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Abstract

Na Música, uma fuga é uma composição onde várias vozes dialogam, perguntam e respondem, perseguindo-se entre si num contraponto rico em simetrias e inversões. No contexto de uma prisão, a palavra fuga adquire um significado mais complexo que vai para além da fuga do corpo às paredes e ao arame farpado da reclusão: o corpo está preso, mas o espírito não se consegue algemar. Na apresentação de hoje contam-se histórias de como a música tocada ao piano deu asas para voar. Do contraponto entre as vozes dos participantes de 2 projetos em duas prisões portuguesas faz-se o caminho que revela novas formas de fazer Música na Comunidade, explorando os princípios da inclusão, da democratização e da participação ativa comofundamentos de todo o trabalho.
© EUROPEAN REVIEW OF ARTISTIC STUDIES 2019, vol. 10, n. 2, pp. 12-23 ISSN 1647-3558
https://doi.org/ 10.37334/eras.v10i2.200
ARTIGO ORIGINAL | ORIGINAL ARTICLE
UMA FUGA A VÁRIAS VOZES
One fugue for several voices
LAMAELA, Inês
1
Resumo
Na Música, uma fuga é uma composição onde várias vozes dialogam, perguntam e respondem,
perseguindo-se entre si num contraponto rico em simetrias e inversões. No contexto de uma
prisão, a palavra fuga adquire um significado mais complexo que vai para além da fuga do corpo
às paredes e ao arame farpado da reclusão: o corpo está preso, mas o espírito não se consegue
algemar. Na apresentação de hoje contam-se histórias de como a música tocada ao piano deu asas
para voar. Do contraponto entre as vozes dos participantes de 2 projetos em duas prisões
portuguesas faz-se o caminho que revela novas formas de fazer Música na Comunidade,
explorando os princípios da inclusão, da democratização e da participação ativa como
fundamentos de todo o trabalho.
Abstract
In Music, an escape is a composition where several voices dialogue, ask and respond, pursuing
each other in a rich counterpoint in symmetries and inversions. In the context of a prison escape
the word acquires a more complex meaning that goes beyond the body's escape to the walls and
barbed wire of the prison: the body is stuck, but the spirit can not handcuff. Today's presentation
tells stories of how piano music gave wings to fly. From the counterpoint between the voices of
the participants of two projects in two Portuguese prisons is the path that reveals new ways of
making music in the community, exploring the principles of inclusion, democratization and active
participation as foundations of all work.
Palavras-chave: Prisão; Música na Comunidade; Piano; Narrativa.
Key-words: Prison; Community Music; Piano; Narrative.
Data de submissão: fevereiro de 2019 | Data de aceitação: junho de 2019.
1
INÊS LAMELA - Universidade de Aveiro, INET-md, PORTUGAL. Email: ineslamela@gmail.com
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INTRODUÇÃO
Cada um de nós constrói-se, dia-a-dia, sobre o único que é a sua individualidade.
As nossas experiências, ou narrativas, seguem-nos e são, simultaneamente, lideradas por
nós. Greene (1995, p. 186) argumenta que “há uma ligação entre a narrativa e a construção
da identidade. É importante moldar as nossas próprias histórias”. As artes são um meio
que podemos usar para moldar narrativas de nós mesmos e isso não é diferente em uma
prisão.
Depois de séculos de evolução que levaram a discursos cada vez mais sofisticados
e, em muitos casos, a uma grande distância entre artista e público, atualmente é possível
observar que a Arte é reconhecida não apenas na sua dimensão estética intrínseca, mas
também como uma ferramenta poderosa de intervenção social. O crescimento
exponencial da pesquisa e desenvolvimento de práticas de Música na Comunidade (MC),
fundamentada nos princípios da descentralização, da democratização, da igualdade de
oportunidades e da participação ativa (McKay & Higham, 2011), pode ser entendido
como um resultado direto dessa mudança de paradigma.
Dentro do caleidoscópio da MC, a prática musical ativa com pessoas que vivem
em prisões tem emergido como uma área de especial interesse. As especificidades da
prisão, a “instituição total” (Goffman, 1991) onde são “removidas as barreiras que
habitualmente separam as várias esferas de vida do individuo (de residência, de trabalho,
ldica), estando estas submetidas a uma gesto e a uma autoridade comuns, e onde os co-
participantes são os mesmos” (Cunha, 1994, p. 2), fazem de cada projeto musical
desenvolvido atrás das grades algo único. Nas secções seguintes, apresentam-se e
discutem-se dois projetos desenvolvidos em duas prisões portuguesas. O trabalho em
torno do piano como instrumento principal de trabalho musical, de comunicação e de
descoberta, é contado através da experiência única dos participantes, num contraponto
entre as suas narrativas (as suas vozes) e a análise musical. Numa metáfora musical,
chama-se a esta apresentação “fuga a várias vozes”. Na msica, uma fuga é uma
composição onde várias vozes dialogam, perguntam, respondem, e se perseguem entre si,
num contraponto complexo. Numa prisão, a palavra “fuga” tem um significado bem
diferente e negativo. Mas a fuga aqui se conta é a fuga do espírito, a libertação das
paredes, dos castigos, das falhas e das frustrações, através da música feita ao piano.
Uma Fuga a várias vozes | 14
O PROJETO “NAS ASAS DE UM PIANO... APRENDO A VOAR”
O projeto “Nas asas de um piano... aprendo a voar” foi desenvolvido no
Estabelecimento Prisional Especial de Santa Cruz do Bispo (Matosinhos, Porto), entre
novembro de 2013 e julho de 2014, com a participação de quatro reclusas. Durante estes
nove meses de trabalho foram realizadas 91 sessões individuais e 13 sessões de grupo,
durante as quais foram preparadas 3 apresentações públicas:
1) “Histórias de um piano ... que ensinou a voar- uma apresentação para bebés
e crianças que viviam, na altura, no EPESCB com suas mães recluídas (havia
15 bebés/crianças no total). Neste concerto foram apresentados os primeiros
resultados do trabalho que tinha vindo a ser feito com cada uma das 4 senhoras,
ao piano, assim como 4 canções, especialmente pensadas para interagir com as
crianças.
2) “Projecto X um autêntico exercício de engenharia musical e logística que
envolveu a participação de reclusos da prisão de Aveiro e alunos do Mestrado
em Música da Universidade de Aveiro, e que implicou a realização de sessões
com todos os participantes em Santa Cruz, no Estabelecimento Prisional
Regional de Aveiro e na Universidade de Aveiro. O concerto final aconteceu
no auditório do Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de
Aveiro.
3) “Fuga a 4 vozes- concerto final, um momento a solo e introspetivo. Depois
de um concerto para os outros (os bebés e crianças) e com muitos outros (o
“Projecto X”), quis que houvesse uma oportunidade de encerrar o projeto numa
apresentação focada em cada uma das senhoras e no percurso que cada uma
tinha sido capaz de descobrir/percorrer. Consegui que os responsáveis do
EPESCB, em coordenação com a Santa Casa da Misericórdia do Porto,
alugassem um piano de cauda para este momento final. A voz de cada uma das
senhoras fez-se ouvir não só através da música que tocou, mas também através
de testemunhos que cada uma delas escreveu sobre a sua experiência, e que
foram encenados por um ator convidado, o Bernardo de Almeida, que falou por
cada uma delas como se do seu alter-ego se tratasse entre a performance das
várias peças que apresentaram.
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O trabalho semanal individual com cada senhora foi feito em três dimensões
diferentes. Em primeiro lugar, a dimensão técnica, alicerçada na consciência que, para
que a experiência de aprender a tocar fosse, verdadeiramente, completa, teria que haver
trabalho de competências físicas do domínio de um instrumento tão complexo como o
piano. Em segundo, a dimensão da criatividade, através de improvisação e da composição
de peças que ficaram registadas em partitura e que foram apresentadas nos vários
concertos. Por último, a dimensão da literacia, aqui entendida como algo que vai além
das competências de leitura e escrita, e que incluiu a aprendizagem de vocabulário
musical, noções básicas de harmonia ou breves apontamentos sobre a História da Música.
O equilíbrio entre as diferentes linguagens e estilos musicais durante o projeto foi
uma das suas características mais importantes: houve tempo para improvisar ou compor
em um padrão rock ou bossa nova, tempo para estudar uma peça do repertório clássico
de piano, tempo para o tema pop da banda sonora do filme “Titanic”, e tempo para
aprender uma música popular portuguesa. Às vezes, tudo isso em uma única sessão. Desta
forma, os interesses e gostos pessoais de cada uma das senhoras foram combinados com
a abordagem de material musical de um domínio mais clássico, num verdadeiro ato de
democracia cultural.
Em termos de material escrito usado nas sessões, uma das principais inovações
resultantes do projeto foi a criação de partituras gráficas, usando a dedilhação a ser usada
e um código de cores para identificação das duas mãos (vermelho para a mão direita, azul
para a mão esquerda), em simultâneo com o nome (por extenso) das notas musicais. Estas
partituras gráficas foram um importante suporte para a solidificação de praticamente todo
o material musical trabalhado durante uma primeira fase do projeto, constituindo-se,
ainda que sem a precisão de uma partitura convencional, como um auxiliar de memória
eficaz. Em maio, já numa fase adiantada do projeto, foram levadas para as sesses
individuais partituras convencionais. De salientar que, apesar de nunca ter sido objetivo
do projeto trabalhar a leitura de partitura, foram as próprias reclusas que pediram para o
fazer. Neste processo de aprendizagem de leitura musical foram abordadas todas as
questões básicas relacionadas com esta competência: leitura nas claves de sol e fá, ritmo,
articulação, fraseado e indicações de pedal.
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Como em qualquer outro contexto de contacto e aprendizagem de um instrumento
musical, também neste contexto de prisão se considerou, desde o primeiro dia, que seria
essencial dar tempo de trabalho individual a cada uma das participantes, no piano onde
eram feitas as sessões. Esta questão foi discutida com frequência com a direção do
EPESCB, desde o início do projeto. No entanto, por causa das questões logísticas
associadas (um guarda prisional para acompanhar e controlar cada reclusa), nunca foi
implementada durante os primeiros três meses do projeto. Com o primeiro concerto
marcado foi, finalmente, possível convencer os responsáveis do EPESCB da importância
do estudo individual para garantir uma apresentação de qualidade. Em meados de
fevereiro de 2014, três semanas antes do primeiro concerto, as reclusas foram autorizadas
a praticar durante a semana, num horário que contemplava uma hora de estudo diário para
cada uma. Este horário de estudo individual manteve-se até ao final do projeto. Para além
de melhorar, claramente, a qualidade da performance pianística em si mesma, foi também
muito importante na medida em que permitiu que cada reclusa tivesse um momento a sós,
durante o qual decidia o que fazer com o seu tempo. Para apoiar este trabalho individual,
foram feitas gravações das peças, os chamados playalongs, que cada uma das senhoras
andava a trabalhar. Foi dado um cd a cada uma e foi levada para a sala das sessões uma
mini aparelhagem.
UMA FUGA A QUATRO VOZES
São apresentadas, de seguida, as quatro protagonistas do projeto “Nas asas de um
piano... aprendo a voar”, nome inspirado nos seus próprios comentários. Pelo facto de ter
sido desenvolvido principalmente em sessões individuais com cada uma das
participantes, foi possível acompanhar de perto a sua narrativa. O grande projeto
constitui-se, portanto, como uma soma de quatro projetos únicos e singulares, que se
conta através de quatro histórias diferentes, quatro narrativas/vozes da mesma jornada.
Os nomes com que são apresentadas as senhoras são, por questões relacionadas
com a sua privacidade e anonimato, fictícios. Não foram, no entanto, escolhidos ao acaso:
Marta, Maria João, Helena e Clara remetem para quatro mulheres que, na História da
Música e, mais especificamente, na história do piano, são (ou foram) marcantes: as
pianistas Marta Argerich e Maria João Pires, a pianista e pedagoga portuense Helena
e Costa, e a pianista e compositora do séc. XIX, talvez a primeira mulher a ser reconhecida
neste meio, Clara Schumann.
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Nas próximas secções, desenvolve-se o que de único, intimo e particular foi a
experiencia de cada uma das quatro reclusas, dando nfase s singularidades e
peculiaridades de cada percurso: a descoberta de talentos da Marta, a vontade da Maria
João, a libertação da Helena pela improvisação, a alegria e os afetos da Clara. A narração
é feita num presente, na voz da autora como primeira pessoa, sobre a forma como foram
vividas as sesses de trabalho.
Marta
Senhora com um sotaque portuense bem carregado, senta-se ao piano pela
primeira vez e diz-me “Olha que ando a precisar [de qualquer coisa nova], ao menos para
me pr o cérebro a trabalhar. Que a gente aqui sente-se muito apagada!”. Durante a sua
vida na prisão, descobriu uma veia poética e escreveu muitos poemas que guarda
religiosamente numa capa. Tem uma tremenda autoconfiança e autoestima, que quase
parecem não fazer parte do ambiente da prisão.
A Marta quer tocar sua própria música, não a música dos outros. Mas, com o
passar das semanas, entusiasma-se com as músicas que eu escolhi para trabalhar, durante
as sessões. Foi especialmente tocante ouvi-la tocar “Gymnopédies” do compositor Erik
Satie, numa versão de 4 mãos comigo, no nosso último concerto. Não tem vergonha de
mostrar todo o seu orgulho em sua composição, “Anjos d’Amor”, dedicada ao seu filho
e seu marido, para a qual escreve um poema que será lido no concerto final. Tem muita
energia e é frequente v-la a dançar, sentada no banco, enquanto toca. É uma senhora
muito talentosa, mas um pouco precipitada: erra por não pensar bem no que deve fazer e,
por vezes, tenho dificuldades em conseguir que se concentre devidamente. “Eu sou uma
estabalhoada...”, diz-me, numa das primeiras sessões.
Quer continuar a tocar piano, quando for libertada, mas não sabe se irá ter essa
oportunidade. Vai começar a reconstruir a sua vida do zero, depois de sair da prisão, e
isso assusta-a. Foi libertada em dezembro de 2014. Entrou na universidade, como era o
seu sonho, e espera tornar-se uma Técnica Oficial de Contas.
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Maria João
Senhora muito ativa, mesmo no interior da prisão, e que se envolve em muitos
tipos de iniciativas (desde aulas de ginástica a ações de formação). Dedica-se por inteiro
ao projeto e estuda, nas suas palavras, “até lhe doerem os dedos”. Diz-me que quer
continuar a aprender piano assim que for libertada. Gosta especialmente de estudar
repertório escrito, e pede-me para tocar determinadas peças que conhece de outros
contextos. Foi muito especial perceber, no último concerto, como tocou todas as peças
com imensa atenção a todos os pormenores técnicos e musicais que fomos trabalhando
nas sessões.
A Maria João v a participação no projeto como um começo de algo que pretende
continuar “lá fora”, assim que for libertada. Tem uma família e uma vida bem estruturadas
sua espera, e procura que a sua reclusão seja uma oportunidade para adquirir mais
formação, para se enriquecer. E essa vontade de continuar há de perdurar até final: tem
uma academia de música perto de casa onde se quer inscrever, e só tem medo de não se
integrar por ser uma escola sobretudo para crianças. Fala sempre no plural, em nome do
grupo, quando se refere aos concertos, e sente-se como uma parte de um projeto que é
mais do que o trabalho que foi feito individualmente com ela própria. Faz muitos
comentários sobre a dificuldade em conseguir fazer determinadas coisas, mas gosta de
desafios: “Isto é um curso intensivo, o que me estás a fazer!”, “Tu estás a pedir muito! O
que vale é que nós te adoramos!...”.
É com a Maria João que tenho oportunidade de trabalhar mais quantidade de
repertório, especialmente na segunda metade do projeto. O seu estudo individual reflete-
se na forma como evolui, semana a semana, dando espaço a um trabalho de pormenor,
técnico e musical, bastante considerável. Ela própria se vai apercebendo da sua evolução:
“Já viste que eu já consigo estar tocar a olhar para a partitura, mas sem olhar para os
dedos? É uma evolução muito grande!”. Das quatro reclusas, é com a Maria João que
desenvolvo a abordagem que mais se aproxima ao trabalho que faço, regularmente, numa
sala de aula de piano (ponderando, claro, todas as especificidades de um trabalho
realizado num contexto tão particular como o de uma prisão), porque vou percebendo que
é a forma que mais se lhe adequa.
Foi libertada em janeiro de 2015. Dias antes de terminar o projeto, pede-me para
lhe trazer peças novas e mostra-se interessada em comprar um piano, assim que for
libertada, para continuar a tocar.
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Helena
Umas mãos grandes, dedos grossos e calejados. Nos seus desabafos, conheço uma
vida passada que tocou no mais negro a que pode chegar a condição humana, e percebo
quanto foi importante a vinda para a prisão para dar a volta espiral negativa em que
estava imersa. Na Helena que está, na primeira sessão, minha frente, vejo muito pouco
desse passado: um grande entusiasmo, manifestamente demonstrado na sua linguagem
corporal, uma curiosidade para conhecer o instrumento e a música que dele poderá́
comunicar. Senta-se pela primeira vez ao piano e observa todo o teclado, desejosa por
começar a descobri-lo. O sorriso, o riso e as palmas, tão frequentes ao longo desta
primeira sessão (e que se manterão durante todo o projeto), são as provas da sua alegria.
A Helena é uma senhora persistente, confiante e ousada, mas ao mesmo tempo tão
frágil, nalguns momentos. Gosta de repetir cada novo bocadinho de música muitas vezes,
até que se sinta completamente segura, bate os pés, abana a cabeça e diz “não!” a si
mesma, quando se engana. Para muitas vezes para pensar, e desde cedo percebo que,
depois de uma informação nova, precisa do seu tempo para a interiorizar. Ouve todas as
minhas indicações com muita atenção e não se precipita, organizando o seu pensamento
antes de recomeçar a tocar. Vive cada minuto intensamente, e diz-me, já depois deste dia,
que quer deixar uma mensagem clara: “Eu consegui!”. Dá tudo de si, e é nos momentos
de improvisação que mais claramente se revelam a sua sensibilidade musical e o prazer
da descoberta. Com a Helena, todas as sessões começam com uns momentos de
improvisação, a quatro mãos, mesmo que o tempo seja pouco para cumprir as tarefas que
trago planeadas. Estou consciente que estes minutos são muitos especiais para a Helena.
E, no fundo, tenho consciência que me dão, a mim, tanto prazer quanto a ela.
A Helena foi libertada em setembro de 2014. Quer viver todos os momentos em
família que perdeu, no passado.
Clara
Senhora muito delicada, sensível, e com uma visão muito particular do mundo e
dos que a rodeiam. Acha que tudo pode ser música, menos as vozes das pessoas. Trabalha
nas oficinas das artes, na prisão, e oferece-me, ao longo do projeto, vários presentes
pintados por si. É generosa, disponível, e procura incessantemente aprender mais. Ri-se
das suas dificuldades e dos seus erros, mas quer, sempre, estar no seu melhor, semana a
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semana. Depois da primeira sessão, desenha, por iniciativa própria, um teclado numa
folha de papel onde “treina os dedos” todos os dias, no espaço da sua cela. Conta-me que
as outras reclusas, ao v-la, riem-se gargalhada.
A Clara quer mesmo aprender e dedica parte do seu tempo a tarefas que, não sendo
as mais agradáveis nem motivadoras, lhe parecem ser a única forma de desenvolver as
suas competências. Não sabe porqu, mas tem dificuldade em identificar o terceiro dedo
e, para se ajudar a si mesma, pinta com verniz um “3”, bem discreto, na unha. Diz-me
que se apercebe que tem mais dificuldade em determinadas secções da sua peça e que as
repete mais vezes para ficarem mesmo seguras. “Eu hoje acho que estou... em forma!”,
afirma. Quando não consegue tocar tudo correto, fica frustrada. “Eu estive a treinar isto!
Não me admito esta falha!...”. Mas logo me diz para tocarmos mais uma vez.
Sei que, para a Clara, cada nova peça é uma descoberta. Mostra-se sempre
entusiasmada com a perspetiva de aprender uma coisa nova. “Eu estou a ver aqui duas
bolas... e não sei o que são”, diz-me, quando olha para partitura da peça “The pipers are
coming” (de John Thompson) pela primeira vez. Digo-lhe que são duas notas tocadas ao
mesmo tempo na mão esquerda, ao que me responde, com entusiasmo: “Ai! Que giro!”,
querendo experimentar de imediato. Tem um papel muito importante na regulação do
trabalho em grupo, nas sessões conjuntas de preparação dos concertos, abdicando de
protagonismo ou de determinada tarefa assim que percebe que isso facilitará a minha
gestão e organização.
A Clara continua no EPESCB. Pensa no futuro e como poderá́ continuar a tocar.
Se será capaz de aprender mais musicas sozinha, aplicando os conhecimentos que leva
desta experiência. Faz planos para tocar com a irmã̃, quando for libertada.
UM ACORDE SUSPENSIVO Memórias de um projeto no Teatro Viriato
Em outubro de 2018 vivi o grande desafio de, em apenas um dia e contando com
sensivelmente 6 horas de trabalho em conjunto, tentar dar asas para voar a um grupo de
seis reclusos do Estabelecimento Prisional do Campo, em Viseu. O objetivo principal era
de, partindo do trabalho musical à volta do piano, construir uma apresentação
(necessariamente curta), ao final daquele dia.
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No processo de preparação deste dia, e em conjunto com a Dra. Paula Garcia
(Diretora Geral e de Programação do Teatro Viriato) percebi que esta experiência poderia
ser muito mais intensa e verdadeiramente diferente se, em vez de ser eu a deslocar-me ao
interior do estabelecimento prisional, os reclusos fossem convidados a vir partilhar
comigo o palco do Teatro Viriato, dando-lhes a possibilidade não só de estar num palco
de uma sala de espetáculo, mas também de ter a experiência de tocar num piano Steinway
& Sons, de uma qualidade fantástica (“o ferrari dos pianos”, como lhes expliquei).
Como mulher, senti este dia de uma forma radicalmente diferente, quando
comparado com a minha experiência em Santa Cruz do Bispo. Notei na cara dos seis
reclusos, à sua chegada ao Teatro Viriato pela manhã, um ar mais ou menos desconfiado
quando olharam para mim, uma “mulher com ar de menina” que lhes propunha um dia 
volta do piano, o instrumento das meninas bem-educadas que tocam piano e falam
francês. Mas, à medida que os minutos iam passando, a energia e a disponibilidade para
entrar nesta viagem eram cada vez maiores. A vontade de participar ia crescendo. O
cuidado em trabalhar cada momento para os melhores resultados possíveis, na
apresentação final, ia sendo mais evidente.
Conseguimos preparar quatro momentos musicais diferentes, três deles com
vários participantes (ou todos) a tocar em conjunto. Escolhi, para este dia, o tema da
“mudança” como mote para alinhar ideias. Com a ajuda do soneto de Cames e da poesia
de Eugénio de Andrade, as notas do piano foram ganhando um sentido mais especial.
Como lhes disse ao início da manhã, a mudança é algo inevitável na vida de qualquer um
de nós, seja qual for a nossa condição e o nosso passado. Almejar uma mudança para
melhor fazia parte dos objetivos daquele dia.
No final da apresentação, perguntei aos meus seis companheiros de palco o que
tinham sentido naquele dia, ao tocar. De entre eles, houve a resposta espontânea de um,
curiosamente o que se mostrou mais reticente e aparentemente menos disponível para se
deixar levar pelas asas do piano durante aquele dia. Disse-me: “quando me sentei e toquei
estava longe, não estava aqui”. E esta frase diz tudo. Um piano pode, mesmo, dar asas
para voar. E assim espero que possa acontecer, no futuro, em muitos outros palcos e com
muitas outras pessoas.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
O trabalho numa prisão só tem um verdadeiro e profundo significado quando se
percebe quão importante foi para cada uma das pessoas que partilharam o espaço dos dois
projetos acima apresentados. A história da Marta, da Maria João, da Helena e da Clara,
ou a história (ainda que breve) dos seis reclusos de Viseu com quem partilhei o palco do
Teatro Viriato, são a verdadeira razão por que faz sentido continuar a realizar trabalho
com quem se vê, num determinado período da sua vida, privado da sua liberdade.
Na sua essência, o piano não é um instrumento comunitário. Para além disso,
historicamente está associado a uma elite da sociedade, porque poucos tm a possibilidade
de ter um piano em casa e de aprender a tocá-lo (e, mais uma vez, lembro-me,
imediatamente, da imagem da menina bem-educada que “toca piano e fala francês” como
paradigma do status social). Nos projetos como os acima descritos descobriram-se novas
dimensões do que pode ser a prática musical baseada no piano: a sua essência
individualista transformou-se e, de repente, havia seis, oito, dez, doze ou catorze mãos a
tocar ao mesmo tempo; a sua condição elitista transformou-se, passando a fazer parte da
vida de dez pessoas a quem a sociedade apontou o dedo, condenou e castigou, pelo
isolamento.
volta do piano, a Marta, a Maria João, a Helena e a Clara construíram a sua
própria história. E, ainda que numa experiência muito efémera, foi possível testemunhar
que também que os seis reclusos do projeto no Teatro Viriato, meus “companheiros de
palco” (como tantas vezes lhes chamei, ao longo daquele dia), puderam experimentar essa
descoberta de ser (re)descobrir num espaço que, no início daquele dia, lhes parecia estar
tão distante das suas vidas. Nas asas de um piano... aprenderam a voar.
23 | LAMELA, Inês
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Technical Report
Full-text available
The UK has been a pivotal national player within the development of community music practice. In the UK community music developed broadly from the 1960s and had a significant burgeoning period in the 1980s. Community music nationally and internationally has gone on to build a set of practices, a repertoire, an infrastructure of organisations, qualifications and career paths. There are elements of cultural and debatably pedagogic innovations in community music. These have to date only partly been articulated and historicised within academic research. This document brings together and reviews community music research under the headings of history and definitions; practice; repertoire; community; pedagogy; digital technology; health and therapy; policy and funding, and impact and evaluation. A 90-entry, 22,000 word annotated bibliography was also produced within the wider AHRC project.
Article
In this paper, Maxine Greene illuminates the concept of an aesthetic education within her discussion of the work of New York based dance company STREB. Elizabeth Streb's daredevil, postmodern acrobatic performance piece provides this paper with the metaphor of the wall—from the glass wall through which the STREB dancers literally ‘break through’. The idea of arts education is to challenge the wall, not passively walk away—to take the risks, to ask the questions, to be willing to engage.
Questões de identidade numa prisão feminina. Lisboa: Cadernos do Centro de Estudos Judiciários
  • M I Cunha
Cunha, M. I. (1994). Malhas que a reclusão tece. Questões de identidade numa prisão feminina. Lisboa: Cadernos do Centro de Estudos Judiciários. Disponível em: http://hdl.handle.net/1822/5237