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O risco da arte – A toxicidade dos materiais utilizados na execução e conservação das pinturas de cavalete

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Abstract

Todos os materiais utilizados por pintores e conservadores são materiais tóxicos; diferem, porém, na forma como preferencialmente entram no organismo (inalação, contacto com a pele, contacto com os olhos ou ingestão), nas quantidades que têm de ser assimiladas para se manifestarem as consequências, no tipo de problemas de saúde que originam, bem como no intervalo de tempo que decorre entre a exposição aos materiais e o aparecimento dos efeitos tóxicos. A frequente e comum distinção entre materiais tóxicos e materiais não tóxicos não é, portanto, de qualidade, mas sim de quantidade: baseia-se no facto de uma pequena dose de algumas substâncias ser suficiente para causar envenenamento (substâncias tóxicas) enquanto com outras isso só acontece por exposição a quantidades muito grandes (substâncias não tóxicas). Os pigmentos, que são compostos inorgânicos, apresentam geralmente problemas de toxicidade que só se manifestam a longo prazo, os quais em grande parte se relacionam com a manipulação destes materiais na forma de pó. Entre os de maior risco contam-se os que incluem na sua composição metais como o arsénio, o chumbo, o mercúrio, o crómio e o cádmio, de que existem exemplos quer entre os pigmentos de interesse meramente histórico, quer entre os actualmente em uso. No caso dos compostos orgânicos, além da possível ocorrência de efeitos a longo prazo, há quase sempre efeitos imediatos. Entre os aglutinantes, vernizes e adesivos, materiais estes que são essencialmente constituídos por um componente sólido dissolvido ou disperso num líquido, surgem sobretudo dois tipos de situação: nalguns casos, nenhum dos dois constituintes coloca problemas graves de envenenamento (muitos dos materiais de origem natural e algumas dispersões de materiais sintéticos); noutros casos, não podem ser ignorados os riscos associados à fracção líquida (soluções de polímeros sintéticos e alguns vernizes com base em resinas de origem natural). Os líquidos que nesse contexto podem originar efeitos nefastos são também frequentemente utilizados como solventes pelos conservadores, juntamente com outros que só têm utilização em intervenções de limpeza. Todos têm em comum a propriedade de serem relativamente voláteis e, assim, os riscos resultantes do seu uso resultam sobretudo da sua inalação. Por isso, para estes solventes, são frequentemente referidos valores de concentração máxima na atmosfera que não devem ser ultrapassados (TLV, PEL, MAC, entre outros). Para a utilização quotidiana, estas medidas do risco, contudo, não têm em conta o facto de os diferentes solventes não serem igualmente voláteis e, por conseguinte, alguns atingirem esses limites muito mais facilmente do que outros. O número de segurança, ou PSR, tem em conta os dois factores, sendo os solventes menos seguros aqueles que apresentam menor valor para este parâmetro. Embora existam algumas excepções bastante importantes, os solventes mais perigosos, no que toca à inalação, são os hidrocarbonetos halogenados, os éteres, os hidrocarbonetos aromáticos, as cetonas, os ésteres e os compostos de azoto, enquanto os hidrocarbonetos alifáticos, os álcoois e os solventes do tipo daquele que é designado por cellosolve ou, mais rigorosamente, por 2-etoxietan-1-ol estão entre os menos perigosos. Contudo, antes de usar qualquer material, um pintor ou um conservador deve consultar a informação específica disponível sobre esse mesmo material — seja os símbolos de perigo representados no rótulo, seja a informação mais detalhada agora facilmente acessível na Internet.
O risco da arte
A toxicidade dos materiais utilizados na execução e conservação das
pinturas de cavalete
António João Cruz
Resumo
Todos os materiais utilizados por pintores e conservadores são materiais tóxicos;
diferem, porém, na forma como preferencialmente entram no organismo (inalação,
contacto com a pele, contacto com os olhos ou ingestão), nas quantidades que têm de ser
assimiladas para se manifestarem as consequências, no tipo de problemas de saúde que
originam, bem como no intervalo de tempo que decorre entre a exposição aos materiais e
o aparecimento dos efeitos tóxicos. A frequente e comum distinção entre materiais
tóxicos e materiais não tóxicos não é, portanto, de qualidade, mas sim de quantidade:
baseia-se no facto de uma pequena dose de algumas substâncias ser suficiente para causar
envenenamento (substâncias tóxicas) enquanto com outras isso só acontece por exposição a
quantidades muito grandes (substâncias não tóxicas).
Os pigmentos, que são compostos inorgânicos, apresentam geralmente
problemas de toxicidade que só se manifestam a longo prazo, os quais em grande parte
se relacionam com a manipulação destes materiais na forma de pó. Entre os de maior
risco contam-se os que incluem na sua composição metais como o arsénio, o chumbo, o
mercúrio, o crómio e o cádmio, de que existem exemplos quer entre os pigmentos de
interesse meramente histórico, quer entre os actualmente em uso.
No caso dos compostos orgânicos, além da possível ocorrência de efeitos a longo
prazo, há quase sempre efeitos imediatos.
Entre os aglutinantes, vernizes e adesivos, materiais estes que são essencialmente
constituídos por um componente sólido dissolvido ou disperso num líquido, surgem
sobretudo dois tipos de situação: nalguns casos, nenhum dos dois constituintes coloca
problemas graves de envenenamento (muitos dos materiais de origem natural e algumas
dispersões de materiais sintéticos); noutros casos, não podem ser ignorados os riscos
associados à fracção líquida (soluções de polímeros sintéticos e alguns vernizes com base
em resinas de origem natural).
Os líquidos que nesse contexto podem originar efeitos nefastos são também
frequentemente utilizados como solventes pelos conservadores, juntamente com outros
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que só têm utilização em intervenções de limpeza. Todos têm em comum a propriedade
de serem relativamente voláteis e, assim, os riscos resultantes do seu uso resultam
sobretudo da sua inalação. Por isso, para estes solventes, são frequentemente referidos
valores de concentração máxima na atmosfera que não devem ser ultrapassados (TLV,
PEL, MAC, entre outros). Para a utilização quotidiana, estas medidas do risco, contudo,
não têm em conta o facto de os diferentes solventes não serem igualmente voláteis e, por
conseguinte, alguns atingirem esses limites muito mais facilmente do que outros. O
número de segurança, ou PSR, tem em conta os dois factores, sendo os solventes menos
seguros aqueles que apresentam menor valor para este parâmetro.
Embora existam algumas excepções bastante importantes, os solventes mais
perigosos, no que toca à inalação, são os hidrocarbonetos halogenados, os éteres, os
hidrocarbonetos aromáticos, as cetonas, os ésteres e os compostos de azoto, enquanto os
hidrocarbonetos alifáticos, os álcoois e os solventes do tipo daquele que é designado por
cellosolve ou, mais rigorosamente, por 2-etoxietan-1-ol estão entre os menos perigosos.
Contudo, antes de usar qualquer material, um pintor ou um conservador deve
consultar a informação específica disponível sobre esse mesmo material — seja os
símbolos de perigo representados no rótulo, seja a informação mais detalhada agora
facilmente acessível na Internet.
[Parte da documentação utilizada na exposição e o texto que lhe serviu de base
encontram-se disponíveis na Internet no endereço
http://www.ciencia-arte.esoterica.pt/toxico/.]
O Autor
Licenciatura em Química (1986) e Doutoramento em Química Analítica (1993)
na Faculdade de Ciências de Lisboa. Colaborador do Instituto José de Figueiredo entre
1992 e 1997, onde procedeu à aplicação da ciência ao estudo das obras de arte. Desde
1995, docente e responsável das disciplinas de Materiais II e III e Métodos de Exame e
Análise II e III do Bacharelato em Conservação e Restauro da Escola Superior de
Conservação e Restauro (actualmente integrado na Universidade Nova de Lisboa).
Coordenador de área e docente do Curso de Especialização em Conservação de Pintura
Mural, organizado pelo IPPAR, iniciado em 1999. Autor de trabalhos publicados, entre
outros, sobre as obras de Silva Porto, Nuno Gonçalves, Mário Eloy e Bento Coelho da
Silveira e a utilização da radiografia e de trabalhos a aguardar publicação sobre
Columbano e as cruzes de cobre do MNAA.
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