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Desenvolvimento das crianças: um olhar sobre o papel da família e o papel da escola na perspectiva dos pais

Authors:

Abstract

Este trabalho refere-se a uma pesquisa qualitativa cujos objetivos consistiram em identificar as concepções e a compreensão da família a respeito da importância e do papel da escola e da família para o desenvolvimento das crianças. Para a coleta de dados foram realizadas entrevistas semidirigidas com pais de alunos do primeiro ano do Ensino Fundamental, de escolas municipais cuja permanência da criança é em tempo integral, no município de Assis/SP, nas quais foi possível perceber um descompasso entre a função familiar e a escolar. Devido às transformações sociais e familiares dos últimos séculos, nota-se que a família sofreu um enfraquecimento no desempenho de seu papel, depositando parte da responsabilidade sobre o desenvolvimento cognitivo e emocional de seus filhos na escola. Esta também se transformou, incorporou novas funções, como é possível observar na ampliação da jornada escolar que a mesma passou.
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DESENVOLVIMENTO DAS CRIANÇAS: UM OLHAR SOBRE O
PAPEL DA FAMÍLIA E O PAPEL DA ESCOLA NA PERSPECTIVA
DOS PAIS
DEVELOPMENT OF CHILDREN: THE CONCEPTION OF THE FAMILY’S ROLE AND SCHOOL’S
ROLE IN VIEW OF THE FAMILY
DESARROLLO DE LOS NIÑOS: LA CONCEPCIÓN SOBRE EL PAPEL DE LA FAMILIA Y EL PAPEL
DE LA ESCUELA EN VISTA DE LOS PADRES
Sabrina Magossi Mainardi*
1
Mary Yoko Okamoto**
2∗∗
RESUMO
Este trabalho refere-se a uma pesquisa qualitativa cujos objetivos consistiram
em identificar as concepções e a compreensão da família a respeito da
importância e do papel da escola e da família para o desenvolvimento das
crianças. Para a coleta de dados foram realizadas entrevistas semidirigidas
com pais de alunos do primeiro ano do Ensino Fundamental, de escolas
municipais cuja permanência da criança é em tempo integral, no município
de Assis/SP, nas quais foi possível perceber um descompasso entre a função
familiar e a escolar. Devido às transformações sociais e familiares dos últimos
séculos, nota-se que a família sofreu um enfraquecimento no desempenho de
seu papel, depositando parte da responsabilidade sobre o desenvolvimento
cognitivo e emocional de seus filhos na escola. Esta também se transformou,
incorporou novas funções, como é possível observar na ampliação da jornada
escolar que a mesma passou.
Palavras-chave: Família. Escola. Relação família – escola.
ABSTRACT
This work refers to a qualitative research, whose objectives were to identify
the concepts and the understanding of the family about the importance
and role of school and family for the development of children. For the
data collection semi-structured interviews were conducted with parents of
students of the first year of Elementary School, municipal schools whose
permanency of the children is full time, in the city of Assisi/SP, in which
Texto recebido em 06 de agosto de 2014 e aprovado para publicação em 19 de março de 2015.
* Graduanda do curso de Psicologia da Faculdade de Ciências e Letras de Assis – FCL – Universidade Estadual Paulista “Júlio de
Mesquita Filho”. E-mail: sabrina_mainardi@hotmail.com
** Possui graduação em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1992), mestrado em Psicologia pela
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2001) e doutorado em Psicologia (Psicologia Clínica) pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo (2007). Atualmente é professor assistente doutor da Universidade Estadual Paulista Júlio de
Mesquita Filho - UNESP - Faculdade de Ciências e Letras de Assis. E-mail: mary.ok@uol.com.br
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PERSPECTIVA DOS PAIS
it was possible to realize a dissonance between the function family and the
school. Due to social changes and family of the last centuries, it should
be noted that the family has suffered a decline in the performance of its
role, depositing part of the responsibility on the cognitive and emotional
development of their children in school. This also became, incorporated
new functions, as can be seen in extension of school day that the same
passed.
Keywords: Family. School. Relationship family-school.
RESUMEN
Este trabajo se refiere a una pesquisa cualitativa cuyos objetivos consistirán
en identificar las concepciones y la comprensión de la familia sobre la
importancia y el papel de la escuela y la familia relacionados al desarrollo
de los niños. Para recopilación de datos fueron realizadas encuestas semi-
estructuradas con padres de alumnos del primer año, que están em la escuela
en tiempo completo, de la Enseñanza Fundamentalde escuelas municipales,
en el municipio de Assis/SP, en las cuales fue posible percibir un descompás
entre la función familiar y la escolar. Debido a los cambios sociales y familiares
de los últimos siglos, se nota que la familia sufrió un enflaquecimiento en el
desempeño de su papel, poniendo algo de responsabilidad sobre el desarrollo
cognitivo y emocional de sus hijos en la escuela. Ésta también se transformó,
incorporó nuevas funciones, como se puede ver en la ampliación de la
jornada escolar que pasó.
Palabras clave: Familia. Escuela. Relación familia-escuela.
1. INTRODUÇÃO
1.1 As transformações na família e suas características educativas na
atualidade
A partir do século XVII, mudanças sociais, políticas e econômicas incidiram
sobre a vida familiar e esta deixou de ser pública, comunitária e com pouca
intimidade para viver outra realidade, na qual se fechou e passou a crescer à medida
que a sociedade se retraiu. Dessa forma, a família moderna se responsabilizou
pela construção do caráter, personalidade e desenvolvimento, tanto biológico
quanto da cognição dos seres humanos. Essa família tornou-se a estrutura social
básica, na qual diferentes pessoas convivem entre si e possuem uma relação com
a sociedade (Ariès, 1981).
Deste modo, é na família que ocorrem os primeiros encontros com os “outros”,
através dos quais ocorre o aprendizado do modo humano de existir. Por meio do
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contato da criança com esses outros, essa se constrói como sujeito integrante de
um mundo social com significados.
Considerando a visão e o conceito de desenvolvimento infantil e da
função da família do ponto de vista psicanalítico, tem-se a concepção de que
a família desempenha uma função essencial para o desenvolvimento de seus
filhos, o de contenção da parte imatura da personalidade: os narcisismos, as
pulsões incestuosas, o auto-erotismo, a hostilidade e a tendência à simbiose,
possibilitando assim, o desenvolvimento do humano, limitando a situação
narcísica e modificando-se em um adulto formado.
Segundo Dolto (1999), a família age de acordo com a educação que os
progenitores receberam e tal educação não ocorre apenas através do discurso,
constituindo-se em um:
“modo de ser que inspira à criança confiança em si ou desconfiança de si própria, que
inculca o orgulho do seu sexo e de suas iniciativas, que lhe dá a segurança de que, faça o que
fizer, é sempre amada, mesmo que seja às vezes repreendida”. (Dolto, 1999, p.41)
Tal fato aponta para a importância do papel parental no desenvolvimento
físico e emocional das crianças. Enquanto ensinam, os pais também exercem
a função de autoridade, de fundamental importância para a contenção dos
impulsos destrutivos da criança e de sua inserção na vida social. Essa autoridade
seria uma forma de oferecer limites e a noção de realidade, que contribuiria para
a capacidade de aprendizagem e contato com o conhecimento (Rojas, 2010;
Roudinesco, 2003).
O século XX trouxe muitas mudanças na maneira de se pensar a infância
e as práticas de cuidado e a educação dos filhos. Segundo Gomes e Zanetti
(2011), o fenômeno da fragilização das funções parentais pode ser entendido
como característico de pais que sentem culpa, dúvida e insegurança ao seu
posicionamento, enquanto pais, diante de seus filhos e isto é esperado numa
sociedade em constante transformação.
É importante dizer que por maiores que sejam as modificações na configuração
familiar e na sociedade, essa instituição – a família – permanece como modelo de
identificação, que distribuem normas e ideais; são os primeiros objetos de amor
e ódio, transmissores de uma cultura (Janin, 2011), cooperando assim, para o
desenvolvimento de seus componentes, seja este saudável ou patológico.
A família, por sua vez, também desempenha seu papel primordial no processo
de escolarização dos filhos. Esses dois sistemas - escola e família – “têm objetivos
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distintos, mas que se interpenetram” (Oliveira & Marinho-Araújo, 2010). As
famílias, as escolas e as comunidades podem compartilhar a responsabilidade
pelo bom desempenho acadêmico dos alunos, permanecendo cada um com seus
devidos papeis.
Porém, é necessário que se possa pensar a respeito dos resultados produzidos
por esse cenário de transformações no qual a família está inserida ao longo dos
últimos séculos, as quais afetaram as configurações familiares e seu funcionamento,
ou seja, a organização e o desempenho de sua função.
Um dos aspectos observáveis diz respeito ao descentramento da família, no
que se refere à constituição psíquica de seus filhos. Com a entrada cada vez mais
precoce das crianças em instituições escolares e a necessidade de que grande
parte de sua educação esteja vinculada a tais instituições, Rojas (2010) produz
uma reflexão a respeito do desenvolvimento da função de apoio e sustentação do
psiquismo, uma das tarefas primordiais exercidas pela família.
A constituição psíquica da criança depende em grande parte do apoio psíquico
exercido pelas figuras parentais, os quais servem de sustentação para os impulsos
da criança. Porém, para que tal função possa ocorrer, é necessária a existência
da assimetria adulto-criança, que se refere à diferenciação inicial existente entre
tais sujeitos, a qual confere uma formação subjetiva e ao mesmo tempo, uma
responsabilidade singular dos adultos, que facilitariam a diferenciação da criança
como um sujeito.
Diante desse cenário de mudanças que afetou o funcionamento familiar,
segundo Rojas (2010), é muito comum a existência de uma situação de simetria
ou mesmo de inversão nessa posição adulto-criança, cujos resultados são o
déficit dos laços protetores e o desamparo das crianças, uma vez que se investe
responsabilidade, poder e exigências excessivamente às mesmas, gerando o
sentimento de desproteção e temor; afinal, nessa condição, os filhos não têm em
quem se apoiar para que possam se desenvolver.
Além disso, outra consequência percebida diz respeito ao projeto de idealização
que permeia o imaginário dos pais em relação aos filhos, nos quais existe uma
grande expectativa de realização e perfeição depositada nos descendentes.
Enquanto ocupam a posição fantasmática de “sua majestade o bebê”, pelo massivo
investimento libidinal realizado pelas figuras parentais, os filhos iriam idealmente realizar
tudo aquilo que estes não puderam empreender na existência, justamente porque se
sacrificaram pelos filhos no campo biopolítico da família moderna. Com efeito, enquanto
condensação maior do Capital econômico e simbólico da nação, a criança foi alçada à
condição de soberana, pois a qualidade de vida da população, como signo maior que
seria da riqueza do Estado, dependeria deste lugar onipotente conferido ao infante. Foi
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apenas neste contexto histórico, marcado que foi pela biopolítica, enfim, que a criança foi
transformada no símbolo do futuro propriamente dito, que passou a colorir e encantar os
nossos fantasmas sobre o infantil e a criança. (Birman, 2007, p.54)
Por último, cabe apontar a preocupação cada vez maior com a normatividade
do comportamento expressa, sobretudo, na tendência a defini-lo através
de um conjunto de sinais e sintomas, impulsionados principalmente pelo
desenvolvimento tecnológico e de pesquisas em neurociências, cujo principal
resultado pode ser apontado no espaço ocupado pelo discurso do “especialista
em detrimento do saber transmitido e conhecido pela família de modo
geracional. Paulatinamente, o saber familiar tem sido substituído pelo discurso
técnico-científico. Com isso, “não resta â família a não ser situar-se à margem das
dificuldades da criança, indicando uma desresponsabilização e impotência que
passam a marcá-la” (Mariotto & Schaedler, 2013).
Tal cenário apresentado confere uma singularidade ao contexto familiar atual
e consequentemente, à educação das crianças, seja no âmbito familiar como no
escolar.
1.2 A importância e o papel da instituição escolar na atualidade
De acordo com Giddens (2002), na modernidade, o Estado e a sociedade
civil se reordenaram e produziram transformações. Assim, o Estado passou a
influir cada vez mais na vida diária da população em geral, através das diversas
instituições e políticas públicas que atingem diversos aspectos da vida. Nesse
sentido, existe a dicotomia entre sociedade civil - estruturada como o lado
oposto da penetração do Estado na vida diária, e o domínio do público, ou seja,
o Estado.
O surgimento da privacidade foi certamente dependente de uma separação
adicional, a da infância em relação à vida adulta. Com essa nova denominação
– infância - passou-se a olhar para essa fase com mais cuidado e atenção. De
acordo com Ariès (1981), esse processo deu origem ao “sentimento moderno
da família” no qual, dentre outras características, encontra-se a preocupação
em proporcionar a todos os filhos, indistintamente, uma preparação para a
vida associada à intensa preocupação e importância da educação dos filhos. A
aprendizagem tradicional foi substituída pela escola, uma escola transformada,
instrumento de disciplina severa, protegida pela justiça e pela política.” (Ariès,
1981, p. 277)
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A educação é num certo sentido uma atividade pública, pois funciona fora de
casa. Mas permanece para os alunos um ambiente segregado distinto do mundo
adulto do trabalho e de outros envolvimentos” (Giddens, 2002, p.142). Dessa
maneira, o público passou a penetrar em vários aspectos da vida privada, como
por exemplo, a do ensino de boas maneiras e atividades básicas do cotidiano nas
escolas, que anteriormente eram função da família. A família, por sua vez, passa
a depositar cada vez mais confiança na instituição escolar, pois estas permanecem
por maiores períodos de tempo na escola.
No Brasil, em meados da década de 30, a escola pública passou a ocupar um
lugar enquanto uma instituição estratégica para o bem-estar da criança (Freitas,
2009). Esta instituição já teve como propósito retirar as crianças do mundo da
rua, dando-lhes alimentação, segurança e ocupação do tempo com atividades
pré-planejadas. “A escola apresenta-se como antítese do mundo privado [. . .], ao
mesmo tempo que oferece uma ponte entre a casa e os aposentos escolares com
o fim de ‘passar por cima’ da rua.” (Freitas, 2009, p. 81).
Tal fato demonstra, mais uma vez, a confiança depositada pelos pais nas
instituições escolares, cuja função histórica está relacionada a retirar as crianças
dos perigos da rua. Essa grande confiança depositada gradativa e progressivamente
pela família na escola teve como uma das consequências uma crise na relação
entre as instituições, que ao que tudo indica, ainda levará algum tempo para
ser resolvida. Assim, diante das dificuldades de exercício das funções parentais
na educação da sua prole e no acompanhamento escolar de seus filhos, os pais
passaram a exigir que a instituição escolar realize não apenas seu papel inicial,
do ensino, como foi instituído com a escola no século XIX, e sim papeis que
anteriormente constituíam-se como da família.
As escolas relutam em fazer isso, pois modificaria inteiramente a sua estrutura, e a questão
permanece em aberto. As creches e as escolas maternais entraram já em parte na transmissão
da socialização primária, que outrora era atribuição exclusiva da família, na ausência relativa
dos pais nos primeiros anos de vida da criança. Parece-me, no entanto, que um novo pacto
social entre a família e a escola será instituído no futuro, considerando as transformações
que estão em curso (Birman, 2007, p. 58).
Esse processo de valorização da escola pode sintetizar todo o processo social
que ocorre paralelamente ao enfraquecimento da família, impulsionada à
vinculação do sofrimento psíquico a processos orgânicos, na qual a escola surge
como “o espaço privilegiado de articulação entre o saber técnico dos médicos e a
‘ortopedia química’ a ser realizada nas crianças, de modo a ajustá-la a um ideal de
normalidade engendrado na pós-modernidade, representado pelo sujeito bem-
adaptado, produtivo e feliz” (Mariotto & Schaedler, 2013).
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1.3 Uma nova configuração da escola: a ampliação da jornada escolar
A educação escolar vem sofrendo mudanças e modificações em seu currículo,
tempo e espaço desde os seus primórdios, e tal aspecto é perceptível na ampliação
da jornada escolar que vem ocorrendo em diversos países, inclusive no Brasil. As
transformações na educação escolar acontecem juntamente com as mudanças na
sociedade e nos meios produtivos, como também, esta sofre variações de acordo
com a demanda da população (Rocha, 2005).
No estado de São Paulo, essa ampliação da carga horária escolar se materializa
através do projeto Escola de Tempo Integral que foi instituído durante a gestão
do governo estadual, no período compreendido entre 2003-2006.
Na proposta inicial, o objetivo principal consistia em prolongar o tempo
diário de permanência dos alunos de 5 para 9 horas diárias, com a finalidade
de ampliar as possibilidades de aprendizagem, através de propostas de oficinas
curriculares compostas por: Orientação para estudo e Pesquisa, Atividades de
Linguagem e de Matemática, Atividades Artísticas, Esportivas/Motoras e de
Participação Social (São Paulo, 2005 apud Castro & Lopes, 2011). As oficinas
curriculares desenvolverão, por sua vez, atividades práticas, inovadoras, integradas
às temáticas e conhecimentos já interiorizados ou não pelos alunos (São Paulo,
2006, p. 14 apud Castro & Lopes, 2011).
A proposta da Escola de Tempo Integral visa enriquecer o currículo dos alunos
com conteúdos formais e informais da educação. Com isso, nessa proposta, a
escola oferece
oportunidades variadas para que os alunos desenvolvam sua percepção do mundo, sua
sensibilidade, sua autoconfiança e competência comunicativa por meio de atividades
lúdicas, culturais, esportivas, artísticas e de comunicação que refletirão significativamente
em seu desempenho escolar. (Vetorazzi, 2011, p. 25).
É possível notar nessa proposta, os objetivos da ampliação da jornada escolar
e os propósitos das modificações sofridas pela escola, desde sua proposta e
currículo, até o tempo de permanência dos alunos nas mesmas, aliando, desse
modo, o enriquecimento acadêmico e cultural dos alunos nela matriculados.
2. MÉTODO
Esse artigo é resultado de uma pesquisa que teve como objetivo geral identificar
as concepções e a compreensão da família a respeito da importância e função
desempenhadas pela escola e pela própria família para o desenvolvimento de
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seus filhos, em crianças matriculadas em escolas de regime integral. Para atingir
tais objetivos, foram entrevistados pais de alunos matriculados no primeiro
ano do ensino fundamental e que frequentam a escola em período integral, no
município de Assis/SP.
A pesquisa qualitativa foi utilizada nessa pesquisa, uma vez que permite
investigações que acessem concepções, significados, aspirações, crenças e atitudes
as quais se mostram difíceis de serem quantificadas. Além disso, nessa modalide
de pesquisa, pode-se ter acesso às vivências individuais ou coletivas estudadas,
para compreender os significados atribuídos pois a principal fonte de dados tem
oriem na acepção que os sujeitos têm sobre o meio que os circunda (Denzin &
Lincoln, 2005).
Inicialmente foi enviado um requerimento para a Secretaria da Educação
do município de Assis/SP, solicitando a autorização para o desenvolvimento de
nossa pesquisa e para a entrada em campo em escolas municipais que atendem
em regime de tempo integral.
Após a aceitação de tal pedido, foram escolhidas duas escolas. Apesar da
existência de seis escolas no município que atendem a tal critério, em uma
delas, a permanência dos alunos em tempo integral é opcional. Além disso, em
outras duas escolas, a implantação dessa modalidade de ensino é recente, por
isso, encontram-se em um período de adaptação. Dessa maneira, como critério
para a escolha de tais instituições, foi utilizado o tempo de funcionamento e a
consolidação da implantação do regime de permanência em tempo integral.
Após a escolha das escolas, foi estabelecido um contato inicial com a direção
de ambas para a apresentação dos objetivos da pesquisa e foi solicitada às
mesmas a indicação de pais de alunos, em cada escola, que possuíssem filhos
que frequentavam o 1º ano do Ensino Fundamental em período integral pela
primeira vez, para a realização de entrevistas.
Foram realizadas seis entrevistas semi-dirigidas, e o estabelecimento de tal
número ocorreu devido à saturação dos dados para os objetivos da pesquisa, uma
vez que essa pesquisa tem uma proposta qualitativa.
Apesar do convite de participação ter sido feito a pais de crianças, compareceram
apenas as mães e uma avó; portanto, não houve a participação de nenhum pai.
No total, foram realizadas 6 entrevistas semidirigidas com 5 mães e 1 avó.
Os temas investigados referiam-se à compreensão dos pais sobre permanência
do filho numa escola em regime de tempo integral, sua importância e papel
para o desenvolvimento de seus filhos; o papel e sua importância como pais e da
família para o desenvolvimento dos filhos.
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As entrevistadas que compuseram a amostra foram: Maria3
1, Lucia4
2, Carmem5
3,
Silvia6
4, Cristina7
5 e Fátima8
6. Todos os nomes utilizados são fictícios para preservar
a identidade das entrevistadas e as entrevistas foram gravadas após a explicitação
dos objetivos, garantia de sigilo e da assinatura do Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido9
7.
Após o término da coleta de dados, houve a preparação inicial do material, que
consistiu na transcrição das entrevistas gravadas em áudio, em seguida, a leitura
do material coletado e finalmente, a organização em eixos temáticos de acordo
com as narrativas dos entrevistados A análise das entrevistas foi realizada por
meio da análise do discurso, numa abordagem qualitativa. Através da análise de
discurso é possível interrogar os sentidos que os sujeitos atribuem a suas narrativas
e a partir disso realizar uma interpretação de tais sentidos. Assim, não se buscou
uma verdade universal e generalizante, uma vez que foi levada em consideração
a premissa de que as formas discursivas dos sujeitos entrevistados são singulares
e cada uma delas se estabelece de maneira diferente na relação entrevistado e
entrevistador. Nessa abordagem, considera-se que a linguagem é constituída na
vida social e está presente no imaginário social. Ou seja, relaciona-se ao sistema
de ideias ao qual esta representação está ligada, portanto, a interpretação do
discurso ocorre no nível simbólico em busca da significação (Peräkylä, 2005).
Os dados foram interpretados através da teoria psicanalítica sobre o
desenvolvimento infantil e da família e com as contribuições da sociologia para
a compreensão da instituição familiar e escolar. Após as conclusões finais, o
pesquisador realizou uma devolutiva dos resultados obtidos aos participantes da
pesquisa.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
Nesse momento, serão apresentadas as categorias analisadas na referida
pesquisa, de acordo com os discursos das entrevistas realizadas com as mães.
1 40 anos, casada, do lar, com 4 filhos e ensino fundamental completo. Entrevistada em uma sala de aula na própria escola de sua
filha. Datada entrevista: 03/06/2013
2 23 anos, solteira, autônoma, 2 filhos e ensino fundamental incompleto. Entrevistada em uma sala de aula na própria escola de
seu filho. Datada entrevista: 05/06/2013
3 34 anos, solteira, vendedora, 2 filhos e ensino fundamental incompleto. Entrevistada em uma sala de aula na própria escola de
seu filho. Datada entrevista: 05/06/2013
4 31 anos, casada, vendedora, 3 filhos e ensino médio incompleto. Entrevistada em uma sala de aula na própria escola de sua filha.
Datada entrevista: 06/06/2013
5 31 anos, casada, do lar, 3 filhos e ensino fundamental completo. Entrevistada em uma sala de aula na própria escola de seu filho.
Datada entrevista: 15/05/2013
6 51 anos, 2 filhos, divorciada, manicure e ensino fundamental incompleto, avó de uma criança. Entrevistada em uma sala de
aula na própria escola de sua neta. Datada entrevista: 15/05/2013
7 A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Ciências e Letras de Assis, (Protocolo –
02617212.6.0000.5401).
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3.1 A importância de uma escola que atenda os filhos em tempo integral
Para as mães, a importância atribuída a uma escola que atenda em período
de tempo integral refere-se principalmente ao desenvolvimento de habilidades
cognitivas e o acesso ao conhecimento aos seus filhos, o que possibilitaria a
ascensão a um bom futuro, principalmente relacionado a um bom emprego.
“Pra mudar a vida, né!? Ter uma profissão melhor. Eu tento explicar pra eles
assim [. . .] o que eu não consegui eu quero que eles consigam.” (Maria)
[. . .] pra educação dela, pro futuro dela. Eu interrompi meus estudos no segundo colegial
por motivos torto, assim que fala né? Não tinha motivo pra eu sai da escola, mas eu sai. E
hoje eu quero que ela estude, eu sei que ela é muito inteligente, precisa estuda. Eu sempre to
colocando na cabeça dela que é muito importante pro futuro dela, pra ela te um estudo. A
vida de todo mundo precisa [. . .] o fundamental que eu acho é a educação. [. . .] no estudo,
na educação, ela se forma. Cresce, vai se forma, te uma profissão. Vai se independente, não
vai fica dependendo de marido, de ninguém. Vai te o dinheiro dela. Toda mulher deveria se
independente e não precisa de marido né? De namorado e nem de ninguém. Te uma vida
profissional, no caso eu acho que a escola é o principal. (Silvia)
Além disso, a importância do tempo de permanência na escola surge
principalmente para que a criança não permaneça na rua ou mesmo em casa,
envolvida em atividades perigosas e menos importantes do que aquelas oferecidas
na escola.
[. . .] têm muitas mães que trabalha e se tivesse estudando meio período e indo embora, a
criança iria ficar na rua, não iam ficar fazendo nada, então aqui na escola, eles estudam meio
período e brincam o resto da tarde. Então eu acho que é atividade que eles estão fazendo,
não ta na rua...porque tem bastante criança perto da minha casa que não estuda, daí eu
fico olhando pra rua, estão na rua..soltando pipa, perigo né? Dentro da escola, está seguro.
(Cristina)
Os dados sugerem que, diante do discurso das entrevistadas, uma escola que
atenda em tempo integral é essencialmente valorizada enquanto um espaço
seguro para as crianças do que propriamente pela proposta de ensino e ampliação
curricular dos alunos, uma vez que alegam o desconhecimento destas. “[. . .]
porque eu não conheço o trabalho da escola.”(Lucia)
Essa visão corrobora a ideia de que a escola é considerada um local seguro
para a permanência dos filhos, uma vez que oferece atividades importantes para
o seu futuro em detrimento da rua e da casa, (Freitas, 2009) e ressalta a confiança
depositada na escola pela família no cuidado dos filhos, principalmente na
primeira infância (Birman, 2007).
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Além disso, ainda permanece o caráter atribuído à escola de retirada das
crianças do mundo da rua para proporcionar-lhes melhores condições, como
alimentação, segurança e ocupação do tempo com atividades pré-planejadas
(Freitas, 2009).
3.2 A função da escola para o desenvolvimento das crianças, de acordo
com as mães
A compreensão da relevância da escola para o contexto familiar atual fica mais
evidente quando se questiona a respeito do papel e função desempenhados por
ambas as instituições para o desenvolvimento da criança.
Na concepção das entrevistadas, a função desempenhada pela escola é
abrangente e transita por meio de diversas atribuições e em alguns aspectos vão
ao encontro da proposta de tempo integral de enriquecer o currículo dos alunos
com conteúdos formais e informações da educação. Porém, no momento em
que as mães atribuem à escola tais funções, isto pode significar o aumento da
confiança depositada na escola e o atravessamento do público sobre o privado
(Giddens, 2002).
Além das funções constituídas historicamente para a escola, como o
desenvolvimento de habilidades cognitivas e o conhecimento, as mães atribuem
à escola funções que poderiam ser compreendidas como específicas da família,
tais como oferecer carinho, paciência, amor e limites para os filhos, como meios
de facilitar o desenvolvimento da aprendizagem. “[. . .] desse bastante atenção,
amor pra ele. Paciência pra ele, pra ele pudesse consegui a entende ali as matéria
e a desenvolve na escola.” (Lucia)
[. . .] ah, ela é importante, o aprendizado mesmo. Aprende a ter limites porque muitas vezes
os pais não colocam limites em casa. Então vindo pra escola, eles sabem o que pode e o que
não pode faze, o que é certo e o que é errado. As vezes os pais não tem tempo também pra
ensina. Ela ta ensinando e as vezes não tem paciência pra ensina as matérias. Na escola eles
vão ensina tudo isso [. . .] mas a escola vai ser assim, aquele preenchimento que ela não tem
em casa, entendeu? (Silvia)
Cabe ressaltar que, de acordo com Oliveira e Marinho-Araújo (2010), os
progenitores são primordiais para orientar o desenvolvimento e aquisição de
comportamentos considerados adequados, considerando assim, padrões sociais
vigentes em uma cultura.
Foi possível notar na fala das mães que a escola deveria suprir aquilo que
consideram incapazes de oferecer aos seus filhos, devido à falta de tempo ou
então, à falta de conhecimento.
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PERSPECTIVA DOS PAIS
Porque a educação já vem lá da família e tem que completa na escola com o ensino, pro
futuro, porque essas coisa que a escola ensina, os estudo, tudo, o pai e a mãe já não sabe. A
não ser que o pai e mãe sejam bem estudado, porque igual assim, a gente, dona de casa não
tem como, você não tem a instrução toda pra levar pra dentro de casa, mas você sabe que
na escola tem. (Maria)
Bom, eu não consigo ensinar a ler no sistema de agora. Desde que a aula começou eu disse:
“não consigo”, porque eu aprendi de um jeito, eles começam com letra de forma. [. . .] então
não adianta. Porque você vai ensinar eles e eles não entende. Eu não entendo eles e eles não
me entende. (Lucia)
Além disso, nos discursos das mães entrevistadas, verifica-se a desqualificação
do saber da família em detrimento ao conhecimento científico atribuído à
escola, que passa a ocupar um lugar imprescindível na vida dessas famílias. Esse
dado aponta novamente para a excessiva confiança depositada pelas mães nessa
instituição, inclusive com relação às funções afetivas. Devido a isso, as mães
consideram de grande importância a permanência do filho numa escola em
tempo integral, em detrimento ao tempo parcial.
Desse modo, as mães atribuem diversas funções à escola, e demonstram
também a sensação de que não são tão capazes quanto a escola para promover
a educação de seus filhos. Tal fato pode associar-se ao baixo nível educacional
que possuem (que varia entre o ensino fundamental e médio incompletos) e à
valorização do conhecimento e do saber especialista, em detrimento do saber
familiar, necessário para que se possa educar um filho atualmente (Mariotto &
Schaedler, 2013).
3.3 A importância e o papel da família para o desenvolvimento das
crianças
Quando indagadas a respeito do papel exercido pela família, a concepção das
mães entrevistadas revela que tal função restringe-se à afetiva, ou seja, oferecer
carinho, apoio, participar das reuniões escolares e dialogar com os filhos,
principalmente com a finalidade de torna-los motivados e felizes. “Eu acho que
base familiar, é pai, mãe é tudo, com diálogo, carinho. [. . .] E também participar
da escola é importante pra animar a criança senão a criança perde o incentivo
também” ( Fatima). “A importância para a família é o carinho, a atenção, a base
[...]sempre acompanhar o filho na escola né? Ir na reunião, deixa a criança feliz.
Quando vai ter reunião, sempre meu filho me lembrando direto: ‘mãe, reunião
amanhã’, porque eu acho que ele tem vergonha deu não ir.” (Cristina)
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Tal fato aponta um paradoxo, pois a função afetiva é atribuída tanto à escola
como à família e aponta para o enfraquecimento do lugar parental verificado
por Rojas (2010), que demonstra a simetria ou mesmo a inversão na relação
estabelecida entre os pais e seus filhos, o que dificulta o desempenho da tarefa
de sustentação e apoio necessários para que os filhos possam sentir-se amparados
em seu desenvolvimento psíquico. É importante ressaltar que nenhuma das
entrevistadas apontou a função de interdição pulsional como responsabilidade
familiar. Ao contrário, o aspecto do limite foi igualmente atribuído à instituição
escolar. Essa questão pode se relacionar com o desamparo e sentimento de
desproteção dos filhos com relação às figuras parentais. Dessa forma, uma
hipótese é a de que a escola estaria ocupando inclusive o lugar de autoridade
para as crianças (Janin, 2011).
Além disso, o discurso apresentado nos leva a refletir o quanto a valorização
do saber técnico-científico divulgado para a educação de crianças não tem
colaborado para o esvaziamento verificado nas funções exercidas pela família.
Tal dado corrobora aqueles apresentados por Biasoli-Alves (2002); Gomes e
Zanetti (2011), no que diz respeito às transformações verificadas a respeito das
práticas de cuidado e educação dos filhos, no final do século XX. As atitudes
e as crenças a respeito da educação dos filhos estão cada vez mais dependentes
do conhecimento dos especialistas, tais como os pediatras, os professores
e os psicólogos. Pode-se verificar que através de todo o discurso das mães, a
centralização do desenvolvimento de seus filhos perpassa a importância da escola
e a concepção de que os pais não são tão capazes quanto a escola no que diz
respeito às necessidades dos filhos. Uma das justificativas para tal situação é de
que as mães não possuem o conhecimento necessário para educar seus filhos, ao
contrário da escola, que também seria a sede do conhecimento necessário para o
exercício de tal função.
As crianças passaram a receber muitas cobranças do mundo social para que
desenvolvam um bom comportamento e correspondam às expectativas sociais,
ou seja, um futuro promissor. Dessa forma, a educação dos filhos transformou-
se: exigir poucas regras é marcado como ideal, e o fundamento da educação
é oferecer independência, permitir a iniciativa do filho, fato que poderia nos
ajudar a compreender a concepção das entrevistadas de que caberia à família
oferecer afeto, carinho, apoio, sobretudo com o objetivo de motivar seus filhos
para atingir tal futuro promissor (Biasoli-Alves, 2002; Birman, 2007).
Com relação à posição da família frente ao desenvolvimento da criança, foi
perceptível que, apesar da maioria das mães possuírem um trabalho informal,
estas relatam falta de tempo para seus filhos, deixando a escola encarregada
de exercer algumas funções que poderiam ser atribuídas às próprias mães. Tal
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PERSPECTIVA DOS PAIS
posicionamento demonstra que manter o filho numa escola que atenda em
regime integral pode atender à demanda apresentadas pelas mães.
É possível perceber nos discursos que a posição desempenhada pela família
frente ao desenvolvimento das crianças, segundo as mães, sempre está ligada à
escola, ou seja, incentivar os filhos no estudo, dialogar com as crianças para que
estas prestem atenção nos conteúdos ensinados pela escola e ir à mesma para que
esta eduque efetivamente seus filhos. “[. . .] porque a família é tudo. Sem família
não tem como desenvolver. [. . .] ah, eu acho que a família tem que incentiva a
criança a estuda. Acho que é isso.” (Carmem)
Dando mais calma pra ele, mais tranquilidade, passando pra ele não os meus problema,
não as minhas inseguranças, não os meus medo, mas passando pra ele motivação: ‘Bruno,
vamo estuda, tudo é sacrifício, se você não se sacrifica você não vai consegui aprende. Você
tem que tê atenção porque se não você não vai consegui se desenvolve, filho. Tem hora pra
brinca, tem tempo pra todas as coisas. Na hora que você for estudá, é a hora que você tem
que estudá, depois vai te o tempo de você ir no recreio, conversa com seus amigo. Então
presta atenção na aula, no que a professora ta ali pra te ensiná’. Assim, eu motivo ele, eu falo
com ele, eu converso com ele, que ele tem que i na escola, quando ele fala que não quer ir
hoje, eu falo que ele tem que ir, porque é 5 dias na semana só, tem o final de semana pra
brinca e descansa. (Lucia)
No lugar da função de contenção, surge a necessidade de motivar os filhos
para os estudos, o que demonstra a mudança no lugar ocupado pelos pais, que
passam a ocupar um lugar secundário ao da escola, uma vez que sua principal
ação relaciona-se à preocupação com o desempenho e o desenvolvimento futuro
dos filhos.
Vale destacar que tal dado reafirma a importância da escolaridade e do
conhecimento no mundo atual, ou seja, um bom futuro se relaciona aos estudos
e ao saber especializado. Assim, pode-se supor que um dos motivos pelos quais
a força da escola seria preponderante ao da família está relacionado ao poder
atribuído ao conhecimento no mundo atual. Por isso, nessa pesquisa, fica
evidente o valor atribuído a essa instituição de ensino, principalmente quando
está atrelada à ampliação da jornada escolar.
Assim, os pais desempenham apenas o papel de mediador entre a criança e o
mundo, pois estes “oferecem instrumentos para a apropriação do conhecimento”
(Orsi, 2003) e com isso, a função em colocar limites e desempenhar a função
afetiva e de autoridade, além de ensinar habilidades psicofísicas até atingir a
maturidade adulta, deveriam ser desempenhados pela escola.
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4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por meio dos discursos apresentados nas entrevistas realizadas pode-se notar um
descompasso entre a função familiar e a escolar. Verifica-se que a família deposita
grande parte da expectativa e da responsabilidade sobre o desenvolvimento, tanto
cognitivo quanto emocional de seus filhos, na instituição escolar, alegando falta
de conhecimento e tempo para o desempenho de tais funções. Assim, concebem
que seus filhos deverão permanecer mais tempo na escola, local onde poderão
ter acesso a atividades úteis para seu futuro, apesar das mesmas mães alegarem
possuir poucas informações a respeito das atividades desenvolvidas na escola,
principalmente nesse novo modelo de escola com o regime integral. Dessa
forma, restaria à escola, por sua vez, incorporar e se responsabilizar por papeis
que anteriormente não era necessário desenvolver nesse âmbito institucional.
Os dados apresentados nessa pesquisa apontam que o aspecto mais relevante
para as mães entrevistadas é o fato de as crianças possuírem algum lugar
seguro e confiável para ficar. Para as mães, existe pouca diferenciação entre a
proposta ampliação da jornada escolar e o papel da escola. Tal fato é evidenciado
através da análise das falas das entrevistadas, na qual as mesmas só se referem
especificamente ao tempo integral em poucos momentos da entrevista, quando
citam a importância do tempo de permanência dos filhos na escola como um
local seguro e quando alegam desconhecimento sobre a proposta e atividades
implementadas na escola para atender a ampliação do tempo de permanência
na escola.
Por outro lado, prevalece a visão de que a rua, o brincar e mesmo as atividades
desenvolvidas na própria casa têm uma importância menor, se comparadas
àquelas oferecidas na escola. Ou seja, a importância do estudo e do acesso
ao conhecimento surge em detrimento do brincar livre e aparentemente
descompromissado com o aprendizado formal.
Os achados sugerem que as mães valorizam o aprendizado cognitivo de seus
filhos e tal aprendizado localiza-se na escola. Ao mesmo tempo, referem sua
incapacidade em oferecer os conhecimentos necessários para o desenvolvimento
de seus filhos. Tais dados refletem o enfraquecimento da família em detrimento do
fortalecimento das instituições e do saber científico para o desenvolvimento das
crianças na atualidade (Gomes & Zanetti, 2011). Assim, segundo Birman (2007),
existiria um processo no qual se exige das escolas funções que anteriormente eram
da família e a instituição escolar reluta em cumprir esses novos papeis destinados
a ela, pois tal fato modificaria inteiramente sua estrutura e concepção. Assim,
as creches e as escolas de ensino fundamental estariam cumprindo, em parte, o
desenvolvimento de socialização primária das crianças, papel anteriormente de
exclusividade da família.
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DESENVOLVIMENTO DAS CRIANÇAS: UM OLHAR SOBRE O PAPEL DA FAMÍLIA E O PAPEL DA ESCOLA NA
PERSPECTIVA DOS PAIS
É possível compreender que as concepções apresentadas pelas mães
entrevistadas representam as dificuldades vivenciadas pelas famílias em oferecer a
educação e o apoio necessários ao desenvolvimento de seus filhos, em decorrência
de todo o cenário de transformações e mudanças apresentado anteriormente. As
famílias depositam confiança e a responsabilidade pela educação de seus filhos
no conhecimento especializado, nesse caso, na escola e apontam para dúvidas
e questionamentos sobre a própria capacidade para educar sua prole, alegando
falta de conhecimento, o que reflete que, na concepção das mães, é necessário
conhecimento científico e especializado para realizar a tarefa de educação dos
filhos (Janin, 2011).
Os resultados obtidos nessa pesquisa apontam que o fortalecimento da escola
é o aspecto mais relevante para as mães entrevistadas. E é importante salientar
que nos discursos analisados, a relevância recai sobre o papel da escola, sendo
que a ampliação do tempo de permanência e seus objetivos são desconhecidos
e pouco diferenciados. Ou seja, são incorporados como mais um dos papéis
desempenhados pela instituição escolar em detrimento de um concomitante
estreitamento nas funções desempenhadas pela família.
Desse modo, permanece a necessidade da psicologia e da própria escola
repensarem seu posicionamento e o tipo de trabalho a ser desenvolvido, seja com
as crianças e/ou suas famílias, diante dos dados verificados na presente pesquisa.
Seria importante a reflexão a respeito das formas de relação estabelecidas entre
as instituições para o cumprimento das devidas funções no desenvolvimento
das crianças, ressaltando a necessidade em repensar as funções que deveriam ser
desempenhadas por cada uma, no sentido do fortalecimento e da colaboração
mútua entre tais instâncias e não o fortalecimento de uma em detrimento da
outra, como é perceptível neste trabalho.
Além disso, cabe apontar a importância do desenvolvimento de outras pesquisas
que possam contribuir para a compreensão de tal situação, uma vez que, apesar de
todas as transformações ocorridas, ainda não foi possível encontrar novas formas
de relações entre a família e escola que colaborem para o fortalecimento e o
enriquecimento de todos os atores/sujeitos envolvidos nesse processo. Sobretudo,
compreender as necessidades de pais, crianças e escola é imprescindível para que
se possa oferecer um ambiente que colabore, de fato, com o desenvolvimento
integral das crianças envolvidas nesse processo. Os dados da presente pesquisa
demonstram o fortalecimento das instituições apontado por Giddens (1991) que
descreve sobre a aproximação às características de confiabilidade relacionadas, ou
até mesmo confundidas, com amizade e intimidade e a relação de dependência
verificada na família, que parece fragilizar cada vez mais seu papel e função.
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Article
Full-text available
O artigo estuda a importância do direito à educação escolar, que, mais do que uma exigência contemporânea ligada aos processos produtivos e de inserção profissional, responde a valores da cidadania social e política. Buscam-se no processo histórico da modernidade, no acervo doutrinário e no conjunto normativo, inclusive internacional, as bases desses valores.The article studies the importance of the right to a school education, which is viewed as something beyond the contemporary demand linked to the processes of production and professional inclusion, as a response to the values of social and political citizenship. It seeks the bases for these values in the historical process of modernity, in the national and international norms and legislations.
Article
The phenomenon of the "weakening of parental role" is related to difficulties that parents have in educating their children, nowadays, due to insecurity and doubts in the exercise of their functions. This article aims to show the determinants of this phenomenon and its consequences for the contemporary family. The historical, sociocultural and economic aspects of this phenomenon were covered, as well as, from a psychoanalytic referential, rather Freudian and Winnicottian, the consequences of that were raised for the construction of child development. Thus, it appears that this phenomenon is articulated with the changes in the child's role in the family, with the development of "specialized science", with the "culture of narcissism" and, finally, that children exposed to this phenomenon may develop themselves in a environment of excessive freedom, which may be harmful.
Article
Este trabalho se caracteriza como uma pesquisa que teve o objetivo de investigar as características da família contemporânea, decorrentes do rápido avanço tecnológico, científico e das transformações histórico-sociais, e analisar seus reflexos na dinâmica das relações familiares, no modo de educar os filhos e na aprendizagem escolar. A família de classe média, tomada como foco de análise, foi considerada um sistema de vínculos afetivos, em constante transformação, onde ocorre o processo de humanização, construção da subjetividade e de formação básica para a aprendizagem. A idéia central é analisar a função dos pais na sociedade contemporânea como mediadora entre a criança e o mundo, no processo de apropriação de conhecimento. O adulto é considerado por Vigotsky (1988) como um mediador no processo de desenvolvimento da criança e oferece instrumentos para a apropriação do conhecimento. Porém, a internalização dos recursos disponíveis no ambiente, ocorre de forma individual, variando de uma criança para outra. Tal conceito também pode ser verificado nos pressupostos psicanalíticos a partir das idéias de Winnicott (1997), que considera a família como componente indispensável a boa estruturação psicológica da criança. Porém, o autor lembra que a existência da família por si só, não assegura o desenvolvimento saudável da criança, uma vez que ela é também influenciada por fatores intrínsecos, que determinarão em grande parte a maneira como se apropriará dos recursos disponíveis. Vigotsky (1988) ao considerar a aprendizagem como profundamente social, afirma que quando os pais ajudam e orientam a criança desde o início de sua vida, dão a ela uma atenção social mediada, e assim desenvolvem um tipo de atenção voluntária e mais independente, que ela utilizará na classificação e organização de seu ambiente. Tal consideração se baseia no fundamento de que o homem torna-se humano, apropriando-se da humanidade produzida historicamente. O ensino tem, nesse contexto, a função de transmitir as experiências histórico-sociais que se modificam no decorrer dos tempos.
Article
A escola de tempo integral, como modelo para a educação de ensino fundamental, já está consolidada em vários países. No Brasil, existe um breve histórico de experiências desse tipo, mas, recentemente, algumas se vêm consolidando e abrindo novas perspectivas para ampliar as concepções, até então vi-gentes, sobre a instituição escola e sobre o currículo nela praticado. No Estado de São Paulo, inicia-se, em 2006, o programa de inclusão das primeiras unidades da rede pública numa proposta desse tipo. Com essa iniciativa, aparecem novos desafios, do ponto de vista estrutural e material, de concepção curricular e de formação docente. Neste artigo, pretende-se apresentar as bases do novo modelo pau-lista, destacando alguns dos desafios presentemente postos às escolas e aos organismos públicos, que passarão a enfrentá-los. Palavras-chave: Currículo. Educação integral. Ensino Fundamental. Formação de professores.
Diagnóstico e tratamento das relações familiares
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