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Por dentro do copinho: um estudo sobre o consumo de coletor menstrual.

Abstract

Agradecimentos Agradecemos o apoio financeiro da Fapemig, Capes, Cnpq. Resumo O consumo de coletores menstruais é o foco deste trabalho. Para tanto, foi delineado como objetivo principal desta pesquisa compreender como este item de higiene íntima se relaciona com a construção da identidade das consumidoras. Além disso, buscou-se compreender neste cenário os atributos, as crenças e concepções que o uso deste item fomenta. Para a construção do conhecimento adotou-se a perspectiva que o consumo é uma ação permeada de significados. Portanto, foi reforçada a concepção que as posses são capazes de comunicar significados culturais, sendo o consumo historicamente moldado, emergindo de estruturas ideológicas altamente dinâmicas encontrados na contemporaneidade. Para tanto, foi utilizado o método focus group, em dois momentos distintos, com mulheres que possuíam idade, escolaridade e estado civil diversos. Sendo assim, verificou-se que o consumo do coletor menstrual vai além da busca por componentes racionais. A obtenção deste produto está relacionada a símbolos associados a preocupações ambientais, aspectos relacionados a saúde, autoconhecimento e autonomia. Além disso, este item é capaz de comunicar a identidade e transformar a realidade das consumidoras no contexto investigado.
EnANPAD 2018
Curitiba/PR - 03 a 06/10/2018
Por dentro do copinho: um estudo sobre o consumo de coletor menstrual
Autoria
Fernanda de Aguiar Zanola - fernanda18az@gmail.com
Prog de Pós-Grad em Admin - PPGA/UFLA - Universidade Federal de Lavras
Ana Cristina Ferreira - ana-cristina18@hotmail.com
Prog de Pós-Grad em Admin - PPGA/UFLA - Universidade Federal de Lavras
Lucas Rocha Vieira - lucasrocha@posgrad.ufla.br
Prog de Pós-Grad em Admin - PPGA/UFLA - Universidade Federal de Lavras
Paulo Henrique Montagnana Vicente Leme - paulo.leme@dae.ufla.br
Prog de Pós-Grad em Admin - PPGA/UFLA - Universidade Federal de Lavras
Agradecimentos
Agradecemos o apoio financeiro da Fapemig, Capes, Cnpq.
Resumo
O consumo de coletores menstruais é o foco deste trabalho. Para tanto, foi delineado como
objetivo principal desta pesquisa compreender como este item de higiene íntima se relaciona
com a construção da identidade das consumidoras. Além disso, buscou-se compreender neste
cenário os atributos, as crenças e concepções que o uso deste item fomenta. Para a
construção do conhecimento adotou-se a perspectiva que o consumo é uma ação permeada
de significados. Portanto, foi reforçada a concepção que as posses são capazes de comunicar
significados culturais, sendo o consumo historicamente moldado, emergindo de estruturas
ideológicas altamente dinâmicas encontrados na contemporaneidade. Para tanto, foi utilizado
o método focus group, em dois momentos distintos, com mulheres que possuíam idade,
escolaridade e estado civil diversos. Sendo assim, verificou-se que o consumo do coletor
menstrual vai além da busca por componentes racionais. A obtenção deste produto está
relacionada a símbolos associados a preocupações ambientais, aspectos relacionados a
saúde, autoconhecimento e autonomia. Além disso, este item é capaz de comunicar a
identidade e transformar a realidade das consumidoras no contexto investigado.
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Curitiba/PR - 03 a 06/10/2018
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Por dentro do copinho: um estudo sobre o consumo de coletor menstrual
Resumo
O consumo de coletores menstruais é o foco deste trabalho. Para tanto, foi delineado como
objetivo principal desta pesquisa compreender como este item de higiene íntima se relaciona
com a construção da identidade das consumidoras. Além disso, buscou-se compreender neste
cenário os atributos, as crenças e concepções que o uso deste item fomenta. Para a construção
do conhecimento adotou-se a perspectiva que o consumo é uma ação permeada de significados.
Portanto, foi reforçada a concepção que as posses são capazes de comunicar significados
culturais, sendo o consumo historicamente moldado, emergindo de estruturas ideológicas
altamente dinâmicas encontrados na contemporaneidade. Para tanto, foi utilizado o método
focus group, em dois momentos distintos, com mulheres que possuíam idade, escolaridade e
estado civil diversos. Sendo assim, verificou-se que o consumo do coletor menstrual vai além
da busca por componentes racionais. A obtenção deste produto está relacionada a símbolos
associados a preocupações ambientais, aspectos relacionados a saúde, autoconhecimento e
autonomia. Além disso, este item é capaz de comunicar a identidade e transformar a realidade
das consumidoras no contexto investigado.
Palavras-chaves: Consumo; Mulheres; Coletor menstrual; Identidade.
1. Introdução
O consumo é uma ação permeada de significados, vai além da simples troca de
patrimônios financeiros por bens e serviços. O ato de comprar está intrínseco à sociedade
moderna. Portanto, a compreensão dos símbolos e significados aplicados aos bens de consumo
são fatores determinantes que auxiliam na concepção dos consumidores contemporâneos. Nesse
sentido, estudos que buscam compreender as relações entre os sujeitos e suas posses devem
superar interpretações reducionistas as quais, em muitos casos, ignoram a dinamicidade do
comportamento humano, e se recusam a valorizar os símbolos existentes na herança cultural e
social dos sujeitos (ARNOULD; THOMPSON, 2005; McCRACKEN, 2007).
A perspectiva cultural possibilita aos atores sociais amplificar sua visão em relação ao
consumo, considerando-a como responsável pela afirmação de sua autoimagem perante ao
contexto social no qual atua. Sendo assim, experiências pessoais, normas culturais e os valores
dominantes, são variáveis que estão diretamente relacionadas a percepção de si próprio, fatores
que são capazes de refletir a autoimagem dos consumidores (SCHIFFMAN; KANUK, 2000).
No entanto, esta alteração na compreensão dos sujeitos emerge em conjunto com as
mudanças que ocorreram em relação as velhas identidades, que eram estáveis e, atualmente, se
encontram em declínio na realidade pós-moderna, fomentando novas formas de consumo e auto
expressões (HALL, 2006). Dessa forma, é de suma importância que estudos elaborados
contemporaneamente reforcem perspectivas relacionadas ao gênero, raça, etnia, classe social,
estrutura familiar e capital cultural dos pais para conseguir compreender integralmente as
relações identificadas nas sociedades modernas (LAMONT; MOLNA'R, 2002; KATZ-
GERRO, 2004). Em relação as diferenças sexuais, vale ressaltar que estas são fundamentadas
em abstrações coletivas que moldam as percepções dos sujeitos e sua vida social. Todavia,
ressalta-se que o sexo não determina diretamente o gênero pois nem todos os homens são
masculinos e nem todas mulheres femininas. Contudo, existe uma gama de artifícios com os
quais os atores sociais, sejam homens ou mulheres, podem se identificar. Por isso, variáveis
como as listadas anteriormente devem ser cada vez mais exploradas para compreender o sujeito
pós-moderno, que não possui uma identidade fixa, mas em permanente construção
(PATTERSON; HOGG, 2004; HALL; 2006).
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Nesse sentido, temas ligados a intimidade feminina e a inovação de produtos
direcionados para cuidado pessoal das mulheres foram reconhecidos como “tabus” e pouco
explorados na atualidade (NORTH; OLDHAM, 2011). O coletor menstrual, moldável ao corpo,
projetado para evitar vazamentos e potenciais desconfortos causados às mulheres, retoma a sua
visibilidade neste cenário de transformações em que as velhas identidades tem se fragmentado,
reforçando a necessidade de contestação política, social e econômica em arenas inteiramente
novas de vida cotidiana. Neste interim o dispositivo de barreira visa ser reconhecido como item
de necessidade básica potencial para favorecer não só a saúde feminina, mas também a
sustentabilidade do planeta (LISWOOD, 1959; PENA, 1962; FARAGE, 2006).
Contudo, estudo britânico afirma que as empresas nunca conseguiram alcançar o uso
generalizado deste item, mesmo estando disponíveis em países desenvolvidos há muitas
décadas e sendo descartados efeitos adversos deste item à saúde (NORTH; OLDHAM, 2011).
Portanto, para compreender as lacunas sobre como funciona o consumo do coletor menstrual
no contexto contemporâneo, este estudo tem como principal compreender como este item de
higiene íntima se relaciona com a construção da identidade das consumidoras. Além disso,
verificar neste cenário os atributos, as crenças e concepções que o uso deste item fomenta.
2. Referencial Teórico
2.1 Consumo Cultural
Os bens de consumo têm a capacidade de comunicar significados culturais, movendo-
se numa trajetória com dois pontos de transferência: do mundo para o bem e do bem para o
indivíduo. Reforça-se que a cultura constitui o mundo, suprindo-o de significado. Portanto, os
bens de consumo se tornam capazes de dar forma física à cultura. No entanto, a compreensão
de que os bens materiais são nutridos de significados, muitas vezes, não é manifesto para os
consumidores, que são capazes de manipular conscientemente os seus significados. Contudo,
os imperativos e os detalhes desse processo de construção através do consumo são carentes de
atenção e apenas recentemente concentram-se estudos sobre o tema (McCRACKEN, 2007).
Por este aspecto, são valorizados os diversos significados implícitos e explícitos
existentes no consumo advindos da globalização e do capitalismo de mercado. Dessa forma,
umas das suas principais contribuições advindas dessa corrente teórica é compreender que o
consumo é historicamente moldado, emergindo de estruturas ideológicas altamente dinâmicas
encontrados na contemporaneidade. Além disso, demonstram que a realidade dos consumidores
é construída a partir das práticas experimentadas através do consumo, ligados aos desejos,
fantasias e identidades assumidas, produzindo mudanças fundamentais nas ciências sociais
aplicadas, em arenas das políticas públicas e em setores gerenciais (ARNOULD; THOMPSON,
2005). Walther (2016) afirma que a teoria da cultura material mantém a premissa básica de que
pessoas e objetos são mutuamente constitutivos. Os atores que constituem essa troca não devem
ser compreendidos como agentes passivos. Não obstante, os indivíduos e os materiais
adquiridos são assuntos que moldam e definem um ao outro. Desse modo, a objetificação se
encontra na tendência de criar uma cultura material e depois produzir entendimento sobre as
relações dos indivíduos com a realidade material. Sendo assim, o estudo do comportamento do
consumidor passa pela concepção que o consumo é um processo cultural. Essa característica se
pelo fato de não se iniciar e tampouco ter um fim com a compra de um bem ou serviço.
Logo, este ciclo atua como elemento de construção e afirmação de identidades, diferenciação,
exclusão e inclusão social (BARBOSA; CAMPBELL, 2006).
Por esta ótica, não é possível entender o consumidor e suas tendências de consumo sem
compreender os significados que estes atribuem às suas posses. Para Belk (1988) os indivíduos
impõem suas identidades sobre as posses e as posses podem impor suas identidades nos
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indivíduos, acarretando na concepção do self estendido, o qual possibilita aprender como o
comportamento do consumidor contribui para a existência mais ampla dos seres humanos.
Assim como a roupa, a residência e as joias podem distinguir um indivíduo de outros e expressar
um senso individual de ser, eles também podem indicar a identidade de um grupo. Dessa forma,
o self estendido opera não só em um nível individual, mas também em um nível coletivo
envolvendo identidades familiares, grupais, subculturais e nacionais. Logo, é capaz de levantar
questões sobre o papel das posses em cada estágio do curso de vida (BELK, 1988; AMARAL,
2016). O próprio processo de identificação, através do qual os indivíduos projetam suas
identidades culturais, tornou-se mais variável, dando origem ao sujeito pós-moderno, mutável,
sem uma identidade permanente. Portanto, o consumo nas conjunturas atuais supera a
concepção de aquisição apenas para a subsistência ou para suprir necessidades básicas. Os
sujeitos pós-modernos usam produtos para se diferenciar, valorizam aspectos como a hierarquia
social, as classes, símbolos de associação a grupos e o prestígio da marca que pretende
consumir. Nesta perspectiva contemporânea, os consumidores levam em consideração fatores
instintivos e simbólicos, muitas vezes, presente no plano do inconsciente para determinar o que
devem consumir (McCRACKEN, 2007; GONÇALVES, 2009; AMARAL, 2016). Neste
sentindo, todas as esferas da sociedade foram afetadas, em especial as que se referem as
diferenças de gênero, sexualidade, etnia, raça, nacionalidade e as classes sociais as quais
forneciam delimitações das decisões permanentes e homogêneas existentes em uma sociedade,
além de fornecerem sólidas localizações para os indivíduos sociais (HALL, 2006).
Nesse cenário, é possível mencionar como exemplo o movimento feminista que possui
relação direta com o descentramento conceitual do sujeito cartesiano e sociológico para o
homem pós-moderno. Isto é, ele politizou a subjetividade, a identidade e o processo de
identificação dos sujeitos, reforçando a premissa que os homens e as mulheres eram parte da
mesma identidade (HALL, 2006). Portanto, no contexto em que o patriarcado não domina as
relações sociais a identidade passa a ser um elemento de autoconhecimento de cada um acerca
de si mesmo (TIBURI, 2018), explorados no tópico seguinte.
2.2 Consumo e Gênero
A reconhecida frase “não nasce mulher, torna-se” de Simone de Beauvoir desconstrói o
determinismo biológico que imperou durante muitos anos nos preceitos básicos dos estudos no
campo das ciências sociais aplicadas e aponta que este é socialmente construído (ALMEIDA,
2002). Bourdieu (1995), corrobora ao expor que as diferenças sexuais são fundamentadas em
ilusões coletivas, que moldam a percepção dos indivíduos e sua vida social. A medida que são
utilizadas se transformam em formas de distinção. Dessa forma, o gênero se transforma em uma
forma para a construção de poder nas relações sociais.
Para Butler (2003), uma das principais teóricas do feminismo, o termo “gênero” tem
como principal característica ser fluído. Este atributo é reforçado devido à instabilidade das
relações contemporâneas no cenário pós-moderno e através das inter-relações de gênero com
fatores culturais e sociais (ALMEIDA, 2002; SARTI, 2004; GARCÍA, 2013).
O gênero é uma das categorias analíticas centrais no estudo do comportamento do
consumidor. Existem várias posições que os indivíduos podem escolher, em toda uma gama de
artifícios masculinos e femininos. Em vista disso, a identidade de gênero viabiliza a
compreensão da interseção entre sexo, gênero e consumo simbólico (PATTERSON; HOGG,
2004). Anteriormente aos meios de comunicação modernos, informações sobre o consumo
feminino eram obtidos apenas através utensílios domésticos. Esta tendência ocorria, pois, o
consumo feminino era destinado a manutenção do status social do homem. Todavia, os produtos
não ofereciam meios de emancipação social para as mulheres, longe disso, eram tratados como
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extensões de seus corpos (CAIXETA; BARBATO, 2004; GILMAN, 1999; SEGAL;
PODOSHEN, 2013).
Durante o século XVII, os itens consumidos eram utilizados para expressar, mesmo que
minimamente, a construção do conceito de “mulher” previsto pela época. Em relação aos
protetores íntimos, durante o início de 1.900, quando as meninas americanas menstruavam pela
primeira vez suas mães apresentavam a sua marca de absorventes predileta e as meninas
permaneciam leais a ela no decorrer de toda a sua vida, sem contradizer o parâmetro imposto.
Com a ascensão do novo século, especificamente durante os anos 1920, as mulheres
vivenciaram a aproximação de uma nova concepção sobre o feminino e, a partir de então,
começaram a romper as barreiras impostas, utilizando objetos ligados a moda, status, religião,
cabelos curtos e calças, para simbolizar a libertação aos padrões restritivos que imperavam e
estão presentes em muitos extratos sociais até os dias atuais (SEGAL; PODOSHEN, 2013).
Neste contexto pós-moderno, cada vez mais se tornam relevantes estudos que
investigam as experiências de consumo das mulheres. A título de exemplo, Molander (2011)
explorou etnograficamente como as diferentes práticas envolvidas em uma situação de
consumo, como o jantar diário entre mães solteiras, proporciona um consumo referente ao seu
contexto. Silva de Oliveira (2011) abordou, a partir da perspectiva da cultura, como o
consumo pode auxiliar no entendimento do comportamento de compra realizado pelos negros,
em especial o consumo realizado pelas mulheres negras, no Brasil. Thompson e Üstüner (2015)
destacam as inter-relações entre os desempenhos ressignificados da feminilidade e as restrições
de gênero que foram naturalizadas nas vidas cotidianas das participantes do estudo. Walther
(2016) investigou como as mulheres, através de suas interações com produtos eróticos,
experimentaram um ou mais tipos de transformação em si mesmas e em suas relações
interpessoais a partir da utilização dos itens.
Por esta ótica e com o avanço deste campo de estudos, papéis sociais atribuídos a
homens e mulheres estão em constante transformação. Logo, rompe-se com a ideia de que o
determinismo biológico é a causa primordial das diferenças entre os sexos e elimina-se
potenciais formas que justificam e atenuam a opressão sofrida pelas mulheres nas sociedades
patriarcais (ALMEIDA, 2002). Portanto, o marketing, aliado as suas teorias, se tornou capaz
de compreender os fenômenos sociais e as suas práticas no contexto pós-moderno. Além disso,
viabilizar a transformação social dos sujeitos e das estruturas organizacionais vigentes
(MARCON; MARCON; ROCHA, 2017).
2.3 Produtos de higiene feminina: dos tampões ao coletor menstrual
Aspectos sociais e econômicos influenciam diretamente no desenvolvimento racional
dos seus membros constituintes. Não obstante, a formação do comportamento de mulheres em
relação ao seu corpo também é determinada por essa evolução, bem como, os cuidados de
higiene no período que antecede a menarca e estará presente por boa parte de sua vida
EVIRME et al., 2010).
Mesmo em locais onde preconceitos em relação ao funcionamento do corpo feminino
são reduzidos, muitas vezes, o acesso aos materiais de coleta menstrual são inacessíveis, devido
ao seu valor monetário. Por isso, é recorrente em diversas culturas que mulheres recorram ao
uso de panos e travesseiros reutilizáveis os quais podem gerar potenciais contaminações, visto
que necessitam ser higienizados. Contudo, em muitos casos, isso não ocorre devido a
precariedade sanitária do ambiente e até mesmo por falta de água corrente, proliferando doenças
que prejudicam a saúde feminina (NORTH; OLDHAM, 2011).
Durante muitos anos, poucas inovações foram estimuladas para facilitar o dia a dia das
mulheres durante o período menstrual. Pensos e tampões absorventes, utilizados externamente
e que permitem o contato da região intima feminina com o corrimento fisiológico de sangue
dominaram o mercado e configuravam-se como o único método de proteção disponível. Esta
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soberania se estendeu por muito anos, mesmo os pensos e tampões apresentando vários
inconvenientes ligados a proliferação do odor menstrual, o extravasamento do líquido, o atrito
nas áreas genitais, desenvolvimento de infecções, dentre outros (LISWOOD, 1959; PENA,
1962; FARAGE, 2006).
Além disso, os absorventes descartáveis são adversários do meio ambiente e omitem
que as escolhas de compras, em muitos casos, devem ser direcionadas para melhorar o bem
público em conjunto com o bem-estar individual (CAIRNS; JOHNSTON; MACKENDRICK,
2013). Durante o período reprodutivo cada mulher descarta cerca de 10.000 utensílios desse
porte, configurando cerca de 150kg de lixo depositados no ecossistema, os quais demoram
milhares de anos para se decompor e contaminam a superfície do planeta devido aos aditivos
químicos contidos para melhorar a absorção dos líquidos (STEWART, 2009). Ademais, as
principais matérias primas do absorvente externo comum são o plástico e a celulose. O Instituto
Real de Tecnologia, em Estocolmo, na Suécia, realizou uma avaliação do ciclo de vida de
absorventes internos e externos e descobriu que os externos têm um maior impacto ambiental
justamente pelo uso em grande quantidade do plástico. Portanto, os absorventes descartáveis,
finos e modernos, trazem junto com eles danos significativos para o ambiente, mesmo antes de
chegarem até seus consumidores (ECYCLE, 2015).
Para combater os riscos ambientais e favorecer o bem-estar das mulheres, nos anos 1930
foram desenvolvidos os primeiros coletores menstruais (ou copos menstruais). Contudo, este
utensílio visto como “inovador” foi elaborado previamente nos Estados Unidos por Hockert e
patenteado no ano de 1867 (NORTH; OLDHAM, 2011; HOWARD et al., 2011; STEWART,
2009). Esforços de pesquisas foram voltados para desenvolver o coletor menstrual conhecido
nos dias atuais como “copinho” ou “mooncup, o qual possui formato de sino, feito em silicone
cirúrgico, moldável ao corpo, projetado para evitar vazamentos e potenciais desconfortos
causados as mulheres (STEWART, 2009). O coletor é produzido em silicone medicinal flexível
em formato de copo, possui aproximadamente 4 centímetros e produzido para ser introduzido
dentro da vagina para aparar o sangue da menstruação. Em ciclos de até 12 horas, a mulher
retira, esvazia, lava e pode inserir novamente. Vale ressaltar que os produtos são devidamente
certificados pelo FDA (Food and Drug Administration) o qual aprova o uso de coletores
menstruais feitos de silicone medicinal e pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância
Sanitária) que não considera o coletor menstrual um produto prejudicial à saúde feminina e,
portanto, libera o seu uso.
Os primeiros estudos sobre o consumo do item, realizados na década de 1960,
mostraram que estes eram bem aceitos, e o seu uso se tornava confortável após 2 meses de uso.
Além disso, constataram que após pesquisa 55% das participantes continuaram usando o coletor
(HOWARD et al., 2011). Contudo, os coletores menstruais nunca conseguiram uso
generalizado, mesmo estando disponíveis em países desenvolvidos muitas décadas
(NORTH; OLDHAM, 2011). Portanto, o tópico seguinte abordará o método utilizado o qual
contribuirá para compreender as lacunas sobre o consumo do coletor menstrual no contexto
contemporâneo, além de verificar neste cenário as principais barreiras ao consumo, os atributos,
as crenças e concepções que o uso deste item fomenta nos sujeitos participantes da pesquisa.
3. Procedimentos Metodológicos
Optou-se por conduzir um estudo qualitativo e exploratório com o intuito de facilitar a
compreensão do comportamento de consumo das mulheres em relação ao coletor menstrual.
Para tanto, optou-se pela utilização do método grupo focal, por possibilitar a interação direta
entre pesquisador e os sujeitos pesquisados. Além disso, as suas funcionalidades vão de
encontro ao objetivo principal do estudo por possibilitar à investigação ou à ação em novos
campos e gerar hipóteses baseadas na percepção dos informantes (SCHRÖEDER; KLERING,
2009; OLIVEIRA; FREITAS, 2006).
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Para a execução da técnica foram utilizadas as cinco fases propostas no estudo de Silva,
Veloso e Keating (2014). Estes autores sugerem que em um primeiro momento seja realizado
um planejamento para sumarizar os principais objetivos e pontos a serem tratados no momento
da execução do grupo focal. Em seguida, deve-se realizar o recrutamento dos participantes e a
logística favorável para a efetivação do método, bem como a escolha de moderadores e
observadores eficientes. Por fim,procede-se com a interpretação dos dados com base nas
técnicas de análise presentes na literatura.
O roteiro semiestruturado foi elaborado com o intuito de elencar os questionamentos
sobre o consumo e sobre a relação do uso do coletor menstrual com as ideologias das
participantes. Por se tratar de um tópico sensível, em um primeiro momento o moderador
incentivou as participantes a se apresentarem, expondo para o grupo pontos relevantes da sua
história para que todos pudessem conhecer as mulheres que compunham os grupos focais. Em
alguns momentos, quando abordados tópicos mais sensíveis, foi necessário exemplificar o
questionamento feito, utilizando histórias hipotéticas, para que as mulheres se abrissem. Esta
estratégia foi muito efetiva nos grupos focais deste estudo, uma vez que a interação entre elas
foi constante, gerando debate, exposição de diferentes pontos de vista, histórias de vida e
conselhos que clarearam as percepções sobre o objetivo do estudo (GODOI; BANDEIRA-DE-
MELLO; SILVA, 2006). Além disso, foi necessário elaborar perguntas diretas de forma
respeitosa e acolhedora às participantes que, em alguns momentos ficaram introspectivas,
estimulando que todas expusessem sua opinião sobre o tema em pauta.
Optou-se pela realização de dois grupos focais em momentos e participantes distintas,
porém, utilizando o mesmo roteiro de perguntas semiestruturado. Esta estratégia foi adotada
visando à obtenção de nuance, profundidade, riqueza de detalhes, a fim de possibilitar a
descrição densa em relação ao objetivo proposto incialmente (GEERTZ, 1981).
Na escolha das participantes não houve restrições quanto a idade, gênero, classe social,
escolaridade e outras variáveis. A intenção desta ação foi relacionar sujeitos que menstruam,
com experiências de vida, concepções sobre feminilidade, ciclo menstrual e relação com o
próprio corpo distintos. Logo, o critério para escolher os participantes tornou-se: sujeitos que
menstruam que já tiveram contato com coletor menstrual, ou seja, ter usado o item em pelo
menos em um ciclo menstrual, ou conhecer o produto, mas não ter adquirido ainda. Portanto,
fizeram parte dos grupos mulheres que manifestaram interesse pelo tema nas redes sociais e se
interessam pelo debate sobre o corpo da mulher e seus contrastes. O primeiro grupo englobou
mulheres com faixa etária entre 21 a 32 anos, dentre elas duas ainda não fizeram uso do coletor
menstrual e as outras possuem experiência de no mínimo um ano com o item. Ademais,
possuem ensino superior completo ou em fase de conclusão. O segundo grupo foi formado por
nove mulheres, com idade entre 19 a 26 anos, similarmente ao primeiro grupo, sendo que apenas
duas mulheres não fizeram uso do coletor. No segundo grupo, uma participante possuía pós-
graduação completa e as demais possuíam ensino superior completo ou em fase de conclusão.
Destaca-se que foi de suma importância unir, em um mesmo grupo, mulheres que já tem
experiência com o item e outras que não adquiriram o produto, mas tem interesse sobre o tema.
Este artifício foi essencial para descobrir diferentes dilemas que impedem a obtenção de um
coletor menstrual. Rassalta-se que todas residem na cidade de Lavras/MG. Justifica-se a escolha
por motivo de conveniência, além da alta expressividade atingida pelas cidades de porte médio
por apresentarem maior crescimento populacional anual (BORLINA FILHO, 2012), fator que
reforça a importância de compreender o comportamento dos habitantes desses locais.
Vale destacar que todas as participantes assinaram um termo de consentimento livre e
esclarecido concordando em participar do grupo focal no qual permitiram a filmagem e
gravação do áudio. Foi utilizado este meio para reforçar os preceitos éticos que as pesquisas
cientificas devem dispor, além de resguardar todas as participantes de não serem identificadas
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ao longo dos estudos. Na tabela 1 encontra-se as informações sociodemográticas das
entrevistadas, bem como o nome fícticio adotado durante a pesquisa.
Tabela 1: Dados das participantes da pesquisa.
Nome
Idade
Escolaridade
Há quanto tempo utiliza
o coletor menstrual?
Renda
Estado
Civil
Luísa
23 A
Pós-graduação Incompleta
Entre 2 e 3 anos
1874 a 3748
Solteira
Marcela
32 A
Pós-graduação Incompleta
Entre 1 e 2 anos
1874 a 3748
Casada
Helena
28 A
Pós-graduação Incompleta
Não faz uso do coletor
3748,01 a 7496
Casada
Alana
24 A
Pós-graduação Incompleta
Entre 1 e 2 anos
1874 a 3748
Solteira
Ana
23 A
Pós-graduação Incompleta
Não faz uso do coletor
7496 a 14055
Solteira
Rosa
21 A
Graduação Incompleta
Entre 1 e 2 anos
1874 a 3748
Solteira
Carol
22 A
Graduação Completo
Entre 1 e 2 anos
1874 a 3748
Solteira
Camila
23 A
Graduação Incompleta
Entre 1 e 2 anos
7496 a 14055
Solteira
Maria
26 A
Pós-graduação Completa
Entre 2 e 3 anos
3748,01 a 7496
Casada
Joana
25 A
Superior Completo
Entre 1 e 2 anos
1874
Solteira
Sofia
25 A
Graduação Incompleta
Entre 1 e 2 anos
1874
Solteira
Paola
20 A
Graduação Incompleta
Entre 1 e 2 anos
1874 a 3748
Solteira
Flávia
19 A
Graduação Incompleta
Não faz uso
1874 a 3748
Solteira
Geovana
25 A
Graduação Incompleta
Até 1 ano
3748,01 a 7496
Solteira
Aurora
23 A
Graduação Incompleta
Não faz uso
1874 a 3748
Casada
Fonte: Elaborada pelos autores.
Para proceder a análise dos dados obtidos, foi utilizada a técnica de análise de conteúdo,
que descreve as temáticas dos diálogos explorados de forma sistemática. Esta técnica
possibilitou a inferência de conhecimentos ligados a reprodução das mensagens que
possibilitaram a compreenção de significados dados a priori. (BARDIN, 2010).
Para tanto, os diálogos do grupo focal foram analisados por categorias temáticas,
advindas de grade aberta procedendo um recorte das unidades de registros contidas nas falas
das participantes, agrupando por categorias as quais possibilitaram inferências sobre o tema
pesquisado. A construção das categorias analisadas neste estudo levou em consideração os
princípios que reiteram sobre a necessidade da exclusão mútua, da homogeneidade e da
pertinência na mensagem transmitida (BARDIN, 2010; SILVA, FOSSÁ, 2017). Para tanto,
foram definidas duas grandes categorias que abrangem os significados relacionados ao coletor
menstrual e o poder transformador deste item. Contudo, a primeira categoria de análise foi
dividida em preocupações ambientais; aspectos relacionados a saúde; autoconhecimento; e
autonomia, fatores que fornecerão conhecimento para o entendimento dos aspectos
transformadores do coletor menstrual.
4. Apresentação e Discussão dos Resultados
4.1 Significados Relacionados Ao Coletor Menstrual
No contexto em que o estudo foi implementado, as participantes dos grupos focais
mencionaram que existem alguns componentes racionais que impelem a aquisição deste item.
Como exemplo, as integrantes mencionaram que aderem ao item devido à necessidade de
controle às adversidades causadas pelo uso de absorventes convencionais, além disso, procuram
escolher a melhor marca disponível no mercado, analisam o formato específico do coletor para
cada corpo e a intensidade do fluxo menstrual, maleabilidade, composição química e custo-
benefício relacionado ao produto.
Para tanto, as mulheres que pretendem adquirir o item e aquelas que o utilizam,
buscam informações em todos meios de comunicação para se informar sobre a melhor
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adequação do coletor às suas rotinas. Esta busca é feita nas redes sociais e páginas
especializadas da Web. Esta relação de busca lógica pode ser verificada na fala das seguintes
participantes: (...) por isso eu não comprei ainda, não apenas por questão de preço, mas por que eu
não tenho informação suficiente. Hoje que eu estou descobrindo que vou ter que
pesquisar mais pra comprar um” (Ana, 23 anos, não faz uso do coletor menstrual).
(...) o primeiro coletor que eu comprei não deu certo porque têm vários tipos,
tamanhos e vários níveis de rigidez. Um modelo para cada tipo de mulher. O primeiro
que eu comprei eu não avaliei essas características, ele era muito maleável pra mim.
Eu não sabia que devia avaliar a força da musculatura pélvica. Aí eu tive que comprar
outro, mas dessa vez eu analisei tudo e virei a pessoa que mais entendia de coletor.
Até porque ele é caro e vai estar com você por 10 anos” (Luísa, 23 anos, usuária do
coletor menstrual).
Ademais, as participantes demonstraram, mesmo inconscientemente, que o consumo
deste item abraça diversos atributos simbólicos e benefícios emocionais que interferem no
processo e na decisão de adquirir o produto de higiene íntima. Esta relação de símbolos e
significados internos serão abordadas nas categorias subsequentes.
4.1.1 Preocupações Ambientais
Ao abordar este tema durante o grupo focal, a maioria das participantes se mostraram
interessadas e afirmaram que a adoção do coletor em suas rotinas está unida a perspectiva
socioambiental, assim como afirmam Cairns, Johnston e Mackendrick (2013) que as escolhas
de compra direcionadas para melhorar aspectos que prezam pelo bem-estar público, bem como
a qualidade de vida individual são valorizadas.
Além disso, os benefícios sustentáveis foram verificados a partir da descoberta de que
as consumidoras adquiriram seu coletor, em muitos casos, para reduzir o descarte de lixo e
favorecer a valorização do meio ambiente, visto que não existe o depósito no ambiente dos
protetores íntimos como ocorre com os absorventes convencionais. Com isso, as consumidoras
do coletor menstrual não contribuem para a contaminação do ecossistema e impossibilitam
prejuízos para a saúde da sociedade. Isto ocorre, pois, a vida útil do coletor é, em média, de 10
anos o qual pode ser reutilizado a cada ciclo, se realizados todos os cuidados indicados de
manuseio e higienização. Após o período de durabilidade, o coletor pode ser doado para outra
mulher que tenha interesse e não possua condições financeiras para adquiri-lo, ou descartado
de modo a ser reciclado.
Verifica-se esta realidade através das falas das participantes que corroboram
enfaticamente com necessidade de despertar maior preocupação em relação ao meio ambiente:
“Eu comprei também pensando no meio ambiente, eu, como ecóloga, me preocupo
naturalmente com essas questões. Outra vantagem foi pensar na questão do lixo, que
eu não tô produzindo mais” (Alana, 24 anos, usuária do coletor menstrual).
“ O coletor menstrual vai de encontro com a minha filosofia de vida, por eu ser vegana,
até meu companheiro me incentiva muito a usar porque vai diminuir a produção do
lixo na nossa casa. Lá em casa a gente busca muito reduzir o lixo cada vez mais”
(Aurora, 23 anos, não faz uso do coletor menstrual).
Em umas das questões propostas, perguntou-se sobre os coletores menstruais
descartáveis. Apenas uma das mulheres soube descrever o que era e como utilizá-lo. Após
explicar o seu funcionamento e as caraterísticas físicas do produto, foi questionado se elas
usariam aquele item, que possui as mesmas dimensões de um coletor menstrual reutilizável,
porém em composições mais maleáveis que possibilitam o seu descarte. Todas responderam
energicamente que não, demonstrando aversão à iniciativa. A justificativa para o desprezo à
alternativa foi justamente por este item ser descartado e depositado no meio ambiente como os
outros absorventes (externo e interno de algodão). Além disso, ressaltaram que a ideia deve ser
descartada por possuir custo muito próximo ao coletor reutilizável, que durará cerca de 10 anos.
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Nessa direção, respalda-se que a preocupação ambiental é o fator fundamental para
potencializar a compra e a disseminação do coletor menstrual, reforçando a sua capacidade de
ser utilizado em todas circunstâncias, facilitando o cotidiano das mulheres, bem como, a relação
com ambiente que convivem.
4.1.2 Aspectos relacionados à saúde
A formação das necessidades de compra das mulheres, bem como a relação com seus
corpos, é influenciada diretamente pela evolução dos atores sociais contemporâneos. Estas
novas disposições são verificadas inclusive nos cuidados com higiene pessoal, a relação com a
menarca e com o seu ciclo menstrual. Contudo, muitos lugares não possuem disponibilidade
sanitária e condições econômico-sociais para fomentar o uso de protetores íntimos EVIRME
et al., 2010; NORTH; OLDHAM, 2011).
No contexto das participantes do grupo focal, elas ainda se queixam da proliferação do
odor menstrual, do extravasamento do sangue menstrual, do atrito nas áreas genitais, o
desenvolvimento de infecções, dentre outros. Muitas ao falarem do cheiro que o sangue possui
quando depositado em absorventes convencionais revelam expressões de aversão e repulsa.
Além disso, foi recorrente as queixas sobre alergias causadas pelos absorventes externos e o
desenvolvimento de candidíase, para as participantes que vivenciaram este desconforto, foi
estimulada pelo uso dos absorventes externos ou internos de algodão.
Estudos preliminares, realizados em contextos da área da saúde, corroboram com essa
afirmação ao mencionar que as mulheres adeptas ao coletor menstrual continuariam usando o
copo menstrual e o recomendariam à outras mulheres. Além disso, adotaram esta alternativa
devido ao conforto proporcionado, secura e menor odor proliferado pelo sangue. O coletor, nas
pesquisas apresentadas, não demonstrou riscos significativos para a saúde e tem o potencial de
ser uma solução sustentável, proporcionando economia de custos moderada e efeitos ambientais
muito reduzidos em comparação com os outros métodos (NORTH; OLDHAM, 2011;
HOWARD et al., 2011; STEWART, 2009).
Contudo, ao adotarem o coletor menstrual muitas dessas queixas sanaram. O contato
com o sangue deixou de ser um transtorno. Ademais, relataram que depois disso começaram a
admirar o ciclo menstrual, os odores se tornaram inexistentes e transtornos como o
extravasamento do líquido raramente ocorrem. Luísa, ao contar como lida com o sangue depois
do uso do coletor menstrual, disse com entusiasmo para todas as participantes: Comecei a
notar que meu sangue era muito bonito, vermelhinho! Que coisa mais perfeita! . Além disso,
Alana relata que por acreditar nos tabus sociais impostos sobre o sangue menstrual, imaginou
que na primeira vez que utilizasse o item sentiria nojo do líquido que estivesse lá dentro.
Contudo, de maneira oposta, ela menciona que quando retirou pela primeira vez o coletor notou
o quão higiênico era, conforme afirma interpretando a cena de observar o coletor: “não tinha
sangue nenhum do lado de fora e estava tudo ali dentro, na mesma hora eu falei: que coisa mais
limpa! . As demais participantes também se mostraram surpresas com a praticidade gerada
pelo coletor como a fala de Marcela retrata:
“Eu não sinto mais “inibida” pela menstruação. Porque você não usa mais uma fralda,
que abafa tudo ali o tempo inteiro. Você começa a entender melhor o seu corpo, ver
que essas mudanças que ocorrem são naturais, a gente cresce não gostando se
afastando disso e com o coletor começa a lidar melhor com a menstruação” (Marcela,
32 anos, usuária do coletor menstrual).
Além disso, as integrantes buscam o coletor com o intuito de obter um estilo de vida
saudável a partir da prática de esportes sem interrupções devido ao fluxo menstrual. Em suas
falas, revelam que a partir do consumo do item adotaram uma alimentação mais saudável e
reduziram o consumo de remédios, como os anticoncepcionais e analgésicos destinados a
reduzir cólicas. As entrevistadas relatam que a adoção de um estilo de vida mais saudável surge
a partir do conhecimento corporal que o coletor permite. Dessa forma, as mulheres obtêm um
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melhor relacionamento tanto com o seu ciclo menstrual como com o seu corpo. Esta afirmação
é corroborada com as falas das seguintes participantes:
“Para quem tem muita crise de candidíase o coletor ajuda muito, a minha melhorou
muito depois que comecei a usar o coletor menstrual! Porque o absorvente
convencional fica abafando tudo, proliferando as bactérias” (Geovana, 25 anos,
usuária do coletor menstrual).
Com o uso correto do coletor você não sente nada... com ele você pode fazer yoga,
nadar, pode fazer tudo o que quiser e não vai sentir de jeito nenhum, essa é a principal
vantagem! ” (Luísa, 23 anos, usuária do coletor menstrual).
“Depois do coletor menstrual eu parei de tomar anticoncepcional, comecei a procurar
produtos mais naturais para a alimentação e hábitos mais saudáveis para minha vida
também! ” (Maria, 26 anos, usuária do coletor menstrual).
À vista disso, em grande parte dos casos, a compra do coletor é estimulada por aspectos
relativos ao cuidado com a saúde feminina, bem como a valorização de uma rotina saudável.
4.1.3 Autoconhecimento
A menstruação é assimilada por muitos como apenas um exercício higiênico, percepção
transmitida entre as mulheres. No entanto, as participantes do grupo focal encontram no seu
ciclo menstrual, e no uso do coletor, muito mais que uma ação sanitária. No contexto
investigado, é possível compreender que o uso do coletor estimula o bom relacionamento das
mulheres com o seu corpo, além de fomentar a compreensão de todas as etapas do seu ciclo
reprodutivo. Nesse sentido, o uso do coletor estimula as mulheres do grupo focal a se sentirem
donas do seu próprio corpo, assim como Sofia aborda sem pudor em diferentes ocasiões do
grupo focal: Eu acho o coletor maravilhoso porque mudou muito a relação com o meu corpo, foi
uma descoberta, eu me senti muito mais conectada com a minha feminilidade” (Sofia,
25 anos, usuária do coletor menstrual).
“Minha história, a descoberta do coletor veio junto com a descoberta do meu corpo.
A partir dele comecei a pensar que não é ruim menstruar! Porque foi uma mudança
da água para o vinho porque desde a primeira vez, mesmo vazando, eu não ligava de
vazar, eu só não queria usar o outro (...) O bom pra mim é a liberdade, porque eu não
gosto de usar calcinha, eu me sinto mais livre, com ele eu posso ir pra academia ou
sair sem calcinha mesmo, mesmo menstruada! ” (Sofia, 25 anos, usuária do coletor
menstrual).
Para Sofia, a ação de introduzir o coletor menstrual e retirá-lo após 12 horas possibilita
a descoberta de funções, propriedades e características próprias do corpo feminino que antes
eram desconhecidas. Logo, através do uso de seu coletor Sofia passou a “se conhecer mulher,
se aceitar mulher”. Este fragmento de fala, reforça o entendimento que o gênero é uma
construção social (BUTLER, 2003). Com esta nova atitude, adotada pelas participantes do
grupo focal, os domínios da sua essência estão sob o seu próprio controle. Portanto, a liberdade
passa a ser encontrada na capacidade de se aceitar como mulher e valorizar os benefícios
advindos desse gênero construído socialmente (BUTLER, 2003).
Sendo assim, o processo de se autoconhecer é fundamental para que não ocorram
arrependimentos com a compra. As participantes alertam que as mulheres, em geral, se
satisfazem com o uso do coletor menstrual quando conhecem, antes da compra, um pouco sobre
atributos de seu corpo. É necessário saber especificidades como a altura do colo do útero e
também o fluxo da menstruação para escolher de forma correta o coletor que se adapta melhor
ao corpo. Isto é demonstrado através da fala que remete ao autoconhecimento, aceitação e o
encontro com a feminilidade proporcionados pelo uso do coletor menstrual, a seguir:
“Para comprar de forma correta a gente precisa se conhecer primeiro, porque você
precisa saber sobre a altura do seu colo do útero, se é baixo, se é alto... Então eu fiz
uma pesquisa bem grande para saber como que eu descobriria, e a partir disso eu me
descobri! Porque tive que me tocar para saber e quando eu tive certeza de tudo isso eu
já tinha muitas informações em mãos, eu pude fazer a compra correta! ” (Marcela, 32
anos, usuária do coletor menstrual).
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Diante destas considerações, a partir da utilização do coletor menstrual e da construção
de relacionamentos com outras mulheres que utilizam o produto alteraram-se concepções
previamente determinadas. Assim, a identidade das mulheres entrevistas após o
autoconhecimento proporcionado pelo coletor foi alterada, permitindo uma nova configuração.
Sendo dotadas, após essa mudança de maior autonomia, significado que será discutido no tópico
seguinte.
4.1.4 Autonomia
A diversidade de bens e produtos ofertados na sociedade atual, além de proporcionarem
novas experiências de consumo, permitem que os sujeitos, através da aquisição de um bem,
comuniquem significados culturais para o universo em que atua (McCRACKEN, 2007). No
contexto investigado, para as participantes o coletor reflete a necessidade de liberdade,
independência e satisfação pessoal que as mulheres tanto aspiram.
Desse modo, o coletor menstrual é capaz de comunicar significados culturais do mundo
para o bem e do bem para o sujeito (McCRACKEN, 2007). A partir do ponto de vista das
participantes, o mundo passa a compreendê-las como militantes do próprio corpo que buscam
a queda de padrões previamente estabelecidos sobre beleza, o corpo feminino e até mesmo em
relação ao ciclo menstrual. Além disso, passam a admirar a menstruação e o corpo feminino,
tornam-se protagonista da sua sexualidade, veneram a feminilidade e o poder que mulheres que
se autoconhecem possuem. Nesse contexto, ressalta-se a intensa fala de Rosa que remete as
intolerâncias vivenciadas:
“O coletor remete a autoconhecimento e liberdade, liberdade desse conservadorismo,
liberdade de deixar de alimentar uma indústria que você não concorda, liberdade no
sentido de fazer um esporte e fazer o que quer em qualquer período! Liberdade dos
tabus! ” (Rosa, 21 anos, usuária do coletor menstrual).
Nessa direção, a compra e o consumo do coletor é compreendido por todas as
participantes como uma forma de contestação política que antes inexistia, em arenas da vida
social contemporânea como a família, a sexualidade, a divisão doméstica do trabalho, o cuidado
com as crianças. Além disso, relaciona-se ao conhecimento e descoberta das particularidades
do próprio corpo (HALL, 2006).
Nesse sentido, elas só adquiriram o item após combater tabus internos e se libertarem
de padrões pré-concebidos. Durante as discussões nos grupos focais, foi possível compreender
que uso do coletor menstrual concede uma autonomia antes não alcançada pelas participantes.
Muitas das integrantes manifestaram que com o uso do coletor esquecem que estão menstruadas
e conseguem prosseguir sua rotina tranquilamente. Está afirmação é vista na fala de Helena,
que ressalta o pleno domínio da liberdade proporcionado pelo coletor:
“A principal vantagem que eu vejo no coletor é a questão de liberdade. Quando você
viaja e está menstruada não é tudo que você pode fazer. Eu vejo que o coletor resolve
tudo isso, não precisa ficar carregando uma bolsinha só com absorvente o tempo todo
ou não ir na piscina porque está menstruada...” (Helena, 28 anos, não faz uso do
coletor menstrual).
Atrelado à autonomia em conduzir suas rotinas sem se preocupar com o ciclo menstrual,
o coletor menstrual possibilitou às participantes compreender que o mesmo não proporciona
impureza, sujeira ou doenças, e que as situações constrangedoras, e muitas vezes, traumáticas
que aconteceram em ambientes sociais devido a censura criada pela sociedade em torno da
menstruação podem ser superadas pelo uso do coletor menstrual, como observados nos intensos
relatos abordados a seguir:
“Na minha sala uma amiga minha levantou e caiu um absorvente da bolsa dela, ela foi
zoada o resto do ensino médio por isso, fora quando vazava aí era bullying na certa”
(Paola, 20 anos, usuária do coletor menstrual).
“Eu não tinha esse tipo de padrão e acabei desenvolvendo isso por conta dessa
repressão externa dos colegas de classe sobre a menstruação, mas agora estou livre de
novo! ” (Joana, 25 anos, usuária do coletor menstrual).
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Portanto, observa-se que a partir da utilização do item, as participantes compreenderam
que o ciclo menstrual não é algo patogênico e nos dias que estão menstruadas podem conduzir
suas rotinas normalmente e com autonomia, sem se privarem de realizar nenhuma atividade
devido a desconfortos, alergias, mal odores e infecções. Ademais, à adaptação ao coletor
proporciona conhecimento e aceitação, em que as participantes afirmam ter refletido sobre a
necessidade de lutar por seus direitos, pela não discriminação de seus corpos e de seu ciclo
menstrual, além de reforçarem a concepção que devem ser “proprietárias” de seus corpos e
protagonista da sua sexualidade. Portanto, o autoconhecimento atrelado a autonomia permitiu
às participantes elevarem sua postura crítica, reforçar a necessidade que suas vozes sejam
ouvidas pela sociedade e a indispensabilidade que suas identidades sejam respeitadas
(BUTLER, 2003; SARTI, 2004; HALL, 2006).
4.2 O poder transformador do coletor menstrual
No presente estudo, realizado com base na perspectiva do consumo cultural, ao verificar
os símbolos relacionados à compra e utilização do coletor menstrual, observou-se que as
participantes tiveram suas identidades reformuladas a partir do contato com este novo bem de
consumo. O coletor menstrual forneceu a elas novas experiências, configurando novos quadros
de referência que alteraram o seu cotidiano, assim como convicções e conceitos que mediavam
suas relações (HALL, 2006; BARBOSA; CAMPBELL, 2006).
Dessa forma, os sujeitos impõem sua identidade sobre suas posses e as posses impõem
suas identidades nos sujeitos. Esta relação denominada extensão do self, implica em uma forte
conexão entre o significado simbólico do bem possuído, a identidade do indivíduo e a definição
de si (BELK, 1988). Sendo assim, o copo menstrual estende-se como uma ferramenta que
permite fazer coisas que sem ele as mulheres participantes teriam dificuldade. Permitem às
participantes conduzirem suas rotinas tranquilamente, sem atribulações e restrições que antes
experimentavam devido ao período menstrual e aos absorventes convencionais utilizados. Além
disso, proporciona o autoconhecimento, a valorização de ideologias que representam seus
valores, pensamentos e modos de vida, atuando como um fornecedor de significados para as
suas relações cotidianas. Este artefato é compreendido como algo tão íntimo que as
participantes o tratam pelo nome de “copinho”, devido ao reconhecimento dos benefícios e
mudanças percebidas após a sua utilização.
À vista disso, a partir do uso do coletor menstrual as mulheres participantes
compreenderam que, em muitas arenas da vida social, a menstruação, o ciclo reprodutivo e o
bom relacionamento com corpo feminino são assuntos censurados. Todas, em diferentes
momentos do grupo focal, trouxeram relatos exemplificando outras mulheres que afirmaram
sentir nojo de si mesmas e sujas, só por estarem menstruadas. No entanto, as integrantes do
grupo após o uso do coletor passaram a encarar este período como algo natural e higiênico, e
compreendem que todas as reações são partes do corpo da mulher.
Compreende-se que o maior preconceito sofrido pelas mulheres que utilizam o coletor
vem de outras mulheres, que estão na posição de mães, amigas, colegas de trabalho e parentes
próximas. Segundo as participantes, estas ainda não compreendem o próprio corpo, sentem
receio em conhecê-lo e discriminam aquelas que o fazem.
No entanto, surgiram alguns relatos que mencionaram homens como locutores de
mensagens preconceituosas e repletas de signos machistas. Essa relação foi observada na fala
de Joana e Maria. Joana expôs ao grupo seu diálogo com seu médico ginecologista, que até o
momento a acompanhou. O profissional da saúde não soube informá-la sobre os benefícios do
coletor, fez críticas sem fundamentos científicos e ao final disse: “você é dessas? ”, fazendo
uma referência negativa ao movimento feminista. Complementando o relato anterior, Maria
expôs que também enfrentou o preconceito em relação ao coletor vindo de um amigo, ao
mencionar as falas: “nossa que nojo você usa esse negócio? Que coisa nojenta, depois você tira
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o sangue escorre na sua mão”. Todas as participantes se opuseram veemente ao teor
preconceituoso do comentário e concordaram com a recorrência deste tipo de reação.
Além do combate à discriminação ao corpo feminino as mulheres utilizam o coletor
como meio para demonstrarem sua força. Carol, refere-se a esta relação com o nome de “efeito
dominó”. Para a participante, a mudança de comportamento vislumbrada após o uso do coletor
menstrual proporciona a compreensão que a menstruação não é algo impuro, passível de ser
escondido. Além disso, este efeito impele uma reação de questionamento perante a diversos
padrões impostos pela sociedade que abordam a temática do coletor menstrual e outras
circunstâncias da vida da mulher, como opção sexual, liberdade de expor suas necessidades, a
de não seguir padrões de beleza predeterminados, dentre outros aspectos.
As participantes, depois de descobrirem os benefícios expostos e não manifestos do
coletor menstrual, se sentem na obrigação de informar outras mulheres sobre as vantagens
adquiridas. Esta afirmação é confirmada, ao perceber que a maioria das mulheres só adquiriram
o produto depois de consultarem alguma amiga ou revendedora que conviva em uma realidade
próxima à sua. Contudo, quando não existiam mulheres próximas à sua realidade para auxiliá-
las na compra, buscaram informações em grupos de rede social, constituídos apenas por
mulheres às quais vinculam todas as informações necessárias sobre o item. À vista disso, Paola
expõe que a partir do momento que começou a utilizar o coletor se sente na obrigação de
“militar” sobre a causa, informação essa que obteve concordância e foi saudada por todas as
mulheres presentes no grupo.
Ressalta-se que os bens de consumo permitem que um sujeito se diferencie apenas por
usá-los. Nesse sentido, as usuárias do coletor menstrual não se distinguem por características
físicas externas, mas através da sua atitude interna que viabiliza o bom relacionamento com os
seus corpos e reconhecimento das vantagens do ciclo reprodutivo da mulher. Logo, os símbolos
encontrados no consumo do coletor permitem amplas transformações que alteram os discursos
historicamente construídos viabilizando a reforma das identidades femininas e, sendo possível
através do uso do coletor menstrual expressar, confirmar e verificar uma sensação de
pertencimento (BELK, 1988).
Esta afirmação é testemunhada a partir do questionamento feito sobre qual seria o perfil
das consumidoras do coletor menstrual. As respostas das participantes levaram à construção de
uma consumidora menos conservadora, desejosa de novas experiências e aberta para mudanças,
preocupada com questões sustentáveis, ambiciosa por sua liberdade, que se esforça para se
autoconhecer e ter maior consciência corporal, que deseja encontrar sua natureza feminina e
aceitá-la, além de ser adepta ao movimento feminista. A fala de Sofia resume está construção
e permite maior entendimento sobre o empoderamento proporcionado pelo coletor menstrual:
“O coletor me permitiu me conhecer mulher, me aceitar mulher... Quando eu aceitei
que eu era mulher, que eu menstruava, que eu era normal, eu tomei as rédeas do meu
corpo e quando você toma as rédeas do seu corpo você toma as rédeas do mundo.
Você não deixa que ninguém te aponte mais, essa é uma das coisas que mais me
motiva. E poder tocar e pensar isso é tão cheiroso! E lindo.... A gente fica mais crítica,
você questiona a forma de se vestir, a sua alimentação, o estilo do seu cabelo. Isso
gera autoconfiança! Depois disso não me abalo de forma nenhuma! ” (Sofia, 25 anos,
usuária do coletor menstrual).
Dessa forma, não se consideram mais como sujeitos genéricos. Ao contrário,
compreendem-se como mulheres representativas da própria realidade, com identidades únicas
e historicamente construídas, capazes de assimilar a importância de adquirir consciência do
autoconhecimento e valorização da sua realidade (HALL, 2006).
5. Considerações Finais
A partir da compreensão dos significados atribuídos ao coletor menstrual foi possível
compreender o consumo deste se relaciona com a construção da identidade das consumidoras
residentes na cidade de Lavras-MG. Para esse fim, optou-se pela realização de dois grupos
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focais com quinze mulheres distintas, que possuem experiências e opiniões diversas sobre o
consumo deste bem.
Em relação aos aspectos práticos do consumo, as participantes entendem que as
principais barreiras para a adesão ao “copinho” são afetadas pelo processo de adaptação. O
valor praticado pelo mercado é considerado elevado, sendo o preço inicial alto em relação ao
risco aliado ao produto. Além disso, a falta de autoconhecimento das mulheres, que possuem
um histórico de repreensão em relação ao próprio corpo e à sua sexualidade que impedem o
manuseio da região íntima feminina e dificultam o aprendizado sobre elas mesmas. Ademais,
as informações sobre onde encontrar, como usar, formas de higienização, os tipos ideais para
cada mulher e até mesmo quais características femininas são capazes de determinar a compra,
não são encontradas facilmente. Portanto, é necessário buscar por outras mulheres que já tem
experiência com o item para orientá-las, já que as mídias convencionais e até mesmo os médicos
ginecologistas, conforme os relatos, muitas vezes, não são capazes de direcioná-las para a
compra consciente.
No entanto, as participantes reforçam que todos as desvantagens mencionadas são
irrisórias se comparados às vantagens alcançadas com o uso do “copinho”. Portanto, o interesse
e o entusiasmo pelo coletor menstrual são estimulados neste contexto devido à consciência
ligada às preocupações ambientais que reforçam a ideia de reduzir a produção de lixo
proveniente do uso dos absorventes descartáveis. As mulheres adquirem este produto visando
aspectos relativos a saúde do corpo feminino, visto que reduz a proliferação do odor menstrual,
o extravasamento do sangue menstrual, o atrito nas áreas genitais, o desenvolvimento de
infecções, dentre outros. Além disso, o “copinho” estimula o bom relacionamento das mulheres
com o seu corpo, que passam a compreender todas as etapas do ciclo reprodutivo como naturais
e saudáveis.
Foi possível verificar que, além dos benefícios pessoais gerados, o uso do coletor
menstrual proporciona aos atores sociais estudados o discernimento sobre aspectos capazes de
transformar a sociedade contemporânea. Esta contribuição foi vista nos diálogos das
participantes que reiteraram sobre a ascensão de uma consciência grupal a partir do uso do
coletor, o qual visa auxiliar mulheres a romper com antigos padrões, que muitas vezes,
limitavam o seu comportamento. Portanto, as participantes se conectam a concepções mais
críticas que revelam o que é apropriado para a realidade de cada mulher em arenas diversas da
vida social.
A partir da investigação deste universo, as empresas que atuam em segmentos similares
podem utilizar as informações exploradas para fomentar seu mercado de atuação, a partir da
construção de novas consciências mercadológicas relativas a sustentabilidade, a saúde e
promoção da autonomia das consumidoras. Da mesma forma, podem impulsionar a consciência
relacionada ao empoderamento feminino e o apelo a emancipação de suas consumidoras.
Portanto, todas análises reiteram a capacidade deste item em beneficiar não só as usuárias do
“copinho”, mas todos os agentes sociais que estão em contato com este mercado. Sendo capaz,
através dos resultados da pesquisa, de fomentar novos modelos de negócio, com o intuito de
aprimorarem competências para atingir de forma efetiva o seu público-alvo.
No que se refere às limitações da pesquisa, foram encontradas barreiras durante a sua
execução, sendo a de maior relevância, relacionada à localização geográfica utilizada para
desenvolver o focus group, que foi realizado apenas com mulheres em uma única cidade de
médio porte do interior de Minas Gerais. Neste cenário, poucas mulheres conhecem o coletor
menstrual e muitas das convidadas não compareceram ao estudo. Logo, sugere-se a realização
de estudos semelhantes em grandes centros urbanos, além de pesquisas com grupo de mulheres
que já usaram o coletor e não aprovam o uso, bem como, investigações aprofundadas com as
empresas responsáveis por produzir e disponibilizar no mercado brasileiro os coletores
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menstruais com o intuito de entender as principais limitações e competências relacionadas à
comercialização deste item.
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Article
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The use of counterfeit versions of luxury brands is a growing phenomenon. Viewing their use by others may lead consumers to change their perceptions of the genuine brand. In several experiments, female participants viewed (or imagined) a female of varying social classes using a counterfeit or genuine product and were subsequently asked about the genuine luxury brand. While people were drawn toward the genuine brand more when in-groups than out-groups used counterfeits, asymmetries occurred. Higher classes denigrated the brand when lower (versus higher) classes used counterfeit brands, but lower classes did not denigrate when higher classes used them. A conceptual account, based on asymmetries of social hierarchies and greater uncertainty of counterfeit (than genuine) product benefits, was supported, with feelings of connection to the luxury brand as mediator. Asymmetric effects were reduced among consumers highly familiar with the genuine brand. Implications for marketing and protection from brand dilution are discussed.
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Com base na experiência brasileira das últimas décadas, o texto aborda o feminismo como um fenômeno que, embora enuncie genérica e abstratamente a emancipação feminina, se concretiza no âmbito de contextos sociais, culturais, políticos e históricos específicos. O artigo mostra, inicialmente, o feminismo no Brasil, nos anos 1970, como um movimento de mulheres que se configura em oposição à ditadura militar e que foi se desenvolvendo, nas décadas seguintes, dentro das possibilidades e limites que se explicitaram no processo de abertura política. Argumenta-se, entretanto, que as dificuldades enfrentadas pelo feminismo brasileiro não dizem respeito apenas aos constrangimentos da conjuntura em que se manifestou, mas a impasses de ordem estrutural do feminismo, uma vez que as mulheres não são uma categoria universal, exceto pela projeção de nossas próprias referências culturais. Sua existência social e cultural implica a diversidade, instituindo fronteiras que recortam o mundo culturalmente identificado como feminino. A análise do feminismo, assim, requer a referência ao contexto de sua enunciação, que lhe dá o significado. Da mesma maneira, a análise das relações de gênero implica considerar a noção de pessoa, tal como concebida no universo simbólico ao qual se referem essas relações.
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Menstrual cups have been available for decades, but their use is limited by bulky design and the need for multiple sizes. The Softcup® (Instead, Inc., San Diego, CA) is a simple single-size disposable over-the-counter (OTC) menstrual cup that compresses to tampon shape to facilitate insertion and can be worn during coitus. This report describes preclinical evaluation, clinical testing, and postmarketing monitoring of the Softcup. Preclinical testing complied with U.S. Food and Drug Administration (FDA) guidelines and used standard United States Pharmacopoeia methodologies for assessment of potential toxicity. Clinical testing enrolled 406 women in seven U.S. centers. A detailed written questionnaire assessed safety, acceptability, and effectiveness for menstrual collection. Study safety parameters included pelvic examinations, Pap smears, colposcopy, urinalysis, vaginal pH, wet mounts, gram stain, and vaginal microflora cultures. Postmarketing surveillance of over 100 million Softcups has been conducted by the manufacturer and by the FDA Medwatch system. No toxicity or mutagenicity was observed in preclinical evaluations. In clinical testing, after three cycles of cup use, 37% of subjects rated the cup as better than, 29% as worse than, and 34% as equal to pads or tampons. The cup was preferred for comfort, dryness, and less odor. Cups received lower ratings for disposal and convenience. Eighty-one percent of enrolled women were able to insert and remove their first cup using only written instructions. Use difficulties resulting in study discontinuations included cramping (1%), leakage (1%), and improper fit (3%). No safety parameters were adversely affected. No significant health risks were reported during postmarketing surveillance. These results demonstrate that a single-size vaginal device has no significant health risks and is acceptable to many women without the need for fitting or other medical services.
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Our possessions are a major contributor to and reflection of our identities. A variety of evidence is presented supporting this simple and compelling premise. Related streams of research are identified and drawn upon in developing this concept and implications are derived for consumer behavior. Because the construct of extended self involves consumer behavior rather than buyer behavior, it appears to be a much richer construct than previous formulations positing a relationship between self-concept and consumer brand choice.
Article
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This article provides a synthesizing overview of the past 20 yr. of consumer research addressing the sociocultural, experiential, symbolic, and ideological aspects of consumption. Our aim is to provide a viable disciplinary brand for this research tradition that we call consumer culture theory (CCT). We propose that CCT has fulfilled recurrent calls for developing a distinctive body of theoretical knowledge about consumption and marketplace behaviors. In developing this argument, we redress three enduring misconceptions about the nature and analytic orientation of CCT. We then assess how CCT has contributed to consumer research by illuminating the cultural dimensions of the consumption cycle and by developing novel theorizations concerning four thematic domains of research interest. (c) 2005 by JOURNAL OF CONSUMER RESEARCH, Inc..
Rio de Janeiro: FGV, 2006. BARDIN, I. Análise de conteúdo
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BARBOSA, L., CAMPBELL, C. (org). Cultura, consumo e identidade. Rio de Janeiro: FGV, 2006. BARDIN, I. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições Setenta,1994.
Cidades de médio porte são as que mais crescem, aponta IBGE. Folha de São Paulo
  • V Borlina Filho
BORLINA FILHO, V. Cidades de médio porte são as que mais crescem, aponta IBGE. Folha de São Paulo. 2012. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/63963cidades-de-medio-porte-sao-as-que-mais-crescem-aponta-ibge.shtml> BOURDIEU, P. Las reglas del arte: génesis y estructura del campo literario. Anagrama, 1995.
A behind-the-scenes look at the safety assessment of feminine hygiene pads
FARAGE, M. A. A behind-the-scenes look at the safety assessment of feminine hygiene pads. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 1092, n. 1, p. 66-77, 2006. GEERTZ, C. A Interpretação das Culturas. São Paulo: Editora LTC, 1981.
Pesquisa qualitativa em estudos organizacionais: paradigmas, estratégias e métodos. São Paulo: Saraiva
  • R Silva
  • A Da
GODOI, C. K.; BANDEIRA-DE-MELLO, R.; SILVA, A.B da. Pesquisa qualitativa em estudos organizacionais: paradigmas, estratégias e métodos. São Paulo: Saraiva, v. 2, 2006. GONÇALVES, Rafael Ramos. Identidade, consumo e sociabilidade: implicações éticas. Estudos e pesquisas em Psicologia, v. 9, n. 1, p. 185-198, 2009. HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. TupyKurumin, 2006.