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Abstract

Entrevista com Mário Laranjeira.
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https://doi.org/10.5007/2175-7968.2018v38nespp167
MÁRIO LARANJEIRA: TRAJETÓRIA DE UM TRADUTOR
Álvaro Faleiros
Universidade de São Paulo, São Paulo, São Paulo, Brasil
Andréa Cesco
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil
Fabiano Seixas Fernandes
Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, Florianópolis, Brasil
Gilles Jean Abes
Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil
Mário Laranjeira, que é uma das maiores referências brasileiras
atualmente na área da tradução, teve na verdade uma trajetória
bastante atípica. Nasceu em 1929, em plena crise econômica, numa
família de classe média baixa, e aos nove ou dez anos de idade já
precisou trabalhar para ajudar com as despesas da casa. Tal con-
texto teria certamente levado o futuro professor e pesquisador da
USP a concluir apenas o primário, como fizeram seus irmãos, não
fosse um encontro fortuito e seu gosto pelo estudo. De fato, em
1942, um Irmão Marista (membro da Congregação dos Irmãos Ma-
ristas ou “Petits frères de Marie”, fundada na França pelo Padre
Marcelin Joseph Benoît Champagnat em 1817, que forma irmãos
religiosos leigos destinados ao ensino) passava pela cidade para
recrutar meninos que desejassem seguir a carreira de professor
religioso. Com esse fato providencial, Mário Laranjeira viu a pos-
sibilidade de continuar seus estudos e assim o fez. Em dezembro
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de 1951, não renovou os votos, retirou-se da Congregação onde
havia começado a fazer traduções para uso interno e começou a dar
aulas de português, latim, francês e geografia. Após uma inspeção,
sem diploma para dar aula, sua manutenção como professor foi
condicionada à inscrição numa universidade. Foi assim que cursou
a graduação e pós-graduação na USP, onde foi também assistente
do professor Claude-Henri Frèches. Mário Laranjeira se efetivou
num cargo na USP apenas em 1975, aos 46 anos de idade, de onde
se aposentou em 1995.
Como tradutor, sua contribuição é bastante significativa e, fato
interessante, começou a publicar seus trabalhos em livro aos apro-
ximadamente 50 anos de idade. Uma de suas primeiras traduções
foi Geografia rural, de Pierre George, publicada pela DIFEL em
1982. Verteu para o português, tanto em prosa quanto em poesia,
autores como Baudelaire, Gide, Apollinaire, Flaubert, Voltaire, La
Fontaine, Perrault, Gaston Leroux, Yves Bonnefoy ou ainda Vau-
venargues, Pascal, Barthes e Georges Duby, além de ter elaborado
importantes antologias como Poetas de França Hoje (1996) e Poe-
tas franceses da Renascença (2004). Seu trabalho foi reconhecido
com dois prêmios Jabuti por suas traduções de Poetas de França
hoje e Madame Bovary.
Como pesquisador e professor, publicou o livro Poética da
tradução em 1993, além de ter formado uma geração de impor-
tantes pesquisadores na área dos Estudos da Tradução. De fato,
é um dos poucos tradutores poéticos brasileiros a produzir uma
teoria tradutória que auxilie tanto no processo quanto na crítica de
traduções, baseada no conceito de significância, do crítico literário
francês Michael Riffaterre. A significância é um propensão do tex-
to a enfatizar o pólo do significante (não o do significado): resulta
disso um afrouxamento da arbitrariedade do signo – que se torna,
portanto, mais motivado –, e a abertura do texto para múltiplas lei-
turas, uma vez que a relação entre os significantes foi dinamizada
de modo não-linear e não necessariamente sintático ou denotativo.
Aliada a este conceito, a teoria de Laranjeira ainda busca analisar
as agramaticalidades dos textos poéticos – sendo estas os desvios
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conscientes que o poema faz das normas vigentes da língua em
questão. A principal consequência, para o ato tradutório, é que
o tradutor poético deve se ater não ao sentido do poema, mas à
sua significância, a seu modo de produzir aberturas para o sentido.
Assim, Laranjeira consegue fazer uma crítica às traduções feitas
por outros tradutores (como, por exemplo, fez com as traduções
de Silviano Santiago da obra de Jacques Prévert), e propor suas
próprias soluções.
ENTREVISTA COM MÁRIO LARANJEIRA1
Cadernos de Tradução (CT): Como você começou a traduzir?
Mário Laranjeira (ML): Como eu comecei a traduzir? Bom, eu fiz
o ginásio e o colegial como interno nos irmãos Maristas. Nessa
época, pediram que eu traduzisse uma série de textos franceses,
embora eu não tivesse feito nem a universidade ainda, nem curso
de tradução nenhum – aliás, curso de tradução nunca fiz. Foi quan-
do eu comecei a traduzir, principalmente textos religiosos, mas era
para uso interno. Isso foi lá pelo anos 50 e pouco; em 52 eu sai dos
Maristas, então foi no fim dos anos 40, começo dos anos 50. Foi
meu início com tradução; depois, comecei a trabalhar como profes-
sor de francês; na verdade, eu era professor de três coisas: de por-
tuguês, latim e francês. Era no tempo que tinha latim no ginásio,
o francês também. Depois, na época da professora Marina Cintra,
inspetora seccional da nossa região, ela andou mandando inspeto-
1 LARANJEIRA, Mário. Depoimento [junho de 2017]. Entrevistadores: Álvaro
Faleiros, Gilles Jean Abes. São Paulo, 2017. Entrevista concedida para o número
especial Baudelaire 150 anos (Cadernos de Tradução PGET/UFSC) a Álvaro
Faleiros, Andréa Cesco, Fabiano Seixas e Gilles Jean Abes.
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res para verificar a situação dos professores nas escolas. E vieram
lá duas professoras, eu lecionava nessa época no GITEMA, Ginás-
io Tereza Martin. (Sabe quem é Tereza Martin? Tereza Martin é
a Santa Terezinha do Menino Jesus, o nome de família dela era
Thérèse-Martin, e o dono da escola era devoto de Santa Terezinha,
e botou no colégio dele o nome de Tereza Martin.) Então lá na
época, como disse, só tinha ginásio e colégio, não tinha faculdade.
Eu morava lá no Largo da Matriz da Igreja de Nossa Senhora do Ó,
que é o topo do bairro da Freguesia do Ó. E esse colégio, Tereza
Martin, ficava a uns 50, 100 metros de onde eu morava, então para
mim era muito cômodo. Aquela inspetora mandou as outras inspe-
toras verificarem as aulas que eu estava dando, porque eu não tinha
documentação nenhuma, eu só tinha colegial; aí, durante as minhas
aulas de francês, vinham duas inspetoras, sentavam lá no fundo,
e ficavam assistindo. E nas aulas de latim e de português também
vinham duas, que também ficavam sentadinhas lá atrás, assistindo
as minhas aulas. Tem um detalhe: na época, tinha uma outra pro-
fessora que dava as mesmas aulas que as minhas, de português,
latim ou francês, no outro período, e essa era formada em Letras
Neolatinas pela Universidade Mackenzie. Então, para ter um termo
de comparação, elas iam também assistir as dessa outra professo-
ra. Foi triste durante um semestre; no fim, as inspetoras fizeram
o relatório para a dona Marina Cintra, e o relatório, entre outras
coisas, dizia o seguinte: que eu era um professor excelente, que
minhas aulas eram exemplares e, embora eu não fosse formado, e a
outra professora fosse, elas recomendaram que dessem as aulas da
outra para mim. Eu fiquei muito honrado com a coisa, mas a Mari-
na Cintra, a partir daí, fez uma carta para os diretores da Escola da
Freguesia do Ó, dizendo que autorizava que eu continuasse a dar
as aulas, desde que eu me matriculasse numa faculdade. Acontece
que já era mês de abril, por aí, e eu rodei todas as faculdades de
São Paulo, e não tinha uma que tivesse com matrículas abertas,
então, eu vi num papel que havia uma faculdade com matrículas
abertas em Uberaba. Eu peguei um ônibus e fui para Uberaba, abri
minha inscrição, prestei vestibular, entrei, pedi um atestado de que
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eu estava matriculado na faculdade, peguei outro ônibus, e nunca
mais voltei lá. Mas com esse papel me autorizaram a lecionar. No
ano seguinte, eu entrei na USP, aí estava tudo regular. Certo? E
na USP eu fiz a graduação, pós-graduação, mestrado e doutorado.
CT: Mário, você começou falando da sua experiência traduzindo
para os Maristas. Nesse percurso todo da sua formação, quando é
que você começou a traduzir de maneira mais regular?
ML: Eu comecei a traduzir praticamente na minha época de fac-
uldade, enquanto eu era aluno ainda; eu entrei em contato com a
Martins Fontes e eles me deram vários livros pra traduzir.
CT: Você lembra qual foi o primeiro livro?
ML: Não sei. Bom, antes disso, eu escrevi um livrinho sobre tra-
dução [Poética da tradução, 1993].
CT: Mas, quando escreveu o livro, você já traduzia?
ML: Sim, já, eu estava começando a traduzir, e ao mesmo tempo
eu fiz o livro. Aí ganhei dois prêmios Jabuti com as minhas tra-
duções, um deles foi Poetas de França hoje [1997], e o outro foi
Madame Bovary [2012].
CT: Você traduziu Flaubert, um escritor proverbialmente rigoroso
com a forma. O trabalho como tradutor de poesia o ajudou de
alguma maneira nessa tarefa?
ML: É difícil responder. Eu não acho que Flaubert seja excepcio-
nalmente mais difícil do que os outros. Eu acho que Voltaire, por
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exemplo, tem coisas tão difíceis quanto, e outros autores que eu
traduzi. Mas eu nunca pensei nisso.
CT: Ser tradutor de poesia ajudou de alguma forma?
ML: Eu acho que ser tradutor de poesia é, digamos, a nata de ser
tradutor. Você já deve ter visto as minhas traduções de poesia. Eu,
além do conteúdo semântico, procuro traduzir ou transpor para o
texto traduzido coisas como métrica, rima, tônica. É isso que di-
ficulta, porque não é só traduzir o sentido e tal. Isso seria traduzir
prosa, principalmente prosa de comunicação, a prosa literária já
é um pouquinho mais complicada. Mas o fato de traduzir poesia,
primeiro corresponde a um gosto que eu tenho, eu gosto de poesia,
sempre gostei desse moleque. Mas traduzi a poesia porque eu gosto
de traduzir poesia, e algumas porque me pediram. Outras, eu fiz
por minha conta. Esse aí por exemplo [Poetas de França hoje], eu
fiz por minha conta, e depois eu entreguei na editora. Aliás, tem
uma coisa interessante: eu tinha um colega francês, que deu aula
durante doze anos aqui na USP, e depois voltou para a França, já
faleceu, infelizmente; ele levou um exemplar do Poetas de França
hoje para a França, e mostrou para o editor dele, e o editor, através
dele, me pediu autorização para publicar o Poetas de França hoje
na França, sem a tradução, como antologia. Ele disse que nunca
tinha visto uma seleção tão bem feita para esse período da literatura
francesa. E, sem querer me vangloriar, eu acho que é uma coisa
que significa que meu trabalho é um trabalho sério.
CT: Sim, com certeza. Você é um dos poucos tradutores de poesia no
Brasil a ter lançado um livro teórico sobre o assunto, e que também
atuou como crítico de traduções. Você acredita que a reflexão
teórica e o exercício da crítica auxiliam a tradução poética?
ML: Eu acho que uma coisa e outra estão imiscuídas de tal maneira
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que cada uma auxilia a outra, mas não sei, porque eu sempre fiz as
coisas assim. Se não fosse assim, eu não sei como seria.
CT: Sua gama de traduções do francês é bastante ampla, alcançando
desde a renascença até os contemporâneos, como Yves Bonnefoy.
Quais diferenças você percebe entre a tradução de textos antigos e
a tradução de textos contemporâneos?
ML: Eu acho que, em geral, a diferença é a própria natureza do
texto original, porque, evidentemente, a língua é um elemento
vivo, e está sempre evoluindo. Então, se eu vou trazer um texto do
século XX, tudo bem, é da época que eu estou vivendo. Agora, se
eu vou traduzir uma coisa do século XVI, por exemplo, não é mais
a minha linguagem. Então, a gente tem que levar isso em conta,
e ter consciência de que você tem que fazer um ajuste. Quando a
gente traduz esses textos, eu acho que têm que evitar duas coisas:
primeiro, modernizar demais a linguagem, porque aí não dá mais
a impressão de ser do século XVI; segundo, não arcaizar também
demais, senão o leitor atual vai ter dificuldade para ler o texto.
CT: Focando agora As flores do mal. Qual foi seu primeiro contato
com a poesia de Baudelaire?
ML: Foi lá pelos 12 anos de idade, quando eu estava nos Maristas.
O colégio Marista é de uma congregação francesa, e lá a língua
oficial da comunicação era o francês, então a gente era obrigado a
falar tudo em francês no recreio. Só na quinta-feira e no domingo
a gente podia falar português no recreio. Fora dali, tudo francês.
Sem contar que, tirando as aulas de português, todas as outras eram
dadas em francês. Então, eu tive uma imersão de língua e cultura
francesa desde a minha primeira juventude.
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CT: Mas se lia Baudelaire nos Maristas?
ML: Li alguma coisa.
CT: Vocês liam escondido? Como é que era?
ML: Não, era expurgado, quer dizer, eles tinham uns textos lá.
Porque alguns textos não são condenados. Não são todos, entende?
CT: Você lembra qual poema?
ML: Ah, não lembro. Muito tempo, muito tempo, e pouca memória
pra lembrar.
CT: O primeiro poema que eu li dele foi “O albatroz”.
CT: O meu eu acho que foi “Correspondance”.
ML: Eu não lembro qual foi, honestamente.
CT: Como você avalia a importância de As flores do mal na
literatura em geral e, mais especificamente, na brasileira?
ML: Eu acho que até comento isso no prefácio, mas a minha ideia é
que toda tradução de grande autor estrangeiro enriquece a literatura
local, desde que seja uma tradução bem feita. Então, eu acho que
enriquece muito, inclusive, você veja que, em uma cultura como a
portuguesa (que praticamente começa lá no século XV, XVI, por
aí, a mais pesada, sem contar a medieval), a língua portuguesa
ficou lá naquele cantinho (como diz o nosso poeta [Olavo Bilac],
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“Última flor do lácio, inculta e bela”, e eu costumo dizer cada vez
mais inculta e menos bela), ela ficou meio isolada do movimento
geral da Europa, principalmente França, Itália e Alemanha. Eu
acho que a tradução de textos franceses (não falo das minhas, mas
de um modo geral, desde as priscas eras) ajudou muito a literatura
portuguesa e, em consequência, a brasileira. Aliás, eu acho que
você sabe que todo intelectual brasileiro, até o século XIX, lia
correntemente francês.
CT: E especificamente sobre As flores do mal, você acha que tem
um papel especial, qual seria esse papel?
ML: Na literatura brasileira?
CT: Na literatura brasileira, as traduções.
CT: As traduções dos poemas de As flores do mal certamente
influenciaram muito a literatura brasileira.
ML: Sim, lógico. Influenciaram, porque tudo que é novidade,
venha ela de fora do país ou seja ela criada no próprio país, in-
fluencia todo o conjunto da literatura. E eu acho que as traduções
pesam muito nesse balanço.
CT: Inclusive, são muitas as traduções de poemas de As flores do
mal, tantos de tradutores que traduziram alguns poemas apenas,
como de tradutores que traduziram a obra toda. No seu caso, são
poucos, são só quatro traduções na íntegra. Como chegou à ideia
de traduzir a principal obra do poeta Charles Baudelaire? Foi um
pedido da Martin Claret ou foi um projeto pessoal?
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ML: Foi um projeto meu, que submeti à editora, e ela aceitou.
Como outros livros que eu publiquei, são ideias minhas que eu
submeto. Como essas editoras já fizeram outras publicações de tra-
balhos meus, elas conhecem mais ou menos o meu tipo de trabalho,
geralmente quando eu ofereço alguma coisa, eles aceitam.
CT: Essas traduções de As flores do mal influenciaram a sua
tradução de alguma forma? Você chegou a ler essas traduções
antes de começar a sua? Ou leu outras? Ou fez outras leituras para
fazer a sua?
ML: Não li outras traduções; posso esporadicamente ter lido uma
ou outra tradução, mas não sistematicamente para depois fazer a
minha. De modo geral, quando eu faço a tradução, como é o caso
de As flores do mal, eu não leio, eu evito ler outras traduções que
tenham sido feitas para o português. Depois que eu faço, muitas
vezes, eu sei mais ou menos quais são os pontos que me deram mais
trabalho, quais foram os maiores problemas, aí eu vou procurar em
outras traduções qual foi a solução que o outro sujeito deu para
aquilo, mas eu não faço isso antes, de medo de ser influenciado.
CT: Você chegou a elaborar algum projeto de tradução? Você já
tinha alguma ideia do que você queria fazer com a sua tradução?
ML: Não, não tinha, foi coisa espontânea.
CT: Justamente sobre a forma de traduzir esses poemas, a
organização, a metodologia, você começou a traduzir poemas que
você preferia, ao acaso, ou foi começar desde o primeiro?
ML: Eu peguei do primeiro verso e fui até o último. E fui também
na parte de poemas em prosa.
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CT: Você já tinha toda uma leitura crítica antes do Baudelaire, a
relevância da obra dele…
ML: É evidente que eu já tinha um certo conhecimento da obra
dele, mas dizer que eu fui procurar algo especificamente para fazer
a tradução… não.
CT: Você já tinha a sua leitura de As flores do mal. Quais são,
na sua opinião, os principais desafios de se traduzir a poesia do
Baudelaire? Eu penso particularmente a partir do conceito de
significância, que está no seu livro A poética da tradução: quais
são esses elementos que compõem essa significância da poesia do
Baudelaire?
ML: Isso não é fácil de responder. Eu acho que a poesia do Baude-
laire, independentemente de eu tê-la traduzida ou não, é uma das
produções poéticas mais importantes do século XIX, da França
e, até diria eu, do mundo ocidental. É um livro realmente fora de
série. Agora, quando eu vou traduzir, tem duas coisas que eu acho
importante. Primeiro é não traduzir com dúvidas, quer dizer, você
tem que matar todas as charadas do texto original, de maneira sati-
sfatória. E a segunda coisa é tentar colocar em português um nível
de estilo que seja mais ou menos equivalente ao nível no mundo
de língua francesa. Eu acho que essas duas coisas são importantes.
CT: E eu penso na linguagem do Baudelaire, que uma das
complexidades da linguagem dele é o uso do coloquialismo. Uma
certa linguagem coloquial, com uma forma apurada, não é tão
simples de conseguir traduzir, porque essa forma limita as escolhas
das palavras.
ML: Tem coisas ditas, bastante populares, e existem outras que
são eruditíssimas. Tem que combinar essas duas coisas de maneira
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que não dê alguma coisa chocante; tem que combinar de maneira
harmoniosa.
CT: E tentando seguir esses registros, esses níveis de linguagem,
eu penso, por exemplo, no emprego da rima imperfeita. Há uma
solução interessante para tentar ter um pouco mais de flexibilidade,
um pouco mais de liberdade no momento da tradução? Manter
sempre as rimas perfeitas?
ML: Bom, vocês têm também que reconhecer a teoria da poesia
francesa e a teoria da poesia de língua portuguesa – que não são
idênticas; muita coisa é igual, mas tem algumas coisas diferentes.
Por exemplo, a poesia francesa tem aquele negócio que se cha-
ma l’alternance de rime, que vem desde o século XVI; acho que
foi o Clément Marot quem inventou isso. Ele criou esse negócio
de alternância das rimas, entre rima masculina e rima feminina.
Para ele, a rima masculina é aquela que termina com a sílaba tôn-
ica, e a rima feminina é aquela que termina com sílaba átona, ou
seja, “e” mudo, com ou sem consoantes. Essa alternância de rima
eu nunca segui, porque é uma coisa formal que existe na França,
mero formalismo. Me dei ao direito de não respeitar isso, mesmo
porque a rima, em cada língua, pode ser julgada diferentemente;
particularmente, em francês, só existem palavras oxítonas, só não
é oxítona se a última vogal for “e”. Em português, você pode ter
oxítona, paroxítona e proparoxítona. Tem um poema por exemplo
do Chico Buarque, “Amou daquela vez como se fosse a última…”
– chama-se “Construção” –, em que todos os versos terminam em
proparoxítona, só os dois últimos que são paroxítonos. Com isso,
ele obtém um efeito de suspense, de ansiedade, do trabalhador nos
altos andaimes das construções. E isso não pode ser levado para o
francês, por uma razão muito simples: o francês não tem propa-
roxítona. Então, a tradução tem dessas coisas, existe a intradutibi-
lidade linguística, e esse é um dos casos.
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CT: Daí o tradutor pode tentar compensar de alguma outra forma.
ML: Pode tentar, mas nunca vai conseguir. Não existe propa-
roxítona e ponto. Então, você pode tentar conseguir aquele efeito
da proparoxítona, de insegurança, por outros meios – tentar, agora
se vai conseguir, eu não sei.
CT: Esse emprego da rima imperfeita é uma forma de obter certa
liberdade em relação a uma convenção da forma, você consegue
então um pouco mais de plasticidade…
ML: A definição do que é uma rima imperfeita varia de autor pra
autor, eu acho que a maioria deles considera que a rima imperfeita
é aquela que rima só a tônica.
CT: Isso, exatamente.
ML: Mas tem outros que acham que a rima imperfeita é aquela que
rima só as consoantes. Eu li isso aí em algum lugar. Eu acho que
tem pouca gente que pensa isso.
CT: A definição mais geral é a seguinte: a rima perfeita ocorre
quando o segmento rimante coincide perfeitamente, e a rima
imperfeita ocorre quando, no segmento rimante, há algum elemento
que distoa: pode ser um “s” a mais, pode ser uma variação de uma
consoante, pode ser eventualmente a variação de uma vogal.
ML: É, mas, de um modo geral, o pessoal define que a rima imper-
feita é aquela que rima a última vogal tônica. O que dá na mesma,
no fim.
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CT: Tem até uma uma definição interessante lá naquele livro, eu
acho que é Teoria do verso [de Rogério Chociay], que ele prefere
chamar de rima completa ou incompleta. Quer dizer, incompleta é
quando faltam (ou não coincidem exatamente) um ou dois elementos
dentro do segmento rimante.
CT: São vários casos que, inclusive você, Álvaro, citou na sua
tradução de As flores do mal, como rimas: “transa” com “laranja”,
“tantas” com “chamas”, “escarros” com “espaços”. Eu acho que
essa escolha acaba dando um pouco mais de liberdade, pelo menos
possibilita outras opções de tradução. Uma escolha, inclusive, que
você tem tentado explorar nas suas traduções também. Eu acho
que é uma opção; pelo menos possibilita outra coisa.
ML: É muito mais difícil fazer rima em português que em francês.
Primeiro, porque em português nós temos, a partir da última tônica,
mais três sílabas; em francês, não pode ter isso. Portanto, rimar três
sílabas é mais difícil do que rimar duas ou uma. Segundo, a rima em
português admite umas coisas que a rima francesa não admite, como
por exemplo, essa tal de rima imperfeita, você defina como quiser,
mas em francês não tem esse negócio. Ou rima ou não rima.
CT: É uma vantagem que temos no português…
ML: É, porque o português é uma língua muito mais próxima do
latim. E você sabe que o verso latino não tinha rima – verso latino
que eu digo é do latim do tempo do império romano, porque, de-
pois, com o latim eclesiástico, aí tem rima. Rima é uma coisa que,
no latim, surgiu na idade média.
CT: Você diria que a sua tradução contribuiu para alterar a
recepção da poesia do Baudelaire no Brasil? Principalmente, se
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pensarmos na influência da versão do Ivan Junqueira, que é tida
como muito próxima, seguindo muito de perto a forma do verso, e
não tanto a questão da oscilação da linguagem entre o coloquial
e o erudito.
ML: Acho que contribuir, contribui. Todas as traduções contri-
buem de algum jeito, de alguma forma. Mas quando a gente faz,
ou pelo menos quando eu faço alguma coisa, eu não penso se está
contribuindo ou não. Eu penso simplesmente em levar a poesia
estrangeira para uma manifestação em português, com uma rou-
pagem de português, mantendo tanto quanto possível semântica,
ritmo, métrica, etc.
CT: Eu acredito que vai contribuir muito com uma mudança na
maneira como o Baudelaire é lido, porque são sempre outras
interpretações, outros tons que são dados, e realmente as traduções
e o resultado final acabam sendo bastante diferentes. O mesmo
poema tem diferentes traduções. Isso vai influenciar certamente a
recepção do Baudelaire.
ML: Mas quanto a isso de ser diferente, dos versos das traduções
serem diferentes, eu acredito que uma boa parte disso também se
deve não à pessoa que traduziu, nem ao autor, mas à diversidade
das línguas.
CT: Para finalizar, você lembra de alguma tradução que te deu mais
trabalho, que foi mais penosa, algum poema talvez, algum autor?
ML: Eu nunca pensei nisso.
CT: Essa edição sua do Baudelaire é uma edição só com os poemas
em português. Você acha que isso tem algum reflexo na maneira
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como a sua tradução é recebida, comparando com a edição, por
exemplo, do Ivan Junqueira?
ML: Eu acho que tem pelo seguinte: primeiro, eu tenho alguns
livros que eu entreguei o texto da tradução e o texto do original
– vários deles, a maioria. Mas, mesmo quando eu faço isso, eu
nunca ponho chamada justalinear, tradução justalinear, eu faço
décalé [deslocado], ou faço em nota, com o texto principal sendo
a tradução – eu estou publicando a tradução, não estou publican-
do o original. Porque senão, se eu puser justalinear, o cara vai fa-
zer o seguinte: “vamos ver como é em francês… ah, ele traduziu
bem… e aqui ele fez um…” – não é para ler assim! Um poema é
feito para ler de ponta a ponta; depois você lê a tradução de ponta
a ponta. Se, depois, você quiser fazer um confronto detalhado,
aí você faz, mas se você fizer isso que eu estou dizendo de ficar
comparando, você mata a poeticidade dos dois textos, tanto do
original quanto da tradução.
CT: É uma questão muito interessante essa da maneira como se
edita. Se a gente pensa, por exemplo, no Romantismo, ou mesmo
em um certo Modernismo, os poemas traduzidos estão dentro
das próprias obras dos poetas, muitas vezes; é muito comum,
em edições espanholas ou de língua espanhola, não se publicar
o original junto; no Brasil, desde o Guilherme de Almeida, se
desenvolveu um hábito de se fazer uma coisa mais justalinear. Mas
alguns dos seus livros são assim.
ML: São.
CT: Esse por exemplo, aqui, o Apollinaire – ou esse mesmo
que ganhou o Jabuti, não, esse é deslocado, nesse você já teve
um controle maior sobre o modo como ele foi editado. Mas é
interessante essa sua colocação sobre a maneira como esse livro
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Cad. Trad., Florianópolis, v. 38, nº esp. Baudelaire 150 anos, p. 167-183, ago-dez, 2018
Entrevista com Mário Laranjeira
aqui é editado… Agora, no caso de As flores do mal, qual é a sua
opinião sobre o fato de o livro estar só em português?
ML: Eu não queria isso, eu queria que tivesse em algum lugar – ou
em apêndice, ou em rodapé, não justalinear – a tradução e o ori-
ginal, mas a editora disse que era uma edição que não comportava
esse tipo de coisa, porque ia aumentar muito o preço de custo,
coisas desse tipo.
Transcrição: Radharani Oribka Bejarano (Capes/UFSC)
Referências
BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Tradução de Mário Laranjeira. - São
Paulo: Martin Claret, 2011.
LARANJEIRA, Mário. Poética da tradução: do sentido à significância. - São
Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2003.
Recebido em: 20/09/2018
Aceito em: 14/10/2018
Publicado em dezembro de 2018
Álvaro Faleiros. Email: alvarofaleiros@gmail.com
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7507-7801
Andréa Cesco.E-mail: andrea.cesco@gmail.com
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4708-186X
Fabiano Seixas Fernandes. E-mail: bnfnds@gmail.com
ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3495-5975
Gilles Jean Abes. E-mail: gillesufsc@gmail.com
ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9063-1997
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As flores do mal. Tradução de Mário Laranjeira
  • Charles Baudelaire
BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Tradução de Mário Laranjeira. -São Paulo: Martin Claret, 2011.
Poética da tradução: do sentido à significância
  • Mário Laranjeira
LARANJEIRA, Mário. Poética da tradução: do sentido à significância. -São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2003. Recebido em: 20/09/2018
Email: alvarofaleiros@gmail
  • Álvaro Faleiros
Álvaro Faleiros. Email: alvarofaleiros@gmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7507-7801
E-mail: andrea.cesco@gmail
  • Andréa Cesco
Andréa Cesco.E-mail: andrea.cesco@gmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4708-186X
E-mail: bnfnds@gmail
  • Fabiano Seixas Fernandes
Fabiano Seixas Fernandes. E-mail: bnfnds@gmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3495-5975
E-mail: gillesufsc@gmail
  • Gilles Jean
Gilles Jean Abes. E-mail: gillesufsc@gmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9063-1997