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Arte contemporânea: virtuosa ou grotesca?

Authors:
  • The University of São Paulo-USP

Abstract

Em meio às inúmeras-e cada vez mais recorrentes-polêmicas acerca do conceito de Arte em nossa história recente, resta-nos, para o presente momento, a reflexão. A violência com que manifestações ideológicas-sejam estas de cunho político, religioso etc.-desferidas sob a alcunha de "obras de arte" têm atingido a sociedade em dias atuais não passa despercebida. E neste panorama, através da relativização e da planificação das ideias, é posto em xeque o conceito de Arte. Outrora carinhosamente cultivada enquanto um dos mais belos frutos da virtude humana, a Arte passa na contemporaneidade por um intenso processo de degeneração. A relativização ideologicamente imposta ao conceito de Arte tenta diluir a essência do fenômeno artístico e, desta maneira, forçadamente, fazer com que o conceito de "arte" passe a abarcar e justificar praticamente qualquer coisa. Em meio a este cenário caótico surge, fatalmente, a seguinte questão: o que é Arte? Historicamente, a origem do termo "Arte" tem seus dois principais pilares nos idiomas que foram as "línguas-mães" do pensamento e da cultura ocidentais: o Grego e o Latim. Em sua acepção latina, o termo "Arte" deriva do termo "Ars"; enquanto, em sua acepção grega, deriva do termo grego "areté"-na transliteração para a língua portuguesa. O termo latino "Ars" remete aos termos "técnica" e "habilidade" inseridos no panorama de uma manifestação de cunho estético. O processo criativo de cunho artístico tem enquanto pontos de partidas a busca do belo e a necessidade de expressar ideias e emoções que fundamentam o projeto artístico sob o qual a obra de Arte é cunhada. O termo "areté" tem, por sua vez, uma origem que remete aos conceitos gregos de "virtude" e "excelência". Denota também a capacidade de perfeito cumprimento de uma tarefa à qual o individuo é designado. Ambas as origens designam um panorama em que o impulso criativo do projeto artístico-ao se apropriar de uma linguagem-visa expressar um significado que transcende a própria existência física ou do artesanato que o materializa. Uma maneira simples de delinear o conceito de Arte é em oposição binária ou dialética em relação ao conceito de artesanato. Nesta oposição, observa-se um confronto baseado nos conceitos de concretude e abstração. Em linhas gerais, a Arte possui um significado ou conceito que antecede e transcende a existência física do artesanato que lhe concede materialidade. Uma obra de Arte expressa um significado que vai além do corpo físico que pode ser captado através dos cinco sentidos humanos: o fenômeno da comunicação do significado artístico se dá no universo das ideias, não ficando restrito, assim, ao objeto físico que pode ser sensorialmente captado-e muito menos aprisionado nos limites físicos-dimensionais do objeto artesanal.
Arte contemporânea:
virtuosa ou grotesca?
Maestro Allan Christian
Em meio às inúmeras - e cada vez mais recorrentes - polêmicas acerca do conceito de Arte
em nossa história recente, resta-nos, para o presente momento, a reflexão. A violência com que
manifestações ideológicas sejam estas de cunho político, religioso etc. desferidas sob a
alcunha de “obras de arte” têm atingido a sociedade em dias atuais não passa despercebida. E
neste panorama, através da relativização e da planificação das ideias, é posto em xeque o conceito
de Arte. Outrora carinhosamente cultivada enquanto um dos mais belos frutos da virtude humana,
a Arte passa na contemporaneidade por um intenso processo de degeneração. A relativização
ideologicamente imposta ao conceito de Arte tenta diluir a essência do fenômeno artístico e, desta
maneira, forçadamente, fazer com que o conceito de “arte” passe a abarcar e justificar
praticamente qualquer coisa. Em meio a este cenário caótico surge, fatalmente, a seguinte questão:
o que é Arte?
Historicamente, a origem do termo “Arte” tem seus dois principais pilares nos idiomas que
foram as “línguas-mães” do pensamento e da cultura ocidentais: o Grego e o Latim. Em sua
acepção latina, o termo “Arte” deriva do termo “Ars”; enquanto, em sua acepção grega, deriva do
termo grego areté - na transliteração para a língua portuguesa. O termo latino Ars” remete aos
termos “técnica” e “habilidade” inseridos no panorama de uma manifestação de cunho estético.
O processo criativo de cunho artístico tem enquanto pontos de partidas a busca do belo e a
necessidade de expressar ideias e emoções que fundamentam o projeto artístico sob o qual a obra
de Arte é cunhada. O termo aretétem, por sua vez, uma origem que remete aos conceitos gregos
de “virtude” e “excelência”. Denota também a capacidade de perfeito cumprimento de uma tarefa
à qual o individuo é designado. Ambas as origens designam um panorama em que o impulso
criativo do projeto artístico - ao se apropriar de uma linguagem - visa expressar um significado
que transcende a própria existência física ou do artesanato que o materializa.
Uma maneira simples de delinear o conceito de Arte é em oposição binária ou dialética em
relação ao conceito de artesanato. Nesta oposição, observa-se um confronto baseado nos conceitos
de concretude e abstração. Em linhas gerais, a Arte possui um significado ou conceito que
antecede e transcende a existência física do artesanato que lhe concede materialidade. Uma obra
de Arte expressa um significado que vai além do corpo físico que pode ser captado através dos
cinco sentidos humanos: o fenômeno da comunicação do significado artístico se dá no universo
das ideias, não ficando restrito, assim, ao objeto físico que pode ser sensorialmente captado e
muito menos aprisionado nos limites físicos-dimensionais do objeto artesanal. O artesanato se
mostra, por sua vez, enquanto uma mera ferramenta quando aplicado no processo de realização
material do corpo físico ferramenta e objeto estas invariavelmente subordinados aos princípios
criativos da obra de Arte. Desta maneira, Arte abarca e detém o artesanato enquanto ferramenta
realizadora; enquanto o artesanato devido à sua propriedade de não materializar um projeto
artístico-criativo e não deter um significado que vá além de sua própria existência - não detém a
Arte: este se restringe ao significado de si próprio. Enquanto o termo Arte é oriundo do conceito
de areté, o termo artesanato mostra-se intimamente vinculado ao conceito grego exprimido pelo
termo techné.
Além dos supramencionados parâmetros poéticos-criativos que compõem o projeto artístico
e antecedem o ímpeto criativo em si, a Arte pode ser objetivamente avaliada através de diversos
parâmetros - dentre eles o grau de excelência atingido pelo artista que a cria. Porém, atualmente,
a devastação trazida pela relativização e planificação das ideias objetiva liquefazer estes
supramencionados conceitos. Desta maneira, iguala-se o discurso e nivela-se a obra de um
pseudoartista com a obra de um artista histórica e esteticamente referendado. Assim, a esterilidade
e a instantaneidade de “obras de arte contemporânea” como, por exemplo, um chão branco cheio
de sucatas facilmente confundíveis com lixo - são equiparadas às obras-primas que levam anos
para ficarem prontas e até mesmo séculos para serem historicamente preparadas. Assim, dentro
deste nefasto cenário que uma minoria politicamente privilegiada almeja, seria perfeitamente
cabível a equiparação de qualquer trabalho de qualquer “artista” seja este um mero empilhador
de coisas ou de sons - ao trabalho de um Leonardo, Michelangelo ou Rodin, por exemplo. Este
fato, por sua vez, seria absoluta e comicamente impalpável sob as rédeas da não-relativização dos
conceitos.
A pesquisa por aberrações estéticas que foram elevadas ao status de obras de arte” não requer
muita disposição. Através de uma simples pesquisa no Google pode-se levantar uma série de fatos
icônicos em apenas alguns segundos. Dentre os casos mais famosos em âmbito internacional
temos, por exemplo, o caso do rapaz que foi grosseiramente advertido no Kunst Museum por ter
sentado em uma “obra de arte” que nada mais era que uma cadeira colocada aleatoriamente no
saguão do museu. Um outro conhecido caso diz respeito a um quadro que foi arrematado por
US$10.000 em um leilão de arte e que, mais tarde, foi descoberto que este foi pintado por um
chimpanzé (Sim! Um macaco!). Ou mesmo o caso de uma “pegadinha” que ataca exatamente esta
esterilidade artística. Trata-se do caso de um estudante que deixou um abacaxi em cima de uma
mesa em um museu de uma universidade escocesa. Somente após ter sido apreciado como obra
de Arte e se deteriorado durante seis dias - tornando-se então insuportavelmente fétido - a
curadoria da exposição se deu conta do engano: não se tratava de uma obra de arte inscrita na
exposição. Outro caso grotesco bem conhecido é o relato de um professor universitário de Artes
da Inglaterra. Ele aplica um teste em particular aos seus alunos: expõe um retalho de seu avental
de pintura (colorida e acidentalmente borrado) dizendo tratar-se de uma obra de arte de um famoso
artista conceitual contemporâneo, e pede para que os alunos apontem os méritos e valores daquela
“obra de arte”. As respostas por ele relatadas são as mais assustadoramente bizarras. Porém, os
casos mais notáveis são, sem sombra de dúvida, os incontáveis casos em que as absolutamente
estéreis “obras de arte” são confundidas com lixo e retiradas dos locais de exposição pelos
faxineiros dos museus. também as conhecidas performances cênicas” e as performances
musicais” que veementemente debocham dos verdadeiros performers são um insulto à
inteligência até mesmo dos mais desprovidos. E estes casos já são mais que suficientes, por si só,
para encerrar a discussão acerca da valoração da arte.
Em contrapartida, temos obras de Arte que perduram por séculos e permanecem enquanto
referenciais estético-históricos para a humanidade. Uma obra genuinamente artística produz um
arrebatador impacto estético mesmo sobre os mais leigos ou insensíveis dos expectadores - e
jamais, em hipótese alguma, seria confundida com lixo. Como exemplo, podemos citar as
superfamosas obras Mona Lisa de Leonardo, ou o teto da Capella Sistina, pintado por
Michelangelo; as sinfonias de Beethoven, ou as cantatas de Bach - dentre inúmeras outras. Tais
obram foram referenciais estéticos em suas épocas, e perduram até dias atuais como algumas das
maiores referências artísticas para a humanidade. Na contemporaneidade, podemos citar, por
exemplo, O Pensador, de Auguste Rodin; Gurre-Lieder, de Arnold Schoenberg; Lux Æterna,
Atmosphères, Requiem ou Lontano, de György Ligeti. Tais obras supramencionadas são
arrebatadoramente impactantes mesmo quando apreciadas por um leigo. Apesar da realidade de
que, mesmo nos circuitos especializados estas peças são raramente compreendidas do ponto de
vista estético, estas, ainda assim, mesmo dentre os leigos, despertam o ethos e o pathos dignos de
uma genuína obra de arte. Porém, deve-se frisar que, no caso de obras de Arte genuinamente fiéis
ao conceito de Arte, este impacto se dá exclusivamente no âmbito estético. Quando a “obra de
arte” não é dotada do brio artístico-estético típico de uma genuína obra de Arte, este impacto é
quase que invariavelmente transferido para aspectos ideológicos que explicitam fortes ataques
aos modelos ético, moral, estético, político, social ou religioso da sociedade. Neste panorama, o
conceito de Arte é totalmente substituído por um conteúdo de caráter e teor absolutamente
ideológicos e, nestes casos, invariavelmente desprovidos de virtude artística. E estes fatos
podem ocorrer dentro de um panorama onde a diretriz principal parte da ausência de parâmetros
objetivos na concepção, apreciação ou avaliação da Arte, de maneira a relativizar tanto a obra
quanto o conceito de Arte. Eis a “grande sacada” da relativização.
A confusão instaurada por este fenômeno abjeto faz com que o cenário se torne propício tanto
à tentativa de dissolução do conceito de Arte quanto à abordagem da Arte sob uma ótica
pejorativa, violenta e escatológica. É em meio às grotescas aberrações de cunho puramente
ideológico e vetores da mais óbvia, profunda e abominável esterilidade artística - que nos
deparamos hoje em dia não só no cenário brasileiro como também no cenário internacional que
se faz absolutamente explícita a forçada tentativa de relativizar e planificar não somente o
conceito de arte, mas também o pensamento e os princípios culturais, morais e éticos
fundamentais a toda uma sociedade. Esta força surge com o intuito de relativizar e planificar o
conceito de Arte de maneira que qualquer objeto estéril absolutamente desprovido de brio possa
ser elevado ao status de obra de Arte. Por mais grosseira que possa parecer esta última afirmação,
ela denota perfeitamente uma nova tendência dentro do circuito internacional de “arte”
contemporânea. Esta tendência surge como uma tentativa de “aristocratização” em sua pior
acepção - dos mecanismos artísticos, onde uma minoria dotada de grande parte do poder político
e completamente desprovida de conhecimento estético-artístico manipula um grupo de supostos
“artistas” estrategicamente escolhidos e financeiramente apoiados. Tal ação se dá de maneira a
criar “obras de arte” supostamente complexas e profundas através das quais estes podem - mesmo
que imersos na mais profunda ignorância parecer sofisticados aos olhos de uma sociedade
estrategicamente subeducada. Assim, falsamente atribui-se um suposto significado à
absolutamente qualquer coisa, mesmo que completamente desprovida de conceito. Desta maneira,
pode-se criar uma abismal mesmo que completamente falsa distinção em relação àqueles que
supostamente não são capazes de apontar mérito ou sequer extrair significado da mais profunda
insignificância destas “obras de arte”. Desta maneira, ao criar uma distinção em relação aos leigos
em Arte, atribui-se uma falsa superioridade intelectual àquele pequeno e envaidecido grupo
politicamente dominante. E este fator se mostra enquanto uma extremamente nociva e eficaz
ferramenta política.
Como previamente discutido, o que se observa hoje em dia, em âmbito geral, consiste em
nada menos que uma feroz tentativa de relativização e planificação do pensamento. Este é um
princípio primordial à revolução cultural, que visa reescrever tanto a história como a maneira
como a entendemos e abordamos. E o que abre caminho para tal planificação é, invariavelmente,
a desonestidade. Infelizmente vivemos, em especial nós brasileiros, imersos em um ambiente
onde nas últimas décadas a desonestidade intelectual foi elevada ao nível de linha de pensamento
filosófico. E neste panorama padecem os verdadeiros artistas, aqueles que não se adequam à
“nova ordem da mainstream e do estabilishment. Além de maculado pelo quase pejorativo rótulo
de “artista contemporâneo” decorrente da destruidora postura dos pseudoartistas, os verdadeiros
artistas ainda são atacados invariavelmente em âmbito pessoal - devido à quase invariável
incapacidade de seus opositores de argumentar contrariamente às suas ideias e modelos sem
desferir ataque de cunho pessoal. Faz-se, então, a famosa “desconstrução da imagem”, caminho
inversamente proporcional ao “culto à personalidade” daqueles escolhidos e acolhidos pelo
estabilishment. Do ponto de vista histórico, é facilmente observável - no âmbito político-social -
o explícito prevalecimento de alguns modelos. E, mediante total planificação e relativização das
ideias, dos princípios, dos modelos e do pensamento, temos o supramencionado nivelamento de
todas as ideias: um ambiente no qual, sem exceções, todas as ideias e modelos “merecem” e
possuem o mesmo espaço e o mesmo valor. Neste panorama relativista e planificador, os modelos
que sempre prevaleceram e que ainda hoje prevalecem são, invariavelmente, aqueles mais
superficiais e violentos.
Por fim, a Arte - em sua acepção originalmente virtuosa - é um universo capaz de abarcar
fenômenos expressivos das mais variadas vertentes. Ciência, sentimentos, impressões,
religiosidade, política, e uma infinidade de outros parâmetros podem ser objetos de inspiração e
elementos germinais do projeto artístico de uma obra de Arte genuína. O grotesco, a libido, a
negação também podem igualmente ser objetos poéticos para o processo criativo em Arte. Porém,
nenhum destes supramencionados jamais pode reivindicar a obra para si. Devem ser objetos de
inspiração da criação, e não a própria criação em si, pois isto destruiria a abstração do fenômeno
e, consequentemente, a sua transcendentalidade reduzindo assim o fenômeno artístico a uma
mera manifestação de cunho ideológico, seja esta de índole política, religiosa ou qualquer outra
que não a manifestação da criação artística.
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