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Abstract and Figures

A leitura é uma habilidade cognitiva complexa, fundamental para o sucesso acadêmico e profissional na vida adulta. As dificuldades de leitura podem envolver alterações no processamento subcortical da informação visual não responsivas às abordagens pedagógicas habituais voltadas para problemas cognitivos de decodificação grafema–fonema, lexicais ou de processamento fonológico. Neste contexto a intervenção terapêutica deve ser direcionada para a identificação do tipo e intensidade dos distúrbios visuais a serem corrigidos, o que permite uma conduta eficaz e personalizada diante das demandas laborais, acadêmicas e sociais de cada caso (Guimarães & Guimarães, 2013). Os exames oftalmológicos de rotina se restringem a quantificar a capacidade de visualizar estímulos estáticos de alto contraste (letra preta no fundo branco), patologias orgânicas do globo ocular, alterações binoculares e alinhamento entre os olhos. Problemas refracionais, como a miopia e o astigmatismo, degradam a acuidade visual e consequentemente a eficiência leitora, sendo as alterações ópticas habitualmente corrigidas por meio de óculos de grau. No entanto, a leitura requer a integração com outro centro de processamento visual, indo, portanto, além das habilidades relacionadas à alta resolução espacial aferidas pelo exame da acuidade visual e que são processadas pelo sistema parvocelular. Assim, a leitura proficiente depende não só do sistema parvocelular, mas também da integridade do sistema magnocelular, considerado o caminho visual dominante na leitura de textos por atuar na mediação da capacidade de identificar de forma rápida e sequencial as letras e ainda controlar a orientação visual da atenção, das fixações e da sincronia binocular (Greatrex & Drasdo, 1995, Chase, Ashourzadeh, Kelly, Monfette, & Kinsey, 2003; Stein, 2003, 2018). Exemplificando, para se ler um livro de 200 páginas, o sistema magnocelular deve controlar ambos os olhos para que façam centenas de milhares de movimentos sacádicos curtos da esquerda para a direita, com fixações estáveis (pausas entre as sacadas) de 200 a 400 milissegundos para a extração da informação visual e com poucos movimentos de correção da direta para a esquerda (Regressões). Em tarefas de leitura, os déficits magnocelulares levam a instabilidade no controle da coordenação dos olhos e dificuldade na correta fusão da imagem pelo cérebro, provocando distorções visuais das palavras e do texto mesmo na ausência de problemas refracionais (Allen, Dedi, Kumar, Patel, Aloo, & Wilkins, 2012, Monger, Wilkins, & Allen, 2015, Solan, Ficarra, Brannan, & Rucker, 1998, Stein, 2001). O clássico estudo de Livingstone, Rosen, Drislane, e Galaburda (1991) demonstrou anormalidades post-mortem nas camadas magnocelulares dos núcleos geniculados laterais de disléxicos, mas não nas camadas parvocelulares, quando comparados a um grupo controle de leitores típicos. Diferentes estudos corroboraram o achado de que disléxicos possuem menores respostas a estímulos rápidos e de baixo contraste (coerentes com déficits no sistema magnocelular), mantendo respostas normais a estímulos lentos ou de alto contraste (preservação do sistema parvocelular) (Gori, Seitz, Ronconi, Franceschini, & Facoetti, 2015, Pammer, & Wheatley, 2001). Leituras mais longas, excedendo a dez minutos, tendem a apresentar uma instabilidade progressiva na movimentação ocular, gerando uma dificuldade no processamento visual, com perda da qualidade e consequente estresse visual. Os principais sintomas do estresse visual são distorções visuoperceptuais, fotosensibilidade, irritabilidade e agitação sob luz fluorescente e ainda défice na percepção de profundidade (Guimarães, Vilhena, & Guimarães, 2017, Loew, & Watson, 2012, 2013). As distorções mais frequentemente reportadas são sombras e halos ao redor das palavras, espaçamentos irregulares em meio ao texto, e percepção de letras se movendo, vibrando ou se destacando do papel (Evans, Allen, & Wilkins, 2017, Stein, & Walsh, 1997). Os esforços para compensar essas dificuldades levam a queixas de cansaço visual progressivo, dor nos olhos, lacrimejamento, piscar excessivo, cefaleia ou enxaquecas (Kriss, & Evans, 2005, Scott et al., 2002). O estresse visual prejudica ainda a manutenção da atenção, a aprendizagem em sala de aula e inflige desgastes emocionais e ocupacionais, comprometendo o interesse e o apreço pela leitura. A intervenção terapêutica feita pela prescrição de lentes ópticas, com ou sem grau refracional, acrescidas de filtros para bloqueio específico e individual das faixas espectrais hipersensibilizantes regulariza a velocidade de transmissão do sistema magnocelular, reequilibrando a sua relação com o sistema parvocelular (Breitmeyer, & Williams, 1990, Croyle, 1998, Solan, Ficarra, Brannan, & Rucker, 1998, Ray, Fowler, & Stein, 2005, Guimarães, Vilhena, Pinheiro, & Guimarães, 2018). Estima-se que 13% das crianças no ensino fundamental apresentem melhoras significativas da taxa de leitura com o uso de lâminas espectrais (Garcia, Momensohn-Santos, & Vilhena, 2017). Os efeitos do tratamento com Filtros Espectrais nos casos de disfunções oculomotoras, fotofobia e cansaço visual em déficits de leitura podem ser analisados via rastreadores oculares (eye-trackers) (Vilhena, Freitas, Guimarães, & Pinheiro, 2018). Os movimentos oculares refletem os processos cognitivos relacionados à percepção visuoespacial, à análise semântica do texto e ao processamento de informações. Razuk, Perrin-Fievez, Gerard, Peyre, Barela, & Bucci (2018) verificaram que crianças disléxicas leram mais rápido e com menor duração da fixação ocular com o uso de um Filtro Espectral Verde. Os autores sugeriram que o filtro provavelmente facilitou a atividade cortical e diminuiu as distorções visuais. Estudos com tomografia e com ressonância magnética funcional corroboram esses achados, tendo observado uma redução da hiperexcitabilidade cortical com o uso da intervenção espectral (Chouinard, Zhou, Hrybouski, Kim, & Cummine, 2012, Denuelle, Boulloche, Payoux, Fabre, Trotter, & Géraud, 2011, Huang, Zong, Wilkins, Jenkins, Bozoki, & Cao, 2011, Katz, &Digre, 2016) e também a supressão dos sintomas clínicos em 90% dos pacientes portadores de enxaqueca induzida por estresse visual (Guimarães, 2010). A mensuração da leitura de adultos é um desafio psicométrico, uma vez que o efeito de teto em testes de leitura é presente inclusive na avaliação de crianças (Pinheiro, Vilhena, & Cunha, 2017). Rastreadores oculares são instrumentos valorizados nas Clínicas de Neurociências da Visão (Neurovisão) e nos consultórios neuropsicopedagógicos, pois fornecem parâmetros objetivos dos movimentos oculares envolvida na leitura de textos, que são primariamente subcorticais e involuntários. Este estudo, de delineamento longitudinal, investigou o efeito terapêutico de uma ampla gama de Filtros Espectrais, considerando os diferentes parâmetros envolvidos na movimentação ocular e habilidade de leitura. Métodos Participantes O Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais aprovou todos os procedimentos do estudo [Aprovação nº 49765115.0.0000.5149], o qual foi conduzido em total conformidade com o Código de Ética da World Medical Association (Declaração de Helsinki, 2008) para pesquisa envolvendo seres humanos. Foram selecionados retrospectivamente todos os 177 pacientes adultos atendidos entre 01/2013 a 02/2016, no Departamento de Neurovisão do Hospital de Olhos de Minas Gerais – Clínica Dr. Ricardo Guimarães. Os pacientes possuíam de 18 a 59 anos, com média de 30.6 anos (Desvio Padrão de 11.0), sendo 50% homens. Instrumentos Foi utilizado o Visagraph III Eye-Movement Recording System (Taylor Associates, New York) para a análise dos movimentos oculares durante a leitura de textos. Este rastreador ocular (eye-tracker) é composto por um par de óculos sem lentes, no qual está acoplado um sistema de captação por sensores infravermelhos, conectado a um software de análise de dados. Com exceção da variável Compreensão de Texto (habilidade de alta ordem), os parâmetros listados na Tabela 1 possuem controle primariamente subcortical e involuntário. Para eliminar a discrepância binocular, a média de ambos os olhos foi calculada para as variáveis Fixações, Regressões, Alcance Perceptual e Duração da Fixações, uma vez que as correlações bivariadas de Pearson foram acima de 0.97. Os Filtros Espectrais usados nos testes haviam sido prescritos para uso em tempo integral, incluindo em atividades que requeriam intensa atividade visual (por exemplo, leitura prolongada de textos). Cada participante havia sido submetido previamente a um protocolo detalhado envolvendo exames psicofísicos, clínicos e o diagnóstico específico do(s) tipo(s) de filtros(s) necessário(s) para o bloqueio completo das faixas de luz visível ou faixas espectrais hipersensibilizantes. A seleção dos filtros é feita por meio da exposição do paciente a estímulos estressores ao sistema visual, com subsequente análise do grau de alívio/supressão da maioria dos sintomas visuais objetivos e subjetivos, como por exemplo, o maior conforto obtido sob o uso do filtro ideal. Dado o número de filtros e combinações possíveis, há centenas de opções possibilitando alto grau de especificidade na seleção individual. Na amostra do presente estudo, foram selecionados de forma individual ou composta, 49 diferentes Filtros Espectrais. Procedimentos Todos os pacientes foram submetidos a um protocolo oftalmológico para adequada prescrição da correção refracional e, caso necessário, houve encaminhamento e tratamento visual prévio à seleção de Filtros Espectrais. O protocolo incluiu a análise da acuidade visual monocular e binocular para longe e para perto, pesquisa de aberrações de baixa e alta ordem, exame ortóptico, aferição da dominância ocular e estereopsia, e avaliação da visão de cores (Teste de Placas de Ishihara Pseudo-Isocromáticas 25 e Teste de Tonalidades D-15 Farnsworth-Munsell simples e desaturado), da sensibilidade ao contraste e do campo visual periférico dinâmico. Para a análise do padrão dos movimentos oculares, os sensores do rastreador ocular foram alinhados à borda externa da pupila de cada indivíduo. A primeira e as duas últimas linhas do texto foram desconsideradas automaticamente pelo software do Visagraph III™ com o objetivo de representar de maneira fidedigna o padrão oculomotor de leitura. O material de leitura consistia em um único parágrafo de texto em tinta preta, impresso em papel branco, em fonte Times New Roman, tamanho 18. Os textos foram lidos em voz alta, com uma distância de visualização de 40 a 45 cm, sob iluminação de escritório padrão (duas lâmpadas de teto fluorescentes branca fria, tubos de 60 cm de 20W, temperatura de cor correlacionada de 5.000K e ciclo de intermitência de 120 Hz). Após cada leitura, os participantes responderam dez questões fechadas sobre o conteúdo do texto recém lido. O padrão oculomotor de leitura (linha de base) foi analisado na primeira consulta, sendo considerado como condição pré-teste, sem o uso de filtros. A consulta de retorno foi considerada como pós-teste, condição onde o Filtro Espectral fora usado de forma continuada e em tempo integral. A média de tempo entre o pré-teste e o pós-teste foi de 18 meses. Análise estatística O IBM SPSS Statistics (versão 21.0, Chicago, Illinois, EUA) foi utilizado para todas as análises de dados. Para examinar os efeitos da intervenção com Filtros Espectrais nos movimentos oculares foi conduzida uma série de ANOVA oneway, com F ajustado de acordo com o método de Greenhouse-Geisser. Para estabelecer a significância clínica das diferenças, o d de Cohen foi calculado para determinar o tamanho do efeito e foi interpretado usando os critérios de Cohen (1988) de 0.2 para um efeito pequeno, 0.5 para um efeito médio e 0.8 para um efeito grande. O valor de p inferior a 0.05 foi considerado estatisticamente significativo. RESULTADOS Após o tratamento com o uso de Filtros Espectrais (média de 18 meses entre condições), os participantes apresentaram uma redução moderada (d = 0.57, 0.54 e 0.49) e significativa (p < 0.0001) de -33% no número de Fixações oculares, de -46% no número de Regressões e de -18% na dificuldade da Direção Correta Esquerda–Direita, quando comparados com a linha de base (ver Tabela 2 e Figura 1). Houve um aumento moderado (d = 0.50 a 0.68) e significativo (p < 0.001) de 43% no Alcance Perceptual, de 29% no número de palavras lidas por minuto e de 11% na Compreensão de Texto. A Eficiência Relativa da leitura apresentou um forte aumento de 79% após o tratamento (d = 1.09, p < 0.001). Houve uma melhora, com efeito pequeno (d = 0.30) e significativo (p = 0.0008), de 7% na Correlação Binocular. A Duração da Fixação não apresentou diferença significativa entre testagens (p = 0.48). Discussão O tratamento com Filtros Espectrais produziu um efeito moderado na melhora da atividade oculomotora na leitura de adultos. Após a intervenção (pós-teste) registrou-se um menor número de Fixações e de Regressões oculares em paralelo a uma maior correlação binocular, o que evidencia maior facilidade na focalização do mesmo número de palavras. O maior alcance perceptual proporciona uma melhor capacidade cognitiva para armazenar e manipular a informação, habilidade fundamental na decodificação automática das palavras. Essa capacidade permitiu um aumento de 29% na velocidade de leitura, com 58 palavras lidas a mais por minuto. Os resultados mostram que o bloqueio espectral seletivo pode aprimorar a extração da informação visual com o aumento da eficiência, fluência e compreensão leitora. Esses achados sugerem uma melhor redistribuição da ativação cortical, como encontrado em outros estudos (Chouinard, Zhou, Hrybouski, Kim, & Cummine, 2012, Denuelle, Boulloche, Payoux, Fabre, Trotter, & Géraud, 2011). Soares e Gontijo (2016) publicaram uma revisão da literatura, composta por 16 trabalhos, na qual foi evidenciado que há uma base bioquímica, genética e imunológica envolvida nos pacientes que apresentam estresse visual. Estudos assinalaram quem há uma diferença na proporção de lipídios no sangue (p < 0.05; d > 0.08; menor colesterol total e mais ácido heptadecanoicono plasma) e de aminoácidos e ácidos orgânicos na urina (p < 0.05; d > 0.05), sinalizando um metabolismo anormal associado a alterações de natureza sistêmica e imunológica. A revisão sistemática de Evans e Allen (2016) mostraram que a intervenção com Filtros Espectrais, além de ser segura e não invasiva, alivia os sintomas de astenopia e melhora o desempenho de leitura dos pacientes com estresse visual. Estes mesmos autores ressaltaram a importância do diagnóstico diferencial entre os casos de estresse visual com aqueles envolvendo erros refrativos, heteroforia descompensada e déficits na amplitude de acomodação, por serem também indutores de astenopia e/ou intensificadores dos sintomas de estresse visual. Em um artigo com quatro experimentos, Gori, Seitz, Ronconi, Franceschini, & Facoetti (2015) verificaram: 1) a presença de dificuldade na percepção de movimento em disléxicos quando comparados a dois grupos controles; 2) que a percepção de movimento visual de crianças na fase de pré-leitura prediz o desenvolvimento leitor; e que 3) os treinamentos no sistema magnocelular visual levam a uma melhor habilidade de leitura em crianças e adultos com dislexia do desenvolvimento. Gori, Seitz, Ronconi, Franceschini, & Facoetti concluíram que há de fato uma relação causal entre déficit no sistema magnocelular e a dislexia, fechando um debate de 30 anos. Flint e Pammer (2018) verificaram, em um estudo com dois experimentos, que adultos analfabetos obtiveram o mesmo desempenho do que os leitores normais e semianalfabetos em tarefas temporais e espaciais específicas do sistema magnocelular visual, tendo todos os três grupos um desempenho melhor do que o grupo de leitores disléxicos. O desempenho inferior dos disléxicos ocorreu tanto no experimento 1 com um teste de coerência do movimento (F(3, 79) = 104.9, p < 0.0001, d = 0.81), quanto no experimento 2 com o teste Frequency-doubling Illusion (F(3, 79) = 283.8, p< 0.005, d = 0.86). Os autores concluem que essa falha funcional da via visual dorsal na dislexia provavelmente não é consequência da falta de leitura, responsabilizando como causa o processamento magnocelular. Utilizando de analogia no título do artigo, Flint e Pammer consideram que o ovo veio primeiro que a galinha, assim, o déficit magnocelular veio primeiro que a dislexia. O presente estudo acompanhou 177 adultos que fizeram tratamento com uma ampla variedade de Filtros Espectrais, prescritos individualmente. Por meio de parâmetros objetivos de rastreamento ocular, foi demonstrado que houve uma melhora da eficiência dos movimentos oculares e da habilidade de leitura, com elevada significância estatística e moderado efeito clínico. A oculomotricidade está sob controle cortical e subcortical e responde a mecanismos de controle inibitórios que controlam o tempo de fixação, o alcance sacádico e a cognição e que afetam também a coordenação oculomotora binocular fina quando se percorre uma linha de texto. As lentes espectrais suprimiram ou reduziram as três principais queixas visuais dos pacientes: a sensibilidade à luz que limita a legibilidade, o conforto e a duração máxima da leitura, as disfunções oculomotoras que afetam a coordenação binocular fina quando se percorre uma linha de texto; e a disfunção acomodativa que altera a clareza textual. Houve, também, o reajuste da composição espectral e redução da luminância pela alteração do locus do feixe luminoso na retina e redução da intensidade da luz associada ao bloqueio seletivo dos comprimentos de onda hipersensibilizantes (Willeford, Fimreite, Ciuffreda, 2016). Conclusão Pacientes adultos, após o tratamento com Filtros Espectrais, apresentaram uma melhora significativa da habilidade de leitura e dos parâmetros oculomotores envolvidos no rastreamento visual do texto, quando comparados com a linha de base. Foi verificada uma forte melhora do parâmetro Eficiência Relativa da leitura. A redução no número de fixações oculares permite a estabilidade da imagem na região foveal. A redução no número de Regressões melhorou a fluência de leitura, o que reduz a dificuldade dos movimentos sacádicos na direção esquerda–direita. A melhora dos parâmetros oculomotores com o uso de Filtros Espectrais favoreceu a capacidade cognitiva e o armazenamento e manipulação da informação, culminando com a melhor compreensão do texto. Filtros Espectrais são uma intervenção oftalmológica não-invasiva e não-medicamentosa que melhoraram a eficiência de leitura em adultos com fotofobia, dificuldades de leitura, cansaço visual e sobrecarga sensorial podendo ser usados acrescidos a lentes ópticas com e sem correção refracional.
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CAMINHOS DA
APRENDIZAGEM
E INCLUSÃO:
ENTRETECENDO
MÚLTIPLOS SABERES
VOLUME 2
ORGANIZADORES
ÂNGELA MATHYLDE SOARES
JALMIRIS REGINA OLIVEIRA REIS SIMÃO
LUÍS MIGUEL NEVES
Sumário
Prefácio.......................................................................................................11
Leandro Fernandes Malloy-Diniz
Prefácio.......................................................................................................15
Fátima Alves
Apresentação..............................................................................................17
Sylvia Maria Ciasca
PARTE 1
CAPÍTULO 1
Práticas de ensino e inclusão escolar:
desaos e alternativas docentes............................................................23
Eugênio Cunha
CAPÍTULO 2
Intervenção em habilidades linguísticas
em criançascom diculdades de aprendizagem...............................35
Jéssika Santiago da Rocha
Cíntia Alves Salgado Azoni
CAPÍTULO 3
A mediação escolar na educação inclusiva
de alunos com transtorno do espectro autista...................................45
Dayse Serra
CA PÍT U LO 17
Educação inclusiva em Portugal: caminhos e respostas................249
Donalda Maria da Silva Baeta
CATULO 18
Filtros espectrais melhoram a eciência da leitura e dos
movimentos oculares: estudo longitudinal de 177 adultos..........263
Márcia Reis Guimarães
Douglas de Araújo Vilhena
Ângela Maria Vieira Pinheiro
Ricardo Queiroz Guimarães
CATULO 19
Percepção da fala: como articular propriedades audíveis
e visíveis para elevar o Método Fônico a novo patamar..............277
Fernando César Capovilla
CAPÍTULO 20
Orientações para professores sobre o transtorno
especíco de aprendizagem da matemática.....................................305
Roseline N. Ardiles
Flávia H. Santos
CAPÍTULO 21
O uso da tecnologia na avaliação
e intervenção nos transtornos da escrita.........................................323
Giseli Donadon Germano
Thaís Contiero Chiaramonte
Cátia Giaconi
Monique Herrera Cardoso
Simone Aparecida Capellini
CAPÍTULO 22
Falhas e antijuricidade na inclusão escolar.......................................339
Liciane Faria Traverso Gonçalves
João Luiz Traverso Gonçalves
CAPÍTULO 23
Contextos tecnológicos e estratégias educacionais.........................351
Lucas Emanuel Ramos Pereira
Luciana Mendonça Alves
Cláudio Lúcio Mendes
263
CAPÍTULO 18
Filtros espectrais melhoram a efi ciência
da leitura e dos movimentos oculares:
estudo longitudinal de 177 adultos
Márcia Reis Guimarães
Douglas de Araújo Vilhena
Ângela Maria Vieira Pinheiro
Ricardo Queiroz Guimarães
A leitura é uma habilidade cognitiva complexa, fundamental para o
sucesso acadêmico e pro ssional na vida adulta. As di culdades de leitura
podem envolver alterações no processamento subcortical da informação
visual não responsivas às abordagens pedagógicas habituais voltadas para
problemas cognitivos de decodi cação grafema–fonema, lexicais ou de
processamento fonológico. Neste contexto a intervenção terapêutica deve
ser direcionada para a identi cação do tipo e intensidade dos distúrbios
visuais a serem corrigidos, o que permite uma conduta e caz e perso-
nalizada diante das demandas laborais, acadêmicas e sociais de cada caso
(Guimarães & Guimarães, 2013).
Os exames oftalmológicos de rotina se restringem a quanti car a
capacidade de visualizar estímulos estáticos de alto contraste (letra preta
no fundo branco), patologias orgânicas do globo ocular, alterações bi-
noculares e alinhamento entre os olhos. Problemas refracionais, como a
miopia e o astigmatismo, degradam a acuidade visual e consequentemente
a e ciência leitora, sendo as alterações ópticas habitualmente corrigidas
por meio de óculos de grau. No entanto, a leitura requer a integração
com outro centro de processamento visual, indo, portanto, além das
habilidades relacionadas à alta resolução espacial aferidas pelo exame da
acuidade visual e que são processadas pelo sistema parvocelular.
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Assim, a leitura prociente depende não só do sistema parvocelu-
lar, mas também da integridade do sistema magnocelular, considerado
o caminho visual dominante na leitura de textos por atuar na mediação
da capacidade de identicar de forma rápida e sequencial as letras e ainda
controlar a orientação visual da atenção, das xações e da sincronia bino-
cular (Greatrex & Drasdo, 1995, Chase, Ashourzadeh, Kelly, Monfette,
& Kinsey, 2003; Stein, 2003, 2018). Exemplicando, para se ler um livro
de 200 páginas, o sistema magnocelular deve controlar ambos os olhos
para que façam centenas de milhares de movimentos sacádicos curtos
da esquerda para a direita, com xações estáveis (pausas entre as sacadas)
de 200 a 400 milissegundos para a extração da informação visual e com
poucos movimentos de correção da direta para a esquerda (Regressões).
Em tarefas de leitura, os décits magnocelulares levam a instabili-
dade no controle da coordenação dos olhos e diculdade na correta fusão
da imagem pelo cérebro, provocando distorções visuais das palavras e do
texto mesmo na ausência de problemas refracionais (Allen, Dedi, Kumar,
Patel, Aloo, & Wilkins, 2012, Monger, Wilkins, & Allen, 2015, Solan,
Ficarra, Brannan, & Rucker, 1998, Stein, 2001). O clássico estudo de
Livingstone, Rosen, Drislane e Galaburda (1991) demonstrou anorma-
lidades post-mortem nas camadas magnocelulares dos núcleos genicula-
dos laterais de disléxicos, mas não nas camadas parvocelulares, quando
comparados a um grupo controle de leitores típicos. Diferentes estudos
corroboraram o achado de que disléxicos possuem menores respostas a
estímulos rápidos e de baixo contraste (coerentes com décits no sistema
magnocelular), mantendo respostas normais a estímulos lentos ou de alto
contraste (preservação do sistema parvocelular) (Gori, Seitz, Ronconi,
Franceschini, & Facoetti, 2015, Pammer, & Wheatley, 2001).
Leituras mais longas, excedendo a dez minutos, tendem a apre-
sentar uma instabilidade progressiva na movimentação ocular, gerando
uma diculdade no processamento visual, com perda da qualidade e
consequente estresse visual. Os principais sintomas do estresse visual
são distorções visuoperceptuais, fotossensibilidade, irritabilidade e agi-
tação sob luz uorescente e ainda déce na percepção de profundidade
(Guimarães, Vilhena, & Guimarães, 2017, Loew, & Watson, 2012,
2013). As distorções mais frequentemente reportadas são sombras e
halos ao redor das palavras, espaçamentos irregulares em meio ao texto,
e percepção de letras se movendo, vibrando ou se destacando do papel
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(Evans, Allen, & Wilkins, 2017, Stein, & Walsh, 1997). Os esforços
para compensar essas diculdades levam a queixas de cansaço visual
progressivo, dor nos olhos, lacrimejamento, piscar excessivo, cefaleia ou
enxaquecas (Kriss, & Evans, 2005, Scott et al., 2002). O estresse visual
prejudica ainda a manutenção da atenção, a aprendizagem em sala de
aula e inige desgastes emocionais e ocupacionais, comprometendo o
interesse e o apreço pela leitura.
A intervenção terapêutica feita pela prescrição de lentes ópticas,
com ou sem grau refracional, acrescidas de ltros para bloqueio espe-
cíco e individual das faixas espectrais hipersensibilizantes regulariza
a velocidade de transmissão do sistema magnocelular, reequilibrando a
sua relação com o sistema parvocelular (Breitmeyer, & Williams, 1990,
Croyle, 1998, Solan, Ficarra, Brannan, & Rucker, 1998, Ray, Fowler, &
Stein, 2005, Guimarães, Vilhena, Pinheiro, & Guimarães, 2018). Esti-
ma-se que 13% das crianças no ensino fundamental apresentem melhoras
signicativas da taxa de leitura com o uso de lâminas espectrais (Garcia,
Momensohn-Santos, & Vilhena, 2017).
Os efeitos do tratamento com Filtros Espectrais nos casos de dis-
funções oculomotoras, fotofobia e cansaço visual em décits de leitura
podem ser analisados via rastreadores oculares (eye-trackers) (Vilhena,
Freitas, Guimarães, & Pinheiro, 2018). Os movimentos oculares ree-
tem os processos cognitivos relacionados à percepção visuoespacial, à
análise semântica do texto e ao processamento de informações. Razuk,
Perrin-Fievez, Gerard, Peyre, Barela, & Bucci (2018) vericaram que
crianças disléxicas leram mais rápido e com menor duração da xação
ocular com o uso de um Filtro Espectral Verde. Os autores sugeriram
que o ltro provavelmente facilitou a atividade cortical e diminuiu as
distorções visuais. Estudos com tomograa e com ressonância magnética
funcional corroboram esses achados, tendo observado uma redução da
hiperexcitabilidade cortical com o uso da intervenção espectral (Choui-
nard, Zhou, Hrybouski, Kim, & Cummine, 2012, Denuelle, Boulloche,
Payoux, Fabre, Trotter, & Géraud, 2011, Huang, Zong, Wilkins, Jenkins,
Bozoki, & Cao, 2011, Katz, &Digre, 2016) e também a supressão dos
sintomas clínicos em 90% dos pacientes portadores de enxaqueca induzida
por estresse visual (Guimarães, 2010).
A mensuração da leitura de adultos é um desao psicométrico,
uma vez que o efeito de teto em testes de leitura é presente inclusive na
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avaliação de crianças (Pinheiro, Vilhena, & Cunha, 2017). Rastreadores
oculares são instrumentos valorizados nas Clínicas de Neurociências
da Visão (Neurovisão) e nos consultórios neuropsicopedagógicos, pois
fornecem parâmetros objetivos dos movimentos oculares envolvida
na leitura de textos, que são primariamente subcorticais e involuntá-
rios. Este estudo, de delineamento longitudinal, investigou o efeito
terapêutico de uma ampla gama de Filtros Espectrais, considerando
os diferentes parâmetros envolvidos na movimentação ocular e habi-
lidade de leitura.
Métodos
Participantes
O Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Mi-
nas Gerais aprovou todos os procedimentos do estudo [Aprovação nº
49765115.0.0000.5149], o qual foi conduzido em total conformidade com
o Código de Ética da World Medical Association (Declaração de Helsinki,
2008) para pesquisa envolvendo seres humanos. Foram selecionados re-
trospectivamente todos os 177 pacientes adultos atendidos entre 01/2013
a 02/2016, no Departamento de Neurovisão do Hospital de Olhos de
Minas Gerais – Clínica Dr. Ricardo Guimarães. Os pacientes possuíam
de 18 a 59 anos, com média de 30.6 anos (Desvio Padrão de 11.0), sendo
50% homens.
Instrumentos
Foi utilizado o Visagraph III Eye-Movement Recording System (Taylor
Associates, New York) para a análise dos movimentos oculares durante a
leitura de textos. Este rastreador ocular (eye-tracker) é composto por um
par de óculos sem lentes, no qual está acoplado um sistema de captação
por sensores infravermelhos, conectado a um software de análise de dados.
Com exceção da variável Compreensão de Texto (habilidade de alta or-
dem), os parâmetros listados na Tabela 1 possuem controle primariamente
subcortical e involuntário. Para eliminar a discrepância binocular, a média
de ambos os olhos foi calculada para as variáveis Fixações, Regressões,
Alcance Perceptual e Duração da Fixações, uma vez que as correlações
bivariadas de Pearson foram acima de 0.97.
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Tabela 1 – Parâmetros de leitura analisados
pelo rastreador ocular Visagraph III.
Parâmetro Descrição
Fixações Números de paradas da esquerda para a direita a cada 100
palavras
Regressões Números de paradas da direita para
a esquerda a cada 100 palavras
Direção correta Número de Regressões dividido pelas Fixações
Alcance Perceptual Número de palavras lidas dividido pelo número de Fixações
Duração da fixação Tempo total de leitura dividido pelo número de Fixações
Palavras por
minuto Número de palavras lidas em um minuto
Eficiência relativa
Palavras por minuto dividido pela soma das Fixações e
Regressões
Compreensão
de Texto Porcentagem de respostas corretas dentre dez perguntas
Os Filtros Espectrais usados nos testes haviam sido prescritos para
uso em tempo integral, incluindo em atividades que requeriam intensa
atividade visual (por exemplo, leitura prolongada de textos). Cada par-
ticipante havia sido submetido previamente a um protocolo detalhado
envolvendo exames psicofísicos, clínicos e o diagnóstico especíco do(s)
tipo(s) de ltros(s) necessário(s) para o bloqueio completo das faixas de luz
visível ou faixas espectrais hipersensibilizantes. A seleção dos ltros é feita
por meio da exposição do paciente a estímulos estressores ao sistema visual,
com subsequente análise do grau de alívio/supressão da maioria dos sin-
tomas visuais objetivos e subjetivos, como por exemplo, o maior conforto
obtido sob o uso do ltro ideal. Dado o número de ltros e combinações
possíveis, há centenas de opções possibilitando alto grau de especicidade
na seleção individual. Na amostra do presente estudo, foram selecionados
de forma individual ou composta, 49 diferentes Filtros Espectrais.
Procedimentos
Todos os pacientes foram submetidos a um protocolo oftalmoló-
gico para adequada prescrição da correção refracional e, caso necessário,
268
houve encaminhamento e tratamento visual prévio à seleção de Filtros
Espectrais. O protocolo incluiu a análise da acuidade visual monocular e
binocular para longe e para perto, pesquisa de aberrações de baixa e alta
ordem, exame ortóptico, aferição da dominância ocular e estereopsia,
e avaliação da visão de cores (Teste de Placas de Ishihara Pseudo-I-
socromáticas 25 e Teste de Tonalidades D-15 Farnsworth-Munsell
simples e desaturado), da sensibilidade ao contraste e do campo visual
periférico dimico.
Para a análise do padrão dos movimentos oculares, os sensores
do rastreador ocular foram alinhados à borda externa da pupila de cada
indivíduo. A primeira e as duas últimas linhas do texto foram desconsi-
deradas automaticamente pelo software do Visagraph III™ com o objetivo
de representar de maneira dedigna o padrão oculomotor de leitura.
O material de leitura consistia em um único parágrafo de texto
em tinta preta, impresso em papel branco, em fonte Times New Roman,
tamanho 18. Os textos foram lidos em voz alta, com uma distância de
visualização de 40 a 45 cm, sob iluminação de escritório padrão (duas
lâmpadas de teto uorescentes branca fria, tubos de 60 cm de 20W,
temperatura de cor correlacionada de 5.000K e ciclo de intermitência
de 120 Hz). Após cada leitura, os participantes responderam dez questões
fechadas sobre o conteúdo do texto recém lido.
O padrão oculomotor de leitura (linha de base) foi analisado na
primeira consulta, sendo considerado como condição pré-teste, sem o
uso de ltros. A consulta de retorno foi considerada como pós-teste,
condição onde o Filtro Espectral fora usado de forma continuada e em
tempo integral. A média de tempo entre o pré-teste e o pós-teste foi
de 18 meses.
Análise estatística
O IBM SPSS Statistics (versão 21.0, Chicago, Illinois, EUA) foi
utilizado para todas as análises de dados. Para examinar os efeitos da in-
tervenção com Filtros Espectrais nos movimentos oculares foi conduzida
uma série de ANOVA oneway, com F ajustado de acordo com o método
de Greenhouse-Geisser. Para estabelecer a signicância clínica das dife-
renças, o d de Cohen foi calculado para determinar o tamanho do efeito
e foi interpretado usando os critérios de Cohen (1988) de 0.2 para um
269
efeito pequeno, 0.5 para um efeito médio e 0.8 para um efeito grande. O
valor de p inferior a 0.05 foi considerado estatisticamente signicativo.
Resultados
Após o tratamento com o uso de Filtros Espectrais (média de
18 meses entre condições), os participantes apresentaram uma redução
moderada (d = 0.57, 0.54 e 0.49) e signicativa (p < 0.0001) de -33%
no número de Fixações oculares, de -46% no número de Regressões e
de -18% na diculdade da Direção Correta Esquerda–Direita, quando
comparados com a linha de base (ver Tabela 2 e Figura 1). Houve um
aumento moderado (d = 0.50 a 0.68) e signicativo (p < 0.001) de 43%
no Alcance Perceptual, de 29% no número de palavras lidas por minuto
e de 11% na Compreensão de Texto. A Eciência Relativa da leitura
apresentou um forte aumento de 79% após o tratamento (d = 1.09, p <
0.001). Houve uma melhora, com efeito pequeno (d = 0.30) e signicativo
(p = 0.0008), de 7% na Correlação Binocular. A Duração da Fixação não
apresentou diferença signicativa entre testagens (p = 0.48).
Tabela 2 – Oculomotricidade e eficiência leitora
[Médias ± Desvio Padrão] de adultos antes (Pré-Teste)
e depois (Pós-Teste) do tratamento com Filtros Espectrais.
PARÂMETROS
Pr é-Teste:
Linha de
base
Pós-Teste:
Filtro
spectral
(%) F P d
Fixações* 187.0 ± 129.9 125.0 ± 80.8 -33 89.3 0.0001 0.57
Regressões* 55.0 ± 58.8 29.5 ± 32.7 -46 68.3 0.0001 0.54
Direção correta (%)* 25.8 ± 9.8 21.2 ± 9.1 -18 12.7 0.0005 0.49
Alcance Perceptual (%)* 75.3 ± 40.6 106.9 ± 51.4 43 13.2 0.0003 0.68
Duração da fixação (s) 0.23 ± 0.08 0.25 ± 0.08 9 0.50 0.4800 0.25
Palavras por minuto* 201.7 ± 118.2 260.1 ±
116 .6 29 53.7 0.0001 0.50
Eficiência relativa* 1.56 ± 1.14 2.80 ± 1.14 79 52.7 0.0001 1.09
Correlação binocular (%)*
81.2 ± 22.5 86.7 ± 12.6 711.7 0.0008 0.30
Compreensão (%)* 77.1 ± 16.7 85.8 ± 13.2 11 33.4 0.0001 0.58
p: signicância estatística. *: p < 0.01. ∆: porcentagem de diferença entre as condições pré e pós-teste.
d = Tamanho de efeito de Cohen.
270
Figura 1 – Padrão de oculomotricidade e eficiência leitora [Médias ±
barra de Erro Padrão] de adultos no Pré-Teste (barras cinza-escuro)
e Pós-Teste sob Filtros Espectrais (barras cinza-claro). *: p < 0.01.
Discussão
O tratamento com Filtros Espectrais produziu um efeito mode-
rado na melhora da atividade oculomotora na leitura de adultos. Após
a intervenção (pós-teste) registrou-se um menor número de Fixações e
de Regressões oculares em paralelo a uma maior correlação binocular,
o que evidência maior facilidade na focalização do mesmo número
de palavras. O maior alcance perceptual proporciona uma melhor
capacidade cognitiva para armazenar e manipular a informação, ha-
bilidade fundamental na decodicação automática das palavras. Essa
capacidade permitiu um aumento de 29% na velocidade de leitura,
com 58 palavras lidas a mais por minuto. Os resultados mostram que
o bloqueio espectral seletivo pode aprimorar a extração da informação
visual com o aumento da eciência, uência e compreensão leitora.
Esses achados sugerem uma melhor redistribuição da ativação cortical,
como encontrado em outros estudos (Chouinard, Zhou, Hrybouski,
Kim, & Cummine, 2012, Denuelle, Boulloche, Payoux, Fabre, Trot-
ter, & Géraud, 2011).
Soares e Gontijo (2016) publicaram uma revisão da literatura,
composta por 16 trabalhos, na qual foi evidenciado que há uma base
bioquímica, genética e imunológica envolvida nos pacientes que apre-
sentam estresse visual. Estudos assinalaram quem há uma diferença na
proporção de lipídios no sangue (p < 0.05; d > 0.08; menor colesterol
271
total e mais ácido heptadecanóicono plasma) e de aminoácidos e ácidos
orgânicos na urina (p < 0.05; d > 0.05), sinalizando um metabolismo
anormal associado a alterações de natureza sistêmica e imunológica.
A revisão sistemática de Evans e Allen (2016) mostraram que a
intervenção com Filtros Espectrais, além de ser segura e não invasiva,
alivia os sintomas de astenopia e melhora o desempenho de leitura dos
pacientes com estresse visual. Estes mesmos autores ressaltaram a impor
-
tância do diagnóstico diferencial entre os casos de estresse visual com
aqueles envolvendo erros refrativos, heteroforia descompensada e décits
na amplitude de acomodação, por serem também indutores de astenopia
e/ou intensicadores dos sintomas de estresse visual.
Em um artigo com quatro experimentos, Gori, Seitz, Ronconi,
Franceschini, & Facoetti (2015) vericaram: 1) a presença de diculdade
na percepção de movimento em disléxicos quando comparados a dois
grupos controles; 2) que a percepção de movimento visual de crianças
na fase de pré-leitura prediz o desenvolvimento leitor; e que 3) os treina-
mentos no sistema magnocelular visual levam a uma melhor habilidade
de leitura em crianças e adultos com dislexia do desenvolvimento. Gori,
Seitz, Ronconi, Franceschini, & Facoetti concluíram que há de fato uma
relação causal entre décit no sistema magnocelular e a dislexia, fechando
um debate de 30 anos.
Flint e Pammer (2018) vericaram, em um estudo com dois expe-
rimentos, que adultos analfabetos obtiveram o mesmo desempenho do
que os leitores normais e semianalfabetos em tarefas temporais e espaciais
especícas do sistema magnocelular visual, tendo todos os três grupos um
desempenho melhor do que o grupo de leitores disléxicos. O desempenho
inferior dos disléxicos ocorreu tanto no experimento 1 com um teste de
coerência do movimento (F(3, 79) = 104.9, p < 0.0001, d = 0.81), quanto
no experimento 2 com o teste Frequency-doubling Illusion (F(3, 79) = 283.8,
p< 0.005, d = 0.86). Os autores concluem que essa falha funcional da via
visual dorsal na dislexia provavelmente não é consequência da falta de
leitura, responsabilizando como causa o processamento magnocelular.
Utilizando de analogia no título do artigo, Flint e Pammer consideram
que o ovo veio primeiro que a galinha, assim, o décit magnocelular
veio primeiro que a dislexia.
O presente estudo acompanhou 177 adultos que zeram tra-
tamento com uma ampla variedade de Filtros Espectrais, prescritos
272
individualmente. Por meio de parâmetros objetivos de rastreamento
ocular, foi demonstrado que houve uma melhora da eciência dos mo-
vimentos oculares e da habilidade de leitura, com elevada signicância
estatística e moderado efeito clínico. A oculomotricidade está sob controle
cortical e subcortical e responde a mecanismos de controle inibitórios
que controlam o tempo de xação, o alcance sacádico e a cognição e
que afetam também a coordenação oculomotora binocular na quando
se percorre uma linha de texto.
As lentes espectrais suprimiram ou reduziram as três principais
queixas visuais dos pacientes: a sensibilidade à luz que limita a legibilidade,
o conforto e a duração máxima da leitura, as disfunções oculomotoras
que afetam a coordenação binocular na quando se percorre uma linha
de texto; e a disfunção acomodativa que altera a clareza textual. Houve,
também, o reajuste da composição espectral e redução da luminância
pela alteração do locus do feixe luminoso na retina e redução da inten-
sidade da luz associada ao bloqueio seletivo dos comprimentos de onda
hipersensibilizantes (Willeford, Fimreite, Ciureda, 2016).
Conclusão
Pacientes adultos, após o tratamento com Filtros Espectrais,
apresentaram uma melhora signicativa da habilidade de leitura e
dos parâmetros oculomotores envolvidos no rastreamento visual do
texto, quando comparados com a linha de base. Foi vericada uma
forte melhora do parâmetro Eciência Relativa da leitura. A redução
no número de xações oculares permite a estabilidade da imagem na
região foveal. A redução no número de Regressões melhorou a u-
ência de leitura, o que reduz a diculdade dos movimentos sacádicos
na direção esquerda–direita. A melhora dos parâmetros oculomotores
com o uso de Filtros Espectrais favoreceu a capacidade cognitiva e o
armazenamento e manipulação da informação, culminando com a
melhor compreensão do texto. Filtros Espectrais são uma intervenção
oftalmológica não-invasiva e não-medicamentosa que melhoraram a
eciência de leitura em adultos com fotofobia, diculdades de leitura,
cansaço visual e sobrecarga sensorial podendo ser usados acrescidos a
lentes ópticas com e sem correção refracional.
273
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As lâminas espectrais são folhas de acetato em tonalidades específicas utilizadas sobrepostas ao texto impresso com o objetivo de melhorar a leitura. As lâminas mais utilizadas na literatura internacional são fabricadas pelo Irlen Institute e pelo i.O.O. Sales. É fundamental intensificar o estresse visual previamente à seleção da melhor cromaticidade de lâmina espectral. Segundo a teoria da sensibilidade escotópica, as overlays melhoram a adaptação do leitor à luz. Na teoria do déficit magnocelular, as lâminas ajustariam a velocidade de processamento das vias magnocelulares do núcleo geniculado lateral. Por fim, a teoria da hiperexcitabilidade cortical, centrada na excitação excessiva dos neurônios corticais visuais, defende que as lâminas redistribuiriam a atividade visual para neurônios com menor excitabilidade.
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O psicopedagogo pode contribuir com a triagem e com o tratamento de distúrbios de aprendizagem relacionados à visão. Será apresentado, neste artigo, o caso de um escolar com desenvolvimento neurológico atípico, comórbido ao diagnóstico de Estresse Visual (Síndrome de Irlen). Devido à contraindicação médica, a intervenção psicopedagógica foi interrompida por quatro anos, acarretando prejuízo nos âmbitos pessoais e escolares. Com a retomada da intervenção e concomitante introdução de lâminas e filtros espectrais, os sintomas de dificuldades visuais foram reduzidos, melhorando a qualidade visual e as habilidades visuomotoras da paciente nas atividades da vida diária. A mediação psicopedagógica impactou favoravelmente no desenvolvimento e no aprendizado. | ABSTRACT Psycho-pedagogues have an important role in the screening and treating learning disorders related to vision. It will be reported a case of a patient, during school formation, with atypical neurological development comorbid to the diagnosis of Irlen Syndrome (Visual Stress). Due to the medical contraindication, psycho-pedagogical intervention was interrupted for four years, causing personal and school impairment. With the resumption of the psycho-pedagogical intervention and the simultaneous introduction of spectral overlays and filters, the symptoms of visual difficulties were reduced, improving her visual quality and visuomotor skills in daily activities. The psycho-pedagogical mediation had a favorable impact on the development and learning of the patient.
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Objective: To investigate the effects of spectral overlays on reading performance of Brazilian elementary school children. Methods: Sixty-eight children (aged 9-12 years) enrolled in the 5th and 6th grade were included in the study. The Rate of Reading Test (RRT - Brazilian Portuguese version) was used to evaluate reading speed and the Irlen Reading Perceptual Scale was used to allocate the sample according to reading difficulty/discomfort symptoms and to define the optimal spectral overlays. Results: A total of 13% of the children presented an improvement of at least 15% in reading speed with the use of spectral overlays. Pupils with severe reading difficulties tended to have more improvement in RRT with spectral overlays. Children with severe reading discomfort obtained the highest gains in RRT, with an average of 9.6% improvement with intervention, compared to a decrease of -8.2% in the control group. Participants with severe discomfort had an odds ratio of 3.36 to improve reading speed with intervention compared to the control group. Conclusion: The use of spectral overlays can improve reading performance, particularly in those children with severe visual discomfort.
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The Text Comprehension task (PROLEC-T) of the PROLEC Battery of Evaluation of Reading Processes, widely used in Brazil, has a limited sample and only descriptive analyses. PURPOSE: verify the internal structure (via the Item Response Theory) and external (concurrent) validity indices of the test. METHODS: study of 457 student's responses (49.7% boys), from 2nd to 5th year randomly selected in 77 classrooms in eight state schools, to the PROLEC-T and three reading tests. RESULTS: PROLEC-T has a low level of difficulty and low variability of scores, indicating unsatisfactory internal validity. It also shows limitations on the concurrent validity, since the correlations were weak between its scores and the school year, age of the child and his or her final grades in Portuguese, in spite of being moderate with reading measures. CONCLUSION: The test seems to be only suitable for an informal assessment of children with reading difficulties. However, if reformulated, it is suggested to replace the current texts for unpublished stories, increasing order of difficulty, and questions with only inferential questions.
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Revisão integrativa dos processos ópticos, neurovisuais e cognitivos envolvidos na leitura de textos de línguas alfabéticas com o objetivo de auxiliar o diagnóstico e tratamento de pacientes com dificuldade de leitura. Para uma leitura mais eficiente e confortável, recomenda-se para alguns leitores treinamento de movimentos oculares sacádicos, adequação da iluminação do ambiente, uso de lâminas ou de filtros espectrais, uso da fonte Courier New com tamanho 14, e o consumo de ômega-3 e ômega-6 na alimentação diária. Quanto ao processo cognitivo, um bom leitor deve possuir adequada rota fonológica para eficiente conversão grafema–fonema, que por sua vez fortalece e consolida a arquitetura léxico-semântica. Intervenções para melhorar a performance da rota fonológica envolvem o ensino explicito do princípio alfabético, o conhecimento dos sons das letras e jogos de consciência fonológica. Traçou-se um paralelo entre a Síndrome de Irlen e a Dislexia com o intuito de auxiliar no diagnóstico diferencial e no prognóstico.
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Meares-Irlen syndrome, deficiency of the visual processing identified in individuals with dyslexia can be defined as a visual perceptive disorder that is believed to be originated in the primary visual cortex. This study deals with an integrative literature review aimed to analyze the scientific production in relation to biochemical, genetic and immunological basis that maybe understood in this condition. Data were obtained via online query the databases of the Virtual Health Library (VHL) that interconnects several reference databases such as SciELO (Scientific Electronic Library Online), (Latin American and Caribbean Literature Rev Sciences health), MEDLINE (International Literature on Health Sciences), and the Digital Library of UFMG. A total of 16 articles, falling between 1996 and 2014 who met the inclusion criteria were included in the proposed study. Many studies have suggested an association of the syndrome with biochemical and genetic alterations. Some support the hypothesis that immune changes and metabolism of fatty acids are involved in cognitive and learning problems. Despite the scarce volume of studies on the subject, there is increasing evidence that there is a biochemical basis involved in a variety of visual disorders and learning.
Article
Some individuals with dyslexia demonstrate deficits in reading, visual attention, and visual processing which can be attributed to a functional failure of the magnocells in the visual system or in the dorsal visual pathway. The study examines the role of magno/dorsal function in dyslexic adults compared with normal, illiterate, and semi‐literate readers. Coherent motion and coherent form were used in Experiment 1, and the frequency doubling illusion and static‐gratings were used in Experiment 2. If a magno/dorsal deficit is demonstrated for dyslexic readers but not illiterate, semi‐literate, and normal reading adults, then the deficit cannot be attributed to reading experience. Illiterate adults performed the same as normal and semi‐literate readers in coherent motion and frequency doubling tasks, and all three groups performed better than the dyslexic readers. There was no difference between any of the groups in the coherent form or static grating tasks. Together, these studies show that illiterate and semi‐literate adults do not demonstrate a magno/dorsal deficit that is a characteristic of some sufferers of dyslexia. Therefore, magno/dorsal deficits in dyslexia are unlikely to be a consequence of failing to learn to read but rather provides evidence to suggest a causal role for reduced visual magno/dorsal processing.
Article
Some people doubt that the concept of developmental dyslexia (DD) is useful at all because the phonological weaknesses seen in DD cannot be distinguished from those found in every person with poor reading skills, whatever their cause. Here I argue that true DD is characterized by poor temporal processing, hence impaired visual and auditory sequencing, that is caused by impaired development of transient/magnocellular (M-) systems throughout the brain. These deficits can be measured to distinguish the causes of the phonological weaknesses in DD from those causing similar deficits in other types of poor reading; Importantly this knowledge can be exploited to develop effective improvements in treatment. The evidence for impaired visual magnocellular function in many, if not all, people with dyslexia is now overwhelming; it is supported not only by psychophysical tests of M- function, but also by electrophysiological, eye movement, attentional, imaging, interventional and genetic findings. Analogously, auditory temporal processing is mediated by auditory transient, "magnocellular', processing systems, and evidence is accumulating persuasively that this system is also impaired in dyslexics. I briefly introduce the idea that 'motor magnocellular systems' may also be impaired in dyslexia, then consider genetic, immunological and nutritional factors that interact to cause the impaired magnocellular phenotype. I then discuss why the dyslexic phenotype is so common by speculating about what strengths it might confer that would maintain the responsible genes in the human genome.