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O Black Bloc e o papel das mídias sociais nas manifestações brasileiras de 7 de setembro de 2013

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Este artigo objetiva propor uma reflexão sobre o surgimento da tática black bloc no Brasil e analisar os vínculos estabelecidos entre usuários da mídia social Twitter em relação aos protestos ocorridos no Brasil no dia 7 de setembro de 2013. A pesquisa inicial deu-se pela busca e armazenamento de mensagens publicadas na rede social contendo o termo black bloc; a seguir, de forma a analisarmos o grande volume de dados obtido, desenvolvemos a esquematização de imagens e grafos representativos das redes, visando compreender a natureza de suas interações e, principalmente, como estas se estruturaram ao longo do tempo. PALAVRAS-CHAVE: análise de redes sociais; black bloc; manifestações; protestos. I-INTRODUÇÃO E OBJETIVO Por mais de duas décadas, os protestos no Dia da Independência do Brasil vinham sendo organizados pelo Grito dos Excluídos, sindicatos e movimentos sociais em defesa da justiça social. No ano de 2013, porém, vários outros grupos convocaram protestos pela internet com demandas políticas tanto imateriais (como o fim da corrupção) quanto situacionais (como contra a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil). Entre estes atores, estavam os autodemonimandos black blocs: indivíduos adeptos de uma tática de guerrilha cujas origens remontam ao movimento autonomista de 1970 e 80, onde vários protestos eclodiram contra o governo e suas políticas nuclear e habitacional. De origem ideológica majoritariamente anarquista-mas com a participação de marxistas, ambientalistas e feministas radicais-os Schwarze Bloc nasceram como tática de resistência à violência do aparato policial alemão. Com o objetivo de garantir o anonimato 1 Trabalho apresentado no IJ7-Comunicação, Espaço e Cidadania do XIX Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste, realizado de 22 a 24 de maio de 2014. 2 Orientador do trabalho, professor e Doutor em Comunicação pela UFRJ e coordenador do
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XIX Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste Vila Velha ES 22 a 24/05/2014
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O Black Bloc e o papel das mídias sociais nas
manifestações brasileiras de 7 de setembro de 2013
1
Fábio MALINI Luiz de Lima
2
Gabriel Herkenhoff Coelho MOURA
3
Nelson Aloysio REIS de Almeida Passos
4
Universidade Federal do Espírito Santo, Espírito Santo, ES
RESUMO: Este artigo objetiva propor uma reflexão sobre o surgimento da tática black
bloc no Brasil e analisar os vínculos estabelecidos entre usuários da mídia social Twitter
em relação aos protestos ocorridos no Brasil no dia 7 de setembro de 2013. A pesquisa
inicial deu-se pela busca e armazenamento de mensagens publicadas na rede social
contendo o termo black bloc; a seguir, de forma a analisarmos o grande volume de dados
obtido, desenvolvemos a esquematização de imagens e grafos representativos das redes,
visando compreender a natureza de suas interações e, principalmente, como estas se
estruturaram ao longo do tempo.
PALAVRAS-CHAVE: análise de redes sociais; black bloc; manifestações; protestos.
I INTRODUÇÃO E OBJETIVO
Por mais de duas décadas, os protestos no Dia da Independência do Brasil vinham
sendo organizados pelo Grito dos Excluídos, sindicatos e movimentos sociais em defesa
da justiça social. No ano de 2013, porém, vários outros grupos convocaram protestos pela
internet com demandas políticas tanto imateriais (como o fim da corrupção) quanto
situacionais (como contra a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil).
Entre estes atores, estavam os autodemonimandos black blocs: indivíduos adeptos de uma
tática de guerrilha cujas origens remontam ao movimento autonomista de 1970 e 80, onde
vários protestos eclodiram contra o governo e suas políticas nuclear e habitacional. De
origem ideológica majoritariamente anarquista mas com a participação de marxistas,
ambientalistas e feministas radicais os Schwarze Bloc nasceram como tática de
resistência à violência do aparato policial alemão. Com o objetivo de garantir o anonimato
1
Trabalho apresentado no IJ7 Comunicação, Espaço e Cidadania do XIX Congresso de Ciências da Comunicação na
Região Sudeste, realizado de 22 a 24 de maio de 2014.
2
Orientador do trabalho, professor e Doutor em Comunicação pela UFRJ e coordenador do Labic-Ufes (Laboratório de
estudos em Imagem e Cibercultura), e-mail: fabiomalini@gmail.com, site: www.labic.net.
3
Orientador do trabalho e pesquisador associado ao Labic, e-mail: gabrielherkenhoff@gmail.com.
4
Estudante de Graduação 6º semestre do Curso de Jornalismo da Ufes e pesquisador associado ao Labic, e-mail:
nelsonaloysio@gmail.com.
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de seus adeptos e, com isso, evitar perseguições e processos, os adeptos eram convocados
a usar roupas pretas e máscaras, vestuário que se tornou uma marca da tática.
Ainda que tenham se passado mais de 30 anos, o black bloc continua sem muitos
estudos acadêmicos a seu respeito, o que pode ser observado pela falta de artigos
acadêmicos que se debruçam sobre o tema. Por outro lado, com a difusão do uso das
mídias sociais ao longo deste início de século XXI, há no ciberespaço um grande volume
de dados disponível sobre os mais diversos assuntos, o que possibilita a realização de
estudos ligados tanto ao campo da Cibercultura, quanto ao da Ciência de Dados.
Entretanto, ainda não pesquisas que investiguem a ligação entre os diversos grupos
adeptos da tática e o uso das redes sociais da Internet apesar de certos padrões de
comportamento poderem ser observados.
Com estes aspectos em foco, objetivamos, por meio de uma contextualização
histórico-social, proporcionar uma reflexão sobre a raison d’être dos black blocs; analisar
o discurso destes grupos nas mídias sociais durante as manifestações sociais do Dia da
Pátria; determinar como se deu a apropriação de novas tecnologias pelos envolvidos nos
protestos; e, através de uma análise descritivo-exploratória de suas redes no Twitter,
explicitar como os mesmos se articularam e o conteúdo que publicaram.
O presente artigo é a primeira parte de um estudo em realização pautado nas
manifestações sociais brasileiras emergentes no ano de 2013, realizado com o apoio de
pesquisadores do Laboratório de Estudos em Imagem e Cibercultura (Labic), sediado na
Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
II METODOLOGIA
Preparação e documentação
O trabalho foi desenvolvido em três etapas. Primeiro, com o objetivo de recolher
informações sobre o acontecimento para a reconstrução de sua história, realizamos uma
pesquisa documental; para isso, utilizamos o software livre YourTwapperKeeper
5
,
responsável por crawlear (buscar e armazenar) tweets em tempo real a partir de termos e
hashtags específicos. Escolhemos a rede social Twitter por 1) possuir API (Application
Proggraming Interface) aberta, o que permite facilmente extrair informações disponíveis
5
Predecessor do serviço pago Topsy, capaz também de armazenar os tweets publicados anteriormente à sua busca, até
2006 comprado no início de dezembro de 2013 por 200 milhões de dólares pela empresa Apple. Download disponível
em: https://github.com/540co/yourTwapperKeeper. (Acesso em: 11/04/2014)
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na rede por meio de aplicativos desenvolvidos especificamente para este uso; e 2) pela
constante utilização da rede tanto por manifestantes para planejarem as suas próximas
ações, quanto pela mídia para noticiar e induzir a discussão dos fatos ocorridos durante os
protestos.
Sua configuração requereu certas particularidades: modificamos seu código fonte
para exportar os tweets desejados em tabelas .csv (comma separated values valores
separados por vírgula), mas delimitadas por pipes (caractere ‘|’), de forma a livrá-las de
bugs de quebra de linha e para servir de método de entrada para dois outros scripts que
viríamos a utilizar posteriormente. Para realizarmos a coleta de dados, definimos dois
termos de busca: a expressão “black bloc” e a hashtag #blackbloc.
Análise descritivo-exploratória
O primeiro passo após a pesquisa documental foi realizar uma pesquisa
bibliográfica, a fim de melhor compreendermos não somente o surgimento da tática black
bloc nas manifestações, como também o grande volume de dados coletado. Neste sentido,
ao longo do artigo utilizamos autores como Henrique Antoun, Manuel Castells, Piérre
Levy, Paulo Magalhães, Fábio Malini, Jean-Marie Muller e Howard Rheingold para nos
ajudarem na contextualização, reflexão e análise das redes.
O segundo passo foi produzir uma historiografia da rede de ação coletiva das
manifestações sociais brasileiras do Dia da Independência. Para isso, realizamos uma
análise descritivo-exploratória das redes coletadas: utilizamos o script tweetgraph
6
responsável por transformar a tabela original com os tweets que coletamos em duas redes
distintas: de menções (ats o Twitter utiliza uma arroba, at sign, antes de um nome de
usuário para criar um hiperlink a algum perfil) e republicações (rts ou retweets) de
mensagens por outros usuários. Antes, entretanto, modificamos seu código fonte para
exportar o texto dos tweets junto dos outros valores e para adaptar o seu método de entrada
aos arquivos que exportamos do YourTwapperKeeper.
Com isso, pudemos importar os arquivos no software livre Gephi
7
e realizar uma
análise descritivo-exploratória das redes, a fim de compreender a sua estrutura e identificar
6
Escrito na linguagem de programação R. Disponível em: http://crunch.kmi.open.ac.uk/viewsource.php?src=~
stuartbrown/data/tweetgraph.R. (Acesso em: 11/04/2014)
7
Ferramenta open source para a visualização e manipulação de grafos dinâmicos e hierárquicos, incluindo redes e
sistemas complexos. Disponível para download em: http://gephi.org. (Acesso em: 11/04/2014)
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os perfis com maior autoridade (número de republicações de suas mensagens, direta ou
indiretamente), assim como as mensagens (muitas vezes, com o maior número de
republicações e maior alcance na rede) que estavam a propagar antes, durante e após os
protestos do dia 7 de setembro. Pudemos, dessa forma, analisar como a rede se estruturava
mas não o seu conteúdo, produzido colaborativamente por milhares de tweets e usuários.
Utilizamos, então, o script narT
8
, responsável por ler os tweets que coletamos, demonstrar
as correlações entre hashtags presentes no dataset (fig. 2), gerar estatísticas dedicadas à
interpretação da rede a ser estudada (fig. 3) e o arquivo de entrada para importação e
criação de um wordcloud (fig. 4), a fim de obtermos uma exposição visual de seu
conteúdo. Conseguimos, desta forma, avaliar a repercussão das manifestações no
ciberespaço, especificamente em relação à presença que o black bloc exibia nas mesmas.
III DESENVOLVIMENTO
Guerrilha urbana: a origem do black bloc
“A propriedade privada deveria ser distinguida da propriedade pessoal. A última
é baseada na utilidade, enquanto a primeira é baseada na troca. A premissa da
propriedade pessoal é que cada um de nós tenha o que precisa; a da propriedade
privada é que cada um de nós tenha algo que o outro precisa ou deseja… Nós
reconhecemos que a destruição da propriedade privada não é um ato violento a
não ser que destrua vidas ou cause dor no processo… Ao "destruirmos"
propriedades privadas, nós convertemos o seu limitado valor de troca… Quando
quebramos uma janela, nós objetivamos destruir a fina camada de legitimidade
que rondeia o direito à propriedade privada… Muitas pessoas nunca verão o vidro
de uma loja ou um martelo da mesma maneira… O número de janelas quebradas
empalidece em comparação com… a violência cometida em nome do direito à
propriedade privada e todo o potencial de uma sociedade sem ela. Janelas
quebradas podem ser encomendadas e eventualmente substituídas, mas a quebra
destes princípios vai ainda esperançosamente persistir por um certo tempo.”
9
Apesar de traços do black bloc poderem ser rastreados até os confrontos chamados
pela organização Weather Underground
10
(WUO) durante os “Dias de Fúria” (Days of
Rage), em Chicago de 1969, é apenas com a ascensão do movimento autonomista durante
8
Script “narrativo do Twitter”, escrito na linguagem de programação Python por Marcus Vinicius Leite, graduado do
curso de Ciências da Computação da Ufes e pesquisador do Labic-Ufes. Disponível para download em:
https://github.com/ufeslabic/parse-tweets. (Acesso em: 11/04/2014)
9
ACME Collective N30 Black Bloc Communiqué (1999). DEUSEN, MASSOT. The Black Bloc Papers. Kansas:
Breaking Glass Press, 2001, p. 44.
10
Também conhecida como Weatherman ou The Weathermen, foi uma organização radical de esquerda fundada em
Ann Arbor (Michigan) e uma facção da Students for a Democratic Society (SDS). Responsável por uma série de ações
diretas antes e durante a década de 1970, almejavam “a destruição do imperialismo americano e um mundo sem classes:
comunismo mundial”, conforme visto no manifesto de Port Huron Statement (1962), disponível em: http://web.archive
.org/web/20060328145901/http://martinrealm.org/documents/radical/sixties1.html. (Acesso em: 11/04/2014)
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a década de 1970, em vários países da Europa, que elementos mais concretos da tática
começaram a emergir, entre grupos distintos, dotados de horizontalidade e uma estrutura
decentralizada, provando suas raízes anarquistas.
Advindo da experiência da autonomia operária italiana, a Alemanha foi um dos
países onde o movimento mais se desenvolveu: um conjunto de experimentos sociais
organizados por setores que optaram por se manter à margem do modo de vida dominante
imposto pelo governo e criar focos de sociabilidade alternativos no seio das próprias
sociedades capitalistas, pautados por valores e práticas opostos aos já estabelecidos. Com
o tempo, entretanto, após a destruição de várias ocupações, como a República Livre de
Wendland
11
, apenas crescia a truculência do aparato policial e do governo federal alemão
ocidental e oriental, simultaneamente com os de outras nações.
Foi assim que, ao final da década de 1970, grupos radicais por vezes formados
por indivíduos de dentro do cenário anarcopunk, usualmente por indivíduos da típica
classe trabalhadora , começaram a vestir-se de preto e marchar num único contingente, a
fim de ocultar suas identidades e evitar serem encurralados pelas forças policiais e
posteriores acusações legais. A decisão também colaborou para levar os movimentos em
questão em direções mais militantes
12
, a ponto de desenvolver melhores táticas de
autodefesa que, por exemplo, os capacetes de motociclistas pretos e as jaquetas de couro
do Black Helmet Brigade, um dos primeiros grupos, originalmente pacífico
13
, a entrar em
confronto direto com as forças policiais que repreendiam com violência a manifestantes e
manifestações, ainda no ano de 1978, na Holanda. Desde então, a tática tem sido utilizada
por diferentes grupos de dissidentes em diversos países e situações, incluindo Canadá,
Egito, Estados Unidos, Itália, Reino Unido e, mais de trinta anos depois, Brasil.
É importante salientar que este processo de formação não deu origem a uma
organização única e/ou contínua; pelo contrário, ela existia, mas como um grupo
temporário, formado de uma ou múltiplas células, cujo objetivo imediato era a criação de
uma força de luta provisória nas ruas capaz de resistir ao aparato policial e às suas
11
Ocupação na região de Wendland da cidade de Gorleben, Alemanha, em 3 de maio de 1980, num protesto à decisão
do governo federal de transformar a área em um depósito de lixo radioativo. Resistiu até 4 de junho do mesmo ano,
quando forças policiais alemãs desapossaram pacificamente dos manifestantes a área, conforme disponível em:
http://germanhistorydocs.ghi-dc.org/docpage.cfm?docpage_id=1917 (Acesso em: 11/04/2014).
12
The Black Bloc Papers, p. 10.
13
“Em 23 de novembro de 1978… em Amsterdã… os vídeos [nos] mostram: naquele dia, ocupantes, parados... com os
braços cruzados para passivamente acabar com a desocupação, apanharam com cassetetes enquanto gritavam: "sem
violência, sem violência!" Era óbvio que aquilo não aconteceria de novo”, conforme disponível em
www.portlandoccupier.org/2012/02/16/black-bloc-a-brief-history/ (Acesso em: 11/04/2014).
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tentativas violentas de dissolver as manifestações
14
. O black bloc era, portanto, não mais
que uma aliança entre pessoas e/ou grupos independentes que, coletivamente, agiam direta
e democraticamente sempre que possível; um grupo extremamente mutável, que
encontrava na falta de uma estrutura formal ou hierarquia autoritária a sua maior vantagem
e, em diferentes instâncias, limitação. Ao mesmo tempo, porém, nota-se um padrão: em
muitos, senão todos os cenários em que a tática emergiu, houve previamente uma forte
repressão marcada pela violência com que as forças militares responsáveis por dissipar os
protestos a mando dos representantes políticos da população faziam-no.
Green, yellow, black bloc: o ascender da tática no Brasil
Assim como em outras localidades, foi necessária uma demonstração inicial da
violência expressa por forças militares frente a manifestações sociais para fazer com que
diferentes grupos utilizassem da tática black bloc em seus confrontos. No Brasil,
entretanto, denota-se uma particularidade: seu aparato policial, em específico a Polícia
Militar, já era, mesmo antes do ascender dos protestos e de sua repressão, caracterizado
por um sentimento de medo e insegurança vindo por boa parte de sua população uma
realidade reforçada por diferentes pesquisas, em parte devido à violência
15
por parte de
alguns membros da instituição e a ilegalidade
16
dos atos que uma minoria
17
comete. O
país, entretanto, desde as marchas pelo Impeachment de Collor, em setembro de 1992, não
14
“Tipicamente, o bloco se posiciona à frente, atrás e nos perímetros da marcha em protesto a fim de proporcionar uma
presença defensiva em pontos normalmente vulneráveis. Assim, a polícia é prevenida de romper a demonstração sem
antes ter de subjugar uma seção altamente militante, decidada e preparada do protesto.”. The Black Bloc Papers, p. 11.
15
“No Brasil, a violência policial… afeta um grande número de pessoas. Entre agosto de 1995 e agosto de 1996, na
Região Metropolitana do Rio de Janeiro, 5,3% da população foram desrespeitados, 2,3% foram ameaçados e 1,1% foi
agredido fisicamente por policiais. Isso significa que, num período de um ano, pelo menos 835.454 pessoas sofreram
algum tipo de violência policial. A mesma pesquisa mostra que, no mesmo período, aproximadamente 80% das vítimas
de roubo, furto ou agressão não recorreram à polícia, sendo que de 30 a 40% destas vítimas, dependendo do tipo de
crime, não o fizeram porque não acreditavam na polícia ou tinham medo dela.” CIDADANIA, justiça e violência. Rio
de Janeiro: Ed. Função Getulio Vargas, 1999, p. 130. Pesquisa de vitimização realizada pelo CPDOC-FGV/Iser.
16
“Vejamos como exemplo a cidade do Rio de Janeiro: se considerarmos o efetivo da Polícia Civil do estado em cerca
de 12.000 homens e da Polícia Militar em 45.000 (números verdadeiros muito superiores), teremos um total geral de
57.000 policiais. Aproveitando os dados das principais organizações não-governamentais que combatem a corrupção,
as quais admitem o valor de 10% para os índices de desvios de conduta dentro das instituições em geral, acabamos por
constatar que só no Estado do Rio de Janeiro existem, admitidamente, cerca de 5.700 policiais corruptos e dispostos a
qualquer atividade ilegal. Se considerarmos ainda a hipótese de o policial corrupto praticar apenas uma atividade ilegal
por mês (o que não é plausível), teríamos, diariamente, 190 atos de corrupção de policiais só no Estado do Rio de
Janeiro.” MAGALHÃES, Paulo. A Polícia na História do Brasil. Mato Grosso do Sul: 2008, p.25.
17
Os dados apresentados caracterizam um comportamento de parte dos membros da instituição, não representando sua
atuação no geral, e os números, quando comparados ao total, chegam a parecer mínimos. Configura-se, obviamente,
uma exceção: “não é a exceção que foge à regra, mas a regra que, através de uma auto suspensão, dá lugar à exceção e,
somente deste modo, constitui-se como regra”. AGAMBEN, Giorgio. HOMO SACER: O poder soberano e a vida nua
I; Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
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abrigava protestos com forte adesão popular e presença nas ruas
18
. Foi somente mais de
duas décadas depois, em junho de 2013, que a ocasião enfim se configurou durante uma
das convocações por parte do Movimento Passe Livre (MPL), em luz do contínuo e
intermitente aumento das tarifas dos transportes públicos e da crescente insatisfação
popular quanto ao modo que seus representantes políticos ignoravam seus clamores.
As ruas foram, então, tomadas por multidões inteligentes
19
que, impulsionadas
pelo acesso às novas tecnologias de informação e comunicação (TICs), deram forma ao
que Pierre Levy chama de inteligência coletiva: “uma inteligência distribuída por toda
parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta [em] uma
mobilização efetiva das competências” (LEVY, 1998, p.28). Além de servir à mobilização
e articulação das manifestações, as redes sociais foram um importante espaço de exposição
da repressão policial por meio de streamings, imagens e comentários postados pelos
manifestantes e reverberados por diversos sujeitos. Com isso, grupos começaram a
importar elementos da tática black bloc para resistirem às ações da polícia.
Foi assim que, em 1º de julho de 2013, exatamente dez dias após a primeira
manifestação convocada pelo MPL, publicou-se o “Manifesto Black Bloc
20
na página
BlackBlocBrasil, uma das mais ativas na ocasião, com dezenas de milhares de seguidores.
Uma análise do documento permite confirmar a interpretação feita até então: seu conteúdo
se apresenta tanto como uma resposta de seus integrantes à violência da Polícia Militar em
luz dos protestos, quanto à ineficácia do governo brasileiro em responder as suas
reivindicações, gerando um forte sentimento de exclusão, marginalização e revolta em
grande parte de seu contingente.
“Contra as grandes corporações, instituições e organizações opressoras” (artigo
1º): a exemplo da Polícia Militar, identificada pelos adeptos do black bloc como
“meio de repressão e/ou opressão” (art. 8º) justamente por empregar pelos seus
oficiais táticas de “infiltração desmoralização e corrupção de movimentos sociais”
(art. 2º) como as várias prisões preventivas de manifestantes, infiltrações em
protestos por policiais à paisana, prisão de cidadãos sem provas ou motivos
conclusivos (ex.: vinagre), agressões de jornalistas e quebra de seus equipamentos,
18
Conforme disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/06/1296834-protesto-em-sao-paulo-e-
omaior-desde-manifestacao-contra-collor.shtml. (Acesso em: 11/04/2014).
19
“Formadas por pessoas capazes de atuar conjuntamente mesmo que não se conheçam. Os membros desses grupos
cooperam de modos inconcebíveis em outras épocas porque utilizam sistemas informáticos e de telecomunicações muito
novos que lhes permitem conectar-se com outros sistemas do entorno, assim como com outras pessoas”. RHEINGOLD,
H. Multitudes Inteligentes: la próxima revolución social. Barcelone: Gedisa, 2004, p. 18.
20
Disponível em: https://www.facebook.com/notes/b ̲̅ l ̲̅α ̲̅c̲̅ k ̲̅ -b ̲̅ ̲̅ l ̲̅σ ̲̅c̲̅ k ̲̅ - ̲̅b ̲̅ я ̲̅α ̲̅ ̲̅i ̲̅l ̲̅/manifesto-black-
bloc/472653326160999 ou http://on.fb.me/1g5wmPh. (Acessos em: 11/04/2014)
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entre outras várias ações que policiais militares foram gravados realizando durante
os protestos.
O 7 de setembro: relato histórico
Os protestos no Dia da Independência de 2013 aconteceram em cerca de 40
cidades, sendo 24 capitais. Segundo informações oficiais
21
, ao todo, estimam-se a
presença de 17 mil manifestantes e a detenção de ao menos 525 pessoas, entre adultos e
adolescentes. No Rio de Janeiro, manifestantes entraram na avenida do desfile
cívicomilitar ainda pela manhã, gerando conflitos; já à tarde, dissidentes, incluindo black
blocks, seguiram ao monumento Zumbi dos Palmares, na avenida Presidente Vargas, e
queimaram a bandeira do Brasil, depois se direcionando para o palácio Guanabara, sede
do governo. Na capital São Paulo, manifestantes chocaram-se com a polícia no centro; um
grupo com black blocks tentou depredar a Câmara Municipal e depois seguir para a Sé;
confrontos se sucederam. Em Brasília, policiais e manifestantes se enfrentaram até serem
dispersos por armas “não letais” pelos arredores do Congresso, do estádio Mané Garrincha
e do Museu da República.
As demonstrações nas cidades de Rio de Janeiro e São Paulo, em comparação com
outras localidades, nos permitem afirmar que em ambos os estados a tática black bloc
apresenta-se com mais força que o usual. Em todas, entretanto, identificou-se o padrão de
comportamento dos manifestantes de fazer uso das mídias sociais como instrumentos de
coordenação, engajamento e repercussão das ações tomadas pelos envolvidos nos
protestos do Dia da Pátria. Especificamente no Twitter, dissidentes realizaram streamings
para propagar informações para outras pessoas e grupos a longas distâncias; e as forças
policiais também utilizaram da mesma rede social, mas para vigiar e interceptar as
comunicações dos envolvidos nas manifestações.
Assim, os protestos adquiriram uma nova camada de luta, que resultou na
apropriação do ciberespaço tanto pelos interessados no fim das manifestações, quanto por
aqueles que buscavam romper o “monopólio da fala” da corporações midiáticas, para
utilizar uma expressão de Muniz Sodré (1977). Nesse sentido, uma verdadeira guerra em
rede passa a ser travada em uma dimensão capaz de imbricar redes e ruas, tornando difícil
a distinção radical objeto de crítica de Pierre Levy em Cibercultura (1996) entre o
“virtual” e o “real”.
21
Disponível em: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/09/protestos-de-7-de-setembro-tem-confronto-em-
11capitais-do-pais.html. (Acesso em: 11/04/2014)
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Assistimos, portanto, durante as manifestações que se desdobram desde de junho
de 2013 a emergência de uma outra dinâmica comunicacional dentro dos movimentos
políticos brasileiros. Como observam Antoun e Malini, a construção de uma narrativa
colaborativa por meio do uso das novas tecnologias fortalecem a constituição de redes de
ação coletiva e modificam substancialmente as perspectivas da produção de informação e,
logo, da luta política na contemporaneidade.
“A narrativa colaborativa… é uma expressão de uma nova cultura de
indiferenciação do consumo e da produção da informação, cujo traço peculiar é a
instataneidade em fluxo contínuo de uma conversa… Ela marca o engajamento do
sujeito naquilo que escreve e na ação coletiva à qual ele se vincula.” (ANTOUN
& MALINI, 2013, p.214)
Guerra em rede: análise dos dados extraídos do Twitter
O software Gephi, utilizado para visualização e manipulação dos grafos utilizados
neste artigo, permite a utilização de métricas distintas para o estudo e a representação das
características únicas que cada rede apresenta. Os nós (nodes) representam diferentes
perfis ou hashtags (fig. 1 e 2, respectivamente) envolvidos na controvérsia que formou a
rede; e as arestas (edges), as conexões estabelecidas entre dois diferentes nós. É importante
notar que essas conexões são direcionais, ou seja, não necessariamente recíprocas, devido
à natureza de como as interações sociais no Twitter são realizadas: um usuário não precisa
estar na rede de outro para republicá-lo; entretanto, quanto mais usuários tem em sua(s)
rede(s), maior é a chance de obter outras mais republicações.
No primeiro grafo (fig. 1), utilizamos a segunda versão do algoritmo de
distribuição espacial Force Atlas
22
. O tamanho dos nós indica o valor de seu grau de
entrada ponderado, medida que avalia a quantidade de republicações que um perfil recebeu
em todas as suas mensagens, calculando a soma dos pesos das arestas que outros nós
possuem, conectando-os a ele; já a sua cor, o valor de seu grau de saída ponderado, que
avalia a quantidade de republicações que um perfil fez de mensagens de outros perfis,
calculando a soma dos pesos das arestas que possui conectando-o a outros nós. A primeira
métrica é a responsável por indicar os perfis que comportam-se como Autoridade na rede,
ou seja, o quão retweetado ele foi por outros usuários, independente de seus números de
seguidores. Já a segunda é útil para identificar os hubs, ou seja, os perfis cuja participação
na rede define-se não somente pela quantidade, como também pela qualidade de suas
22
Algoritmo contínuo responsável por decompor a rede objetivando a sua interpretação qualitativa, através de métricas
espaciais de atração e repulsão, como gravidade e massa, cujos valores são dependentes dos atributos dos nós que, por
sua vez, variam de acordo com as suas ligações (arestas) com outros nós.
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ligações: tanto a nós influentes pelo seu grande e/ou altamente conectado userbase, quanto
pelo conteúdo que agregam à e toma a atenção de outros usuários na rede. Já o tamanho
das arestas define a força da conexão entre dois nós (o quão retweetado por outros usuários
fora da ligação original foi o conteúdo da mensagem então republicada), e a sua cor,
visando uma melhor composição visual, um misto das duas métricas.
Fig. 1: grafo dos tweets que continham o termo black bloc e/ou a hashtag #blackbloc publicados
durante a semana (entre os dias 4 e 10) dos protestos do Dia da Independência
Desta forma, pudemos identificar, entre os 3.663 nós, que os perfis que mais se
assimilaram ao comportamento de Autoridade na rede foram 1) jornaloglobo, mídia
tradicional, com peso 572; 2) reinaldoazevedo, jornalista da revista Veja, com peso 225;
3) midianinja, rede decentralizada de comunicadores que recentemente venceu o 6º Shorty
Awards, com peso 164; 4) forfunoficial, banda musical, com peso 127; e 5)
marcelorubens, escritor brasileiro, com peso 101. Assim, conferimos, por exemplo, que,
apesar da ascensão de múltiplos grupos informativos, a mídia online de um dos veículos
mais tradicionais do país obteve uma participação quase 350% maior no Twitter que o
coletivo independente de maior alcance e repercussão durante a semana dos protestos,
mesmo realizando streamings e postando informações por vezes mais rapidamente que a
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sua contraparte; e que estes perfis, por possuírem valor 0 de grau de saída, dedicaram-se
a e ganharam foco exclusivamente pela publicação independente (no sentido de a
publicação não ser um RT mesmo que em tweets próprios, o perfil do jornaloglobo, por
exemplo, utilizou-se das cobertura realizadas por mídias autônomas, como veremos a
seguir) na rede de conteúdo pautado na temática do black bloc.
Também foi fácil identificar os tweets com maior índice de republicação, que
coincidiam às arestas (cujo número total era 4.157) de maior tamanho. A sua análise, por
se tratar de uma hipermídia, dependia também da leitura dos links que agregava em seu
conteúdo. São eles: 1) “RT @JornalOGlobo: No Rio, bandeira do Black Bloc é hasteada
no lugar da do Brasil. Siga ao vivo: http://t.co/dWirVhgSpp”, repercutindo na rede tanto
devido ao link que agregava (uma compilação de vários outros links de streamings e
imagens publicados por outros usuários no Twitter) quanto devido ao seu texto (inflando
o discurso das respostas positiva e negativamente, de acordo com a posição prévia de seus
autores em relação à tática); 2) RT @reinaldoazevedo: Os black blocs nada têm de
polêmico. A menos que se aceite quebrar por quebrar, vandalizar por vandalizar.
http://t.co/T92FyeF16f ”, uma opinião errônea, por interpretar um(ns) grupo(s) como
monopolista(s) da tática de guerrilha, prescindir as causas de seu surgimento, edificar o
seu comportamento como massa, escusando os efeitos não-visuais diretos, imediatos e a
longo prazo de sua(s) ação(ões) e ainda negar a sua “polêmica”, confirmada pela escalada
no número de tweets próximo aos protestos de 7 de setembro (fig. 3), conforme análise
dos dados do Twitter; 3) “Ato pelos Black Bloc[s] presos, amanhã [em] RJ!
pic.twitter.com/3wjrkip65Y”, publicação direcionada ao engajamento e mobilização de
outros usuários, por um perfil ativista ainda ativo até a publicação deste artigo; 4) “RT
@reinaldoazevedo: Aos 20 e poucos anos, Caetano se negou a aderir à esquerda
botocuda opositora do regime militar. Por que o faz agora?”, em referência ao então
recente ato do músico Caetano Veloso de, em tese, demonstrar apoio ao movimento por
meio da publicação de uma foto sua enquanto mascarado nas redes sociais; e 5) “RT
@AnonBr4sil2: Marcha Black Bloc segue na Avenida Paulista com milhares de
integrantes. Acompanhe ao vivo: http://t.co/Ev8xYbhMVU”, postado por um dos vários
perfis autodenominados anonymous que participaram da cobertura dos protestos. A
análise destes tweets com maior índice de republicação permite, portanto, confirmar o
panorama do wordcloud
23
(fig. 4) representativo do conteúdo de todas as mensagens
23
Feito om a ajuda do webapp gratuito Tagxedo, disponível em: http://www.tagxedo.com. (Acesso em: 11/04/2014)
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coletadas durante o dia sete de setembro. Mesmo após a observação da estrutura e
conteúdo da rede, entretanto, faltava avaliar um outro recurso que se tornou elemento-
chave nas interações sociais do Twitter, chegando a ser, anos depois, importado pelo
Facebook: as hashtags, responsáveis por contextualizar uma publicação em determinada
temática, sem que seja necessário citá-la diretamente.
Fig. 2: rede de hashtags dos tweets que continham o termo black bloc e/ou a
hashtag #blackbloc publicados durante o dia 7 de setembro
De forma a aumentar a precisão da avaliação, diminuímos o número de hashtags
e, portanto, tweets a serem importados para apenas os publicados durante o dia sete de
setembro. Já havíamos feito similar para gerar a exposição visual de seu conteúdo, sem
prejudicar a sua leitura e interpretação; assim, optamos por, através do algoritmo de
distribuição espacial Concentric Layout24, plotar a rede das hashtags relacionadas à
primeira de maior repetição (ou seja, maior grau) no dataset: #vemprarua. Como o grafo
original ainda possuía bastantes nós (109) e conexões (277), dificultando a sua leitura,
removemos os componentes menos conectados e exportamos apenas os ligados a um ou
24 Responsável por distribuir concentricamente componentes fortemente conectados a um determinado nó. Criado por
Vijesh Mohan. Disponível em: https://marketplace.gephi.org/plugin/concentric-layout/. (Acesso em: 11/04/2014)
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dois (de um total de quatro) níveis distante de si. O tamanho dos nós, assim como a sua
cor, indica a quantidade de vezes que uma hashtag foi utilizada; e o tamanho e a cor das
arestas, a força de suas conexões, desta vez não direcionadas.
Pudemos, assim, observar alguns fatores interessantes, como a forte conexão entre
as hashtags 1) #vemprarua, #semviolência e #vaimascarado e 2) #operação7desetembro,
#changebrazil e #diadobastablackbloc; denotando uma clara controvérsia referente a
presença de perfis tanto a favor quanto contra o modus operandi do black bloc inseridos
na mobilização e engajamento dos protestos do Dia da Pátria.
Fig. 3: ocorrência do termo black bloc em tweets publicados durante o mês de setembro
Fig. 4: wordcloud dos termos mais repetidos entre os tweets com black bloc ou
#blackbloc em seu conteúdo publicados durante o dia 7 de setembro
IV CONSIDERAÇÕES FINAIS
As manifestações que ocorreram nacionalmente durante junho de 2013 e se
estenderam ao 7 de Setembro demarcaram a entrada do Brasil no ciclo de protestos, que
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vem atravessando diversos países do mundo desde 2010. A marca de tais jornadas tem
sido um crescente uso das redes sociais para a mobilização e organização dos protestos,
aproveitando a inteligência coletiva disponível no ciberespaço e criando formas
inovadoras de ação política, baseadas no compartilhamento de informação e na
colaboração entre usuários. Nesse sentido, o uso de streamings e o rápido
compartilhamento de fotos e vídeos no Twitter, por parte de manifestantes e coletivos
independentes, configurou-se como um importante mecanismo para que os próprios atores
pudessem contar a história do movimento, rompendo com o monopólio da mídia
tradicional.
Além do uso de tais ferramentas, a “Jornada de Junho” – como ficaram conhecidos
os protestos brasileiros possui ainda um outro fato novo: a emergência da tática black
bloc como forma de resistência à violência policial e, de maneira mais difusa, de luta
anticapitalista. Pode-se dizer que o aparecimento desses novos atores está ligado a, pelo
menos, dois fatores: a multiplicação dos relatos de repressão a manifestantes; e a
incapacidade das esferas governamentais de compreender e lidar com movimentos
acentrados e não-hierárquicos. Isso levou a uma radicalização dos protestos nas ruas e a
uma disputa na rede acerca do papel dos black blocs, isso pode ser explicado pelo fato de
que, como analisa Manuel Castells: “A forma como pensamos e sentimos determina a
como atuamos” (CASTELLS, 2009, p.393).
Por fim, nesta primeira etapa da pesquisa nos propusemos a analisar a conexão
entre as redes e as ruas e suas implicações na difusão de informação acerca das
manifestações e, em particular, das discussões em torno do black bloc no Twitter. Para
tanto, utilizamos um método capaz de revelar a constituição das redes de relações entre
atores, os papéis assumidos pelos mesmos na discussão e a semântica que circulou na rede
durante o 7 de Setembro. Assim, notamos as disputas de sentidos em torno do tema, o que
fez com que houvesse uma polarização da rede entre aqueles que identificavam a tática
como uma violência despropositada e aqueles que afirmavam o black bloc como uma
forma de resistência à polícia e à opressão do Estado, diferentemente da interpretação
homogênea das grandes corporações midiática. Dessa forma, comprovamos
empiricamente o papel das novas tecnologias na amplificação de discursos marginalizados
pela mídia de massa.
“Com a internet, a potência das forças centrífugas que tinham sido aprisionadas e
capturadas pela força de unificação e homogeneização das redes analógicas (televisão) é
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liberada, ativada e inventa outras máquinas de expressão, outros regimes de signos.”
(Lazzarato, p.179)
V REFERÊNCIAS
AGAMBEN, G. HOMO SACER: O poder soberano e a vida nua I. Belo Horizonte:
Ed. UFMG, 2010.
ANTOUN, H. & MALINI, F. Internet e a Rua, A - Ciberativismo e mobilização nas
redes sociais. Vitória: Ed. Sulina, 2013.
Black Bloc Rising: Social Networks in Brazil. Instituto Igarapé, 2013.
CASTELLS, M. Comunicación y Poder. Madrid: Ed. Alianza, 2009.
CIDADANIA, justiça e violência. Rio de Janeiro: Ed. Função Getulio Vargas, 1999.
DEUSEN & MASSOT. The Black Bloc Papers. Kansas: Breaking Glass Press, 2001.
DUPUIS-DÉRI, F. The Black Blocs Ten Years after Seattle: Anarchism, Direct Action,
and Deliberative Practices. Université du Québec à Montréal (UQÀM), 2010.
LAZZARATO, M. As revoluções do Capitalismo. Rio de Janeiro: Ed. Civilização
Brasileira, 2006.
LÉVY, P. A Inteligência Coletiva. São Paulo: Ed. Edições Loyola, 1998.
MAGALHÃES, Paulo. A Polícia na História do Brasil. Mato Grosso do Sul: Ed. Brasil
Verdade, 2008.
MULLER, Jean-Marie. O Princípio da Não-Violência: uma trajetória filosófica. São
Paulo: Palas Athena, 2007.
RHEINGOLD, H. Multitudes Inteligentes: la próxima revolución social. Barcelone:
Ed. Gedisa, 2004.
SODRÉ, Muniz. O Monopólio da Fala. Petrópolis, RJ: Vozes, 1977
VODOVNIK, Ž. A Living Spirit of Revolt: The Infrapolitics of Anarchism. Dexter:
Ed. Thomson-Shore, 2013.
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Book
Full-text available
“The great contribution of Žiga Vodovnik is that his writing rescues anarchism from its dogma, its rigidity, its isolation from the majority of the human race. He reveals the natural anarchism of our everyday lives, and in doing so, enlarges the possibilities for a truly human society, in which our imaginations, our compassion, can have full play.” —Howard Zinn, author of A People’s History of the United States, from the Introduction “Like Marx’s old mole, the instinct for freedom keeps burrowing, and periodically breaks through to the light of day in novel and exciting forms. That is happening again right now in many parts of the world, often inspired by, and revitalizing, the anarchist tradition that is examined in Vodovnik’s book. A Living Spirit of Revolt is a deeply informed and thoughtful work, which offers us very timely and instructive lessons.” —Noam Chomsky, MIT “Žiga Vodovnik’s A Living Sprit of Revolt is an original and brilliant exploration of the great tapestry of theory and praxis that belongs in the anarchist tradition and its contemporary forms. For the first time he makes a striking case that the Transcendentalists and their intellectual cousins belong firmly in this tradition. No library of contemporary or historical radicalism can be without it.” —James C. Scott, professor of political science and anthropology, Yale University “Žiga Vodovnik has made a fresh and original contribution to our understanding of anarchism, by unearthing its importance for the New England Transcendentalists and their impact on radical politics in America. A Living Spirit of Revolt is interesting, relevant, and is sure to be widely read and enjoyed.” — Uri Gordon, author of Anarchy Alive: Anti-authoritarian Politics from Practice to Theory “This book with its felicitous title is an important and essential work, honest, painstaking, and intelligent. Unlike so many political scientists, Žiga Vodovnik understands anarchism. It is unlikely that anyone can read A Living Spirit of Revolt without gaining a wholly new perspective on the history and future of the anarchist movement. In a period that promises to spawn exciting transformations and occupations of politics, this brilliant work offers a degree of real understanding, and therefore cannot be too much commended.” —Andrej Grubačić, author of Don’t Mourn Balkanize! Essays After Yugoslavia and coauthor of Wobblies and Zapatistas: Conversations on Anarchism, Marxism, and Radical History
Article
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The Black Blocs made a spectacular entrance into the Movement for Global Justice on 30 November 1999 at the "Battle of Seattle," when they smashed the windows of McDonald's, Nike, Gap, and a few banks. In April 2009, almost ten years later, a Black Bloc is involved in skirmishes with police at Strasbourg during the NATO Summit. The aim of this article, which is largely based on interviews with militants, analyses of their discourses, and first-hand observations of demonstrations, is to identify how the Black Bloc tactic originated and spread, and to understand the political factors that led activists to adopt it. Three intrinsically political questions are addressed: (1) Who should determine the plan of action within a group of militants? (2) Who should determine the plan of action during a demonstration? (3) Who should determine the criteria to assess the effectiveness of the actions taken by a social movement and speak on its behalf? To answer these questions, the notion of "respect for a diversity of tactics" and the links between the Black Blocs and other militant organizations (both radical and reformist) as well as other blocs (the "Tute Bianche" or White Overalls and the Pink Blocs) are discussed.
Book
Hoje, numa Internet 2.0, um novo ciclo de lutas renasce a partir das ocupações e dos protestos de rua no Brasil e no mundo. As pessoas acampam em praças, acampam em ruas, acampam em assembleias legislativas, ao mesmo tempo tuítam, filmam, postam tais atos, gerando comoção e emoção nos seus seguidores e amigos nas redes sociais. Os protestos no Brasil e no mundo permitiram que a hipótese central deste livro se confirmasse: rua e rede se interpenetram e fazem emergir uma política colaborativa, direta e em tempo real. E possui relação intrínseca com as práticas de compartilhamento peer-to-peer, abertas pelas gerações ciberativistas das comunidades virtuais e grupos de discussão dos anos 80; pela radical cultura hacker do vazamento de códigos e informações que amplia o livre fluxo da informação; e pelas teias das páginas públicas virtuais da WWW. Se a globalidade se definia como a submissão de uma totalidade aberta e irrefreável às regulações conservadoras da preservação e do consenso, a participação e o compartilhamento revelam os novos fundamentos para a construção de uma mundialização ativa e afirmativa das singularidades de sua vasta multidão. A essas mutações - política e midiática - que este livro se dedica.
Article
Traducción de: Smart Mobs: The Next Social Revolution Exploración del desarrollo de nuevas tecnologías de comunicación inalámbrica (telefonía celular, computadoras portátiles, entre otros) y la interacción que ocurre entre estas tecnologías y sus usuarios. Así, por un lado el recorrido conduce a la tramoya que son los talleres de ingenieros e inventores donde son creados aparatos cada vez más pequeños y mejores, en tanto que la contraparte lleva a los escenarios donde las personas están experimentando con estas tecnologías. Es analizado un amplio espectro de las implicaciones resultantes de estos desarrollos, como la evolución de los sistemas de membresía y "reputación", la presión de los grupos mediáticos y las agencias gubernamentales para controlar el acceso y uso de las tecnologías o los desafíos potenciales para la seguridad y privacidad de los usuarios. Desde un enfoque que cruza la sociología, la antropología, la economía y la inteligencia artificial, el autor plantea que el impacto real de estas herramientas no proviene de la tecnología, sino de cómo las personas la usan, se resisten o adaptan a ella y en último término, se transforman a sí mismas, a sus comunidades y a sus instituciones.
As revoluções do Capitalismo
  • M Lazzarato
LAZZARATO, M. As revoluções do Capitalismo. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2006.
A Polícia na História do Brasil
  • Paulo Magalhães
MAGALHÃES, Paulo. A Polícia na História do Brasil. Mato Grosso do Sul: Ed. Brasil Verdade, 2008.