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Formas de mobilidade, visibilidade e poder em Medellín: Metrocable e Parques- Biblioteca

Authors:

Abstract

As renovações urbanas de Medellín tornaram-se modelo para a América Latina. O projeto integrado de transporte complementar ao metrô (em especial, os teleféricos) e de novos equipamentos culturais (em especial, bibliotecas públicas) abriu espaço para permitiu a atuação do Estado na melhoria da qualidade de vida nas áreas informais da cidade. No entanto, ao centralizar a gestão da mobilidade por intermédio de grandes infraestruturas de escala urbana, observa-se que os sistemas auto-organizacionais existentes são gradativamente substituídos ou sobrepostos pelo projeto estatal de renovação. É, portanto, importante compreender que esta nova “presença” (espacial e institucional) do Estado implica na modificação de sistemas de poder locais, para além da possibilidade de mobilidade urbana e acesso a serviços públicos. Este artigo analisa as culturas espaciais e territoriais dos Metrocables e dos Parques-Biblioteca. Discute, por fim, como essas culturas espaciais de acesso e domínio visual ao/do território urbano implicam em diferentes formas de poder na cidade.
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Formas de mobilidade, visibilidade
e poder em Medellín:
Metrocable e Parques-biblioteca1
Recibido:  de septiembre de 
Aprobado:  de octubre de 
Cómo citar este artículo: CAPILLÉ, C. e REISS, C. (). “Formas de mobilidade, visibilidade e poder em Medellín: Metrocable e
Parques-Biblioteca”. Bitácora Urbano Territorial, 29 (3): -.
https://doi.org/10.15446/bitacora.v29n3.67844
Este artigo é resultante da colaboração entre as pesquisas de Doutorado de Camille Reiss e Cauê Capillé. Em seu Doutorado, Capillé recebeu bolsa da Coordenação de Aper-
feiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e Reiss, bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e, em seguida, da Fundação de Amparo
à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).
Capillé is an architect, professor at
FAU
/
UFRJ
and researcher at PR OUR B FAU /
UFRJ
. He holds a PhD in Architecture (The Bartlett,
UCL
, London, ), Bachelor in Architecture (
FAU
/
UFRJ
, Rio de Janeiro, ) and Photography (EAV Parque Lage, Rio de Janeiro, ). His thesis was shortlisted for the RIB A President’s Awards for Research (). Co-author
of Rio Metropolitano (), which received Honorable Mentions (
ANPARQ
 Prize, IX Ibero-American Biennial and IAB Annual Prize), and was exhibited at the X Bienal
Internacional de São Paulo.
Camille Reiss is an architect urbanist, professor at EN SA Paris-Malaquais and a PhD student at PR OURB FAU/UFRJ; E DVT T U PE; E NSA Paris-Malaquais. She holds a research
Master in Architecture (
PUC
-Rio, ) and a Bachelor in Architecture (ENS A Paris-Malaquais, ). She co-funded an architecture oce called SuperTropic Architecture, which
received honorable mentions for innovative projects. She is a specialist of the informal settlements inhabitants mobility and its implication on the organization of the city.
Formas de movilidad,
visibilidad y poder
en Medellín:
Metrocable y Parques-Biblioteca
Forms of mobility,
visibility and power
in Medellín:
Metrocable and Library-Parks
Formes de mobilité,
de visibilité et de
pouvoir à Medellín:
Metrocable et Bibliothèque-Parc
Cauê Capillé2
Doctor en Arquitectura
Universidad Federal de Rio de Janeiro
cauecapille@fau.ufrj.br
https://orcid.org/---
Camille Reiss3
Estudiante de Doctorado en Arquitectura
Universidad Federal de Rio de Janeiro; EDVTT UPE; ENSA Paris-Malaquais
camille.reiss@univ-paris-est.fr; cam.reiss@gmail.com
https://orcid.org/---
(3) 2019: 79 - 90
Universidad Nacional de Colombia, Bogotá
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Resumo
As renovações urbanas de Medellín tornaram-se mo-
delo para a América Latina. O projeto integrado de
transporte complementar ao metrô (em especial, os
teleféricos) e de novos equipamentos culturais (em
especial, bibliotecas públicas) abriu espaço para per-
mitiu a atuação do Estado na melhoria da qualidade
de vida nas áreas informais da cidade. No entanto, ao
centralizar a gestão da mobilidade por intermédio de
grandes infraestruturas de escala urbana, observa-
se que os sistemas auto-organizacionais existentes
são gradativamente substituídos ou sobrepostos pelo
projeto estatal de renovação. É, portanto, importan-
te compreender que esta nova “presença (espacial
e institucional) do Estado implica na modicação de
sistemas de poder locais, para além da possibilidade
de mobilidade urbana e acesso a serviços públicos.
Este artigo analisa as culturas espaciais e territoriais
dos Metrocables e dos Parques-Biblioteca. Discute, por
m, como essas culturas espaciais de acesso e domínio
visual ao/do território urbano implicam em diferentes
formas de poder na cidade.
Palavras-chave: urbanismo social, Parque-Biblioteca,
teleférico, transporte informal, assentamentos infor-
mais.
Resumen
Las renovaciones urbanas de Medellín se convirtieron
en un modelo para América Latina. El proyecto integra-
do de transporte complementario al metro (en especial,
los teleféricos) y los nuevos equipamientos culturales
(en particular, las bibliotecas públicas) permitieron
la actuación del Estado en la mejora de la calidad de
vida en las áreas informales de la ciudad. Sin embargo,
al centralizar la gestión de la movilidad a través de
grandes infraestructuras de escala urbana, se observa
que los sistemas de autoorganización existentes son
reemplazados gradualmente o superpuestos por el
proyecto estatal de renovación. Por lo tanto, es impor-
tante comprender que esta nueva “presencia (espacial
e institucional) del Estado implica la modicación de
sistemas locales de poder, además de la posibilidad de
movilidad urbana y acceso a servicios públicos. Este
artículo analiza las culturas espaciales y territoriales de
los Metrocables y de los Parques-Biblioteca, y discute
cómo esas culturas espaciales de acceso y dominio vi-
sual al/del territorio urbano implican diferentes formas
de poder en la ciudad.
Palabras clave: urbanismo social, Parque-Biblioteca, te-
leférico, transporte informal, asentamientos informales.
Abstract
Urban renovations in Medellín have become a model
for Latin America. The integrated project of comple-
mentary transport to the metro (especially, cable cars)
and new cultural facilities (especially, public libraries)
allowed the State to improve the quality of life in the
informal areas of the city. However, by centralizing the
management of mobility through large urban scale in-
frastructures, it is observed that existing self-organizing
systems are gradually replaced or overlaid by the State
renovation project. It is therefore important to unders-
tand that this new “presence” (spatial and institutional)
of the State implies the modication of local power
systems, in addition to the possibility of urban mobi-
lity and access to public services. This article analyzes
the spatial and territorial cultures of the Metrocables
and Library Parks. It discusses, nally, how these space
cultures of access and visual domain to/from the urban
territory imply in dierent forms of power in the city.
Keywords: social urbanism, Library-Parks, ca-
ble car, informal transport, informal settlements.
Résumé
Les projets de rénovation urbaine de Medellín sont
devenus un modèle d’intervention pour les gouver-
nements des pays sud-americains. Limplantation de
transports complémentaires au métro (de type té-
léphérique) et de nouveaux équipements culturels (les
bibliothèques-parcs) a permis d’améliorer la qualité de
vie des habitants des quartiers informels. Cependant,
en centralisant la mobilité et l’accès à la culture par de
grandes infrastructures, on observe que les systèmes
auto-organisationnels existants sont progressivement
remplacés par ces nouveaux projets. Il est donc impor-
tant de comprendre ce que cette nouvelle “présence”
étatique (spatiale ou institutionnelle) implique en ter-
mes de modication des systèmes de pouvoir locaux,
de mobilité urbaine, ou encore, d’accès aux services
publics. Cet article analyse les cultures spatiales et te-
rritoriales des bibliothèques-parcs et des métrocables.
Il développe enn une réexion sur la façon dont ces
cultures spatiales participent à la création de nouvelles
formes d’appropriation du territoire et d’organisation
des diérentes formes de pouvoir dans la ville.
Mots-clés: urbanisme social, Bibliothèque-Parc, té-
léphérique, transport informel, quartier informel.
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Formas de mobilidade, visibilidade e poder em Medellín
Metrocable e Parques-Biblioteca
Centralização, integração e
modernização da cultura local
e da mobilidade urbana
Medellín tem passado por mudanças urbanas e sociais importan-
tes desde o início dos anos . Infraestruturas de transporte,
habitação e educação foram construídas, afetando, especialmen
-
te, as áreas da cidade habitadas pela população mais carente de
recursos e oportunidades. Essas mudanças promoveram uma
ruptura profunda com as décadas anteriores –caracterizadas por
estagnação econômica, violência e crime–, dando lugar à prática
de planejamento que se concentra em “modernizar” a condição
espacial dos assentamentos informais, bem como a integração
destes com a cidade “formal”.
Os Proyectos Urbanos Integrales (
PUI
s), lançados em  pelas
autoridades, são o resultado de um plano de “urbanismo social”
baseado na ideia de uma política de desenvolvimento transparente,
participativa e comunicativa, promovendo educação, inclusão,
cultura, convivência e empreendedorismo. Contrapondo as antigas
práticas dos governos latino-americanos de remoção e força coer-
civa como meio de erradicar a informalidade urbana (Echeverri e
Orsini, ), a estratégia de “urbanismo social” vê a informalidade
urbana como parte da solução, em vez de parte do problema. Deste
modo, o projeto de “modernização e “integração” concentrou-se
na oferta de infraestruturas, equipamentos públicos e programas
que pudessem melhorar, em vez de erradicar, os bairros informais.
Entre as principais obras do projeto de “urbanismo social”, pode-
mos citar: a implementação dos Metrocables (teleféricos urbanos),
que permitiu o acesso à principal linha de metrô para populações
de áreas informais da cidade; os projetos de habitação social nos
mesmos bairros; a construção de bibliotecas públicas (os Parques-
-Biblioteca), que oferecem uma ampla gama de serviços para as co-
munidades do entorno; a construção e reforma de escolas e outras
instalações públicas. Além dessas, o plano de “urbanismo social”
incluiu a renovação do espaço público urbano, ligando todos os
projetos de modo a expor e garantir a integração de investimentos.
As intervenções foram coordenadas pela Empresa de Desarollo
Urbano (EDU), que é uma empresa da alcadía (prefeitura) de Me-
dellín. No entanto, apesar de uma empresa estatal ter coordenado
a construção dos novos edifícios e espaços urbanos, um aspecto
interessante a ser destacado é a participação das comunidades
locais nas decisões de planejamento e nanciamento dos projetos.
Coupé, Brand e Dávila () esclarecem que mecanismos de pla-
nejamento e orçamento participativos são parte da Constituição
Colombiana desde , funcionando como fator fundamental
para a promoção e o fortalecimento das comunidades locais.
Echeverri e Orsini () destacam que as comunidades locais
foram convidadas a participar de todas as fases de planejamento,
do diagnóstico à construção. Os autores explicam que grupos locais
foram organizados para lidar com o processo participativo e, então,
associados às Juntas de Acción Comunitaria (
JAC
), que já existiam
antes dos projetos de renovação urbana. Os autores argumentam
que essa ligação era importante para garantir a representação
política dessas comunidades no processo participativo. No en-
tanto, como Fiori, Riley e Ramirez () argumentam, embora
“participação pública” possa ser considerada o pilar das políticas
de redução de pobreza, avaliar como ela é integrada ao processo
democrático continua a ser um desao complexo.
De fato, alguns autores criticam a extensão da “participação comu-
nitária” nos projetos de renovação de Medellín (González Vélez e
Carrizosa Isaza, ; Ortiz Arciniegas, b). Eles argumentam
que o modelo de cidade que foi construído é mais sintonizado com
interesses políticos e econômicos da elite local do que com as ne-
cessidades mais recorrentes ou urgentes da maioria da população
da cidade, o que se deve ao fato de que foi em áreas de populações
desfavorecidas que a maioria dos projetos teve lugar –um fator
que é visto como uma característica positiva do projeto de reno-
vação urbana de Medellín–, mas os mecanismos de participação
popular permitiram pouco para serem realmente alterados nos
projetos por parte dos habitantes dessas áreas. Ademais, além de
melhorar as condições de infraestrutura desses bairros em locais
muito especícos,
esses projetos tornaram possível a inclusão
dessas áreas em uma economia urbana que alguns grupos de elite
controlam –tudo sob o lema de um “bem maior” (González Vélez e
Carrizosa Isaza, ; Ortiz Arciniegas, a; b).
Ortiz Arciniegas (b) sugere que, como resultado desta falta
de participação real dos habitantes das áreas transformadas na
produção do “urbanismo social”, um fator importante que essas
“grandiloquentes infraestruturas do Estado” ignoram é a autogestão
comunitária, o que ca evidente pelo fato de muitos desses espaços
serem regulados por regras sociais prescritas e que denem como
deve ser a “ocupação cívica correta” (Ortiz Arciniegas, b).
Em resumo, se por um lado as novas infraestruturas permitem que
o Estado possa atuar na melhoria da qualidade de vida das áreas,
por outro, é importante compreender que esta nova “presença
(espacial e institucional) do Estado implica na modicação de sis-
temas de poder locais, para além da possibilidade de mobilidade
urbana e acesso a serviços públicos.
Ao centralizar a gestão da mobilidade por intermédio de grandes
infraestruturas de escala urbana, os sistemas auto-organizacionais
existentes são gradativamente substituídos ou sobrepostos pelo
projeto estatal, colocando em questão o seu caráter alternativo”. O
Estado centraliza, também, a possibilidade de visibilidade cultural
das comunidades periféricas, por meio de equipamentos urbanos
de grande impacto e contraste arquitetônico.
O presente artigo analisa as culturas espaciais, isto é, as práticas
sociais geradas pelo espaço, por meio do suporte ou restrições
Na verdade, a construção de um discurso de “áreas de desordem” na cidade é um
precedente fundamental para o sucesso do “Modelo de Medellín” (González Vélez
e Carrizosa Isaza, ). Pobreza, violência e tráco de drogas coexistem nessas
“áreas de desordem”.
Os projetos do “Modelo de Medellín” utilizam a estratégia de renovação chamada
“acupuntura urbana”, que promove a ideia de que uma área urbana pode ser
totalmente afetada por operações pequenas, mas precisas (Peña Gallego, ).
Um dos prefeitos de Medellín enfatizou a importância da qualidade arquitetônica
nesses projetos, elaborando que o objetivo dos Parques-Biblioteca era “ativar o
poder da estética como motor para a mudança social” (Salazar, citado em Brand
e Dávila, ).
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de tipos de uso, encontros, visibilidades etc. de duas das novas
“infraestruturas sociais” de Medellín: o Metrocable e os Parques-Bi
-
blioteca. Aborda, mais especicamente, a relação existente entre
a nova percepção do território, permitida pelo uso do transporte
aéreo e das bibliotecas públicas e o destaque dos problemas li-
gados à integração dos assentamentos informais à cidade formal.
Por último, analisa a maneira como o Metrocable atua sobre a
acessibilidade do território e os sistemas de transporte existentes.
Este artigo apresenta, assim, uma parte da pesquisa em andamento
que investiga sobre o desempenho urbano das infraestruturas
públicas nas periferias latino-americanas –pesquisa que se utiliza
de análises arquitetônicas e urbanas; de entrevistas com admi-
nistradores e líderes locais e de mapeamento crítico a respeito da
presença e gestão sobre o território. Parte deste material é utilizado
neste artigo, a m de descrever e discutir as novas culturas espaciais
de acesso e domínio do território urbano, e as diferentes formas
de poder na cidade geradas por essas novas culturas espaciais.
Sobre o território: cultura
espacial dos Metrocables
Inaugurado em  e concebido na segunda metade da década
de , o Metrocable consistiu inicialmente em uma linha (linha
K) que, localizada nas comunas  e , atende aos distritos de An-
dalucía, Popular e Santo Domingo Savio, este habitado por aproxi-
madamente  mil habitantes. Em contraponto à cidade ocial”,
que se desenvolveu ao longo do rio, estes bairros informais são
caracterizados pela invasão das encostas do vale. Por conta dessa
característica topográca, esses bairros nos morros apresentavam
–e ainda apresentam– um enorme desao de mobilidade urbana.
O Metrocable foi pensado justamente como solução para vencer
este problema: o sistema é composto por três estações (Andaluzia,
Popular e Santo Domingo),  pilares,  cabines (com capacidades
de, no máximo, dez passageiros cada) e podem transportar até
 mil passageiros por hora e  mil pessoas por dia (capacidade
máxima alcançada em ). Conectado à estação de metrô de
Acevedo, o tempo de viagem total é estimado em  minutos. Com
um custo de
US
  milhões, o nanciamento da operação foi
possível por meio de uma parceria público-privada, dos quais 
foram custeados pela cidade e  pela Companhia de Metrô. O
Metrocable de Medellín foi equipado pela empresa francesa
POMA
e construído pela Empresa Pública de Medellín (EPM).
Figura . Metrocables e a renovação dos espaços públicos em Santo Domingo Sávio
Crédito: autor.
A inovação representada pela implantação do Metrocable apoia-se
na complementaridade das lógicas do planejador de transporte
e do arquiteto-urbanista. O desenvolvimento de programas com-
plementares (residenciais, educacionais, culturais, desportivos,
etc.), a melhoria de espaços próximos das estações (incluindo a
renovação das fachadas de edifícios existentes), a criação de novos
espaços públicos (incluindo praças públicas, campos de futebol,
parques infantis, etc.) e a qualidade urbana e arquitetônica das
estações constituem um conjunto de elementos que beneciaram
a integração socioterritorial da infraestrutura. O investimento de
sete vezes o preço da construção do teleférico reforçou também
este processo de implantação, ao possibilitar o acompanhamento
do projeto por quatro anos seguintes à sua inauguração (Brand
e Dávila, ).
Justicado pelo governo pela dívida histórica” em relação aos dis-
tritos desfavorecidos, o projeto parece ter consolidado a conança
dos habitantes em relação às autoridades públicas. Desejando
oferecer o mais bonito ao mais humilde” (Fajardo, citado em Brand
e Dávila, : ), ativando “o poder da estética como motor da
mudança social” (Salazar, citado em Brand e Dávila, : ), o
caráter social da operação também é promovido pela Companhia
do Metro como um meio de “estender os benefícios das infraestru-
turas de transportes para os bairros pobres e inacessíveis” (Brand
e Dávila, : ).
O Metrocable transporta, a cada ano,  milhões de passageiros.
Este sucesso explica-se, em primeiro lugar, pela conexão operada
com o metrô, que permite reduzir o tempo de viagem ao Centro e
à parte sul da cidade. A integração tarifária para os usuários (traba-
lhadores e estudantes) induziu, além disso, uma economia de mais
de um terço do dinheiro dedicado ao transporte (Coupé, Brand e
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Formas de mobilidade, visibilidade e poder em Medellín
Metrocable e Parques-Biblioteca
Dávila, ). Sem discriminação com os bairros desfavorecidos
que serve, o teleférico benecia de infraestruturas e equipamentos
da mesma qualidade que os outros meios de transportes públicos.
Por último, o Metrocable dene-se como uma alternativa para as
pessoas que tinham, como única opção, os deslocamentos a pé ou
por transportes informais para ir e voltar de suas casas.
Centralização da gestão
Há poucos dados e pesquisas que permitam uma descrição apro-
fundada sobre a história do transporte informal em Medellín. No
entanto, mesmo uma breve e supercial revisão ressalta que, a par-
tir dos anos , nas comunas  e  de Medellín, iniciaram-se os
serviços de transporte com veículos do tipo escalera ou chivas (da
marca Dodge, Picon e Jeep),
permitindo o acesso aos bairros de
Santo Domingo, Jardin e Granizal,
serviços que se desenvolveram
exponencialmente até os anos , acompanhando a explosão
demográca e urbana da cidade.
O transporte informal é atualmente operado por uma série de
carros (chamados “carritos”) estacionados na parte baixa dos bair-
ros informais, perto das estações de metrô e/ou do teleférico. Por
exemplo, quando o Metrocable ca saturado na estação Acevedo,
os carros deslocam-se na saída da ponte que atravessa o rio, per-
mitindo às pessoas embarcar rapidamente. Distinguem-se dois
tipos de serviço: os táxis convencionais que permitem um serviço
de porta-a-porta; e táxis coletivos, que têm uma rota predenida.
Informações recolhidas a partir das entrevistas realizadas pela autora com os
habitantes das comunas  e , em setembro de .
Ver a história da cooperativa de ônibus Coopetransa: http://www.coopetransa.
com/organizacion/historia/
Figura . Ponto de embarque do transporte informal, perto da estação do Metrocable e metrô Acevedo
Fonte: Corporación Mi Comuna .
A história do transporte informal em Medellín é intrinsecamente
ligada à das cooperativas de ônibus e micro-ônibus que servem às
comunas  e . De fato, todas as rotas operadas por estas iniciaram
de maneira informal e foram, ao longo do tempo, regularizadas
pelos poderes públicos. Este processo de regularização ocorreu
desde os anos , apoiado pela Secretaría de Tránsito Munici-
pal. Existem hoje sete cooperativas que servem às comunas  e :
Autocol, Cootranscol, Coopetransa, Cooptransnor, Transaranjuez,
Transconor e Combuses. A substituição das rotas do transporte
informal por linhas de ônibus ociais ocorre até hoje, como foi
o caso recente da linha  da Cooperativa Aranjuez-Santa Cruz
que, parada em  e operada então pelo transporte informal,
reabriu em .
Este breve olhar histórico sobre o transporte informal permite
efetuar uma comparação das situações precedentes à chegada do
Metrocable em . Nos anos  e , o governo regularizava
gradualmente as rotas que serviam regiões isoladas, considerando
que estas prestavam um serviço de interesse público. Houve co-
laboração entre as cooperativas em formação e a municipalidade
de Medellín, porém, a partir dos anos , os poderes públicos
buscaram a centralização do sistema de transporte da cidade.
Além da implantação do Metrocable ligado ao metrô da cidade,
“rotas integradas” de ônibus foram estabelecidas nas comunas
 e  operadas também pela Empresa Metro. Enquanto as rotas
integradas não cobrem toda a área das comunas  e ,
elas são
as únicas linhas de ônibus beneciadas pela integração tarifária
com os outros meios de transporte públicos, deixando as linhas
operadas pelas cooperativas e o transporte informal fora deste
sistema centralizado.
Esta armação apoia-se em estudos cartográcos de acessibilidade dos diversos
meios de transporte que atendem as comunas  e , efetuados na tese em des-
envolvimento da autora Camille Reiss.
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Cauê Capillé, Camille Reiss
É interessante ressaltar que o transporte informal, considerado
ilegal pelas autoridades, não sofre diretamente uma repressão
policial, pelo contrário, esta ausência de repressão deixa lugar ao
desenvolvimento da rede. O caráter oportunista do sistema revela
a utilidade do serviço que presta, pois sua existência depende do
seu uso pela população: sem demandaestaria condenadoade-
saparecer. Sua capacidade de inltrar a microescala do território,
a série de serviços de ajuda à pessoa (incluindo serviço eventual
de porta a--porta, transporte de compras, etc.), além da criação de
rotas cada vez mais diretas e econômicas para o Centro,

expres-
sam a maneira como o transporte informal facilita a mobilidade
dos habitantes dos bairros informais, conseguindo, assim, operar
um serviço complementar ao serviço de transporte público.
Desse modo, a chegada do Metrocable traz questões importan-
tes sobre a ação do Estado em relação à mobilidade urbana. Em
especial, é importante observar que, em vez de ter erradicado os
sistemas de transporte locais, o Metrocable participou do forta-
lecimento das redes das cooperativas e do transporte informal.

A implantação desta infraestrutura visível, mais propícia a servir à
propaganda do marketing urbano da cidade de Medellín e a atrair
os investimentos nanceiros internacionais (Álvarez e Bocarejo,
; Name e Freire-Medeiros, ), prevaleceu em relação à im-
plantação ou regularização de infraestruturas invisíveis (ligadas ao
transporte informal, saneamento, água, eletricidade, etc.), embora
elas tenham um potencial maior de benefício direto à população.

Informações recolhidas a partir das entrevistas realizadas pela autora com os
habitantes das comunas  e , em setembro de .

Vale lembrar que os táxis ociais da cidade se recusam a entrar e circular nos
bairros informais, por causa do aclive e dos congestionamentos que o sistema
viário interno sofre: as ruas estreitas não comportam a passagem em mão dupla
dos ônibus, caminhões de lixo e carros particulares.

Argumento recolhido durante as entrevistas realizadas com os habitantes e
desenvolvido na tese em andamento da autora Camille Reiss.
Turismo e congestão
O Metrocable permitiu que essas comunidades fossem incluídas
num roteiro turístico da cidade, o que intensica o valor político
de representação dessas infraestruturas. Por um lado, o Metrocable
atrai os visitantes que, ao consumirem e comprarem produtos nas
comunidades, participam (em certo grau) do desenvolvimento da
economia local; por outro, o grande uxo de turistas congestiona
o uso do Metrocable. De fato, das h até as  horas e das h
até as  horas, os habitantes podem esperar até duas horas antes
de embarcar nas cabines, o que é uma situação particularmente
problemática durante as férias, quando o número de turistas au-
menta consideravelmente, como foi explicado por este habitante:
“[o Metrocable] É mais turístico [do] que para a comunidade,
porque durante as férias, se esquece de nós: no Natal, na Semana
Santa está cheio de turistas”.

Informações recolhidas a partir das entrevistas realizadas pela autora com os
habitantes das comunas  e , em setembro de .
Figura . Filas de espera na estação Acevedo nas horas de pico
Crédito: autor.
O uso turístico contribui para a abertura das comunas ao resto da
cidade. No entanto, essas visitas tendem a se concentrar quase
que exclusivamente nas áreas onde houve investimento ligado
aos
PUI
s, isto é, nas estações e nos seus arredores. Produz-se, de
certo modo, uma visão truncada da realidade dessas áreas, espe-
cialmente sobre o subdesenvolvimento de certas partes desses
territórios. Habitantes de Santo Domingo indicaram, durante as
entrevistas, que alguns deles ainda não têm acesso regularizado
à água ou à eletricidade. Aliás, a implantação do teleférico nunca
foi considerada como prioritária, ao contrário da necessidade
urgente do acesso à água, eletricidade, educação e saúde. Esta é
uma situação comum em grande parte dos locais escolhidos para
implantar esse meio de transporte, seja no Brasil ou na Colômbia.


Ver o caso do teleférico de Cazúca, na Colômbia (Álvarez e Bocarejo, ). Argu-
mento desenvolvido na tese em andamento da autora Camille Reiss.
Dossier central
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Formas de mobilidade, visibilidade e poder em Medellín
Metrocable e Parques-Biblioteca
Marco urbano e visão aérea
As estações do Metrocable caracterizam-se, tanto no discurso ocial
do Estado, quanto na simples observação dos edifícios construídos,
por uma arquitetura que difere claramente da autoconstrução de
seus contextos. O seu aspecto monolítico, sua altura, a qualidade
do seu revestimento exterior, além do tratamento dos espaços
exteriores circundantes, são fatores que simbolizam a intervenção
do Estado. A cor cinza do concreto, que constitui as fachadas e as
estruturas das estações, destaca-se, ainda mais especicamente,
com a cor vermelha dos tijolos, representativa das construções em
geral da cidade (tanto nos bairros informais como nos formais).
As estações diferenciam-se, por exemplo, do conjunto de unidades
habitacionais Juan Bobo, que possui a particularidade de ter sido
inspirado pela autoconstrução. Embora seja mais alto do que as
construções ao seu redor, mistura-se, de certo modo, à paisagem
existente, em decorrência do uso de tijolos, da ausência de re-
vestimento exterior e da visibilidade da estrutura de concreto. A
presença de um espaço exterior (uma varanda) para cada apar-
tamento atesta também a vontade de oferecer habitações que
correspondem às maneiras de viver da população. Em , o
projeto recebeu o prêmio da “melhor prática (Best Practice Award)
em Dubai.
Figura . Estação Popular
Crédito: autor.
O novo marco urbano que representa o Metrocable apresenta,
assim, um complexo efeito político-espacial. Por um lado, ao trazer
milhares de habitantes para uma visão aérea das suas próprias
comunidades, estimula (potencialmente) as tomadas de cons-
ciência sociopolíticas, ao destacar os problemas de integração
dos bairros informais com o restante da cidade. Segundo Name
e Freire-Medeiros (: ), o Metrocable fomenta “a emergência
de novos pontos de vista que, por sua vez, geram novas imagens
da pobreza”. A criação de diversas corporações por jovens das
comunas  e , empenhados em ações políticas, culturais e sociais
para o futuro das suas comunidades, atesta esta observação. Alguns
deles armam que “viver no bairro é uma aposta sociopolítica” e
que se comprometem a car “porque tem problemas […] e, tam-
bém, muito potencial”. As principais críticas focam na falta de
habitação social, atividades e formações para os jovens, ou ainda,
nos problemas ligados à segurança.
Por outro lado, além de impor-se como um novo meio de transpor-
te afastado das práticas cotidianas de mobilidade dos habitantes,
o Metrocable sujeitou também os usuários a novas regras sociais.
A (“implementada”) ideia da presença do Estado viu-se assim
reforçada pelo estabelecimento de uma cartilha de comporta-
mentos “adequados”, chamada “cultura metrô. A Empresa Metro
de Medellín explica em seu site ocial que a “cultura metrô” deve
ser entendida como:
o resultado do modelo de gestão social, educativo e cultural
[...] para a construção de uma nova cultura cívica, o convívio
na harmonia, e o bom comportamento, a solidariedade, o
respeito das normas básicas do uso dos bens públicos, o res-
peito próprio e para o outro, entre outros aspectos (Metro de
Medellín, s.f.)

Piedra en el camino (), Mi comuna  (), Las cometas (), Convivamos
(), entre outros.

Informações recolhidas a partir das entrevistas realizadas pelo autor com os
habitantes das comunas  e , em setembro de .

Informações recolhidas a partir das entrevistas realizadas pelo autor com os
habitantes das comunas  e , em setembro de .
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Cauê Capillé, Camille Reiss
Essa nova cultura cívica traduz-se, concretamente, pela constante
presença de agentes de segurança que controlam as ações dos
usuários. Desse modo, uma série de questões coloca-se sobre
a posição do Metrocable na produção de visibilidades sobre o
território que atravessa: tanto sobre o poder visível do Estado,
quanto sobre a possibilidade de ver o território como um todo
por parte dos moradores.
Sobre si mesmos: cultura espacial
dos Parques-Biblioteca
Os Parques-Biblioteca foram construídos para promover práticas
educacionais, culturais e sociais nos seus bairros circundantes (Peña
Gallego, ; Cuadros-Rodríguez, Valencia e Valencia-Arias, ),
funcionando como pontos de transformação e fortalecimento
das comunidades e culturas locais. Ao todo são nove construídos
até hoje, localizados de maneira a atender aos vários bairros e
comunas de Medellín.
derón e Zabala Corredor, ; Montoya, ). O termo “parque”
no título do projeto “vem em primeiro lugar precisamente devido
ao fato de que essas instalações são espaços públicos, em primeiro
lugar” (Montoya, ). Em outras palavras, grande importância é
dada às formas de apropriação e uso das bibliotecas, e as poten-
ciais interações sociais que essas formas de uso podem produzir.
Consequentemente, podemos sugerir que essas formas de uso e
interação social adquirem uma “função metonímica”, pois, para
além do mero uso como biblioteca, são a manifestação visível da
sociedade transformada de Medellín.
No entanto, como pode a mudança social depender do uso público
de um edifício? Intuitivamente, podemos sugerir que “uso público”
implica, em certo nível, que formas de ocupação, movimento e
interação são imprevistas e não programadas. Nesse sentido, se
considerarmos todo o investimento para assegurar que os Par-
ques-Biblioteca funcionem como extensões do espaço público,
isto é, sejam abertos a todos (acesso livre) e permitam certo nível
de liberdade de uso, eles não podem ser considerados como meras
instalações educacionais ou culturais. Estudos (por exemplo, o de
Ortiz Arciniegas ()) indicam que os Parques-Biblioteca têm
um efeito positivo nos graus de educação nos bairros vizinhos,
principalmente por causa dos seus programas culturais e do acesso
aberto à internet e aos computadores. No entanto, como essas
instalações funcionam além de suas nalidades educacionais? Em
particular, como o uso público não programado das bibliotecas é
associado às intenções sociais e políticas do projeto?
Parque-Biblioteca La Quintana
Para investigar tais questões levantadas, analisamos o caso do
Parque-Biblioteca (
PB
) La Quintana. Essa biblioteca está localizada
em uma área íngreme que costumava estar entre as mais violentas
da cidade. Ricardo La Rotta Caballero (: ), o arquiteto que
projetou o PB La Quintana, explica que o edifício foi concebido em
plataformas para se assemelhar às cascatas de um rio que costu-
Figura . O conjunto de unidades habitacionais Juan Bobo
Crédito: Google imagem.
Em outro artigo (Capillé, ; b), descrevemos detalhada-
mente a implementação dos Parques-Biblioteca, considerando os
recursos ociais utilizados (documentos e estratégias públicas) e as
principais pesquisas que têm avaliado o uso desses equipamentos.
Explicamos, por exemplo, que a implementação dos cinco primeiros
Parques-Biblioteca (San Javier, España, La Ladera, La Quintana e Be-
lén) está fortemente associada à intenção de alterar simbolicamente
a imagem de Medellín como exemplo de violência urbana para o
mundo, por meio do uso de contrastes arquitetônicos e históricos.
Entretanto, para além da transformação simbólica e “midiática” que
materializam, os Parques-Biblioteca foram construídos para gerar
um novo senso de comunidade e cidadania por meio de coabitação
e interação informal (Empresa de Desarollo Urbano, s.f.; Franco Cal-
Dossier central
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Formas de mobilidade, visibilidade e poder em Medellín
Metrocable e Parques-Biblioteca
mava uir na mesma área. Ele também elucida que o edifício tem
dois volumes principais: “o primeiro, de natureza passiva, abriga
a biblioteca e se ajusta visualmente à paisagem; [e] o segundo
bloco, de um tipo ativo, contém auditórios, salas de aula e centro
de desenvolvimento de negócios que se relacionam com a cidade
circundante” . A divisão em “blocos passivo e ativo corresponde à
frequente divisão que os organizadores do Projeto de Parques-Bi-
blioteca estabelecem entre “aprendizagem formal” e “aprendizagem
interativa” (Montoya, ). Além disso, embora a experiência de
visitar o edifício não permita uma leitura tão sincrônica dos dois
blocos, as “plataformas em cascata são facilmente percebidas. O
edifício forma uma passagem entre ruas adjacentes (funcionando
como “galeria urbana”) e usa a inclinação da colina na qual está
situado para criar “planaltos” e belvederes que oferecem uma
ampla visão do vale de Medellín. Esses planaltos (ou plataformas)
“em cascata diluem a separação interior/exterior da biblioteca.
No nível da entrada, os visitantes podem acessar uma série de
programas que estão diretamente ligados à galeria urbana”: um
teatro ao ar livre (arquibancada de concreto que usa a inclinação
da colina), auditório, parquinho infantil e espaço para cursos de
empreendedorismo e consulta com o Fundo Comfama. Além disso,
eles podem ver a sala de computadores, que, apesar de estar neste
andar, não pode ser acessada diretamente. O primeiro andar acima
desta passagem abriga um café e entradas para as ocinas. Uma sé-
rie de aspectos arquitetônicos faz com que esses dois andares (rés
do chão e primeiro andar) sejam mais percebidos como extensão
do espaço urbano do que como parte do interior de um edifício.
Figura . Mapa localizando os Parques-Biblioteca em Medellín
Crédito: autor.
A Parque-Biblioteca La Quintana possui vários “anéis de circulação,
formando uma intricada rede de possíveis caminhos e acessos pelo
edifício. Esses caminhos atravessam os variados programas e os
interligam de diferentes formas: café, parque infantil, ocinas e
auditório formam uma rede de programas interligados; enquanto
bibliotecas infantil e de adultos, sala de informática, sala de expo-
sições e uma seção para material em estudos locais formam outra
rede. Com exceção da sala de computadores, do auditório e das
salas de ocinas, todos os outros espaços programados servem
de passagem entre outros espaços, o que contribui para a diluição
dos limites entre esses programas, uma vez que as pessoas pro-
vavelmente atravessarão esses espaços no caminho entre outros
programas. Em particular, o espaço dedicado ao material para
estudos locais (sala mi Barrio) torna-se um verdadeiro centro de
caminhos do edifício (uma espécie de “saguão’ Em resumo, embora
o arquiteto tenha proposto um bloco de programas “passivos”, a
interconexão espacial entre ambientes desse bloco leva a que a
ocupação desses espaços seja misturada com o movimento de
visitantes acessando outros programas.
Ao analisarmos as formas de uso e ocupação do espaço (Capillé,
), observamos que o PB La Quintana apresenta três possibi-
lidades de uso –relacionadas ao aprendizado formal, ao aprendi-
zado interativo e ao fato de servir de extensão do espaço público
urbano– que se misturam em todas as partes do edifício. Em ou-
tras palavras, os visitantes que estão lendo, por exemplo, estão
visualmente cientes de outros visitantes que estão brincando,
vendo uma exposição, namorando, reunindo-se para estudar ou
passeando pela biblioteca. Observamos, deste modo, que o PB La
Quintana funciona simultaneamente para objetivos educacionais
e como um espaço para socialização informal não programada.
Vale ressaltar que esta “função dupla” é atendida, principalmente,
a partir do arranjo programático e dos recursos espaciais tais quais
descrevemos.
Autovisibilidade”
Apesar de materializarem a propaganda política da melhoria
urbana de Medellín, a apropriação da comunidade é o que verda-
deiramente “endossa o valor coletivo e político dessas bibliotecas
públicas (Cuadros-Rodríguez, Valencia e Valencia-Arias, ). Neste
ponto, podemos ver que o uso dos espaços dos Parques-Biblioteca
carrega um valor político duplo: eles dão materialidade às ideo-
logias cívicas do projeto (se as bibliotecas forem esvaziadas de
usuários, não poderão manter sua qualidade de representantes e
produtores de uma “sociedade melhorada”). Por outro lado, esse
mesmo “status da representação da coletividade (ou “função
metonímica”, como chamamos anteriormente) que é dado aos
Parques-Biblioteca estimula uma consciência política em seus
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Cauê Capillé, Camille Reiss
usuários, uma vez que torna a comunidade visível para si mesma,
(Capillé, ; Jaramillo, ).
Essa “autovisibilidade” pode acontecer por meios programáticos
–como cursos de formação, festividades e encontros– e por meio
das práticas sociais cotidianas nos espaços desses edifícios. As
segundas, em oposição às primeiras, tornam-se uma entidade
coletiva somente enquanto ocorrem no espaço e são, portanto,
condicionadas e estruturadas pelo arranjo arquitetônico. Essa
“autovisibilidade arquitetônica tem uma enorme importância
política, pois garante que visitantes se encontrem formando um
“palco social” (Zook e Bafna, ) no qual eles não são meros
“usuários” (Gee, ), mas participantes da formação de uma
cultura política de constante autorregulação e negociação (Capillé,
; a). Em outras palavras, esses edifícios se assemelham
a praças cívicas que amplicam a visibilidade política do seu uso.
São, no entanto, diferentes de “praças cívicas” tradicionais, pois são
ocupados diariamente por usos cotidianos dessas comunidades
–pessoas brincando, namorando, lendo, conversando, passeando,
etc.–, usos que recebem, como argumentamos, esse valor simbó-
lico-político “ampliado”.
Mobilidades e visibilidades como
forma de poder e empoderamento
Os Metrocables e Parques-Biblioteca são elementos-chave do pro-
jeto de renovação urbana de Medellín e têm sido utilizados como
modelo para a atuação nas áreas periféricas da América Latina, por
exemplo, no Rio de Janeiro. Essas duas “infraestruturas sociais” se
encontram em posição crítica, pois se tornam simultaneamente
a manifestação arquitetônica da propaganda ideológica top-
-down” (Estado-sociedade) e da participação coletiva cotidiana.
Compreender a implementação e o funcionamento dessas infra-
estruturas parece, portanto, implicar o estudo de mecanismos de
participação/controle/resistência entre a administração do Estado
e as sociedades autogeridas, expondo os efeitos do “Modelo de
Medellín” na vida cotidiana.
Como visto previamente, a presença do Estado nas áreas populares
de Medellín é representada simbolicamente pela arquitetura dos
novos equipamentos culturais e de transporte, que contrastam
Figura . Parque-Biblioteca La Quintana
Crédito imagem: autor.
Dossier central
89
Formas de mobilidade, visibilidade e poder em Medellín
Metrocable e Parques-Biblioteca
com os edifícios e seus contextos. Além desse tipo de contraste,
os edifícios também constroem contrastes históricos, substituindo
a imagem de uma “Medellín dos cartéis” pela de uma cidade onde
houve uma “modernização social” bem-sucedida. Essa nova presen
-
ça é enfatizada pela centralização da gestão da mobilidade urbana
que gradativamente substitui ou sobrepõe os sistemas auto-orga-
nizacionais existentes pelo projeto estatal de renovação urbana,
implicando na modicação de sistemas de poder locais, para além
da possibilidade de mobilidade e acesso a serviços públicos.
Entretanto, embora os
PUI
s tivessem como objetivo a organização
dos bairros informais pela erradicação dos sistemas auto-organi-
zacionais existentes, não conseguiram impor o Metrocable como
único modo de transporte. Há, na verdade, uma integração e
complementaridade de sistemas autogerenciados com os sistemas
“formais” de transporte público –ambos considerados como indis-
pensáveis para a mobilidade desses/nesses territórios com baixa
acessibilidade (Reiss, ). Há, desse modo, uma integração entre
“projetos informais e individuais, coletivos e institucionais que
tendem à descentralização desejável do poder (Secchi e Viganò,
: ), e o estabelecimento de um “serviço público de mobilida-
de e acessibilidade” (Secchi e Viganò, : ) que seria, segundo
Ascher (), da competência exclusiva das autoridades públicas.
Além disso, a implícita difusão da imposição de regras de compor-
tamento no uso das áreas urbanas renovadas e nos novos equipa-
mentos públicos, exemplicadas pela “Cultura metro” (cartilha de
comportamentos adequados do metrô) e pelo “Pacto ciudadano
de uso e apropriação dos Parques-Biblioteca” (Fajardo Valderrama,
) (pacto que dene regras de uso dos Parques-Biblioteca), faz
com que os Metrocables e Parques-Biblioteca funcionem como
instrumentos de educação, controle e poder do Estado sobre as
sociedades anteriormente organizadas na base da autogestão.
No entanto, essas mesmas infraestruturas geram novas formas
de apropriação e visibilidade das comunidades as quais servem.
A visão aérea dos teleféricos urbanos inaugura um novo senso
de pertencimento político-espacial a partir da profusão de uma
leitura mais clara da relação espacial entre as comunidades e a
cidade formal. Ao permitirem essa peculiar posição espacial em
relação ao território urbano, isto é, ao colocarem os indivíduos em
contato direto e próximo com a comunidade a qual pertencem,
o Metrocable contribui no empoderamento político das comuni-
dades as quais serve.
De maneira semelhante, os Parques-Biblioteca também produzem
outra forma de “visibilidade” comunitária. Entretanto, diferente da
visibilidade “indivíduo-território” que os Metrocables produzem,
nos Parques-Biblioteca é possível que usuários se vejam: uma
visibilidade (e troca direta) entre indivíduos-indivíduos. Ao con-
siderarmos a função simbólica destes equipamentos culturais
como novos centros comunitários a partir do uso e apropriação
cotidianos –função ocial e “primeira” destes edifícios– devemos,
portanto, considerar o valor político dessas trocas e práticas sociais
nos espaços dos Parques-Biblioteca.
A combinação dessas duas “visibilidades” (“visibilidade aérea” ou
“indivíduo-território”, dos Metrocables; e “visibilidade recíproca ou
“indivíduos-indivíduos”, dos Parques-Biblioteca) atua como forma-
dora de uma cultura política de constante autorreconhecimento,
autorregulação e negociação. Por dependerem do espaço como
plataforma, essas (novas) culturas políticas são condicionadas e
estruturadas pelos arranjos arquitetônicos que passam a ter papel
pivotante como instrumentos de poder e empoderamento ao
regularem o acesso e visibilidade aos territórios e coletividades
urbanos.
Em síntese, argumenta-se que os Metrocables e os Parques-Bi-
blioteca são infraestruturas estatais que sugerem novas formas de
acesso, visibilidade e poder para as populações das periferias de
Medellín. Ao tornarem cotidianas a mobilidade aérea e a integração
com espaços “formais”, os Metrocables permitem uma compreensão
global das comunas e uma leitura da posição destas na cidade. Ao
servirem de novos espaços de encontro e produção cultural, os
Parques-Biblioteca estimulam novas formas de empoderamento
político/cultural dessas comunidades periféricas.
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Cauê Capillé, Camille Reiss
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Book
Los sistemas masivos de transporte juegan un papel esencial en cuanto a movilidad en las principales ciudades del mundo, permiten la accesibilidad de miles de ciudadanos diariamente a todo el espacio urbano. En Colombia, el diario vivir de los usuarios de los diversos sistemas masivos de transporte del país, está lleno de momentos en los que experimenta diversas problemáticas. Consecuente a esto surge la necesidad de resolución de dichas problemáticas, impulsando intervenciones que contemplan su clasificación y estudio; el presente trabajo caracteriza, analiza y compara las problemáticas de dos casos de transporte masivo entre ciudades catalogadas como las más importantes de Colombia: Bogotá y Medellín, resaltando la problemática de la cultura ciudadana y reflexionando sobre su relación con los sistemas masivos de transporte y su efecto en cuanto a la calidad de estos.
Thesis
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Political and cultural agendas determine the programmes of public libraries, implying complex and often conflicting requirements in terms of their functioning. On one hand, they need to provide open and equal access to knowledge. On the other, they have functional needs that might restrict or condition the distribution and access of books, equipment and people. At the same time, social and technological changes cause this building type to change so as to include the idea of socialisation as a form of learning. This thesis investigates how space, programme and use interrelate in public libraries in order to express an intended public message and fulfil a specific social and cultural effect. Medellín’s Library-Parks are the main case studies analysed, as they function as key elements of a project that addresses social inequalities. Through spatial analysis using space syntax methods, the thesis provides a thorough description of these libraries’ spatial configuration and their spatial organisation of programme. In addition, it shows how the libraries are used through a detailed mapping of users’ co-presence, which exposes patterns that are further associated with the spatial and programmatic arrangements. Based on these three analyses, the thesis formulates types of spatial cultures in public libraries and exposes the role of space in influencing the emergence and/or constraint of particular patterns of social awareness that the traditional notion of the programme cannot capture. It is found that depending on how public libraries control public use (spatially and programmatically), they can support the emergence of informal activities or work as educational institutions only. In addition, depending on how public libraries’ educational role is manifested in space as spatial practices, they can serve as places that facilitate the exercise of institutional-bureaucratic power to normalise visitors’ behaviours, or places that stimulate public participation and negotiation. The findings emphasise how public libraries work as accessible civic environments, promoting visitors’ political and social awareness and potentially strengthening the collective engagement of the surrounding communities.
Article
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Los Parques-Biblioteca de Medellín son cruciales en el proyecto de ‘mejoramiento urbano y social’ de esta ciudad. Ellos consisten en una combinación de programas culturales y generosos espacios exteriores y interiores para uso público, construidos con la intención de producir un nuevo sentido de comunidad y ciudadanía mediante la arquitectura y su apropiación. Este hecho abre una serie de preguntas sobre el uso instrumental de la arquitectura dentro de proyectos más amplios de transformaciones urbanas. En particular, estos proyectos urbanos intentaron transformar áreas que hasta ahora eran periféricas en la economía, la cultura y la política de esta ciudad. Este artículo intenta abordar cómo el ‘Proyecto de Parques-Biblioteca’ materializa y produce ideologías de política y cultura en contextos de periferia (cultural, económica y política).
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Com base em um diálogo entre as reflexões produzidas no Paradigma das Novas Mobilidades e nos Estudos Decoloniais, examinamos os teleféricos que, na última década, passaram a compor a paisagem de áreas pobres e segregadas da América Latina. Partimos da premissa de que, no contexto do planejamento urbano estratégico, esse novo dispositivo de mobilidade é uma intervenção expressiva que gera competitividade devido aos novos marcos visuais que insere na paisagem e às novas imagens da pobreza que instituem. Muito mais que opções técnicas neutras para o transporte urbano, os teleféricos inauguram um regime visual que projeta uma ideia de modernidade e promete a mudança social, mas que na verdade convertem a pobreza, como diferença colonial, em valor estético e simbólico.
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ABSTRACT Urban facilities have historically played a fundamental role as spaces that allow citizens to exercise their right over the city. How do architecture and urbanism actually contribute to guarantee this right? How do the facilities give an advantage to the construction of the city and citizens through better environmental integration? In some cities in the country the development of new and important facilities, constructed by improving already existing infrastructure, has led to the reduction of an accumulated “social debt”. However, there are still many challenges to be faced on the road to strengthening the processes of social inclusion and to achieving the optimal functioning of these spaces in relation to their environment. RESUMEN Los equipamientos urbanos han tenido históricamente un papel fundamental como espacios que permiten a los ciudadanos ejercer el derecho a la ciudad. ¿Cómo la arquitectura y el urbanismo contribuyen a garantizar ese derecho? ¿Cómo los equipamientos favorecen la construcción de ciudad y ciudadanía mediante una mejor integración con el entorno? En algunas ciudades del país el desarrollo de nuevos e importantes equipamientos, sumado al mejoramiento de infraestructuras existentes, ha permitido reducir una “deuda social” acumulada. Sin embargo, quedan muchos retos en el camino hacia el fortalecimiento de los procesos de inclusión social y para lograr el funcionamiento óptimo de estos espacios en su relación con el entorno.
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El objetivo de este artículo es analizar la importancia de las bibliotecas públicas en los contextos de desarrollo social y participación en las comunidades. Para esto se identifica la importancia de las bibliotecas públicas como espacios de encuentro social y convivencia ciudadana, presentando el caso de los parques biblioteca de Medellín como una estrategia exitosa para fomentar la inclusión y la participación ciudadanas. Se concluye que las bibliotecas públicas son espacios propicios para la inclusión, desde la oferta igualitaria de servicios tecnológicos, informáticos, culturales, sociales y de acceso al conocimiento. Este artículo es producto de la investigación realizada en el 2012 y que se titula “Estrategias de comunicación pública para la participación ciudadana en los Parques Biblioteca. Estudio de caso en el Parque Biblioteca Fernando Botero de la ciudad de Medellín”, dentro del semillero de Investigación de la Facultad de Comunicaciones-Sinfacciones, de la Universidad de Antioquia.
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Political and cultural agendas determine the programs of public libraries, implying complex and often conflicting requirements in terms of their functioning. On one hand, they intend to materialize a political discourse of open and equal access to knowledge. On the other, they have functional and epistemological needs that might restrict or condition the distribution and access of books, equipment, and people. This article looks at how space, program, and use interrelate in the emergence of public libraries as a building type, focusing on how they express an intended public message and fulfil specific social and cultural effects. It is argued that each of these three aspects underpins power relations in libraries. By embedding an epistemology of science, space also embeds social and cultural hierarchies. Through defining an educational agenda for public libraries, program endorses the idea that citizenship depends on instruction and literacy, implying technocracy. Finally, by becoming collective under the frames of space and program, use materializes the idea of a “self-regulated society,” which embeds a twofold process: to be regulated by all others and to engage in a process of participatory action and regulation. The article reviews the literature on the historical emergence of public libraries and recommends that studies of contemporary libraries should consider how this building type originally framed social relationships through its architecture, materializing specific ideologies of politics and culture.