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A crítica ao homem oitocentista nos folhetins "fantásticos" de Eça de Queirós

Authors:

Abstract

Objetiva-se, com este estudo, uma análise das narrativas “O milhafre”, “O lume” e “Memórias duma forca”, de Eça de Queirós, publicadas inicialmente no jornal Gazeta de Portugal em 1867, e, postumamente, compiladas no volume Prosas Bárbaras (1903), a fim de compreender como o autor de Os Maias faz uso do fantástico, para fazer uma crítica social ao Oitocentos. De acordo com os pressupostos de Reis (1951) e de Saraiva (1995), reconhecemos Eça como um escritor que dialoga com o fantástico. Deste modo, partindo das reflexões de Peixinho (2002) e de Nery (2010), sobre o viés fantástico na obra de Eça de Queirós, e de outros críticos que se debruçam sobre a produção inicial do autor nascido em Póvoa de Varzim, trataremos de elucidar como Eça traz o fantástico nesses textos, evidenciando a complexidade dessa produção, já que, para ele, não se trata apenas de trazer o fantástico, uma vez que ele insere assuntos do teor social, fazendo, dessa forma, uma crítica ao homem oitocentista.
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A CRÍTICA AO HOMEM OITOCENTISTA NOS FOLHETINS
FANTÁSTICOS DE EÇA DE QUEIRÓS
THE CRITICISM TO THE 19TH CENTURY MAN IN THE FANTASTIC
FEUILLETONS BY EÇA DE QUEIRÓS
Jean Carlos Carniel1
Luciene Marie Pavanelo2
Resumo: Objetiva-se, com este estudo, uma análise das narrativas “O milhafre”, “O lume”
e “Memórias duma forca”, de Eça de Queirós, publicadas inicialmente no jornal Gazeta
de Portugal em 1867, e, postumamente, compiladas no volume Prosas Bárbaras (1903),
a fi m de compreender como o autor de Os Maias faz uso do fantástico, para fazer uma
crítica social ao Oitocentos. De acordo com os pressupostos de Reis (1951) e de Saraiva
(1995), reconhecemos Eça como um escritor que dialoga com o fantástico. Deste modo,
partindo das refl exões de Peixinho (2002) e de Nery (2010), sobre o viés fantástico na
obra de Eça de Queirós, e de outros críticos que se debruçam sobre a produção inicial do
autor nascido em Póvoa de Varzim, trataremos de elucidar como Eça traz o fantástico
nesses textos, evidenciando a complexidade dessa produção, já que, para ele, não se
trata apenas de trazer o fantástico, uma vez que ele insere assuntos do teor social,
fazendo, dessa forma, uma crítica ao homem oitocentista.
Palavras-chave: Fantástico. Insólito. Eça de Queirós. Crítica social.
Abstract: The objective of this study is to analyze the narratives “O milhafre”, “O lume”
and “Memórias duma forca”, by Eça de Queirós, initially published in the newspaper
Gazeta de Portugal between 1866 and 1867 and, posthumously, compiled in the book
Prosas Bárbaras (1903), in order to understand how the author of Os Maias makes use
of the fantastic, to make a social criticism to the Nineteenth century. According to
the assumptions of Reis (1951) and Saraiva (1995), we recognize Eça as a writer who
dialogues with the fantastic. In this way, starting from the refl ections of Peixinho (2002)
1 Mestrando em Letras pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Bolsista da FAPESP,
processo nº 2016/25008-2, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
E-mail: jc.carniel@hotmail.com
2 Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo
(USP). Professora da Universidade Estadual Paulista (UNESP). E-mail: luciene.pavanelo@unesp.br
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and Nery (2010), on the fantastic in the work of the writer born in Póvoa de Varzim, and
other critics who focus on the initial production, we try to elucidate how Eça brings the
fantastic in these texts, evidencing a complexity of his production, since, for him, it is
not about bringing the fantastic, he brings social content, thus making a criticism of the
nineteenth century’s man.
Keywords: Fantastic. Unusual. Eça de Queirós. Social Criticism.
Os folhetins publicados por Eça de Queirós na Gazeta de Portugal receberam
críticas depreciativas na época de publicação, como é possível constatar pelo depo-
imento de Jaime Batalha Reis, camarada de Eça de Queirós, que assina a introdução
de Prosas Bárbaras. Para Reis, essas narrativas foram notadas como uma “novidade
extravagante e burlesca. Geral hilaridade os acolheu desde a própria Redação da
Gazeta de Portugal, até aos centros intelectuais reconhecidos do país, e até à parte
mais grave, culta e influente do público” (1951, p. 7). Além disso, o comentário irônico
de Teixeira de Vasconcelos, fundador da Gazeta de Portugal,no qual ele afirma que
“tem muito talento este rapaz; mas é pena que estudasse em Coimbra, que haja nos
seus contos, sempre, dois cadáveres amando-se num banco do Rossio [...]” (Apud REIS,
1951, p. 8), aponta que, supostamente, os folhetins de Eça tiveram tal recepção nega-
tiva devido aos temas abordados nesses textos, cuja maioria dialoga com o fantástico,
evidenciando, dessa forma, a marginalidade dos escritos fantásticos naquela época.
Jaime Batalha Reis (1951, p. 24), na introdução de Prosas Bárbaras, afi rma que
Eça de Queirós teria sido, entre 1866 e 1867, o mais genial representante português
da literatura fantástica. Dessa forma, procuramos evidenciar a parte da produção
queirosiana que foge dos escopos do paradigma realista/naturalista, e se adentra ao
fantástico, sobretudo os primeiros escritos publicados por ele em forma de folhetins.
Propomos, portanto, uma visão alternativa do autor de O primo Basílio, destacando o
diálogo com o fantástico.
António José Saraiva é outro crítico que reconhece que há uma visão cristalizada
de Eça como um escritor realista e discorda dela. De acordo com o estudioso,
nas suas primeiras obras, as Prosas Bárbaras [...], Eça é um escritor do gênero a que
depois se chamou “fantástico”, e nas últimas, que são vidas de santos, volta a esse
caminho; as suas obras que foram chamadas “realistas” estão entre aquele começo
e este fi m “fantásticos...”. São um intervalo numa série vasta, tendo em conta que
mesmo na fase “realista” da obra de Eça há vários romances que programaticamente
nada têm de realistas, como O mandarim, A cidade e as serras, A ilustre casa de
Ramires, e até onde falta qualquer propósito de coerência e de verosimilhança,
como A relíquia. Sem falar de O mistério da Estrada de Sintra. (SARAIVA, 1995, p.
149-150).
Pode-se constatar que há um viés fantástico que está presente desde os primeiros
até os últimos escritos de Eça de Queirós. O corpus desse estudo enquadra-se, portan-
to, dentro desses limites. Trataremos de analisar os folhetins “O milhafre”, “O lume” e
“Memórias duma forca”, publicados no jornal Gazeta de Portugal em 1867, e, postuma-
mente, compilados no volume Prosas Bárbaras (1903).
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Ana Teresa Peixinho (2002, p. 38-39), ao analisar as narrativas de Prosas Bárbaras,
divide esses folhetins em três categorias: os que estariam no domínio do fantástico,
no domínio do real ou no domínio programático. Para a pesquisadora, “O milhafre” e “O
lume” fi cariam no primeiro conjunto, enquanto que “Memórias duma forca” estaria in-
serido no segundo grupo, isto é, aqueles do domínio do real. Entretanto, para nós, essa
narrativa também poderia estar enquadrada na primeira categoria, já que se observa,
nesse texto, uma técnica semelhante à utilizada nos dois primeiros folhetins, pois, em
“Memórias de uma forca”, Eça utiliza a personifi cação de um objeto inanimado ou de
um ser irracional, fi gura de linguagem que também aparece em “O lume” e “O milhafre”,
fazendo com que se manifeste o efeito insólito. Além do mais, a hipótese que permeia
esse estudo é que, nesses contos, haveria uma confl uência entre o real e o fantástico,
pois, apesar de serem observados elementos do fantástico nessas narrativas, também
há a inserção de temas extraídos do contexto histórico-social daquela época, como a
crítica à sociedade oitocentista, agravada pelo tom antiburguês desses folhetins.
Por outro lado, essa confl uência entre o real e o fantástico também é apontada
por Peixinho. Para a estudiosa, o contato de Eça com outros intelectuais da época,
como Antero de Quental, fez com que ele compreendesse que “a literatura deverá ser
entendida em estreita relação com o processo histórico e todas as suas implicações
losófi cas e político-sociais deverão ser por ela refl ectidas” (PEIXINHO, 2002, p. 43). A
pesquisadora também destaca que,
em Prosas Bárbaras, a par de discursos fi losófi cos proferidos por um milhafre,
de deuses pagãos exilados, de diabos ambíguos e grotescos, de poetas satânicos
e desesperados, de amantes perpetuamente insatisfeitos, existem operários
explorados, lenhadores esfomeados, burguesas fúteis e capitais degradadas. Por
outras palavras, o Romantismo de índole marcadamente satânica que explora
a ambiguidade e morbidez nos folhetins mais fantásticos, coexiste com uma
tendência, não isenta de ironia, para retratar personagens, espaços e contextos
extraídos do real. (PEIXINHO, 2002, p. 44).
Percebe-se, nos textos iniciais de Eça, que os elementos do fantástico coexistem
com o contexto social. Assim, nos três folhetins que delimitam o corpus desse estu-
do, Eça dá voz ora a um animal (ao milhafre), ora a um elemento da natureza (o fogo/
lume) e ora a um objeto (a forca), fato este que evidencia o insólito nas narrativas, para
fazer uma crítica ao homem oitocentista. Dessa forma, são válidas as ponderações de
Antonio Augusto Nery sobre os textos fantásticos de Prosas Bárbaras. O estudioso
aponta que “neles já pairam as preocupações de Eça com as desigualdades sociais e com
as críticas voltadas a diversos aspectos da sociedade, temas que o acompanharam a
sua produção derradeira” (NERY, 2010, p. 138). Com essa afi rmação, reforça-se a nossa
hipótese de que Eça, ao fazer uso do fantástico, aponta a crítica social.
Antes de prosseguir com a análise dos contos, fazem-se necessárias algumas pa-
lavras para discorrer sobre o fantástico. Embora não seja objetivo de nosso trabalho
problematizar o conceito de fantástico, sabemos que esse termo é muito debatido
pelos teóricos, ora prevalecendo um olhar bastante delimitado, como o de Todorov, ora
uma visão mais ampla, compreendendo-o sob uma perspectiva latu sensu. Muitos es-
tudiosos, entretanto, utilizam o termo insólito para se referirem a textos nos quais são
observados acontecimentos inusuais, isto é, pouco prováveis de acontecer, tal como os
pressupostos defendidos por Flavio García. Para ele,
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se o insólito não decorre normalmente da ordem regular das coisas, senão que é
aquilo que não é característico ou próprio de acontecer, bem como não é peculiar nem
presumível nem provável, pode ser equiparado ao sobrenatural e ao extraordinário,
ou seja, àquilo que foge do usual ou do previsto, que é fora do comum, não é regular, é
raro, excepcional, estranho, esquisito, inacreditável, inabitual, inusual, imprevisto,
maravilhoso. (GARCÍA, 2007, p. 20).
Utilizaremos, portanto, esse termo para fazer referência ao nosso corpus.
Com essa sistematização, o fantástico estaria compreendido nesse conceito mais
amplo, do insólito, já que dar voz a animais irracionais e objetos inanimados é
algo fora do comum, estranho, inabitual, inusual, etc. A inserção do elemento
fantástico/insólito, nesses três textos, se dá pelo elemento comum da personifi -
cação/humanização de animais, elementos da natureza e objetos.
Por outro lado, “O milhafre”, “O lume” e “Memórias duma forca” estão próximos
de uma leitura alegórica, evidenciando a complexidade e a difi culdade da catego-
rização desses folhetins. Para Tzvetan Todorov, a alegoria3 invalidaria o fantásti-
co. Segundo o teórico, “se o que lemos descreve um acontecimento sobrenatural,
e que exige no entanto que as palavras sejam tomadas não no sentido literal mas
em outro sentido que não remeta a nada de sobrenatural, não há mais lugar para
o fantástico” (TODOROV, 1975, p. 71). Entretanto, Maria Cristina Batalha, ao
discorrer sobre o fantástico, reconhece a complexidade desse gênero literário
e a fl utuação teórica desse termo, e admite que seria prudente “consideramos o
conceito em seu plural – ‘fantásticos’. À pluralidade de fantásticos associam-se
adjetivos diversos que lhe completam o sentido e dão formas mais perceptíveis
ao gênero: grotesco, macabro, gótico, alegórico, metafísico, fantástico mágico,
fantástico surreal etc.” (BATALHA, 2011, p. 18, grifo nosso). A estudiosa reconhe-
ce, portanto, que a leitura alegórica também poderia estar situada dentro dos
limites do fantástico. Assim, mesmo que para Todorov a alegoria anule o fantás-
tico, para nós essas duas leituras (o texto lido sob o viés fantástico ou sob o viés
alegórico) abarcariam as instâncias do insólito, pois nelas há o inusual.
O narrador queirosiano introduz o conto “O milhafre” afi rmando que ele
se trata de uma fábula: “seja-me permitida uma pequenina fábula”4 (QUEIRÓS,
2009, p. 71). Se utilizássemos os preceitos de Todorov, esse conto não poderia
ser enquadrado nos limites do fantástico, e sim no campo do alegórico, pois, para
esse teórico, “a fábula é o gênero que mais se aproxima da alegoria pura” (1975, p.
71). Por sua vez, para Peixinho, esse conto representaria uma alegoria “do debate
Espírito/Matéria – simbolizado pelo confronto entre Cristo/Homem” (2002, p.
50). Entretanto, devemos reconhecer que, desde o início do conto, há elementos
insólitos, a começar pela fi gura de um santo de pedra que lê a Bíblia. O narrador
relata que, “a essas horas, uma criança, tão pobre e tão esfarrapada como o antigo
3 De acordo com Todorov, “a alegoria implica na existência de pelo menos dois sentidos para as mesmas
palavras; diz-se às vezes que o sentido primeiro deve desaparecer, outras vezes que os dois devem estar
presentes juntos. Em segundo lugar, este duplo-sentido é indicado na obra de maneira explícita: não
depende da interpretação (arbitrária ou não) de um leitor qualquer”. (1975, p. 71, grifo do autor).
4 Utilizamos, como referência, a Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, coordenada por Carlos Reis.
Os contos “O milhafre” e “Memórias duma forca” encontram-se no volume Contos I (2009), editado por
Marie-Hélène Piwnik.
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pastor S. João, vinha deitar-se junto do nicho do santo. E então, o santo afastava
um pouco o livro, e toda a noite fi cava cobrindo com a grande luz dos seus olhos
aquela criança miserável, adormecida sobre as lajes” (QUEIRÓS, 2009, p. 72). A
presença de uma estátua que se move mostra o caráter insólito da narrativa.
Nota-se já a inserção de elementos religiosos relacionados ao insólito. Além
disso, nesse trecho percebe-se a simpatia do narrador para com os pobres, posição essa
que será semelhante ao olhar de Eça para as camadas mais baixas, tal como indicam
os apontamentos de Saraiva, cuja abordagem defi ne o Eça das Prosas Bárbaras como
um antiburguês, ao afi rmar que o autor teria herdado “o preconceito romântico e todo
literário contra o burguês” (SARAIVA, 1982, p. 80). Ainda segundo o especialista portu-
guês, “o burguês é símbolo da materialidade dos tempos, da civilização exclusivamente
mercantil e industriosa que se desenvolve em face do sonho e da boémia dos homens
de letras e artistas” (SARAIVA, 1982, p. 80). O crítico exemplifi ca a simpatia de Eça
pelas camadas populares com uma passagem de “Memórias duma forca”, na qual esse
pedaço de madeira enforca um pobre operário, que “no Inverno não teve trabalho, nem
lume, nem pão. Tomado dum desespero nervoso, roubou. Foi enforcado ao sol-posto”
(QUEIRÓS, 2009, p. 114).
Retomando a “O milhafre”, verifi cam-se outros elementos que evidenciam o insóli-
to na narrativa, como a casa arruinada, a sala enorme e escura, que apontam para uma
possível ambientação de mistério. Além do mais, nesse cômodo há um grande crucifi xo
de madeira, cuja descrição remete ao insólito:
Sobre a cabeça macerada do Cristo, as traves podres do tecto abriam uma larga fenda.
Por ali vinha a chuva escorrer-lhe nos cabelos como o antigo suor das Oliveiras,
vinham os granizos magoá-lo como as pedras da Paixão, vinha o sol alumiá-lo como
a tocha de Judas, e a lua vinha, também, torná-lo mais lívido, como naquela noite em
que Ele depois de ter visto a gente soluçante descer para Jerusalém, sentiu pousar
na sua cruz um rouxinol que toda a noite cantou.
Sobre a cabeça e sobre os braços de Cristo havia teias de aranha; em baixo os ratos
roíam-lhe a cruz.
Então o homem sentiu que aquele seio constelado, e aquela boca donde saiu a
revelação do amor, do perdão, e da alma, tinham o pó, a podridão, a caliça e os bichos;
e que, se um dia Cristo vendo o homem afl ito e miserável lhe tinha arrancado da
alma o mal, não era muito que o homem, encontrando Cristo abandonado, profanado
e roído, lhe limpasse da cabeça as aranhas! (QUEIRÓS, 2009, p. 73-74).
Entretanto, tal descrição não se limita a uma imagem insólita de um Cristo roído
pelos ratos. De acordo com Saraiva, esse Cristo seria um símbolo do desprezo moderno
e burguês pelo espírito e pelo ideal. O pesquisador destaca que
Há aqui uma sobrevivência romântica. Garre censurava a sociedade dos “barões” e dos
“agiotas”, que plantava batatas e construía caminhos de ferro, por deixar ao abandono
as velhas ruínas góticas; e é precisamente por ser algo que se opõe ao industrialismo
moderno e ao espírito estreitamente prático de que acusa os seus conterrâneos que
Garre valoriza aquelas ruínas – símbolo de algo que não é prático nem útil, que é um
puro valor subjectivo, que é, em suma, para empregar a terminologia romântica, “puro
ideal”. É esta depreciação do burguês, do materialista, a que Eça julga personifi cada
na pessoa de Cristo, portador de uma mensagem que, segundo pensava, nada tinha
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de material, era alheia a qualquer ideia de progresso técnico, estava toda na “alma”,
era puramente “ideal”. E a imagem de Cristo roída pelos ratos exprime o desinteresse
“burguês” por este “ideal”. (SARAIVA, 1982, p. 85).
Verifi ca-se, segundo os pressupostos defendidos pelo especialista português, uma
possível leitura alegórica dessa narrativa, na qual a imagem de Cristo abandonado,
com teias de aranha e roído pelos ratos, signifi caria o interesse materialista do bur-
guês e seu desprezo pelo espírito. Para Nery, o Cristo roído serviria para exprimir “o
desinteresse do burguês pelos ensinamentos de Jesus, os quais soam como contrapo-
sição à sociedade fi nissecular do Oitocentos que desprezou a espiritualidade e o ideal,
preferindo a modernidade, a técnica e o lucro” (2010, p. 136).
A inserção de um outro elemento insólito reforça o posicionamento destacado
por Saraiva e por Nery. Trata-se de um milhafre que interrompe a ação de um homem,
que pretendia limpar a estátua de Cristo: “com a antiga voz dos animais da Bíblia, do
Apocalipse e dos livros dos profetas disse surdamente: ‘Homem, deixa a cruz sossega-
da!’” (QUEIRÓS, 2009, p. 74). Esse homem, de acordo com Nery, “sugere representar a
humanidade, especialmente a classe burguesa” (2010, p. 136). O pássaro começa a cri-
ticar o homem oitocentista, em relação ao campo material, espiritual e do pensamento:
As cidades são limpas e caiadas, só as consciências é que têm nódoas; as praças estão
cheias de iluminações, só os corações é que estão escuros; os cais estão arejados,
só os espíritos é que sufocam; os corpos estão sãos, cobertos de estofos, frescos e
resplandecentes, só as almas é que andam nuas, miseráveis e leprosas. De resto
tendes o riso, a farsa, os paraísos artifi ciais, as arcas venais, e também o esfriamento
do túmulo! Oh amigos íntimos dos vermes, como vós cuidais do corpo, e o lavais, e o
amaciais, e o engordais – para a pastagem escura das covas! (QUEIRÓS, 2009, p. 75).
Nessa crítica, o milhafre aponta uma dicotomia. De um lado, a ave mostra que o
progresso técnico trouxe benefícios ao homem (como o desenvolvimento das cidades);
por outro lado, nesse processo, a humanidade se tornou materialista, esquecendo-se de
sua espiritualidade. Assim, concordamos com Peixinho, cujas refl exões mostram que “a
concepção de progresso [em Prosas Bárbaras] era pessimista e disfórica, já que progres-
so era um factor deformador e corrosivo do homem e do ambiente, opondo-se à luz, à
simplicidade e à originalidade da Natureza não corrompida” (PEIXINHO, 2002, p. 47).
Também podem nos ser úteis as explanações de Orlando Grossegesse, que analisa a
crônica “A Inglaterra e a França julgadas por um inglês”, outro texto de Eça de Queirós
no qual se observa a personifi cação, um processo semelhante ao de nosso corpus, pois,
nessa narrativa, um cão analisa criticamente a sua época. Segundo o pesquisador,
haveria três motivos que explicariam o procedimento do uso de animais com capaci-
dades humanas. Para Grossegesse,
em primeiro lugar, na transposição de condições sociais para o nível animal é
possível revelar melhor os defeitos humanos. Em segundo lugar, o disfarce animal
facilita uma enunciação que escapa às pressões da ordem do discurso (Foucault,
1971) vigente numa determinada sociedade. Isso porque a um animal normalmente
não se atribui juízo e muito menos língua inteligível, capacidades civilizadoras
reclamadas em exclusivo pelo homem. O facto de se fazer falar um animal pode pôr
em dúvida esta óbvia superioridade humana. Questionar a civilização é, portanto,
o terceiro motivo para a invenção de um animal fi losófi co. (1991, p. 131, grifos do
autor).
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Acreditamos que as refl exões do professor são pertinentes para a análise dessa
produção inicial do autor de Os Maias, pois percebemos que o animal (o milhafre) ser-
ve como um instrumento que revela os defeitos humanos – como em “O milhafre”, a
ave critica negativamente o homem por ele ter se afastado do mundo espiritual e se
convertido ao mundo materialista. Veremos, a seguir, uma crítica semelhante também
presente nas outras duas narrativas. Dessa forma, como uma tentativa de alargar a
abordagem de Grossegesse, elencamos que tais ponderações são condizentes também
para elementos da natureza e objetos (o lume e a forca), pois ambos criticam o homem
oitocentista. Ademais, no que diz respeito ao segundo e ao terceiro motivos, nota-se
que o discurso do milhafre, do lume e da forca apresentam um certo posicionamento
semelhante ao de Eça-autor, como já mencionado pelas refl exões de Saraiva, isto é,
aponta-se para uma visão antiburguesa do mundo.
Apesar de Grossegesse destacar que o discurso do animal “escaparia às pressões”
da sociedade, verifi ca-se que tal recurso, nessas narrativas, são críticas disfarçadas,
isto é, o discurso do animal e dos objetos poderia ser proferido por homens do século
XIX (Eça de Queirós, por exemplo), como uma forma de questionar a civilização. Assim,
de acordo com Peixinho, o parágrafo que antecede5 “O milhafre” mostra,
por um lado, a angustiante noção de inutilidade e impotência do jovem Autor,
perante a ruína do seu país; por outro lado, julgamos poder encará-la como sintoma
prematuro de um certo decadentismo e de um certo vencidismo derrotista que virá
a contaminar Eça e os seus companheiros de geração, anos mais tarde. [...] Apesar
de tudo, interessa-nos realçar, nestas palavras, o papel de observador assumido por
Eça que assiste, de forma distanciada, ao desenrolar de acontecimentos do seu país.
(PEIXINHO, 2002, p. 45-46).
Vemos, portanto, na nota introdutória, uma visão bem parecida com a crítica posta
pelo milhafre, isto é, evidencia-se o progresso técnico da modernidade europeia, atra-
vés de um tom jocoso, no qual parecem ser sobrepostas qualidades negativas desse
desenvolvimento. Além disso, é apontada a situação da literatura entre as “agonias
de pensamento” em Portugal. Ironicamente, o poeta lírico chega a ser comparado a
uma profi ssão de perigo, devido à sua marginalidade, uma vez que se infere que tal
5 De acordo com uma nota de rodapé de Marie Hélène Piwnick (2009, p. 71), essa introdução foi publicada
na Gazeta de Portugal, contudo, ao ser compilada no volume Prosas Bárbaras, a depender da edição e
da organização, tal introdução foi suprimida. Assim, transcrevemos a nota introdutória disponível na
Edição Crítica, para que o leitor possa ter acesso: “Meus amigos. A literatura em Portugal está a agonizar;
morre burguesmente e insipidamente: nem ao menos tem os efeitos de luz extravagantes de todos os
acasos celestes.
É uma doidice o querer passar, criar, criticar, nesta terra onde nascem as laranjeiras, como diz a cantiga
de Mignon. Se ainda houvessem cabelos seria muito preferível ser fabricante de caixinhas de banha.
Seria mesmo talvez melhor a profi ssão de poeta lírico, se não fosse uma profi ssão perigosa. Ainda há
pouco, um pediu em casamento não sei que doce açucena, moradora na Baixa; o pai dela interrompeu
a história dos idílios sacrossantos e municipais para perguntar ao namorado gentil, qual era a sua
profi ssão. – Sou poeta lírico, respondeu ele, e vivo do meu estado. – O velho ergueu-se de golpe, tomou
uma bengala e espancou o poeta lírico, laureado em três cançonetas exóticas.
Todavia, é com verdadeira alegria que me acho neste canto que a política me deixa. Faço deste canto, de boa
vontade o lugar de espetáculo para assistir às últimas agonias do pensamento em Portugal. Trata-se de cair
bem, meus amigos, como os antigos gladiadores: oh egoísmo humano, os que vão morrer saúdam-te!
E depois, meus caros amigos, eu acho admirável a sociedade moderna, a sua política perfeita, a sua
indústria magnífi ca, a sua agiotagem providencial, o seu luxo simpático, a sua retórica fl orida, a sua
arte económica, os seus sonhos de oiro, mas persisto em invejar aqueles que como o antigo Daniel podem
contemplar as estrelas, enquanto os bichos sociais se devoram na sombra.” (QUEIRÓS, 2009, p. 71).
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profi ssional não teria espaço na sociedade burguesa oitocentista. Assim, tal nota pode
ser lida como uma prenunciação para as palavras proferidas pela ave, pois há uma
continuidade entre a crítica denunciada pelas duas entidades, evidenciada pela con-
denação do materialismo burguês.
Passando ao segundo texto, verifi ca-se que, em “O lume”, o elemento insólito é inse-
rido de forma semelhante a “O milhafre”, isto é, o lume recebe voz frente a uma fi gura
humana. Atenta-se também que, antes desse acontecimento, a natureza é retratada de
forma humanizada. Saraiva aponta que, nos textos que compõem as Prosas Bárbaras,
é possível notar uma visão antropomórfi ca da natureza. O estudioso destaca que, de
acordo com essa concepção, isso conduziria “a uma visão mitológica e vagamente po-
liteísta da natureza – cada árvore ou cada rochedo tem a sua alma” (SARAIVA, 1982,
p. 75), como pode ser observado, por exemplo, nessa passagem: “As árvores erguem
os braços nus, miseráveis e suplicantes. E as águas [...] têm agora vozes vingativas e
más. O vento é rouco e lento como um canto católico de ofícios”6 (QUEIRÓS, 2004, p.
149), fazendo com que aumente os traços insólitos presentes nesse conto. Além disso,
se no texto anterior constatou-se que o progresso técnico é visto de forma negativa,
observa-se que, em “O lume”, isso se dá de forma semelhante. Antes do discurso do fogo,
aponta-se sobre um homem moderno que vive de forma infeliz:
então, o homem sente a sua pequenina e inútil alma afundar-se no tédio,
silenciosamente, como um navio roto – numa calmaria, e vai por instinto dar-se à
intimidade consoladora da lareira, das brasas e do fogo. E enquanto a força vital se
dissolve numa sonolência fl uida, ele sente aos seus pés, uma pequena voz, alegre,
inquieta, clara, que lhe fala como num êxtase profano. (QUEIRÓS, 2004, p. 149).
Apesar de o narrador destacar o “êxtase profano” dessa manifestação insólita, algo,
portanto, que deveria estar distante da religiosidade, o que se vê no discurso do lume
é justamente o oposto, pois o fogo também recebe contornos religiosos, tal como a ave
de “O milhafre”, já que essa personifi cação é tida como o próprio Deus, isto é, um ser
superior e sábio: “Sou eu, diz a voz, eu o teu velho camarada, o bom lume. Sou eu, o teu
velho Deus misterioso. Eu que te quero bem, e que te dei o que há em ti de grande e de
justo – a família e o trabalho” (QUEIRÓS, 2004, p. 149).
Ao narrar a história da humanidade, vista sob a perspectiva do lume, é ressaltado
que ele esteve presente desde as civilizações mais antigas, reforçando sua caracte-
rística onipresente. Deste modo, apesar de o fogo estar conversando com um homem
moderno, ele não fala especifi camente desse sujeito, mas da humanidade em geral,
pois esse elemento natural esteve presente desde os tempos mais remotos: “A minha
história é triste, e luminosa, e terrível, e imunda e meiga. Eu fui o teu companheiro
das noites da Índia, o consolador e o purifi cador; eu fui o Moloch das religiões da velha
África, ensanguentado e trágico: e sou agora o escravo a quem tu mandas mover as
máquinas” (QUEIRÓS, 2004, p. 149). Nota-se, portanto, o caráter refl exivo do lume, ao
reconhecer, em um tom de lamento, que ele fez parte da barbárie humana (sacrifícios
humanos nas fogueiras), apontando também a crítica à sociedade industrial.
6 Utilizamos, como referência, a Edição Crítica das Obras de Eça de Queirós, coordenada por Carlos Reis. A
narrativa “O lume” encontra-se no volume Textos de Imprensa I (da Gazeta de Portugal) (2004), editado
por Carlos Reis e Ana Teresa Peixinho.
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Além disso, o discurso dele é carregado de valores que remetem a uma vida simples
e primitiva: “Na Índia, lembras-te? durante noites primitivas, eu fui o bom Agnì que
te ilumiava, que espantava os chacais e as onças, e protegia, como um templo, os teus
amores religiosos e simples” (QUEIRÓS, 2004, p.150). Por outro lado, o afastamento
desse estágio é condenado pelo lume:
Quando saías de ao pé de mim, da tua cabana ajoelhada ao sol, encontravas-te só,
entre os seres implacáveis, o mar que te ladrava, a vegetação espinhosa que te
mordia, a chuva que te paralisava, a neve que te dava sudários. Tudo, sob a pressão
doentia do sol, era para ti força inimiga ou forma resplandecente do mal. (QUEIRÓS,
2004, p. 150).
Dessa forma, critica-se o progresso, uma vez que esse distanciamento do homem
ao mundo natural ocasiona uma mudança na função do fogo, pois ele passa a ser usado
para praticar o mal: “Por ti tenho feito o mal. Fui eu que matei Giordano Bruno, e João
Huss, e tantos santos, e tantos mártires, e tantos alucinados de Deus! Fui eu que quei-
mei nas cidades misteriosas de África as crianças e as virgens no altar de Moloch. Por
ti, eu que sou a paz, fui devastação” (QUEIRÓS, 2004, p. 151). É importante ressaltar que
a principal crítica do lume é feita à sociedade moderna, à era das máquinas, ainda que
ele discorra que matou homens queimados nos sacrifícios na África e na Inquisição,
portanto, não seria uma crítica restrita ao século XIX.
Assim, o fogo relembra as mudanças transcorridas pelas revoluções sociais: “qui-
seste criar os Direitos do Homem, trouxeste um mal divino chamado Liberdade, que
vai sempre fugindo de ti, só às vezes se volta de repente, para te borrifar de sangue!
Quiseste ir construir a adoração do corpo e da matéria exclusiva: trouxeste [...] o egoís-
mo brutal” (QUEIRÓS, 2004, p. 152). Aqui, Eça relaciona a Revolução Francesa com o
período do Terror e o advento do capitalismo. Além disso, o lume já demonstra que se-
ria preciso estar inserido dentro dessa nova sociedade, com o crescimento do poder da
burguesia: “Durante as revoluções e as lutas, andei errante, miserável, sobrecarregado
de infâmias, e, para viver – vendendo-me ao carrasco” (QUEIRÓS, 2004, p. 153 – gri-
fo nosso), evidenciando, assim, uma prática de exploração do mundo capitalista. Por
m, narra-se a insatisfação do fogo perante as mudanças provocadas pela Revolução
Industrial:
A mim que embalava as almas, fazes-me mover os aços. Embalo que era amor,
movimento que é força: os dois termos da tua vida – pureza e putrefacção! Eu que
vivia, alumiava, criava em liberdade estou encadeado e martirizado, na tarefa brutal
das indústrias. Fazes-me o motor da tua miséria. Nas fábricas, as criaturas doentias,
as crianças estioladas, as mulheres defi nhadas e soluçantes! Fazes-me mover a vapor
estas misérias. Sou o colaborador dos teus martírios. Tu homem, tomas o fogo, o ser
sagrado, por ajudante de execuções! Dás-me por salário a infâmia. Fazes de mim a
explosão. Obrigas-me a devastar na guerra. (QUEIRÓS, 2004, p. 153 – grifo do autor).
Portanto, as declarações desse elemento da natureza também se enquadram numa
perspectiva antiprogresso, pois há uma crítica à função do fogo no mundo capitalista,
apontando, entre outras coisas, o trabalho infantil e a insalubridade dos espaços indus-
triais. De acordo com Saraiva, nesse conto, já estaria posto o bucolismo contemplativo,
também presente em obras futuras, como n’A cidade e as serras: “o progresso técnico
só o vê como uma coisa lamentável porque rouba o homem à doçura e fresquidão dos
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campos [...] e, a acreditarmos o conto ‘O lume’, os homens deviam ter fi cado ao redor
do lume misterioso [...] na paz da vida primitiva” (SARAIVA, 1982, p. 80). Com base nas
afi rmações de Saraiva, podemos estabelecer, dessa forma, uma crítica às mudanças
provocadas pelo comportamento humano. Percebe-se, pelo uso do lume, que ele era
usado para práticas de subsistência, por exemplo, privilegiando-se uma vida simples.
Entretanto, tal objeto passa a ser usado contra a humanidade e contra a natureza, isto
é, serve como uma arma de guerra e instrumento de trabalho na sociedade industrial.
O homem deixa de usá-lo em seu estado primitivo (fogo), aprimora-o e, nesse progresso
técnico, esse elemento denuncia as mazelas provocadas pelo desenvolvimento da so-
ciedade, evidenciando, dessa forma, que tal progresso faz com que o homem perca suas
qualidades positivas, isto é, aquelas que remetem ao bem, à paz e ao amor, tal como
pode ser constatado na fala dele: “Eu que sou a pureza, o trabalho, a família, a paixão
casta, levas-me a ser o mal, a viuvez, o pranto e a dor! Tenho um cortejo de ambulâncias
e de macas, eu que era o fi rmamento dos berços! Não! Maldita seja a árvore que consen-
tir em ser forca, e o fogo que consentir em ser explosão!” (QUEIRÓS, 2004, p. 153-154).
Esse folhetim também representa um ponto de vista similar ao de “O milhafre”,
mostrando que o afastamento da espiritualidade e o desenvolvimento técnico são pre-
judiciais à humanidade. Nesse conto, há uma valorização da vida simples que o homem
supostamente teria em contato com a natureza. Em meio a ela, o fogo é descrito com
características bem próximas a de um Deus bondoso. No entanto, o afastamento do ho-
mem ao meio natural traz consequências negativas. Além disso, é interessante notar
a citação, exposta no trecho acima, sobre uma árvore que aceitaria ser forca, assunto
do próximo conto a ser analisado. Como veremos, o pedaço de madeira de “Memórias
duma forca” também condena esse ato, criticando, dessa forma, as ações humanas.
O terceiro texto que compõe o nosso corpus inicia-se com um recurso bastante
comum do romantismo7: trata-se da tópica do suposto manuscrito encontrado. Logo no
início, o narrador destaca sobre o tom de mistério da origem desse material: “Foi por
um modo sobrenatural que eu tive conhecimento deste papel, onde uma pobre forca
apodrecida e negra, dizia alguma coisa da sua história. Esta forca intentava escrever
as suas trágicas Memórias” (QUEIRÓS, 2009, p. 107). Nota-se, portanto, a origem su-
postamente sobrenatural e insólita do manuscrito. Ademais, esse narrador fi ltraria as
memórias da forca, já que ele afi rma que,
Entre os apontamentos que deixou, os menos completos são estes que copio –
resumo das suas dores, vaga aparência de gritos instintivos. Pudesse ela ter escrito
a sua vida complexa cheia de sangue e de melancolia! É tempo de sabermos enfi m
qual é a opinião que a vasta natureza, montes, árvores e águas, fazem do homem
imperceptível. Talvez este sentimento me leve ainda algum dia a publicar papéis
que guardo avaramente e que são as Memórias dum átomo, e os Apontamentos de
Viagem duma raiz de Cipreste. (QUEIRÓS, 2009, p. 107).
7 Grossegesse aponta que “o discurso editorial apenas alude ao tema romântico de ocultar a escrita,
um tema que ainda está bem presente nos escritos juvenis de Eça de Queiroz: nas Prosas Bárbaras
(1866/1867) aparece abundantemente o discurso editorial que introduz, não só as declarações fi losófi cas
de um milhafre, mas também a autobiografi a de uma forca, e discute-se, em manuscritos encontrados, o
percurso biográfi co do poeta romântico.” (GROSSEGESSE, 1991, p. 143).
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Grossegesse, ao comentar o recurso do manuscrito encontrado e seu uso com um
animal fi losófi co, destaca que tal método “não serve para confi rmar a autenticidade
do documento fi cticiamente apresentado por um editor: é inverosível demais que um
animal fale ou escreva. Pelo contrário, essa inverosimilhança óbvia torna o princípio
de veracidade ridículo [...]” (GROSSEGESSE, 1991, p. 135). Embora em “Memórias duma
forca” não se trate de um animal fi losófi co, mas sim de um objeto, acreditamos que
tais refl exões também podem ser pertinentes à forca. Assim, mesmo que o leitor saiba
sobre a inverossimilidade do conteúdo das memórias desse pedaço de madeira, Eça o
trata de modo verossímil, pois a vida da forca é narrada de modo humanizado:
Sou duma antiga família de carvalhos, raça austera e forte – que já na Antiguidade
deixava cair dos seus ramos – pensamentos de Platão. Era uma família hospitaleira
e histórica: dela tinham saído navios para a derrota tenebrosa das Índias, contos de
lança para os alucinados das Cruzadas, e vigas para os tectos simples e profundos
que abrigaram Savonarola, Spinoza e Lutero. (QUEIRÓS, 2009, p. 108).
Dessa forma, percebe-se que a futura forca também participa da História ociden-
tal, mostrando, deste modo, a linhagem nobre desse pedaço de árvore. A humanização
é reforçada no modo de agir desse elemento. Segundo Simões, essa árvore “tem hábitos
de pessoa social” (1945, p. 168), e parece já estar integrada a um modo de vida capita-
lista: “Meu pai esquecido das altas tradições sonoras e da sua heráldica vegetal teve
uma vida inerte, material e profana [...] Era uma árvore materialista” (QUEIRÓS, 2009,
p. 108). Além disso, a forca aponta para outras características da burguesia, como a
marginalidade dos artistas, também presente na nota introdutória de “O milhafre”,
citada por nós anteriormente, em nota de rodapé:
Um dos meus irmãos foi levado para ser tablado dos palhaços: ramo contemplativo
e romântico ia todas as noites ser pisado pela chufa, pelo escárnio, pela farsa e pela
fome! O outro ramo cheio de vida, de sol, de poeira, áspero solitário da vida, lutador
dos ventos e das neves, forte e trabalhador, foi arrancado dentre nós, para ir ser
tábua de esquife! – Eu o mais lastimável, vim a ser forca! (QUEIRÓS, 2009, p. 108).
Ao discorrer sobre o destino de um de seus irmãos, o pedaço de madeira destaca o
espaço marginal presente no meio artístico. Peixinho destaca que Eça está preocupado
por tipos sociais marginalizados pela sociedade materialista. A estudiosa refl ete que
“mais clara parece-nos ser a inclinação por todos aqueles que se caracterizam por uma
relativa independência, por uma vida livre e sem preconceitos e, sobretudo, pela ca-
pacidade inventiva: o saltimbanco é disso um claro exemplo” (PEIXINHO, 2002, p. 52).
Embora nesse conto não se tenha uma referência ao saltimbanco – profi ssão destacada
pela estudiosa – verifi ca-se que o espaço do circo é condizente com as explanações da
pesquisadora, pois, de acordo com as memórias da forca, tal espaço é propício para a
pobreza e, portanto, para a desigualdade social. Dessa forma, relembramos a afi rmação
de Saraiva, posta no início de nosso trabalho, sobre o olhar simpático de Eça para com
os marginalizados, no qual o crítico exemplifi ca sua explanação com um trecho desse
conto, no qual a forca lamenta ter matado um operário que roubou por não ter trabalho,
nem comida, mostrando, com isso, a preocupação de Eça com assuntos de teor social
em textos fantásticos.
Percebe-se a infelicidade do pedaço de madeira com o seu próprio destino, já que
ele lastima ter virado forca (ponto de vista semelhante ao do lume, no conto anterior).
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É pertinente mencionar que esse folhetim, publicado no fi nal de 1867 (22 de dezem-
bro), dialoga fortemente com o contexto daquele tempo, pois esse é o ano da abolição
da pena de morte em Portugal. Ana Paula Fernandes Rodrigues, ao comentar sobre a
estadia de Eça de Queirós em Évora, período em que ele escreveu para o jornal “Distrito
de Évora”, discorre que, em 1867, assistiu-se a um “período de relativa acalmia política
e a uma série de reformas sociais, entre a quais se destacam a abolição da pena de mor-
te, com a reforma do sistema penal e prisional [...]” (RODRIGUES, 2008, p. 10).
É provável, portanto, que Eça, ao escrever “Memórias duma forca”, estivesse fazen-
do uma denúncia da violência humana característica da pena de morte, e manifestan-
do apoio ao projeto político que propunha a sua abolição. Ademais, a interferência do
homem na natureza é vista de modo negativo: “Um dia, um daqueles homens metálicos
que fazem o tráfi co da vegetação veio arrancar-me à árvore” (QUEIRÓS, 2009, p. 109).
Logo, novamente, nesse texto, há uma crítica ao desenvolvimento técnico: “comecei
então a compreender que uma grande imundície cobre a alma do homem” (QUEIRÓS,
2009, p. 110). Assim como nos dois outros contos, o homem parece perder as suas quali-
dades com o progresso. Nesse folhetim é nítido o contraste que há entre o meio natural
e o meio urbano: “As árvores depois de terem sido colocadas por Deus na fl oresta com
os braços estendidos – para abençoar a terra e a água – fossem arrastadas para as cida-
des, e obrigadas pelo homem a estender o braço da forca para abençoar os carrascos!”
(QUEIRÓS, 2009, p. 113), reforçando, portanto, os aspectos negativos da modernidade
e do progresso.
Acreditamos, dessa forma, que os apontamentos de Saraiva sobre a natureza em
Prosas Bárbaras sejam pertinentes para compreendermos a relação do homem com
o meio natural. O pesquisador português destaca que, nessa coletânea, “o homem é
um breve e fugidio afl oramento da natureza” (SARAIVA, 1982, p. 77). Percebe-se que,
quanto mais o homem se afasta dela, mais ele fi ca propício a desenvolver qualidades
negativas. Assim, pela leitura desses contos, entende-se que o progresso ocasionou o
afastamento do homem do meio natural e, consequentemente, fez com que ele adqui-
risse características negativas e não pudesse mais ter uma vida simples e feliz. Além
disso, com esse progresso, infere-se, sobretudo em “O milhafre” e em “O lume”, que o
homem perdeu também a sua religiosidade e se rendeu ao materialismo da sociedade
do século XIX.
Pode ser vista, portanto, uma crítica ao homem oitocentista (e consequentemente
ao progresso desencadeado por suas ações) nas três narrativas abordadas nesse estu-
do. Percebe-se, além disso, a complexidade da prosa inicial de Eça de Queirós. Apesar
de ser visível a incursão pelo fantástico/insólito, nota-se nesses escritos temas extraí-
dos do contexto histórico. Assim, é possível constatar nos textos de Prosas Bárbaras a
preocupação de Eça com assuntos de teor social. A complexidade é aumentada devido
à diversidade na forma com que Eça trata o fantástico, uma vez que há uma oscilação
na defi nição dessa produção inicial.
Embora críticos reconheçam a presença do fantástico nessa obra, há uma difi cul-
dade em caracterizar tais escritos. Peixinho, por exemplo, situa “Memórias de uma for-
ca” nos textos que estariam no domínio do real. Entretanto, há, nesse conto, situações
insólitas – uma forca que escreve as suas memórias –, distanciando-se, dessa forma, da
defi nição proposta pela pesquisadora portuguesa.
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Todavia, concordamos que há uma fronteira entre o real e o fantástico bastante
tênue nos folhetins publicados por Eça de Queirós. Além disso, ao tratar de três textos
cujo elemento comum é a personifi cação de um animal/objeto/elemento da natureza,
notamos que essas narrativas também estariam bem próximas de uma leitura alegóri-
ca, de acordo com alguns estudiosos.
Por sua vez, Batalha admite que a leitura alegórica estaria compreendida nos
contornos do fantástico. Contudo, por uma questão de sistematização, reconhecemos
a complexidade do fantástico, e propomos uma abordagem que abarcaria a leitura
fantástica e a alegórica: esses três contos, portanto, poderiam ser lidos sob o viés do
insólito, pois ainda que nos referíssemos ao fantástico ou ao alegórico estaríamos no
campo desse conceito. Admitimos, dessa forma, que as três narrativas apresentam em
comum um elemento insólito, trazido à tona por meio da humanização do animal, do
elemento da natureza ou do objeto. Assim, a personifi cação do milhafre, do lume e da
forca seriam representações insólitas para tratar de assuntos inseridos no campo do
real, fazendo uma crítica ao homem oitocentista.
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Submetido em 21 de março de 2018
Aceito em 08 de junho de 2018
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Memórias duma forca", estivesse fazendo uma denúncia da violência humana característica da pena de morte, e manifestando apoio ao projeto político que propunha a sua abolição. Ademais, a interferência do homem na natureza é vista de modo negativo
  • Eça
É provável, portanto, que Eça, ao escrever "Memórias duma forca", estivesse fazendo uma denúncia da violência humana característica da pena de morte, e manifestando apoio ao projeto político que propunha a sua abolição. Ademais, a interferência do homem na natureza é vista de modo negativo: "Um dia, um daqueles homens metálicos que fazem o tráfi co da vegetação veio arrancar-me à árvore" (QUEIRÓS, 2009, p. 109).
As árvores depois de terem sido colocadas por Deus na fl oresta com os braços estendidos -para abençoar a terra e a água -fossem arrastadas para as cidades, e obrigadas pelo homem a estender o braço da forca para abençoar os carrascos!
  • Logo
Logo, novamente, nesse texto, há uma crítica ao desenvolvimento técnico: "comecei então a compreender que uma grande imundície cobre a alma do homem" (QUEIRÓS, 2009, p. 110). Assim como nos dois outros contos, o homem parece perder as suas qualidades com o progresso. Nesse folhetim é nítido o contraste que há entre o meio natural e o meio urbano: "As árvores depois de terem sido colocadas por Deus na fl oresta com os braços estendidos -para abençoar a terra e a água -fossem arrastadas para as cidades, e obrigadas pelo homem a estender o braço da forca para abençoar os carrascos!" (QUEIRÓS, 2009, p. 113), reforçando, portanto, os aspectos negativos da modernidade e do progresso.
Diabos (diálogos) intermitentes: individualismo e crítica à instituição religiosa em obras de Eça de Queirós. 2010, 259 f. Tese (Doutorado em Literatura Portuguesa) -Doutorado em Letras: Faculdade de Filosofi a
  • A A Nery
NERY, A. A. Diabos (diálogos) intermitentes: individualismo e crítica à instituição religiosa em obras de Eça de Queirós. 2010, 259 f. Tese (Doutorado em Literatura Portuguesa) -Doutorado em Letras: Faculdade de Filosofi a, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.
Introdução: Na primeira fase da vida literária de Eça de Queirós
  • J B Reis
REIS, J. B. Introdução: Na primeira fase da vida literária de Eça de Queirós. In: QUEIRÓS, E. de. Prosas Bárbaras. Porto: Lello & Irmão, 1951, p. 5-53.
As ideias de Eça de Queirós
  • A J Saraiva
SARAIVA, A. J. As ideias de Eça de Queirós. Lisboa: Bertrand, 1982.
Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1975. Submetido em 21 de março de
  • T Todorov
TODOROV, T. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1975. Submetido em 21 de março de 2018