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Critérios de raridade bibliográfica: problemas, metodologias e aplicações

Abstract

Este trabalho tem como objetivo uma análise sobre os critérios de raridade bibliográfica, principalmente sobre o próprio conceito de raridade e se é possível a criação de critérios objetivos. A partir disso, foi feito um estudo sobre metodologias apontadas por estudiosos, e sobre a aplicação dos critérios na Biblioteca Nacional e na Biblioteca Rio-Grandense. O estudo conclui que há lacunas nas práticas profissionais, contudo, é possível mudar essa realidade com uma formação mais humanista dos estudantes de biblioteconomia devido à importância dos materiais raros.
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CRITÉRIOS DE RARIDADE BIBLIOGRÁFICA:
PROBLEMAS, METODOLOGIAS E APLICAÇÕES
HEYTOR DINIZ TEIXEIRA*
NAILLÊ DE MORAES GARCIA**
MARCIA CARVALHO RODRIGUES***
RESUMO
O presente trabalho é resultado de uma revisão teórica sobre o
conceito de raridade bibliográfica. Apresenta a importância da criação
e adoção de critérios de raridade bibliográfica como elementos
norteadores do trabalho biblioteconômico. Expõe, ainda, os critérios
de raridade adotados por duas instituições brasileiras: a Biblioteca
Nacional (Rio de Janeiro, RJ) e a Biblioteca Rio-Grandense (Rio
Grande, RS). O estudo conclui que ambas instituições adotam
critérios semelhantes. Considera, ainda, a presença de lacunas nas
práticas profissionais dos bibliotecários curadores de acervos raros.
Acredita-se, contudo, que seja possível modificar essa realidade com
a adoção de uma formação profissional mais humanista.
PALAVRAS-CHAVE: Raridade bibliográfica. Livros raros. Biblioteca Nacional.
Biblioteca Rio-Grandense.
ABSTRACT
The present work is the result of a theoretical revision about the
concept of bibliographic rarity. It presents the importance of the
creation and adoption of criteria of bibliographic rarity as guiding
elements of library work. It also shows the rarity criteria adopted by
two brazilian institutions: the National Library (Rio de Janeiro, RJ) and
the Rio-Grandense Library (Rio Grande, RS). The study concludes
that both institutions adopt similar criteria. It also considers the
presence of gaps in the professional practices of librarians who curate
rare collections. However, we believe that it is possible to change this
reality with the adoption of a more humanistic professional formation.
KEYWORDS: Bibliographic rarity. Rare books. National Library. Rio-Grandense Library.
* Acadêmico do Curso de Bacharelado em Biblioteconomia da Universidade Federal do
Rio Grande (FURG). E-mail: dinizheytor@gmail.com.
** Acadêmica do Curso de Bacharelado em Biblioteconomia da Universidade Federal do
Rio Grande (FURG). E-mail: naille.moraes@gmail.com.
*** Docente do Curso de Bacharelado em Biblioteconomia da Universidade Federal do Rio
Grande (FURG). Doutora em Memória Social e Patrimônio Cultural (UFPel). E-mail:
marciarodriguesfurg@gmail.com.
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1 INTRODUÇÃO
O livro, desde o seu surgimento, apresenta como principal
função registrar o conhecimento humano e, por meio de suas
páginas, levar informações às gerações vindouras. O artefato livro
remete à ideia de conhecimento, intelecto, cultura, erudição.
Enquanto objeto cultural, carrega em si essa simbologia e agrega, a
quem o possui, um status de poder, influência e sabedoria.
No decorrer da sua história, o livro passou por uma série de
modificações, tanto de forma (rolo, códice, hipertexto), quanto de
suporte (madeira, pergaminho, papel, suportes eletrônicos etc.), e a
sua evolução é percebida por estudiosos da área da Biblioteconomia
de livros raros, atentos à relevância das obras bibliográficas para os
estudos da história do ser humano. Diante da importância histórica,
cultural e patrimonial destes materiais, busca-se, por meio da
realização de revisão teórica sobre o tema proposto, abordar a
pertinência da aplicação de critérios de raridade bibliográfica
internacionalmente aceitos para a identificação de obras em uma
coleção, tendo como objetivo principal salvaguardar a memória social.
Os critérios de raridade bibliográfica não são elementos tidos
como verdadeiros ou falsos. De acordo com Araujo (2015), tratam-se,
apenas, de construções baseadas no aporte teórico da área da
Biblioteconomia de livros raros que fundamentam a prática dos
bibliotecários que gerenciam esse tipo de acervo.
A aplicação do termo raro a uma obra bibliográfica é subjetiva
por diferentes razões e motivações. Distante de se ter uma definição
objetiva, a área da Biblioteconomia de livros raros, no intuito de
nortear estudiosos e profissionais que lidam diretamente com este tipo
de acervo, defende a adoção de critérios de raridade para a
identificação de obras raras em meio a coleções gerais de bibliotecas.
De maneira geral, os critérios utilizados pelas bibliotecas
brasileiras têm origem nos critérios da Biblioteca Nacional (BN).
Percebe-se, ainda, que alguns dos critérios utilizados pela BN são
compartilhados por muitas bibliotecas nacionais de diversos países.
Indo mais a fundo na origem de alguns destes critérios, observa-se
que estes se originam de parâmetros adotados por bibliófilos e
livreiros especializados no comércio de livros raros.
Levando em consideração o exposto, esta pesquisa, além de
buscar averiguar a importância da adoção de critérios de raridade
para identificar tais obras em meio às coleções de bibliotecas,
apresenta, ainda, os critérios definidos pela BN e pela Biblioteca
Rio-Grandense, localizada na cidade do Rio Grande, RS.
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2 A IMPORTÂNCIA DA ELABORAÇÃO DE CRITÉRIOS DE
RARIDADE BIBLIOGRÁFICA
Critérios de raridade bibliográfica são elaborados e adotados
para balizar as bibliotecas e seus profissionais no processo de
identificação de obras raras. Dentre os diversos critérios de raridade
adotados pelas bibliotecas, há os que são universalmente aceitos e os
circunstanciais. Como critérios universalmente aceitos podemos citar,
por exemplo, os incunábulos e os manuscritos. Já como critérios de
raridade de caráter circunstancial, podemos citar, por exemplo, livros
que foram impressos dentro de um determinado período, em uma
determinada localidade, levando em consideração o surgimento da
tipografia nesta localidade. Ou, ainda, obras que pertenceram a uma
personalidade de destaque para uma determinada instituição tais
materiais poderiam, talvez, não ter a mesma importância para outra
instituição (daí a relatividade do critério).
É, portanto, possível criar critérios além dos universalmente
aceitos, de maneira a atender às reais necessidades das bibliotecas,
considerando as suas particularidades. Diante de tal fato, para
Pinheiro (1989, p. 21), ao elaborar critérios de raridade bibliográfica,
deve-se buscar
[...] estabelecer critérios para enfoque de raridade/preciosidade
bibliográfica, não universais, mas aceitos universalmente; e associar
ao caráter de unicidade, atribuído ao livro, características tais como:
beleza tipográfica; edições limitadas, numeradas ou personalizadas;
limite histórico, definido pelas características artesanais.
Daí resulta, portanto, a dificuldade em estabelecer uma
definição para livro raro. Para Pinheiro (2009), o livro raro é o único
item conhecido de uma determinada obra, ou porque é precioso
para alguém, ou porque é inquestionavelmente raro. uma
subjetividade na definição de raridade aplicada ao livro, pois além de
estar ligada à realidade, à intencionalidade e aos objetivos de cada
biblioteca e da instituição a que pertence, também está diretamente
relacionada à bagagem cultural do curador do acervo.
Além disso, a constatação da importância dos conteúdos das
obras pode variar de acordo com o local e o tempo. Obras de grande
importância no Brasil, por exemplo, podem não ter a mesma
relevância verificada em outros países, porque seu valor depende de
conhecimentos relativos ao contexto local. Também, com o passar do
tempo e em decorrência da realização de pesquisas, poderão ocorrer
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mudanças na valoração de certas obras, e até mesmo passar a ser
considerada rara alguma obra que antes era tida como comum.
Segundo Galbraith e Smith (2012, p. 3, tradução nossa),
É difícil demarcar exatamente quando o livro raro, em oposição a um
livro comum, tornou-se um conceito distinto; de fato, hoje, definir
livros raros, permanece variável, porque livros que antes eram
considerados comuns adquirem novo significado quando novas
áreas de pesquisa, como estudos sobre alfabetização e história do
livro, são praticados pela comunidade acadêmica.
1
Existem diferentes interpretações sobre raridade bibliográfica.
Para o mercado livreiro antiquário, por exemplo, a importância do
livro está no próprio objeto e suas especificidades: o livro é visto
como artefato. O valor de mercado se sobressai em relação aos
demais critérios. Dessa forma, quanto menos exemplares existirem,
mais valioso será o livro. Outro fator que influencia o encarecimento
de um livro raro é a procura pelo item. Igualmente, o estado de
conservação é determinante para valorizar um exemplar. A raridade,
então, não se aplica à obra como um todo, mas a determinado(s)
exemplar(es).
Diferentemente, para as bibliotecas, os aspectos histórico e
cultural do livro importam mais do que seu valor de mercado, e o
estado de conservação, apesar de importante, não é determinante
para qualificar um exemplar como raro. A relevância da definição e
tratamento das obras raras, nesse caso, tem o sentido de
conservação do patrimônio cultural e histórico, por isso o critério de
antiguidade acaba sendo um dos mais utilizados. A esse respeito,
afirma Rodrigues (2006, p. 115):
O critério de raridade adotado pelas bibliotecas geralmente está
vinculado à idéia de antigüidade e valor histórico-cultural. A idade
cronológica leva em conta a aparição da imprensa nos diversos
lugares do mundo e/ou na região onde foram impressas as obras e,
desta forma, justifica o princípio de que todos os livros publicados
artesanalmente merecem ser considerados raros.
A elaboração de critérios de raridade contribui para objetivar
algo tão subjetivo: retira-se a dependência da identificação destas
1
“It is difficult to demarcate exactly when the rare book as opposed to a commom book
became a distinctive concept; indeed, defining rare books today remains variable because
books that were previously considered common acquire new significance when new areas
of research, such as literacy studies and book history, are practiced by the scholarly
community.” (GALBRAITH; SMITH, 2012, p. 3)
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obras apenas dos conhecimentos e bagagem cultural dos indivíduos
responsáveis por tais acervos. Assim, salvaguardam-se os livros
raros, tidos como elementos da memória cultural de um determinado
local, povo ou instituição. Com a consulta a esses critérios, é
possível identificar as obras raras mesmo diante das diferentes
circunstâncias. Pinheiro (2015, p. 34), ainda afirma que
Um caminho para escapar à dependência imposta pela subjetividade
conceitual, que atribui aquela função a uma autoridade reconhecida,
mas que nem sempre formaliza seus critérios, é a busca por critérios
próprios de raridade que revelem a missão institucional e a formação
e o desenvolvimento da coleção, no presente e no futuro.
Para isso, seria imprescindível o trabalho conjunto de um
grupo de profissionais de diversas áreas e com diferentes
competências para analisar e verificar e a raridade do livro, pois nem
sempre o bibliotecário, sozinho, poderá analisar com precisão obras
de áreas específicas, que possuem valor intrínseco em seu próprio
escopo, mas que poderão parecer comuns aos olhos leigos. Dessa
forma, apesar da subjetividade do termo raridade, por meio da
realização de um trabalho multidisciplinar, torna-se possível a
verificação do valor intersubjetivo das obras. Segundo Andrade e
Cantalino (2003, p. 8),
Dizer algo sobre a raridade de um livro não é afirmar nada que possa ser
verificado como verdade, contudo, não deixa de ter sentido e
importância a afirmação do valor de raridade. Não sendo uma realidade
objetiva e verificável é, entretanto, um juízo de valor intersubjetivo,
mediado no plano da linguagem. Portanto um juízo público.
A raridade bibliográfica é um tema bastante discutido na área
da Biblioteconomia de livros raros, contudo, é um campo onde
certo cuidado na definição universal de um conceito de raro em
razão da sua relatividade. O tempo, os aspectos bibliológicos, o
local de produção da obra, dentre outros fatores, tornam subjetiva a
definição de livro raro”. Segundo Silva e Laine (1990 apud FROES,
1995, p. 33),
A raridade não é um termo absoluto, invariável e de grau constante,
devendo ser relativa aos países e regiões. [...] Alguns critérios são
indiscutíveis: os incunábulos, as edições princeps dos clássicos, a
primeira produção tipográfica de uma determinada área geográfica e
obras com tiragens reduzidas.
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Assim, diante dessas diferenças, faz-se necessária a
elaboração de critérios que se tornem guias para as bibliotecas no
processo de identificação de livros raros em meio a seus acervos.
2.1 Critérios de raridade: fundamentos para a sua elaboração
Pinheiro (1989), em seu livro “O que é livro raro”, apresenta
uma proposta metodológica para a elaboração de critérios de
raridade, a qual leva em consideração cinco aspectos determinantes
para a sua construção. São eles: limite histórico, aspectos
bibliológicos, valor cultural, pesquisa bibliográfica e características
do exemplar.
Por limite histórico, entende-se o período em que a obra foi
produzida, considerando o ano da invenção da imprensa, mas,
principalmente, o período em que se iniciou a fase dos impressos na
localidade onde a obra foi produzida, se a produção apresenta,
ainda, características artesanais, dentre outros fatores. Segundo
Pinheiro (2009, p. 34),
A história cronológica do livro configura-se, então, como critério. A
avaliação de um livro pela data de publicação tem sido considerada
como um dos “métodos” mais seguros para sua qualificação como
raro. Os catálogos de livros “raros” publicados destacam a data de
publicação como o primeiro e, muitas vezes, o único critério de
raridade, levando à valorização da idade da obra.
Os aspectos bibliológicos correspondem à materialidade do
livro. As características atribuem valor ao livro como objeto porque
este é visto como investimento, relíquia e/ou símbolo de status.
O valor cultural diz respeito às características estruturais do
livro, suas origens e singularidades, ou assunto.
A pesquisa bibliográfica faz uso de fontes de informação de
reconhecida importância para a área da Biblioteconomia de livros
raros. Tais fontes indicam unicidade e raridade da obra,
preciosidade e celebridade e, também, curiosidade.
As características do exemplar dizem respeito aos elementos
acrescentados após a sua publicação, como marcas de propriedade
e procedência, marcas de artífices e comerciantes renomados,
marcas de leitura, dedicatórias, etc.
As obras raras são, assim, definidas por diferentes razões.
São, muitas vezes, detentoras de informações que dificilmente serão
encontradas em outros exemplares, são de difícil acesso, são
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valiosas. Por isso, uma vez perdidas, a sua reposição seria uma
tarefa praticamente impossível. Por essa razão, esse tipo de acervo
requer cuidados especiais em relação ao seu tratamento.
2.2 Critérios adotados pela Biblioteca Nacional
A Fundação Biblioteca Nacional (FBN), como unidade de
informação referência no país em vários campos da
Biblioteconomia, utiliza-se de critérios internacionalmente aceitos
para a identificação de livros raros e fornece as orientações às
bibliotecas pertencentes a outras instituições.
Através do Plano Nacional de Recuperação de Obras Raras
(PLANOR), desde 1983, a FBN tem como objetivo a identificação e
a recuperação das obras raras existentes não só na Biblioteca
Nacional (BN), mas em todo o território nacional, servindo como um
guia para as bibliotecas brasileiras.
Para a definição de critérios que fazem parte da metodologia
de identificação de obras raras, é necessária a presença de uma
comissão de profissionais de áreas multidisciplinares, para
trabalharem em conjunto. Dentre esses profissionais, encontram-se
os bibliotecários, que possuem os conhecimentos técnicos, teóricos
e bibliográficos; os próprios usuários, que possuem o conhecimento
das obras que são referências em cada área do conhecimento; e os
gestores da instituição, que possuem o conhecimento histórico
administrativo. Segundo Pinheiro (1989, p. 21-22),
A análise desses critérios deve ser realizada, no mínimo, sob uma das
seguintes perspectivas: a) a do bibliotecário, em face de um acervo
considerado antigo; b) a do gerente da instituição, perante um acervo
que desconhece e considera “valioso”, por contribuir parte da história da
instituição; e c) a do usuário, que sintetiza as perspectivas anteriores.
A BN estabeleceu seus próprios critérios e estes, até o
momento, têm sido utilizados como referências por outras
instituições do país. Em 2012, durante o 16º Curso Informativo
Sobre Preservação de Acervos, o PLANOR divulgou uma ordem de
serviço oficial, do ano de 1984, assinada pela diretora da época,
Maria Alice Barroso, que determinada a finalidade, os princípios e
definições norteadoras para o estabelecimento de critérios para a
qualificação de obras raras.
De acordo com o documento, a finalidade para a delimitação dos
critérios empregados na qualificação das obras raras serve para o
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aperfeiçoamento dos serviços da biblioteca. Dentre os critérios,
encontram-se: a) todas as impressões dos séculos XV, XVI e XVII;
b) impressões do século XVIII até 1720; c) obras editadas no Brasil até
1841; d) edições de tiragens reduzidas; e) edições especiais, de luxo,
para bibliófilos; f) edições clandestinas; g) obras esgotadas;
h) exemplares de coleções especiais, em geral com belas
encadernações e “ex-libris”; i) exemplares com anotações manuscritas
de importância, incluindo-se dedicatórias (PLANOR, 2012).
Diante dos critérios de raridade utilizados pela BN, ainda
pode haver questionamentos por parte das instituições sobre a
importância da sua utilização, tendo em vista a idade cronológica
da obra. Segundo Rodrigues (2006, p. 115),
Torna-se necessário, portanto, sistematizar uma metodologia a
fim de explicitar e justificar os critérios para identificar livros raros
dentro de uma coleção. O uso de critérios de raridade
bibliográfica justifica-se pelo fato de que tais livros merecem
tratamento diferenciado, visto seu valor histórico, cultural,
monetário, e mesmo a dificuldade em obterem-se exemplares.
Apesar da idade ser um dos fatores determinantes, o livro
precisa se enquadrar em um ou mais critérios para determinar-se
que ele é raro. Além disso, Pinheiro (1989) atenta que uma das
recomendações metodológicas para a definição dos critérios são
os aspectos bibliológicos de cada volume, ou seja, se eles
apresentam beleza tipográfica, quais materiais foram utilizados
como suporte da impressão, o tipo de papel, dentre outros.
A necessidade da criação, formalização e utilização dos
critérios de raridade vem da importância de salvagua rdar todo
esse acervo raro, que contém uma parcela da história cultural,
política e social de uma época, localidade e/ou instituição.
3 BIBLIOTECA RIO-GRANDENSE: ACERVO RARO E CRITÉRIOS
DE RARIDADE
Apesar da sua localização geográfica, a cidade do Rio
Grande (Rio Grande do Sul, Brasil) nunca se isolou do restante o
país no que se refere à cultura e aos acontecimentos ao redor
do mundo no decorrer dos anos. Segundo Vieira e Jaeger
(1979, p. 88),
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As circunstâncias ditadas pela localização geográfica da cidade
impunham aos grandes negociantes um acompanhamento do que se
passava no mundo político e cultural das metrópoles. O grande caminho
de contato, rápido e permanente, representado pelo oceano, evitava o
isolamento e o confinamento cultural dos negociantes.
FIGURA 1 Mapa da localização da Biblioteca Rio-Grandense.
FONTE: Adaptado de Google Maps (2018).
Desde que foi fundada, em 1846, a Biblioteca Rio-Grandense
é procurada por pesquisadores de todas as localidades do mundo.
Sendo uma instituição de direito privado, mantida principalmente por
meio das mensalidades dos sócios, os recursos financeiros são
escassos. Nesse sentido, é imprescindível que sejam realizados
convênios e projetos para que sejam empregadas novas práticas e
pesquisas no local.
Em janeiro de 1977, firmou-se um convênio de colaboração
mútua entre a Biblioteca Rio-Grandense e a Universidade Federal
do Rio Grande (FURG). As prioridades desse convênio foram: o
processamento técnico das obras raras e/ou valiosas, das obras de
Direito e do acervo de fotografias antigas (VIEIRA; JAEGER, 1979).
A partir desse convênio, um grupo de professoras e alunas do
curso de Biblioteconomia da FURG realizou um estudo sobre as
obras lá depositadas. De acordo com Vieira e Jaeger (1979) a
biblioteca possuía, no final da década de 1970, um acervo com
cerca de 210.000 volumes, dentre os quais encontravam-se 750
exemplares de obras raras e/ou valiosas.
No que se refere ao tratamento direcionado às obras raras,
Vieira e Jaeger (1979) afirmam que estas foram retiradas do acervo
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geral, sendo selecionadas por século, depois organizadas por autor
e título dentro de cada século, e em seguida postas em uma sala
adequada: a Sala Dr. Joaquim da Silva Filho.
Quanto à metodologia utilizada para a identificação dessas
obras, foi empreendida uma análise minuciosa das mesmas, além
de terem sido consultados especialistas na área. Vieira e Jaeger
(1978, p. 61), descrevem quais critérios foram empregados:
A primeira tarefa desenvolvida no trato de tão substancial acervo foi
o de catalogar as obras consideradas raras e ou preciosas. Adotou-
se como primeiro critério a separação de obras antigas, para, depois,
estabelecer uma segunda separação levando-se em conta: ano de
publicação, editora, aspectos gráficos, idioma, auspícios da
publicação e conteúdo.
Atualmente, os critérios da BN vêm sendo utilizados como
instrumentos de pesquisa para a identificação de obras raras na
Biblioteca Rio-Grandense. Além disso, os responsáveis pelo acervo
são profissionais bibliotecários e possuem o conhecimento
necessário para o tratamento deste acervo, reconhecendo a sua
importância para pesquisa.
Apesar disso, a curadoria destas obras não é feita de maneira
preventiva, colocando em risco a vida útil do acervo. Principalmente
pela falta de investimentos, as atividades biblioteconômicas voltadas
às obras raras na Biblioteca Rio-Grandense, atualmente, são
precárias, sendo necessária uma ação visando o resguardo das
obras no local, com o intuito de salvaguardar a memória cultural.
4 CONCLUSÕES
Apesar da dificuldade de estabelecer critérios objetivos para a
identificação de obras raras, tanto pela subjetividade envolvida no
momento de avaliação, quanto na relatividade do próprio termo
“raridade”, é imprescindível que seja adotada uma metodologia que
possa ser aplicada para a definição de livros raros. Sua importância
reside principalmente na preservação do patrimônio histórico e
cultural da humanidade e, também, na garantia de acesso a essas
informações.
A partir deste estudo, chegou-se aos principais aspectos a serem
considerados no momento de aplicar a metodologia proposta por
Pinheiro (1989): o limite histórico, os aspectos bibliológicos, o valor
cultural, a pesquisa bibliográfica e as características do exemplar.
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A BN adota critérios aceitos internacionalmente e fornece as
orientações para bibliotecas de outras instituições. A exemplo disso,
verifica-se que, apesar das dificuldades enfrentadas, a Biblioteca
Rio-Grandense possui um grande número de obras de suma
importância e segue as indicações da BN para a verificação da
raridade bibliográfica.
Atualmente, percebe-se que os cursos de Biblioteconomia
brasileiros, em sua maioria, apresentam uma formação voltada nas
e para as tecnologias, na administração dos novos formatos da
informação e nas unidades informacionais pelas quais esses
profissionais serão responsáveis. A Biblioteconomia de livros raros
ficou em segundo plano, viabilizando o desinteresse da comunidade
pelo desenvolvimento de pesquisas sobre o tema. Levando em
conta a importância dos acervos bibliográficos raros, julga-se
importante que os estudantes de Biblioteconomia tenham uma
formação não somente tecnicista e voltada para as tecnologias, mas
também direcionada para o viés cultural da área.
Os futuros profissionais da informação precisam ter condições
teóricas para fundamentar sua prática profissional. Isso será
possível através de uma formação acadêmica mais humanista. A
memória cultural presente nas obras raras não pode se perder
devido ao despreparo dos profissionais, afinal, uma parte da história
e da identidade cultural dos povos está contida nelas.
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O presente trabalho busca articular o conceito de raridade bibliográfica e a importância do estabelecimento de critérios de raridade em bibliotecas universitárias. Apresenta os critérios estabelecidos e adotados pela Biblioteca Central da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Palavras-chave Biblioteca universitária. Livros raros. Critérios de raridade bibliográfica. How to define and identify rare books? Criteria adopted by the Central Library of the University of Caxias do Sul Abstract The present work searches for articulating the concept of bibliographical rarity and the importance of the establishment of criteria of rarity in university libraries. It presents the criteria established and adopted by the Central Library of the University of Caxias do Sul (UCS). Keywords Academic library. Rare books. Criteria of bibliographical rarity.
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A raridade como questão epistemológica e política: um novo paradigma para os curadores de acervos especiais
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