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Rotinização de Ações Contestatórias e a Construção de Lugares Políticos: O caso do Viaduto do Dia em Aracaju

Authors:

Abstract

Este artigo é resultado de uma dissertação desenvolvida entre os anos de 2015 e 2017 e analisa o uso da ocupação do espaço público enquanto repertório de ação contestatória pelo Coletivo Debaixo, após o ciclo de protestos de 2013. Deste modo, seu objetivo é analisar o processo de construção de um lugar de contestação a partir de uma rotina de ocupação do viaduto do DIA., organizada pelo coletivo acima referido, em Aracaju/SE. As ferramentas metodológicas utilizadas na pesquisa foram a observação direta, a realização de entrevistas semi estruturadas e a catalogação de notícias em jornais eletrônicos e outras mídias sociais. Como resultado, a pesquisa demonstra como a rotinização de um tipo de ação contestatória como a ocupação do espaço público possibilita a emergência e a construção de “lugares políticos”. Palavras-chave: Movimentos sociais. Ocupação. Espaço Público. Ciclos de protestos. Contestação.
Revista TOMO, São Cristóvão, Sergipe, Brasil, n. 35, p. 293-316, jul./dez. 2019.
Recebido em 23/04/2019. Aceito em 16/06/2019
Rotinização de Ações Contestatórias e a
Construção de Lugares Políticos: O caso
do Viaduto do Dia em Aracaju
Jonatha Vasconcelos Santos*1
Resumo
Este artigo é resultado de uma dissertação desenvolvida entre os anos
de 2015 e 2017 e analisa o uso da ocupação do espaço público enquan-
to repertório de ação contestatória pelo Coletivo Debaixo, após o ciclo
de protestos de 2013. Deste modo, seu objetivo é analisar o processo
de construção de um lugar de contestação a partir de uma rotina de
ocupação do viaduto do DIA., organizada pelo coletivo acima referido,
em Aracaju/SE. As ferramentas metodológicas utilizadas na pesquisa
foram a observação direta, a realização de entrevistas semiestrutura-
das e a catalogação de notícias em jornais eletrônicos e outras mídias
sociais. Como resultado, a pesquisa demonstra como a rotinização de
um tipo de ação contestatória como a ocupação do espaço público pos-
sibilita a emergência e a construção de “lugares políticos”.
Palavras-chave: Movimentos sociais. Ocupação. Espaço Público. Ci-
clos de protestos. Contestação.
* Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal
de Sergipe. Email: vasconcelos.jonatha@gmail.com
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ROTINIZAÇÃO DE AÇÕES CONTESTATÓRIAS E A CONSTRUÇÃO DE LUGARES POLÍTICOS
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Rotinization of Contestatory Actions And The
Construction of Political Places: The Case of
“Viaduto do Dia” in Aracaju
Abstract
This article is the result of a dissertation developed between the years
of 2015 and 2017 and analyze the use of the occupation of public space
as a repertoire of contestatory action by the Coletivo Debaixo after the
protest cycle of 2013. Thus, its objective is to investigate the process
of construction of a place of contestation from a routine of occupation
of the “Viaduto do DIA” organized by the aforementioned collective
in Aracaju/SE. The methodological tools used in the research were di-
rect observation, semi-structured interviews and cataloging of news in
electronic newspapers and other social media. As a result, the research
demonstrates how the routinization of a type of contestatory action as
the occupation of public space enables the emergence and construc-
tion of “political places”.
Keywords: Social movements. Occupation. Public place. Cycles of pro-
test. Contestation.
Rotinización de las Acciones Contestatorias y la
Construcción de Lugares Politicos: El Caso Del
“Viaduto do Dia” en Aracaju
Resumen
Este artículo es el resultado de una disertación desarrollada entre los
años 2015 y 2017 y analiza el uso de la ocupación del espacio público
como repertorio de acción contestataria por el Coletivo Debaixo después
del ciclo de protestas de 2013. De ese modo, su objetivo es investigar
el proceso de construcción de un lugar de contestación a partir de una
rutina de contestación de ocupación del “Viaducto do DIA” organizada
por el colectivo arriba mencionado en Aracaju/SE. Las herramientas
metodológicas utilizadas en la investigación fueron la observación di-
recta, la realización de entrevistas semiestructuradas y la catalogación
Jonatha Vasconcelos Santos
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de noticias en periódicos electrónicos y otros medios sociales. Como re-
sultado, la investigación demuestra cómo la rotinización de un tipo de
acción contestataria como la ocupación del espacio público posibilita la
emergencia y la construcción de “lugares políticos”.
Palabras clave: Movimientos sociales. Ocupación. Espacio público. Ci-
clos de protestas. Contestación.
Este artigo tem como objeto a ocupação do espaço público en-
quanto repertório de ação contestatória pelo Coletivo Debaixo
após o ciclo de protestos de 2013. Deste modo, seu objetivo é
analisar o processo de construção de um lugar de contestação
a partir de uma rotina de ocupação do viaduto do DIA, em Ara-
caju, organizada pelo coletivo acima referido. Com base nessa
investigação, o artigo quer problematizar as relações entre os
movimentos sociais e o espaço público.1 De modo mais amplo,
esta pesquisa se insere no campo de estudos sobre as formas de
organização de ações coletivas, a relação entre os movimentos
sociais, os partidos políticos e o Estado, os processos de engaja-
mento militante e as gramáticas políticas elaboradas por movi-
mentos sociais.
O fenômeno das ocupações do espaço público tem sido conside-
rado por um conjunto de autores nacionais e internacionais (Ma-
ricato, 2013; Dechezelles, Olive, 2017; Combes, 2016) enquanto
um ciclo de protestos global, caracterizado pela diversidade de
tipos de contestação do espaço público ou da cidade a partir da
utilização da ocupação enquanto repertório de ação contestató-
ria. O movimento Occupy nos Estados Unidos, os protestos de
2011 na Espanha, também conhecidos como o Movimento 15-M
ou os Indignados, as utilizações das praças no Oriente Médio a
partir dos protestos denominados como “Primavera Árabe”, as
ocupações estudantis nas escolas no Chile e as ocupações de es-
1 Esta pesquisa resultou em uma dissertação sobre as condições de emergência e as
dinâmicas de ação e organização do Coletivo Debaixo (Santos, 2017).
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colas e praças em diversas cidades do Brasil são alguns exem-
plos do uso recente da prática da ocupação enquanto repertório
de contestação.
No Brasil, os usos da ocupação enquanto repertório de ação con-
testatória têm acompanhado um conjunto amplo de variações
de reivindicações, que vão desde as motivações para se ocupar
um espaço ou um prédio, as formas que as ocupações adquirem
na ação de contestação, como uma festa em um largo ou uma
praça, mas também por meio de um ato caracterizado pelo fe-
chamento e bloqueio no uso de uma avenida ou prédio, os locais
ocupados e os atores ou grupos que utilizam este repertório de
ação, até as gramáticas políticas elaboradas pelos movimentos
sociais e coletivos que reivindicam o “direito à cidade”2. A repeti-
ção no uso da ocupação como, por exemplo, nas escolas públicas
ou dos prédios do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, o IPHAN, ambos durante o ano de 2016, aponta para

no país. Neste sentido, o termo ocupação tem adquirido diversos
sentidos para a construção de ações contestatórias.
 
após as manifestações de junho de 2013, conhecidas na cida-
de como o Acorda Aracaju. Assim, em 17 de setembro daquele
ano ocorreu a primeira ocupação do viaduto Jornalista Carva-
lho Déda, mais conhecido como viaduto do DIA (Distrito Indus-
trial de Aracaju), organizada pelo Coletivo Debaixo. O grupo era
composto por jovens, a maioria com inserção na universidade,
com envolvimento e engajamento prévio em partidos políticos,
2 Ainda que haja relação com os conceitos consagrados por Henri Lefebvre (2006) e
David Harvey (2014), a expressão “direito à cidade” é retomada durante o texto enquan-
  



apresentado no artigo, se refere às apropriações adaptadas às situações e localidades.
Jonatha Vasconcelos Santos
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movimentos sociais e coletivos, como também com expressões
artísticas como o punk, o hip-hop ou o rap. Essa ação coletiva
foi denominada de Sarau Debaixo e consistia em uma ocupação

dia 25 de março de 2016 pelo coletivo, por meio de um esclare-
cimento publicado no Facebook.
Os saraus aconteciam toda terceira terça-feira do mês. Começa-
va no início da tarde com a construção do cenário da ocupação:
um “palco” que era demarcado por três microfones e caixas de
som. Lâmpadas eram instaladas para iluminar o viaduto escuro
e uma caixa com giz era colocada para que o público pudesse se
apropriar daquele espaço por meio da escrita no chão ou nas co-
lunas do viaduto. Após isso, o roteiro da ocupação era composto
pela abertura do sarau, que acontecia com um protesto reali-
zado pelos “poetas do sarau” – termo pelo qual são conhecidos
os integrantes do coletivo –, que costumava ser uma encenação
teatral ou uma poesia declamada, cujo tema estava relacionado
com alguma pauta do coletivo ou alguma questão social relati-
va ao período, como a Copa do Mundo de 2014 ou a oposição à
  
grito de ordem do coletivo: “nós na rua, ninguém desata. Após
a abertura do sarau, ocorria o “palco aberto, no qual era possí-
vel que qualquer pessoa presente no viaduto – e normalmente
o público era composto por militantes engajados em partidos
políticos, movimentos sociais e outros coletivos, além de artistas
e simpatizantes da causa – pudesse se apropriar do microfone e
utilizá-lo para protestar, declamar uma poesia, cantar uma mú-
-
venções artísticas já previstas na programação do Sarau. Este
era o modelo de ocupação realizado pelo coletivo e que, segundo
os integrantes, era uma forma de manter as manifestações de
junho de 2013 nas ruas.
As ocupações do espaço público se transformam em uma rotina
de contestação à proporção em que o Coletivo Debaixo passa a
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promover protestos embaixo do viaduto do DIA. Naquele local
         
ocupação do viaduto pela população. A parte debaixo do viadu-
to, onde mais tarde passaria a acontecer o Sarau Debaixo, con-
centrava os grupos mais radicais que ateavam fogo em catracas

-
da Municipal e Polícia Militar) naquele período, segundo meus
interlocutores, foram primordiais para a construção de uma
narrativa de que era necessário disputar o espaço público. Dian-
te de tal cenário, a pesquisa teve como objetivo compreender
  
Coletivo Debaixo.
As ferramentas metodológicas mobilizadas foram a observação
direta das ocupações promovidas pelo coletivo; a realização de
entrevistas semiestruturadas; conversas informais que aconte-
ceram durante as ocupações; o acompanhamento contínuo das

no Facebook; e a catalogação de notícias em jornais eletrônicos.
A observação direta das ocupações promovidas pelo coletivo foi
fundamental para a construção de um diário de campo que pos-
sibilitou registrar como a ocupação, enquanto um repertório de
  
utilizada pelo grupo, quais são os grupos e atores mobilizados
que circulam na ocupação Sarau Debaixo e como o coletivo in-

informais e entrevistas semiestruturadas contribuíram para co-

que integram o coletivo e, além disto, as concepções e gramáti-
cas políticas do grupo. O acompanhamento contínuo da página

perceber os outros espaços de atuação dos atores engajados
e repertórios de ação utilizados, as notas públicas do coletivo
sobre a proibição, a presença de policiais durante os atos de
protesto e o “esclarecimento” publicado no dia 25 de março de
Jonatha Vasconcelos Santos
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
notícias em jornais eletrônicos permitiu perceber como as ocu-
pações do Sarau Debaixo e o Coletivo Debaixo foram veiculados
pelos jornais e como o coletivo estabeleceu uma rede de colabo-
radores com blogs e “ativistas virtuais” que publicavam notícias
sobre a ocupação.
A partir do conjunto de dados coletados demonstro (i) como o
repertório de ação utilizado pelo coletivo constrói uma rotina de
contestação, (ii) o processo pelo qual o Coletivo Debaixo cons-
trói uma narrativa e imagem simbólicas para o viaduto do DIA
enquanto um “lugar político” ou um lugar de contestação, (iii)

Coletivo Debaixo e (iv) o reconhecimento de outros coletivos,
movimentos sociais e partidos políticos de que o viaduto consti-
tui um lugar de contestação e a recorrência de atos de protestos
organizados por outros grupos.
Nesse sentido, o conjunto de elementos ressaltados acima para

público está direcionado à investigação do processo de constru-
ção simbólica do espaço público a partir da realização de mobi-
lizações. Além disso, o artigo se insere em um campo de estudo
pouco explorado na sociologia da ação coletiva que é a análise
dos efeitos de ciclos de protestos, tal como as manifestações de
junho de 2013, no surgimento de novos coletivos, movimentos
sociais, partidos políticos, etc., a construção de novos repertó-
rios de ação coletiva e os usos posteriores dos símbolos de con-
testação dos ciclos de protesto.
“Tirem as mãos da nossa cidade”: a ocupação enquanto
ação política contestatória
O Coletivo Debaixo e a criação de rotina de contestação no viadu-
to por meio dos saraus contribuíram para a emergência de um
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-
ção de um problema, estratégias de resolução e aspectos motiva-
dores da ação – constituído pela noção de uma cidade marcada
pela desigualdade e segregação social e no qual a ocupação do
espaço público é uma forma de disputar a cidade politicamente:
A cidade foi repartida e nós não fomos convidados. Se
repartiu a cidade dentro de uma lógica elitizada e para pou-
cas pessoas. A cidade não é partida para poucas pessoas.
Ela é uma obra usada em favor de poucas pessoas. Então
eu acho que a gente tem o dever de discutir a cidade, de fa-
lar sobre as coisas que acontecem na cidade, de dizer assim
“olha, a gente quer participar da divisão da cidade”. A gente
é quem vive o espaço da cidade, então a gente é quem
tem que falar como usar essa cidade, né? [...]
Ou seja, eles limparam a cidade para fazer uma cidade lim-
pa, o que eles consideram limpa, sabe? E aí a gente tem que
discutir o que é legítimo e o que não é... Mas o que a gen-
te pauta é que as discussões sempre foram tomadas sem
consultar o povo, sabe? Por uma minoria, sabe... Por uma
minoria elitizada que diz “olha, a gente vai utilizar a cidade
dessa forma” e o povo muitas vezes não é convidado a dis-
cutir de que forma a cidade deve ser utilizada 
Entrevista).
O approach teórico dos estudos sobre os enquadramentos inter-
pretativos (Benford, 1997; Benford, Snow, 2000) propõe as no-
ções de enquadramento de diagnóstico e prognóstico enquanto
ferramentas para compreender a construção de narrativas, os
frames3, que buscam detectar os problemas e as formas que os
grupos propõem para resolvê-los. Ainda que tal proposta este-
ja orientada por uma noção estratégica e utilitarista típica das
abordagens norte-americanas sobre a ação coletiva, pretende-
mos mais mobilizar os enquadramentos enquanto narrativas
sobre os problemas, e menos como uma ação estratégica.
3 O termo frame pode ser traduzido enquanto as molduras ou os enquadramentos inter-
pretativos produzidos pelos ativistas ou grupos acerca das pautas que disputam.
Jonatha Vasconcelos Santos
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Em texto sobre os tipos de enquadramento em torno do “direito
à cidade” (Santos, 2018), a articulação entre o arcabouço teó-
rico dos estudos sobre os enquadramentos interpretativos e a
proposta culturalista de Jasper (2016) é desenvolvida a partir da
análise de como o Coletivo Debaixo constrói e difunde um con-
junto de frames utilizando a ferramenta dos fanzines. Os fanzines

pequeno livro redigido à mão e com algumas imagens em cola-

neste artigo, constituíam um espaço fundamental para compreen-
der como o Coletivo Debaixo construiu diversas narrativas sobre
a cidade a partir das experiências individuais dos ativistas.
A concepção de uma “cidade repartida” entre uma “minoria eliti-
zada” e a ausência de participação dos diversos setores da popu-
lação no processo de decisão dos usos da cidade marcam o enqua-
dramento elaborado pelo coletivo sobre a cidade. Essa concepção
é compartilhada por um conjunto de outros integrantes que,
juntamente com o Coletivo Debaixo, inicia processos distintos de
ocupação do espaço público por meio de intervenções culturais.
O Manifesto Político-Cultural foi elaborado de forma coletiva por
“Nós, Coletivos, Grupos, Bandas, Agitadores e Guerrilheiros Cul-
turais” e, entre estes grupos, o Coletivo Debaixo. A leitura do ma-
nifesto ocorreu em dois momentos. Primeiro, na abertura de uma
das edições do Sarau Debaixo realizada em comemoração aos 160
anos de Aracaju. E segundo, na comemoração de 61 anos de um
dos principais teatros da cidade, o Teatro Atheneu. Em ambos os
casos esteve presente a noção de cidade desigual, na qual uma eli-
te decide os processos de divisão dos espaços públicos e dos usos
dedicados a cada um destes espaços, enquanto os setores mais em-
pobrecidos da população experimentam as contradições citadinas.
Nós, que vivemos e realizamos as nossas vidas nas ruas

passamos diariamente. Todos os dias a cidade é planejada
302
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para atender aos interesses dos ricos, dos empresários e
para encher os bolsos que já estão cheios demais. Enquanto
isso, a maior parte da nossa população é empurrada para
fora das decisões. Sendo negado, diariamente, o direito de
participar e decidir sobre o lugar onde vivemos. (Manifesto
Político-Cultural, 2015).
Por um lado, o diagnóstico de uma cidade desigual compõe par-
te do enquadramento elaborado pelo coletivo e, por outro lado,
a ocupação do espaço público emerge como uma solução ao pro-

Então ali era uma disputa política. Primeiro porque a gen-
te não pediu autorização pra ninguém. A gente ocupou. Era
uma ocupação, não era uma festa. [...] Não estava ali para
ganhar dinheiro. Não estava ali para fazer somente uma fes-
ta. Ali era uma atividade cultural. Ali era um processo onde
a gente ia se encontrar. Ali era uma encruzilhada como a
gente chamava, sabe? Era uma encruzilhada. Era dali que as
pessoas iam se encontrar e dali iam surgir novas outras coi-
sas. Então essa é uma disputa política sim porque a todo
o momento é colocado para a gente de uma forma subjetiva
de que nós temos que estar em lugares privados porque é
assim que a gente se sente protegido, é assim que a gente se

Estamos aqui para exigir o que é nosso. [...] Não queremos
dividir a nossa Aracaju, mas queremos retomar as praças,
as ruas, os bairros e transformar em espaços coletivos
de cultura. Não aceitaremos mais sermos expulsos da cida-
de por falta de condições e porque ela não abraça a nossa
arte. Se não existem condições, iremos criar e construir a
partir de agora e diremos a eles: “TIREM AS MÃOS DA NOS-
SA CIDADE!. E nós, existimos para sermos protagonistas
dela. E é assim que faremos: em bando, a partir de agora.
EM DEFESA DA CULTURA. EM DEFESA DA CIDADE. (Ma-
nifesto Político-Cultural, 2015).
Tanto o diagnóstico da “cidade assaltada” ou da “cidade desigual”
quanto a utilização da ocupação enquanto ação contestatória
para a disputa em torno do “direito à cidade” foram fundamen-
Jonatha Vasconcelos Santos
303
TOMO. N. 35 JUL./DEZ. | 2019
tais para a elaboração de um discurso politicamente engajado
-
mente ao Coletivo Debaixo havia movimentos e eventos seme-
lhantes como a Sexta no Beco, o Sintonia Periférica e o Clandesti-
nos em outros locais, no entanto, a politização do tema da cidade
se torna explicitamente central com o Coletivo Debaixo.
A Sexta no Beco teve início em 2009, enquanto eventos que
aconteciam semanalmente no chamado Beco dos Cocos, locali-
zado no centro de Aracaju, que pela manhã e tarde é marcado
pelo uso da população para ter acesso ao centro e pela convivên-
cia com usuários de drogas, e à noite é de uso exclusivo das pros-
titutas e usuários de drogas. Sendo assim, A Sexta no Beco foi
uma tentativa de utilização e revitalização do Beco dos Cocos4.
E o Clandestino acontece desde 2012, a partir da utilização es-
porádica, de diferentes locais da cidade. As ações do Clandestino
possuem uma peculiaridade que é a divulgação da data, horário
e local da ocupação apenas no dia em que ocorre o evento5. O
Sintonia Periférica era realizado embaixo da Ponte Construtor
João Alves, no Bairro Industrial, entre os anos de 2007 e 2008
de forma esporádica, e retoma, em 2014, com um programa de
ações de ocupação do espaço público6. Paralelamente a isso, te-
mos os usos, por exemplo, de grupos com estilos de vida da cena
underground de Aracaju, em praças como a Olímpio Campos e a
Tobias Barreto (ver: Silva, 2011)
Os usos do espaço público como lugares de manifestação não
são uma novidade na cidade de Aracaju, no entanto, é a elabora-
ção de um discurso em torno da disputa da cidade que emerge
enquanto uma mudança na dinâmica dos movimentos e grupos
que ocupam o espaço público. Neste sentido, os relatos de entre-
vistas com integrantes do Coletivo Debaixo, a elaboração de uma
4 Ver notícia: http://www.infonet.com.br/noticias/cultura//ler.asp?id=90860
5 Ver Santana (2017).
6 Ver Pereira (2017).
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narrativa em torno de “Junho de 2013” ter sido uma referência
de possibilidade de “retomada das ruas” e a adoção desta narra-
tiva por outros coletivos e movimentos sociais, como evidencia
o Manifesto Político-Cultural, revelam o fortalecimento da cau-
sa do “direito à cidade” em Aracaju após o ciclo de protestos de
2013 e, principalmente, a emergência do Coletivo Debaixo.
Ocupação do espaço público e construção de lugares de
contestação
[...] ocupar os espaços públicos e retomar os espaços públi-
cos foi um aprendizado também das manifestações de ju-
nho. A gente precisava retomar o espaço, a gente precisava
voltar para as ruas. [...] Toda terceira terça-feira do mês a
-
trevista, integrante do Coletivo Debaixo).
O depoimento de que as manifestações de junho de 2013 deixa-
ram a lição de que é preciso reocupar as ruas emerge em entre-
vista realizada como um dos idealizadores e fundadores do co-
letivo. Durante a pesquisa foi muito comum que os integrantes
-
são do ciclo de protestos de 2013 com o surgimento do coletivo,
como também construíssem uma narrativa de que “os protestos
não podiam acabar em 2013”. Logo, o Coletivo Debaixo e a ocu-
pação do viaduto do DIA seriam uma das formas de manter as
manifestações de 2013 nas ruas para além daquele período em
    
tópico demonstra o processo de construção dessa narrativa de
ocupação e do viaduto do DIA enquanto um espaço de contes-
tação.
Alguns autores (Hmed, 2009; Tilly, 2000; Auyero, 2003, 2005)
têm destacado três fenômenos vinculados à relação entre os
movimentos sociais, protestos e o espaço público. Primeiro, os
aspectos de constrangimento e incentivos de um espaço para
Jonatha Vasconcelos Santos
305
TOMO. N. 35 JUL./DEZ. | 2019
as ações contenciosas. Segundo, as dinâmicas e rotinizações de
protestos em determinados espaços da cidade, aquilo que Auye-
ro (2005) intitula de “espaço das lutas”. E terceiro, as constru-
ções de símbolos políticos como resultado das mobilizações.
Neste sentido, o processo em tela busca articular as duas últi-
mas dimensões: a rotinização e a construção de um símbolo de
contestação.
As noções de bare space, textured space e place de Tilly (2000)

semelhante ao realizado pelo Coletivo Debaixo, de territórios
da cidade. A concepção de bare space se vincula ao espaço onde
ocorrem relações sociais. Em textured space, o espaço-tempo in-

a partir de aspectos de incentivo e constrangimento para as in-
terações. E em place 
a objetos pertencentes em um espaço-tempo. Neste sentido, a
passagem pelas noções citadas acima aproxima, nos estudos dos
movimentos sociais, as ações contestatórias de processos de sig-

Em Aracaju, o ciclo de protestos de 2013 trouxe uma peculia-
ridade na forma como os protestos aconteceram na capital de
Sergipe, que foi a escolha dos locais utilizados como roteiro para
a realização dos protestos. A escolha desses roteiros, denomina-
dos neste trabalho de “caminhos da contestação”, possuía como
inovação local o uso de espaços pouco ou nunca utilizados para
a realização de protestos, atos públicos, manifestações, etc. Os
caminhos que seriam utilizados para as manifestações em junho
de 2013 foram divulgados e debatidos antes de sua realização
através das redes sociais, em especial o Facebook, a partir da
ferramenta de eventos desta rede social. Neste caso, os eventos
constituem um mecanismo do Facebook para a criação de um
acontecimento futuro e que possibilita que sejam feitos convites

determinado “evento. Em parte, além de constituir um meca-
306
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TOMO. N. 35 JUL./DEZ. | 2019
nismo de “agenda virtual”, os eventos também são importantes
espaços de discussão de diferentes atores sobre um aconteci-
mento.
Nesses eventos, as discussões em torno da escolha dos espaços a
serem utilizados traziam argumentos como os impactos da ocu-
pação dessas ruas no trânsito ou no comércio, a facilidade de
acesso ao local, a capacidade do espaço em comportar um gran-
de número de pessoas, o roteiro a ser realizado, etc. Ainda que
a escolha do espaço faça parte das preocupações deste artigo,
outras questões também eram debatidas nesses “eventos” e que
se relacionavam diretamente com dilemas presentes em outras
cidades onde aconteciam os protestos, tais como quais seriam
as pautas a serem reivindicadas, se seria ou não permitida a pre-
sença de partidos políticos e centrais sindicais, se seria ou não
permitido o uso de bandeiras que indicassem a participação de
partidos políticos ou outras organizações e quais seriam as táti-
cas utilizadas em defesa de possíveis agressões policiais.
Foram nesses espaços que tais decisões, inclusive acerca da uti-
lização das ruas e avenidas para as manifestações, eram deba-
tidas. No caso dos roteiros das manifestações, vários roteiros
foram indicados e somente o ponto de concentração obteve

no centro de Aracaju e é considerada, juntamente com outras
praças do centro da cidade, como espaço amplamente utiliza-
do para a manifestação de centrais sindicais, movimentos estu-
dantis e partidos políticos. A praça Fausto Cardoso ainda possui
como diferencial duas variáveis intrigantes. A primeira variável,
-
partamentos do Estado, como a Assembleia Legislativa do Esta-
do de Sergipe, a Câmara de Vereadores de Aracaju e o Tribunal
de Justiça do Estado de Sergipe, sendo assim, é um local sim-
bólico e de uso constante para o diálogo direto entre os grupos
contestadores e o Estado. A segunda variável está relacionada à
 -
Jonatha Vasconcelos Santos
307
TOMO. N. 35 JUL./DEZ. | 2019
sassinato de Fausto Cardoso, notório político e intelectual sergi-
pano, em 1906, após ser baleado no peito enquanto confrontava
tropas do exército que estavam na cidade para conter uma série
de manifestações, evento que passara a ser reconhecido como

Durante as manifestações de 2013, conhecidas na cidade como
Acorda Aracaju, termo pelo qual também eram intitulados os
eventos no Facebook, um acontecimento foi fundamental para
a utilização dos dois caminhos da contestação destacados ante-
riormente. Enquanto os manifestantes se concentravam na pra-
ça, um carro de som reconhecido como um “carro do sindicato
foi utilizado por uma pessoa para indicar quais seriam as ruas
por onde os manifestantes seguiriam em protesto, porém um
conjunto de pessoas começou a vaiar em recusa à ordem dada.
Nesse momento de contestação ao uso do carro de som, na pre-
sença dos sindicatos e partidos políticos, os manifestantes se
dividiram em dois grupos que andaram em posições diferentes:

de um lado os “patrióticos” em direção à avenida 13 de Julho e

destacados por Mische e Alonso (2015)7, em direção à avenida

dos públicos divididos entre esses dois “caminhos”, mas retrata

manifestações a favor do impedimento da ex-presidente Dilma

desses grupos.
O segundo caminho da contestação, da avenida Hermes Fontes,
         
7 As categorias formuladas por Mische e Alonso (2015) resultam de uma análise de per-

categorias constituem, na análise desses autores, um retrato de tal contexto e período
de polarização.
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ROTINIZAÇÃO DE AÇÕES CONTESTATÓRIAS E A CONSTRUÇÃO DE LUGARES POLÍTICOS
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ocupação do espaço público e do viaduto do DIA enquanto um
espaço de contestação. As manifestações que seguiram a aveni-
da Hermes Fontes acabaram com a ocupação massiva do viaduto
do DIA e com o confronto entre um conjunto de manifestantes
inspirados em um padrão de contestação dos “autonomistas” e a
Guarda Municipal de Aracaju. A descrição abaixo, do Movimento
Não Pago8, acerca do caminho utilizado no ato de 02 de julho de
2013, ilustra o roteiro mencionado acima:
A concentração para o ato desta terça-feira ocorrerá a par-
tir das 15h na Praça Fausto Cardoso, sendo o objetivo a re-
vogação do aumento das passagens de ônibus em Aracaju
aprovada pelos vereadores e sancionado pelo prefeito João
Alves Filho (DEM).
O protesto seguirá até a prefeitura, onde será exigida uma
audiência pública com o prefeito João Alves, para que o mes-
mo ouça os anseios da população e esclareça as denúncias
de fraudes no cálculo da tarifa do transporte público.

aula pública sobre as questões do transporte público de
Aracaju e sobre as manifestações que estão ocorrendo em
todo o Brasil nas últimas semanas (Movimento Não Pago,
jornal Ne Notícias, 2013).
O encerramento dos atos no viaduto do DIA por meio da ocupação
massiva na parte inferior e superior do viaduto, inclusive os con-
frontos com a Guarda Municipal, as ações dos manifestantes em
atear fogo em catracas, colchões e outros materiais, como tam-
bém as aulas públicas que aconteceram neste espaço constituem
o primeiro elemento que contribuiu para a construção de uma
narrativa acerca do viaduto enquanto um lugar de contestação.
8 O Movimento Não Pago é um grupo vinculado à causa do transporte público, em espe-
cial, do aumento da tarifa e que é um dos articuladores das manifestações em Junho de
2013 em Aracaju.
Jonatha Vasconcelos Santos
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TOMO. N. 35 JUL./DEZ. | 2019
Paralelamente a essa narrativa do viaduto enquanto lugar de
contestação, o Coletivo Debaixo, a partir da participação dos in-
tegrantes do grupo em outros movimentos sociais, coletivos e
partidos políticos, como também a experiência, principalmente
dos fundadores e idealizadores do coletivo, no movimento de sa-
raus em Salvador com o Sarau Bem Black, construiu a narrativa
da disputa pelo “direito à cidade” enquanto uma causa pública.
Neste sentido, com a experiência no movimento de saraus e a
ideia de que “Junho de 2013 nos deu a lição de que é preciso
reocupar as ruas”, o Coletivo Debaixo sustenta a ideia já difundi-
da de que a disputa pelo “direito à cidade” constitui uma causa
pública e uma forma de disputa política.
A construção dos “lugares de contestação” ocorre, a partir do Sa-

referencial espacial, o viaduto do DIA e (ii) na elaboração de um
-

cada edição do Sarau Debaixo, intervenção dos frequentadores do

-
gens impressas em folha de papel e coladas em muros. Ainda nas
primeiras edições do Sarau Debaixo, o viaduto do DIA já estava
    
um estacionamento não utilizado, em poucos meses, após o início
das ocupações mensais, já tinha adquirido uma outra imagem que
era cenário do Sarau. Neste sentido, era muito comum, em relatos

visuais no viaduto eram uma das maneiras de “fazer o Sarau durar
para sempre” naquele espaço. Para os envolvidos, as frases que
foram inscritas naquele espaço, a agitação das bandas e perfor-
mances, os sons das bandas e poesias, os encontros entre um cir-
cuito de militantes e movimentos sociais e as imagens coladas se
transformavam em memórias. E como memórias, se transforma-

espaço público e a reivindicação do “direito à cidade”.
310
ROTINIZAÇÃO DE AÇÕES CONTESTATÓRIAS E A CONSTRUÇÃO DE LUGARES POLÍTICOS
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No segundo caso, e talvez o ponto fundamental desse processo

DIA enquanto um símbolo de contestação em Aracaju. As ocupa-
ções que ocorreram no viaduto entre os anos de 2013 e 2016, ao
menos com a organização do Coletivo Debaixo, construíram uma
rotina de uso do espaço e que culminou na criação desse símbo-
lo. A partir disso, outros coletivos e movimentos sociais, inclusi-

Debaixo, passaram a utilizar o viaduto do DIA para a realização
de atos de protesto ou de outros saraus. Alguns exemplos desses
novos usos foram o Festival da Legalização Combatendo o Cân-
cer da Proibição, organizado pelo Coletivo Marcha da Maconha,

em maio de 2015; o ato contra a redução da maioridade penal
organizado pela Assembleia de Nacional de Estudantes-Livres
(ANEL), em junho de 2015; o ato contra Eduardo Cunha e pela
vida das mulheres organizado pelo Coletivo de Mulheres de Ara-
caju, em novembro de 2015; o ato contra o processo de impe-
 -

da II Semana de Visibilidade Trans “Sarau Trans” pelo Coletivo
de Mulheres de Aracaju e o Amosertrans, em janeiro de 2016;
o 1º baile das bruxas organizado pelo Coletivo de Mulheres de
Aracaju e a Frente Sergipana Brasil Popular, em maio de 2016;
o dia nacional de greve, organizado pela Frente Brasil Popular,
em novembro de 2016; o 2º baile das bruxas, pelo Coletivo de
Mulheres Contra Temer, em novembro de 2016; e o Passagem de
Som, organizado pelo Coletivo Ensaio Aberto, em dezembro de
2016. Além destes, ocorreram em 2017, a Batalha do Cangaço,
um evento ligado aos grupos de hip-hop; e o protesto intitulado
#EleNão contra a candidatura de Jair Bolsonaro à presidência

Sendo assim, dois elementos contribuíram para a construção
daquele espaço como “lugar político” a partir da rotinização de
um tipo de ação contestatória: os saraus realizados mensalmen-
Jonatha Vasconcelos Santos
311
TOMO. N. 35 JUL./DEZ. | 2019
-
paço, que passa a ser reconhecido por parte de outros grupos,
movimentos sociais e partidos políticos como um espaço de re-
ferência contestatória.
Conclusão

entre os movimentos sociais e o espaço público com base na aná-
lise dos repertórios de ação mobilizados pelo Coletivo Debaixo
entre os anos de 2013 e 2016 na cidade de Aracaju. Com base
nisso, demonstramos o processo da i) emergência de um novo
local de contestação, o viaduto do DIA, em Aracaju; ii) a constru-
ção de uma narrativa da ocupação do espaço público enquanto
modelo de ação contestatório para a reivindicação do “direito à
cidade”; iii) os usos do viaduto a partir do evento mensal Sarau
Debaixo; e iv) a construção do viaduto enquanto um símbolo de
contestação que passaria a ser utilizado por outros movimentos
sociais, coletivos e partidos políticos para a reivindicação de di-
versas causas sociais.
As análises sobre o ciclo de protestos de 2013, no Brasil, foram
marcadas por uma tentativa de compreender quais as mudan-
ças na dinâmica das ações contestatórias; nas relações entre os
movimentos sociais e os partidos políticos; nos usos do espaço
público pelos grupos; nas estratégias de segurança elaboradas
pelo Estado para a contenção das manifestações; e nas mobiliza-
ções da violência por grupos e coletivos (Alonso, Mische, 2017;
Dowbor, Szwako, 2013; Gohn, 2014; Scherer-Warren, 2014; Ma-
ricato, 2013; Silva, 2014; Tatagiba, 2014).
No caso do Coletivo Debaixo, não é possível falar exatamente em
um grupo que emerge após o ciclo de protesto de 2013, o que
ocorre com outros grupos, mas que utilizaram as manifestações
ocorridas naquele ano enquanto um evento-referencial para suas
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ações. Deste modo, é mais importante compreender o sentido que
“Junho de 2013” é compartilhado entre o coletivo - e como isto
possibilitou a criação de um grupo e uma experiência de contesta-
ção que durou três anos - do que calcular o impacto de “Junho de
2013” para a efetiva emergência e criação do coletivo.
O ciclo de protestos de 2013 e os usos das ruas durante as ma-
nifestações, os confrontos diretos entre a Guarda Municipal, a
Polícia Militar e os manifestantes no bloqueio do viaduto do DIA,
além do engajamento anterior de parte dos integrantes do co-
letivo no debate sobre a mobilidade urbana e a cidade, foram
fundamentais para a emergência do Coletivo Debaixo e para a
prática da ocupação enquanto um repertório de ação do grupo.
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por meio da organização e realização mensal do Sarau Debaixo
foi fundamental para transformar o viaduto do DIA em um sím-
bolo de resistência entre os diversos movimentos sociais, cole-
tivos e partidos políticos de Aracaju. Nesse sentido, o estudo so-
bre a ocupação como repertório de contestação contribui para o
fomento acerca de alguns pontos importantes no campo de pes-
quisa da ação coletiva e mobilizações na contemporaneidade.
As ocupações culturais do espaço público e a reivindicação do
“direito à cidade” constituem um desencadeamento do ciclo de
protestos em 2013 ocorrido no Brasil. Um ciclo de protestos é
caracterizado pela emergência de formas de mobilização produ-
tos de processos de inovação, imitação e/ou retomada de tipos
de ação contestatória, e as ocupações se localizam entre esses
processos de apropriações e inventividades de modelos de ação
contestatória em nível local. De modo mais amplo, o estudo das
ocupações em Sergipe também é fundamental para a compre-
ensão do processo de adaptação local de um ciclo mais amplo
de protestos caracterizados pela ocupação no Brasil e que, em
última instância, como demonstram alguns autores (Maricato,
2013; Dechezelles, Olive, 2017; Combes, 2016), constitui um es-
tilo de ativismo contemporâneo.
Jonatha Vasconcelos Santos
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A relação entre movimentos sociais e o espaço público tem sido
negligenciada nos estudos sobre a ação coletiva (Auyero, 2005),
adquirindo relevância somente quando o objeto de pesquisa
consiste em um tipo de movimento que reivindica a cidade como
as ocupações culturais ou de moradia. O fortalecimento de no-
vos estilos de ativismo, como os “autonomistas” e “patrióticos”
(Alonso, Mische, 2017), tem chamado atenção dos pesquisado-

espaços para além daqueles já mobilizados pelos movimentos
sociais tradicionais. O uso do viaduto do DIA, local antes nunca
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sociais e a criação de novos espaços políticos em Aracaju.
Para finalizar, mais um episódio recente demonstra a vita-
lidade dos significados atribuídos ao viaduto durante, pelo
menos, quatro anos de Sarau Debaixo e outras formas de con-
testação realizadas. No último dia 30 de maio, novas ondas
de protestos conhecidas como 30M ou Tsunami da Educação
ocuparam as ruas, e em Aracaju o viaduto do DIA voltou a
ser utilizado por movimentos sociais que saíram do centro
da cidade até a parte inferior do viaduto. Ainda que não seja
possível afirmar que esse “espaço de contestação” estará de
forma permanente na memória dos ativistas, é certo que para
o ativismo o espaço já não é simplesmente um viaduto com
um estacionamento vazio.
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Article
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O presente texto visa a analisar em que medida as manifestações de rua de 2013 no nosso país se diferenciam organizacional e politicamente das grandes manifestações do século XX e como se deu a relação entre movimentos sociais organizados e manifestações nos dois momentos históricos. Tendo em vista a grande quantidade de pautas nas manifestações recentes, que vão do desejo de transformações nos sistemas social, cultural e político a demandas por institucionalização de novos direitos humanos e por políticas públicas mais ampliadas, foram analisados os compartilhamentos e as articulações que produziram alguma unidade ou identificação na política. Concluiu-se que os protestos em relação ao campo institucional da política e às carências no campo dos direitos humanos foram relevantes para uma subjetivação que explicasse a presença compartilhada nas ruas de atores sociais com orientações políticas diversas.
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This article analyses the June 2013 wave of political protests in Brazil, highlighting student movement participation. We make three arguments. First, this was not a single student movement, but a cycle of protest, consisting of many different actors, issues, and forms of demonstration. Second, protesters built what we call hybrid performances, drawing on three repertoires of contention: socialist, autonomist and patriotic. Third, the protests presented a strong rejection of political parties, problematising the relationship between social movements, political parties, and institutional politics.
Article
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http://dx.doi.org/10.5007/2175-7984.2014v13n28p35 Esse ensaio analisa o ciclo de protestos contra o aumento da tarifa do transporte público em 2013 a partir da comparação com dois outros ciclos de protestos de nossa história recente: as Diretas Já, em 1984, e o Fora Collor, em 1992. O objetivo é explorar a forma que a mobilização assumiu, o seu como, a partir de três eixos de comparação: a construção simbólica dos protestos, a infraestrutura de mobilização e as performances confrontacionais. A análise busca responder a duas questões centrais: quais as inovações e continuidades dos protestos de 2013, em relação às campanhas de 1992 e 1984? E o que essas diferenças nos revelam sobre os avanços e os desafios da democracia brasileira hoje?
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The text considers the dramaturgical metaphors and the theatrical realities called on upon by the Free Fare Movement (MPL) and by the World Cup's Popular Committees (cpc). Leaning on the analytical categories of a theatrical sociology, it focuses on the events prior to the eruption of street protests in June 2013 in Brazil. The analysis highlights the drama of violence, the high dose of contingency of social movements performances.
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In the last decade the framing perspective has gained increasing popularity among social movement researchers and theorists. Surprisingly, there has been no critical assessment of this growing body of literature. Though the perspective has made significant contributions to the movements literature, it suffers from several shortcomings. These include neglect of systematic empirical studies, descriptive bias, static tendencies, reification, reductionism, elite bias, and monolithic tendencies. In addition to a critique of extant movement framing literature, I offer several remedies and illustrate them with recent work. The articles by Francesca Polletta, John H. Evans, Sharon Erickson Nepstad, and Ira Silver in this special section address several of the concerns raised in this critique and, in so doing, contribute to the integration of structural and cultural approaches to social movements.
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The recent proliferation of scholarship on collective action frames and framing processes in relation to social movements indicates that framing processes have come to be regarded, alongside resource mobilization and political opportunity processes, as a central dynamic in understanding the character and course of social movements. This review examines the analytic utility of the framing literature for understanding social movement dynamics. We first review how collective action frames have been conceptualized, including their characteristic and variable features. We then examine the literature related to framing dynamics and processes. Next we review the literature regarding various contextual factors that constrain and facilitate framing processes. We conclude with an elaboration of the consequences of framing processes for other movement processes and outcomes. We seek throughout to provide clarification of the linkages between framing concepts/processes and other conceptual and theoretical formulations relevant to social movements, such as schemas and ideology.
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Ce chapitre étudie la relation entre espace physique et mouvements sociaux. L'espace est considéré à la fois comme cadre, ressource et enjeu de l'action collective. Une large bibliographie est analysée oui
Article
L’article s’intéresse aux occupations de lieux, qu’il s’efforce de réinscrire dans l’historicité idéologique des modes d’action contestataires, dans la variabilité des significations que leur attribuent les individus et les collectifs – eux-mêmes hétérogènes – qui s’y engagent, et surtout dans la matérialité des pratiques qui s’y déploient. Croisée à l’examen des trajectoires sociales des acteurs, l’attention ethnographique portée aux gestes accomplis dans le quotidien réinventé des lieux occupés permet de mettre à nu l’importance des mécanismes de déclassement social, d’expérience de la marge ou d’exposition à la violence dans la compréhension des processus d’entrée en occupation, particulièrement pour les acteurs sans passé militant. En permettant la reconversion d’une expérience intime de la souffrance et de l’injustice en ressource militante, l’engagement dans un régime d’action occupationnel, à la fois radical et familier, offre un espace de reconnaissance collective où s’explorent les voies d’une citoyenneté vécue comme accomplie, car indexée à un agir politique.
Article
This article examines the spatial dimensions of a highly singular riot in contemporary Argentina: the episode that came to be known as the Santiagazo. On 16 December 1993, thousands of public employees sacked, burned, and looted three government buildings (the Government House, the Courthouse, and the Legislature) and the private residences of nearly a dozen local politicians and officials in the city of Santiago del Estero. Based on in-depth interviews and archival research, this article examines how both physical and symbolic space structures (i.e., constrains and facilitates) protest, paying particular attention to the construction of the riot's itinerary, to the selection of the crowd's targets, and to the geography of policing. It also explores how protest structures space-both physical and symbolic-focusing on the specific creative actions of the protesters during that day, on their experiences, and on the meanings with which they later came to imbue the looting.
Introduction: Quand l'espace compte… spatialiser l'analyse des mobilisations. Les lieux de la colère: Occuper l'espace pour contester
  • Hélène Combes
  • David Garibay
  • Camille Goirand
Combes, Hélène.; Garibay, David.; Goirand, Camille. Introduction: Quand l'espace compte… spatialiser l'analyse des mobilisations. Les lieux de la colère: Occuper l'espace pour contester, de Madrid à Sanaa. Paris: Karthala, 2016, p. 9-36.