ChapterPDF Available

Toponímia e (i)migração no Norte de Mato Grosso os antropônimos em nomes de fazenda em Sorriso – MT

Authors:
  • Universidade do Estado de Mato Grosso, Sinop, Brasil
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
4
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
Tales Nereu Bogoni
Organizadores: Neusa Inês Philippsen e José Leonildo Lima.
E-mail: editora@unemat.br
D6182
DIVERSIDADE E VARIAÇÃO LINGUÍSTICA EM MATO
GROSSO /
ORGANIZADORES: NEUSA INÊS PHILIPPSEN; JOSÉ
LEONILDO LIMA.
CÁCERES: EDITORA UNEMAT, 2018.
228P.
INCLUI BIBLIOGRAFIA
ISBN: 978-85-7911-176-1
1. LINGUÍSTICA. 2. LETRAS. 3. MATO GROSSO. I.
DIVERSIDADE E
VARIAÇÃO LINGUÍSTICA EM MATO GROSSO. II.
PHILIPPSEN, NEUSA INÊS;
LIMA, JOSÉ LEONILDO.
CDU 81`4(817.2)
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
2
SUMÁRIO
PREFÁCIO.................................................................................................................................................04
Leandra Ines Seganfredo Santos
APRESENTAÇÃO....................................................................................................................................07
Neusa Inês Philippsen
José Leonildo Lima
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso (DIVALIMT): apresentação do
projeto.........................................................................................................................................................14
Neusa Inês Philippsen
A alternância entre as fricativas e africadas, a alternância de [ãw] e [õ] final e o gênero
gramatical: marcas do português arcaico no falar cuiabano?...........................................................25
José Leonildo Lima
Uso de empréstimos linguísticos da língua inglesa na linguagem do “make-up”:
características fonéticas e transglossia..................................................................................................43
Olandina Della Justina
Juliana Freitag Schweikart
Toponímia e (i)migração no Norte de Mato Grosso: os antropônimos em nomes de fazenda
em Sorriso MT........................................................................................................................................71
Fernando Hélio Tavares de Barros
Lucas Löff Machado
Neusa Inês Philippsen
Marcadores discursivos na fala de migrantes pioneiros em Sinop MT....................................101
Grasiela Veloso dos Santos Heidmann
Prévias do Atlas semântico-lexical do Nortão de Mato Grosso.....................................................117
Antônio Tadeu Gomes de Azevedo
Valéria Faria Cardoso
Os róticos em contexto Norte mato-grossense: variação em posição de ataque
silábico......................................................................................................................................................133
Terezinha Della Justina
O ensino de língua materna na perspectiva Sociolinguística........................................................150
Daniella Correa Alvarenga
O Talian: os processos de transmissão e manutenção linguística da comunidade ítalo-gaúcha-
norte-mato-grossense.............................................................................................................................170
Jéssica Martins Maraccini
A variável concordância verbal na primeira e terceira pessoas do plural em dois bairros de
Sinop- MT................................................................................................................................................190
Andressa Batista Farias
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
3
O preconceito linguístico no âmbito escolar: análise de situações preconceituosas com
alunos em duas escolas públicas na cidade de Sinop MT....................................................207
Josilene Pereira dos Santos
SOBRE OS AUTORES...........................................................................................................................224
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
71
TOPONÍMIA E (I)MIGRAÇÃO NO NORTE DE MATO GROSSO: OS
ANTROPÔNIMOS EM NOMES DE FAZENDA EM SORRISO MT
Fernando Hélio Tavares de Barros
Lucas Löff Machado
Neusa Inês Philippsen
APRESENTANDO O ASSUNTO
A porção norte de Mato Grosso tornou-se uma zona de interesse da Dialetologia
brasileira contemporânea
1
, motivada por sua história de mobilidade e recente colonização
agrícola (1960-1980). Por conta desse jovem assentamento linguístico do português e sua
constituição heterogênea, a Dialetologia tradicional o considera um território linguístico
incaracterístico (NASCENTES, 1923), no entanto, para a visão pluridimensional e
relacional, trata-se de um território caracterizado pela mobilidade e extremo contato
linguístico intervarietal.
A colonização majoritariamente sulista que se deu em alguns pontos desse
território se mostra interessante na perspectiva dialetológica justamente por seu caráter
topodinâmico (THUN, 1996), o que, para os estudos de língua e (i)migração, se concebe
como uma joia preciosa a ser documentada.
O estudo do léxico é, nesse sentido, uma das veias de pesquisa na visualização
dos contatos linguísticos entre grupos de matrizes distintas e substratos de língua(s)
minoritária(s) em campo de língua majoritária
2
.
A Onomástica, ciência que se atém a um estudo particular do léxico - os nomes ,
se dispõe como uma alternativa na percepção e identificação de minorias linguísticas em
um espaço sociogeográfico. Foi com esse propósito que, por meio dos trabalhos do projeto
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso (DIVALIMT)
3
, constituiu-se o Corpus
toponomástico alóctone da Região Norte de Mato Grosso. Este tem como propósito reunir a
toponímia de (i)migração nos municípios norte mato-grossenses. Trata-se de uma
contribuição tanto aos estudos onomásticos (toponímia e antroponímia), à Lexicografia e
Lexicologia, quanto aos da área da Italianística, Germanística, Lusitanística e aos de
difusão geográfica dos Nomes de Família
4
.
OS NOMES DE LUGARES (A TOPONÍMIA) E DE PESSOAS (ANTROPONÍMIA)
A Onomástica é um desdobramento da Lexicologia que estuda a origem dos
nomes próprios. Ela se subdivide nos estudos de antroponímia (do grego anthropos
1
Referimo-nos aos trabalhos de Philippsen (2013), Figueiredo (2014), Tavares de Barros (2014) e Cubas (2015).
2
La historia del léxico es una parte de la historia misma. Todos los cambios en el vocabulario se relaci onan, de
algún modo, con cambios políticos y culturales” (LÜDTKE, 1974, p. 31, apud SEABRA, 2004).
3
Projeto coordenado pela Profª Dra. Neusa Inês Philippsen (UNEMAT, Sinop).
4
Nesse artigo, paralelo ao termo Nomes de Família também são usados os antropônimo, sobrenome ou cognome familiar.
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
72
‘homem’ e onoma ‘nome’) e toponímia (do grego topos ‘lugar’ e onoma ‘nome’)
5
. A primeira
se ocupa dos prenomes, Nomes de Família e pseudônimos, a segunda dos nomes de
lugares.
Na visão de Baylon e Fabre (1982, p.11-12), a antroponímia se propõe a contribuir
fundamentalmente com o estudo de certos movimentos populacionais, ou seja,
povoamento e despovoamento de uma dada região. Assim como a toponímia e a
microtoponímia que, portanto, possibilitam estudar a ocupação do território pelas culturas.
Nesse estudo, nos ocupamos da toponímia, disciplina que se tornou ciência
autônoma na França principalmente com os estudos do linguista Auguste Longnon (1844-
1911) e, posteriormente, Albert Dauzat (1877-1955)
6
, quando a pesquisa onomástica se
tornou, de maneira específica, domínio de linguistas e filólogos (BAYLON e FABRE, 1982,
p. 39). No Brasil, os estudos de toponímia seguem majoritariamente a taxonomia de Dick
(1990), esta configurada nas bases teóricas de Dauzat (1877-1955). As contribuições da
imigração ou seja (de nomes alóctones) na toponímia brasileira é um dos temas
contemplados por Dick (1988), Frosi et al. (2008), Seabra (2004)
7
e Filgueiras (2011).
Dentro desse contexto teórico, os estudos que aqui especificamente nos
interessam são os de toponímia antroponímica. Ainda de maneira particular os
sobrenomes familiares em nomes de lugares, o que na taxonomia de Dick (1990) são
categorizados como antropotopônimos. Essa divisão taxonômica consiste no estudo de
nomes de lugares (topônimos) constituídos por meio de prenomes (Maria), sobrenomes de
família (Sousa), a combinação dos dois (Maria Sousa), e alcunhas (Xirú, Mané, Neguinho,
etc).
Nosso interesse com a recolha de Nomes de Famílias no espaço geográfico
denominativo é a visualização dos grupos alóctones na diatopia norte mato-grossense.
Quais dos grupos selecionados possuem maior/menor representatividade na arquitetura
antropotoponímica urbana e rural dessa área geográfica, e, o que isso pode revelar para os
estudos futuros.
Em área de (i)migração, a nomeação de lugares são, frequentemente, homenagens
a personalidades da classe política (vereadores, prefeitos etc.), comunitária (pioneiros,
professores etc.), familiar (membro destacado de uma família), eclesiástica (padres, bispos
etc.) locais ou não. Em regiões de colonização recente, a toponímia antroponímica
manifesta também a intenção de demarcar a posse do território ocupado (SEABRA, 2004,
p. 353), pois “con frecuencia la tierra fue designada a partir del nombre de su
proprietário”. (GONZÁLEZ E KREMER, 2001, p.870). Nesse processo, o Nome de Família
se infla de uma carga simbólica e social de poder e prestígio advindos dos bens materiais
denominados.
5
Baseado em Baylon e Fabre (1982, p. 06).
6
De acordo com Sindou (1993).
7
No que tange à imigração e territorialidade portuguesa na Região do Carmo MG.
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
73
A presença dos antropônimos em forma de topônimos é, portanto, uma maneira
de cristalizar no tempo o respeito às personalidades e grupos escolhidos, assim como os
feitos como parte da lembrança coletiva do lugar. Nesse sentido, Dauzat (1951, p.06)
elucida que os nomes de lugares “portent sur leur visage, l’empreinte des civilisations
passées. ”
8
OS ANTROPÔNIMOS EM NOMES DE FAZENDAS EM SORRISO MT
O corpus aqui apresentado reuniu nomes de diferentes origens na toponímia rural
de Sorriso constituído particularmente pelos nomes de fazendas.
Sorriso MT, município situado na microrregião do Alto Teles Pires, foi
emancipado em 1982. Sua colonização se iniciou na década de 1970, fruto dos
empreendimentos da Colonizadora Sorriso Ltda (atual Co. Feliz) que atraiu para o seu
projeto pequenos produtores rurais capitalizados (CUSTÓDIO, 2005). Atualmente, em
torno de 22.432 pessoas do total de 66.521 da população local são nascidas na Região Sul
do Brasil (IBGE 2010).
9
Os sulistas advêm de um contexto no qual já se encontrava a prática
de designar acidentes ou espaços geográficos com antropônimos que expressassem relação
de causa entre o imigrante e o espaço (DICK, 1988).
Por serem os pioneiros, os sulistas constituem a maioria dos grandes
latifundiários em Sorriso - MT. Sendo a produção de soja, arroz, milho e algodão os
principais produtos da região, nesta que é considerada uma das mais importantes
fronteiras agrícolas do país.
O objetivo nesse estudo foi descrever o mosaico microtoponímico desse
Município por meio do Mapa Municipal Estatístico de Sorriso - MT (IBGE, 2010) com a escala
de 1: 250,000. Nesse trabalho se considerou os antropônimos em nomes de fazendas como
objeto central de recolha e análise.
A microtoponímia constituída pelos nomes de fazendas revela não só uma face da
composição étnica local, como também um testemunho da história de mobilidade
(topodinâmica) dos migrantes. Algumas categorias toponímicas se colocam, nessa
situação, ao lado dos antropônimos. Como o caso dos etnotopônimos nas fazendas
Riograndense, Dos Gáuchos, 4 Gaúchos, Marauense
10
, Videirense
11
, além do hidrônimo Córrego
dos Gaúchos. Há, na sequência, formas que aparentam ser topônimos transplantados
12
(DICK, 1982). Aí se encontram os nomes de fazendas que possuem homônimos no/em: a)
Rio Grande do Sul: Pirapó, Carazinho, Soledade (2 registros), Farroupilha, Garibaldi, Getúlio
8
“trazem sobre seu rosto, as marcas das civilizações passadas(DAUZAT, 1951, p. 06) (tradução própria).
9
IBGE cidades
:http://www.cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=510792&search=mato-
grosso|sorriso|infograficos:-informacoes-completas. Acesso: 22.02.2016.
10
Sua origem advinda do município de Marau RS é uma hipótese.
11
Sua origem advinda do município de Videira - SC é uma hipótese.
12
“Este é o designativo geográfico que existe como tal em um determinado espaço e que passa a integrar a
nomenclatura de outra região qualquer, trazido pelo próprio povo que emigrou, ou influenciado por um mero
mimetismo. Nessa noção está implícito o sentido de ‘deslocamento’ ou ‘mudança” (DICK, 1982, p. 83).
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
74
Vargas, Palmeira das Missões, Santa Rosa, Vista Alegre e Sarandi (este também presente no
PR); b) Paraná: Marmeleiro, Cascavel, Realeza, Toledo, Pérola, Arapongas, Maringá, Céu Azul e
Pato Branco; c) Santa Catarina: Ipuaçu e Blumenau (3 registros); e d) São Paulo: Indiaporã.
Ainda se faz necessário agregar as formas que, de certo modo, expressam ora termos do
gauchismo e do tropeirismo, ora uma nostalgia da terra deixada na diáspora toponímica:
Faz. Querência (2 registros) e Faz. Tropeiro Velho.
Apesar de encontrarmos essa diversidade toponímica, nos concentramos nas
ocorrências de toponímia antroponímica, ou seja, nos Nomes de Famílias em
denominações de fazendas. A tarefa era, portanto, separá-los por origem etimológica, os
descrevendo em forma de fichas lexicográficas, quantificá-los e cartografá-los conforme o
grupo etnolinguístico que cada antropônimo pertence.
Constatou-se que 26% do total 100% dos nomes de fazendas de Sorriso - MT
eram constituídos por antropônimos. A espacialização dessa toponímia antroponímica se
dispõe no mapa a seguir:
Mapa 1 Localização dos antropônimos em nomes de fazendas em Sorriso MT
Fonte: autoria nossa / Base cartográfica: Mapa Municipal Estatístico IBGE 2010 / Escala: 1:
250,000
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
75
Tabela 01- Lista de antropônimos em nomes de fazendas
31 Faz. Irmãos Bedin
61 Faz. Caravagio
32 Faz. Alves
62 Faz. Barichello
33 Faz. Corlassoci
63 Faz. Parizzi
34 Faz. Santori
64 Faz. Toledo II
35 Faz. Salvati
65 Faz. Toledo III
36 Faz. Davoglio
66 Faz. Picoli
37 Faz. Vedana
67 Faz. Costareli
38 Faz. Brandão
68 Faz. Zonta
39 Faz. Bedin
69 Faz. Vale do Rio Polleto
40 Faz. Pigato
70 Faz. Rifel
41 Faz. Blumenau (a)
71 Faz. Jair Veber
42 Faz. Zankin
72 Faz. Zonta II
43 Faz. Santana (b)
73 Faz. Calcário Sousa
44 Faz. Nardino
74 Faz. Mariani
45 Faz. Blumenau (b)
75 Faz. Machado
46 Faz. Gemmi
76 Faz. Carillo
47 Faz. Rondon
77 Faz. Toledo
48 Faz. Brescansin (a)
78 Faz. Sousa
49 Faz. Colombo
79 Faz. Falchetti
50 Faz. Manfroi
80 Faz. Liberalli
51 Faz. Casarin
81 Faz. Lodi
52 Faz. Irmãos Cella
82 Faz. Bonetti
53 Faz. Zoldan
83 Faz. Prediger II
54 Faz. Gaspar (a)
84 Faz. Picolli
55 Faz. Garcia
85 Faz. Munaretto
56 Faz. Zanchetin
86 Faz. Jacob
57 Faz. Santin
87 Faz. Bonfanti
58 Faz. Balbinote
88 Faz. Brescansin (b)
59 Faz. Favareto
89 Faz. Rossato
60 Faz. Favareto (b)
90 Faz. Gaspar (b)
Obs: Esta lista contempla apenas as formas antroponímicas encontradas na Lexicografia consultada.
Os antropônimos foram classificados em quatro grupos, os quais apresentaram
diferentes proporções: italiano (65 topônimos), ibérico (15 topônimos), alemão (10
topônimos), eslavo (1 topônimo) e origem incerta (1 topônimo).
13
Na Lexicografia encontramos a forma Zanazi (DE FELICE, 1992, p. 270), entendemos que se trata dessa forma
antroponímica.
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
76
O gráfico 1 possibilita-nos observar que os Nomes de Família de origem italiana
compõem a maioria na constelação antroponímica, o que parece condizer com a realidade
da antrotoponímia urbana de Sorriso - MT, fato a ser discutido em outra oportunidade.
Gráfico 1: Produtividade dos antropônimos
Fonte: baseado nos dados da carta, IBGE 2010
Com a meta de visualizar a configuração antroponímica na diatopia,
cartografamos cada antropônimo, conforme o ponto geográfico de sua fazenda nomeada,
por meio do uso de diferentes símbolos para cada elemento alóctone: (Q) italiano, (E)
germânico, (□) eslavo e (∆) ibérico. A escolha dos símbolos e suas cores (preto e branco) se
guiou pela simplicidade e clareza da carta aos olhos do leitor. Uma maneira de fugir da
tentação que cai parte considerável dos trabalhos da Dialetologia tradicional: a de
cartografar as formas usando mbolos que dificultam a visualização e que não
possibilitam ao leitor formar isoglossas.
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
77
Mapa 2: Disposição diatópica dos antropônimos em nomes de fazendas em Sorriso - MT
Fonte: autoria própria / Base cartográfica: Mapa municipal estatístico IBGE 2010 / Escala: 1: 250,000
Conforme o Mapa 2 mostra, os cognomes italianos representam a maioria e
formam zonas compactas no espaço toponímico, em posição contrária está a única forma
eslava encontrada (Faz. Lemanski), esta de motivação patronímica de raiz germânica (cp.
Leman, Lehman ou Lemann). Evidencia-se, ademais, que as formas ibéricas e germânicas
buscam timidamente, dentro da situação de minoria, aproximarem-se. Seria, portanto, o
‘compadrinhamento’ uma explicação especulativa. O que subentende esse processo é que,
no correr de ocupação de um território, os semelhantes tendem a se aproximarem e formar
territorialidades por meio da rede de contatos e ‘remigração’
14
.
O que nos autorizou a classificação de cada forma antroponímica foi o estudo
etimológico e a contextualização de cada nome familiar na historiografia da (i)migração no
Brasil. Isso por meio da consulta dos sobrenomes em arquivos digitais de entrada de
imigrantes, dicionários e atlas onomásticos.
No que concerne à etimologia, o estudo dos sobrenomes guiou-se por três
direções: a) o senso histórico; b) o senso semântico; e c) o senso geográfico (ROHLFS, 1982).
As descrições cognominais apresentadas em anexo buscam conjugar tais direções com a
14
Ver Altenhofen (2013, p. 31).
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
78
perspectiva sincrônica e diacrônica. Contudo, nem sempre todas puderam ser
contempladas, justamente pela restrita bibliografia sobre a qual dispomos.
a. No que concerne aos sobrenomes que se remetem à grafia italiana
A expressividade dos antropônimos italianos na microtoponímia analisada reflete
o universo e a origem geográfica do elemento italiano estabelecido na história (i)migratória
de Sorriso. A ponte entre o velho mundo (Itália) e o novo (Brasil) costura um ambiente
denominativo, que, de certa forma mostra uma face da resistência da língua do imigrante
em meio ao processo de assimilação imposto pela sociedade receptora. Cada antropônimo,
assim como os topônimos em geral mettono in luce la trama occulta che unisce il passato
al presente
15
(FROSI et al., 2008, p.417).
No corpus recolhido se vê que a Itália setentrional, em particular o Vêneto e a
Lombardia, se apresenta como área em destaque na origem e ocorrência das seguintes
formas: Balbinote, Bassani, Basso, Barichello, Bertol, Brescasin, Casarin, Daroit, Davoglio,
Favaretto, Lodi, Munaretto, Piva, Riva, Rubin, Zanazi, Zanini e Zonta. Alguns cognomes
possuem motivação toponímica, ou permeiam o passado familiar a uma específica região
de origem. Este é o caso de Lodi (topônimo na Lombardia), Bedan (topônimo no Ticino),
Brescansin (topônimo em Treviso), Corlassoci (topônimo Colazzo na Lombardia) e Daroit
(topônimo no Valle Agordina). Já Bassani, Vigo, Mazzardo e Cella advêm de topônimos
presentes por toda Itália. Apesar de não constituir um nome de fazenda, foi encontrado na
diatopia o hidrônimo Jacomeli, grafada com ‘j’, provavelmente forma lusitanizada do
italianismo Giacomèlli
16
. Algumas formas antroponímicas apesar de não estarem na
Lexicografia onomástica possuem registro e o reconhecidas, na história imigratória,
como Nomes de Famílias italianas. Tratam-se apenas de Possamai, Pressi, Vedana
17
e
Liberalli.
b. A respeito dos sobrenomes que se remetem à grafia alemã
Nos antrotopônimos de origem teuta observam-se aspectos da história da língua
alemã que as fontes consultadas indicam tratar-se de processos anteriores à imigração. Por
isso, determinadas variantes de Nomes de Família já existiam antes do contato com o
português (ex. Jacob vs. Jakob, Müller vs. Miller, cf. o Atlas Alemão dos Nomes de Família).
Até o séc. XII no alto-alemão médio (Mittelhochdeutsch) as variedades escritas ainda
estavam balizadas pela oralidade e a elaboração de uma norma literária escrita se
encontrava em fase inicial (BESCH e WOLF, 2009, p. 180). Por outro lado, variantes
15
Colocam no claro a trama que une o passado ao presente (tradução nossa).
16
Do nome próprio Giacomo + sufixo elli (plural de ello), ou diretamente do prénome Giacomello. Giacomo vem do
latim Jacomus variante tardia de Jacobus (lat.) (CAFFARELLI E MARCATO, 2008, p. 852).
17
Vedana: Queirazza et al. (1997, p. 690) registram a forma Vedano em dois topônimos da Lombardia, Vedano al
Lambro e Vedano Olona. Contudo, não encontramos a forma Vedana como antropônimo na Lexic ografia consultada.
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
79
grafemáticas, como Veber (vs. Weber), surgiram provavelmente após a chegada dessas
famílias ao Brasil.
A comparação de fontes distintas disponíveis, como os atlas onomásticos e o
trabalho de pesquisa genealógica (livros de batismo, necrólogos e lápides cemiteriais
colhidos pelo grupo Genealogia RS, por exemplo), indica a presença de certos Nomes de
Famílias em outras regiões brasileiras, como no caso da família Weber (Veber) e Jacobi (Faz.
Jacob), que emigraram da região do Palatinado-Renano (Rheinland-Pfalz) para o Sul do
Brasil (cf. GENEALOGIARS, 2015).
c. Os sobrenomes ibéricos registrados
Os antropônimos ibéricos, que em parte é face da imigração portuguesa e da
atribuição de nomes no Brasil colonial, se revelam na microtoponímia em questão, em sua
maioria, possuírem uma origem lusa. Esses se encontram em situação minoritária frente
aos antropônimos italianos, e seus outros vizinhos. Remetem-se ora a topônimos em
Portugal, como o caso de Santana, Sousa e García, ora a substratos linguísticos da velha
România Lusitana, como Brandão, de origem germânica; Machado e Prema do latim. Ainda
se somam as formas que etimologicamente mostram uma relação laboral, como Abade, e
patronímica, no caso Alves. Da Espanha se registra Carillo, esse que parece ter raízes à
alcunha motivada por atribuições físicas, e Toledo, este último de motivação toponímica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os nomes de fazendas permitem, por si só, mostrar por meio da língua, uma
determinada estrutura socioeconômica e histórica de uma área geográfica. Em uma
história de contínua (i)migração e ocupação de territórios, o ato de nomear não escapa da
ânsia de exprimir as saudades, as imagens e as camadas de um passado linguístico
firmado em outras regiões.
Em Sorriso a migração pioneira sulista trouxe consigo um arcabouço linguístico
nominativo que, em sua maioria, tem raízes em terras estrangeiras e, que, de certa forma,
revelam faces e restos denominativos de línguas em seus alhures.
A constatação da preponderância dos italianismos (69%) na toponímia
antroponímica mostra que os ítalo-gaúchos (e demais ítalo-brasileiros), nesse contexto, por
razões de redes de contato e privilégios na onda (i)migratória, se tornaram maioria na
distribuição latifundiária de Sorriso - MT. A origem italiana dos colonos dessa região
gravita até em especulações e anedotas sobre a influência do italiano dialetal na motivação
do nome do município
18
.
18
Assim se apresentam os relatos recolhidos pela historiadora Regiane C. Custódio (2005, p. 77): “Olha, têm várias
versões. [...] tem tantas versões que a gente não sabe qual é a verdadeira. [...] inicialmente [...] vieram muitos de
origem italiana eles [...] plantavam arroz que em italiano é riso, então eles já, só riso aqui né, porque só tem riso,
riso, então diz que acabou saindo daí, mas eu não sei se essa é a versão correta não. [relato de uma professora]
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
80
Nesse espaço, portanto, os elementos ítalo, teuto e eslavo formam, por meio de
seus antropônimos, mais um caso de substrato linguístico na toponímia da América
portuguesa. E, que, apesar das línguas involucradas nesses substratos, nem sempre
subsistiram na competência oral, elas se cristalizam em antropônimos e topônimos em seus
diferentes modos de resistência diante ao processo de integração e avanço do português.
O caso estudado também mostrou como os antropônimos se tornaram topônimos,
assim como o contrário num processo denominativo rotativo, que entre a
antroponomástica e a toponomástica há uma relação estreita (GONZÁLEZ E KREMER,
2001, p.870). Além de ser uma contribuição à Onomástica brasileira, este estudo teve como
propósito provocar maior interesse da Italianística, Germanística, Lusitanística etc., assim
como à Lexicologia e à Lexicografia nessa região, e, de maneira geral, à Linguística da
migração (lingüística de la migración
19
), área que se fortalece na América Latina. É também
uma fonte para a Dialetologia contatual que até o momento se mostrou muito tímida em
pesquisar áreas de colonização [+] recente no Brasil Norte e Central
20
, bem como para a
historiografia das línguas minorizadas que se fazem presentes em um território amplo.
REFERÊNCIAS
ALTENHOFEN, C. V. Migrações e contatos linguísticos na perspectiva da Geolinguística
pluridimensional e contatual. Revista Norteamentos Unemat, Ed. 12, 2013/2. Disponível
em: http://projetos.unemat-net.br/revistas_eletronicas/index.php/norteamentos. Acesso:
07.04.2016.
ALMEIDA, G. D’. Dicionário Historico-Geográphico dos Açores. D. dos Açores; Ponte
Delgada, 1893.
BAYLON, C. e FABRE, P. Les noms de lieux et de personnes. Editions Natans, 1982.
BESCH, W. e WOLF, N. R. Geschichte der deutschen Sprache: Längsschnitte - Zeitstufen -
Linguistische Studien. Berlin: Erich Schmidt, 2009. (Grundlagen der Germanistik; 47.)
BILY, Inge. Der Familienname Lehman, seine Varianten und Ableitungen im Polnischen.
In: HEUSER, Rita et al. (Eds.). Familiennamengeographie: Ergebnisse und Perspektiven
europäischer Forschung. De Gruyter: Göttingen, 2011.
BRECHENMACHER, Josef Karlmann. Etymologisches Wörterbuch der Deutschen
Familiennamen. Volume. 1. Limburg/Lahn, 19571960.
CAFFARELLI, E. e MARCATO, C. I Cognomi d’Italia: Dizionario Storico Ed Etimologico.
Volume I A-G, UTET: Torino, 2008.
(CUSTÓDIO, 2005, p. 77). Veja também as explicações dadas por um dos colonizadores, Claudino Francio, ao Projeto
Memória (FERREIRA, 2008, p. 217).
19
Termo usado por Kluge (2007, p. 74).
20
Os Grupos de Pesquisa Alma Linguae: Variação e Contatos de Línguas Minoritárias (sob a coordenação do Prof. Dr.
Cléo V. Altenhofen - UFRGS) e o DIVALIMT (sob a coordenação da Profa. Dra. Neusa Inês Philippsen UNEMAT
Câmpus Sinop - MT), dos quais participamos, têm como propósito fomentar estudos que visam sanar essa lacuna.
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
81
CORTELAZZO, Manlio. Dizionario Veneziano: della língua e della cultura popolare nel
XVI secolo. La Line Editrici, Padova, 2007.
CUBAS, Marigilda Antônio. Atlas linguístico topodinâmico do território incaracterístico.
Tese de Doutorado - Universidade Estadual de Londrina: Londrina, 2015.
CUSTÓDIO, Regiane Cristina. Sorriso de tantas faces: a cidade (re) inventada Mato
Grosso pós 1970. Dissertação de Mestrado em História da Universidade Federal de Mato
Grosso. Cuiabá MT, 2005.
DAUZAT, Albert. Les noms de lieux: origine et évolution. Imprimiere Librairie Delagrave:
Paris, 1926. Redição: 1951.
DE FELICE, E. Dizionario dei cognomi italiani. Arnoldo Mondadori Editore: Milano,
1992.
______. I cognome Italiani: Rivelamenti quantitativi dagli elenchi telefonici:
informazioni socioeconomiche e culturale, onomastiche e linguistiche. Società Editrice
SEAT Il Mulino, La Grafica e Stampa s.r.l di Vicenza, Bologna: 1980 .
DICK, M. V. de P. do A. A Motivação Toponímica: Princípios teóricos e Modelos
Taxionômicos. São Paulo: FFLCH/USP, 1990.
______. Toponímia e imigração no Brasil. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros
IEB. Universidade de São Paulo. São Paulo, nº 29, p. 83-92, 1988.
______. Origens históricas da Toponímia Brasileira. Os nomes transplantados. Revista do
Instituto de Estudos Brasileiros IEB. Universidade de São Paulo. São Paulo, nº 24, p. 75-
96, 1982.
DUBOIS, Jean et at. Le dictionnaire de Linguistique et des sciences du langage. Larousse;
Paris, 2012.
DUDEN. Das Herkunftswörterbuch. Etymologie der deutschen Sprache. 5 ed. Berlin,
2014.
______. Familiennamen. Herkunft und Bedeutung (bearbeitet von Rosa und Volker
Kohlheim). Mannheim-Leipzig-Wien-Zürich, 2000.
FAURE, Roberto; RIBES, Maria A.; GARCÍA, Antônio. Diccionario de apellidos
españoles. Espasa Calpe: Madrid, 2001.
FERREIRA, João C. V. Cidades de Mato Grosso: origem e significado de seus nomes.
Cuiabá, 2008, 240 p. Ed. Memória Brasileira.
FILGUEIRAS, Zuleide Ferreira. A presença italiana em nomes de ruas de Belo Horizonte:
passado e presente. Dissertação de Mestrado, UFMG, Belo Horizonte, 2011.
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
82
FIGUEIREDO, Carla Regina de Souza. Topodinâmica da variação do português gaúcho
em áreas de contato intervarietal no Mato Grosso. Tese de Doutorado UFGRS: Porto
Alegre, 2014.
FRANCIPANE, M. Dizionario Ragionato dei Cognomi Italiani. 1 ed. Milano: RCS Libri,
2005.
FROSI, Vitalina Maria. Sobrenomes italianos: um estudo onomástico. Revista Signum,
Londrina, n. 17/2, p.389-412, dez. 2014.
FROSI, V. M.; FAGGION, C. M.; DAL CORNO, G. Toponimi italiani in terra brasiliana.
In: Rivista italiana di onomastica, n.14, v.2; RIO Roma, 2008.
GENEALOGIARS. Famílias de Origem Alemã no Rio Grande do Sul - Volume I. 2015,
432 p.
GOTTSCHALD, Max. Deutsche Namenkunde. 6 ed. Berlin, 2006.
GONZÁLEZ, A. M. C. e KREMER, D. Onomástica: estudio de los nombres propios. In:
GÜNTER, H. et al. (orgs.) Lexikon der romanistischen Linguistik: LRL. M. N. V.:
Tübingen, 2001.
HEINTZE-CASCORBI. Die deutschen Familiennamen gesichtlich, geographisch,
sprachlich. Halle/S. Berlin: Buchhandlung des Waisenhauses G.m.b.H, 1933.
JABERG, K. e JUD, J. Sprach und Sprachatlas Italiens und der Schweiz. Band II, 1929.
KUNZE, Konrad e NÜBLING, Damaris (Eds.). Deutscher Familiennamenatlas. Vol. 1:
Graphematik/Phonologie der Familiennamen I: Vokalismus, bearb. von Christian
Bochenek und Kathrin Dräger. Vol. 2: Graphematik/Phonologie der Fami- 2 liennamen II:
Konsonantismus, bearb. von Antje Dammel u. a. Berlin, New York, 2009/2011.
KLUGE, Bettina. Algunos aspectos descuidados en la investigación sociolingüística del
habla rural latinoamericano: la relación campo-ciudad y la dinámica migratória. In:
SCHRADER-KNIFFIKI, M. e GARCÍA, L. La Romania en interacción: Entre historia,
contacto y política. v.18, Iberoamericana: Madrid, 2007.
LA STELLA, Enzo T. Dizionario dei nomi di persona: santi e fanti. Zanichelli editore:
Bologna, 2009.
LÜDTKE, Helmut. Historia del léxico románico. Gredos, 1974.
MACHADO, José Pedro. Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. 1.
ed. em 3 vols. Lisboa: Editorial Confluência,1984.
______. Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Lisboa: Ed. Alfa. 6 vols, 1991.
______. Dicionário etimológico da língua Portuguesa. Lisboa: Edit. Confluência (3a. ed.),
1977.
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
83
NASCENTES, A. O linguajar carioca. 2. ed. completamente refundida. Rio de janeiro :
Organização Simões, 1953. [1923]
NUNES, N. N. Antroponímia primitiva da Madeira (séculos XV e XVI). Dissertação de
mestrado Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 1996
PHILIPPSEN, Neusa I. A constituição do léxico norte mato-grossense na perspectiva da
geolinguística: abordagens sócio-semântico-lexicais. Tese de Doutorado Universidade do
Estado de São Paulo: São Paulo, 2013.
PUTZ, H. (2011): Die Auswanderung von Bayern nach Lateinamerika im 19.
Jahrhundert. In: Hartmann, Peter C./ Schmid, Alois (Eds.) Bayern in Lateinamerika.
Transatlantische Verbindungen und interkultureller Austausch, München (= Zeitschrift für
bayerische Landesgeschichte, Beihheft 40).
QUEIRAZZA, G. G.; MARCATO, C.; PELLEGRINI, G. B.; SICARDI, G. P.;
ROSSEBASTIANO, A. Dizionario di Toponomastica: storia e significato dei nomi
geografici italiani. UTET, Torino, 1997.
REINA, J. C. Familiennamengeographie in Spanien auf der Grundlage von
Telefonbüchern. p.119-141. In: HEUSER, R. et al. Familiennamengeographie: Ergebnisse
und Perspektiven europäischer Forschung.Walter de Gruyter GmbH e Co. KG,
Berlin/New York: 2011.
ROHLFS, Gerhard. Dizionario storico dei cognomi in Lucania: repertorio onomástico e
filologico. Longo Editore: Ravenna Itália, 1985.
ROHLFS, Gerhard. Dizionario storico dei cognomi salentini: Terra d’Otranto. Congedo
Editore: Galatina Itália, 1982.
SEABRA, M. C. T. de. A formação e a fixação da Língua Portuguesa em Minas Gerais: a
Toponímia da Região do Carmo. Tese de Doutorado, UFMG: Belo Horizonte, 2004.
SINDOU, Raymond. Albert Dauzat. In: Actas do XIX Congreso Internacional de
Linguística e Filoloxía Románicas, Universidade de Santiago de Compostela: A Coruña,
1989. p.685-687
TAVARES DE BARROS, F. H. Migração e territorialização do alemão e do português
como línguas de (i)migração em Porto dos Gaúchos - MT : configurações do
multilinguismo em fronteira da Amazônia. Dissertação de Mestrado UFRGS: Porto
Alegre RS, 2014.
THUN, Harald. Movilidad demongráfica y dimensión topodinámica. Los montevideanos
em Rivera. In: RADTKE, Edgar e THUN, Harald. Neue Wege der romanischen
Geolinguistik: Akten des Symposiums zur Empirischen Dialektologie (Heidelberg/Mainz
21.-24.10.1991) Kiel: Westensee-Vel, 1996.
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
84
ZINGARELLI, Nicola. Lo Zingarelli: vocabulário della Lingua Italiana. Zanichelli editore,
Ed. 12, Bologna, 1993.
Anexos:
a. Único sobrenome eslavo registrado
Lemanski: Tem origem no alemão Lehmann que por sua vez originou-se no alto-
alemão médio (lehenmann). Significa aquele nobre que na Idade Média recebia uma
propriedade (Lehen), uma casa ou uma colocação em troca da fidelidade para com outro
nobre (DUDEN, 2000, p. 416). De acordo com Bily (2011, p.173), Lehmann é um dos Nomes
de Família trazidos para o oeste da Polônia através da migração alemã para essa região.
Por conta do contato alemão-eslavo este nome sofreu alterações. Lehmann pode ainda ser
encontrado com as seguintes grafias: Leman, Lehman ou Lemann, e com diferentes
sufixações: -ski; -czyk; -owicz/-(i)ewicz; -ik; -ek; -ki/ewicz; -owski. Todavia, o sufixo ski é o
mais corrente
21
e possui o significado patronímico “filho de” (KUNZE e NÜBLING, 2012,
p. 543).
b. A etimologia dos sobrenomes italianos registrados
A seguir, listam-se os antropônimos em nomes de fazendas que possuem raízes e
uso no mundo da língua italiana. Para tal, consultaram-se as fontes lexicográficas de
Caffarelli e Marcato (2008), De Felice (1980; 1992), Francipane (2005), Zingarelli (1993), La
Stella (2009), Queirazza et al. (1997), Cortelazzo (2007) e Rohlfs (1985; 1982).
Baratto: [Do provençal barat] permuta, câmbio, compra e venda (ZINGARELLI,
1993, p.196). Segundo De Felice (1980, p. 316), Baratto pertence ao grupo das terminações -
atto e -atta, que é de caracterização, com valor pejorativo, diminutivo afetuoso, étnico, de
trabalho ou também genericamente derivativo. Cognome mais presente na região do
Vêneto (Itália) que em Friuli-Venezia Giulia, onde é mais comum na variedade regional ou
dialetal ato e àt. Também há menor frequência no Trentino-Alto Adige e no Piomonte
norte ocidental. Caffarelli e Marcato (2008, p.148) o registram como cognome numeroso em
duas regiões: Vêneto, em particular Treviso e Padova, e Napoli. Segundo os autores (idem,
2008, p.148) é um sobrenome de aproximadamente 2.000 italianos.
Balbinote: Francipane (2005, p. 768) registra Balbinòt como variante vêneta de
Balbi. Esta última é variante de Balbo [lat. Bǎlbus e Balbȋnus], prenome com raízes
medievais. Caffarelli e Marcato (idem, 2008, p.135) dizem que esse cognome vêneto é
21
“Bei polnischen Familiennamen ist ski das häufigste Suffix (Sckowronek 2001, 201-203, Tab. 4.6 und 4.7)“ (BILY,
2011, p. 169).
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
85
particular da região de Vittorio Veneto e Farra d’Alpago, com presença esparsa no
Trevigiano.
Bassani: Provavelmente originado de basso [lat. băssu(m)], Caffarelli e Marcato
(2008, p.170) o registram como cognome derivado do topônimo Bassano, este que se
apresenta difuso por toda a Itália. Entre as localidades estão Bassano del Grappa, Bassano
Bresciano, Bassano Romano e Bassano in Teverina. Trata-se de um cognome
predominantemente lombardo-vêneto, presente também em Bologna e Torino.
Basso: [lat. băssu(m), de origem incerta] (ZINGARELLI, 1993, p.202). Segundo
Caffarelli e Marcato (2008, p.170), o cognome Basso, assim como sua forma análoga Bassi, se
baseia no adj. basso (port. baixo) baixa estatura. É uma forma antroponímica
documentada desde o Medievo tanto como prenome, quanto como sobrenome familiar.
Basso é forma do norte da Itália, Basso e Bassi nomeiam em torno de 1.500 italianos.
Barichello: De étimo incerto, talvez originado de Baro com o sufixo icco ou -ello,
“persona sempre in movimento, vivace” (CAFFARELLI e MARCATO, 2008, p.158). Trata-se de
um cognome trevisano, presente também na província do Vicenza, Padova e Venezia.
(idem, 2008, p.158).
Bertol: De Berto, prenome, segundo Caffarelli e Marcato (2008, p.212). Francipane
(2005, p.330-331) registra apenas as variantes de Bertòldi (Bertaldi, Bertaldo, Berthodis, Bertodi,
Bertoldini, Bertòldo). O Sobrenome Bertòl é comum entre as províncias de Trento e
Bolzano/Bolzen (CAFFARELLI e MARCATO, 2008, p.212).
Bedin: Segundo Caffarelli e Marcato (2008, p.181), Bedin tem origem de Beda e
Bedo, ambos de tradição antroponímia germânica com o sufixo ino, o eventualmente da una
forma contratta di Bernadino o anche, in area settentrionale, di (Sa)dino ‘Sabatino’ con fonetica
dialettale.”(idem, 2008, p.181). Conforme ainda os autores (idem, 2008, p.181), Bedin é
sobrenome familiar com mais de 2.500 portadores na Itália Setentrional.
Bedan: Provavelmente variante antroponímica de Bedani. Este, segundo Caffarelli
e Marcato (2008, p.181), provém do topônimo ítalo-suíço Bedano no Cantão do Ticino. O
cognome é difuso em Cremona, no cremonese, em Ferrara e esparso no nordeste do
território italiano (CAFFARELLI E MARCATO, 2008, p.181).
Bonfanti: Para Francipane (2005, p.339), tal sobrenome pertence ao grupo
formado por Boni, Bonetti, Bonini e tantos outros. De Felice (1992, p.82-83) classifica Bonfanti
como variante de Bonfante. Esse grupo formado da palavra bŏnus (lat.) possui motivação de
caráter augural e gratulatório. Com aspecto augural, Bonfante, portanto, vem do desejo “che
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
86
tu sai buon fantolino-fanciullo-ragazzo o figlio”
22
(FRANCIPANE, 2005, p.339). Segundo De
Felice (1992, p.83), Bonfante é difuso no norte da Itália (em particular Piemonte, Lombardia
e Liguria) e na Toscana.
Bonetti: Ver acima Bonfanti.
Brescansin: Provavelmente, segundo Caffarelli e Marcato (2008, p.297), este
cognome tem relação com o topônimo Brescanzin, Longhere Província de Treviso. Este
topônimo que parece ter origem do sobrenome Biscacin, Biscalcin presente entre 1569 e 1620
no território de Vittorio Veneto. A arealização do cognome Brescancin (grafado com -c-)
tem representatividade na província de Treviso (San Fior, Conegliano, Codogné, etc.), com
menor presença em Pordenone. (CAFFARELLI E MARCATO, 2008, p.297).
Camicia: [lat. camīsia, de etimologia incerta]. Indumento masculino e feminino, de
tecido leve com mangas longas ou curtas, [...] que cobre a parte superior do corpo.
(Tradução própria, ZINGARELLI, 1993, p.277). Segundo Caffarelli e Marcato (2008, p.359),
o cognome Camìcia divide espaço com Camici. Camici é toscano, e Camìcia se concentra na
região de Viterbese, especialmente a Montefiascone, Roma e Lariano-Rm, e um núcleo
menor se encontra entre as províncias de Bari e Matera.
Caravaggio: Caffarelli e Marcato (2008, p.391) o classificam como antropônimo de
origem toponímica (Caravaggio Bergamasco, ou fração de terra em Gabbioneta-
Cremona) ou devocional à N. S. de Caravaggio - Madonna di Caravaggio - ou retomada do
sobrenome do pintor Michelangelo Merisi (séc. XVI-XVII), dito ‘o Caravàggio’. Ainda
segundo os autores (idem, 2008, p.391), Caravaggio é cognome típico da província de Chieti
(Fossacesia, Lanciano e principalmente Rocca San Giovanni) e ocorre num pequeno núcleo
no Bresciano e na Lombardia. É necessário salientar que Caravaggio, como nome de fazenda
em Sorriso, pode ter motivação hagiotoponímica (advinda de devoção religiosa).
Casarin: De acordo com Caffarelli e Marcato (2008, p.410), Casarìn assim como
Casarino e Casarini possuem origem de Casaro + sufixo ino, eventualmente nel senso di
‘abitante della casera” (idem, 2008, p.410), ou derivação de Casera topônimo (Casalino,
Liguria). Casarin é sobrenome marcante na província de Venezia e Treviso, denominando
em torno de 2.500 italianos (idem, 2008, p.411).
Cella: Do lat. cĕlla, espaço pequeno e modesto, despensa, cantina [...]
(ZINGARELLI, 1993, p.326). Na classificação de Francipane (2005, p.381), pertence ao
grupo do sobrenome Celli. Esse sobrenome tem várias fontes cruzadas sobre sua origem.
22
„Que tu sejas um(a) bo(a/m) criança/rapaz/filho“ (tradução nossa).
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
87
Umas das citadas pela autora são: 1. Origem toponomástica; várias localidades omônimas
por toda a Itália e (assim também o registra Caffarelli e Marcato, 2008, p.437), 2. De
motivação profissional/ lavorativa “da mestieri medievali (cellàio o cellario; cantiniere e
dispensiere: dal tardo-lat. cella: cantina, dispensa, deposito, camera o cappella vicino al mare come i
Cellamare)” (FRANCIPANE, 2005,p.381). De acordo com Caffarelli e Marcato (2008, p.437),
Cella denomina em torno de 4.000 italianos. Obs: Este cognome apresenta duas ocorrências
na diatopia toponímica em estudo.
Chiapeti: De chiàppa (ita.) [lat.căpula(m)] (ZINGARELLI, 1993, p.341). Assim como
Chiappétta, a forma cognominal Chiappétti é, segundo Caffarelli e Marcato (2008, p.454), a
conjunção do sufixo etto com Chiappa, Chiappi ou “direttamente da Chiappetta o diminutivo di
Chiapa’natica.” (idem, 2008, p.454). Menos numeroso que Chiappétta, Chiappetti se encontra
“a Milano, nel Bergamasco, nell’Aconitano, a Napoli e altrove.” (idem, 2008, p.454).
Corlassoci: Caffarelli e Marcato (2008, p.518) registram o cognome Corlazzòli.
Seria, portanto, Corlassoci uma de suas variantes (hipótese). Corlazzòli, segundo tal fonte
lexicográfica (idem, 2008, p.518), é referente ao topônimo Colazzo (Traona Lombardia), um
cognome pouco numeroso, com ocorrências no Bergamasco e em Offanengo (Cremona
Lombardia).
Colombo: Do latim colŭmbu(m), é como primeira acepção para várias espécies de
pássaros (ZINGARELLI, 1993, p.397). De Felice (1992, p.105) relata que Colombo como
Nome de Família tem uma de suas motivações, a influência do cristianismo, uma vez que a
colomba (pomba) é sinônimo de pureza, inocência e mansidão. Por esta razão era um
cognome atribuído a crianças órfãs (DE FELICE, 1992, p.105). Além disso, Colombo também
pode ser reflexo de vários topônimos italianos (idem, 1992, p.105). Trata-se de uma forma
antroponímica panitaliana, com maior frequência no norte da Itália. (idem, 1992, p.105). No
contexto brasileiro Colombo também topônimo no estado do Paraná.
Costarelli: Conforme Caffarelli e Marcato (2008, p. 527), tal cognome vem de um
apelativo geográfico Costarella ‘terreno íngreme’, ou de nome de pessoa Còsta derivado
com sufixo arello. Denomina pouco menos de 1.000 italianos, em dois núcleos regionais; o
siciliano e o outro umbro, marchigiano, com ocorrências também na Perugia e no
Anconitano (CAFFARELLI e MARCATO, p.527).
Daroit: Caffareli e Marcato (2008, p.578) registram forma cognominal Da Roìt, esta
originada do topônimo Roit, localidade na comuna de La Valle Agordina. Segundo os
autores (idem, 2008, p.578), é um Nome de Família particular de Belluno, “in particolare a La
Valle Agordina, dove un Baptista de Ruoit è documentato nel 1609 [De Nardin Tomasi 1991]”
(CAFFARELLI e MARCATO, 2008, p.578).
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
88
Davoglio: De acordo com Caffarelli e Marcato (2008, p.582), Davòglio é
provavelmente composto pela variante Avòlio, precedente de preposição (D’). Avòlio é
nome pessoal bem difuso na antroponímia medieval (CAFFARELLI e MARCATO, 2008,
p.117), mas também pronúncia italiana meridional para avòrio
23
[lat. ebŏreo(m)]. Avório por
ser uma substância de cor branca é provavelmente a motivação antroponímica do
homônimo prenome em forma metafórica, pois, como salienta La Stella (2009, p.52), tenta
descrever as características físicas, como pele lisa e branca, além de ter motivação
augurante
24
. Davòglio possui pouca ocorrência, se restringindo a Suzzara Província de
Mantova e na Lombardia (CAFFARELLI e MARCATO, 2008, p.582).
Donato: Segundo Caffarelli e Marcato (2008, p.697), tal cognome tem origem do
prenome Donato, este que deriva do latim arcaico Donatus (donatus - particípio, pt. doado),
que no âmbito cristão tem relação com o significado congrulatório ‘doado, concedido (por
Deus)’. Ainda de acordo com os autores (idem, 2008, p.697), trata-se de um cognome
prevalentemente da Itália meridional, particularmente numeroso em Roma, Milano e
Genova. Nomeia em torno de 11.000 italianos.
Falcheti: Para Caffarelli e Marcato (2008, p. 729), tal cognome origina-se de Falco,
prenome, com o sufixo etto. A forma Falchetti se encontra tanto no Bergamasco como na
província de Perugia, mas seu núcleo numeroso está em Milano e Roma. (CAFFARELLI e
MARCATO, 2008, p.729).
Favaretto: É forma proveniente de Fàbbro [lat. fǎbru(m), de etimologia incerta],
que, segundo Zingarelli (1993, p.664), designa o “artigiano che lavora in ferramenta”
25
, ou
seja, o ferreiro. De Felice (1980, p.295) o registra como cognome, junto de Fàvaro e Fàvero,
peculiar do Vêneto, segundo o autor, sobretudo na província de Venezia, Treviso e
Padova. Ainda, de acordo com De Felice (1980, p.295) a forma pertence ao étimo latino
faber (fabri) com três grandes formas variantes: 1ª fabr-/fab- , 2ª favar- ou faver-/favr- e a 3ª
frab- ou frav-/frau-. Obs: este cognome apresenta duas ocorrências na diatopia toponímica
de Sorriso.
Garibaldi: De Felice (1980, p. 312-313) registra como pertencente ao grupo aldo /
-alda, sufixo de origem germânica que não possui nenhum valor semântico específico até
em nomes não germânicos, aparece em Nomes de Família com maior frequência no norte
da Itália. Caffarelli e Marcato (2008, p.829) o classificam como cognome originado de
23
1. Sostanza bianca, dura e compatta, che forma uno dei costituenti principali dei denti dei Vertebrati [...] 2. Colore
bianco tendente al giallo, caratteristico della sostanza omonima” (ZINGARELLI, 1993, p. 179).
24
“descrive desiderabili caratteristiche fisiche, in particolare uma pelle liscia e Bianca come l’avorio ed è quindi usato
come augúrio o come constatazione” (LA STELLA, 2009, p. 52).
25
Artesão que trabalha com a produção de ferramentas (tradução nossa).
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
89
prenome Garibaldo, de origem germânica. Garibaldi nomeia em torno de 2000 italianos,
sendo numeroso na região de Genova. É topônimo na Colônia Italiana do Nordeste do Rio
Grande do Sul, Brasil.
Gemmi: De Gemma [lat. gĕmma(m)] (ZINGARELLI, 1993, p.759). De caráter
augural, provém de nome próprio de pessoa Gemma, Gemmo (CAFFARELLI e MARCATO,
2008, p.839). Gemmi é cognome representativo na região de Regio Emilia, sobretudo, em
Firenze (Florença) e Scandicci, em Calcinaia e Parma (idem, 2008, p.839).
Germiniani: Seria uma variante cognominal de Germini (?) com sufixo -ani.
Germini, segundo Caffarelli e Marcato (2008, p.844), origina-se do nome de pessoa Germino,
Germinus, Germinius. Ou se refere à forma Geminiàni, registrada por De Felice (1992, p.133),
baseada no nome Geminiàno de tradição escrita ou Gemignano e Gimignano de tradição
oral/popular (toscana) “del latino tardo di ambienti cristiani Geminianus, derivato da
Gemninus, cioè geminus ‘gemello(v. Gemèlli)” (DE FELICE, 1992, p.133).
Lodi: De Felice (1980, p.186) registra como um cognome formado de motivação
étnica e toponímica que tem por referência onomástica os centros habitados. Com
existência histórica na Lombardia, em particular a província de Milano. É um cognome
toponímico (De Felice, 1980, p.193) mais frequente na província de Emilia Romagna que na
Lombardia. Na definição de Zingarelli (1993, p. 2115) Lodi é um topônimo lombardo;
“La città fu costruìta (1158) dopo la distruizione del vicino sito di Lodi, la romana
Laus Pompei (o Pompeia) oggi detto Lòdi Vècchio e da essa há tratto Il nome. Laus
‘onore, lode, fama’ era nome augurale per Il fondatore Cneo Pompeo Strabone (sebbene
Plinio la dica di origine galica).
Lunardelli: Lunardu é nome próprio de pessoa, variante siciliana de Leonàrdo, de
uso excepcional em outras regiões (LA STELLA, 2009, p.229). Leonàrdo, por sua vez é de
origem germânica leonhart, lev- ‘leão’ e -hart ‘forte’, portanto ‘forte como um leão
(ZINGARELLI, 1993, p.2110). Lunardelli é, provavelmente, cognome derivado do nome
Lunardo somado ao sufixo èlli (pl. èllo èlla) que marca sua condição de diminutivo
(CAFFARELLI e MARCATTO, 2008, p.XVII).
Maggi: Para Francipane (2005, p.516), do latim Magnus (grande), Maggi faz parte
de um grupo de sobrenomes derivados do nome próprio de pessoa de período medieval,
com possivel motivação a “tradizione storica e agiològica, sin dal Medioevo Cristiano, grazie al
culto di circa dieci San Magno (vissuti fra i secc. III-XII)”. Ainda segundo a linguista (idem,
p.516), trata-se de um sobrenome difuso no centro-norte italiano e bastante frequente na
Lombardia.
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
90
Manfroi: Francipane (2005, p.521) registra a variante Manfrói como pertencente a
um grupo maior, no qual estão as formas Manfrédi, Manfrón, Manfróni, Manfrotto, Manfrìn,
entre outras. Do longobardo-germânico magin: força, potência e valor; e frithu: amizade,
concórdia, paz (FRANCIPANE, 2005, p.521).
Mariani: De mariàno e mariàna, que se refere à Maria, mãe de Jesus.
(ZINGARELLI, 1993, p.1057). Estes bastante difusos na Itália Setentrional e Central
originam-se do lat. marianus, derivado de Mario ou Maria. (LA STELLA, 2009, p.237). De
Felice (1992, p.162) acredita que a base seja o nome Mariàno, que continua no cognome
latino Marianus derivado de Marius, este de origem etrusca. Contudo o autor também
reconhece a influência ao culto de San Mariano, paretimológico com Mariàno “di Maria
Vergine”. De Felice (1992, p. 162) diz que tal cognome possui maior frequência na
Lombardia, Emilia-Romagna e Toscana. Para Francipane (2005, p.880), o cognome Mariani
deriva dos nomes próprios de pessoa Maria e Mariano, seria, portanto, um matronímico.
Além dessa acepção, De Felice (1992, p.162) salienta que na Lombardia Mariani se refere,
em certos casos, aos topônimos Mariàno (BG) ou Mariàno Comense (CO).
Mazzardo: Do latim massa (gr. máza ou mágja): empaste, amassadura,
empastamento, “ammasso gromatico agricolo dell’alto Medievo: tenuta di campagna, fondo,
podere, da cui [..]” (FRANCIPANE, 2005,p.528). Francipane (2005, p.527) registra a forma
Massardo como sobrenome motivado por nome comum ou de lugar; Massa. Segundo a
autora, Massa é base de topônimos frequente por toda a Itália.
Munaretto: Derivado de Munaro, este, segundo De Felice (1980, p.307), é uma
variante dialetal de Mugnàio ou Mugnàro [lat. molināriu(m) de molīnum ‘moinho’]
(ZINGARELLI, 1993, p.1143), profissão que designa tanto aquele que trabalha com a
máquina de moer grãos no Moinho, quanto o proprietário ou gerente deste, ou seja, o
moendeiro ou moleiro. Assim define Zingarelli (1993, p.1143) “Chi per mestiere macina grano
o granaglie al mulino/ Proprietario o gerente di un mulino”.
De Felice (1980, p.307) diz ainda que “Munari o Munaro, di rango médio, caratteristici
del Veneto centro-orientale, del Friuli-Venezia Giulia e dell’Emilia-Romagna.” A variante
Munaro se vê registrada na carta 251 do Sprach und Sprachatlas Italiens und der Südschweiz /
Atlante Linguistico Italiano Svizzero - AIS, como se pode ver abaixo na área grifada de
vermelho (grifo nosso). A carta mostra a área de realização dessa variante restrita em parte
da Itália Setentrional.
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
91
Munaro: carta 251- Il Mugnaio, AIS Band II (JABERG E JUD, 1929)
Nardino: Assim como Nardo e Narduccio, provavelmente variante abreviada de
Leonardo ou Bernardo ou outro nome que contenha a raiz germânica hard(h)u (corajoso),
assim afirma La Stella (2009, p.259).
Picoli: Variante em número de piccolo (pequeno), alusão a baixa estatura. De
Felice (1980, p.230) o classifica como sobrenome derivado de uma motivação hipocorística
que se baseia no intento de caracterizar o sujeito com distinção, ou ironia e sátira, mas
também de caráter cômico ou ofensivo, determinadas características físicas ou intelectuais,
ou traços de caráter ou de comportamento habitual da pessoa ou do grupo familiar.
Também estão nesse grupo motivacional os sobrenomes; Grossi, Rossi, Allegri, Astuti,
Bruschi, Onesti, Biondi, entre outros. Assim também o classifica Francipane (2005, p.589),
que comenta que Piccoli é um sobrenome frequente no Vêneto, assim como Del Pìccolo e
Picolìn (idem, 2005, p.590).
Pigato: Francipane (2005, p.589) registra Pigatti, Bigatti (entre outros), estes var. do
lat. pīcŭlus. Já Caffarelli e Marcato (2008, p.227) registram as formas Bigatti e Bigatto. Bigatto
(de orig. da Itália setentrional) do latim bŏmbyce(m) - de etimologia incerta - é uma variante
para ‘bicho da seda’ (it. baco da seta), também é usado semanticamente para um homem
esperto (astuto) e dissimulado (sonso, fingido, sorrateiro)
26
(ZINGARELLI, 1993, p. 220).
Parizzi: Provavelmente pertecente ao grupo antroponímico Parisi
(FRANCIPANE, 2005, p.182), no qual se inclui também Parigi, Paris, Parisatto, Parise,
Parisini, Parìsio, entre outras variantes. Do lat. pǎrīsĭi antigo nome étnico para os
26
“Uomo furbo e sornione” (ZINGARELLI, 1993, p. 220).
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
92
primeiros habitantes dos arredores do que hoje se conhece como Paris França
(FRANCIPANE, 2005, p.182).
Paris: Ver acima Parizzi.
Piva: Do latim falado pīpa(m), este de pipīre (piar), de origem onomástica
(ZINGARELLI, 1993, p.1358). Provavelmente de origem hipocorística, uma vez que,
segundo Francipane (2005, p.594), tal cognome tem por referência o instrumento musical, a
gaita de fole (it. cornamusa) ou variante de pipa (lat.), esse, um tipo de cana que serve para
assobiar ou fumar. Piva, assim como Pivéta, Pivetti, Pivato, Pivano e Pivani, são cognomes
próprios do centro-norte italiano, com maior frequência na Veneza.
Poleto
27
: Polètto assim como Polètti, segundo De Felice (1992, p.187-188), são
variantes de Pòlo (Pàolo, Pàola, etc.). Do latim Paullus (diminutivo de paucus ‘pouco’), tem
significado de ‘o pequeno’ ou ‘o jovem’(DE FELICE, 1992, p.188). Segundo o autor (1992,
p.188), este nome é bem difuso nos domínios do mundo cristão justamente pelo prestígio e
culto a San Paolo di Tarso, o apóstolo.
Riva: Do latim rīpa(m), estrema parte de terra que limita a água do mar, do rio etc.
(ZINGARELLI, 1993, p.1570). De Felice (1980, p.186) o registra como um cognome formado
de motivação étnica e toponímica que tem por referência onomástica os centros habitados.
De Felice (1992, p. 211) diz ser um cognome difuso no norte da Itália, com alta frequência
na Ligúria. Sua motivação pode ser ainda ilusão aos cursos e espelhos d’água – “riva del
mare, di corsi e specchi d’acqua” ou ainda ao terreno em desnível “terreno in pendio” (DE
FELICE, 1992, p. 211).
Rocco: Francipane (2005, p. 622) o registra como vindo de nome próprio de pessoa
Ròcco (antropônimo). Este, por sua vez, é de origem medieval de raiz germânica [germ.
hroc] de significado obscuro, uma vez que, para alguns corresponde a ‘cornacchia’ (Corvus
corone, pássaro similar ao corvo (ZINGARELLI, 1993, p. 456), para outros um ‘homem
forte’ (do antigo nórdico krókr) ou ‘cheio de cura’ (alemão antigo ruoh) (ZINGARELLI,
1993, p. 2111).
Rosina: Do lat. rŏsa(m) (ZINGARELLI, 1993, p. 1580). Francipane (2005, p. 83) o
classifica como originário de nome próprio de pessoa (prenome) ou de santa (hagiônimo),
sendo a motivação também advinda no nome comum de flor ou cor (rosa), “che ispira,
simbolicamente, il nome di donna” (idem, 2005, p. 83). Por ser também um prenome (LA
STELLA, 2009, p. 315), caracterizando-se um caso de matronímio.
27
Fazenda Rio Poleto (n.102), julgamos que o hidrônimo tem motivação antroponímica.
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
93
Rubin: De Rubìno [lat. rŭbeus, vermelho] (ZINGARELLI, 1993, p. 1584).
Francipane (2005, p. 930), assim como De Felice (1992, p. 218), classificam como cognome
vêneto variante de Rubino, originário de nome próprio de pessoa de caráter augural e
congratulatório relacionado ao homônimo precioso mineral (idem, 2005, p. 629).
Salvati: Para Francipane (2005, p. 636), do nome próprio de pessoa (antropônimo)
e de santo (hagiônimo): Salvatore. Segundo a autora (idem, 2005, p. 636), Salvatore tem
motivação à vinda do Messias, Jesus Cristo “chi è venuto sulla terra per rendere tutti ‘salvi’:
perciò Salvatore-Salvi-Savati formano semanticamente una strettissima famiglia di cognomi
‘sacrali”.
Santori: Do lat. sanctus-sancti-sanctum, Francipane (2005, p. 218) diz que Santòri é
variante de Santòro. Este - de origem de nome próprio de pessoa antropônimo e hagiônimo
surge da forte tradição onomástica cristã vinculada ao culto de todos os santos
(FRANCIPANE, 2005, p. 218).
Santin: Ver acima Santori.
Scariot: Cortelazzo (2007, p. 1188-1189) registra como Scariòt (Schariòt) o
sobrenome de Judas (bíblico), e sinônimo de traidor. Não se encontrou Scariot na
Lexicografia especializada consultada em Nomes de Familia, apesar de sabermos da
existência dessa forma como antropônimo.
Vigoli: Francipane (2005, p. 725) registra Vigolo como variante de Vico. Este do
sânscrito weik-, base do latin vȋcus e grego oíkos; ambiente, casa, vilarejo. Vigolo é topônimo
na região lombarda do Bergamo. Vigoli, portanto, nessa interpretação, gentílico dado aos
moradores dessa localidade.
Zanazi: Ver Zanini (abaixo).
Zanini: Assim como Zanazi, Zanini é variante de Zani ou Zane, estes hipocorísticos
de Giovanni
28
(DE FELICE, 1992, p.270). Segundo De Felice (1992, p. 270), as variantes de
Zani são recorentes na Itália Setentrional, em específico na região de Venezia, Emilia-
Romagna e Lombardia oriental.
Zanchetin: Segundo Francipane (2005, p. 735), esse sobrenome é uma variante dos
que surgiram da “voce polisemica italiana e regionale zanca o sarda e toscana cianca” (2005, p.
28
Zanni e suas variantes correspondem a Giovanni, onde na Itália lombarda e vêneta ocorre no lugar da realização da
[g] palatal do italiano a [z] sonora italiana (DE FELICE, 1992, p. 270).
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
94
735) para Gamba (perna). Prossegue ainda a autora, que Zanca pode servir como alusão às
pernas tortas (gambe storte), ou no dialeto Emiliano às cochas e pernas longas.
Zankin: Provavelmente o cognome Zanchin. Obs.: ver acima Zanchetin.
Zoldan: Francipane (2005, p. 669) o classifica ora como variante do arabismo
29
soltān [sultā’n], este cognome baseado em titulo nobre oriental (sultão), ora como variante
étnica local dos topônimos Zoldo Alto e Val di Zaldo no Belunese, Itália setentrional.
Zonta: No Dicionário Veneziano de Cortelazzo (2007, p. 1537), Zonta é variante
regional vêneta para ‘aggiunta’ (ita. Standard). Entre as possibilidades semânticas,
Cotelazzo (2007, p. 1537) registra; 1. Marinha - ‘união de peixes similares’; 2. Chegada; 3.
Nos órgãos públicos, união de membros que compõem o ordinário. Por sua vez, Zonto
(idem, 2007, p. 1537) é algo ou alguém que chegou ‘arrivato’, unido ou enganado. Não se
encontrou Zonta na Lexicografia especializada consultada em Nomes de Família, apesar
de sabermos da existência dessa forma como antropônimo. Este antropônimo ocorreu duas
vezes na diatopia toponímica em estudo.
c. Descrição dos sobrenomes ibéricos registrados
A seguir, listam-se os antrotopônimos de origem ibérica, encontrados com base
nas seguintes obras de referência: Faure et al. (2001), Machado (1977; 1984), Reina (2011),
Nunes (1996), Almeida (1893), Corominas (1983), Nascentes (1955), além disso no corpus
eletrônico Cartografia de Apelidos de Galicia
30
, do Instituto de Língua Galega -IL
(Universidade de Santiago de Compostela - USC), e no INE
31
(Instituto Nacional de
Estatística Espanha):
Abade: Trata-se de uma variante portuguesa de Abad (lat. Abba, abbatis), no
entendimento de Faure et al. (2001, p. 01). Abad (variante castelhana) é um arcaísmo para
‘cura, sacerdote’ e sua motivação antroponímica pode ser diversa (FAURE et al., 2001, p.
01). Segundo os dados do Instituto de Língua Galega, na Galícia se encontram as variantes
antroponímicas Abad e Abades.
Alves: Segundo Nascentes (1955, p. 14) e Machado (1984), Alves é derivado de
Alvares através das formas Alverez, Alverz (Alvrez). Conforme os dados que o INE nos
29
“Di sicuro e storico influsso arabo (XI-XIII sec.) in Italia. In pieno Medioevo (835) ‘sultani’ erano i potenti e ricchi sovrani
dell’Impero Ottomano (Turchia)” (FRANCIPANE, 2005, p. 669).
30
Veja no portal de Cartografia de Apelidos de Galicia (IL Universidade de Santiago de Compostela):
http://ilg.usc.es/cag/index.jsp
31
Instituto Nacional de Estatística (Espanha): http://www.ine.es/welcome.shtml
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
95
dispõe, na Espanha Alves é Nome de Família de alta frequência. Na Galícia Alves é mais
frequente nos concelhos fronteiriços com Portugal.
Brandão: No latim medieval, Brendanus, segundo Machado (1984, p. 278), deriva-
se do nome do S. Brandão, certamente por intermédio do latim da Igreja Brendanus de
provável origem céltica. Isso se confirma até certo ponto, pela origem irlandesa do santo.
Ainda segundo o filólogo, pode ter origem no germânico ocidental (Brand, cp.
MACHADO, 1952, I, p. 459) com significado de “jogo” e depois de “espada”, podendo ser
interpretado como “combatente” (FÖRSTEMANN e NUNES apud NASCENTES, 1955, p.
49). Na Galícia, é sobrenome ocorrente no Sul da província (dados do IL-USC).
Garcia: Nome de Família pré-romano, Garcia (Al. Bär pt. ‘Urso’) (REINA, 2011,
p. 123) tem origem provavelmente ibérica (NASCENTES, 1955, p. 122). Pidal supõe uma
origem anterior derivada do basco, (k)artz na etimologia de Meyer-Lübke (apud,
NASCENTES, ibid.). Segundo Duden (2000, p. 262), é um sobrenome hispânico com origem
basca que significa “o rapaz” (gartze + artigo definido a). Garcia é Nome de Família comum
por toda a Espanha, de acordo com o INE.
Gaspar: De etimologia incerta, segundo Faure et al. (2001, p. 380), em latim
Gasparus ou Gaspar. Gaspar é tanto nome de batismo ou Nome de Família. Sua motivação
vem do mundo cristão, uma vez que o nome faz referência a “uno de los tres reyes magos que
venía de Oriente, según la tradición postevangélica” (FAURE et al., 2001, p. 380). Segundo os
dados do INE, Gaspar é Nome de Família frequente na Espanha, em particular na
Extremadura, Andalucía e Ilhas Canárias.
Machado: Do latim marculatu-, derivado de marculus (PLÍNIO, Nat. Hist., VII, 195,
apud. MACHADO, 1952, IV, p. 11), i. e., diminutivo de marcus, “martelo” (MACHADO,
ibid.). Nome de Família bastante comum em Portugal, também em forma de topônimo
(NUNES, 1996, p. 26). Nascentes (1955, p. 183) fala de um sobrenome (alcunha) que em
famílias “plebeias”, embora também famílias “nobres”, seria daquele que fabricava ou
vendia machados, pondo porventura como insígnia de sua loja a figura desse instrumento.
Era frequente mulheres adotarem o gênero feminino para o nome de suas famílias, neste
caso Machada (Machado, 1984, p. 913), assim também afirma Nunes (1996).
32
. Faure et al.
(2001, p. 482) indica sua presença também na Espanha. Na Galícia apresenta sua maior
ocorrência nos concelhos fronteiriços com Portugal (dados do IL - USC).
32
“Parece fazer alusão a um instrumento de trabalho. Trata-se possivelmente de um fabricante ou vendedor de
machados. A forma feminina é atribuída à mulher do indivíduo com este segundo nome-alcunha” (NUNES, 1996, p.
24).
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
96
Santana: Segundo Machado (1984, apud SEABRA, 2004, p. 243), Santana
(aglutinação Santa + Ana) é topônimo frequente na Ilha da Madeira Portugal, no Brasil e
na Ilha de São Tomé. Sant’Anna também é topônimo nos Açores (ALMEIDA, 1893, p. 186).
Nascentes (1955, p. 273) reforça a origem religiosa do sobrenome e aponta para topônimos
no Brasil como a ilha do Maranhão dado por Francisco Racelly quando teria aportado em
1612 (ibid. p, 380). Na Gacia, Santana é Nome de Família frequente nos concelhos
fronteiriços com Portugal (dados do IL - USC).
Sousa: Segundo Nascentes (1955, p. 286), sobrenome de origem geográfica que
pode ter dado nome a uma cidade da Paraíba. Rio e povoação de Portugal. Cortesão
distingue entre Sousa, nome de rio, e Souza, nome de povoação, derivando aquele de saxa e
este de Socia. Faure et al. (2001, p. 707) nos dá também um quadro da distribuição diatópica
de Sousa na Espanha, sendo presente em toda Galícia e oeste da Andaluzia. Faure et al.
(2001) afirma tratar-se de uma derivação do sobrenome luso Souza e cogita a origem deste
em algum nome pré-romano. A forma mais anterior, segundo Machado (1984, p. 1367),
seria Sausa.
Toledo: Topônimo na Espanha que, segundo Nascentes (1955, p. 299),
corresponde a um sobrenome de origem geográfica (do latim Toletum). Para Faure et. al.
(2001, p. 726), refere-se a um sobrenome bastante frequente e distribuído pela Espanha.
Também é comum o sobrenome-gentílico Toledano ‘natural de Toledo’. Este nome de
fazenda também pode ser um corotopônimo, uma vez que há uma localidade homônima
no Sul do Brasil (Toledo Paraná). Esta forma apresenta três ocorrências na diatopia
antroponímica estudada.
Rondon: Segundo Corominas (1983, p. 68), a expressão de rondón’
(impetuosamente) tem origem do fr. ‘de randon’ (correndo, rapidamente), este, por sua vez,
originado do alemão dialetal franc. ‘*RAND’ (corrida, carreira) procedente do germanismo
*RINNAN (correr). Rondón é Nome de Família com alta ocorrência em várias partes de
Espanha, em particular na Andalucía e Ilhas Canárias, de acordo com os dados do INE.
A relativa baixa densidade de antrotopônimos ibéricos similar ao elemento
teuto não deixa dúvidas que o elemento luso, principalmente, não foi o protagonista na
aquisição de grandes latifúndios em Sorriso.
d. A etimologia dos sobrenomes teutos registrados
A seguir, encontram-se listados os antropônimos em âmbito de língua alemã,
identificados e descritos a partir de consulta às obras de Duden (2000), Brechenmacher
(1957), Kunze e Nübling (2009), Heintze-Cascorbi (1933).
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
97
Blumenau: Blumen-au (pt. Floresrio) é nome de diferentes tipos de topônimos no
contexto geográfico de língua alemã (partes de uma área não cultivada [Flurnamen] e de
lugares [Orstnamen]). A produtividade de Blumen para designar nomes lugares aparece em
Blum- enroth, berg, Blumrich, schein, como destaca Gottschald (2006, p. 119). Segundo Duden
(2014, p. 136), o sufixo Au (Aue e Mhd. ouwe) corresponde originariamente a uma área
hidrográfica, campo ou ainda porção de terra sobre a água (“Insel” pt. Ilha) e manifesta-se
atualmente em nomes de rios alemães (cp. Ach, Aach, Brigach, Salzach, Fulda), além de
contextos agrários (Goldene Aue, Isarauen, Reichenau). No caso de Blumenau, (antro)
topônimo em Santa Catarina, sua motivação veio do nome do colonizador e médico
alemão (por nome), que motivado pelas condições da terra promoveu a imigração de seus
patrícios para essa região, onde hoje situa o município de mesmo nome. Pode, portanto, no
caso desse nome de fazenda, tratar-se de um corotopônimo sem deixar de ser também um
antrotopônimo e, antes de tudo, um topônimo.
Freider: Segundo Brechenmacher (1957, p. 498-499), possui a forma vreide no alto-
alemão médio, cujos significados seriam impetuosidade ou animação extraordinária (Al.
Gewalttätigkeit e Übermut). Em relação às entradas com esse nome em listas telefônicas
(verwandte.de) foram registrados cerca 34 pessoas com esse nome no Sul da Alemanha.
Gubert: De acordo com o trabalho de Heintze-Cascorbi (1933, p. 229), o nome
Gubert parece ser uma variante originada da raiz Gun do alto alemão antigo (Gumpert ou
Gumbert). No site verwandte.de
33
, base de listas telefônicas, a forma Gubert está registradas
em sobrenomes de 229 pessoas.
Jacob: Tem origem no hebraico como nome próprio e, segundo o dicionário
Duden (2000, p. 347), a grande difusão atualmente está relacionada à sua existência como
nome próprio nos séc. XII-XV quando surgiram os Nomes de Família. Também a
peregrinação a Santiago de Compostela (Jakobsweg) na Espanha desde o séc. XI pelas
populações cristãs através da Europa é citada como difusora do nome e responsável por
inúmeros derivados (no eslavo, por exemplo, Jakobasch, Kubitschek), uma vez que o
padroeiro de Santiago é o apóstolo Jakob (BRECHENMACHER, 1957, p. 765). Segundo
Brechenmacher (1957, ibid.), trata-se de um dos nomes mais antigos integrados na língua
alemã. Encontra-se no Sul do Brasil a variante Jacobi, cuja família católica emigrou da
localidade de Reil, próxima ao rio Mosela no estado do Renânia-Palatinado (GenealogiaRS,
2015, p. 188) inicialmente em 1855.
33
Vale ressaltar que o site www.verwandt.de utiliza listas telefônicas como fonte de dados, assim como o Atlas
Alemão dos Nomes de Família (registradas até 2005).
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
98
Muller: O sobrenome Müller (original do latim molinae, corresponde à profissão
moleiro) é registrado no séc. XIV (HEINTZE-CASCORBI, 1933, p. 358) e apresenta um
repertório relativamente amplo de variações (vocálicas) na própria matriz de origem como
se encontra nas grafias Müller, Möller, Miller (cp. Atlas Alemão dos Nomes de Família, KUNZE
e NÜBLING, 2009, mapa 112) ou ainda com vogal da raiz escrita com y
(BRECHENMACHER, 1957, p. 293). Müller é o sobrenome mais frequente entre os Nomes
de Famílias na Alemanha (DUDEN, 2000, p. 466).
Prediger: Trata-se originalmente de uma alcunha relacionada à ordem dos
dominicanos (DUDEN, 2000, p. 513). Membro ou de alguém que residia próximo ao
monastério dessa ordem (ibid.). Das 195 cidades localizadas na Alemanha que atestam a
presença desse nome em listas telefônicas, 30 encontram-se na região no entorno do rio
Reno (Rhein) próximo a Colônia (Köln) (Fonte: verwandte.de).
Rifel: Alcunha que se remete ao pente (Rifel) utilizado ou fabricado pelo linheiro
para separar o linho da baganha. Sua origem é registrada no alto-alemão médio. Segundo
o site verwandte.de, que trabalha com listas telefônicas, a variante mais comum é Riffel.
Simon: Tem um homônimo Simmon utilizado como nome próprio e origina-se da
forma grega simós adaptada do hebraico Schimon (DUDEN, 2000, p. 621). Como aponta o
mapa abaixo, Simon possui ao menos outras três variantes que se distinguem pelo
alongamento da raiz (Simon vs. Siemon) ou pelo ‘s’ genitivo que indica relação de
patronímia (Simon vs. Simons). A cartografia indica ainda que a forma encontrada em
nosso banco de dados é também a mais recorrente na matriz de origem imigrante,
sobretudo no Centro-Oeste da Alemanha, de onde partiu o contingente majoritário de
imigrantes alemães para o Sul brasileiro (PUTZ, 2011: 266).
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
99
Fig. 3. Mapa 243 do Atlas Alemão dos Nomes de Família Simon, Simons, Siemon, Siemons:
Fonte: Atlas Alemão dos Nomes de Família (2009)
Veber
34
: Provavelmente Weber. Segundo o dicionário de nomes Duden (2000, p.
698), remete à forma do alto-alemão médio wëbaere associada ao ofício de tecelão. Até o ano
2000, esse sobrenome ocupava a sexta posição no ranking de sobrenomes mais frequentes
(idem.). De acordo com as listas telefônicas compiladas no site verwandte.de, há ocorrências
do nome do Oeste ao Sul da Alemanha, especialmente no entorno amplo do Hunsrück
(Munique com 1.480, Colônia com 1.066 e Hamburg com 1.002 registros, são os três
distritos com maior número de cidadãos detentores do sobrenome Weber [DUDEN, ibid.]).
Nos dados genealógicos (GenealogiaRS, 2015, p. 390), parte da família Weber teria
emigrado primeiramente de Bechtheim, no atual estado de Rheinland-Pfalz e,
posteriormente, para Campo Bom/RS.
34
Faz. Jair Veber (n.)
Diversidade e Variação Linguística em Mato Grosso
100
e. Antropônimos com classificação incerta
Carillo: A variante espanhola, segundo Faure et al. (2001, p. 221), corresponde a
uma alcunha relacionada à parte carnosa ao lado do rosto, a qual pode ter sido aplicada a
indivíduos com as bochechas grossas ou ainda a pessoas com (esp.) ‘mucha cara’, atrevidas,
descaradas, como sugere o livro de Alexandre (escrito em León em 1250). Trata-se de um
sobrenome bastante frequente na Espanha e distribuído por todo país. Na Galícia sua
variante Carrillo tem distribuição notável nos concelhos de Boqueixón, Vedra e Oroso
(dados do IL USC). Caffarelli e Marcato (2008, p.397) registram Carillo como forma
italiana derivada do sufixo illo mais o adjetivo ou nome de pessoa caro.
Observação: as formas Madiana, Sadiana, Fuchs, Furm, Sagel, Flor, Portinhol, Lucion,
Vavi, Vergutz e Pagnam não foram encontradas na Lexicografia.
ResearchGate has not been able to resolve any citations for this publication.
Prossegue ainda a autora, que Zanca pode servir como alusão às pernas tortas
  • Gamba Para
para Gamba (perna). Prossegue ainda a autora, que Zanca pode servir como alusão às pernas tortas (gambe storte), ou no dialeto Emiliano às cochas e pernas longas. Zankin: Provavelmente o cognome Zanchin. Obs.: ver acima Zanchetin. Zoldan: Francipane (2005, p. 669) o classifica ora como variante do arabismo 29
1537) registra; 1. Marinha -'união de peixes similares'; 2. Chegada; 3. Nos órgãos públicos, união de membros que compõem o ordinário. Por sua vez, Zonto (idem
soltān [sultā'n], este cognome baseado em titulo nobre oriental (sultão), ora como variante étnica local dos topônimos Zoldo Alto e Val di Zaldo no Belunese, Itália setentrional. Zonta: No Dicionário Veneziano de Cortelazzo (2007, p. 1537), Zonta é variante regional vêneta para 'aggiunta' (ita. Standard). Entre as possibilidades semânticas, Cotelazzo (2007, p. 1537) registra; 1. Marinha -'união de peixes similares'; 2. Chegada; 3. Nos órgãos públicos, união de membros que compõem o ordinário. Por sua vez, Zonto (idem, 2007, p. 1537) é algo ou alguém que chegou -'arrivato', unido ou enganado. Não se encontrou Zonta na Lexicografia especializada -consultada -em Nomes de Família, apesar
Descrição dos sobrenomes ibéricos registrados A seguir, listam-se os antrotopônimos de origem ibérica, encontrados com base nas seguintes obras de referência
Descrição dos sobrenomes ibéricos registrados A seguir, listam-se os antrotopônimos de origem ibérica, encontrados com base nas seguintes obras de referência: Faure et al. (2001), Machado (1977; 1984), Reina (2011),
Nascentes (1955), além disso no corpus eletrônico Cartografia de Apelidos de Galicia 30
  • Nunes
Nunes (1996), Almeida (1893), Corominas (1983), Nascentes (1955), além disso no corpus eletrônico Cartografia de Apelidos de Galicia 30, do Instituto de Língua Galega -IL (Universidade de Santiago de Compostela -USC), e no INE 31 (Instituto Nacional de Estatística -Espanha): Abade: Trata-se de uma variante portuguesa de Abad (lat. Abba, abbatis), no
Abad (variante castelhana) é um arcaísmo para 'cura, sacerdote' e sua motivação antroponímica pode ser diversa
  • Entendimento De Faure
entendimento de Faure et al. (2001, p. 01). Abad (variante castelhana) é um arcaísmo para 'cura, sacerdote' e sua motivação antroponímica pode ser diversa (FAURE et al., 2001, p.
Em relação às entradas com esse nome em listas telefônicas (verwandte.de) foram registrados cerca 34 pessoas com esse nome no Sul da Alemanha. Gubert: De acordo com o trabalho de Heintze-Cascorbi (1933, p. 229), o nome Gubert parece ser uma variante originada da raiz Gun do alto alemão antigo
  • Gewalttätigkeit E Übermut
Gewalttätigkeit e Übermut). Em relação às entradas com esse nome em listas telefônicas (verwandte.de) foram registrados cerca 34 pessoas com esse nome no Sul da Alemanha. Gubert: De acordo com o trabalho de Heintze-Cascorbi (1933, p. 229), o nome Gubert parece ser uma variante originada da raiz Gun do alto alemão antigo (Gumpert ou Gumbert). No site verwandte.de 33, base de listas telefônicas, a forma Gubert está registradas em sobrenomes de 229 pessoas. Jacob: Tem origem no hebraico como nome próprio e, segundo o dicionário
a grande difusão atualmente está relacionada à sua existência como (no eslavo
  • Duden
Duden (2000, p. 347), a grande difusão atualmente está relacionada à sua existência como (no eslavo, por exemplo, Jakobasch, Kubitschek), uma vez que o padroeiro de Santiago é o apóstolo Jakob (BRECHENMACHER, 1957, p. 765). Segundo
Encontra-se no Sul do Brasil a variante Jacobi, cuja família -católica -emigrou da localidade de Reil, próxima ao rio Mosela no estado do Renânia-Palatinado
  • Brechenmacher
Brechenmacher (1957, ibid.), trata-se de um dos nomes mais antigos integrados na língua alemã. Encontra-se no Sul do Brasil a variante Jacobi, cuja família -católica -emigrou da localidade de Reil, próxima ao rio Mosela no estado do Renânia-Palatinado (GenealogiaRS, 2015, p. 188) inicialmente em 1855.