional e sistemática da motricidade humana (sendo
"motricidade humana" tomada como " capacidade de movimento para..."), e que tomam
parte da tradição da Educação Física como área acadêmico-profissional. Nós,
professor@s/profissionais da Educação Física desenvolvemos ao longo do tempo um "saber
ensinar" jogos, esportes, lutas, danças e ginásticas.
Esporte(s) Jogo(s)
Dança(s)
Ginástica(s)
Luta(s)
CONTEÚDOS DA EDUCAÇÃO FÍSICA
Abordagem culturalista
Formas culturais específicas resultantes
da
exercitação intencional e sistemática da motricidade humana
Mauro Betti, 2019
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MODO DE CITAR: BETTI, Mauro. A cebola dos conteúdos da educação física. Apostila, 2020. Disponível em:
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A abordagem culturalista no Brasil iniciou-se em meados da década de 1980, no meio
acadêmico-universitário, e na década seguinte começou a influenciar a elaboração de
currículos em alguns estados/municípios. Com a edição dos Parâmetros Curriculares
Nacionais (BRASIL, MEC, 1997; 1998), o discurso/a abordagem culturalista ficou registrado em
um documento do governo federal, potencializando sua disseminação em várias instâncias
da Educação Física.
A figura a seguir apresenta o quadro de conteúdos da Educação Física conforme
explicitado nos PCN-3º e 4º ciclos (então 5a a 8a séries) do ensino fundamental (BRASIL,
1998).
Parâmetros Curriculares Nacionais
Ensino Fundamental
BRASIL, MEC, 1998, p. 79
Os PCN continuam atuais em alguns aspectos, mas as denominadas "dimensões do
conteúdo" (conceitual, procedimental e atitudinal) são uma proposta superada. Embora
tenham tido um papel importante à época, para evidenciar à comunidade escolar que a
Educação Física não era apenas realizar movimentos de forma mecânica, mas envolvia
também dimensões cognitivas e afetivas, tinha "algo mais" a ensinar. Todavia, foi apropriada
posteriormente, de modo equivocado, com a separação das dimensões em tempos/espaços
estanques, quando, em verdade, as três dimensões estão sempre presentes,
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MODO DE CITAR: BETTI, Mauro. A cebola dos conteúdos da educação física. Apostila, 2020. Disponível em:
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simultaneamente, em todos os processos de ensino e aprendizagem, de todos os conteúdos.
Não faz sentido existir uma aula de Educação Física para "conceitos" (o que desembocou nas
"aulas teóricas"), outra para procedimental, outra para atitudinal... Porque o conteúdo é um
só!
Indo mais adiante, entendo que "o" conteúdo ("o" esporte, "a" dança etc.) é uma
abstração; ele se concretiza quando uma pessoa joga, dança, luta, enfim, "quando
estabelece uma relação singular e contextualizada" (BETTI; GOMES-DA-SILVA, 2019, p. 63)
com uma modalidade de esporte ou luta, com certo estilo de dança etc. O sujeito que
aprende e o conteúdo que a Educação Física propõe ensinar não se separam, são como duas
faces da mesma moeda.
Vinte anos depois dos PCN, também por iniciativa do governo federal, temos a Base
Nacional Comum Curricular do Ensino Fundamental (BRASIL, MEC, 2018), aprovado como
documento mandatório para a elaboração dos currículos em todos os sistemas escolares
brasileiros. Percebe-se nela desdobramentos da abordagem culturalista.
A figura a seguir sintetiza os conteúdos propostos pela BNCC-Educação Física, Ensino
Fundamental (BNCC-EF), na qual são denominados "Unidades Temáticas/ Objetos de
Conhecimento" (BRASIL, 2018).
BRINCADEIRAS E JOGOS
. da cultura popular (comunitário, regional, Brasil, mundo)
. de matriz indígena
. de matriz africana
. jogos eletrônicos
ESPORTES
. de marca
. de precisão
. de invasão
. técnico-combinatórios
. de rede/parede
. de campo e taco
. de invasão
. de combate
GINÁSTICAS
. geral
. de condicionamento físico
. de conscientização corporal
DANÇAS
. do contexto comunitário e
regional
. do Brasil
. do mundo
.de matriz indígena
. de matriz africana
. urbanas
. de salão
LUTAS
.do contexto comunitário e
regional
. do Brasil
. do mundo
. de matriz indígena
. de matriz africana
PTICAS CORPORAIS DE
AVENTURA
. urbanas
. na natureza
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MODO DE CITAR: BETTI, Mauro. A cebola dos conteúdos da educação física. Apostila, 2020. Disponível em:
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Tomarei como base para a análise deste quadro de conteúdos o artigo que publiquei
sobre a BNCC (BETTI, 2018).
O elenco de conteúdos segue o relativo consenso da abordagem culturalista da
Educação Física, acrescendo "Práticas Corporais de Aventura". A BNCC-EF é um
desdobramento da abordagem culturalista, e segue o consenso quanto aos conteúdos, aos
quais acrescenta as "práticas corporais de aventura"). A dificuldade percebida por Betti
(2018) é o fato da BNCC utilizar diferentes critérios para delimitar nomear os objetos de
conhecimento em cada unidade temática.
O modelo de classificação adotado para a unidade temática "Esportes" baseia-se na
lógica motriz interna das modalidades, tendo como referência "os critérios de cooperação,
interação com o adversário, desempenho motor e objetivos ticos da ação" (BRASIL, 2018,
p. 213). Percebe-se aí, a influência da praxiologia motriz de Parlebas (2001), mas também a
contribuição do "Teaching Games for Understanding", iniciada por Bunker e Thorpe (1982), e
da releitura desses enfoques promovida por González (2006, 2017). Chega-se então a sete
categorias de esporte: de marca, de precisão, de invasão, técnico-combinatório, de
rede/parede, de campo e taco, de combate.
Por sua vez, "Ginásticas" segue outro critério classificatório: a diversidade de práticas
concretas no campo social (“Geral”, “Condicionamento Físico” e “Conscientização Corporal”)
e suas distintas intencionalidades pedagógicas.
A classificação de "Práticas Corporais de Aventura" se vale do ambiente em que são
realizadas (urbanas ou na natureza), o que, por si só, indica diferenças na sua dinâmica
motriz e interação com o meio.
"Brincadeiras e Jogos", "Lutas" e "Danças" adotam critério bem diferente:
caminham das esferas sociais mais próximas onde estas práticas supostamente acontecem
(localidade e região) para a esfera nacional (Brasil) e depois mundial, caracterizando-se mais
como um critério geográfico do que socioantropológico.
A esse respeito, Betti (2018) lembra que vivemos em um mundo cada vez mais
globalizado do ponto de vista cultural, as crianças e jovens têm acesso relativamente fácil a
informações provenientes dos mais variados locais do planeta. Em muitas situações, a
“cultura local” reduz-se ao futebol (praticado em geral pelo gênero masculino). Em outras
haveria dificuldade em delimitar qual seria a cultura "comunitária" e "regional”. E, muitas
vezes, será difícil distinguir o que é cultura “comunitária” ou "local" do que é “indústria
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MODO DE CITAR: BETTI, Mauro. A cebola dos conteúdos da educação física. Apostila, 2020. Disponível em:
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cultural” (basta lembrar das músicas e danças a elas associadas, que vão e vem ao sabor do
"mercado” controlado pelos grandes grupos midiáticos).
Aliás, também o termo "comunitário" está sujeito a equívoco de interpretação, pois
"comunidade" é uma categoria antropológica, não geográfica como o é "regional". Temo que
isso poderá levar a meras caricaturas das culturas de movimento comunitárias e regionais.
Caracteriza-se na BNCC-EF a justaposição de critérios diferentes - e às vezes arbitrários
- para a classificação das unidades temáticas. Indaga então Betti (2018) por que os esportes
não poderiam ser também classificados desde as esferas mais próximas para as mais
distantes (do local para o mundial); ou jogos com o mesmo critério da "lógica interna" que
presidiu a categorização dos esportes; ou as lutas também com base em suas lógicas
motrizes internas (desequilíbrio, imobilização, toque etc.).
A proposição semiótica
Para os interesses da Educação Física, a Semiótica (a "ciência da linguagem") pode ser
vista como uma abordagem geral, quer dizer, é possível lançar um "olhar semiótica" para
todas as práticas corporais, inclusive no campo não-escolar. A proposição semiótica de Betti
e Gomes da Silva (2019), tem diferenças importantes em relação à abordagem culturalista e
à BNCC. A primeira é que o núcleo central das aulas de Educação Física não é "o conteúdo"
abstratamente falando ("o" jogo, "o" esporte, "a" dança etc.), mas "Situações de
Movimento" alimentadas por aqueles conteúdos.
Situação de Movimento é entendida como um ambiente comunicativo em que ocorre percepção,
interpretação e respostas de acordo com as possibilidades circunstanciais, sejam elas naturais e/ou
culturais (BETTI; GOMES-DA-SILVA, 2019).
E é exatamente oentendimento de qual é o conteúdo da Educação Física uma das
principais diferenças entre a abordagem semiótica e a abordagem culturalista.
A abordagem culturalista atualmente hegemônica na Educação Física considera o jogo
como conteúdo autônomo, ao lado do esporte, da ginástica, da dança e da luta.
Diferentemente, para Betti e Gomes-da-Silva (2019), esporte, ginástica, dança e luta são
enunciados ou narrativas socioculturais do jogo. A proposição semiótica que aqueles
autores apresentam toma os jogos como estruturas de conversação (processos
comunicacionais), que em todos eles @s jogador@s estão sempre se pondo em diálogo,
seja consigo mesmo, seja com o meio, seja com outro jogador ou jogadora.
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MODO DE CITAR: BETTI, Mauro. A cebola dos conteúdos da educação física. Apostila, 2020. Disponível em:
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Betti e Gomes-da-Silva classificam os jogos como gêneros da cultura lúdica, levando em
conta a forma de diálogo condicionada por suas respectivas estruturas de funcionamento,
seus conteúdos e objetivos. Assim como diferentes gêneros no cinema (drama,
comédia...), na literatura (épico, dramático...) ou na música (samba, forró...), também no
jogo. Os jogos - prosseguem aqueles autores - são narrativas, contam uma história que se
desenvolve com início, meio e fim, de acordo com as circunstâncias e condicionamentos,
escolhas, decisões e ações dos jogadores. Cada gênero está marcado por uma configuração
espacial e social, por um modo de ocupar um espaço e uma tendência a regular condutas.
Em torno de cada gênero gravita um tema central que possui uma concepção de indivíduo,
ao prever um tipo de relação afetiva (no sentido de "afetar") entre os jogadores com os
espaços e os objetos do jogo.
Por isso Betti e Gomes-da-Silva (2019) propõem uma taxonomia que valoriza os
objetivos educativos e as temáticas, composta por treze gêneros de jogos: sensoriais,
ambientais, de (des)construção, simbólicos, rítmicos, de exercícios, de lutas, integrativos, de
invasão, de rebatida, de marca, de precisão, de raciocínio.
Para maiores detalhes sobre os gêneros de jogos, ver em especial o capítulo II do livro de Mauro
Betti e Pierre Normando Gomes-da-Silva: Corporeidade, jogo, linguagem: a educação física nos anos
iniciais do ensino fundamental. São Paulo: Cortez, 2019.
ainda um 14º gênero de jogo, não incluído por Betti e Gomes-da-Silva (2019), o
qual incluo aqui: os jogos cooperativos. Apresentam lógica interna um tanto diversa de
muitas das anteriores, mas também podem ter características presentes em outros gêneros.
Desse modo, as estruturas de funcionamento, diferentes em cada gênero de jogo,
determinam diferentes comportamentos comunicativos entre @s protagonistas bem em
termos da interação com o meio ambiente em que acontecem, implicando, portanto,
diferentes Situações de Movimento, as quais constituem o objeto central das aulas de
Educação Física, como já disse.
O Jogo como "mola-mestra" dos conteúdos
Na Educação Física, o jogo é conteúdo e estratégia ao mesmo tempo; portanto, é uma
Situação de Movimento privilegiada. Não vou aqui definir o que é jogo, assunto bastante
conhecido. Se tomarmos os clássicos livros de Huizinga (1994) e Caillois (2017), é possível
enumerar as características do que denominamos "jogo" como uma atividade: (i) livre ou
voluntária; (ii) delimitada no espaço e no tempo por regras prévias, consentidas e
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MODO DE CITAR: BETTI, Mauro. A cebola dos conteúdos da educação física. Apostila, 2020. Disponível em:
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obrigatórias; (iii) incerta no seu desenrolar e resultado; (iv) improdutiva do ponto de vista
material; (v) acompanhada de um sentimento de tensão e de alegria; e (vi) fictícia,
relativamente isolada da vida cotidiana;
Mas jogo não é só diversão, no jogo há também tensão e esforço; pode ocorrer
frustração, desprazer, conflitos interpessoais. Quando estamos aprendendo um novo jogo, é
preciso esforço, repetição, tentativa e erro. Desentendimentos quanto à aplicação das regras
podem gerar conflitos entre os participantes. Vigotski (1984) lembra-nos de que o jogo pode
às vezes não apresentar o resultado esperado, tornando-se assim um desprazer para a
criança.
Como ensina Huizinga (1996, p. 21), a alegria indissoluvelmente ligada ao jogo pode
transformar-se em tensão: “Uma criança estendendo a mão para um brinquedo, um gatinho
brincando com um novelo, uma garotinha jogando bola, todos eles procuram conseguir
alguma coisa difícil, ganhar, acabar com uma tensão”. É justamente este elemento de
tensão, decorrente da incerteza e do acaso que permeia o jogo, que lhe confere um caráter
ético, e, portanto, educativo, pois põe à prova as qualidades do jogador: "Porque, apesar de
seu ardente desejo de ganhar, deve sempre obedecer às regras do jogo" (HUIZINGA, 1996, p.
21).
Tanto Huizinga (1994) como Caillois (2017) explicitam as relações entre jogo e cultura,
embora de modo diferentes. Se para o autor de "Homo Ludens" (J. Huizinga), o jogo
antecede a cultura, para o autor de "Os Jogos e os Homens" (R. Caillois), o jogo margeia a
cultura.
De qualquer modo, estou aqui considerando o jogo como um fenômeno cultural
amplo. Tal como Betti e Gomes da Silva (2019, p. 56) "como condição existencial, modo de
habitar o mundo, e não apenas para designar de modo exclusivo brincadeiras e jogos
específicos, como, por exemplo, o 'jogo da amarelinha´, ou a brincadeira de ´esconde-
esconde`".
A etimologia - a origem linguística da palavras "jogo" e "lúdico"- ajudará a
fundamentar o que estou tentando explicar. Na língua portuguesa, a palavra "jogo" originou-
se do latim vulgar jocus,i , "gracejo, mofa, zombaria", e cujo significado dicionarizado é
“atividade cuja natureza ou finalidade é a diversão ou entretenimento” (HOUAISS, 2009). E
do latim clássico originou-se “lúdico”, de ludus,i’, "recreação", “que visa mais ao
divertimento que a qualquer outro objetivo, que se faz por gosto, sem outro objetivo que o
próprio prazer de fazê-lo” (HOUAISS, 2009).
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Então, uma atividade que tem um fim em si próprio é jogo ou ludus, mesmo sendo
uma dança, um esporte ou uma ginástica. Mas atenção! São (ou podem ser) fins em si
mesmo do ponto de vista da experiência d@ aprendente. A Educação Física (entendida como
prática pedagógica) é que lhes acrescenta intencionalidades pedagógicas ou finalidades
"úteis".
Considero então o jogo como a "mola-mestra" (FEIO, 1978) dos conteúdos da
Educação Física. Como uma mola que, comprimida, acumula uma energia cinética, liberada
quando descomprimida, e com sua força impulsiona os demais conteúdos da Educação
Física. Da dinâmica lúdica, do jogo, entendido como fenômeno humano amplo, emergem os
esportes, as lutas, as ginásticas, as lutas. Observe-se como muitos dos esportes que
conhecemos hoje se originaram de formas lúdicas, de jogos populares, por exemplo.
A essa dinâmica lúdica denominarei "ludus", em referência à origem latina da palavra
"lúdico", com dois propósitos: (i) não confundir o que é uma noção teórica com jogos
específicos, concretos (como o "jogo da queimada ou baleado", ou a brincadeira de "pular
corda"), e (ii) não confundir com o uso cotidiano da palavra "jogo" em nosso meio (quando,
por exemplo, falamos em um "jogo do campeonato brasileiro de futebol", quando o correto
seria falarmos em "partida" de futebol do campeonato brasileiro).
Avançando mais: a "cebola dos conteúdos" da Educação Física
Recorro agora à imagem de uma cebola (sim, aquele vegetal!) cortada, exibindo suas
camadas:
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MODO DE CITAR: BETTI, Mauro. A cebola dos conteúdos da educação física. Apostila, 2020. Disponível em:
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Ludus é centro da cebola, sua camada mais interior. Logo ao seu redor, e ainda como
parte do núcleo temos os impulsos primários que regem o jogo, conforme a tipologia
proposta por Caillois (2017) em seu extenso estudo sobre as relações entre jogo e sociedade:
agôn, ilinx ou vertigo, mimicry e alea.
Passo a descrever e exemplificar sucintamente cada uma dessas categorias, com base
em Lara e Pimentel (2006) e Piccolo (2008):
Agôn é competição, ambição de vencer outrem pelos próprios méritos em uma
disputa regulamentada (esportes).
Vertigo ou ilinx é busca de vertigem, de transe, abalo da estabilidade da percepção
(esqui, canoagem em corredeiras, alpinismo, equipamentos em parque de diversões como
"montanha russa", "chapeu mexicano" etc.).
Mimicry é simulacro, disfarce, gosto por assumir o papel de outra personagem
(mímica, teatro, carnaval, RPG).
Alea diz respeito a sorte/azar, sujeição ao acaso, ao destino (apostas, jogos de cartas,
loterias).
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MODO DE CITAR: BETTI, Mauro. A cebola dos conteúdos da educação física. Apostila, 2020. Disponível em:
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Assim esse núcleo mais profundo - ao qual se chega apenas após vencer uma a uma as
camadas mais externas da nossa "cebola" - desvela o substrato antropológico-filosófico dos
conteúdos da Educação Física, ou, em outras palavras, o seu fundamento.
Outras camadas vão se superpondo. A próxima são os gêneros sugeridos por Betti e
Gomes-da-Silva (2019) - acrescida dos "jogos de cooperação" - que levam em conta a lógica
motriz dos jogos, em parte coincidentes com a classificação dos esportes presente na BNCC-
EF. É digno de nota que a BNCC-EF considere a lógica motriz interna apenas nos "esportes",
mas não nos "jogos".
LUDUS
BE T TI , 2 0 2 0
BETTI; GOMES-DA-SILVA, 2 0 19
Em camada ainda mais externa, aparecem as formas codificadas anunciadas pela
abordagem culturalista: ginásticas, brincadeiras, lutas, esportes, danças e práticas corporais
de aventura. O uso do termo "brincadeiras", e não "jogos" é uma questão de coerência, para
não confundir com a noção teórica de "Ludus". Esta camada é composta por manifestações
culturais cristalizadas como códigos.
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MODO DE CITAR: BETTI, Mauro. A cebola dos conteúdos da educação física. Apostila, 2020. Disponível em:
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LUDUS
BE T TI , 2 0 2 0
BETTI; GOMES-DA-SILVA, 2 0 19
Veja-se o exemplo do futebol (um jogo de invasão), que pode assumir rios
formatos, transitar entre a condição de "jogo" e de "esporte telespetáculo" (BETTI, 1998),
das "peladas" à "Copa do Mundo FIFA", passando pelo "golzinho", pelo "futebol de rua" etc.
O que marca a diferenciação do futebol conforme regulamentado e gerenciado pela FIFA e
confederações nacionais e locais, é sua codificação mais delimitada, mais rígida, obrigatória
para tod@s que quiserem competir no âmbito destas instituições.
Fica mais cil entender as diferenças quando consideramos as funções de um
"código", diferenciando-o da "linguagem" (processo, capacidade de produzir signos), nos
termos em que se vê no quadro a seguir.
CÓDIGO
- Convenciona certas relações entre os signos e seus significados, em um dado âmbito sociocultural.
- Estabelece relações distintivas entre os signos válidos e não válidos, bem como as regras de
articulação/combinação entre eles.
- Limita as possibilidades de escolha entre alternativas interpretativas, ao pressupor uma forte
intenção comunicativa.
FONTE: GOMES-DA-SILVA; SANT'AGOSTINO; BETTI (2005)
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Por fim, a última camada que sugiro (poderá haver outras...) diz respeito a uma
dimensão socioantropológica, à vinculação concreta dos jogos a contextos socioculturais ou
comunidades específicas (jogos populares, indígenas, africanos) ou a modos de
presença/virtualização do corpo-em-movimento no mundo (jogos eletrônicos).
LUDUS
BE T TI , 20 2 0
BETTI; GOMES-DA-SILVA, 2 0 19
E a BNCC-EF? Bem, vejo na "cebola dos conteúdos" uma perspectiva mais avançada e
coerente para pautar os conteúdos da Educação Fìsica (que depois precisam ser
devidamente tematizados) do que o proposto na BNCC-EF. Mas também nela vejo um modo
de melhor entender a classificação dos conteúdos proposta naquele documento federal.
Porque as classificações dos "objetos de conhecimento" propostas na BNCC não conversam
entre si, porque têm pontos de partida diferentes, porque não há um critério unificador.
Ao contrário, na nossa "cebola dos conteúdos" é possivel realizar alinhamentos e
relações coerentes entre as diversas camadas. Por exemplo, o futebol é ao mesmo tempo
"agôn", "jogo de invasão", "esporte" e, eventualmente, "popular". Ou uma dança oriunda
das culturas africanas é também "jogo rítmico" e pode ser "mimicry". Ou "vertigo" pode
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MODO DE CITAR: BETTI, Mauro. A cebola dos conteúdos da educação física. Apostila, 2020. Disponível em:
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associar-se a "jogos integrativos" (relacionados ao meio-ambiente natural) e a práticas
corporais de aventura. Alea pode alinhar-se a "Jogos de raciocínio" e a jogos eletrônicos, ou
eventualmente a "esporte" (no caso dos e-sports). E assim por diante.
É como se as sucessivas camadas da nossa cebola pudesssem girar
independentemente umas das outras, procurando proximidades e compatibilidades em suas
lógicas motrizes internas e contextos socioculturais.
LUDUS
BE T TI , 2 0 2 0
BETTI; GOMES-DA-SILVA, 2 0 19
Então, quando a BNCC fala em jogos populares do contexto comunitário, ou regional ,
ou nacional, ou mundial, sugerimos alinhar o jogo específico às camadas da "cebola`. É agôn
ou...? . É jogo de rebatida ou...? É Esporte ou....? É tradicional ou...?
Vamos novamente exemplificar com o futebol, representando agora graficamente
este "alinhamento", após ter "girado" as diversas camadas.
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MODO DE CITAR: BETTI, Mauro. A cebola dos conteúdos da educação física. Apostila, 2020. Disponível em:
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LUDUS
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BETTI; GOMES-DA-SILVA, 2 0 19
Tenho a expectativa de que a "cebola dos conteúdos" poderá funcionar como uma
espécie de "lente corretiva" para dirimir a "miopia" da classificação dos conteúdos presente
na BNCC-EF do Ensino Fundamental. Assim, poderá facilitar aos professores e professoras a
compreensão das características e possibilidades de cada prática corporal específica, e,
portanto facilitar sua tematização e o planejamento de ensino.
Adicionalmente, a taxonomia aqui proposta poderá responder de modo satisfatório às
diferenças entre "jogo" e "esporte", já que estas configurações da cultura (corporal) de
movimento são intercambiáveis e às vezes de difícil delimitação (quando é jogo, quando é
esporte...) em suas manifestações concretas. Do mesmo modo, ficam melhor respondidas as
relações entre "luta" e "esporte", já que um "jogo de luta" pode também ser codificada
como um esporte, ou não...
Por fim, não se incomode se, figurativamente falando, a "cebola" fizer arder seus
olhos: seu olhar pedagógico, seu olhar científico... Afinal, para que a cebola contribua para
uma comida saborosa, precisa ser descascada. Lembrando Peirce (1972) comparo tal
16 PROIBIDO REPRODUZIR E/OU COMPARTILHAR INTEGRALMENTE
MODO DE CITAR: BETTI, Mauro. A cebola dos conteúdos da educação física. Apostila, 2020. Disponível em:
<https://www.researchgate.net/publication/342672062_A_CEBOLA_DOS_CONTEUDOS_DA_EDUCACAO_FISICA_uma_alternativa_a_BNCC>.
ardência com a irritação provocada pela dúvida que questiona nossas crenças arraigadas, e
que nos leva a investigar outras possibilidades.
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Article
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O presente ensaio traz uma reflexão teórico-conceitual sobre as possibilidades de enfrentamentos realizados pela Educação Física Escolar nesse período de ensino remoto. Para isso, valoriza e ressignifica o lugar e o saber da experiência para o quem se ensina (sujeito da experiência), uma vez que este não pode ser universalizado, devido ao seu caráter de historicidade. A perda do lócus tradicional para a práxis pedagógica em Educação Física, substituído pelo espaço abstrato viável do aluno, nos desvela uma janela de renovação dos processos de ensino e aprendizagem em nosso campo de tematização. Concluímos que, para além do objeto, as intencionalidades pedagógicas e o conjunto “como, quando e onde ensinar” são questões indissociáveis que exigem o nosso protagonismo enquanto docentes da/na condição do ensino remoto. Disso é fundamental a compreensão de que não há possibilidade de substituição do tempo e espaço aula e que este é condição elementar da experiência.
Chapter
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Neste texto apresento uma forma específica de uso dos conhecimentos da Praxiologia Motriz no processo de tomadas de decisão que orientou a formulação de uma proposta curricular para a Educação Física escolar. Conhecimentos utilizados de forma stricto sensu, bem como de forma lato sensu. Dessa forma, na primeira parte do texto apresento o sentido que a Educação Física ganha dentro desta proposta, bem como quais são os campos de conhecimentos com os quais se ocupa. Na segunda parte explicito como alguns conhecimentos do campo da praxiologia são mobilizados para estruturar os saberes com os quais trata a Educação Física e como critérios vinculados à estrutura dos esportes são utilizados para propor a tematização de parte dos conhecimentos vinculados a esse universo.
A janela de vidro: esporte
  • Mauro Betti
BETTI, Mauro. A janela de vidro: esporte, televisão e educação física. Campinas: Papirus, 1998.
Educação física e sociologia: novas e velhas questões no contexto brasileiro
  • Mauro Betti
BETTI, Mauro. Educação física e sociologia: novas e velhas questões no contexto brasileiro. In: CARVALHO, Y.M. de; RUBIO, K. (Org.). Educação física e ciências humanas. São Paulo: Hucitec, 2001. p. 155-169.
Educação Física e mídia: novos olhares, outras práticas
  • M Betti
  • Imagem E Ação
BETTI, M. Imagem e ação: a televisão e a educação física escolar. In: BETTI, M. (Org.). Educação Física e mídia: novos olhares, outras práticas. São Paulo: Hucitec, 2003, p. 91-137.
Educação física e sociedade. 2. ed. ampliada. São Paulo: Hucitec
  • Mauro Betti
BETTI, Mauro. Educação física e sociedade. 2. ed. ampliada. São Paulo: Hucitec, 2009a.
Educação física escolar: ensino e pesquisa-ação. Ijuí: Ed. Unijuí
  • M Betti
BETTI, M. Educação física escolar: ensino e pesquisa-ação. Ijuí: Ed. Unijuí, 2009b.