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Experiências de uma nova economia digital no jornalismo brasileiro: a estratégia de interação colaborativa no Crowdfunding da Agência Pública / Experiences of a New Digital Economy in Brazilian Journalism: Strategy of Collaborative Interaction in Agência Pública's crowdfunding

Authors:

Abstract

Digital information provided easy access to many different scenarios and types of knowledge, besides strengthe-ning of media that survives independently managed, where technologies leverage the collective professional experience and techniques with funding from ‘new tools’ and society connected , as is the case of crowdfunding. This perspective of journa-lism that involves collaborative and financial participation of people, the brazilian case of ‘Agência Pública’ uses crowdfun-ding to promote investigative reporting and is the first project to use this strategy in Brazil. This paper relates the project with histories situations about associativism.RESUMOA informação digitalizada proporcionou um fortalecimento dos meios de comunicação que sobrevivem de gestão independente, onde tecnologias potencializam a atuação profissional e financiamento coletivo com técnicas provenientes de novas ferramentas e da sociedade conectada, como é o caso do crowdfunding. Nesta perspectiva de um jornalismo que envolve a participação de pessoas, a Agência Pública utiliza o crowdfunding para fomento de realização de reportagens investigativas e é o primeiro projeto jornalístico a utilizar tal estratégia no Brasil. O estudo relaciona o caso da Agência com experiências históricas, que já trabalhavam com associativismo.
Experiências de uma nova economia digital no
jornalismo brasileiro: a estratégia de interação
colaborativa no Crowdfunding da Agência Pública
Sérgio Luiz Gadini, Universidade Estadual de Ponta Grossa, Brasil
Isadora Ortiz de Camargo, Universidade de São Paulo/Agência Espanhola de Notícias-EFE, Brasil
Resumo: A informação digitalizada proporcionou um fortalecimento dos meios de comunicação que sobrevivem de gestão
independente, onde tecnologias potencializam a atuação profissional e financiamento coletivo com técnicas provenientes de
novas ferramentas e da sociedade conectada, como é o caso do crowdfunding. Nesta perspectiva de um jornalismo que
envolve a participação de pessoas, a Agência Pública utiliza o crowdfunding para fomento de realização de reportagens
investigativas e é o primeiro projeto jornalístico a utilizar tal estratégia no Brasil. O estudo relaciona o caso da Agência
com experiências históricas, que já trabalhavam com associativismo.
Palavras-chave: crowdfunding, interatividade informacional, webjornalismo, realidade criativa, financiamento coletivo
para inovação
Abstract: Digital information provided easy access to many different scenarios and types of knowledge, besides strengthe-
ning of media that survives independently managed, where technologies leverage the collective professional experience and
techniques with funding from new toolsand society connected , as is the case of crowdfunding . This perspective of journa-
lism that involves collaborative and financial participation of people, the brazilian case of Agência Públicauses crowdfun-
ding to promote investigative reporting and is the first project to use this strategy in Brazil. This paper relates the project
with histories situations about associativism.
Keywords: Crowdfunding, Interactivity, Webjournalism, Creative Reality, Innovation, Digital Economy
História de uma mídia ‘associativista e participativa’ no Brasil
o longo da história (moderna) da mídia brasileira diversas experiências de criação foram
pautadas por modos de gestão participativa, não necessariamente democrática, mas que contavam
com alguma forma de contribuição’ - seja financeira ou simbólica colaborativa - sem gerar
reconhecidos ensinamentos aos atores responsáveis pela produção editorial dos conteúdos publicados.
Não há, nos registros da historiografia da mídia no Brasil, estudo que sintetiza tais experiências
ou iniciativas. Entre as hipóteses, suspeita-se que o desconhecimento de tais projetos deve-se à força
dos modelos hegemônicos de comercialização centrada nas versões clássicas de empresas
capitalistas, familiares ou não. Lógico que existem estudos diversos que focam contribuições de
projetos editoriais associativistas, mas ainda parece haver uma lacuna bibliográfica na
identificação e compreensão histórica do papel de tais experiências, talvez com mais ênfase no caso
do Brasil especificamente. Em outros países da América Latina tais abordagens são mais freqüentes.
A iniciativa de Crowdfunding no Brasil surge inspirada em casos de jornalismo investigativo e
um dos exemplos é o projeto norte-americano ProPublica, onde eram feitas reportagens e projetos
especiais financiados com colaboração de voluntários1.
O presente estudo pontua experiências de projetos associativistas no Brasil o surgimento de
emissoras radiofônicas e, mais tarde, propostas participativas da igreja católica com o clube do
1 Para entender melhor a questão: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/por_que_fazer_um_lsquo_
crowdfunding_rsquo_para_jornalismo
A
Revista Internacional de Tecnología, Ciencia y Sociedad
Volumen 5, mero 1, <http://tecnociencia-sociedad.com>, ISSN 2530-4895
© Global Knowledge Academics. Sérgio Luiz Gadini, Isadora Ortiz de Camargo
Todos los Derechos Reservados Permisos: soporte@gkacademics.com
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ouvinte, além de outras iniciativas com base cooperativada, como a CooJornal (Cooperativa dos
Jornalistas de Porto Alegre/RS), que editou periódico com o mesmo nome entre 1974 e 1982. Tais
exemplos são experiências antecedentes que ajudam a entender o objeto deste trabalho, atual
modelo crowdfunding no Brasil.
O pioneirismo radiofônico no Brasil, identificado por autores da área (Federico, 1982; Ferraretto,
2012) como uma fase de surgimento/implantação (entre 1922 até meados dos anos 1930), tem uma
marca colaborativa. Segundo a história, a viabilização das primeiras projeções radiofônicas contaram
com a colaboração de interessados e voluntários em contribuir, como sócios, garantindo assim os
recursos mínimos de projetos, como foi o caso do Rádio Clube de Pernambuco (criado em 1919, em
Recife), da dio Sociedade do Rio de Janeiro (fundado em 1923, por Edgard Roquette-Pinto),
seguido da Rádio Clube do Brasil, criada em 1924, na mesma capital federal, dentro do mesmo
espírito associativo, em que os sócios eram a principal, quando não a única, fonte de recursos das
respectivas emissoras. A partir do final dos anos 1930, contudo, o modelo de colaboração associativa
será substituído, rapidamente, pelas inserções de ‘apoio’ comercial (reclames e afins).
Na mesma lógica, a experiência do Clube do Ouvinte, mantido por emissoras católicas, ao
longo das últimas décadas, revela uma eficaz estratégia de adesão, que conta com a contribuição
voluntária de simpatizantes ou fieis da igreja, que possibilitam manter diversos programas
radiofônicos pela identificação com “o clube que evangeliza”, como divulga a Rádio Sant’Ana (AM
900), na região dos Campos Gerais do Paraná, além de inúmeras outras emissoras católicas que
operam (muitas vezes em rede) na mesma perspectiva e se viabilizam por adesão voluntária. Vale
lembrar que, a partir do final dos anos 1990, algumas emissoras de rádio comunitária também
passaram a contar com participação colaborativa, tentando sobreviver em um cenário político que,
ainda, limita o alcance de tais iniciativas (entre 25 e 50 watts de potência) e também proíbe a
veiculação de inserções comerciais.
Ainda que em outra abordagem, a experiência da BBC (Britisch Broadcasting Corporation)
remete a um projeto similar de identificação com o telespectador britânico (Rothberg, 2011; p.15).
Fundada em 1922, a BBC surgiu como uma alternativa aos então sistemas hegemônicos de rádio
difusão (polarizados pela aposta comercial nos EUA e, de outro lado, pelo controle estatal na União
Soviética), em que um “imposto” específico possibilitou produções em rádio e TV sem dependência
mercantil ou de variáveis política pela gestão do Estado. E, ao longo de sua história, a principal fonte
de arrecadação do grupo reside na manutenção da ‘taxa’, que os contribuintes repassam mensalmente,
ao que tudo indica, pela própria convicção de identificação cultural com o projeto da rede.
Desigualdade midiática e surgimento de uma nova economia virtual
Estudos sobre a situação da mídia brasileira, com frequência, revelam a concentração dos meios e
espaços de produção/circulação da informação, ao longo da história (moderna) do Brasil. Dados de
um dos mais completos levantamentos da área - elaborado pelo Fórum Nacional pela
Democratização da Comunicação (FNDC) - sob o título os donos da mídia
(http://www.donosdamidia.com.br/), revela que os canais de rádio e televisão foram, até o início da
primeira década do século (2002), regra geral, distribuídos na forma de permuta ou favorpolítico,
envolvendo diretamente representantes dos principais partidos tradicionais, que fazem uso eleitoral
de tais meios, desrespeitando as bases constitucionais do setor. Da mesma forma, a concentração
dos principais meios de circulação impressa atuam em consórcio com emissoras de rádio ou TV.
Assim, a abertura comercial da Internet (a partir de 1994), ainda, não conseguiu reverter a
política de uso privado (seja para fins políticos, econômicos ou mesmo religiosos) de alguns poucos
grupos e famílias que atuam em níveis regionais ou nacional no campo comunicacional brasileiro.
Neste contexto, os questionamentos e cobranças públicas pela implantação de medidas capazes
de rever o modelo de funcionamento comercial oligopolista da gestão da mídia brasileira remontam
aos anos 1980, quando o regime militar (1964-1985) dava sinais de esgotamento. Quase três
décadas após, como se vê, pouca coisa mudou para reverter a tradicional concentração dos meios de
emissão e o consequente uso eleitoreiro de tais serviços públicos.
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GADINI&DE CAMARGO: EXPERIÊNCIAS DE UMA NOVA ECONOMIA…
Ainda que em taxas menores - se comparado aos últimos 10 anos - a estimativa de crescimento
das telefônicas no Brasil é 3,5% para 2014, em cima das atuais 270 milhões conexões de telefonia
móvel registradas em outubro passado. Uma projeção, em termos meros nada desprezível, se
considerar o total de usuários e pagantes da maior tarifa média de telefonia do mundo. Enquanto que
a telefonia fixa a estimativa é de crescimento mais modesto (com tendência de manter a média dos
45 milhões de acesso registrados no final de 2013). Não por acaso, estima-se que, em 2014, as
principais operadoras da telefonia móvel no País projetam um aumento médio superior a 5% nas
ações do mercado financeiro2.
Talvez também em função deste cenário, o debate em torno da democratização da mídia brasileira
- apresentado em meados de 2013 - conta com o apoio dos principais setores da sociedade civil
organizada do País. Apenas como exemplo, a III Conferência Nacional de Cultura, realizada em
dezembro de 2013, que reuniu cerca de 1000 delegados dos 26 estados e do Distrito Federal, aprovou
como um das diretrizes setoriais o apoio ao projeto de lei que defende a democratização do rádio, TV e
o marco civil da Internet como pressuposto para uma política efetivamente pública em cultura3.
Com esse debate, uma nova tendência que se intensifica é o financiamento coletivo via web, o
crowdfunding, como uma estratégia de interação coletiva. No Brasil são mais de 60 sites de
crowdfunding desde 2011, quando surgiu a plataforma online Catarse - primeira iniciativa de
financiamento colaborativo de projetos criativos do Brasil -, ainda que esse processo tenha se
fortalecido nos Estados Unidos.
O crowdfunding teve a sua origem no processo denominado crowdsourcing, que é um modelo
de criação e/ou produção baseado em redes de conhecimento coletivo para solucionar problemas,
criar conteúdo ou inventar novos produtos de forma colaborativa.
O termo surgiu a partir de um artigo de Jeff Howe, em 2006, para a revista Wired. (Valiati e
Tietzmann, 2012, p.2). Para definir crowdfunding, Zanotelli (2013) considera as contribuições
conceituais de Jeff Howe (2006), um dos primeiros autores a debater o tema:
E, por fim, o crowdfunding (no Brasil, mais conhecido como financiamento coletivo) é o levanta-
mento de recursos financeiros para viabilização de uma determinada atividade, através de doações de
uma multidão de pessoas. É comumente usado para apoiar projetos artísticos, jornalismo cidadão,
pequenos negócios, start-ups, campanhas políticas, softwares livres, filantropia e iniciativas emergen-
ciais voltadas a regiões atingidas por desastres. O propositor do projeto usa suas redes sociais para
engajar e consolidar apoiadores, além de fazê-lo a partir de plataformas especializadas para interagir
diretamente com eles. (Zanotelli, 2013, p.67)
A partir de 2011, esta lógica de colaboração online representa uma nova economia virtual, em
que a internet potencializa não apenas o comércio de serviços e acesso ao conteúdo, mas também a
viabilização financeira.
E o que é a Agência Pública?
No caso da Agência Pública, o crowdfunding potencializou a divulgação do conceito de financiamento
colaborativo para produção jornalística. Um dos indicativos é o número de colaboradores que
participaram da primeira edição que viabilizou 12 microbolsas para repórteres independentes que
submeteram seus projetos através da plataforma Catarse. A Agência classifica este número como o
maior conselho editorial do Brasil, formado por 808 pessoas que doaram via crowdfunding.
2 Para analistas, teles crescerão menos em 2014. Disponível em http://fndc.org.br/clipping/para-analistas-teles-crescerao-
menos-em-2014-934023/ Acesso em 20/12/2013.
3 Disponível em http://www.paraexpressaraliberdade.org.br/index.php/noticias/279-conferencia-nacional-de-cultura-apoia-a-
lei-da-midia-democratica Acesso em 30/12/2013.
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Figura 1: Layout e organização do site da Agência Pública/Brasil
Fonte: Print feito pelos autores, 2013.
Para entender a proposta da AP vale considerar a própria apresentação disponível no site da
Agência:
Pioneira do Brasil, a Agência Pública aposta num modelo de jornalismo sem fins lucrativos para
manter a independência. Todas as nossas reportagens são livremente reproduzidas por diversos veícu-
los sob a licença creative commons. Veja a nossa lista de republicadores.
Nossa missão é produzir reportagens de fôlego pautadas pelo interesse público, sobre as grandes
questões do país do ponto de vista da população visando ao fortalecimento do direito à informação,
à qualificação do debate democrático e à promoção dos direitos humanos.
Todas as nossas reportagens são feitas com base na rigorosa apuração dos fatos e têm como princípio
a defesa intransigente dos direitos humanos. Nossos principais eixos investigativos são: os preparati-
vos para a Copa do Mundo de 2014; mega investimentos na Amazônia; e a ditadura militar.
Entre nossos parceiros estão centros independentes de jornalismo da América Latina, dos Estados Uni-
dos e Europa, além de veículos tradicionais e expoentes das novas mídias. Veja nossa lista de parceiros.
Além de produzir, a Pública atua para promover o jornalismo investigativo independente, através de
programas de mentorias para jovens jornalistas e bolsas de reportagem.
Para nós, o jornalismo não está em crise está em renovação. A Pública acredita na reportagem. E no
repórter. (Apública, 2013)4
Oportuno considerar que a Agência Pública trabalha em parceria com entidades diversas, como
é o caso da Ford Foundation e Open Society Foundations. Por apostar na transparência da informa-
ção, a Pública tem como filosofia disponibilizar as bases documentais das suas reportagens para
que sejam consultadas livremente pelo público da internet, diz o link documental do site
(http://www.apublica.org/category/documentos/).
A estratégia e esforço de aproximar setores da mídia com o público-alvo motiva o surgimento
de outras iniciativas. Este é o recente caso do Indie Voices, que atua na mesma perspectiva
colaboracionista para executar projetos de produção editorial. O esforço da pretendida
independência editorial parece marcar tais propostas. Uma das maiores questões em jornalismo
empreendedor, hoje, é como financiar uma publicação na era digital e garantir a sua
sustentabilidade, lembra a reportagem de Alejandro Martinez, que apresenta o Indie Voices. Pelo
projeto, o Indie Voices pretende auxiliar na produção e publicação de produtos jornalísticos, através
de prática de doação espontânea ou motivada do crowdfunding, em princípio focado no mundo em
desenvolvimento’.
4 Informações disponíveis em: http://www.apublica.org/quem-somos/. Acesso em 12/11/2013.
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GADINI&DE CAMARGO: EXPERIÊNCIAS DE UMA NOVA ECONOMIA…
Sem qualquer expectativa exagerada de resolver os crescentes problemas de gestão da mídia, tais
iniciativas visam, ainda, contribuir para aproximar profissionais da produção empreendedores - seja
em nível individual ou em forma de grupos cooperativados - de investidores e também de setores do
público, que deixa de ser visto como mero consumidor e passa a ser co-participante de tais projetos
editoriais, na medida em que, ao aceitar participar como doador ou colaborador, é convidado a opinar
ou escolher pautas, entre as crescentes propostas que chegam aos gestores de tais plataformas. As
doações podem ser feitas tanto por pessoas físicas quanto grupos de gestão privada ou organizações
sociais, que também se dispõem a contribuir através de seus dirigentes ou associados.
Outras ões similares também surgiram no campo midiático no mesmo ano de 2013. A
proposta do Media Factory (mediafactory.vc) busca se consolidar como primeira aceleradora de
organizações noticiosas do mundo, a partir de janeiro de 2014. A iniciativa de Mariano Blejman
(bolsista do Knight International Fellowship em 2013) considera possibilidade de contar com capital
de risco para garantir financiamentos ou consultoria (apoio ou orientação) a propostas de gerir
novos empreendimentos sustentáveis, na forma de ações planejadas em parceria (e consórcio) com
projetos similares que buscam repensar produções midiáticas5.
Em todos os casos e iniciativas que proliferam com perspectivas similares na América Latina
uma preocupação comum marca os diversos projetos: trata-se do desafio de formar e qualificar
grupos de profissionais do Jornalismo, em geral jovens, para repensar o campo (e mercado)
midiático capazes de impulsionar práticas empreendedoras na área. Um desafio, diga-se de
passagem, recente e ainda pouco comum na grande maioria das escolas de Jornalismo, seja no
Brasil ou demais países da América Latina.
No caso da Agência Pública, o balanço do próprio grupo gestor registrou uma avaliação
positiva desta etapa inicial do projeto via fanpage, que mantém mais de 35 mil curtidas (em
dezembro de 2013) no facebook:
Depois de um ano de muito, muito trabalho, A Agência Pública encerra suas atividades no dia 20 de
dezembro. Voltaremos no dia 6 de janeiro. Para nós, este foi um ano de crescimento e consolidação,
no qual não só trabalhamos para melhorar a nossa própria produção jornalística, como ganhamos no-
vos aliados e muitos, muitos intrépidos jornalistas que hoje nos acompanham, seja como parceiros,
microbolsistas, vencedores do Reportagem Pública, doadores que apoiaram nosso financiamento co-
letivo. Sentimos que não só a Pública, mas o jornalismo independente se fortalece no país, e terá um
papel muito especial a cumprir no ano de 2014. Por isso,desejamos a todos um fim de ano tranquilo e
um ano novo brilhante, repleto de entusiasmo, inovação, criatividade - e coragem. Nesse fim de ano,
selecionamos as melhores reportagens da Pública para aqueles que não tiveram tempo de lê-las6.
De acordo com esta lógica, a Agência Pública se pauta pelo crowdfunding também para
incentivar o jornalismo independentee de dados abertos, como uma tendência tecnológica open
source e open data, segundo informou uma das gestoras do projeto, a jornalista brasileira Natália
Viana7. No site da Agência está disponível indicações de como roubar8 as reportagens e divulgá-
las em outras mídias também de maneira colaborativa, pois segundo a gestora, a ideia é espalhar
através do financiamento.
Considerações Finais
Longe de acreditar que a emergência de iniciativas colaboracionistas para viabilizar produções
jornalísticas independentes seja uma solução pronta e imediata, em um cenário hegemonicamente
marcado pelo controle do dinheiro público concentrado em grandes corporações midiáticas, é possível
5 Media Factory, a primeira aceleradora de mídia do mundo, quer investir em novos projetos latino-americanos.
https://knightcenter.utexas.edu/pt-br/blog/00-14196-media-factory-primeira-aceleradora-de-midia-do-mundo-quer-investir-
em-novos-projetos-l Acesso em 20/12/2013.
6 Texto disponível na página do Facebook: www.facebook.com/agenciapublica.
7 Entrevista concedida aos autores em outubro de 2013.
8 Link Roube nossas Histórias: http://www.apublica.org/roube-nossas-historias
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indicar pistas para um contexto de mudança, ainda que sem uma previsibilidade de rumos certos nestes
próximos anos. Afinal, se por um lado, mesmo contando com a quase totalidade dos recursos públicos
destinados à divulgação, por parte das três esferas de governo (municipal, estadual e federal), os
principais indicadores de mercado parecem revelar que a crise de gestão da mídia convencional
brasileira possui características de ordem estrutural e não apenas conjuntural ou cíclica.
E, enquanto alguns países latino-americanos (como Argentina, Venezuela, Equador e, em
breve, também o Uruguai) apostam em novas legislações da mídia, o Brasil - em função de diversos
fatores de ordem política e econômica - permite que a cobrança dos serviços de telefonia, por
exemplo, mantenha a dianteira em nível mundial, onerando os usuários e contribuintes, garantindo
as maiores médias de lucro líquido aos grupos que operam com telefonia no País.
Este contexto, reconhecidamente de transição, a emergência de iniciativas que apostam na
aproximação de produtores de conteúdo com ação independente e os colaboradores que, se tornam
simultaneamente, interlocutores, sugere uma luz no horizonte. Ao mesmo tempo, tal cenário indica
outras possibilidades de circulação informativa, que não passa pelos viciados canais
oligopolizados de mídia.
Ainda que modestas, é possível entender que tais iniciativas exerçam um papel motivador no
desafio de se repensar as relações de produção, circulação e acesso a informação coletiva no Brasil.
Não basta, contudo, apenas observar, mas vislumbrar eventuais possibilidades de ampliar as redes
de participação em tais projetos de ação colaborativa.
Uma outra tarefa desta tendência de práticas de crowdfunding aponta um desafio na produção
jornalística e no ensino, que atinge cerca de 350 cursos de Jornalismo em funcionamento no Brasil:
inserir a perspectiva empreendedora na formação profissional da área, buscando preparar os mais de 5
mil novos profissionais que a cada ano são formados nas universidades do País para uma realidade que
demanda qualificação e habilidades para reinventar espaços, produtos e outras formas de produção de
conteúdo aos crescentes meios de informação disponíveis na era da digitalização midiática.
Por isso, a alternativa de crowdfunding da Agência Pública do Brasil representa uma tentativa
de formatar um modelo de gestão coletivo de organizações fora do circuito de tradicionais
corporações midiáticas. Uma forma de jornalismo empreendedor em que o financiamento conjunto
de experiências recentes é garantido por usuários amadores - que nem sempre têm ligação direta
com o tema a que se propõe o crowdfunding.
É oportuno lembrar que este modelo de economia virtual pode ser considerado uma tendência
que faz parte do desenvolvimento da atual produção do jornalismo no mundo, priorizando o que
pode ser chamado de sistema aberto de informação com livre acesso a dados, como as vertentes do
Open Source, Open Data e Open Journalism. Esta mesma tendência engloba tecnologias em rede
com a potencialidade de democratização do acesso, da participação interativa e da colaboração
como ideais midiáticos futuros.
Assim, o crowdfunding como uma técnica comercial adaptada e importada de modelos norte-
americanos se mostra, para o caso brasileiro da Agência Pública, como uma inovação no
financiamento de reportagens investigativas que, até então, dificilmente poderiam ser feitas por falta
de recursos e investimentos de capital. E, ainda que com algumas limitações no processo de
financiamento por colaboração via crowdfunding, a Agência Pública é o exemplo mais forte no
Brasil, que evidencia e tenta uma nova forma de financiar jornalismo de interesse coletivo por meio
de uma estratégia de interação.
Os usuários, dispersos geograficamente, passam a fazer parte de um coletivo de colaboradores
virtuais interessados na proposta. Eventualmente, tais usuários podem ser recompensados de acordo
com a forma de adesão ao crowdfunding, como foi o caso da Pública que disponibilizou adesivos,
livros e até cursos, conforme a quantia que cada cadastrado se propôs a pagar.
Por fim, a estratégia que vem dando certo no País, principalmente no caso das organizações
sem fins lucrativos (ONGs e afins), transforma o mercado virtual de serviços em um mercado
virtual de escolhas, possibilidades e interesses segmentados que são financiados por um grupo
gestor através da iniciativa de colaboração via crowdfunding.
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GADINI&DE CAMARGO: EXPERIÊNCIAS DE UMA NOVA ECONOMIA…
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SOBRE OS AUTORES
Sérgio Luiz Gadini: Doutor em Ciências da Comunicação e coordenador do Programa de Mestrado
em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), em Ponta Grossa/PR.
Isadora Ortiz de Camargo: Jornalista, Mestre em Ciências da Comunicação na
Universidade de São Paulo (USP), São Paulo/SP, Brasil.
7
Uma proposta de periodização para a história do rádio no Brasil. Trabalho apresentando no 4º Encontro Nacional da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (ULEPICC-Brasil)
  • L A Ferraretto
Por que fazer crowdfunding no jornalismo?Observatório da Imprensa
  • N Viana
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História da comunicação: rádio e TV no Brasil
  • M E B Federico
Nova plataforma de crowdfunding busca conectar investidores com projetos de mídia em países em desenvolvimento
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Jornalismo público: informação, cidadania e televisão
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Crowdfunding: O financiamento coletivo como Mecanismo de Fomento à Produção Audiovisual. XIII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul - Chapecó - SC - 31/05 a 02/06/2012
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  • R Tietzmann
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Coojornal - Um jornal de jornalistas sob o regime militar
  • R Guimarães
  • A Centeno
  • E Bones
Guimarães, R., Centeno, A. e Bones, E. (orgs). (2011). Coojornal -Um jornal de jornalistas sob o regime militar. Porto Alegre: Libretos.
Catarse: Os consumidores decidem! Trabalho de Conclusão de Curso da Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória: UFES
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Uma proposta de periodização para a história do rádio no Brasil. Trabalho apresentando no 4º Encontro Nacional da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (ULEPICC-Brasil)
  • M E B L A Federico
Federico, M.E.B. (1982). História da comunicação: rádio e TV no Brasil. Petrópolis: Vozes. Ferraretto, L.A. (2012). Uma proposta de periodização para a história do rádio no Brasil. Trabalho apresentando no 4º Encontro Nacional da União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (ULEPICC-Brasil). Rio de Janeiro: UERJ. Disponível em: http://ulepiccbrasil4.com.br/anais/pdf/gt3/FERRARETTO_uma_proposta_ de_periodizacao_para_a_historia_do_radio_no_brasil.pdf. Acesso em 30/09/2013.