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Recursos Perfeitos, Turismo e Singularidades Territoriais: Contributos Para o Desenvolvimento de Uma Linha de Turismo Científico na Golegã Perfect Resources, Tourism and Territorial Singularities: Contributions To the Development of a Scientific Tourism Line in Golegã

Abstract

Resumo/ Abstract Este artigo tem como objectivo discutir os fundamentos susceptíveis de suportar o desen-volvimento de uma linha de turismo científico na Golegã. Partindo-se de um enquadramento teórico-conceptual que relaciona o território, a competitividade e a coesão territorial, o turismo e a política pública, o artigo apresenta quatro novos conceitos: recursos perfeitos, coerência territorial, singularidades económicas e territo-riais. O turismo científico é ainda uma linha de turismo pouco explorada, quer em Portugal quer internacionalmente. Contudo, neste mo-mento, existem condições muito favoráveis à discussão desta temática, nomeadamente em termos político-institucionais. O caso em estudo reporta-se à Golegã, onde a hipótese de uma linha de turismo científico é fundamentada na articulação de um conjunto de recursos com a necessária construção de um processo de coe-rência territorial associado. Palavras-chave: competitividade e coesão territorial , turismo científico, recursos perfeitos, singularidades territoriais, Golegã This article aims to discuss the fundamentals that can support the development of a scientific tourism line in Golegã. Starting from a theoretical conceptual framework that relates territory, competitiveness and territorial cohesion, tourism and public policy, the article presents four new concepts: perfect resources, territorial coherence , economic and territorial singularities. Scientific tourism is still a line of tourism little explored, both in Portugal and internationally. However, now there are very favorable conditions for discussing this issue, particularly in politico-institutional terms. The case study concerns the Golegã, where the hypothesis of a scientific tourism line is based on the articula-tion of a set of resources with the necessary construction of a territorial coherence process associated.
Artigo submetido a 3 de Março de 2018; versão final aceite a 1 de Maio de 2018
Paper submitted at March 3, 2018; final version acepted at May 1, 2018
Recursos Perfeitos, Turismo e Singularidades Territoriais:
Contributos Para o Desenvolvimento de Uma Linha de
Turismo Científico na Golegã
Perfect Resources, Tourism and Territorial Singularities: Contri-
butions To the Development of a Scientific Tourism Line in
Golegã
Sérgio Paulo Leal Nunes
spnunes@ipt.pt
Centro de Investigação Aplicada em Economia e Gestão do Território Instituto Politécnico
de Tomar, DINÂMIA-CET-Instituto Universitário de Lisboa
CIRIUS-ISEG-Universidade de Lisboa
Vanda Cristina Brito e Sousa
vandasousa33@hotmail.com
Centro de Investigação Aplicada em Economia e Gestão do Território Instituto Politécnico
de Tomar
Resumo/ Abstract
Este artigo tem como objectivo discutir os
fundamentos susceptíveis de suportar o desen-
volvimento de uma linha de turismo científico
na Golegã. Partindo-se de um enquadramento
teórico-conceptual que relaciona o território, a
competitividade e a coesão territorial, o turismo
e a política pública, o artigo apresenta quatro
novos conceitos: recursos perfeitos, coerência
territorial, singularidades económicas e territo-
riais. O turismo científico é ainda uma linha de
turismo pouco explorada, quer em Portugal
quer internacionalmente. Contudo, neste mo-
mento, existem condições muito favoráveis à
discussão desta temática, nomeadamente em
termos político-institucionais. O caso em estudo
reporta-se à Golegã, onde a hipótese de uma
linha de turismo científico é fundamentada na
articulação de um conjunto de recursos com a
necessária construção de um processo de coe-
rência territorial associado.
Palavras-chave: competitividade e coesão terri-
torial, turismo científico, recursos perfeitos,
singularidades territoriais, Golegã
This article aims to discuss the fundamentals
that can support the development of a scientific
tourism line in Golegã. Starting from a theoreti-
cal-conceptual framework that relates territory,
competitiveness and territorial cohesion, tour-
ism and public policy, the article presents four
new concepts: perfect resources, territorial co-
herence, economic and territorial singularities.
Scientific tourism is still a line of tourism little
explored, both in Portugal and internationally.
However, now there are very favorable condi-
tions for discussing this issue, particularly in
politico-institutional terms. The case study con-
cerns the Golegã, where the hypothesis of a
scientific tourism line is based on the articula-
tion of a set of resources with the necessary
construction of a territorial coherence process
associated.
Keywords: competitiveness and territorial cohe-
sion, scientific tourism, perfect resources, terri-
torial singularities, Golegã
Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 50
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Código JEL: R11; Z32; Z38 JEL Codes R11; Z32; Z38
1. INTRODUÇÃO
O turismo científico é ainda uma linha de
turismo pouco explorada, quer em Portugal
quer internacionalmente. Contudo, neste mo-
mento, existem condições muito favoráveis à
discussão desta temática. Em primeiro lugar,
pela natureza dos recursos em causa e do seu
significado económico, social e corresponden-
tes relações com a política pública. Em segun-
do lugar, existe actualmente um conjunto alar-
gado e coerente de condições político-
institucionais neste domínio que favorecem
objectivamente o turismo científico: o progra-
ma Cultura e Ciência (C2), desenvolvido pela
Secretaria de Estado do Ensino Superior, em
articulação com outros organismos da adminis-
tração pública; o reconhecimento da importân-
cia do turismo para a dinamização económica
das regiões (Estratégia Turismo 2027) e do
turismo científico, especificamente a Reco-
mendação da Assembleia da República (RAR)
n.º 197/2017; a coerência desta proposta com
os documentos estratégicos da região e do
concelho da Golegã (Plano Estratégico da Le-
zíria do Tejo 2014-2020 e Plano Estratégico
Desenvolvimento Urbano PEDU 2014-
2020); e, não menos importante, a abordagem
desenvolvida neste artigo articula-se com os
fundamentos da estratégia de especialização
inteligente RIS3 (variedade relacionada,
efeitos multiplicadores, place-based approach
e practice based-research).
Apesar do enquadramento político-
institucional favorável ao desenvolvimento
desta tipologia de projectos, acredita-se que a
eficácia no seu desenho e na sua imple-
mentação poderá ser aumentada se existir uma
coerência teórico-conceptual que permita en-
quadrar devidamente as relações entre o terri-
tório, a competitividade e a coesão territorial, o
turismo e a política pública. Tal convicção
resulta do facto desse enquadramento procurar
clarificar os espaços, os actores e os mecanis-
mos através dos quais se pode dinamizar ade-
quadamente esta estratégia.
Este texto tem, por isso, dois objectivos
fundamentais. O primeiro, passa por construir
um quadro teórico-conceptual que permita
conferir uma dinâmica colectiva, evolutiva e
territorial aos processos conducentes a acrés-
cimos de competitividade e coesão. O segundo
objectivo passa por particularizar uma linha de
turismo científico na Golegã como ilustração
empírica do primeiro objectivo, conferindo à
experiência linhas de intervenção coerentes e
executáveis. Para além desta introdução, o
artigo está estruturado em quatro secções: a
primeira articula a relação entre território e
desenvolvimento regional e apresentam-se os
conceitos de recursos perfeitos, coerência terri-
torial, singularidades económicas e terri-
toriais, como forma de relacionar teoricamente
a natureza territorial da política pública e dos
processos de competitividade e de coesão,
onde o turismo científico é suscetível de confi-
gurar um caso particular desta dinâmica; na
segunda secção descrevem-se algumas experi-
ências internacionais associadas ao turismo
científico, com destaque para o caso do Chile e
da Região de Aysén e sumarizam-se, igual-
mente, algumas experiências portuguesas; a
terceira secção é dedicada ao desenvolvimento
do caso de estudo da Golegã. Termina-se com
as conclusões e com algumas pistas e reflexões
para o futuro.
2. A CONCEPÇÃO DE TURISMO
COMO SINGULARIDADE TERRI-
TORIAL
2.1 Território e Desenvolvimento
Regional
A abordagem desenvolvida nesta secção
inspira-se, como ponto de partida, nas aborda-
gens à competitividade territorial e ao desen-
volvimento endógeno, mais concretamente nas
teorias de desenvolvimento regional que fazem
do espaço um activo relacional (ver, por exem-
plo, Capello, 2007). O conceito de território
adoptado neste texto encontra-se filiado no
âmbito da economia do território e suporta-se
conceptualmente na perspectiva de que o terri-
tório é um sujeito de poder nos processos de
desenvolvimento regional (Alves, 2001; Lo-
pes,1995). Nesta perspectiva, o território é a
sobreposição de múltiplas dimensões de espa-
ços: um espaço físico (escala geográfica), um
espaço de relações (actores, redes e dinâmicas
de interacção) e um espaço político-institucio-
nal (resultante da coordenação entre diferentes
Recursos Perfeitos, Turismo e Singularidades Territoriais: Contributos Para o Desenvolvimento
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órgãos de poder e da integração num espaço
concreto das suas diferentes políticas). Signifi-
ca, desde já, que sempre que se utilize o quali-
ficativo de territorial, não se pode deixar de
levar em consideração a dinâmica relativa à
evolução da integração num território concreto
destas três dimensões e das tensões associadas,
isto é, o território é um resultado das comple-
xas interdependências entre a dimensão do
mercado, a dinâmica de interacções e um en-
quadramento político-institucional mais ou
menos favorável a concretizações económicas
e sociais (Camagni, 2008).
Em termos mais particulares e procurando
espaço para futuras acções de operacionali-
zação de conceitos e estratégias, podemos con-
ceptualizar a relação entre território e desen-
volvimento regional como um processo sisté-
mico (entre múltiplos actores, os seus objecti-
vos/actividades e as suas dinâmicas), interacti-
vo (decorrente das múltiplas interdependências
associadas) e cumulativo (path dependent), isto
é, um processo complexo com elevada incerte-
za estrutural (ver, por favor, o quadro 1).
Este processo envolve diversas tensões, por
exemplo entre eficiência e equidade, entre
expectativas e resultados ou entre desejos e
possibilidades. Como consequência, a gestão
das tensões e dos dilemas associados condicio-
na fortemente o processo de desenvolvimento
regional. Se não é fácil quantificar e qualificar
o desenvolvimento regional numa métrica
inquestionável, é relativamente mais fácil ava-
liar algumas das suas principais manifesações e
dos seus resultados mais encontro- versos.
Nestes termos, podemos dizer que é um pro-
cesso que procura maximizar simultanea-
mente (no tempo e nos espaços) um equilíbrio
instável entre o crescimento económico (pro-
dução, emprego, exportações, investimentos) e
a sustentabilidade (recursos, famílias, compor-
tamentos, mobilidades), isto é, um processo
que procura gerir uma tensão difícil de realizar
entre eficiência e equidade.
Quadro 1 - Território e Desenvolvimento Regional
Território (concepção)
Desenvolvimento Regional
Natureza objectiva: resultados
Competitividade e Coesão Territorial
Natureza processual
Espa-
ço
físico
Espaço de
Interac-
ções
Espaço
político
institucio-
nal
Crescimento
Emprego
Eficiên-
cia
Competitivida-
de
Atractividade
Desenvolvimento Regional =
resultado destas dinâmicas que
envolvem múltiplas tensões e
dilemas entre recursos (humanos,
físicos, tecnológicos) e processos
(órgãos de poder, natureza dos
agentes, objectivos e estratégias,
modelos de governância)
Produção
Exportações
Conectivida-
de
Investimento
Sustentabilida-
de
Recursos
Equida-
de
Coesão
Proximidade
Famílias
Comportamen-
tos
Acesso
Mobilidade
Fonte: Elaboração própria
A abordagem que se tem vindo a desenvol-
ver salienta com maior ênfase a natureza o
que é (d)o desenvolvimento regional. Vamos
mudar ligeiramente o ângulo de abordagem, no
sentido de nos aproximarmos tanto quanto
possível dos processos e das dinâmicas atra-
vés dos quais é possível condicionar o proces-
so de desenvolvimento regional. Neste sentido,
não será demasiado subjectiva a argumentação
de que os objectivos de um qualquer território
num mundo globalizado e interdependente
estão, inevitável e crescentemente, associados
às suas dinâmicas de competitividade e de coe-
são territorial (C&CT) (Camagni, 2002; CE,
2008; Lopes, 2001; Mateus et al., 2005).
A competitividade deverá ser entendida en-
quanto binómio auto-reforçante de atractivida-
de (de recursos, nas suas múltiplas manifesta-
ções) e de conectividade (pela via da constru-
ção de redes e de interacções diversas) e a coe-
são enquanto integração territorial dos concei-
tos de proximidade (nas suas diversas tipolo-
gias) e de acesso (material, institucional e fi-
nanceiro). Atractividade sem conectividade
conduz os territórios a situações de lock-in
económico, social e político; enquanto que
proximidade sem acesso conduz os territórios a
desequilíbrios sociais e institucionais graves:
Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 50
30
as comunidades encontram-se geograficamente
próximas dos bens, equipamentos e/ou servi-
ços, mas por múltiplas razões (materiais, físi-
cas, cognitivas) não lhes conseguem aceder (no
sentido concreto de utilização e consumo). Por
outro lado, conectividade sem atractividade, e
acesso sem proximidade, fazem de nós apenas
consumidores virtuais sem participação sobre a
função de produção territorial e os seus im-
pactos, nomeadamente em termos de dinâmi-
cas de conhecimento e de inovação e do apro-
veitamento das diversas curvas de aprendiza-
gem inerentes às suas actividades e processos.
A coevolução da eficiência e da equidade
conducente a acréscimos irreversíveis de
C&CT exige, por isso, o envolvimento total e
esclarecido dos diversos actores regionais e
nacionais e, em algumas circunstâncias, mes-
mo dos actores supranacionais. Por outro lado,
o conhecimento e a sua gestão têm vindo a
ganhar importância enquanto recurso essencial
na produção e distribuição de riqueza dos dife-
rentes territórios (Lorenz e Lundvall, 2006;
Lundvall e Johnson, 1994; OCDE, 1996; Fo-
ray, 2006), assim como na concepção da polí-
tica pública (mecanismo essencial na prosse-
cução de objectivos económicos e sociais que
emanam directamente do território e os seus
agentes) (EU, 2010; Ferrão, 2011). Deriva,
logicamente, destas considerações que os pro-
jectos que pretendam contribuir para aumentar
a C&CT devem suportar a sua orgânica em
dinâmicas de aprendizagem, de conhecimento
e de inovação (Cappellin e Wink, 2009; Lund-
vall, 2006).
Ora, a questão essencial, em termos de in-
vestigação e conceptualização do espaço de
intervenção (política pública e empresarial)
nesta dinâmica de desenvolvimento, passa pela
capacidade de cruzar este processo (desde a
sua natureza até à natureza dos seus processos)
com a concepção de território explicitada, de-
finindo modelos e mecanismos susceptíveis de
gerir as tensões e os dilemas inerentes à com-
plexidade de um processo de desenvolvimento
regional, ou mais concretamente, de potenciar
para níveis mais elevados a competitividade e
a coesão territorial. Cada experiência territori-
al é, assim, uma tentativa de apropriação terri-
torial relativa ao controlo de algumas das di-
mensões mais relevantes do processo de de-
senvolvimento, por via da gestão eficaz das
tensões inerentes ao desenvolvimento regional.
2.2 Recursos Perfeitos, Singularidades e
Turismo
A intervenção no processo de C&CT tem
como objecto os recursos e os processos que
lhe estão associados e, necessariamente, a sua
forma de relacionamento. Um dos argumentos
principais que se deseja apresentar e explorar
defende que a natureza dos recursos e a coe-
rência dos processos condiciona a estratégia de
C&CT, uma vez que a dimensão territorial que
pode surgir da sua articulação potencia a diver-
sa tipologia de ganhos de C&CT. Relativamen-
te aos recursos, importa avaliar em que medida
existem, onde estão, saber se é possível mobi-
lizá-los para os nossos objectivos e definir
claramente a sua natureza. Neste âmbito, os
recursos não têm todo o mesmo potencial para
de igual forma atingir os objectivos em causa.
Há, por isso, recursos mais apropriados do que
outros, ou seja, são mais ou menos perfeitos,
na acepção que desejamos introduzir nesta
abordagem. A nossa proposta passa por classi-
ficar um recurso em termos do seu grau de
perfeição (Nunes e Sousa, 2017). Para isso,
sugere-se que um recurso perfeito tem sete
características:
1. Escasso em termos globais
2. Abundante em termos locais
3. Controlo local do recurso
4. Enraizamento territorial (difícil imitação e
deslocalização; aspectos identitários)
5. Efeitos multiplicadores (diretos, indiretos e
induzidos)
6. Utilização obriga à preservação (sustentabi-
lidade)
7. Procura global (viabilidade)
O conceito de recurso perfeito é central na
nossa abordagem. Importa, por isso, deixar
algumas notas sobre este conceito. Os recursos
perfeitos não têm uma natureza binária, nem
estática ou absoluta no tempo e no espaço e da
mesma forma que podem ser aperfeiçoados,
também podem perder perfeição. Os recursos
perfeitos são uma possibilidade entre várias,
que resulta de uma construção política, eco-
nómica e social. Um outro aspecto importante
decorre da possibilidade de, num momento do
tempo, os agentes locais deterem os mecanis-
mos de controlo de um recurso perfeito. Con-
tudo, isso nada nos diz sobre a nacionalidade e
a racionalidade desse controlo, isto é, a exis-
tência do recurso pode não garantir a sua
Recursos Perfeitos, Turismo e Singularidades Territoriais: Contributos Para o Desenvolvimento
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exclusividade. Recursos perfeitos que não são
aproveitados pela comunidade local acabam
por ser explorados por agentes fora da comu-
nidade, com perda de controlo das dinâmicas
de apropriação de valor económico e, normal-
mente, não salvaguardando as condições de
preservação e sustentabilidade dos recursos.
Adicionalmente, deve salientar-se que a partir
de um determinado grau de perfeição os recur-
sos começam a atrair as atenções dos diversos
agentes económicos (nacionais e internacio
nais) e o grau de mobilidade internacional irá
rapidamente traduzir-se num jogo de concor-
rência pela competência. Por outro lado, a pro-
cura global, e o valor de mercado que esta lhe
atribui, determina o limiar económico (mínimo
e máximo) de um recurso perfeito. Finalmente,
a preservação de um recurso perfeito não de-
pende, necessariamente, da dinâmica da procu-
ra (mercado). As dinâmicas de viabilidade
económica e de preservação são auto-
reforçantes embora largamente independentes,
quer nas estratégias quer nos mecanismos que
as suportam e nos agentes que as corporizam.
Relativamente aos processos e à sua eficá-
cia, defende-se que a eficácia do processo de
intervenção sobre um recurso perfeito será
tanto maior quanto maior for também a sua
coerência territorial. A coerência territorial
(geográfica, económica e institucional) do
processo que pretende intervir no âmbito de
um recurso (mais ou menos perfeito) resulta da
articulação e integração territorial de três
componentes que permitem conferir operacio-
nalidade ao conceito:
i. Governance destes territórios (coordenação
de processos, estratégias e racionalidades sub-
jacentes ao capital político-institucional);
ii. As diferentes bases de conhecimento e os
modos de aprendizagem correspondentes;
iii. A estrutura económica e social regional.
Em síntese, estas três dimensões devem fa-
zer emergir uma massa crítica mínima de acto-
res, estratégias e meios que conferem coerên-
cia territorial ao processo de transformação de
um recurso com potencial numa concretização
económica e social. Não se trata, evidentemen-
te, de uma coerência genérica; cada território
constrói a sua coerência territorial de acordo
com os seus objectivos e os recursos inerentes
à sua prossecução, suportados num quadro
político-institucional favorável a essa constru-
ção. A construção da coerência territorial con-
tribui para a qualificação do grau de perfeição
de um recurso e a política pública emerge co-
mo condição necessária ao processo.
Está-se agora em condições de apresentar
um novo conceito, o conceito de singularidade
1
económica (ver, por favor, figura 1). Nestes
termos, uma singularidade económica emerge
quando é possível identificar um recurso per-
feito e conferir-lhe coerência territorial. Por
sua vez, a singularidade económica pode, em
algumas circunstâncias, apresentar uma carac-
terística económica estruturalmente diferencia-
dora: a produção e o consumo são mediados
pela proximidade territorial, isto é, concreti-
zam-se (determinam-se) num mesmo ponto do
espaço. Neste caso, está-se perante uma singu-
laridade territorial
2
. Do ponto de vista concep-
tual, deriva logicamente da exposição supra
que o potencial de ambas as singularidades
para atingir níveis elevados de C&CT é máxi-
mo. Máximo no sentido em que o equilíbrio
entre competitividade e coesão entretanto atin-
gido fica associado a níveis de elevada irrever-
sibilidade territorial, no que diz respeito à po-
tencial desestruturação desse equilíbrio. Dito
de outro modo, a C&CT obtida através de sin-
gularidades é mais sustentável económica e
socialmente do que aquela obtida através de
processos exógenos de dinamização económi-
ca. A figura 1, analisada no sentido dos pontei-
ros do relógio, ajuda a ilustrar estes conceitos.
Em termos genéricos, a dinâmica económica
resulta da capacidade de combinar recursos e
processos de modo a produzir bens e serviços
de modo eficiente. Contudo, se se introduzir
uma diferenciação entre T territorial e SRT
sem referenciação territorial, em cada uma das
dimensões consideradas, qualificando-as de
acordo com o quadro conceptual desenvolvido
até agora, obtém-se um resultado bastante dife-
rente: à medida que os recursos ganham per-
feição, que os processos ganham coerência
territorial e que a produção se enraíza no terri-
tório, a dinâmica económica ganha contornos
de uma singularidade económica
3
. Se, em se-
guida, se introduzir a dimensão associada ao
consumo (com idêntica diferenciação) emerge,
1
A singularidade roubada à física é aqui usada, em
termos metafóricos, como forma de representar um
ponto de densidade elevada, uma concentração elevada
de massa recursos e processos num território.
2
Uma singularidade territorial é um caso particular de
uma singularidade económica.
3
Por exemplo, um cluster industrial pode configurar uma
singularidade económica.
Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 50
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potencialmente, uma singularidade territorial
que, também potencialmente, tem elevada pro- babilidade de contribuir para ganhos quali-
ficantes e menos irreversíveis de C&CT.
Figura 1 - Conceptualização de singularidades
Fonte: Elaboração própria
Na abordagem que se tem vindo a desen-
volver, o turismo é considerado um sector da
economia (Song et al., 2012). Contudo, como
qualquer sector da economia e das suas activi-
dades conexas, possui especificidades que
condicionam objectivamente as intervenções
no seu domínio, seja da política pública, seja
da política empresarial ou dos modos de ino-
vação (Hjalager, 2010; Nordin e Hjalager,
2017). Qual é a principal especificidade do
turismo, enquanto actividade económica? Esta
questão pode ter múltiplas respostas, embora
na nossa perspectiva o elemento central é que o
turismo é produzido e consumido num territó-
rio específico. Ao contrário da generalidade
dos bens e serviços económicos, onde o con-
sumo e a produção podem estar e geralmente
estão funcionalmente separados, ou em terri-
tórios diferentes, o turismo não possui estrutu-
ralmente essa característica; pelo contrário, o
turismo e o seu valor acrescentado, nomea-
damente em termos dos seus efeitos multipli-
cadores determina-se, quantifica-se e qualifi-
ca-se territorialmente. Esta especificidade,
raramente explicitada, tem consequências pro-
fundas, tanto do ponto de vista teórico como
empírico. Relativamente aos nossos objectivos,
a principal consequência é que o turismo pode
configurar uma singularidade territorial, isto é,
pode configurar uma manifestação de ubiqui-
dade económica (produção e consumo) num
mesmo território, a partir de uma integração
coerente, partilhada e desejada de recursos
perfeitos com coerência territorial.
Resulta desta perspectiva que, por um lado,
se se procurar dinamizar o processo de C&CT
através do turismo, essa intervenção será tanto
mais eficaz quanto mais nos aproximarmos do
conceito de singularidade territorial e a concre-
tização desse potencial é um desafio para in-
vestigadores, políticos, empresários e comuni-
dade em geral; por outro lado, o turismo tem
uma dimensão territorial inequívoca. A contri-
buição do turismo para ganhos de C&CT é,
pelas razões apresentadas, resultado de estraté-
gias conceptualmente partilhadas e conjunta-
mente implementadas. Isto significa que a
contribuição do turismo para a C&CT não é
apenas ou sobretudo o resultado de empre-
sas de turismo inovadoras e competitivas. É o
resultado dessa competitividade integrada num
quadro económico com coerência territorial e,
tanto quanto possível, construído a partir de
recursos territorialmente aperfeiçoados.
2.3 O turismo, a institucionalização do
valor e a política pública
Afirmou-se na secção anterior que a cons-
trução da coerência territorial contribui forte-
mente para a qualificação do grau de perfeição
de um recurso e, neste âmbito, a política públi-
Recursos Perfeitos, Turismo e Singularidades Territoriais: Contributos Para o Desenvolvimento
33
ca emerge como condição necessária ao pro-
cesso. Arrisca-se aqui o argumento de que não
haverá dimensão da competitividade do turis-
mo que não dependa directa ou indirectamente
da política pública (Kennell e Chaperon, 2018;
Bellini et al., 2017), entendida como um me-
canismo essencial de prossecução de objecti-
vos económicos e sociais que emanam de um
território. Contudo, nem sempre o que tem
valor para cada um de nós, ou mesmo de forma
colectiva para alguns de nós, é objecto de
ações de política pública. A evolução da per-
cepção de valor individual até à concretização
de valor colectivo objecto de política pública
não é uma tarefa fácil e consegue-se, nomea-
damente, através de mecanismos de institucio-
nalização de valor. Muitas vezes somos leva
dos a reconhecer que existem recursos com
elevado potencial de concretizações económi-
cas e sociais nos territórios, mas cuja operacio-
nalização tarda em acontecer. Tal dificuldade
justifica-se, na nossa perspectiva, pela insufici-
ente institucionalização do valor desses recur-
sos na sociedade, nomeadamente consubstan-
ciando opções de política pública.
Nunes (2010; 2011) desenvolveu um mode-
lo de análise e tomada de decisão para relacio-
nar a evolução de uma função de bem-estar
individual para uma função de bem-estar co-
lectiva através da institucionalização do valor.
A figura seguinte ajuda a ilustrar o argumento
principal.
Figura 2 - Modelo de Análise e Tomada de Decisão
Fonte: Nunes (2011)
Seguindo Nunes (2010; 2011), no eixo ho-
rizontal está representada a Percepção de Valor
Individual, isto é, a importância que nós, en-
quanto indivíduos, damos a um determinado
fenómeno. Essa importância aumenta à medida
que nos deslocamos da esquerda para direita ao
longo desse eixo horizontal. Por sua vez, esta
percepção traduz-se numa função de bem-estar
individual que integra a hierarquização das
nossas preferências (saúde, educação, trabalho,
justiça, lazer, segurança social…) ponderados
pelas diversas restrições que a sociedade nos
coloca (orçamentais, culturais, históricas, le-
gais, acesso ao conhecimento, etc.).
No eixo vertical está representada a Percep-
ção de Valor Colectivo. Grupos distintos den-
tro da sociedade seguindo a metodologia de
comportamento explicitada para os indivíduos
organizam-se em torno de interesses comuns
e, para um determinado fenómeno, o valor que
lhe reconhecem aumenta à medida que su-
bimos no eixo vertical. Deduz-se então uma
função de bem-estar colectiva que hierarquiza,
também, as vontades de grupos da sociedade
que se organizam de acordo com diferentes
tipos de regras e procedimentos. Ora, a forma
de prosseguir os dois tipos de funções é, como
se imagina, muito diferenciada, nomeadamente
no que concerne às estratégias e aos instrumen-
tos.
A evolução faz-se do valor individual para
o valor colectivo e, finalmente, para uma re-
Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 50
34
presentação política desse valor. Pensemos
agora na diagonal da figura. Sobre essa diago-
nal existe coincidência entre aquilo que tem
valor para nós enquanto indivíduos e a va-
lorização que a sociedade faz, de forma colec-
tiva, sobre o fenómeno em causa. Estão, então,
reunidas as condições mínimas para que de
forma colectiva se possam prosseguir os objec-
tivos que nós prosseguimos enquanto indiví-
duos. Essas soluções revestem-se, preferenci-
almente, por opções de política mais ou menos
formais. Facilmente se compreende que o tri-
ângulo abaixo da diagonal representa tudo
aquilo que nós valorizamos e desejamos indi-
vidualmente e que ainda não se encontra re-
flectido nos interesses colectivos da sociedade.
Por outro lado, o triângulo acima da diagonal
representa tudo aquilo que a sociedade prosse-
gue por via de uma determinada política, mas
na qual o indivíduo (ainda) não se sente repre-
sentado. Os conflitos entre indivíduos e grupos
e mesmo entre concepções diferentes da socie-
dade e a forma de os solucionar, nada mais são
do que os confrontos sucessivos em diferentes
tempos e espaços desta dinâmica de aprendiza-
gem individual e colectiva. Podemos dizer que,
deste ponto de vista, a sociedade é uma amál-
gama de motivações em permanente contradi-
ção e a natureza da sociedade (actual e num
futuro próximo) é resultado da evolução destas
dinâmicas.
Finalmente, sobre a diagonal principal te-
mos as diferentes escalas territoriais (interde-
pendentes, com os correspondentes órgãos de
poder) onde podem ocorrer equilíbrios e dese-
quilíbrios entre os diferentes agentes que já
identificámos. As políticas não têm todo o
mesmo âmbito, nem os agentes que as prosse-
guem têm todos as mesmas competências,
embora tenham todos a mesma legitimidade
para as implementar. São os modos de gover-
nância (partilhada e territorialmente integra-
dos) que contribuem fortemente para que os
territórios atinjam níveis mais ou menos eleva-
dos de C&CT.
A institucionalização do valor, isto é, trans-
formação de um valor individual em valor
colectivo, enquadrado pela política pública, é a
condição mínima para que recursos e estraté-
gias diferenciadas estejam em condições de
igualdade relativamente às diferentes opções
de política. Esta linha de argumentação é parti-
cularmente válida no turismo em geral, nome-
adamente se entendido enquanto singularidade
territorial, e nas suas dimensões emergentes
em particular, onde a necessidade de materiali-
zação e consolidação institucional mais se
fazem sentir, como é o caso do turismo cientí-
fico. Não é possível que recursos potencial-
mente perfeitos possam progredir para singula-
ridades territoriais, sem a coerência territorial
que lhe é conferida pela política territorial que
a consubstancia em última instância e como
síntese territorial do valor colectivo dos recur-
sos perfeitos. O turismo científico é uma des-
sas dimensões emergentes, da qual se fará uma
breve análise de seguida.
2.4 Turismo Científico
O turismo científico suporta-se no princípio
geral de que os indivíduos se deslocam com o
objectivo de fazer investigação científica, nas
suas mais diversas manifestações. O turismo
científico é, segundo Bourlon et al. (2011),
uma actividade geradora de conhecimento e de
mediação cultural. Bourlon et al. (2011) con-
ceptualizam o turismo científico através da
articulação da dimensão científica e da dimen-
são associada à mobilização pessoal para de-
senvolver as diversas actividades. Dessa articu-
lação, como se pode observar na figura 3, re-
sultam quatro possibilidades: turismo de inves-
tigação científica, eco-voluntariado científico,
turismo cultural com dimensão científica e
turismo de aventura com dimensão científica.
Dentro destes quatro grupos podem desenvol-
ver-se diversas tipologias de turismo científico,
tal como descrito na figura 4.
Resulta daqui que o turismo científico se
reveste, enquanto actividade económica, de
uma natureza cumulativa e biunívoca, contri-
buindo para o crescimento sustentável dos
territórios, muitas vezes fragilizados e com
ausência de activos e/ou acessibilidades procu-
rados pelo turismo de massas, através de pro-
cessos incrementais de competitividade e coe-
são territorial, ao invés alicerçados na singula-
ridade, no conhecimento, na investigação e na
inovação. Natureza cumulativa, porque se faz
com base em processos evolutivos e tem como
objecto recursos únicos de base territorial lo-
cal, cuja produção e consumo se efectivam no
mesmo espaço, que, por sua vez, capitaliza,
quer por via do investimento em conhecimento
e inovação que neles é integrado, preservando-
os, quer por via da geração de novos conteúdos
para investigação, valorizando-os.
Natureza biunívoca, porque paralelamente,
e adaptando aqui os conceitos da Ecologia,
Recursos Perfeitos, Turismo e Singularidades Territoriais: Contributos Para o Desenvolvimento
35
também o consumidor, enquanto parte inte-
grante do ecossistema formado pelo binómio turista/recurso, usufrui das relações de coope-
ração que se constroem (em que ambos os
Figura 3 - Turismo Científico e dimensões de análise
Fonte: Adaptado de Bourlon et al. (2011)
Figura 4 - Tipologias de Turismo Científico
indivíduos” tiram proveito da relação, produ-
zindo e absorvendo externalidades positivas),
na medida em que adquire o conhecimento
produzido (dimensão científica) e satisfaz a sua
motivação (mobilização pessoal), contribuindo
também ele com inputs para aqueles fins de
preservação e valorização do próprio recurso.
Acresce o facto, a que também o turismo
científico não é alheio, do papel estratégico da
actividade turística no desenvolvimento local
(ver, por exemplo, Bernardino et al., 2018),
pelo envolvimento de diferentes tipos de
parceiros públicos e privados (Eusébio et al.,
2014), e, consequentemente, pela dinamização
de outras actividades económicas complemen-
tares (ver, por exemplo, Rebocho, 2017), sendo
que no caso em apreço, acresce uma aliança
interativa entre o perfil de motivação lógica de
valorização pelo mercado de um produto único
e irrepetível e a sua capacidade de gerar conhe-
cimento com características de fungibilidade.
Desta forma, o turismo científico promove
dinâmicas que são geradoras de conhecimento,
preservação e valorização dos recursos perfei-
Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 50
36
tos ou de mediação cultural e, simultaneamen-
te, induzem a apropriação do seu valor econó-
mico de forma partilhada pelos actores sociais
locais, devido à mobilização de agentes e à
integração territorial do processo produtivo
que lhe está subjacente, condições, por sua vez,
favoráveis à aplicação do modelo conceptual
até aqui desenvolvido.
Em síntese, esta primeira parte procurou sa-
lientar a dimensão territorial dos processos
conducentes à dinamização da C&CT. Para
isso, partiu-se de uma definição multidimensi-
onal de território que permitiu qualificar os
recursos e a coerência dos processos com atri-
butos dessa definição, conduzindo-nos ao con-
ceito de singularidade territorial, como caso
particular de uma singularidade económica.
Por último, tomámos o turismo em geral e uma
das suas manifestações em particular, como
espaço intelectual de reflexão e consequente
intervenção empírica, relacionando o seu êxito
com a existência e a natureza da política públi-
ca que a condiciona e potencia na evolução
para uma singularidade territorial. Finalmente,
a abordagem que aqui se esboçou não funda-
menta que apenas as singularidades territoriais
têm potencial para concretizações no âmbito da
C&CT; o que se defendeu, sim, é que esse
potencial é mais elevado se realizado a partir
de singularidades territoriais, nomeadamente
se o sector económico em análise for o turis-
mo. Simultaneamente, esta abordagem é parti-
cularmente relevante para territórios de baixa
densidade económica, social e político-
institucional e em dimensões emergentes de
intervenção, cujo reconhecimento, consolida-
ção e institucionalização necessitam de uma
elevada mobilização individual e colectiva, de
forma a que possam atingir patamares suscep-
tíveis de se transformarem em objectos de
política pública, como é o caso da área do tu-
rismo científico. A transformação de um valor
individual em valor colectivo enquadrado por
política pública é a condição mínima para que
recursos e estratégias diferenciadas estejam em
condições de igualdade relativamente às op-
ções de política para a prosseguir. O processo
de institucionalização do valor contribui, desta
forma, para a coerência territorial dos recursos,
nomeadamente pelo contributo que lhe é con-
ferido pelas diferentes dimensões da política
pública. Sem política pública não existem sin-
gularidades territoriais.
3. TURISMO CIENTÍFICO: ALGU-
MAS EXPERIÊNCIAS INTERNA-
CIONAIS E NACIONAIS
Partindo do quadro teórico-conceptual apre-
sentado, far-sena presente secção uma breve
descrição de alguns casos de estudo internaci-
onais e experiências nacionais passíveis de
nele se enquadrar, não obstante tratarem-se
simultaneamente de práticas consolidadas e
de iniciativas ainda em formação.
3.1 O turismo científico no Chile: a re-
gião de Aysén
A região de Aysén, igualmente conhecida
como Patagónica Chilena (Bourlon et al.,
2011), localiza-se na zona austral do Chile
efetuando fronteira a ocidente com o oceano
pacífico e a oriente com a Argentina. Repre-
senta quase 15% da superfície continental e
insular do país, sendo a sua 3.ª maior região
com uma área de mais de 100.000 km2, a qual
se encontra administrativamente dividida em 4
províncias (Províncias de Aysén capital Pu-
erto Aysén, Coyhaique capital Coyhaique,
General Carrera capital Chile Chico, e Capi-
tán Prat capital Cochrane) e dez comunida-
des (Pelle, 2016).
O turismo científico surge na região de
Aysén como forma de desenvolvimento turísti-
co alternativo, para territórios social, económi-
ca e ambientalmente fragilizados e desfavore-
cidos por via do seu isolamento, com ausência
de redes infraestruturais robustas que sirvam a
um turismo de massas, mas providos de recur-
sos específicos e singulares com potencial de
capitalização que promova a dupla necessidade
de desenvolvimento e equidade (Bourlon et al.,
2011). Uma das estratégias inovadoras de dife-
renciação sustentável de Aysén diz respeito a
uma iniciativa de desenvolvimento turístico do
litoral de Aysén, associada à descoberta de um
território com características únicas de patri-
mónio natural e cultural praticamente inexplo-
rado e ainda por descobrir. Este é um ativo que
pode contribuir, quer para o crescimento soci-
oeconómico das comunidades locais, quer para
a conservação de ecossistemas frágeis de im-
portância mundial, valorizando e aumentando
o seu conhecimento por via de uma motivação
conjunta, aliado às quatro modalidades associ-
adas ao turismo científico que referimos na
Recursos Perfeitos, Turismo e Singularidades Territoriais: Contributos Para o Desenvolvimento
37
segunda secção.
Assim, tendo como essência a origem lito-
ral da região de Aysén, nasceu o projecto Ar-
quipélagos Patagónicos, Destino Internacional
para o Turismo Científico, com base na aliança
estratégica entre o Centro de Investigação em
Ecossistemas da Patagónia e o Fundo Multila-
teral de Investimentos, pertencente ao Banco
Interamericano de Desenvolvimento, cujos
conteúdos se encontram alojados através de
plataforma digital criada para a partilha dos
produtos turísticos e conhecimento gerado
acerca da temática.
Desta forma, o Departamento de Turismo
Sustentável do CIEP desenvolveu um trabalho
de recolha de informação da região em parce-
ria com os operadores da rede de turismo cien-
tífico, tendo identificado cinco áreas temáticas
com oportunidade de desenvolvimento, corres-
pondentes a 5 zonas prioritárias para o turismo
científico em Aysén. Em seguida, para cada
uma destas áreas temáticas definidas, foram
desenvolvidos conteúdos e criados produtos
turísticos associados a distintos recursos e per-
cursos a promover em cada uma das zonas
prioritárias. Por outro lado, para cada produto
turístico foram igualmente identificadas as
áreas temáticas do conhecimento associadas ao
turismo científico a praticar em cada local,
possibilitando ao turista saber que percursos ou
rotas existem para a área do conhecimento do
seu interesse. A plataforma citada disponibiliza
ainda um repositório de documentação associ-
ada ao projecto, que inclui guias de campo,
mapas da região e produções científicas e aca-
démicas sobre a temática do turismo científico,
para além de dedicar um espaço ao apoio à
obtenção de certificação de outros projectos e
iniciativas, que visem desenvolver o ramo do
turismo científico, ao nível de empresas e enti-
dades que façam parte integrante da rede de
oferta de actores turísticos, de projectos cientí-
ficos que incorporem turistas e/ou estudantes
no seu processo de investigação, ou de produ-
tos turísticos ou expedições de interpretação
científica.
Esta é uma das experiências internacionais
mais consolidadas que permite ilustrar algumas
das dinâmicas e das potencialidades associadas
ao turismo científico.
3.2 Outros apontamentos internacionais
sobre turismo científico
Apesar do turismo científico, tal como con-
ceptualizado no presente artigo, se tratar de
uma área de investigação ainda relativamente
recente, e da Região de Aysén nos parecer ser
um dos casos mais paradigmáticos da sua apli-
cabilidade, quer por abranger todas as suas
vertentes, quer por conseguir fazê-lo num terri-
tório isolado, existem outras experiências que
se podem enquadrar, quando não em várias,
pelo menos em alguma das tipologias identifi-
cadas de turismo científico.
Nestes termos, refira-se o caso da Cidade de
Manaus, porta de entrada da floresta amazóni-
ca e capital do Estado do Amazonas (no Bra-
sil), cujo processo de colonização remonta ao
séc. XVII, e que possui actualmente uma popu-
lação de cerca 1,7 milhões de habitantes, para
uma área de 11.400km2 (Andrade, 2008). Não
obstante encontrar-se bem posicionada no ran-
king das maiores e mais ricas cidades brasilei-
ras, bem como possuir uma elevada atractivi-
dade turística pela sua vasta diversidade natu-
ral e cultural, também associada ao ciclo de
exploração da borracha e às origens indígenas,
as políticas públicas não têm conseguido con-
trariar o seu crescimento desordenado e a des-
florestação, nas áreas urbana e rural, das últi-
mas décadas, decorrentes do modelo de desen-
volvimento urbano, com elevados impactes
ambientais para a área de reserva florestal
(Nogueira et al., 2007), onde ainda persistem
os últimos indivíduos de uma das espécies de
primatas mais ameaçadas do Brasil (Andrade,
2008).
Para além do apontamento atrás descrito é
de destacar ainda, como forma alternativa de
prática nos domínios do turismo científico, o
caso do projecto TAMAR (tartaruga marinha),
criado, em parceria com a Fundação Brasileira
para a Conservação da Natureza, há 37 anos
(1980), pelo então Instituto Brasileiro de De-
senvolvimento Florestal, atualmente incorpo-
rado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambien-
te e dos Recursos Naturais Renováveis, e de-
senvolvido em conjunto pela Fundação Pró-
TAMAR (instituição privada sem fins lucrati-
vos fundada em 1988) e pelo Centro Ta-
mar/ICMBio (TAMAR, s/d). Neste sentido,
com o propósito de reverter o processo de ex-
tinção de 5 das 8 espécies existentes, que se
reproduzem no Brasil (Baptistote, 1994), para
as quais as ações antrópicas estão entre as
principais ameaças, foram criadas 22 bases
locais do Projecto, ao longo do litoral brasilei-
ro e ilhas oceânicas, num total de 25 localida-
des dos estados da Baía, Sergipe, Pernambuco,
Rio Grande do Norte, Ceará, Espírito Santo,
Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 50
38
Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina
(Vale et al., 2016). Neste âmbito, as equipas
técnicas, auxiliadas por estagiários, pescado-
res, turistas e pelas comunidades locais efectu-
am trabalho de marcação, monitorização e
telemetria de indivíduos ao longo do seu ciclo
de vida, e de libertação de crias nascidas a
partir de ovos previamente trasladados para
centros de incubação e salvaguarda (Baptistote,
1994).
Após a apresentação das experiências inter-
nacionais mais emblemáticas, identificam-se,
em seguida, algumas das experiências nacio-
nais.
3.3 Algumas experiências nacionais no
âmbito do turismo científico
A relevância que o governo nacional atribui
ao turismo e à sua promoção (nacional e inter-
nacional), designadamente do turismo científi-
co, está bem expressa nas políticas públicas
que enquadram o actual quadro estratégico
2014-2020, de que é um bom exemplo a recen-
te Resolução da Assembleia da República n.º
197/2017, de 10 de agosto. Contudo, com base
na pesquisa efetuada, o acervo bibliográfico
acerca da temática é ainda reduzido, facto que
encontra correspondência ao nível da escassez
de informação na divulgação de iniciativas
desenvolvidas ou em curso. Não obstante,
apresentam-se no Quadro 2 algumas práticas
nacionais, cujos requisitos se encontram reuni-
dos no domínio do turismo com dimensão
associada a diferentes áreas científicas.
Não sendo o objectivo principal efectuar
um levantamento exaustivo das experiências
aqui identificadas, poder-se-á, no entanto, con-
siderar a título exemplificativo o caso do
Arouca Geopark, para efeitos de uma breve
caracterização dos principais factores diferen-
ciadores do modelo ali desenvolvido, sinali-
zando-se os restantes como sugestão para
eventual investigação futura. Enformado pela
filosofia reconhecida pela UNESCO, subjacen-
te à criação da Rede Europeia de Geoparques
(2000), de permitir uma troca de experiências e
uma promoção conjunta do conceito territó-
rio geograficamente delimitado, com uma es-
tratégia de desenvolvimento sustentado basea-
da na conservação do património geológico
(em associação com os restantes elementos do
património natural e cultural) com vista à me-
lhoria das condições de vida das suas popula-
ções e de cada um dos membros da rede (Bri-
lha, 2009), foi reconhecido, pela Rede Euro-
peia e Global de Geoparques, em abril de
2009, o Arouca Geopark. Este Geopark tem a
sua sede no Centro Interpretativo Geológico de
Canelas, como membro de uma rede que conta
actualmente com 120 Geoparques e 33 países,
estando Portugal representado com quatro
(Terras de Cavaleiros, Naturtejo, Arouca e
Açores Geopark).
Quadro 2 - Algumas experiências nacionais associadas ao turismo científico
Algumas Experiências Nacionais
Objecto
Instituições
Mação
Gestão Integrada do Território
ITM; CMM
Cantanhede
Biotecnologia
Biocant; Centro de Ciência Júnior
Arouca
Geossítios
Geopark
Oliveira do Bairro
Natureza, ecoturismo, religioso, industrial,
aventura
CMOB+IPAM (capital Turismo Científi-
co)
Açores
Geoparque, radiotelescópio
Governo Regional
Madeira
Mergulho, Ilhas Selvagens
Governo Regional
Roteiro Minas e zonas interesse geológico
Plataforma Digital
Empresa de Desenvolvimento Mineiro e
DGEM
Entroncamento
Património Ferroviário
Constância
Astronomia
CMC
Golegã
Pré-História
Núcleo Museológico do Centro Português
de Geo-História e Pré-História
Seia
Ecossistemas, biologia
Entidade Privada
Teses de Mestrado e Livros (alguns exemplos cujo foco principal é o turismo científico)
Sara Canilho
Portas do Rodão
Maria João Ferreira
Universidade do Porto
Marlene Marques
Astronomia (Coimbra)
Rui Cardoso
Turismo Científico em Portugal: um roteiro
- Férias e escolas (Ciência Viva)
Fonte: Elaboração Própria
Recursos Perfeitos, Turismo e Singularidades Territoriais: Contributos Para o Desenvolvimento
39
Como recursos específicos associados a es-
te território identificam-se alguns apontamen-
tos tais como o fenómeno das pedras paridei-
ras, os fósseis marinhos de 480 milhões de
anos ou a cascata da Mizarela (Oliveira, 2006).
Aliados à riqueza geomorfológica e geológica
da região, encontram-se ainda diferentes tipos
de unidades de paisagem com uma diversidade
faunística e florística de elevado valor do pa-
trimónio português, com referência para espé-
cies já pouco frequentes no país e em declínio
na europa, mas que ainda aí ocorrem, exemplo
da raposa, do lobo, da gineta, da lontra e do
gato bravo
4
. De acordo com os vestígios ar-
queológicos existentes, a história de ocupação
do concelho de Arouca remonta aos anos 500
A.C., encontrando-se marcado pelo acumular
de um vasto património, tangível e intangível,
associado à evolução antrópica e cultural no
território, com herança de povos como os ro-
manos, germanos e muçulmanos. É assim, num
contexto marcado pela presença quer de um
património único (ambiental, geológico, cultu-
ral, histórico e cénico), quer da confluência de
motivações, expressas nas políticas públicas e
na agregação de actores (Universidades de
Trás-os-Montes e Alto Douro, Minho, Porto,
Aveiro, Lisboa e Madrid, Museu Geomineiro
de Espanha e Câmara de Arouca), que é assi-
nada pelo Arouca Geopark, em 2011, a Decla-
ração de Arouca
5
, em que se defende o geotu-
rismo como actividade que sustenta a identida-
de de um território. Finalmente, o coordenador
da equipa multidisciplinar do Departamento de
Geologia da UTAD, identifica como visão da
estratégia de desenvolvimento territorial do
Geopark Arouca tornar-se num destino de
excelência turístico e espaço de referência,
nacional e internacional para a aprendizagem
e aprofundamento do conhecimento científico,
conjugando o património geológico com a
cultura, a gastronomia e restante património
natural (Sá, 2016: 57).
4. A HIPÓTESE DO TURISMO CIEN-
TÍFICO NA GOLEGÃ
O caso de estudo apresentado neste artigo diz
respeito à Golegã. Este caso deve ser entendido
como uma primeira aproximação à problemáti-
ca que se tem vindo a desenvolver e também
4
Disponível em: http://www.cm-arouca.pt
5
Disponível em http://aroucageopark.pt
uma primeira interpelação aos diversos actores
no território (comunidade e política pública).
4.1 A Golegã na proximidade da tempes-
tade perfeita
A hipótese de desenvolvimento de uma li-
nha de turismo científico na Golegã encontra,
do ponto de vista do enquadramento político-
institucional, condições muito favoráveis, facto
que nem sempre é fácil de encontrar num
mesmo momento do tempo e do espaço. Em
primeiro lugar, e em termos, supramunicipais,
a RAR n.º 197/2017 recomenda ao Governo a
promoção do turismo científico… e que im-
plemente um plano de ação para promover o
turismo científico assente em nove medidas. A
medida n.º 4 explicita que o governo deve pro-
ceder à identificação das autarquias com po-
tencial para atrair turistas neste âmbito e en-
volvimento das mesmas na estratégia nacional
de turismo. Ainda no âmbito das competências
da administração central, importa salientar uma
iniciativa levada a cabo pela Secretaria de Es-
tado do Ensino Superior e o Ministério da Cul-
tura, designada por Diálogos Cruzados (,
que pretende fazer uma articulação mais pro-
funda entre a Ciência e a Cultura. De acordo
com a Secretaria de Estado do Ensino Superi-
or, Diálogos Cruzados é composto por diver-
sas sessões de trabalho que visam aproximar e
fomentar o diálogo e a criatividade entre
agentes e instituições culturais e científicas e
de ensino superior, envolvendo a administra-
ção local e central, as empresas e as associa-
ções.
Finalmente, todo o contexto da Estratégia
do Turismo 2027 é particularmente favorável a
esta dimensão de turismo, embora não exista
nenhuma referência explícita ao turismo cientí-
fico ou a alguma das suas manifestações. Em
termos regionais, a Estratégia Integrada de
Desenvolvimento Territorial da Lezíria do
Tejo 2014-2020 apresenta igualmente um en-
quadramento favorável e conceptualmente
coerente com o turismo científico. Do ponto de
vista local, o cenário é semelhante. A Estraté-
gia de Desenvolvimento Urbano e Plano de
Ação para a Regeneração Urbana da Golegã
para 2014-2020 apresenta três objectivos estra-
tégicos: regenerar e dinamizar o centro da vila
da Golegã atraindo novos residentes, visitantes
e empreendedores, fomentar a coesão e a in-
clusão social e promover a mobilidade urbana
sustentável e a melhoria da qualidade do ambi-
Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 50
40
ente urbano; nenhum deles desalinhado com a
possibilidade de enquadrar político-
institucionalmente o turismo científico como
promotor desses objectivos.
Desta breve análise efectuada pode-se con-
cluir que não existem quaisquer contradições
que fragilizem a coerência entre a dimensão
conceptual e a dimensão político-institucional
na abordagem que se tem vindo a desenvolver.
Pelo contrário, o enquadramento político-
institucional é particularmente favorável à
nossa abordagem. Em termos metafóricos, a
Golegã encontra-se na proximidade de uma
tempestade perfeita.
4.2 O potencial dos recursos perfei-
tos da Golegã
A Golegã tem um conjunto de recursos que
de acordo com a nossa definição de recursos
perfeitos se podem enquadrar nesta classifica-
ção e se, adicionalmente, lhes for possível
conferir coerência territorial podem evoluir
para uma singularidade territorial. Vejamos,
em primeiro lugar de que recursos estamos a
falar e das suas principais características. O
quadro 3 procura realizar uma síntese sobre as
principais características em análise.
4.3 Análise ao caso da Golegã
O quadro 4 procura fazer a síntese dos re-
cursos que acabámos de caracterizar com uma
classificação dos autores quanto ao seu nível
de perfeição, de acordo com os critérios anteri-
ormente explicitados. Para isso seguiu-se a
seguinte metodologia. Considere-se uma ma-
triz M, de C colunas e L linhas, tal que:
R recursos, com    
F factores, com    
 - elemento genérico da matriz M,
classificação do recurso r pelo factor f
Classificando-se cada factor de 1 irrele-
vante a 5 muito significativo, a classificação
de cada recurso face ao seu grau de perfeição
obtém-se através da seguinte expressão:
 



 
   
Desta forma    , quanto mais
se aproxima da unidade maior o grau de per-
feição do recurso. Apenas como ilustração, o
quadro seguinte apresenta a classificação que
os autores realizaram sobre os recursos em
causa.
Esta metodologia, apesar da sua subjectivi-
dade, permite salientar dois aspectos importan-
tes. Em primeiro lugar, permite identificar
quais as dimensões que são susceptíveis de
trabalho de aperfeiçoamento em cada um dos
recursos. Em segundo lugar, permite identifi-
car indícios que contribuam para realizar esco-
lhas quando não se encontrem reunidas as con-
dições para se começar a experiência pela tota-
lidade dos recursos identificados.
Os casos identificados no quadro anterior,
pelos atributos próprios que emergem da carac-
terização efectuada, podem ser explorados
individualmente numa linha de turismo cientí-
fico. Pode até defender-se, com algumas van-
tagens, que o seu objecto é bastante distinto.
Contudo, uma análise mais profunda permite
sugerir que estes recursos perfeitos ganham
eficácia se tratados em conjunto. Porquê? Exis-
tem, essencialmente duas ordens de razões.
Em primeiro lugar, Bourlon et al. (2011:
21) referem que existem complementaridades e
sinergias entre as diferentes formas de turismo
científico e que as vantagens para o território
serão potenciadas pela promoção e manuten-
ção das diferentes formas e manifestações des-
ta tipologia de turismo. Será possível conferir a
coerência conceptual proposta por Bourlon et
al. (2011) aos recursos em análise? Vejamos a
figura 5.
Como se pode observar da figura 5, tam-
bém os recursos considerados no caso de estu-
do da Golegã possuem um grau de articulação,
mais ou menos intenso, entre a mobilização
pessoal para desenvolver as actividades (forte
ou fraca) e a dimensão científica (direta, cen-
tral, indireta ou periférica), em correspondên-
cia com o quadro teórico de base face às dife-
rentes tipologias de turismo científico concep-
tualizadas. Esta é a primeira razão.
Mas existe uma outra razão ainda mais re-
levante, devido às suas implicações em termos
de concretização de um potencial de valor
territorial. Retoma-se aqui a discussão feita na
segunda secção, convocando os seus resulta-
dos. Algum trabalho de interpelação pública,
sem qualquer significado estatístico, permitiu
obter alguns indícios de que a percepção de
valor não é similar para todos os recursos (ver
quadro 5).
41
Quadro 3 - Características dos recursos Golegã
Objecto
Geografia física e administrativa
Modelo de povoamento
Aculturação
Golegã
Território
Concelho com área total de 84,32 km2 (95% de solo rural) per-
tencente à região do Ribatejo, no distrito de Santarém, e às regi-
ões administrativas NUT III Lezíria do Tejo e NUT II Alentejo,
dividido internamente em três freguesias (Golegã, Azinhaga e
Pombalinho).
Insere-se na planície aluvionar das lezírias do tejo, de paisagem
plana e espraiada com zonas inundáveis atravessadas pelos Rios
Tejo e Almonda e delimitada por terrenos de vegetação xerófila,
onde abundam os pastos férteis e os recursos agropecuários.
Possui uma densidade populacional de 66,1 hab/ km2, com 5.576
habitantes, dos quais 64% se concentram na vila da Golegã,
cleo polarizador do Município e sede de concelho, onde se
centralizam actividades e equipamentos.
A restante população encontra-se distribuída por mais 6 lugares
(com menos de 2.000 habitantes), dos quais se destaca, enquanto
polo complementar, o núcleo da Azinhaga, essencialmente agríco-
la, em detrimento das restantes áreas rurais de menor expressão
populacional.
Apresenta uma ocupação pré-histórica do período
calcolítico inicial, bem como vestígios da época
celta ou romana e da idade média, passando pelos
assentamentos Avieiros em construções palafíticas
deixadas pelas comunidades piscatórias do século
XX e pela dominância histórica da cultura campina
ribatejana e das dinâmicas económicas ligadas ao
cavalo.
Objecto
Enquadramento
Caracterização
Singularidade
Casa
Estúdio
Carlos
Relvas
Fotografia
Imóvel icónico localizado no centro da vila da Golegã, construído
por Carlos Augusto de Mascarenhas Relvas e Campos, e onde
habitou.
Nascido em 1838, no concelho da Golegã, Carlos Relvas foi um
abastado fidalgo, político, lavrador, criador de cavalos e cavalei-
ro, desportista, inventor e fotógrafo apaixonado, actividade a que
se dedicou a partir dos anos 60.
O avanço das técnicas e massificação da actividade fotográfica,
levou à instalação dos primeiros verdadeiros estúdios com uma
vocação comercial, que se caracterizavam pelos tetos envidraça-
dos ou por laterais incorporando estruturas de vidro, devido às
exigentes condições de iluminação através do aproveitamento da
luz solar.
Carlos Relvas instala, numa primeira fase, um atelier térreo, com
uma face envidraçada, em frente ao grande edifício da residência
familiar, que viria a complementar na década de 70 com um
estúdio de dois pisos (com câmaras-escuras, laboratórios, e recep-
ção com sala de estar no rés-do-chão e estúdio no 1.º andar) e
planta retangular.
De arquitectura ecléctica revivalista, essencialmente marcada pelo
movimento do Romantismo associado ao impulso da literatura e
da imprensa, o edifício ganha um carater de originalidade e
monumentalidade desde o seu desenho sugestivo de um templo,
ao telhado de configuração oriental, passando pelas linhas neogó-
ticas, estruturas em ferro fundido e envidraçadas, rendilhados
góticos, apontamentos mitológicos, estátuas greco-romanas ou
motivos mouriscos, a que se alia o embelezamento cénico do
jardim.
A par do seu contributo na arte de fotografar,
contribuiu para o avanço da técnica ao nível da
fototipia, da estereoscopia e da focagem fotográfi-
ca, deixando ainda um espólio de 12.000 negativos
em vidro, objecto de um processo de restauro e
digitalização que levou cerca de 13 anos a concluir.
O legado de Carlos Relvas tornou-se num centro
social de referência internacional, enquanto monu-
mento evocativo da expressão fotográfica, de
cenários e personagens, singular pela cultura elo de
ligação artística, técnica e científica.
A particularidade de resistir praticamente intacto e
com o espólio e mobiliário original torna-o parte
dos escassos casos de estúdios musealizados que se
têm conservado ao nível mundial, tendo sido
objecto de publicação como Imóvel de Interesse
Público.
Recursos Perfeitos, Turismo e Singularidades Territoriais: Contributos Para o Desenvolvimento
42
Paul
do Boqui-
lobo
Natureza
A Área Protegida do Paul do Boquilobo (PB), classificada como
Reserva Natural (RN) ao nível nacional em 1980 (Decreto-Lei nº
198/80, de 24 de junho), foi a primeira área protegida portuguesa
a ser declarada e integrada pela UNESCO, em 1981, na Rede
Mundial de Reservas da Biosfera.
Posteriormente, em 1991, 1996 e 1999, foi ainda considerada em
termos internacionais e comunitários como Biótopo CORINE,
Zona Húmida de Importância Internacional ao abrigo da Conven-
ção de Ramsar e Zona de Proteção Especial de avifauna no
âmbito da REDE NATURA 2000.
Estas classificações resultaram do reconhecimento relativo à
relevância dos seus habitats e das suas espécies.
A RNPB conta atualmente com 5.896 ha classificados, e situa-se,
quase na sua totalidade, no concelho da Golegã, abarcando as
freguesias da Golegã, Azinhaga e Pombalinho, bem como uma
pequena parte no concelho de Torres Novas, freguesia de Ria-
chos.
Planície aluvial recortada por galerias ripícolas e densos núcleos
arbóreos de freixos, salgueiros, caniçais e bunhais nas zonas mais
inundáveis, que delimitam várzeas circundadas por montados e
pastagens.
Subdivide-se em três zonas:
- nuclear, de proteção integral e parcial, com função de conserva-
ção da biodiversidade e investigação científica;
- de uso extensivo, com zonas tampão de proteção complementar
onde se desenvolvem a produção florestal, as pastagens e a agri-
cultura em zona inundáveis; e,
- de intervenção específica, de transição entre os terraços fluviais
e os aluviões da lezíria, onde se pratica uma agricultura com
práticas sustentáveis e onde se incluem também os aglomerados
urbanos.
Desenvolvem-se ainda, com elevado grau de inovação, tecnologia
e conhecimento, actividades nas áreas de anilhagem de aves,
observação ornitológica, monitorização da qualidade da água,
vigilância da natureza, medidas de promoção da biodiversidade
nas actividades agrícolas e florestais, sensibilização ambiental,
produção de acervo científico e de valorização dos produtos e
serviços associados à marca Natural-PT.
É o maior ecossistema aquático representativo de
zonas húmidas interiores, habitats em declínio
acentuado.
Estão inventariados dez habitats naturais inscritos
na Diretiva Habitats, dos quais cinco são de água
doce (incluindo um habitat prioritário de águas
paradas), um de formações herbáceas, e três flores-
tais.
Sem prejuízo de uma elevada biodiversidade ao
nível da fauna em geral, as aves constituem o seu
principal valor, algumas, espécies raras em Portu-
gal e na Europa, albergando o mais importante
garçal do território português, espécies de colherei-
ros e outras aves migratórias do continente africano
quer do norte da Europa e que nela ocorrem ou
nidificam.
Por outro lado, também várias espécies de peixes
utilizam o paul para desova, sendo de destacar
endemismos lusitanos (ruivaco e boga-portuguesa),
ou espécies de anfíbios e répteis, com destaque
para as espécies de cágados que ocorrem em Portu-
gal, e ainda de pequenos mamíferos.
Objecto
Enquadramento
Caracterização
Singularidade
Casa
Saramago
Cultura
A Azinhaga é a segunda maior freguesia do concelho da Golegã,
onde, em 1922, nasce José de Sousa Saramago.
Filho de camponeses de poucas posses que terão emigrado para
Lisboa, quando tinha apenas dois anos de idade, Saramago man-
teve no entanto ligação aos seus avós maternos, na aldeia onde
nascera, tendo igualmente vivido em Lisboa e na ilha de Lanzaro-
te.
Em abril de 2017 a Fundação José Saramago (FJS), instalada na
Casa dos Bicos, em Lisboa, inaugura a extensão localizada na
casa onde nasceu o autor, na Azinhaga, encontrando-se também
representada na biblioteca da sua casa em Lanzarote.
Desempenhou diversas funções, desde funcionário da saúde e da
previdência social, a tradutor (com mais de 70 livros traduzidos),
editor, jornalista, assessor ministerial, presidente da Sociedade
Portuguesa de Autores e escritor.
Foi no entanto na área da escrita literária que se veio a consagrar
como referência mundial, graças ao seu contributo único no
domínio da poesia, romance e narrativa, por sua vez, com influên-
cia nas áreas do teatro, da música e do cinema, autor controverso
e de escrita intervencionista em nome dos direitos humanos.
Na vida literária de Saramago podem identificar-se três grandes
ciclos de produção: 1947-1953; 1966-1979; e, 1980-2010, sendo
este último o período que marca o estilo de ficção novelesca
saramaguiano que continuará até à sua morte.
É distinguido com inúmeros galardões, títulos
honoríficos e prémios ao nível literário, com rele-
vância para as 39 nomeações Doutor Honoris
Causa em universidades de 17 países, para o Pré-
mio Luís de Camões em 1995 e, finalmente, a
atribuição do Nobel da Literatura em 1998.
O projecto de recuperação e musealização da Casa
Saramago, no Largo da Praça da Azinhaga, foi
encetado através de uma parceria estabelecida entre
a respectiva Junta de Freguesia, a FJS e a Câmara
Municipal da Golegã.
Dispõe, no rés-do-chão, de uma biblioteca que
disponibiliza todo o acervo literário do autor em
várias línguas, uma livraria, um auditório para
actividades culturais e um cibercafé. No primeiro
andar é evocado o ambiente vivido por Saramago
com os avós durante as férias passadas até aos seus
15 anos de idade, com a recriação dos espaços e
recuperação de alguns objectos.
Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 50
43
Cavalo
Economia
A histórica evolução da estrutura produtiva do concelho da
Golegã, em torno das actividades agrícolas e da indústria pecuá-
ria, com preponderância para a produção e criação de cavalos,
originou um forte enraizamento das actividades e tradições
associadas à fileira do cavalo como produção/criação cavalar,
equitação, competição desportiva e realização de eventos etnográ-
ficos culturais.
Intitulada como Capital do Cavalo, berço dos cavalos lusitanos
“Veiga” (cavalos de toureiro por excelência), desenvolvidos pelo
lavrador e zootécnico Manuel Tavares da Veiga, constitui um
potencial de mercado para os utilizadores do Cavalo (com especi-
al destaque para a raça puro sangue Lusitano), resultante da
concentração de um conjunto assinalável de infraestruturas,
equipamentos, serviços de excelência, iniciativas e eventos, que
gravitam em torno das diversas actividades com valor económico
a ele associadas, como serviços de alimentação, tratamento,
higiene e assistência veterinária de animais, transporte, melhora-
mento genético e apuramento de raça, fabrico artesanal de mate-
rial de equitação e adornos, turismo equestre, alojamento hotelei-
ro, restauração, entre outras.
Várias iniciativas em torno da fileira do cavalo são dinamizadas,
tais como:
- o certame anual da Expoégua, durante o mês de maio, que se
dedica à mostra de éguas e poldras de todas as raças e que integra
a Romaria de São Martinho;
- a “Feira Nacional do Cavalo” (desde 1972, então Feira de São
Martinho, que remonta a 1571, e a que se veio juntar a “Feira
Internacional do Cavalo Lusitano”), anual (na 1.ª quinzena do mês
de novembro), no Largo do Arneiro;
- animação regular de Concursos de Atrelagem de Tradição
(disputados por cavalos, coches e carruagens a partir da Quinta da
Broa, num percurso total de 14 quilómetros, com provas de
superação e mestria);
- inauguração do complexo multifuncional Equuspolis, Localiza-
do na Horta da Baralha, dedicado ao cavalo e às artes plásticas;
- infraestruturação de circuitos equestres integrantes do mapa
turístico do concelho;
- projecto Pegaso, entre Portugal, Espanha, Inglaterra e Irlanda,
no âmbito da Iniciativa Interreg III B “Espaço Atlântico”, de
reforço do cavalo enquanto identidade com atrativo turístico;
- projecto Euro Equus, entre Espanha, Portugal, Bélgica e Repu-
blica Checa, para a valorização de regiões equestres e preservação
da herança cultural europeia.
O concelho da Golegã constitui-se como o maior
“entreposto comercial” do puro-sangue lusitano a
nível mundial, onde se apresentam os criadores e
onde se transacionam os seus exemplares para todo
o mundo.
As capacidades competitivas na fileira do cavalo,
quer no mercado nacional, quer internacional, têm
atraído milhares de visitantes, de entre os quais
oriundos de países como Espanha, Itália, França ou
dos países nórdicos com tradições equestres, come-
çando a fazer parte de rotas internacionais ligadas
ao turismo equestre, e das ofertas turísticas.
Fonte: Adaptado de Nunes e Sousa (2017).
Quadro 4 - Grau de perfeição dos recursos
Casa Estúdio Carlos Relvas
Paul do Boquilobo
Casa Saramago
Cavalo
Escasso em termos globais
5
3
3
4
Abundante em termos locais
5
5
5
5
Controlo local do recurso
5
4
2
5
Enraizamento territorial
5
4
4
5
Efeitos multiplicadores
2
3
2
4
Utilização obriga à preservação
4
4
3
3
Procura global
3
3
2
4

29
26
21
30


35
35
35
35
   
0,83
0,74
0,60
0,86
Fonte: Elaboração própria
Recursos Perfeitos, Turismo e Singularidades Territoriais: Contributos Para o Desenvolvimento
Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 50
44
Figura 5 - Recursos e Modos de Turismo Científico
Fonte: Elaboração própria
Quadro 5 - Percepção de valor e recursos perfeitos na Golegã
Percepção de Valor
Recursos/objecto
Individual
Colectivo/Social
Político
Preponderância
CE Carlos Relvas: Foto-
grafia
+++
+
++
Individual
Paul do Boquilobo: Natu-
reza
++
+
++++
Política
Golegã: Cavalo
++++
+++++
++
Colectiva/Social
Casa Saramago: Cultura
+
+
+
??
Legenda: de pouca relevância (+) a muita relevância (+++++)
Fonte: Elaboração própria
O recurso ganha perfeição e o processo ga-
nha coerência territorial à medida que se arti-
culam as três dimensões de valor: individual,
colectivo e político-institucional, isto é, à me-
dida que se institucionaliza o valor colectivo
dos recursos. A consideração das três dimen-
sões obriga a sentar à mesma mesa (mesmo
que, legitimamente, com objectivos distintos) o
valor individual, o valor colectivo e a represen-
tação política do valor colectivo (corporizado
pela política pública). Sem a coerência territo-
rial que resulta da superação destes dilemas e a
gestão destas tensões não será possível cons-
truir recursos perfeitos e transformá-los em
singularidades territoriais capazes de dinamizar
com elevados níveis de eficácia a C&CT. Dito
de outra forma, existem recursos com níveis
elevados de perfeição que podem ser explora-
dos numa linha de turismo científico e se for
possível conferir-lhe coerência territorial pode-
se estar próximo de uma singularidade territo-
rial.
Logo, a hipótese proposta neste artigo pare-
ce ter potencial para se (vir a) localizar na dia-
gonal da figura 2. Onde? Numa iniciativa de
âmbito local ou de âmbito superior? A resposta
a esta questão deve ser dada pela comunidade,
embora a discussão possa ser desencadeada
pela política pública e/ou pela academia. Nun-
ca se pode esquecer que as instituições cientí-
ficas (onde se inserem as instituições de ensino
superior) são agentes incontornáveis das múl-
tiplas dinâmicas associadas ao turismo científi-
co. Em face do que se acabou de defender, po-
dem ainda encontrar-se alguns argumentos que
Recursos Perfeitos, Turismo e Singularidades Territoriais: Contributos Para o Desenvolvimento
45
favoreçam a criação e o desenvolvimento de
uma linha de turismo científico, não só na Go-
legã, mas igualmente em outros territórios
nacionais. Em primeiro lugar, o turismo cientí-
fico insere-se numa dimensão estratégica do
país e da região o Turismo diversificando-
a, através do aprofundamento das dinâmicas
inerentes à especialização inteligente. Se se
pensar, por exemplo, nos objectivos do pro-
grama , uma linha de turismo científico
permite não só articular a ciência com a cultura
de forma coerente, explícita e directa, como
também integrar territorialmente comporta-
mentos e experiências associados à cultura
científica, podendo mesmo levar ao desenvol-
vimento de novos produtos, ajudando a pro-
mover por esta via vários objectivos da RAR
referida.
Em segundo lugar, o turismo científico é
transversal a outras tipologias de turismo, mas
com potenciais efeitos positivos na estrutura
económica e social do território, por via da
aplicação da investigação nesses domínios. O
turismo científico é, simultaneamente, objecti-
vo e instrumento característica explosiva
deste projecto , uma vez que é objecto de
investigação, mas pode e deve igualmente
contribuir para modificar e fortalecer a estrutu-
ra económica regional (relações da investiga-
ção com a estrutura produtiva local existente
e/ou a potenciar, criando novo conhecimento e
integrando-o nas dinâmicas territoriais).
Finalmente, é uma linha de turismo ainda
pouco explorada, configurando uma hipótese
alternativa (embora transversal) ao turismo de
massas, que pode contribuir para consolidar
uma massa crítica de procura que ajudará a
viabilizar e a aprofundar os níveis de especiali-
zação de investimentos já existentes (equipa-
mentos, infraestruturas, tecnologias) e que,
adicionalmente, se pode explorar isoladamente
na Golegã ou em articulação regional.
5. CONCLUSÃO
Este texto procurou dar contributos em dois
domínios distintos, embora interdependentes: o
domínio teórico-conceptual e o domínio empí-
rico. Da articulação de ambos, pode-se sugerir
como principal resultado a proposta de um
quadro metodológico suficientemente operati-
vo que permite a clarificação sobre as condi-
ções susceptíveis de construir e desenvolver
dinâmicas territoriais de valor económico, no
caso concreto tendo como foco o turismo cien-
tífico. Em termos teórico-conceptuais, a abor-
dagem desenvolvida permitiu concluir que as
dinâmicas territoriais de desenvolvimento são
processos em constante evolução e dependem
fortemente de mecanismos que permitam cons-
truir singularidades económicas e, no caso
particular do turismo, singularidades territori-
ais. A competitividade e a coesão territorial
dependem das dinâmicas externas que condici-
onam os territórios, mas dependem também em
larga escala da capacidade de construção de
soluções endógenas, diferenciadoras e parti-
lhadas por toda a comunidade sob a forma de
políticas públicas e modos de governância
partilhados. Do ponto de vista empírico, parece
pacífico que a hipótese relativa ao desenvolvi-
mento de uma linha de turismo científico na
Golegã tem bases de partida sólidas e concre-
tas para se vir a desenvolver no curto/médio
prazo. Existe um conjunto de recursos perfei-
tos que precisa de ganhar coerência territorial.
A Golegã e certamente muitas outras regiões
portuguesas que importa identificar encontra-
se na proximidade de uma tempestade perfeita.
A combinação de vontades no território deter-
minará, num primeiro nível, a dinâmica que a
nossa hipótese poderá vir a ter num futuro
próximo. O passo seguinte passa, naturalmen-
te, pela necessidade de conferir coerência terri-
torial aos recursos identificados. A abordagem
desenvolvida neste texto é particularmente útil
para territórios de interior. O desafio passa por
identificar potenciais recursos perfeitos e a
partir dessa dinâmica transformá-los em singu-
laridades territoriais.
Revista Portuguesa de Estudos Regionais, nº 50
46
Agradecimentos
Esta investigação tem sido desenvolvida no
Centro de Investigação Aplicada à Economia e
Gestão do Território com o apoio do Instituto
Politécnico de Tomar e da Escola Superior de
Gestão. Os autores gostariam de agradecer ao
António Ventura por nos ter desafiado a iniciar
esta reflexão em 2017 e à Helena L. Grilo e ao
Luis Grilo pelos comentários e sugestões reali-
zadas em fases anteriores do texto. Os autores
agradecem igualmente aos revisores os seus
comentários pertinentes que contribuíram para
minimizar as insuficiências que ainda persis-
tem no texto e que são da única responsabili-
dade dos autores.
.
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http://www.cm-arouca.pt (acedido em de-
zembro de 2017)
... Nunes and Sousa [13], in their recent paper on ST, territorial cohesion and competitiveness, discussed the importance of understanding and evaluating the scientific resources that exist within the territory. They advocated for TS resource priorities to focus on perfect resources, describing these as having seven characteristics: global scarcity, local abundance, local control, territorial rootedness, multiplier effects, sustainability potential, and global demand [13]. ...
... Nunes and Sousa [13], in their recent paper on ST, territorial cohesion and competitiveness, discussed the importance of understanding and evaluating the scientific resources that exist within the territory. They advocated for TS resource priorities to focus on perfect resources, describing these as having seven characteristics: global scarcity, local abundance, local control, territorial rootedness, multiplier effects, sustainability potential, and global demand [13]. They argue that ST resources have the potential to be perfect resources, and that the effectiveness of their intervention is improved through greater coherence (geographic, institutional, economic,) between the resource and the territory. ...
... They argue that ST resources have the potential to be perfect resources, and that the effectiveness of their intervention is improved through greater coherence (geographic, institutional, economic,) between the resource and the territory. Thus, the authors pose that effective ST development processes require appropriate coordination and governance, appropriate mechanisms for developing knowledge across actors, a combination of formal and informal interaction dynamics, and a regional economic and social structure that is open to innovation and transformation [13]. ...
Article
Full-text available
This paper presents empirical research that supports territorial approaches to tourism product development that ground tourism in science, as a mechanism to support sustainable tourism heritage conservation goals. Scientific Tourism (ST), in this context, builds on the scientific heritage of a geography, matching researchers with local actors and tourists, through a five-stage iterative process that leads to new scientific knowledge, advancing theory and building relevance for communities through socio-cultural and economic development. This article focuses on the initial stage of the ST product development process, documenting empirical research conducted within the geographies surrounding the Palena River watershed in the Aysén Region of Chilean Patagonia. Both geo-structured literature review methods and results are presented and discussed to illustrate how the outcomes, including a series of maps, can inform and ground actors' processes of heritage resource identification, justification, conservation, and exhibition, through the development of pilot ST initiatives within the territory. Similar research approaches may prove valuable for other low-density and peripheral geographies that share an interest in grounding tourism on the science taking place within their geography.
... From Resource to Territorial Resource 3 Nunes and Sousa (2019) show that territorial coherence and competitiveness require a better understanding of scientific resources. The latter have the potential to be "perfect resources" because they are unique, globally available, locally abundant, rooted in the territory, and mobilizable by actors (Nunes, Sousa, 2019). ...
... From Resource to Territorial Resource 3 Nunes and Sousa (2019) show that territorial coherence and competitiveness require a better understanding of scientific resources. The latter have the potential to be "perfect resources" because they are unique, globally available, locally abundant, rooted in the territory, and mobilizable by actors (Nunes, Sousa, 2019). The resource is evolving by nature. ...
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The region of Aysén, in Chilean Patagonia, is an isolated natural mountainous area, which relies on science for its tourist and territorial development. Project leaders are promoting specific scientific research underway in the territory. Science is mobilized as a resource in the creation of products, recreational and educational activities, commercial or non-profit. These initiatives are carried out by research centers, universities, entrepreneurs, and non-governmental organizations and reveals that the acquisition and sharing of scientific knowledge creates local dynamics that contribute to the tourism and territorial development. By nature, the mountain environment is a resource and laboratory for cientific research. It is also a favorable environment for citizen science and an ideal upport for mediation and scientific interpretation. Scientific tourism initiatives promote a diversification and an added value that increases territorial assets and the attractiveness of an isolated but evolving area.
... In the scope of creative tourism, reference is made to development in the sense of a process of building a product (Nunes and Sousa, 2019), and statements on the links of creative tourism to the territory, the cohesion of the territory, competitiveness, and the potential networks of agents, economic and cultural singularities (material and immaterial) are enounced. In this context, public policies on development are invoked. ...
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The aim of this investigation is to identify the relationship which can be found in the literature between creative tourism and local development, using a bibliometric inventory made in scientific databases (Academia.edu, Econlit, Google Scholar, CAPES Journals, Redalyc, Scielo.org, SCOPUS, and Web of Science, among others) as research method. In general, it was possible to verify that there is a concern of the authors of the papers analysed in establishing a link between creative tourism and local/regional development, without, however, going very far on this relationship, or, at least, when it came to identifying the impacts of economic, cultural, social and environmental nature. This being said, it seems to be relevant that future research takes a deeper look at the hypothesised relationship between the proposals of creative tourism and the benefits it can bring to local communities.
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Uma parte significativa do território português encontra-se num processo de perda acentuada de população residente. A dimensão populacional é uma variável determinante da viabilidade da generalidade das funções que se associam à existência e à sustentabilidade da qualidade de vida dos territórios. O ensino superior é uma dessas funções mais especializadas que tem vindo a adquirir uma elevada densidade funcional que confere, por essa razão, níveis elevados de centralidade territorial com impactos nas dinâmicas de competitividade e de coesão territorial. Este trabalho tem como objectivo construir um indicador que permita avaliar o potencial de cada território (distrito) português, para gerar, reter e atrair procura de ensino superior. A análise destas dinâmicas para diferentes momentos no tempo pode ajudar a formular sugestões para a política pública. Adicionalmente, a discussão dos resultados pode remeter-nos para áreas distintas, embora interdependentes como, por exemplo, em termos políticos, a racionalidade da rede de ensino superior em Portugal e a sua sustentabilidade. Abstract A significant part of the Portuguese territory is in a process of marked loss of resident population. The population dimension is a variable that determines the viability of most of the functions that are associated with the existence and sustainability of the quality of life in the territories. Higher education is one of those more specialized functions that has acquired a high functional density that, for this reason, gives high levels of territorial centrality with impacts on the dynamics of competitiveness and territorial cohesion. This work aims to build an indicator that allows assessing the potential of each Portuguese territory (district), to generate, retain and attract demand for higher education. The analysis of these dynamics for different moments in time can help to formulate suggestions for public policy. Additionally, the discussion of the results can lead us to different areas, although interdependent, as, for example, in political terms, the rationality of the higher education network in Portugal and its sustainability.
Conference Paper
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As tourism is contributing to Portugal to approach the triple line of unsustainability: social state, qualifications and population bias. What kind of tourism do we want for Portugal? Some proposals of "a-tourist" tourism models.
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Territórios de baixa densidade (TBD) – dificuldades crónicas de atingir limiares mínimos (demografia, infraestruturas, conhecimento, redes) na matriz de relevância territorial e nos processos de criação de valor territorial; Mesmo os TBD possuem recursos que devem ser identificados, classificados, preservados e utilizados nos processos de desenvolvimento territorial (Nunes e Sousa, 2019) – recursos arqueológicos; Pretende-se que, através desses recursos, seja possível dinamizar economicamente os territórios envolvidos, nomeadamente através de actividades turísticas; Através da relação entre diversos blocos teórico-conceptuais: exaptação, serendipidade, adjacente possível, intuição lenta, economia circular, singularidades territoriais e modelos de governância partilhada de inovação territorial pretende-se construir modelos e acções de intervenção territorial: modelos turísticos ‘a-turísticos’ e actividades anti-frágeis (Taleb, 2014) susceptíveis de dinamizar economicamente estes territórios; (Nunes e Cooke, 2021; Cooke e Nunes, 2021; Nunes, Cooke e Tomaz, 2021; Nunes, Cooke e Grilo, 2021); Um obstáculo inicial é a insuficiência de infra-estruturas de apoio: permanência das equipas, actividades de investigação e análise, acolhimento de investigadores visitantes, apoio logístico diverso,…. é sobre este obstáculo na fase inicial do projecto e sobre a sua superação que trata a minha comunicação. Objectivo: Apresentar uma solução anti-frágil assente em princípios de economia circular que ajude a ultrapassar esse obstáculo.
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O efeito da pandemia de Covid-19 lançou desafios e barreiras inquestionáveis à área do turismo, merecendo uma reflexão séria sobre o papel de todos os agentes e intervenientes, a respeito das medidas e alternativas adotar como resposta à crise, numa perspetiva a curto, médio e longo prazo. Este artigo propõe uma reflexão sobre o caminho a seguir pelo turismo, enquadrado numa linha de pensamento relacionada com o progresso tecnológico e o recurso a tecnologias, como motor dessa mudança e visão alternativa. O artigo estabelece como resultados, uma reflexão sobre a estratégia de fundo a ser implementada, assim como diversos conceitos e táticas, que visam estabelecer no presente, uma visão de futuro para a área do turismo, sendo esta mais ampla, inclusiva, educativa, tecnológica e, definitivamente, menos dependente das limitações resultantes de fenómenos não controláveis pelo Homem.
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The conceptual, political and operational articulation of tourism with innovation is not an easy task to accomplish and there are many mistakes to block its desired symbiosis. However, this integration is fundamental, namely in the deeply complex times that will follow the dramatic period that we live in. The relationship between tourism and innovation will be central, not to boost tourism in the post-COVID19, which is already a notable failure in the strategic vision of an entire country, but to reduce the negative impacts of this failure in the next 20 years, allowing tourism to contribute effectively for sustainable development. On the other hand, in the last 50 years, innovation has been transformed economically and politically as the religion of capitalism. The merits of some innovations are undeniable. However, it is also quite clear that innovation, namely that which is only mediated and valued by market and economic and financial performance criteria, induces production and multiple consumptions that have contributed to the acceleration of climate change and levels of unsustainability of the planet. Not all innovation is virtuous. This text has three objectives: to requalify the role of innovation in capitalist society, to reconceptualize the relationship between tourism and innovation and to identify some challenges that will test this relationship in the post-COVID19. It is intended to help bridge the gap that exists between innovation and tourism, thereby contributing to the conceptual, analytical and political clarification that can enable tourism and innovation to be virtuously integrated. Only with better tourism and better innovation will it be possible to face the challenges of the coming decades.
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Uma parte significativa do território português encontra-se num processo de perda acentuada de população residente. A dimensão populacional é uma variável determinante da viabilidade da generalidade das funções que se associam à existência e à sustentabilidade da qualidade de vida dos territórios. O ensino superior é uma dessas funções mais especializadas que tem vindo a adquirir uma elevada densidade funcional que confere, por essa razão, níveis elevados de centralidade territorial com impactos nas dinâmicas de competitividade e de coesão territorial. Este trabalho tem como objectivo construir um indicador que permita avaliar o potencial de cada território (distrito) português, para gerar, reter e atrair procura de ensino superior. A análise destas dinâmicas para diferentes momentos no tempo pode ajudar a formular sugestões para a política pública. Adicionalmente, a discussão dos resultados pode remeter-nos para áreas distintas, embora interdependentes como, por exemplo, em termos políticos, a racionalidade da rede de ensino superior em Portugal ou, num âmbito mais técnico, para a distorção do papel da função ensino superior na racionalidade subjacente da hierarquia das funções urbanas.
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The COVID-19 pandemic will probably be the toughest stress test ever for the entire tourism industry and, when over, travellers will surely find a changed industry. The changes will take place in various ways, both on the demand and supply side. The present piece reflects on the great and unexpected opportunity that this difficult moment is giving the sector - albeit through such a dramatic experience - to rethink tourist activity, tourism planning, management and destination development based on a new humanism that would consider the “human factor” more than it has done so far (if not in theory, for sure in the practice). In particular, the chapter focus on the opportunity to recover and reinvigorate the idea of tourism as a vehicle for human development, intercultural dialogue and sustained peace. A human centred tourism, Tourism 5.0. To this end, the chapter first outlines the situation in which this work is contextualized, and then conceptually explore the opportunities this crisis is providing for the sector to radically rethink itself before its restarts.
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The Tamar Project is a Brazilian pioneering initiative for the conservation of sea turtles. It has settled in Fernando de Noronha (state of Pernambuco) in 1984, in order to protect these animals. Based on the premise of improving the services rendered, we have developed and applied a survey aiming to understand the opinion of respondents regarding the service and interpretative aspects of the services provided by the Tamar Project/ICMBio Visitor Center (VC) in Fernando de Noronha. For this purpose, we conducted a descriptive research and in loco observation, based on literature review. Visitors were interviewed in the VC and one of the main findings was that 80% of them still prefer a traditional talk instead of a 3D video. Based on this result, we can conclude that tourists, despite their fondness for new technologies, still appreciate personal environmental interpretation through talks. Discovering the limits concerning the use of technologies and the absence of interpreters is one of the biggest challenges of museus and visitor centers.
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The creation of geoparks, at fi rst in Europe but nowadays in the whole world, allowed the establishment of new strategies for the teaching and interpretation of the geosciences. Geoparks promote not only the interpretation of geological knowledge but also the values of responsible citizenship, based on a sustainable use of well-protected geological heritage. In order to achieve these aims, geopark staff must include experts in geosciences education, and must maintain a close relationship with the local community. This paper develops these topics, and discusses several examples of geological education and interpretation in European geoparks.
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In an era of globalisation, the issue of territorial competitiveness is of increasingly central importance for regional development policies. This paper aims to deal directly with the issue from a theoretical viewpoint, in particular examining two related questions more thoroughly: the question of the soundness of the concept of territorial competitiveness itself in terms of economic theory and the question of the new foundations on which this competitiveness is based, using a cognitive-evolutionary type approach.
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This paper deals with the contribution of tourism to regional economic resilience and questions the ways regional policy-makers recognize the relevance of tourism and integrate it into their regional development strategies (and, in particular, in regional innovation strategies). An exploratory analysis was carried out with a focus on the ‘smart specialization strategy’ documents, issued in Europe as required by the new programming phase of the structural funds. After defining the potential relevance of tourism as factor of regional economic resilience, a list of emerging innovation policies involving tourism was identified and linked to one of the following three types of regional economic resilience: ‘engineering resilience’, ‘ecological resilience’ and ‘evolutionary resilience’.
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In a globalising economy, territories and not just firms increasingly find themselves in competition with each other. In fact, differently from the case of countries, cities and regions compete, on the international market for goods and production factors, on the basis of an absolute advantage principle, and not of a comparative advantage principle; this means that no efficient, automatic mechanism like currency devaluation or prompt flexibility of wages and prices - may grant each territory some role in the inter-national division of labour, whatever its relative performance. Competitiveness of territories emerges as a central issue, in order to secure employment stability, benefits from external integration, continuing growth of local wellbeing and wealth. The arguments put forward by Paul Krugman, defining the concept of competitiveness wrong and misleading, cannot be accepted in a territorial 'regional and urban' context.
O Turismo Científico na Amazónia: Um estudo das oportunidades
  • Manuel Alves
Alves, Manuel (2001). Multidimensionalidade do espaço: do espaço objecto ao espaço sujeito e à ordem no território. Centro de Investigações Regionais e Urbanas. Instituto Superior de Economia e Gestão. UTL. Lisboa. Andrade, Johanny (2008). O Turismo Científico na Amazónia: Um estudo das oportunidades, necessidades e potencialidades para a cidade de Manaus, Manaus: Dissertação de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Florestais, Universidade Federal do Amazonas. Baptistotte, Cecíclia (1994). Tartarugas marinhas: Projecto TAMAR. In: Congresso de Herpetologia no Brasil, 1., 1994, PUC Belo Horizonte-MG. Anais. Belo Horizonte: Fundação Biodiversistas e Fundação Ezequiez Dias, pp. 33-37.
Regional Competitiveness: Towards a Concept of Territorial Capital, em Capello, R. et. al. (org) -Modelling Regional Scenarios for Enlarged Europe
  • Robert Camagni
Camagni, Robert (2008). Regional Competitiveness: Towards a Concept of Territorial Capital, em Capello, R. et. al. (org) -Modelling Regional Scenarios for Enlarged Europe. Advances in Spatial Sciences. Springer. pp. 33-47.
Tourism and sustainable development of rural destinations: a stakeholders' view
  • Roberta Capello
Capello, Roberta (2007). Regional Economics. Routledge. UK. Cappellin, Robert e Wink, Rüdiger (2009). International Knowledge and Innovation Networks, New Horizons in Regional Science. UK: Edward Elgar. Comissão Europeia (2008). Livro Verde Sobre a Coesão Territorial Europeia, COM (2008) 616 final, Bruxelas. EU (2010). Regional policy contributing to smart growth in Europe. COM (2010) 553, Brussels. Eusébio, Celeste; Kastenholz, Elisabeth e Breda, Zélia (2014). Tourism and sustainable development of rural destinations: a stakeholders' view, Revista Portuguesa de Estudos Regionais, (36), pp. 13-21.
O ordenamento do território como política pública, Fundação Calouste Gulbenkian. Serviço de educação e Bolsas
  • João Ferrão
Ferrão, João (2011). O ordenamento do território como política pública, Fundação Calouste Gulbenkian. Serviço de educação e Bolsas. Lisboa. Foray, Dominique (2006). The Economics of Knowledge. MIT Press, Cambridge. Hjalager, Anne-Mette (2010). A review of innovation research in tourism, Tourism Management, (31), pp. 1-12.