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Abstract

O debate sobre a diversidade cultural tem sido um dos principais temas de discussão no âmbito da educação. A Lei 11.645/2008 estabelece nas diretrizes e bases da educação nacional a inclusão, no currículo oficial da rede de ensino, da obrigatoriedade da temática “História e cultura afro-brasileira e indígena”. Isso implica a necessidade de abordar a temática em questão no ensino e no currículo da educação básica, que abrange o ensino fundamental e médio. Nesse sentido, o presente estudo busca refletir sobre a importância da educação na perspectiva intercultural diante da presença dos diferentes povos, grupos sociais e culturas no contexto escolar. Diante disso, somos desafiados a pensar o quanto é importante que os processos educativos trabalhem na perspectiva de valorizar esses grupos sociais, seus diferentes costumes e seu modo próprio de ser e estar no mundo. Partindo dessa premissa e buscando contemplar também a lei supracitada, propomos possibilidades de trabalhar conteúdos que valorizem a cultura indígena e a realidade dos educandos.
Submetido em: 19 jun. 2018
Aceito em: 12 nov. 2018
Artigo Original
e-ISSN 1809-2667
DOI: 10.19180/1809-2667.v21n12019p18-27
18 VÉRTICES, Campos dos Goytacazes/RJ, v.21, n.1, p. 18-27, jan./abr. 2019
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Os usuários
têm permissão para copiar e redistribuir os trabalhos por qualquer meio
ou formato, e também para, tendo como base o seu conteúdo, reutilizar, transformar
ou criar, com propósitos legais, até comerciais, desde que citada a fonte.
Resumo
O debate sobre a diversidade cultural tem
sido um dos principais temas de discussão
no âmbito da educação. A Lei 11.645/2008
estabelece nas diretrizes e bases da educação
nacional a inclusão, no currículo o cial
da rede de ensino, da obrigatoriedade da
temática “História e cultura afro-brasileira
e indígena”. Isso implica a necessidade de
abordar a temática em questão no ensino
e no currículo da educação básica, que
abrange o ensino fundamental e médio.
Nesse sentido, o presente estudo busca
re etir sobre a importância da educação
na perspectiva intercultural diante da
presença dos diferentes povos, grupos
sociais e culturas no contexto escolar.
Diante disso, somos desa ados a pensar
o quanto é importante que os processos
educativos trabalhem na perspectiva
de valorizar esses grupos sociais, seus
diferentes costumes e seu modo próprio
de ser e estar no mundo. Partindo dessa
premissa e buscando contemplar também
a lei supracitada, propomos possibilidades
de trabalhar conteúdos que valorizem
a cultura indígena e a realidade dos
educandos.
Palavras-chave: Interculturalidade.
Educação. Educação Indígena.
Abstract
e debate on cultural diversity has been
one of the main topics of discussion in
the  eld of education. Law 11.645 / 2008
establishes as mandatory the inclusion of
the theme Afro-Brazilian and indigenous
history and culture” in the National
Education Guidelines Law of 1996(LDB
9394 / 96) and in the o cial curriculum of
the educational network. is implies the
need to address the issue in the teaching
and curriculum of basic education, which
covers elementary and secondary education.
In this sense, the present study seeks to
re ect on the importance of education in
the intercultural perspective, facing the
presence of di erent peoples, social groups
and cultures in the school context. Faced
with this, we are challenged to think how
important it is that educational processes
work in the perspective of valuing these
social groups, their di erent customs
and their ways of being in the world.
Starting o this premise, and seeking to
contemplate also the aforementioned
law, we propose possibilities of working
contents that value the indigenous culture
and the reality of the students.
Keywords: Interculturality. Education.
Indigenous Education.
Resumen
El debate sobre la diversidad cultural ha sido
uno de los principales temas de discusión en
el ámbito de la educación. La Ley 11.645
/ 2008 establece la obligatoriedad de la
inclusión de la temática “Historia y cultura
afro-brasileña e indígena” en las directrices y
bases de la educación nacional, así como en
el currículo o cial de la red de enseñanza.
Esto implica la necesidad de abordar la
temática en cuestión en la enseñanza y en el
currículo de la educación básica, que abarca
la enseñanza fundamental y media. En este
sentido, el presente estudio busca re exionar
sobre la importancia de la educación en
la perspectiva intercultural, frente a la
presencia de los diferentes pueblos, grupos
sociales y culturas en el contexto escolar.
Frente a ello, se nos desafía a pensar lo
importante que los procesos educativos
trabajen en la perspectiva de valorar estos
grupos sociales, sus diferentes costumbres
y el modo de ser y estar en el mundo.
A partir de esa premisa, y buscando
contemplar también la ley arriba citada,
proponemos posibilidades de trabajar
contenidos que valoran la cultura indígena
y la realidad de los educandos.
Palabras clave: Interculturalidad.
Educación. Educación Indígena.
Interculturalidade e Educação: abordando a Temática Indígena na Educação
Básica
Interculturality and Education: addressing Indigenous Themes in Basic Education
Interculturalidad y Educación: abordando la Temática Indígena en la Educación
Básica
Regina Lima Andrade Gonçallo https://orcid.org/0000-0002-2422-4880
Técnica em Assuntos Educacionais da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Mestre em Educação pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro – Uberaba/MG
– Brasil. E-mail: reginaysabella@gmail.com.
Danilo Seithi Kato
ysa
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https://orcid.org/0000-0003-3065-6812
Doutor em Educação Escolar pela Faculdade de Ciências e Letras da UNESP. Docente da Unive rsidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) – Uberaba/MG – Brasil. E-mail:
katosdan@gmail.com.
Daniel Bovolenta Ovigli https://orcid.org/0000-0002-4057-547X
Doutor em Educação pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp/Bauru). Professor da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) – Uberaba/
MG – Brasil. E-mail: daniel.ovigli@uftm.edu.br.
Elia Cristina Alves dos Santos
Técnica em Assuntos Educacionais no Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM). Cursa Mestrado Pro ssional em Educação Tecnológica do Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia do Triângulo Mineiro – Uberaba/MG – Brasil. E-mail: eliacristinaalves@hotmail.com.
Interculturalidade e Educação: abordando a Temática Indígena na Educação Básica
Regina Lima Andrade Gonçallo, Danilo Seithi Kato, Daniel Bovolenta Ovigli, Elia Cristina Alves dos Santos
19 VÉRTICES, Campos dos Goytacazes/RJ, v.21, n.1, p. 18-27, jan./abr. 2019
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Artigo Original
e-ISSN 1809-2667
DOI: 10.19180/1809-2667.v21n12019p18-27
1 Introdução
Nas últimas décadas surgiram tendências e estudos que buscaram superar, ainda que parcialmente, a visão excludente
da sociedade para com as diferentes culturas existentes. Hoje, um dos maiores desa os da educação escolar é trabalhar o
encontro de culturas e identidades distintas em um mesmo contexto. Essa luta tem revelado novas metodologias de ensino
que valorizam a pluralidade cultural que marca a sociedade brasileira.
Nesse sentido, a educação intercultural vem à tona, uma vez que apresenta como objetivo incluir “os diferentes
e as diferenças”, valorizando a identidade de cada grupo social (LAMAR, 2014, p. 53). A perspectiva intercultural
valoriza uma educação para o conhecimento do outro e o diálogo entre os diferentes grupos sociais e culturais. Candau
(2011, p. 52) explica que "Uma educação para a negociação cultural, que enfrenta os conflitos provocados pela
assimetria de poder entre os diferentes grupos sócio culturais nas nossas sociedades e é capaz de favorecer a construção
de um projeto comum, pelo qual as diferenças sejam dialeticamente integradas."
Portanto, entendemos que trabalhar a interculturalidade na escola favorece o combate à discriminação, estimula o respeito
pelas diferentes culturas e ajuda a promover a integração entre elas, produzindo novos sentidos e ampliando o conhecimento.
A educação escolar indígena faz parte da visão da educação intercultural, que deve ter como princípio a conscientização
e participação de todos os envolvidos nos processos de decisão referentes à educação de seu grupo social. Dessa maneira, cada
grupo se organiza como seres culturais de acordo com seus saberes e diferenciais de vida.
Para Grupioni (2006), antes da Constituição de 1988 a relação entre o Estado e os povos indígenas era marcada
pela proposta de integração, tendo como objetivo integrar o índio à comunhão nacional, porém, após a Constituão,
o índio passa a ter direitos e deveres como qualquer outro cidadão brasileiro. Quase cinco séculos depois de uma
política integracionista de intolerância à diversidade étnica, social e cultural, as sociedades indígenas passam a usufruir
o direito de ter suas manifestações culturais protegidas e respeitadas.
Consideramos que neste quesito a Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) é um avanço em relação às
constituições anteriores, pois assegura o respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais, bem como a utilização
da língua materna e dos processos próprios de aprendizagem da comunidade indígena. No artigo nº 231 da Carta Magna,
os indígenas são reconhecidos em sua organização social, nos seus costumes, nas suas línguas maternas, nas suas crenças, nas
suas tradições e nos seus direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (LDBEN 9394/96), caminha
no mesmo sentido que a CF/1998 e preconiza:
Art. 78. O sistema de ensino da União, com a colaboração das agências federais de fomento à cultura e de assistência aos
índios, desenvolverá programas integrados de ensino e pesquisa para a oferta de educação escolar bilíngue e intercultural
aos povos indígenas, com os seguintes objetivos:
I – Proporcionar aos índios, suas comunidades e povos, a recuperação de suas memórias históricas; a rea rmação de suas
identidades étnicas; a valorização de suas línguas e ciências;
II –Garantir aos índios, suas comunidades e povos o acesso às informações, conhecimentos técnicos e cientí cos da
sociedade nacional e demais sociedades indígenas e não-indígenas (BRASIL, 1996).
Com isso, “(…) entende-se por educação indígena os processos educativos próprios da sociedade indígena que incluem pedagogias,
maneiras, métodos e regras especí cas de ensino e aprendizagem, os quais orientam a vida desta sociedade” (NDILI, 2014, p. 123).
Nesse sentido, os homens devem sentir-se sujeitos do seu pensar, discutindo “sua própria visão de mundo,
manifestada implícita ou explicitamente, nas suas sugestões e nas de seus companheiros” (FREIRE, 2005, p. 166). Assim,
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a educação que envolve ações humanas em uma vivência social e política não pode se constituir de vantagens individuais
a grupos restritos que geram misérias humanas para determinados grupos sociais.
Tão importante quanto garantir ao indígena o direito a uma educação que respeite suas diferenças é divulgar sua
cultura ao maior número de pessoas. Com o objetivo de disseminar a cultura indígena, foi promulgada a Lei nº 11.645,
que insere no currículo o cial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira, e
inclui no conteúdo programático da educação básica, diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a
formação da população brasileira, a partir dos dois grupos étnicos: africano e indígena.
A referida lei enfatiza o estudo dos povos indígenas no Brasil e da cultura na formação da sociedade nacional, buscando resgatar
suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil, e tem como objetivo valorizar grupos étnicos
dos negros e indígenas, demonstrando aos estudantes quanto esses povos contribuíram para a formação da sociedade brasileira.
A implementação desta lei apresenta ao sistema educacional rios desa os, como a produção de conhecimentos
sobre a resistência indígena no contato com os brancos, a disseminação da cultura indígena, além da criação de uma
política de formação continuada para capacitar os professores a trabalharem com tal temática.
Apesar dos entraves e resistências, essa lei traz à tona uma série de questões que antes eram silenciadas ou simplesmente
ignoradas pela comunidade escolar e que são de grande importância para que haja realmente um reconhecimento da
pluralidade da sociedade brasileira que é formada por diferentes histórias e culturas.
Refletir o espaço escolar como um ambiente preenchido por sujeitos com identidades culturais diversas, nos
leva a pensar no trabalho do professor como um mediador das relações de ensino-aprendizagem, que tem por dever
ensinar aos alunos que a não brasileira é pluriétnica, e nenhum grupo ou povo é superior ao outro, reforçando a
noção de heterogeneidade cultural, diferença e respeito.
Pensando nessas questões e veri cando a escassez de literatura referente à inserção da questão indígena na escola, este
estudo propõe criar possibilidades de trabalhar esse conteúdo em Linguagens e Códigos e Ciências da Natureza, na escola
regular, partindo da realidade dos educandos, para integrar o cotidiano e a ciência em uma perspectiva intercultural.
2 Encaminhamentos metodológicos
Os encaminhamentos metodológicos compreendem contextualização da temática a partir da análise de telas de
Victor Meirelles e Jean Baptiste Debret e da poesia de Oswald de Andrade, que ajudam na compreensão da realidade dos
povos indígenas no momento da colonização e se con guram como elementos que podem ser utilizados na educação básica.
Essa contextualização visa retratar o indígena no início da colonização e os processos de desvalorização que sua cultura
sofreu. Após conhecer melhor quem foi e quem são os indígenas na atualidade, focalizaremos na questão da saúde indígena,
que tem sofrido grandes alterações desde o contato com o homem branco. Finalizaremos com subsídios para uma sequência
didática que valorize o conhecimento e a preservação das ervas medicinais utilizadas pelos povos indígenas.
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3 Desenvolvimento da temática
Figura 1. A primeira missa no Brasil (1891), de Victor Meirelles
Fonte: Disponível em: https://www.infoescola.com/historia/primeira-missa-no-brasil/. Acesso em: 22 maio 2016.
A pintura do século XIX teve grande relevância na construção do imaginário do povo brasileiro ao representar a
realidade da fundação da nação, os artistas ajudaram no registro da formação da identidade brasileira.
A imagem emblemática de Meirelles até hoje faz parte do imaginário nacional brasileiro, como uma representação real da
primeira missa no Brasil. Nessa pintura não se encontra apenas um país católico, divino por natureza, mas também uma colonização
harmônica onde portugueses e índios vivem em paz, e a mistura das raças é pací ca, sem violência física ou moral, apelando ainda
para a fé. Desta forma, o Brasil era, acima de tudo, homogêneo, coeso, grandioso, católico e harmônico (PRESTES, 2011).
Ao observar a pintura percebe-se que a imagem construída é de um encontro harmônico, mostrando uma interação
entre os europeus e nativos. Na imagem, a natureza é exuberante e bela, o azul do céu e do mar ao fundo harmoniza como o
verde das folhas das árvores. No altar, o padre realiza a missa com soldados da coroa portuguesa assistindo ao ritual católico,
os índios se aproximando, curiosos e admirados. Crianças aconchegadas no colo da mãe se nutrindo do sagrado leite materno.
O padre ao alto está representando a religião católica, e todos os presentes aparentam compartilhar da mesma ideia e mesma
crença, como se não houvesse outras religiões, outras maneiras de ver, ser, pensar e viver no mundo.
O altar, que é mais elevado em relação a tudo aquilo que o rodeia, simboliza a igreja acima do povo. O padre, representando
a religião católica e a cultura europeia, está de costas para os povos nativos simbolizando o descaso com outras culturas. Nesse
contexto, a pintura de Meirelles é uma construção de sobreposição da cultura europeia em detrimento da cultura dos nativos.
Portanto, no que se refere à criação histórica da identidade nacional, as pessoas “participam da ideia da nação tal como
representada em sua cultura nacional (HALL, 2004, p. 49) e, nesse caso, consideram uma cultura melhor do que a outra.
É possível observar em diversos gêneros de texto a construção da supremacia europeia em relação aos povos nativos do
Brasil, mas por meio de uma leitura crítica pode-se levar o aluno a compreender e questionar os enunciados e as ideologias
impostas, “(...) opondo-se a palavra do locutor com uma contra palavra” (BAKHTIN, 1992, p. 136).
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Nessa perspectiva, temos o poema intitulado Erro de Português de Oswald de Andrade (ANDRADE, 1978, p. 177):
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português
O título do poema se refere à dominação dos portugueses, que pode ser interpretada como um erro cometido pelo
português, o de vestir o índio com sua cultura, religião e preceitos. No trecho em que cita “… se fosse uma manhã de sol o índio
tinha despido o português.”, subentende-se que se o portuguêso tivesse a visão in uenciada pela ganância, perceberia que, se foi
ele o estrangeiro que chegou a um ambiente onde já existia habitantes, era ele que devia despir-se de seus valores e unir-se a eles.
Os portugueses, quando invadiram as terras, acreditaram terem chegado às Índias, o que levou os habitantes das terras a
receberem a denominação de índios. A população ameríndia era bastante homogênea em termos culturais e linguísticos (FAUSTO,
1995), mas ao longo da história o termo índio passou a ser pronunciado de maneira genérica, dando a impressão de que todo povo
indígena compartilha da mesma cultura. É preciso rea rmar que existem etnias distintas e cada uma apresenta seus valores culturais.
Analisando o poema, nota-se uma antítese nos verbos vestir/despir. Essa  gura de linguagem “consiste em colocar
lado a lado ideias opostas”. Os verbos vestir/despir representam duas culturas distintas. A imposição da cultura portuguesa
está evidenciada na expressão “o português vestiu o índio”. Nesse sentido, os invasores tornam-se também opressores,
impondo a sua maneira de vestir, a religião, a língua, en m, a cultura portuguesa.
Na frase “Que pena” temos uma ambiguidade. Dita com admiração pode ser relacionada à cultura dos nativos, que
utilizavam penas de aves em seus adornos. Ao mesmo tempo, a mesma expressão, “Que pena”, pode expressar lamento,
tristeza e sofrimento, pois os nativos foram violentados em relação a sua maneira de ser e viver.
De acordo com o eu lírico, a história poderia ter sido diferente se o índio tivesse despido o português, isto é,
se o português tivesse sido inserido na cultura dos nativos. A expressão “manhã de sol” pode ser representada como
o encontro harmônico que poderia ter acontecido entre nativos e portugueses. O sol nesse contexto simboliza a
possibilidade de uma convivência menos conflituosa e mais amigável.
Apesar de a poesia expressar a possibilidade de uma convivência amigável entre nativos e portugueses, temos inúmeros
exemplos que mostram a condição de oprimidos dos indígenas, como é o caso da imagem de Jean Baptiste Debret (Figura 2).
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Figura 2. Soldados da província de Curitiba escoltando selvagens (1834)
Fonte: Disponível em: http://portaldoprofessor.mec.gov.br/ chaTecnicaAula.html?aula=55051. Acesso em: 22 maio 2018.
A imagem mostra duas mulheres indígenas acorrentadas e quatro crianças abraçadas a elas. Essas mulheres e
crianças estão sendo conduzidas em  la indiana por três homens armados. As correntes são a representação da escravidão
e da opressão que ocorreu em diversos lugares. A la indiana representa a maneira de guiar e de controlar o caminho
que deveser percorrido e as armas representam uma forma de coagir.
Considerando as possibilidades didáticas de trabalho com a temática indígena na educação básica e defendendo a tese
que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar possibilidades para a sua produção ou a sua construção” (FREIRE,
2005, p. 22), a educação só fará sentido se formar seres pensantes, visando melhorar a qualidade de vida das pessoas.
Nesse sentido, é possível discutir com os alunos a dualidade que se instalou entre os oprimidos:entre se
alienarem ou se manterem alienados. (...) entre dizer a palavra e não terem voz, castrados no seu poder de criar e recriar
e transformar o mundo” (FREIRE, 2005, p. 48).
O trabalho fundamentado na interpretação crítica de vários gêneros textuais evita que os textos sejam lidos na
super cialidade. Trabalhar com imagens e poemas possibilita ao aluno re etir e adquirir uma postura crítica diante da história
que nos é (re) contada sobre a construção da sociedade brasileira. Nessa perspectiva, intencionou-se que a análise apresentada
subsidie uma sequência didática que tenha como objetivo trabalhar a cultura indígena nas disciplinas de linguagem, a partir
de uma abordagem intercultural e crítica dos primeiros contatos dos indígenas com os portugueses.
4 Saúde e povos indígenas
De acordo com Ferreira (2007), a medicina tradicional indígena guarda os conhecimentos e as práticas indígenas
de prevenção, promoção e recuperação da saúde dos grupos indígenas. Os sistemas de saúde indígenas são mais holistas
e podem ser caracterizados como sistemas xamânicos, nos quais doença e saúde fazem parte de um sistema cosmológico,
e os fatores físicos, sociais e espirituais interagem no processo de saúde/doença e cura.
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Essas peculiaridades resultam num sistema de saúde baseado em princípios epistemológicos bastante diversos da biomedicina
(LANGDON, 1999), porém é preciso ter em mente que as diferenças no modo de o índio tratar sua saúde são legítimas e fazem
parte de um sistema cultural que não pode ser visto como superstição ou fragmentos de um pensamento menos evoluído.
a biomedicina possui outras formas de tratar as doenças, que não devem ser consideradas de maior ou menor
valor, apenas diferentes. É também um sistema cultural e não uma única ciência da verdade. É um sistema de conhecimento
baseado na observação. O enfoque principal dela em seu sensu stricto é a biologia humana, no qual a doença é um processo
biológico universal e a visão do corpo é basicamente mecânica e cartesiana (LANGDON, 1999).
No entender de Langdon (1999), deve-se ter em mente a existência das diversas formas de percepção da saúde. No
contexto cultural, o entendimento da saúde e da doença para o indígena é diferente do entendimento do homem branco.
A resposta cultural do saber, saúde e doença para o homem branco é manifestada na ciência, com valores e expectativas
diferentes da visão dos povos indígenas. As comunidades indígenas possuem cultura própria, portanto a compreensão do
processo saúde/educação, bem como os seus hábitos de vida, são diferentes das demais culturas de outras origens.
5 As ervas medicinais e o conhecimento indígena
Desde a pré-história o homem teve a necessidade de buscar na natureza recursos para alívio de seus males, utilizando
a observação e a comparação. O Brasil possui uma grande diversidade biológica: 10% dos 1,4 milhão de organismos vivos já
descritos pela ciência encontram-se no Brasil (MITTERMEIER et al., 1992).
As plantas medicinais brasileiras são uma valiosa tradição entre povos, porém muito do conhecimento sobre as
plantas está sendo esquecido (SOUZA, 1995). Esse esquecimento tem relação com o modelo português que sempre
desquali cou as manifestações culturais dos negros e índios (SOUZA, 1995).
Mesmo atualmente, a sociedade tem di culdades para reconhecer a importância do conhecimento que os
povos indígenas possuem em relação às ervas medicinais, o que implica empenho dos pesquisadores em ampliar os
conhecimentos sobre o modo de cuidar de doenças a partir das plantas.
Apesar das di culdades, as pesquisas sobre plantas medicinais vêm sendo valorizadas por meio de políticas públicas, que
procuram defender a biodiversidade brasileira. Um importante documento para valorização das plantas medicinais é o decreto
nº 5813, de 22 de junho de 2006 que aprova a política nacional de medicamentos, que estabelece no âmbito de suas diretrizes
para o desenvolvimento cientí co e tecnológico, que (…) deverá ser continuado e expandido o apoio às pesquisas que visem ao
aproveitamento do potencial terapêutico da  ora e fauna nacional, enfatizando a certi cação de suas propriedades medicamentosas”.
A valorização do uso do conhecimento da medicina tradicional foi reconhecida pela Organização Mundial da Saúde
devido a vários fatores, dentre eles: a distribuição desigual de pessoal de saúde e facilidade de acesso a recursos (plantas medicinais),
principalmente pelas populações de difícil acesso ao serviço de saúde, como as comunidades indígenas e comunidades tradicionais.
A mesma referência a rma que 80% das populações dos países em fase de desenvolvimento dependem dessas práticas, já que o
conhecimento tradicional acaba ocupando o lugar que o sistema médico o cial dominante não consegue atender.
Ao se referir às plantas medicinais, não se pode deixar de ressaltar que o conhecimento adquirido sobre essas
espécies, seus usos, indicações e manejos são uma herança dos antepassados, que de forma tradicional tem passado seus
conhecimentos de geração a geração.
Os indígenas, independentemente da existência ou não dos medicamentos fabricados pelo não índio, buscam perpetuar seus
conhecimentos quanto à utilização das plantas, uma vez que para ele o tratamento com as plantas busca cuidar do corpo e da alma.
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6 Remédios do mato e remédios de farmácia
A relação entre as plantas medicinais e o homem sofre forte in uência cultural do ambiente ao qual estão inseridos.
Por isso, torna-se pertinente um estudo ligado à utilização desses recursos terapêuticos a  m de preservar os valores
culturais embutidos no conhecimento sobre as ervas medicinais.
A proposta de sequência didática tem como objetivo principal discutir a importância das plantas medicinais para os
indígenas e não indígenas. Sugerimos investigar como as plantas com  nalidades medicinais são empregadas na comunidade.
A atividade tem como finalidade auxiliar os educandos a dar sentido às suas experiências cotidianas. Assim,
buscamos tratar de questões que partem do cotidiano dos educandos, relacionando-os com os conhecimentos
científicos. O trabalho pedagógico será realizado com vistas ao desenvolvimento de uma postura crítica do estudante
quanto à participação da cultura indígena na farmacologia brasileira.
De início será realizado um levantamento dos conhecimentos prévios dos estudantes sobre as plantas medicinais, seguida
de entrevista com seus familiares e amigos acerca do conhecimento que possuem sobre as plantas medicinais. Na transmissão do
conhecimento tradicional sobre as ervas medicinais, a oralidade é um aspecto importante, que a construção de conhecimentos,
o repasse de informações e a convivência de um modo geral nas comunidades indígenas se pauta, principalmente, na transmissão
oral, é, portanto, relevante que se valorize esse aspecto da cultura. Valorizar as narrativas indígenas que são fontes de conhecimento
e de entretenimento é a necessidade para a conservação e continuidade da manifestação de saberes dessas comunidades.
A partir dos resultados das entrevistas, sugerimos a realização de uma pesquisa sobre o histórico, os efeitos e as formas
de utilização das plantas medicinais mais citadas nas entrevistas. Após a pesquisa a turma irá proceder na montagem de um
dicionário com os termos, efeitos e forma de utilização dessas plantas.
Ao catalogar as ervas utilizadas pela comunidade, espera-se contribuir para a valorização do saber popular no cuidado
com a saúde, oportunizando também uma opção terapêutica mais segura e con ável no que diz respeito às plantas medicinais.
O registro do saber tradicional é indispensável, uma vez que informações sobre o uso empírico das plantas encontram-se sob a
ameaça de perder-se com o tempo. Soma-se a este fato, o risco de desaparecimento que muitas espécies sofrem na atualidade.
Entendemos que estimular os saberes e usos tradicionais das plantas medicinais é valorizar e respeitar o conhecimento
de um grupo social, além de ajudar a fortalecer as conquistas dos povos indígenas através de seus conhecimentos tradicionais.
Esse conhecimento a respeito das ervas medicinais possibilita ao não indígena conhecer melhor a cultura indígena, bem como
estimula a etnobotânica, ciência que colabora com a valorização da medicina tradicional indígena.
Seja na utilização das plantas como remédios, na constrão das ocas tradicionais ou na coleta de sementes
para reflorestamento de áreas desmatadas, os indígenas esbanjam exemplos de sustentabilidade, práticas que, além de
preservar o meio ambiente, valorizam os recursos naturais.
Ao despertar nos jovens a importância do uso das plantas medicinais e a preservação desse conhecimento tradicional,
podemos ajudar na autonomia e desenvolvimento desses povos, já que as plantas medicinais têm um papel muito importante
na questão socioeconômica, tanto para as populações que vivem no meio rural como para as que vivem no meio urbano, e
sua utilização pode reduzir os gastos com medicamentos farmacêuticos.
A identi cação das plantas medicinais utilizadas por uma determinada população pode indicar potencialidades existentes
nessas comunidades, pois a sabedoria sobre as plantas pode ajudar a diminuir a dependência por remédios farmacológicos.
Interculturalidade e Educação: abordando a Temática Indígena na Educação Básica
Regina Lima Andrade Gonçallo, Danilo Seithi Kato, Daniel Bovolenta Ovigli, Elia Cristina Alves dos Santos
26 VÉRTICES, Campos dos Goytacazes/RJ, v.21, n.1, p. 18-27, jan./abr. 2019
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ou formato, e também para, tendo como base o seu conteúdo, reutilizar, transformar
ou criar, com propósitos legais, até comerciais, desde que citada a fonte.
Artigo Original
e-ISSN 1809-2667
DOI: 10.19180/1809-2667.v21n12019p18-27
7 Considerações  nais
Este estudo aponta a necessidade de conscientizar os docentes a realizar um trabalho pedagógico crítico sobre a cultura
indígena na escola, partindo da realidade dos educandos e integrando cotidiano, linguagem e ciência.
Ainda que poucos avanços tenham ocorrido, a Constituição Federal de 1988 veio garantir direito a uma escola
diferenciada aos povos indígenas, o que possibilitou preservação de suas culturas. A implementação da Lei 11.6454
também é um passo para o abandono do ensino sob a perspectiva eurocêntrica da formação da sociedade.
Para Freire (2005), a educação deve ser vista como prática de liberdade, tornando o sujeito pensante, reflexivo e
questionador do status quo em que se encontra, em busca de soluções a fim de mudar sua condição atual, que muitas
vezes é de oprimido diante da sociedade.
Nesse sentido, a educação possibilita que o sujeito seja capaz de re etir sobre si, sobre seu mundo circundante e
agir conscientemente na sociedade. “Destaca-se que a educação é relevante no processo de humanização do homem e da
transformação social” (GADOTTI, 2007, p. 18).
Por m, reforçando o estudo aqui apresentado, faz-se urgente o desenvolvimento de discussões e propostas de
atividades que contemplem as questões indígenas, a m de atender o previsto pela Lei 11.645, que esem vigor
desde 2008 e apresenta o desa o de inserir a temática no chão da sala de aula, por isso esperamos que o material aqui
apresentado seja um contributo ao trabalho com tal questão.
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Interculturalidade e Educação: abordando a Temática Indígena na Educação Básica
Regina Lima Andrade Gonçallo, Danilo Seithi Kato, Daniel Bovolenta Ovigli, Elia Cristina Alves dos Santos
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Artigo Original
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Article
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Resumo Diferentes grupos sócio-culturais conquistam maior presença nos cenários públicos. As questões colocadas são múltiplas, visibilizadas principalmente pelos movimentos sociais, que denunciam injustiças, desigualdades e discriminações, reivindicando igualdade de acesso a bens e serviços e reconhecimento político e cultural. No âmbito da educação as diferenças também se explicitam com cada vez maior força e desafiam visões e práticas profundamente arraigadas no cotidiano escolar. A cultura escolar dominante em nossas instituições educativas prioriza o comum, o uniforme, o homogêneo. Tendo presente esta problemática, este texto tem por objetivo analisar diferentes concepções de diferença presentes nas práticas pedagógicas, assim como, a partir de alguns resultados de pesquisas, identificar aspectos que permitam oferecer aos educadores e educadoras contribuições para trabalhar este tema no cotidiano escolar. Defende a posição de que as diferenças são constitutivas, intrínsecas às práticas educativas e atualmente é cada vez mais urgente reconhecê-las e valorizá-las na dinâmica de nossas escolas. Abstract There are different social cultural groups with greater presence in public spaces. There are multiple issues put up, specially by social movements, which denounce injustice, inequality, and discrimination, asking for equality in accessing goods and services as soon as political and cultural acknowledgment. In educational field, differences are also made explicit with even more strength and challenge visions and practices that are deeply taken in daily school. The prevailing school culture in our educational institutions gives priority to the ordinary, uniform, homogeneous. Considering this issue, the objective of this article is to analyze the various conceptions of difference existing in educational practices, as soon as, from some results of researches, identify some aspects which enable an offering of contributions to educators, in order to work this subject in daily school. This article defends the position that differences are inherent part of the educational practices and today is more and more urgent recognizing them into our schools functioning.
Article
Neste estudo a autora procura verificar as nocoes que os docentes e discentes dos cursos de graduacao em Enfermagem das universidades da Amazonia Oriental (duas em Belem-PA e uma em Macapa-AP) tem quanto a utilizacao da Fitoterapia em acoes de Saude, seu papel e relacionamento com outros procedimentos ou linhas terapeuticas, tentando identificar o modo de aquisicao de seu conhecimento sobre praticas e usos de plantas medicinais, procurando conhecer sua postura perante a utilizacao de fitoterapicos por parte de paciente em tratamento sob sua responsabilidade. Buscou-se, principalmente, subsidios para comprovar a hipotese da existencia de um consenso nao so sobre a conveniencia academica, mas tambem socio-economica e cultural da inclusao deste conjunto de conhecimentos (Fitoterapia) no ensino da Enfermagem, a fim de que o futuro profissional enfermeiro conheca esta materia , adequando a realidade regional e as tendencias mundiais de diversificacao das praticas de atendimento a Saude, porem tendo um solido embasamento cientifico para orientar os pacientes hospitalizados e a populacao em geral (AU). Mestre -- Universidade Federal do Para. Centro de Ciencias da Saude. Departamento de Enfermagem, Belem, 1995.
Lei 9394/96: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Disponível em: www.planalto.gov.br. Acesso em
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  • Brasil
BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11645.htm. Acesso em: 5 mar. 2017.
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Marxismo e loso a da linguagem
  • M Bakhtin
BAKHTIN, M. Marxismo e loso a da linguagem. 6. ed. São Paulo: Hucitec, 1992.
Soldados da província de Curitiba escoltando selvagens (1834)
  • J B Debret
DEBRET, J. B. Soldados da província de Curitiba escoltando selvagens (1834). Disponível em: http://portaldoprofessor.mec. gov.br/ chaTecnicaAula.html?aula=55051. Acesso em: 22 maio 2018.
História do Brasil. São Paulo: Editora da USP
  • B Fausto
FAUSTO, B. História do Brasil. São Paulo: Editora da USP, 1995.
Limites e Possibilidades da Articulação entre as Medicinas Tradicionais Indígenas e o Sistema O cial de Saúde
  • L O Ferreira
FERREIRA, L. O. Limites e Possibilidades da Articulação entre as Medicinas Tradicionais Indígenas e o Sistema O cial de Saúde. In: BRASIL. Ministério da Saúde. Medicina Tradicional Indígena em Contextos: Projeto Vigisus II. Brasília: Fundação Nacional de Saúde, 2007. p. 166-174. Trabalho apresentado na I Reunião de Monitoramento [...].