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Os Tambores Silenciosos: a tríplice mimese, a relação autor/texto/leitor, ficção e a realidade no jogo da intriga literária

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Abstract and Figures

Desde o tempo de Aristóteles, o homem procura a compreensão dos textos e das obras de arte. Nesse âmbito, observa-se que a temática literária tem gerado interesse de filósofos que se dedicam a desvendar o propósito da literatura no mundo. A partir desse contexto e com o objetivo de demonstrar como a representação mimética, por meio de sua narrativa, promove a convergência da mimese I, da mimese II e da mimese III, analisa-se a obra Os Tambores Silenciosos1. Como marco teórico, procura-se apoio na perspectiva da tríplice mimese de Paul Ricœur (1994) e nos postulados de Wolfgang Iser (2007) que conduzem ao entendimento do texto como um jogo entre o autor e o leitor. O corpus de pesquisa corresponde ao já citado romance Os Tambores Silenciosos, de Josué Guimarães. A análise direciona à percepção da mimese como uma representação da história, ao estabelecer, no jogo da encenação textual literária, “a intriga”2 dentro de uma linha temporal em que se integram a relação autor/texto/leitor, ficção e realidade.
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Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo, v. 14, n. 2, p. 317-331, maio/ago. 2018
Os Tambores Silenciosos: a tríplice
mimese, a relação autor/texto/
leitor, cção e a realidade no jogo
da intriga literária
Eliane Davila dos Santos*
Juracy Ignez Assmann Saraiva**
Ernani Cesar de Freitas***
Resumo
* Doutoranda e Mestre em Processos e Manifestações
Culturais pela Universidade Feevale (2015); Especialis-
ta em Gestão de Serviços pela Unisinos (2003); Gestão
de Pessoas pela Unisinos (2001) e Administradora de
Empresas pela Feevale (1997). Bolsista de doutorado
pela Prosup/Capes em Processos e Manifestações
Culturais na Universidade Feevale, dedicando-se às
pesquisas da linguagem, comunicação e análise do
discurso. E-mail: elianedavila@yahoo.com
** Doutora em Teoria Literária pela Pontifícia Universida-
de Católica do Rio Grande do Sul e realizou Pós-douto-
rado em Teoria da Literatura pela Unicamp, professora
e pesquisadora da Universidade Feevale, onde coordena
o Programa de Pós-Graduação em Processos e Mani-
festações Culturais. É pesquisadora em produtividade
do CNPq. E-mail: jurazy@feevale.br
*** Doutor em Letras, área de concentração Linguística
Aplicada (PUCRS/2006) com pós-doutoramento em
Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem - PU-
C-SP/LAEL (2011); Mestre em Linguística Aplicada
pela (Unisinos/2002). Graduado em Letras - Português/
Inglês e respectivas Literaturas, pelo Centro Uni-
versitário La Salle (1999). Membro da Associação de
Linguística Aplicada do Brasil (ALAB), da Asociación
Latinoamericana de Estudios del Discurso (ALED).
E-mail: ernanic@feevale.br
Data de submissão: abr. 2018 – Data de aceite: jun. 2018
http://dx.doi.org/10.5335/rdes.v14i2.8071
A literatura tem gerado interesse de
estudiosos, desde Aristóteles (1966),
os quais se dedicam a desvendar sua
relação com o real e sua finalidade.
A partir desse ângulo/contexto e com
o objetivo de demonstrar como a re-
presentação mimética, por meio da
narrativa, promove a convergência da
mimese I, da mimese II e da mimese
III, analisa-se a obra Os Tambores Si-
lenciosos1. Como marco teórico, procu-
ra-se apoio na perspectiva da tríplice
mimese de Paul Ricœur (1994) e nos
postulados de Wolfgang Iser (2007)
que conduzem ao entendimento do
texto como um jogo entre o autor e o
leitor. A análise direciona à percepção
da mimese como uma representação
da história, ao estabelecer, no jogo da
encenação textual, a intriga em uma
linha temporal, em que se integram
a relação autor/texto/leitor, ficção e
realidade.
Palavras chave: Representação. Trípli-
ce mimese. Jogo do texto. Literatura.
História.
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Introdução
Estudos das obras literárias têm pro-
movido diversas reflexões sobre as possi-
bilidades de diálogo entre autor, texto e
leitor e sobre o modo como os discursos
literários inter-relacionam a instância
da produção e a da recepção. Parale-
lamente, os pesquisadores investem,
também, na elucidação de recursos que
instalam a complexidade da linguagem
como expressão da arte verbal, sendo
valorizada a materialidade discursiva
da obra literária, com o intuito de com-
preender o processo do “fazer” criativo do
texto e de sua leitura. A relevância deste
estudo, que se alicerça na perspectiva
enunciativa, justifica-se pelo caráter
interdisciplinar adotado, que estabelece
correlações entre literatura e história,
além de discutir a encenação do texto
literário como um processo que transpõe
as fronteiras do real e do ficcional.
A questão norteadora da análise evi-
dencia que a representação mimética na
obra Os Tambores Silenciosos denuncia,
por meio da narrativa, fatos históricos
brasileiros, ligando-os à realidade do
leitor. Assim, analisa-se a narrativa
de Josué Guimarães com o objetivo de
demonstrar como sua representação
mimética promove a convergência da
mimese I, da mimese II e da mimese III.
Como marco teórico, procura-se apoio
na perspectiva da tríplice mimese de
Ricœur (1994) e nos postulados de Iser
(2007), que conduzem ao entendimento
do texto como um jogo textual entre au-
tor e leitor. O motivo da escolha do corpus
de pesquisa deve-se à materialidade
discursiva que possibilita a compreen-
são do objetivo proposto. Para melhor
organização do estudo, as seções estão
assim dispostas: primeiramente, trata-se
das questões relativas à tríplice mimese.
Na segunda seção, mencionam-se as
questões sobre o texto como um jogo.
Segue-se com as questões metodológicas
e, em seguida, com a seção de análise e
resultados. Ao final, faz-se uma seção de
considerações finais.
A ampliação do conceito
de mimese: o percurso
do arco mimético na
literatura
[...] o tempo torna-se o tempo humano na
medida em que é articulado de um modo
narrativo, e que a narrativa atinge seu ple-
no significado quando se torna uma condição
da existência temporal (RICŒUR, 1994,
p. 85).
Em sua acepção de narrativa, Ricœur
(1994) retoma princípios da poética aris-
totélica, a que conjuga reflexões de Santo
Agostinho sobre o tempo, e estabelece ar-
ticulações entre os conceitos de mimese3
e mythos4 de Aristóteles (1966). A intro-
dução da perspectiva de Santo Agostinho
(1996) às questões da poética aristotélica
evidencia a preocupação com o tempo
da narrativa. “Seguimos, pois o destino
de um tempo prefigurado em um tempo
refigurado, pela mediação de um tempo
configurado” (RICŒUR, 1994, p. 87).
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Assim, para Agostinho constituem-se
três tempos no tempo presente: a) um
presente que recupera o passado; b)
o presente que projeta o futuro; c) o
presente que já não é. Realça-se, dessa
forma, que o conceito de mimese propõe
uma expansão da concepção textual
que abarca o transpassamento social. O
texto, ou seja, a configuração da intriga,
seria uma espécie de ponte entre um “[...]
mundo prefigurado, que fornece inteligi-
bilidade para o reconhecimento da nar-
rativa, e a própria reconfiguração desse
mundo prefigurado por intermédio das
práticas de interpretação que transfor-
mam o texto e, assim, servem à própria
ampliação dos significados partilhados
que demarcam uma realidade” (CAR-
VALHO; SANT’ANA, 2013, p. 227-238).
A partir daí, destaca-se o pressupos-
to de que a existência da inter-relação
entre o tempo, a narrativa e a mimese
apresenta-se como representação do
processo criativo da produção e da recep-
ção e se divide em três tempos: mimese
I, mundo pré-configurado ou tempo do
autor, mimese II, mundo configurado ou
tempo do texto, e a mimese III mundo
reconfigurado ou tempo do leitor. Con-
sequentemente, a função da mimese I
não é somente “[...] representar a ação,
é primeiro pré-compreender o que ocorre
com o agir humano, com sua semântica,
com sua simbólica, com sua temporali-
dade” (RICŒUR, 1994, p. 101).
A mimese I se constitui na represen-
tação da ação. Imitar ou representar
é pré-compreender como ocorre o agir
humano. O autor, nesse caso, deve co-
nhecer o homem em suas manifestações
semânticas, em seus simbolismos (o que
transcende a compreensão da ação) e em
sua temporalidade para que a tessitura
da intriga seja costurada. O modo como
a história se constitui sugere ao leitor
a compreensão da significação do texto.
Portanto, a pré-compreensão do mundo
da narrativa é concebida a partir da ação
em geral e de seus traços estruturais,
levando-se em consideração os fins, os
agentes, as motivações das circunstân-
cias, as interações e os resultados da
construção da trama discursiva (RI-
CŒUR, 1994).
Na sequência, as afirmações sobre a
mimese II abarcam reflexões sobre um
mundo que poderia ser – reino do “como
se” – cuja função é a mediação entre os
acontecimentos ou episódios individuais
em uma história; mediação entre os
fatores heterogêneos que compõem a
intriga; a mediação entre os caracteres
temporais. Pode-se dizer que a mimese
II evidencia uma relação cultural que é
depreendida como inteligibilidade. “A
criatividade do artista, neste sentido,
não é original, ou seja, ele não é o ponto
de origem da criação de sentidos, mas
antes pode ser considerado um manipu-
lador de significados culturais” (CARVA-
LHO; SANT’ANA, 2013, p. 241). O ato
configurante, ou seja, o texto, transfor-
ma-se na sucessão de acontecimentos,
em uma totalidade significante, isto é,
na configuração da mimese II, em que o
leitor aprende a “ler o próprio tempo às
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avessas” (RICŒUR, 1994, p. 106). Além
disso, o ato configurante expressa traços
de esquematização e de tradicionalismo
da literatura, os quais evidenciam que
a tradição e a inovação se conjugam na
intriga.
O desenrolar da mimese III aponta
para a ação do leitor que faz o reestabele-
cimento do tempo e do agir da narrativa.
O cruzamento entre o mundo textual e
o mundo do leitor oportuniza a recon-
figuração do mundo pré-configurado,
visto que a leitura não acontece descon-
textualizada da cultura e de horizontes
simbólicos. O ato de ler, de interpretar,
em um modelo espiral, permite que cada
vez que o leitor lê um texto, uma nova
atitude seja evocada. A leitura, nesse
sentido, não é um ato passivo em que
o leitor se torna um mero receptor da
trilha da intriga, pois, nesse processo, o
leitor apoia-se em sua experiência5 para
reconstruir o texto que lê.
Existe certo consenso entre a pers-
pectiva de Ricœur (1994) e os postulados
bakhtinianos6, que revelam que “o signo
não requer uma mera identificação, já
que estabelece uma relação dialógica que
comporta uma tomada de posição, uma
atitude responsiva7” (PONZIO, 2008,
p. 190). Esse posicionamento permite
compreender a complexidade da comu-
nicação, visto que demanda um parceiro,
um Outro8, que não é simplesmente um
sujeito passivo na enunciação. A cons-
trução de sentido, com base no signo
ideológico, é relacionada à alteridade,
ao dialogismo e à carga de valores que
os sujeitos trazem consigo. Assim sendo,
a proposta mimética “[...] não descreve
um círculo, ou seja, não há um retorno
ao mesmo ponto de partida, mas projeta
uma espiral, visto que a configuração
desloca o mundo prefigurado e a leitura
desloca a configuração, reconfiguran-
do o mundo da ação” (CARVALHO;
SANT’ANA, 2013, p. 246).
A leitura, a partir de um mundo
configurado, promove a transposição
desse, ou seja, a leitura desloca o mundo
textual, reconfigurando-o. O texto con-
verte-se em significação na instância da
interpretação, isto é, no nível da recep-
ção, e o leitor se situa em um horizonte
projetado e, nesse sentido, “o ouvinte ou
o leitor recebe segundo sua própria capa-
cidade de acolhimento que, também ela,
define-se por uma situação ao mesmo
tempo limitada e aberta a um horizonte
de mundo” (RICŒUR, 1994, p. 117). Há
um elo que permite transformar o texto
fictício em práticas sociais. “Os texto
fictícios são responsáveis por ampliar
as possibilidades de significar, entender
e agir em uma realidade específica.”
(CARVALHO; SANT’ANA, 2013, p. 245).
Ocorre uma ampliação dos horizonte de
existência do leitor, pois, quando lê, ele
se vê em um mundo em que poderia se
projetar. Observa-se, também, que as in-
fluências entre a ficção e a historiografia
comprovam a existência de referências
cruzadas, quer dizer, os textos levantam
os fatos históricos na narrativa e os co-
nectam ao mundo real do leitor.
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Assim, na próxima seção, destaca-se
o texto como uma proposta de jogo que
provoca a interação entre o autor, o texto
e o leitor e evidencia a orientação das
expectativas do leitor pelos paradigmas
recebidos e seu protagonismo no jogo do
texto.
O jogo encenado:
o desao textual de
transpor as fronteiras
do ccional e do real
O conceito de jogo, para explicar a
relação autor, texto e leitor nas narra-
tivas literárias tem sido profícuo para
teorias que se valem de pressupostos
que vão além dos pressupostos tradicio-
nais de representação como referência
a uma realidade pré-datada, segundo
Iser (2007). No mundo moderno, cujos
sistemas são abertos, a representação
decai e o prisma performativo assume
o primeiro plano textual. Trata-se de
captar um mundo inteligível e de criar
um mundo possível (ISER, 2007). É
necessário pontuar que a narrativa, sob
o ponto de vista discursivo, compreende
o autor, o texto e o leitor. A narrativa “é
o produto de ato interenunciativo, por
intermédio do qual se institui a repre-
sentação do real do texto, encenada por
personagens situados e tempo e espaço
determinados.” (SARAIVA, 2009, p. 25).
O jogo, nessa concepção, é um processo
dinâmico e inter-relacional em que “os
autores jogam com os leitores e o texto é
o campo do jogo.” (ISER, 2007, p.107). A
concepção do texto ficcional, nesse caso, é
concebida não como uma realidade, mas
como se fosse a realidade ou, de outro
modo, um mundo encenado.
O sentido do texto se constitui a partir
dos movimentos e contramovimentos
realizados no jogo textual. Sob o prisma
de Iser (2007), a significação do texto é
um suplemento9 gerado pelo jogo, cuja
produção vai se construindo pelos de-
sempenhos diferentes dos receptores.
O suplemento, portanto, é gerado na
tensão entre o estabelecimento de sen-
tido e a liberdade do jogo, que exige a
manutenção da pluralidade de sentido.
Igualmente, pode-se dizer que a palavra
isolada não direciona para o que ela
exatamente significa, pois “o que está
implícito nas palavras depende de outras
palavras, das condições em que foram
enunciadas, de sua enunciação. É na
situação de enunciação que as palavras
revelam os pensamentos, as opiniões e as
estratégias daquele que as emite.” (CHA-
RAUDEAU, 2016, p. 21). A plurivalência
dos signos é que determina o caráter
dinâmico das significações, dado que as
muitas apreciações sociais se embatem
e se enfrentam na mesma matéria e no
próprio signo. O ato de enunciar pode,
dependendo da orientação em que é
abordado, ser heterogêneo, revelando o
processo de significação aberto e infinito.
Define-se que, em nível estrutural
textual, o significante fraturado10 “[...] in-
voca alguma coisa que não é pré-datada
pelo texto, mas engendrada por ele, que
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habilita o leitor a dotá-lo de uma forma
tangível.” (ISER, 2007, p.110). O autor
utiliza-se, dessa forma, de níveis extra-
textuais. Todo o processo de criação tex-
tual é uma transgressão àquilo que está
instituído no texto. Tais princípios não
negam a presença do mundo exterior,
mas reconhecem que essa representação
performática sempre será um desvio
daquilo a que remete. O significante
denota algo mais e, simultaneamente,
ao conotar, transforma o que é denotado.
Outro ponto a ser considerado no jogo
textual é a intertextualidade11, visto que
todo texto é um mosaico de citações em
que o autor propõe conexões dialógicas.
Para interpretá-las e compreendê-las,
o leitor precisa ter conhecimento e ca-
pacidade de interpretação, visto que o
texto é a absorção e transformação de
outros textos (SAMOYAULT, 2008) e
os enunciados literários estão repletos
de palavras de outros. “As palavras dos
outros introduzem sua própria expressi-
vidade, seu tom valorativo, que assimi-
lamos, reestruturamos, modificamos.”
(BAKHTIN, 2000, p. 314). Em alguns
textos literários, utiliza-se a intertex-
tualidade como um recurso, uma estra-
tégia relevante que permite estabelecer
correlações entre o mundo ficcional e
o real, por meio de denúncias de fatos
históricos, que podem ser ligados com a
realidade do leitor. É pertinente comen-
tar que é o leitor, diante do texto, que
vai relacionar as informações textuais
ficcionais com seu espaço e seu tempo.
Além disso, “sempre há um elemento
no papel do jogo que escapa do domínio
do jogador” (ISER, 2002, p. 114). Assim
sendo, o jogo pode ser realizado seja para
amplificar, seja para delimitar o grau de
incontrolabilidade.
O jogo encenado no texto não é um es-
petáculo em que o leitor é visto como um
receptor, mas como um acontecimento
com o qual o leitor interage. O jogo ofere-
ce ao leitor três modos de jogar: a) o modo
semântico: busca da compreensão e sen-
tido no texto; b) o modo da experiência:
abertura para o que não é familiar; c) o
modo do prazer: a busca do deleite. Jogar
o jogo do texto, portanto, é transpor as
fronteiras da encenação, para evidenciar
a maneira de compor essa encenação e o
alcance do “outro” pelo leitor.
Rotas de os Tambores
silenciosos
A escolha da obra (corpus)12 deu-se em
função da materialidade discursiva, visto
que promove reflexões sobre a represen-
tação mimética por meio da narrativa,
trazendo uma denúncia sobre aconteci-
mentos da história do Brasil, que podem
interligar-se com a realidade do leitor.
Seguindo o aporte teórico do estudo, or-
ganizam-se as categorias apresentadas
na Figura 1, que concebem o dispositivo
que referencia a análise do corpus.
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Figura 1 – Dispositivo epistemológico de análise
Fonte: Elaborado pelos autores
Começando pelo dispositivo epistemo-
lógico mostrado na Figura 1, criam-se
categorias para a análise da obra Os
Tambores Silenciosos de Josué de Gui-
marães.
a) A tríplice mimese: a categoria teórica
evidencia a ampliação do conceito de
representação mimética e dá relevo à
inter-relação autor, texto e leitor na
intriga literária. No conceito de mime-
se há um desdobramento significativo
proposto pelos postulados teóricos de
Ricœur (1994), que a configura em
Mimese I, Mimese II e Mimese III.
b) O jogo do texto encenado: a categoria
apresenta conceitos que refletem
sobre o texto literário como um jogo
de encenações, cujo suplemento13
apresenta um significado fratura-
do14 e cujas estratégias auxiliam na
construção de sentido pelo leitor.
Alicerça-se essa categoria teórica nos
fundamentos teóricos de Iser (2002).
A categoria aponta para a determina-
ção de que o leitor transpõe as frontei-
ras entre o ficcional e o real e, dessa
forma, oportuniza a compreensão da
literatura como forma de entendimen-
to de si mesmo.
O estudo está organizado da seguinte
maneira: apresenta-se a obra literária
Os Tambores Silenciosos. Logo após,
identifica-se a análise de resultados me-
diante as categorias teóricas: a) A tríplice
mimese e b) O jogo do texto encenado. No
final, apresentam-se as considerações
finais do estudo.
Os tambores silenciosos: a
trilha do texto
Por nos conceder ter a ausência como pre-
sença, o jogo se converte em um meio pelo
qual podemos nos estender a nós mesmos.
Essa extensão é um traço básico e sempre
fascinante da literatura. Inevitavelmente,
se põe a questão por que dela necessitamos.
A resposta a esta pergunta poderia ser o
ponto de partida para uma antropologia
literária (ISER, 2007, p. 118).
A obra Os Tambores Silenciosos foi
escrita em 1975, porém, publicada por
Josué Guimarães em 1977. O romance
recebeu o Prêmio Érico Veríssimo de
Romances, oferecido pela Editora Globo,
no ano de sua publicação.
O autor constrói sua narrativa sobre
a cidade imaginária de Lagoa Branca,
próxima a Passo Fundo, situando-a nos
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sete primeiros dias de setembro de 1936.
O texto revela as práticas cotidianas
dessa pequena cidade fictícia do interior
do Rio Grande do Sul, em uma época que
antecipava o estabelecimento do Estado
Novo15 por Getúlio Vargas.
A intriga desenvolve-se em torno do
coronel João Cândido, que tem o desejo
de construir uma comunidade ideal.
Além de proibir aos cidadãos o acesso
à comunicação externa à cidade, inicia
uma série de atos violentos com o apoio
da polícia local, os quais vão desde a coça
de estudantes à exterminação de indi-
gentes da cidade. O pânico toma conta
de Lagoa Branca quando pássaros de
tecido, (feitos em segredo por Maria da
Glória, a mais jovem das sete irmãs da
família Pilar, se espalham pela cidade).
Essa personagem é cega, mas parece
ser a única que enxerga as atrocidades
comandadas pelo prefeito de Lagoa
Branca. O esclarecimento das mentiras,
que existem na cidade, expõe o caráter
de delação da obra, uma vez que os men-
cionados pássaros negros, a sequência
de boicotes e acusações evidenciam a
vulnerabilidade dos políticos e conduzem
à derrota de seus projetos, enquanto o
prefeito se suicida. A história é apresen-
tada por um narrador heterodiegético, a
partir da percepção das irmãs solteiro-
nas da família Pilar, que, utilizando-se
de um binóculo, possibilitam ao leitor
contemplar o desenrolar das ações no
espaço de Lagoa Branca.
Após a apresentação de Os Tambo-
res Silenciosos, inicia-se a análise da
primeira categoria eleita, na busca do
cumprimento do objetivo deste artigo:
a) A tríplice mimese: a acepção de mi-
mese de Ricœur (1994) orienta a análise
dessa categoria. Os Tambores Silencio-
sos sugere abranger o tempo da intriga
apoiado nas três mimeses propostas
pelo autor. Primeiramente, percebe-se
o tempo pré-configurado, isto é, o tempo
do autor na narrativa. A compreensão
da mimese I alicerça-se na decisão de
autor de apresentar a narrativa a partir
de eventos ocorridos no Brasil, no ano
de 1936. As personagens da intriga são
pré-configuradas como homens medío-
cres, dominados pela ganância, mulheres
infiéis e policiais impiedosos. A trama
representa os dramas e as dificuldades
do povo diante da política autoritária dos
governantes.
O contexto social da época da juven-
tude do autor, fortemente marcado pela
ditadura brasileira, leva-o a transferir e
refletir sobre sua experiência no texto. O
processo transforma a realidade em uma
obra de arte. Toma-se, como exemplo, a
personagem do prefeito de Lagoa Bran-
ca, o coronel João Cândido. Ancorado em
códigos culturais e simbólicos do contexto
histórico ditatorial, o autor fornece as
regras para que o leitor se aproxime
da obra e possivelmente compreenda a
realidade que a precede e passe a refletir
sobre ela. Cabe lembrar que o autor se
utiliza das irmãs Pilar, para preconizar
a maior parte dos fatos que ocorrem na
história: por meio do binóculo das irmãs,
a trama é tecida. É importante ressaltar
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que o olhar das mulheres vai até onde o
binóculo pode alcançar. Sem o binóculo,
as personagens teriam pouco a dizer. O
autor, além das irmãs Pilar, dispõe de
um narrador em terceira pessoa, que
situa o romance em um tempo e espaço,
à primeira vista, afastado da contempo-
raneidade. As estratégias por ele utili-
zadas denunciam um cenário opressor
e autoritário, de que o autor se serve
para interligar o momento ditatorial
por ele vivido com o do texto ficcional,
conjugando a época do Estado Novo e a
Ditadura de 1964.
O Estado novo foi um regime dita-
torial, que se instalou sob o comando
de Getúlio Vargas, que se estendeu de
1937 a 1945 e foi marcado pela censura,
pelo autoritarismo e pela centralização
do poder. Semelhante ao Estado Novo,
a Ditadura Militar que se estendeu de
1964 a 1985, também foi um regime
totalitário que, durante seus 21 anos,
impôs restrições à imprensa e aos opo-
sitores que fossem contrários ao regime
vigente. Portanto, no texto, ao represen-
tar ficcionalmente a ditadura, o escritor
transpõe o momento histórico do Estado
Novo, que, entretanto, se expande para
introduzir a reflexão sobre a Ditadura
Militar de 1964, momento da produção
do texto e de sua recepção inicial, como
se comprova pela premiação da obra.
Seguindo o esquema da mimesis de
Ricœur (1994), a mimese II é entendida
como reino do “como se”. Os Tambores
Silenciosos tornam-se, na mimese II, o
texto, ou seja, a própria produção poética
do autor. Compreendidas as intenções
pactuadas na mimese I, o leitor encon-
tra, na mimese II, o processo de criação
do autor concretizado. No romance, a
história acontece em um tempo e espa-
ço definidos: a intriga se desenrola nos
sete primeiros dias do mês de setembro
de 1936, na cidade de Lagoa Branca, no
Rio Grande do Sul. A atitude ditatorial
do prefeito, ao proibir a circulação de
jornais e dos rádios na cidade, impôs
novas diretrizes aos pacatos costumes
da cidade interiorana. Os preparativos,
que são feitos para a celebração do sete
de setembro, que servem apenas à reali-
zação pessoal do prefeito, deixam pistas
ao leitor sobre os acontecimentos da
história. Embora o romance Os Tambores
Silenciosos tenha um tempo cronológico
linear, a produção poética permite ao
leitor ler o tempo às avessas, visto que o
texto torna-se ato configurante, ou seja,
possibilita que o leitor siga a narrativa,
recuperando seus acontecimentos.
A história desnuda os hábitos dos
moradores da cidade e seus comporta-
mentos: polícia corrupta, mulheres in-
fiéis e personagens como as irmãs Pilar,
que bisbilhotam a vida alheia por meio
de um binóculo. A única das sete irmãs
que destoa é a mais moça e, somente,
no final da história, fica-se sabendo que
é cega e que fora ela que construíra os
pássaros de tecido que povoam a cidade,
pressagiando algo de mau para seus
habitantes. À proporção que as aves
de tecido ocupam a cidade, o governo
do município torna-se mais coercitivo.
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Mendigos são retirados da cidade e
mortos. A população, em resistência aos
processos tirânicos do governo, alertada
pelos jovens, não comparece aos festejos
de sete de setembro. Depois de saberem
que era o próprio prefeito que censurava
toda comunicação com outras cidades,
as vítimas da repressão são libertadas
da prisão. Ao final, a irmã Pilar cega,
morre. Além disso, o prefeito suicida-se,
em meio a uma chuva torrencial, no
centro da cidade. A mimese II, portanto,
configura-se como uma ponte que se abre
para o leitor, isto é, a mimese III.
Na mimese III, o leitor faz o reestabe-
lecimento do tempo e do agir da narrati-
va (RICŒUR, 1994). Assim, como instân-
cia da recepção, o leitor exerce a função
interpretativa com a obra Os Tambores
Silenciosos, fazendo a intersecção entre
o mundo do texto e seu mundo. O fato
de as personagens não terem acesso a
jornais e outros meios de comunicação,
como rádio, assim como o extermínio dos
mendigos da cidade, dão pistas sobre
o período da Ditadura, quando Josué
Guimarães escreveu o livro, instaurando
reflexões sobre esse momento, historica-
mente demarcado.
Na mimese III, o leitor faz a recons-
tituição do tempo e do agir das perso-
nagens da pequena cidade de Lagoa
Branca. O processo interpretativo do
leitor parte da verossimilhança que o
autor constrói na narrativa: as ações
do prefeito autoritário, os conchavos
entre os políticos e a polícia da cidade,
a censura velada, o povo amedrontado,
os jovens punidos, enfim, são elementos
que permitem a recomposição do texto a
partir da experiência do leitor.
A narrativa Os Tambores Silenciosos
promove a conscientização do leitor so-
bre a ditadura. O autor, no momento da
construção textual, precisava camuflar,
nas ações das personagens, o que real-
mente queria dizer, pois corria o risco
de ter o livro censurado ou até mesmo
de ser preso. Entretanto, quem lê o li-
vro percebe que ele foi uma estratégia
do autor para presentificar o momento
histórico. As analogias apresentadas no
texto, como a personagem cega, os pás-
saros que ela produz, a cidade perfeita
são pistas do autor que se relacionam à
presentificação do real, concebida pelo
processo da mimese. Não há uma fideli-
dade aos fatos históricos, pois se trata de
um texto fictício, mas é por meio dele que
o autor denúncia a estrutura autoritária
de poder. Consequentemente, a obra Os
Tambores Silenciosos, embora ficcional,
está ligada à realidade do leitor.
As ações das personagens favorecem
a análise e estabelecem diálogos com
o texto, segundo os postulados bakhti-
nianos (PONZIO, 2008), permitindo ao
leitor compreender uma história subja-
cente. Realiza-se, assim, a convergência
entre a mimese III e a Mimese I, sendo
a mimese II a ponte que realiza esse
encontro.
Assim, na sequência, passa-se às
reflexões sobre a segunda categoria de
análise que sugere que o texto é um jogo
de encenações:
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b) O jogo do texto encenado: a concep-
ção de Iser (2007) contribui para a análi-
se do romance citado, pois, centrando-se
na relação autor, texto e leitor, evidencia
que Os Tambores Silenciosos é o produto
de ato interenunciativo, por intermédio
da encenação dos personagens situados
em tempo e espaço determinados (SA-
RAIVA, 2009). A cidade de Lagoa Branca
é fictícia, porém, é como se fosse uma
cidade real do Estado do Rio Grande do
Sul. As personagens que ali habitam, as
imãs Pilar, o prefeito, os homens medío-
cres dominados pela ambição, as mulhe-
res infiéis, os policiais violentos encenam
o mundo ficcional e propiciam ao leitor a
compreensão da pluralidade dos signos e
sua capacidade simultânea de denotar e
conotar. Observa-se que a materialidade
discursiva da obra oportuniza ao leitor
a alternativa de compreender os signos
de forma que o significante fraturado
transgrida o significado denotado.
A passagem que narra a presença de
pássaros negros que, enigmaticamente,
invadem a cidade de Lagoa Branca, sob
a perspectiva de Iser (2007), pode ser
considerada, conotativamente, como um
mau presságio ou como a morte da demo-
cracia. Considera-se que, para encenar
o texto ficcional, o autor apresenta os
pássaros como uma forma de sanção aos
políticos e a suas ações ditatoriais e pode
ser percebida pelo leitor atento. Dessa
forma, o leitor poderá depreender esse
algo a mais17 que permeia a tessitura
textual. Logo, a construção do sentido
textual vai depender do entendimento
do leitor (CHARAUDEAU, 2016) que,
a partir de suas vivências, poderá ou
não capturar a mensagem que o autor
tentou construir. Essa plurivalência
dos signos leva a um universo aberto de
significações, e a intertextualidade (SA-
MOYAULT, 2008), compreendida como a
relação explícita ou apenas sugerida com
outros textos ou com campos discursivos,
também se faz presente na obra, abrindo
novas possibilidades de significação.
Nesse sentido, o próprio título da
obra, Os Tambores Silenciosos, remete
à Ação Integralista Brasileira (AIB), par-
tido político liderado por Plínio Salgado,
que disseminou a cultura integralista no
Brasil18. Entre os rituais desse movimen-
to, incluía-se o denominado “Noite dos
tambores silenciosos”, ocasião em que os
“camisas verdes” soavam tambores du-
rante três minutos, em homenagem aos
combatentes mortos do grupo, enquanto
um dos presentes lia o poema de Jaime
de Castro, cujo título era também o da
cerimônia.
O título da narrativa constitui um
insulto ao movimento integralista, que
se opunha ao governo de Getúlio Vargas,
embora seguisse uma orientação fascis-
ta, visto que, na celebração de sete de
setembro, em Lagoa Branca, os tambores
não soaram, ainda que os integralistas
neles batessem: “Que diabo, esses tam-
bores não tocam?” (GUIMARÃES, 2011,
p. 200). Assim, os integralistas, que
apoiaram o prefeito João Cândido, foram
ridicularizados perante o pequeno públi-
co que compareceu ao evento, em meio à
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chuva torrencial e aos pássaros negros
que haviam tomado a cidade. Com efeito,
pode-se dizer que o não tocar dos tam-
bores sugere a tomada de uma atitude
responsiva ativa (PONZIO, 2008).
Utilizando a intertextualidade para
melhor compreender esse momento da
história, evidencia-se, também, que, em
rituais da igreja católica, da Sexta-feira
Santa, até o domingo de Páscoa, os sinos
se calam, como sinal de reflexão e de
posicionamento responsivo frente aos
dogmas da igreja20. Em Os Tambores
Silenciosos, a analogia pode ser enten-
dida como sinal da morte e do vazio que
a cidade vive ante as barbaridades que
lá acontecem, manifestando-se o protesto
pelo silêncio dos tambores e pelos pás-
saros negros.
Na mesma linha de pensamento, o
que também deve ser destacado em Os
Tambores Silenciosos, é a cegueira de
Maria da Glória. O autor, embora men-
cione sua cegueira somente no final do
romance, deixa pistas de que havia algo
a ser questionado sobre ela como se cons-
tata no fragmento textual: Maria Celeste
apagou a luz da cozinha, deixou a mais
nova delas tirando a mesa e lavando a
louça e as panelas, e foram todas para
a sala (GUIMARÃES, 2011, p. 16). A
cegueira, em culturas ocidentais, está,
muitas vezes, ligada conotativamente,
a sentidos misteriosos. Também pode
conotar a visão de algo mais21, ou seja,
a cegueira pode sugerir a capacidade
de enxergar além da visão normal. Na
mitologia grega, o cego Tiresias auxilia
Édipo a desenredar uma situação enig-
mática, o que permite correlacioná-lo
à construção da personagem Maria da
Glória no texto, uma vez que reforça o
fato de ela poder ter um vínculo com o
sobrenatural, isto é, os pais, que já eram
mortos. Maria da Glória dedica sua vida
a confeccionar bichos de pano, inclusive
os pássaros negros que parecem ter vida
e, ao final da narrativa, descobre-se que
eram os que tinham invadido a cidade.
A cegueira, vista como um recurso do
autor para estabelecer correlações entre
ficção e realidade, proporciona subsídios
para que o leitor reflita sobre a importân-
cia das ações da personagem Maria da
Glória na intriga. Na perspectiva de Iser
(2007), a interação do leitor como o texto
vai propiciar o jogo textual. A cega, em Os
Tambores Silenciosos, aquela personagem
que tem uma deficiência física, é a única
que enxerga as atrocidades dos políticos,
o abuso e a censura que os cidadãos de
Lagoa Branca estão vivenciando. O autor,
com maestria, constrói a personagem,
uma mulher que não vê, mas que é a úni-
ca habitante da cidade que compreende a
situação. Embora seja cega, ela enxerga.
E, ironicamente, pode-se dizer que quem
vê, não enxerga. Verifica-se que o autor
joga com metáforas textuais de significa-
ções contrárias, o que conota uma visão
esclarecida sobre os fatos que ocorrem em
Lagoa Branca. Assim, o leitor é convida-
do a jogar o jogo do texto, a fazer parte
da peça encenada e a interagir com as
estratégias, as metáforas relacionadas
aos fatos históricos, que, apresentadas na
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obra ficcional, lhe permitem estabelecer
correlações com a realidade.
Considerações nais
A narrativa de Os Tambores Silencio-
sos auxilia o leitor a transpor as fron-
teiras entre o ficcional e o real e suscita
reflexões sobre as relações entre autor, o
texto que ele produz – como resultado de
um posicionamento crítico – e as estraté-
gias que exigem a intervenção do leitor.
A linguagem é complexa, assimétrica
e, dentro do processo do fazer criativo,
oferece terreno fértil para que a obra
literária seja desvelada e proporcione, ao
leitor, por meio do processo da mimese
III, seu encontro com a alteridade, ao
integrar tempos distintos: o do presente
da recepção com o do passado da produ-
ção do texto e com o da encenação dos
eventos.
A questão norteadora do artigo de-
monstra que a representação mimética,
que estabelece a convergência da mimese
I, da mimese II e da mimese III, na obra
Os Tambores Silenciosos denuncia, por
meio da narrativa, acontecimentos his-
tóricos brasileiros, ligando-os à realidade
do leitor.
A análise possibilita reflexões sobre
a construção mimética e sobre o jogo de
encenações na obra literária e pode co-
laborar com futuras investigações sobre
os aspectos teóricos mobilizados. Dessa
forma, pergunta-se: qual é a função da
personagem Maria da Glória dentro da
intriga? O que ela tem a dizer? As trilhas
foram traçadas durante o percurso da
análise e encontram respaldo no final
da leitura da obra, por meio da qual se
compreende que o leitor pode se colocar
no lugar da personagem. Isso significa
que a mimese opera um deslocamento
do eu, uma vez que ela instala o ponto
que denuncia as crueldades por meio
do texto ficcional, o qual é adotado pelo
leitor. Diante do jogo do texto encenado,
o leitor faz a leitura às cegas, de acordo
com as estratégias e recursos utilizados
pelo autor, porém, ao final da obra, en-
contra a clareza, a iluminação e retoma
sua visão. Eis que a obra literária não
deve ser “um ponto final” para o leitor,
mas a ponte para que ele recupere o
passado e projete o futuro.
The Silent Drums: the triple
mimesis, the relation author
/ text / reader, ction and
reality in the game of literary
intrigue
Abstract
Since Aristotle’s day, men seek to un-
derstand texts and art works. In this
context, one observes that literary
production has been interesting phi-
losophers that dedicate themselves to
unveil the purpose of literature in the
world. It is from this point of view,
and aiming to demonstrate how mi-
metic representation, by means of its
narration, promotes the convergence
of mimesis I, mimesis II and mime-
sis III that one analyses the work
Os Tambores Silenciosos (The Silent
Drums). As theoretical framework,
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Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo, v. 14, n. 2, p. 317-331, maio/ago. 2018
one seeks support in Paul Ricœur’s
(1994) triple mimesis perspective as
well as in Wolfgang Iser’s (2007) pos-
tulates, which lead to understanding
texts as a game between author and
reader. The research corpus corres-
ponds to Josué Guimarães’ already
mentioned novel The Silent Drums.
The analysis directs to the percep-
tion of mimesis as a representation
of History when it establishes, in the
literary text performance, “the plot”
within a temporary line in which the
relation author/text/reader, fiction and
reality get integrated.
Keywords: Representation; Triple mi-
mesis; Text game; Literature; History.
Notas
1 A obra Os Tambores Silenciosos, de Josué Gui-
marães, recebeu o prêmio Érico Veríssimo de
Romance em 1975.
2 Perspectiva aristotélica que equivale ao discur-
so literário.
3 Imitação, representação do agir humano (RI-
CŒUR, 1994).
4 Processo de composição da intriga, ou seja, da
construção da narrativa (discurso).
5 Verossimilhança.
6 Mikhail Bakhtin foi um dos filósofos russos
mais importantes do século XX. Nasceu em
1895 e faleceu em 1975. “Seu nome é referência
fundamental para diversas teorias que, de uma
forma ou de outra, discutem e problematizam
a questão da comunicação hoje. As suas maio-
res contribuições foram fundamentais para o
desenvolvimento dos estudos da linguagem e
da estética, campos nos quais a sua obra é mais
conhecida e reconhecida” (RIBEIRO; SACRA-
MENTO, 2010, p. 9).
7 Adotar uma atitude responsiva ativa significa
dizer que o ouvinte recebe e compreende os
signos e pode concordar ou discordar com o
enunciado concreto.
8 O leitor da obra literária.
9 Trata-se de um “algo a mais” engendrado no
texto.
10 O significante fraturado é o menor espaço do
jogo textual. Ele pode ser, simultaneamente,
denotativo e figurativo (ISER, 2007).
11 Termo criado pela russa Julia Kristeva a partir
dos estudos que ela faz da teoria de Bakhtin.
12 Obra literária Os Tambores Silenciosos de Jo-
sué Guimarães cuja publicação original ocorreu
em 1977.
13 Suplemento é significado engendrado por meio
do próprio jogo textual.
14 Sentido denotativo e conotativo.
15 O Estado Novo refere-se ao governo de Getúlio
Vargas - 1937 a 1945. Esse momento histórico
ficou conhecido, politicamente, como um perío-
do ditatorial.
16 A intertextualidade relacionada aos pássaros
negros e à cegueira será discutida com maior
profundidade na segunda categoria de análise.
17 Suplemento (ISER, 2002).
18 Esse partido defendia ideias do movimentos fas-
cista italiano e teve início durante os primeiros
anos do governo de Getúlio Vargas, contestando
os pensamentos esquerdistas brasileiros.
19 Nota-se que os integralistas batiam nos tam-
bores, porém não saía som dos instrumentos”.
Que diabo, esses tambores não tocam?”(GUI-
MARÃES, 2011, p. 200).
20 A matraca substitui o sino, com seu som de ma-
deira sobre madeira que convida ao silêncio e a
reflexão. Ela é um instrumento utilizado pela
igreja católica, sendo um convite à penitência
e à conversão a Deus.
21 Suplemento (ISER, 2002).
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