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Cartografia Geológica e Caracterização Litoestratigráfica da Margem Leste Catarinense da Bacia do Paraná, na Região Oeste de Alfredo Wagner (SC)

Abstract and Figures

RESUMO: A Bacia do Paraná continua sendo alvo de inúmeros estudos e mapeamentos que tem como propósito o entendimento de sua formação e evolução tectonoestratigráfica. O município de Alfredo Wagner, em Santa Catarina, está assentado sobre as rochas que compõem a borda leste da bacia. Com o objetivo de caracterizar os litotipos e associações de fácies, bem como entender o empilhamento estratigráfico e a evolução paleoambiental da área, realizou-se um mapeamento na escala 1:25.000 da porção oeste de Alfredo Wagner (SC), englobando as regiões do Alto Rio Jararaca, da Gruta do Poço Certo e do Passo da Limeira. Os litotipos mapeados foram separados em vinte e três fácies sedimentares que foram agrupadas, por sua vez, em cinco associações de fácies (AF) de acordo com os ambientes de formação: marinho profundo, frente deltaica, baía central de estuário, marinho-costeira e fluvial recente. Além disso, as quebras de relevo negativas e alguns contatos identificados em campo, permitiram compartimentar a área mapeada em seis unidades litoestratigráficas. A unidade mais inferior corresponde à Formação Rio do Sul (marinho), pertencente ao Grupo Itararé. Enquanto que a segunda, terceira e quarta unidades representam, respectivamente, aos Membros Triunfo (frente deltaica), Paraguaçu (estuário) e Siderópolis (marinho-costeira) da Formação Rio Bonito. Já a unidade mais superior, diz respeito à Formação Palermo do Grupo Guatá. Os depósitos recentes de aluviões configuram a sexta unidade. Todo esse intervalo cronoestratigráfico mapeado refere-se à Supersequência Gondwana I da Bacia do Paraná. Neste trabalho foi possível concluir que as associações de fácies foram depositadas nos seguintes contextos: AF1 (Fm. Rio do Sul), trato de sistemas de mar alto (HST), caracterizada pela abundância de fácies de ritmitos intercaladas com diamictitos; AF2 (Mb. Triunfo), trato de sistemas de mar baixo (LST) e constitui essencialmente fácies arenosas com a recorrência de estratificações cruzadas acanaladas; AF3 (Mb. Paraguaçu), trato de sistemas transgressivos (TST) e possui nítida predominância de litotipos lamosos sobre litotipos arenosos; e AF4 (Mb. Siderópolis) parte do mesmo trato de sistemas transgressivos (TST) sendo individualizada pela presença de um conteúdo arenoso maturo, com estratificações cruzadas acanaladas de grande porte. Medidas de paleocorrente efetuadas a partir de estratificações cruzadas encontradas nos arenitos do Mb. Triunfo indicaram sentido predominantemente NNW. Já no Mb. Paraguaçu há uma predominância de paleocorrentes em estratificações cruzadas para SSW. Verificou-se, portanto, uma tendência de fluxos de direções opostas, sugerindo que enquanto as feições deltaicas avançavam para o noroeste, o avanço do mar sobre estas se deu de norte/nordeste para sudoeste. Medidas de eixo de marcas onduladas simétricas indicam que a linha de costa era de direção NW/SE, o que pode definir uma direção das correntes litorâneas. Por fim, a área de mapeamento apresenta um potencial econômico no que se refere à prospecção de carvão, na região da Gruta do poço Certo, onde identificou-se, também, uma promissora aplicabilidade geoturística e de geoconservação na gruta. Evidenciou-se a necessidade de realização de uma análise de riscos mais apurada no município, tendo em vista a ocorrência de inundações e movimentos gravitacionais de massa identificados, sobretudo, no Mb. Triunfo. PALAVRAS-CHAVE: MAPEAMENTO SEDIMENTAR, LITOESTRATIGRAFIA, BACIA DO PARANÁ
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1
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ
SETOR DE CIÊNCIAS DA TERRA
DEPARTAMENTO DE GEOLOGIA
FELIPE CHANDELIER
GUSTAVO MACHADO MARANGON
MATHEUS PEREIRA NOGUEIRA E SILVA
RELATÓRIO GEOLÓGICO DA REGIÃO DE PASSO DA LIMEIRA, ALFREDO
WAGNER (SC)
CURITIBA
NOVEMBRO/2017
2
FELIPE CHANDELIER
GUSTAVO MACHADO MARANGON
MATHEUS PEREIRA NOGUEIRA E SILVA
RELATÓRIO GEOLÓGICO DA REGIÃO DE PASSO DA LIMEIRA, ALFREDO
WAGNER (SC)
Relatório apresentado como requisito parcial
para aprovação na disciplina de Mapeamento
Sedimentar do curso de Bacharelado em
Geologia do Setor de Ciências da Terra da
Universidade Federal do Paraná.
CURITIBA
NOVEMBRO/2017
3
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 Articulação das áreas com a localização dos poços. ...................... 10
Figura 2 Localização e acesso à área mapeada. .......................................... 11
Figura 3 Esboço geológico da Bacia do Paraná na Região de Passo da
Limeira. ............................................................................................................ 12
Figura 4 - Bacia Hidrográfica do Itajaí, destacando em amarelo a sub-bacia do
Rio Itajaí do Sul. Adaptado de Comitê do Itajaí, 2006. ..................................... 14
Figura 5 - Localização regional da área de estudo (em Vermelho) no Mapa
Geomorfológico do Estado de Santa Catarina (modificado de SEPLAN, 1986).
......................................................................................................................... 15
Figura 6 - Fotografia que exemplifica a vegetação nativa na região. ............... 15
Figura 7 - Classificação climática segundo Koppen no Estado de Santa
Catarina. Dados: geoensino.net. ...................................................................... 16
Figura 8 - Exemplo de perfil de Cambissolo Húmico. ....................................... 17
Figura 9 Fotografia da fácies F. ..................................................................... 33
Figura 10 Fotografia da fácies Rpp. .............................................................. 33
Figura 11 Fotografia da fácies Fpp. ............................................................... 34
Figura 12 Fotografia da fácies Hwl-pp ........................................................... 35
Figura 13 Fotografia da fácies Hw-b-os. ....................................................... 36
Figura 14 Fotografica da fácies Af-cr. ........................................................... 37
Figura 15 Fotografia da fácies Af. ................................................................. 38
Figura 16 Fotografia da fácies Aca. ............................................................... 39
Figura 17 Fotografia da fácies Act. ................................................................. 39
Figura 18 Fotografia da fácies App. .............................................................. 40
Figura 19 Fotografia da fácies Am. ............................................................... 41
Figura 20 Fotografia da fácies Aos. ............................................................... 42
Figura 21 Fotografia da fácies Aoa. .............................................................. 42
Figura 22 Fotografia da fácies Acr. ............................................................... 43
Figura 23 Fotografia da fácies Asc. ............................................................... 44
Figura 24 Fotografia da fácies Ah ................................................................. 45
Figura 25 Fotografia da fácies Aic ................................................................. 46
Figura 26 Fotografia da fácies Aipp ............................................................... 47
Figura 27 Fotografia da fácies S. .................................................................. 47
4
Figura 28 Fotografia da fácies D-r. ................................................................ 48
Figura 29 - Siglas de diamictitos com base em suas características. .............. 49
Figura 30 - Seção colunar composta representativa da Associação de fácies I.
......................................................................................................................... 51
Figura 31 - Esquema de ambiente glaciomarinho, onde se observa a dinâmica
de diversos fluxos com influência da geleira .................................................... 53
Figura 32 - Bloco diagrama de ambiente marinho-glacial, em um contexto de
degelo, do Grupo Itararé, que mostra MTD's sendo depositados em ambiente
marinho profundo. ............................................................................................ 53
Figura 33 - Seção colunar representativa da associação de fácies II .............. 54
Figura 34 - Três tipos de deltas: dominados por rios, influenciados por ondas de
tempestado e dominados por ondas de tempestade. ....................................... 55
Figura 35 - Seção colunar representativa da associação de fácies III. ............ 58
Figura 36 - Modelo de estuário dominado por maré, que difere, em partes, do
ambiente proposto neste trabalho.. .................................................................. 59
Figura 37 - Seção colunar representativa da associação de fácies IV. ............ 60
Figura 38 - (a) perfil dos ambientes de praia ao offshore; (b) seção colunar
representativa dos diferentes ambientes deposicionais costeiros.. .................. 61
Figura 39 - Soleira de diabásio intrudida ao longo do plano de acamamento do
folhelho no ponto 68. ........................................................................................ 64
Figura 40 - Diabásio da soleira encontrada no ponto 68. ................................. 64
Figura 41 - Coluna estratigrafia entre os pontos 37 e 39 passando pelo ponto
38. .................................................................................................................... 66
Figura 42 - Ponto 31, vista frontal da Unidade 4. ............................................. 67
Figura 43 Bloco-diagramas ilustrando a sucessão cronológica dos eventos de
deposição dos estratos e a evolução paleoambiental da área estudada. ........ 70
Figura 44 - Modelo de sistema trangressivo em vales incisos (estuários)
semelhantes ao modelo deposicional proposto neste trabalho. ....................... 72
Figura 45 - Diagrama de rosetas dos Mb. Triunfo (esquerda) e Mb. Siderópolis
(direita), da Fm. Rio Bonito............................................................................... 72
Figura 46 - Lineamentos traçados na escala 1:50.000 para a região de estudo.
......................................................................................................................... 77
Figura 47 Falha de direção N70W/60SE com componente normal descrita em
campo .............................................................................................................. 78
5
Figura 48 - Estereograma com medidas de fraturas (verde) e falha (vermelho),
medidas na Fm. Rio do Sul. ............................................................................. 78
Figura 49 - Mapa do arcabouço estrutural da Bacia do Paraná, com os
principais lineamentos e zonas de falha. .......................................................... 79
Figura 50 - Porção oeste do mapa geológico da área (anexo X), onde foi
traçada a falha (contato linear). ........................................................................ 81
Figura 51 - Principais zonas de falha de direção NW da Bacia do Paraná. ..... 81
Figura 52 - Estradas da área mapeada revestidas com cascalho de folhelhos e
ritimitos. ............................................................................................................ 83
Figura 53 - Pedreira de ritimito dentro da área de estuto. ................................ 83
Figura 54 - Ponto de ônibus na área de estudo construído com blocos de
ritimito. .............................................................................................................. 84
Figura 55 - Mapa de declivdade segundo a classificação de Biasi (1992), com
fotografias de MMG. ......................................................................................... 88
Figura 56 Planície de inundação do Rio Itajaí do Sul. ................................... 89
Figura 57 Seções topográficas E-F e G-H ilustrando os eventos de inundação
do Rio Itajaí do Sul. .......................................................................................... 89
6
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: fácies sedimentares descritas durante esta caracterização geológica..
......................................................................................................................... 32
Tabela 2: Descrição dos poços utilizados para a construção da seção de
correlação......................................................................................................... 74
Tabela 3: Classes de declividade e seus respectivos usos recomendados. .... 87
7
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO .......................................................................................... 10
1.1 LOCALIZAÇÃO ........................................................................................ 10
1.2 OBJETIVOS ............................................................................................ 12
1.3 ASPECTOS FISIOGRÁFICOS ..................................................................... 13
1.3.1 Hidrografia .................................................................................... 13
1.3.2 Geomorfologia .............................................................................. 14
1.3.4 Clima ............................................................................................ 16
1.3.5 Pedologia ...................................................................................... 16
2 TRABALHOS ANTERIORES ................................................................... 17
2.1 BACIA DO PARANÁ ................................................................................. 17
2.2 CONTEXTO GEOLÓGICO LOCAL ............................................................... 22
2.2.1 Grupo Itararé ................................................................................ 22
2.2.2 Grupo Guatá ................................................................................. 25
2.2.3 Província Magmática do Paraná ................................................... 27
3 MÉTODOS ................................................................................................ 27
3.1 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA E ELABORAÇÃO DO MAPA GEOLÓGICO PRELIMINAR 28
3.2 AQUISIÇÃO E PROCESSAMENTO DOS DADOS ............................................. 28
3.3 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS COLETADOS ................................ 29
4 RESULTADOS ......................................................................................... 29
4.1 FÁCIES SEDIMENTARES .......................................................................... 29
5 DISCUSSÕES ........................................................................................... 49
5.1 ASSOCIAÇÕES DE FÁCIES SEDIMENTARES ............................................... 49
5.1.1 Associação de Fácies I - Marinho profundo .................................. 50
5.1.2 Associação de Fácies II - frente deltaica ...................................... 54
5.1.3 Associação de fácies III bacia central de estuários ................... 57
5.1.4 Associação de fácies IV barreira (foreshore/shoreface) ............ 59
5.1.5 Associação de fácies V fluvial recente ....................................... 62
5.2 SUCESSÃO E UNIDADES LITOESTRATIGRÁFICAS ....................................... 62
5.2.1 Unidade 1- Formação Rio do Sul .................................................. 63
5.2.2 Unidade 2- Formação Rio Bonito, Membro Triunfo ...................... 64
8
5.2.3 Unidade 3 - Formação Rio Bonito, Membro Paraguaçu ............... 65
5.2.4 Unidade 4 - Formação Rio Bonito, Membro Siderópolis ............... 67
5.2.5 Unidade 5 - Depósitos Recentes .................................................. 68
5.3 EVOLUÇÃO PALEOAMBIENTAL ................................................................. 68
5.4 CORRELAÇÃO SUPERFÍCIE SUBSUPERFÍCIE ........................................... 74
5.5 TECTÔNICA MODIFICADORA .................................................................... 77
5.6 POTENCIAL EXPLORATÓRIO .................................................................... 82
5.6.1 Agregados Graúdos para Revestimentos de Estradas e Rochas
Ornamentais .............................................................................................. 82
5.6.2 Poços Artesianos .......................................................................... 84
5.6.3 Sistema Petrolífero ....................................................................... 85
5.7 RISCOS GEOAMBIENTAIS ........................................................................ 86
5.7.1 Movimentos de Massa .................................................................. 86
5.7.2 Inundações ................................................................................... 89
6 CONCLUSÕES ......................................................................................... 90
7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................... 92
ANEXOS .......................................................................................................... 97
9
RESUMO
Durante a disciplina de Mapeamento Sedimentar do Departamento de
Geologia da Universidade Federal do Paraná, foram realizados estudos a cerca
do empilhamento estratigráfico e da evolução paleoambiental de rochas da
Bacia do Paraná aflorantes na região de Passo da Limeira, no município de
Alfredo Wagner (SC). A arquitetura deposicional das unidades foi definida por
meio de duas etapas de campo, onde buscou-se caracterizar e analisar
associações de fácies sedimentares e seus elementos deposicionais. Foi
elaborado, também, um mapa geológico na escala 1:25.000, assim como um
perfil vertical composto na escala 1:200 ilustrando o empilhamento das fácies.
Com o auxílio de logs de poços perfurados pela Petrobras e CPRM, foi
realizada uma seção de correlação na escala 1:1.000 das unidades mapeadas,
as quais foram: Formação Rio Bonito, pertencente ao Grupo Guatá, com os
Membros Siderópolis, Paraguaçu e Triunfo, e Formação Rio do Sul, do Grupo
Itararé do topo para a base. Foram definidas 5 associações de fácies, sendo
elas: associação de fácies marinho profundo (ou distal), frente deltáica, baía
central de estuários, barreira (shoreface/faceshore) e fluvial recente. Foram
visualizados, a partir de imagens SRTM, lineamentos estruturais, na escala
1:50.000, de direção NE-SW e NW-SE uma falha transcorrente dextral de
direção NE-SW foi mapeada. Além disso, também foram feitas inferências a
respeito de aspectos geoambientais, como o desenvolvimento de um mapa de
declividade utilizando a Classficação de Biasi (1992) e observações a cerca de
enchentes recorrentes na região. Aspectos econômicos também foram
abordados neste relatório, onde se analisou questões relacionadas a um
potencial sistema petrolífero e exploração de rochas e minerais industriais na
área.
10
1 INTRODUÇÃO
Este relatório se refere ao mapa geológico na escala 1:25.000 elaborado
ao longo da disciplina de Mapeamento Sedimentar, do Departamento de Geologia
da Universidade Federal do Paraná, onde foram realizadas duas etapas de
atividade de campo.
1.1 Localização
A área mapeada está situada a noroeste do centro urbano do município de
Alfredo Wagner (SC) e corresponde a região de Passo da Limeira, a qual se
encontra a 250 km ao sul de Curitiba (PR). O perímetro mapeado equivale à área
10 da articulação dos mapas elaborados durante a disciplina de Mapeamento
Sedimentar (Figura 1).
Para chegar ao local, o trajeto foi constituído de quatro rodovias principais, na
seguinte ordem: BR-376, BR-101, BR-282 e SC-302, onde esta última cruza a
área de leste a noroeste (Figura 2).
A fim de relacionar dados de afloramento com informações de subsuperfície,
considerou-se uma área mais ampla, abrangendo 17 poços perfurados pela
Petrobras e CPRM (Figura 1).
Figura 1 Articulação das áreas com a localização dos poços.
11
Figura 2 Localização e acesso à área mapeada.
12
A área estudada se encontra no contexto da Bacia do Paraná, em sua
porção sudeste (Figura 3). Com base na Folha Geológica do Brasil ao
Milionésimo, elaborada pela CPRM, afloram na região as unidades Grupo Guatá,
com as formações Rio Bonito e Palermo, e Grupo Itararé, com a Fm. Rio do Sul
Schneider et al. (1974).
Figura 3 Esboço geológico da Bacia do Paraná na Região de Passo da Limeira.
1.2 Objetivos
O presente trabalho tem como propósito a elaboração de um mapa
geológico na escala 1:25.000 de região aflorante dos Grupos Guatá e Itararé,
onde se busca compreender a história e a arquitetura deposicional destas
unidades. Isto foi feito através da caracterização e análise das associações de
fácies sedimentares e seus elementos deposicionais, as quais serviram de base
para interpretações paleoambientais. Além disso, o estudo preocupou-se em
investigar a natureza, a forma e a distribuição espacial dos contatos
litoestratigráficos das unidades encontradas em campo. Medidas de indicadores
de paleocorrente foram efetuadas a fim de se obter um modelo paleogeográfico
da área mapeada.
13
Feições lineares identificadas em modelo digital de terreno foram
conferidas em campo para se buscar uma relação entre as estruturas tectônicas
regionais e a geometria das unidades. Por fim, questões a respeito do potencial
exploratório e riscos geoambientais da área também foram levantadas.
1.3 Aspectos Fisiográficos
A seguir serão abordados alguns aspectos fisiográficos regionais e
locais, nos quais se insere a área onde foi desenvolvido o trabalho de
mapeamento geológico.
1.3.1 Hidrografia
A região estudada está inserida na Bacia Hidrográfica do Itajaí. Essa
bacia ocupa uma área de aproximadamente 15 mil km², correspondente a
16,14% do território catarinense. Com extensão de mais de 300 quilômetros
desde suas nascentes até a foz, é a maior bacia hidrográfica do estado. A
Bacia do Itajaí é formada por sete grandes sub-bacias (Figura 4) que são
descritas a seguir:
1. Itajaí-Açu: Nasce em Rio do Sul, no encontro do Itajaí do Sul e Itajaí do
Norte. Foz em Itajaí no encontro com Itajaí Mirim.
2. Itajaí-Mirim: Nascente mais distante em Vidal Ramos. Foz em Itajaí no
encontro com o Itajaí-Açu.
3. Itajaí do Norte: Nascente mais distante em Papanduva. Foz no Itajaí-
Açu em Ibirama.
4. Itajaí do Oeste: Nascente mais distante em Rio do Campo. Foz no
encontro com o Itajaí do Sul em Rio do Sul.
5. Itajaí do Sul: Nascente mais distante em Alfredo Wagner. Foz no
encontro com o Itajaí do Oeste em Rio do Sul.
6. Benedito: Nascente mais distante em Doutor Pedrinho. Foz no Itajaí-
Açu em Indaial.
7. Luís Alves: Nascente mais distante em Luís Alves. Foz no Itajaí-Açu
em Ilhota.
A área está localizada na sub-bacia do Rio Itajaí do Sul, o qual rio nasce
da junção das águas do Rio Caeté com o Rio Adaga no centro do município de
Alfredo Wagner/SC.
14
Figura 4 - Bacia Hidrográfica do Itajaí, destacando em amarelo a sub-bacia do Rio
Itajaí do Sul. Adaptado de Comitê do Itajaí, 2006.
1.3.2 Geomorfologia
De acordo com dados fornecidos pela Secretaria de Estado de
Coordenação Geral e Planejamento de Santa Catarina (SEPLAN/SC), a área
de estudo abrange a unidade morfológica denominada Patamares do Alto Rio
Itajaí. A Figura 5 mostra a localização da região no Mapa Geomorfológico de
Santa Catarina (SEPLAN, 1986).
Esta unidade é caracterizada pela intensa dissecação do relevo, com
patamares e vales estruturais. A presença de extensos patamares, alcançando
dezenas de quilômetros, e de relevos residuais de topo plano (mesas),
limitados por escarpas. O relevo apresenta grandes contrastes altimétricos,
sendo que as maiores altitudes, que atingem 1.220 metros, são encontradas na
serra da Boa Vista. As menores altitudes estão nos vales dos rios.
15
Figura 5 - Localização regional da área de estudo (em Vermelho) no Mapa
Geomorfológico do Estado de Santa Catarina (modificado de SEPLAN, 1986).
1.3.3 Vegetação
A região é caracterizada por uma cobertura vegetal primária do tipo
Floresta Ombrófila Mista (Mata de Araucária). Consiste em uma vegetação que
normalmente ocorre em altitudes elevadas, entre 500 e 600 metros de altitude,
e que contém espécies angiospermas, mas também coníferas. Essa vegetação
faz parte do Bioma Mata Atlântica e é característica da região sul do Brasil. Um
exemplo da vegetação nativa da região pode ser evidenciado na Figura 6.
Figura 6 - Fotografia que exemplifica a vegetação nativa na região.
16
1.3.4 Clima
De acordo com a classificação de Köppen, a região está incluída na
zona climática do tipo Cfb (Figura 7), de clima subtropical úmido mesotérmico
com verões frescos, sendo que o mês mais frio apresenta temperatura média
inferior a 22oC, onde:
C clima temperado, mesotérmico, com média dos três meses
mais frios entre -3oC e 18oC e mês mais quente com temperatura
média acima de 10º;
f clima sempre úmido com chuvas em todos os meses do ano e
inexistência de estação seca definida;
b verão temperado, com temperatura média do mês mais
quente inferior a 22oC.
Figura 7 - Classificação climática segundo Koppen no Estado de Santa Catarina.
Dados: geoensino.net.
1.3.5 Pedologia
A área de estudo compreende em sua totalidade solos do tipo
Cambissolo Bruno Húmico. Os Cambissolos têm por característica ser pouco
desenvolvido no âmbito da sua evolução pedogenética com horizonte B
incipiente ou em via de formação.
De acordo com o Sistema Brasileiro de Classificação de Solos
(EMBRAPA, 2006), os Cambissolos compreendem solos constituídos por
material mineral, com horizonte B incipiente subjacente a qualquer tipo de
horizonte superficial. A subordem Húmico se refere ao fato do solo apresentar
17
teor muito elevado de matéria orgânica no horizonte A. Um exemplo do tipo de
solo encontrado é mostrado no perfil da Figura 8.
Figura 8 - Exemplo de perfil de Cambissolo Húmico.
2 TRABALHOS ANTERIORES
2.1 Bacia do Paraná
A Bacia do Paraná é uma bacia intracratônica Paleozóica com
preenchimento vulcânico-sedimentar, que se estende por grande parte do
centro-leste do continente sul-americano, abrangendo 1.500.000 km² entre a
porção meridional do Brasil, Paraguai oriental, norte do Uruguai e nordeste da
Argentina. Preenchida por cerca de 7.000 metros de espessura de sedimentos
Paleozóicos, Mesozóicos, lavas basálticas Cretáceas e sedimentos
Cenozóicos. A bacia apresenta limites erosivos, sendo toda a borda leste
influenciada por soerguimento quando da separação do Gondwana, resultando
em uma forma ovalada, alongada em N-S (Milani, 2004; 2007).
Extensivos estudos para entender a litoestratigrafia, bem como a
evolução estrutural da bacia, têm sido feitos desde o início do século XX, com
os trabalhos pioneiros de White (1908), Oliveira (1918; 1927) e Maack (1947).
Tais autores conseguiram definir o arcabouço geral da bacia e a idade das
rochas presentes nela. Mais tarde os trabalhos de Schneider et al. (1974),
Zalán et al. (1990) e Milani (1997; 2004; 2007), foram os responsáveis por
18
moldar os conceitos da evolução tectônica e sedimentar da bacia, que se tem
como base hoje em dia, apesar de algumas discordâncias, principalmente
quanto à origem da bacia.
Schneider et al. (1974) propuseram quatro cartas estratigráficas,
correspondentes à diferentes regiões da bacia, nela apresentaram a divisão
base dos grupos (Grupos Paraná, Itararé, Guatá, Passa Dois e São Bento) que
se utiliza hoje, com suas idades e formações. Mais recentemente, Milani (1997)
reconheceu as unidades aloestratigráficas que hoje condiciona os estudos de
estratigrafia na bacia. Neste trabalho, foram discriminadas seis
Supersequências: Rio Ivaí (Ordoviciano-Siluriano), Paraná (Devoniano),
Gondwana I (Carbonífero-Eo-triássico), Gondwana II (Meso a Neotriássico),
Gondwana III (Neojurássico-Eocretáceo) e Bauru (Neocretáceo). Sendo as três
primeiras supersequências formadas por rochas derivadas de ciclos
transgressivo-regressivos, ou seja, intrinsecamente relacionados ao nível do
mar. As outras seis estão atreladas a ambientes continentais e ao vulcanismo
(Milani, 2007).
Zálan et al. (1990), fizeram importante contribuição ao sugerirem um
modelo de formação da Bacia do Paraná, quando os autores atribuem a
subsidência da bacia a fenômenos de resfriamento litosférico, após os eventos
termo-tectônicos ocorridos no Brasiliano, no momento da formação do
Gondwana e também ao citar a granitogênese abrangente que se instaurou
naquele momento. Os autores associam o processo inicial de formação da
sinéclise a um evento extensivo, um rift de pequenas proporções, que teria
orientação N-S sendo preenchido pela Supersequência Rio Ivaí. O reflexo
deste rift poderia, segundo os autores, ser observado em mapas de isópacas
da supersequência supracitada que indicam um depocentro linear associados a
dois pequenos depocentros (similar ao modelo de rifts), ainda poderia ser visto
em dados de gravimetria que parecem indicar um domo mantélico de forma
elipsoidal orientado.
Ainda para Zálan et al. (1990) a evolução da bacia seria resultado da
superimposição de eventos tectono-sedimentares de três diferentes bacias,
que refletem três diferentes processos de subsidência e consequente
sedimentação (Siluriano/Devoniano, Permiano/Carbonífero e
Jurássico/Cretáceo), separados por períodos de erosão e não deposição, do
19
Devoniano ao Mississipiano e do Triássico ao Jurássico, sendo reflexos
intracratônicos de eventos orogênicos na borda oeste do Gondwana.
Há, no entanto, trabalhos mais recentes de Milani (1997; 1998; 2004; 2007)
em que o autor diverge quanto ao modelo de origem da bacia. O autor propõe
que a origem da bacia estaria associada a calhas orientadas em NE-SW,
formadas pela reativação de estruturas Brasilianas (sugere aqui a existência de
uma faixa móvel de nome Rio Paraná), por tectônica transtensiva gerada pelo
evento compressivo da Orogenia Oclóyica, durante o Eo-Ordoviciano. Sobre
esta calha teria se desenvolvido a deposição da Supesequência Rio Ivaí, em
um golfo com ligação ao Panthalassa. A presença do basalto Três Lagoas (de
idade Ar/Ar 443+- 10 Ma, que ocorre aos 4.569 metros de profundidade na
base da Supersequência Rio Ivaí, contribuiria positivamente para esta teoria, já
que seria um dos eventos iniciais da bacia, estando associado à formação dos
grábens transtensivos. O espaço de acomodação gerado posteriormente
estaria ligado aos sucessivos eventos compressivos na borda oeste do
Gondwana, causando flexura tectônica, garantindo um caráter de antepaís para
a bacia (Milani, 2007). Deste modo, diversos autores afirmam (Assine, 1996;
Milani, 1997) que a maior taxa de subsidência e de acumulação de sedimentos
em cada ciclo esteve associada ao auge de eventos orogenéticos, enquanto o
soerguimento, erosão e formação de desconformidades teriam se formado
entre tais períodos. O que diverge de Zalan et al. (1990), o qual acreditava que
os episódios orogenéticos seriam responsáveis pelo soerguimento da bacia e
consequente formação de desconformidades.
Acerca do entendimento da evolução tectono-estratigráfica geral da bacia,
se adotou quase como consenso, aquilo que Milani (1997) publicou, deste
modo, será discorrido brevemente nas linhas abaixo sobre a evolução
estratigráfica com base na obra deste autor, com adendos de outras
referências, assim que necessário.
Segundo Milani (1997), a sedimentação inicial da bacia, durante o
Ordoviciano-Siluriano, teria se desenvolvido sobre o rift central, como um ciclo
transgressivo com influência de glaciação. A este pacote deposicional o autor
se referiu como Supersequência Rio Ivaí.
20
Um extenso evento erosivo no fim do Siluriano gerou o pene-plano por
sobre o qual se depositou o pacote Devoniano, denominado Supersequência
Paraná. Esta Supersequência é caracterizada pelo desenvolvimento de um
golfo amplo e aberto para o Panthalassa, que depositou, em um primeiro
momento, arenitos/conglomerados flúvio-deltáicos que passaram a ser
afogados no Emsiano, com a paulatina subida do nível do mar, atrelada a alta
taxa de subsidência. Desenvolveu-se, então, até o Frasniano, a deposição dos
pelitos da Fm. Ponta Grossa. O Mississipiano foi marcado por extensa erosão
de espessas porções do pacote Devoniano (Milani, 1997).
A Supersequência Gondwana I (Milani, 1997) é de grande importância no
desenvolvimento da bacia, bem como se trata do objeto de estudo deste
trabalho. A sedimentação basal desse pacote se deu no Pennsylvaniano, sobre
a discordância Mississipiana, na porção nordeste da bacia, a qual teve a maior
espessura de sedimentos devonianos preservada. Teve caráter glaciogênico
(Grupo Itararé) e se desenvolveu entre 310-290 Ma, em um padrão de onlap
para sul, refletido no adelgaçamento da unidade no mesmo sentido. Já no
Permiano teria havido uma inversão no arranjo deposicional, relacionado a
eventos compressivos na margem ocidental do Gondwana, estabelecendo
então, um padrão deposicional onlap de sul para norte, relacionado ao trato
transgressivo Guatá, que ocorreu entre 290-260 Ma (Milani, 1997).
Culminando, então, no evento de máxima inundação deste ciclo, registrado nos
folhelhos da Fm. Palermo. A partir daí, a bacia entrou em um regime
regressivo, atrelado a um equilíbrio entre fenômenos tectônicos e eustáticos,
registrado pelo Grupo Passa Dois, que apresentou cada vez mais um caráter
continental e árido (Milani, 2007).
no Triássico houve a deposição daquilo que se denominou
Supersequência Gondwana II, de Milani (1997). A deposição deste pacote
esteve condicionada ao evento de distensão na porção sul do continente
Gondwana (Milani, 2007). O registro sedimentar do pacote esteve restrito a
porção gaúcha da bacia, em seu início, esteve materializada nos pelitos
fossilíferos da Fm. Santa Maria, que se depositaram abruptamente sobre os
arenitos do topo da Supersequência Gondwana I, demonstrando uma rápida
transgressão lacustre. Isto seria indicativo do desenvolvimento de uma bacia
do tipo gráben em rápida subsidência e condições de bacia faminta. Os
21
estratos que sobrepõe a unidade basal são caracterizados por intercalações
pelíticos/arenosas, causadas por variações no nível lacustre, que estariam
atreladas ao clima e tectônica (Milani, 1997).
Extensas porções meso-neotriássicas teriam sido erodidas por processos
de deflação eólica, que acabou por gerar uma das maiores lacunas no registro
sedimentar da bacia. Tais processos de deflação estariam atrelados ao
desenvolvimento do clima árido que se instaurou no Neojurássico, registrado
nos arenitos eólicos da Fm. Botucatu que se desenvolveu sobre esta extensa
discordância, e que corresponde à porção basal da Supersequência Gondwana
III. A formação é caracterizada por arenitos evidentemente eólicos,
encontrados em todas as porções da bacia e, localmente, é possível encontrar
registros de corpos alúvio-fluviais e até lacustres, refletidos em arenitos
grossos/conglomeráticos e ritmitos, respectivamente (Milani, 2007).
A Supersequência III teve seu fim com o evento magmático que assolou a
bacia no Cretáceo, atrelado à abertura do Oceano Atlântico. A este evento
denomina-se Província Magmática do Paraná, caracterizada por uma espessa
camada de derrames (da qual, está preservado cerca de 2.000m), por diques
de orientação NW-SE e soleiras entre estratos Mesozóicos. Do ponto de vista
petrológico, predominam basaltos toleíticos, andesitos basálticos subordinados
e, em menor proporção, riolitos e riodacitos. O início do magmatismo se deu de
forma concomitante a deposição eólica da Fm. Botucatu, o que levou a
formação de lentes arenosas entre os derrames (Milani, 2007). Dados recentes
de Ar/Ar apontam que os derrames teriam ocorrido entre 133 e 134 Ma (Thiede
& Vasconcellos, 2010), evidenciando assim, a rápida velocidade com que se
formou tamanho volume de rochas.
Sobre as rochas ígneas da Província Magmática do Paraná se encerrou a
deposição na bacia, com a formação da Supersequência Bauru (Milani, 1997),
que é considerada por alguns autores como uma bacia distinta - sendo referida
como Bacia Bauru por Fernandes & Coimbra (1996). O preenchimento deste
pacote se deu por sedimentos eólicos, semelhantes aos da Fm. Botucatu,
reflexos do desenvolvimento do Deserto Botucatu (Fernandes & Coimbra,
1996). Em meio a este deserto correriam rios entrelaçados e leques aluviais,
registrados nos depósitos interdunas da Fm. Bauru (Milani, 2007). Por fim, o
22
último evento que teria ocorrido na bacia seria o de formação de rochas
extrusivas e intrusivas alcalinas nas bordas da bacia.
2.2 Contexto Geológico Local
A região em que foram feitos os trabalhos está inserida, estratigraficamente,
na Supersequência I de Milani (1997), mais especificamente abrangendo os
Grupos Itararé e Guatá, segundo a folha Sg-22 da CPRM. Com isto, o que se
sucede nas linhas abaixo é uma síntese do conhecimento geológico de cada
um dos grupos.
2.2.1 Grupo Itararé
O Grupo Itararé compreende um importante intervalo de deposição, entre o
Neocarbonífero-Eopermiano, no qual houve sedimentação associada a
processos de glaciação, largamente reconhecidos na literatura. Há, ainda, um
grande interesse econômico, que diversas ocorrências como de petróleo,
carvão, água mineral, ouro, diamante e argila, tornam esta unidade umas das
mais importantes no registro estratigráfico da bacia, sob o ponto de vista
exploratório (Vesely, 2006).
Nesse sentido, diversos estudos tem sido feitos nesta unidade desde o
começo do século XX, como os trabalhos de Oliveira (1927, citado por
Schneider et al., 1974), Gordon Jr. (1947, citado por Schneider et al., 1974) e
Maack (1947, citado por Schneider et al., 1974), os dois últimos tendo relativa
importância por terem elevado a condição de Formação Itararé para Grupo.
Schneider et al. (1974) definiram, então, 4 formações relativas ao grupo:
Campo do Tenente, Aquidauana, Mafra e Rio do Sul. As unidades são
formadas por uma variedade litológica psamíticas, pelíticas e diamictitos,
estando influenciadas por glaciação. A divisão feita neste trabalho foi
amplamente aceita na bibliografia, tendo tido algumas modificações com o
avanço de dados de subsuperfície e de datação.
O trabalho de França e Potter (1988) mostra-se um importante trabalho de
caracterização litocronoestratigráfica do Grupo Itararé, no qual os autores se
basearam no trabalho supracitado, mas propuseram uma nova divisão de
formações, baseado principalmente em dados de subsuperfície, sendo elas a
Lagoa Azul, Campo Mourão, Taciba e Aquidauna, respectivamente. Tal divisão
23
é baseada nas interfácies litológicas, que podem representar
desconformidades (Vesely, 2006).
A Fm. Lagoa Azul (na definição de França & Potter, 1988) seria a base do
Grupo itararé, ocorrendo na parte central da bacia, nos estados de São Paulo e
Paraná. Unidade de até 560 metros de espessura, composta por arenitos
acinzentados, siltitos e lamitos seixosos assentados, em discordância erosiva,
sobre o Grupo Paraná ou sobre o embasamento da bacia. Foram definidos dois
membros, sendo o basal o Mb. Cuiabá Paulista, constituído por arenitos bem
selecionados e lamitos subordinados, depositados em rios entrelaçados; sobre
este, foi definido o Mb. Tarabaí, composto por siltitos e lamitos seixosos, que
provavelmente seriam tilitos. Sobre ambos os membros, os autores definiram a
camada de folhelho, denominada então de Roncador, que representa a
primeira inundação marinha representativa no Permocarbonífero da bacia
(Vesely, 2006).
A porção média do Grupo Itararé é denominada Formação Campo Mourão
(França & Potter, 1988) que abrange quase toda a bacia, estando em
discordância com o embasamento ou sobre o Grupo Paraná. É composta,
predominantemente, por arenitos, mas também com ocorrências de siltito,
lamito seixoso e folhelho. Os autores conseguiram individualizar apenas um
membro para esta formação, que se refere ao folhelho Lontras de Schneider et
al. (1974), passando então à categoria de Membro Lontras. Atribuem a sua
deposição a um ambiente deposicional de rios entrelaçados, atrelados à
depósitos deltaicos. Quanto aos folhelhos pertencentes ao Membro Lontras
não foi definido ambiente por estes autores, no entanto, Schneider et al. (1974)
atribuem a deposição destas rochas a processos marinhos.
Assentado concordantemente à Fm. Campo Mourão, discordante ao
embasamento na região do Arco Sul Rio-Grandense e na porção superior do
grupo, foi definida por França & Potter (1988) a Fm. Taciba. A formação, que
representa a maior exposição de rochas em afloramentos do Grupo Itararé e
ocorre em extensa porção da bacia, foi subdividida em três membros: Rio
Segredo, Chapéu do Sol e Rio do Sul. Tais membros representam diferentes
contextos deposicionais dentro do ambiente marinho com influência de
geleiras.
24
O Mb. Rio Segredo (França & Potter, 1988) ocorre principalmente no estado
de São Paulo e noroeste do Paraná, apresentando acunhamento para sul e a
norte se interdigita com os arenitos da Fm. Aquidauna. Os autores
descreveram a unidade como formada por arenitos cinza, intercalados
localmente com siltitos de origem deltaica (turbiditos); são encontrados ainda
lamitos seixosos, que foram interpretados como produtos de fluxos
gravitacionais subaquosos.
O Mb. Chapéu do Sol, de França & Potter (1988), ocorre em todos estados
do sul, São Paulo e Mato Grosso do Sul, mas desaparece nos estados do
flanco norte da bacia. Os autores caracterizaram a unidade, como sendo
formada por lamitos seixosos, com rara intercalação de corpos arenosos, que
gradam para folhelhos “várvicos”, o qual não se definiu certamente a origem
desses diamictitos, se por fluxos subaquosos ou depositados por geleira,
enquanto os corpos arenosos seriam depósitos de outwash ou eskers.
Weinschütz & Castro (2016) atribui a formação destes diamictitos intercalados
aos corpos arenosos, a processos de ressedimentação, em um contexto de
profunda lâmina d’água com influência de geleiras, em um trato de sistemas de
mar alto, pertencente à primeira sequência sedimentar desta formação
(denominada TC-I).
Aflorando no topo do Grupo Itararé, na região dos estados do Paraná e
Santa Catarina, está o Mb. Rio do Sul. Definido como formação por Schneider
et al. (1974) e posteriormente descrita no trabalho de França e Potter (1988),
passando a ser um membro da Fm. Taciba, é constituído principalmente por
folhelhos com seixos caídos, com presença de braquiópodes, foraminíferos e
crinoides. Tais rochas refletem o ambiente marinho profundo que se instaurou
na região, com influência de icebergs flutuantes responsáveis pelos seixos
caídos. Os autores relatam a presença de arenitos finos, ritmitos e diamictitos,
que foram atribuídos a processos de fluxos turbidíticos e movimentos
gravitacionais subaquosos.
Ocorrendo restritamente no flanco norte da bacia, há no topo do rupo, a Fm.
Aquidauana, definida no trabalho de Schneider et al. (1974) e mais tarde
descrita novamente por França & Potter (1988). A seu respeito, ambos os
trabalhos citados relatam que a formação é constituída por três sequências,
sendo a basal formada por arenitos vermelhos com estratificação cruzada
25
acanalada e diamictitos subordinados; a intermediária constituída de siltitos
rosados, folhelhos e diamictitos subordinados; por fim, a superior é
caracterizada por arenitos. Schneider et al. (1974) atribuem a formação destas
rochas a um ambiente continental fluvial e lacustre, com influência de geleiras,
responsáveis pela deposição dos diamictitos.
É importante salientar que em trabalhos mais recentes no Grupo Itararé,
(Gama Jr. et. al., 1992; Eyles et. al., 1993; Vesely & Assine, 2004; Weinschütz
& Castro, 2006) os autores passaram a estimar uma maior importância dos
processos de ressedimentação associados a deglaciação. Gama Jr. et al.
(1992) relacionam a presença de diamictitos, arenitos e ritmitos aos processos
de retrabalhamento dos sedimentos glaciares. Atribuem à estas fácies de
retrabalhamento, juntamente com as cies periglaciais costeiras e marinhas,
os processos predominantes na deposição do Itararé, em detrimento da
deposição direta por geleiras.
2.2.2 Grupo Guatá
O Grupo Guatá compreende aos siltitos esverdeados e arenitos que se
depositaram sobre os sedimentos do Itararé e a abaixo da Fm. Irati. Foi
definido por Gordon Jr. (1947), ao relacionar as formações Rio Bonito e
Palermo, definidas no trabalho de White (1908).
A Fm. Rio Bonito compreende os arenitos depositados acima da Fm.
Taciba, que ocorrem em quase toda a bacia e apresenta extensa exposição de
afloramentos no estado de Santa Catarina. Schneider et al. (1974) propõem a
subdivisão desta formação em 3 membros: Triunfo, Paraguaçu e Siderópolis,
respectivamente. O Mb. Triunfo, base da formação está assentando em
concordância sobre o Mb. Rio do Sul, formado por arenitos esbranquiçados
finos a médio, com estratificações cruzadas tabulares e acanaladas, com
siltitos, lamitos, conglomerados, folhelhos e leitos de carvão ocorrendo
subordinadamente. Os mesmos autores atribuem a deposição destas rochas a
ambiente flúvio-deltáico. Estas rochas afloram desde o sul de Santa Catarina
até a região de Siqueira Campos, no Paraná, tendo espessuras maiores que
100 metros na região próxima de São João do Triunfo (PR) e Rio do Sul (SC) e
adelgaçando em sentido ao centro da bacia. Trabalhos posterioes reconhecem,
então, a importância dos processos de deglaciação na deposição desta
26
unidade, a citar o trabalho de Castro et al. (2005) que caracterizou este
membro como uma sequência regressiva-transgressiva, com sistemas
deltaicos (ou arenosos de mar baixo) progradantes para sul, sendo afogados
por sistemas glácio-marinhos.
Em concordância, sobre o membro supracitado, foi definido o
Mb. Paraguaçu, que tem sua seção tipo próxima à localidade homônima em
SC, onde apresenta espessura da ordem de 100 metros. Os autores
(Schneider et al., 1974) atribuem a sedimentação a ambiente marinho
transgressivo, materializado no registro de siltitos e folhelhos com laminação
plano-paralela, com influência de depósitos de planície de maré (canais,
barras, barreiras e acumulações distais de deltas), refletidos nas ocorrências
de corpos arenosos finos. A presença de pelecípodes, gastrópodes,
braquiópodes, ofiuroides permitiram que Daemon & Quadros (1970, apud
Schneider et al., 1974) datassem os sedimentos no Kunguriano, Permiano
Médio.
O membro superior da Fm. Rio Bonito, Mb. Siderópolis, apresenta cerca de
130 metros de espessura, na região de seção tipo sudeste de Santa Catarina
que se estende de maneira descontínua até o nordeste do Paraná. Os
autores (Schneider et al., 1974) relatam a ocorrência de arenitos finos a muito
finos, com laminação plano-paralela, ondulada, e por vezes estratificação
cruzada de pequeno porte, intercalados com leitos de argilitos, folhelhos
carbonosos e por vezes leitos de carvão. Aos quais atribuíram à formação em
ambiente marinho litorâneo, que progradou sobre os siltitos do Mb. Paraguaçu.
Datados por dados palinológicos entre o Kunguriano e Kazaniano, no Permiano
Médio a Superior (Daemon & Quadros, 1970, apud Schneider et al., 1974).
A porção superior do Grupo Guatá representa a superfície de máxima
inundação da Supersequência Gondwana I de Milani (1997). Esta porção está
materializada nos siltitos e siltitos arenosos acinzentados e bioturbados da Fm.
Palermo, como descrito por Schneider et al. (1974), que atribuem a sua
deposição à um ambiente marinho transgressivo de águas rasas, no Permiano
Médio a Superior (Kunguriano/Kazaniano), datados por Daemon & Quadros,
(1970, apud Schneider et al., 1974).
27
2.2.3 Província Magmática do Paraná
A Província Magmática do Paraná (Grupo Serra Geral) se originou a partir
do fenômeno de ativação tectono-magmática da Plataforma Sul-Americana,
ligado à abertura do Atlântico Sul, que resultou na expressiva atividade
magmática na Bacia do Paraná, sendo denominado por Almeida (1967) como
Reativação Waldeniana. Como consequência, houve a formação de extensos
derrames de rochas básicas (principalmente basaltos), bem como um denso
enxame de diques em algumas porções da bacia e múltiplos níveis de soleiras
intrudidas segundo os planos de estratificação dos sedimentos Paleozóicos.
A colocação desses corpos intrusivos básicos foi propiciada pela reativação
do Arco de Ponta Grossa, no qual houve um arqueamento resultando no
aparecimento de fraturas crustais paralelas.
Litologicamente, a Província Magmática do Paraná é composta por basaltos
toleíticos e andesitos basálticos, ocorrendo subordinadas quantidades de
riolitos e riodacitos. Tem, em sua assembleia mineralógica, principalmente
plagioclásio e piroxênio, e secundariamente olivina, quartzo, opacos e calcita
(preenchendo amígdalas e microfraturas).
Os autores também ressaltam que estruturas como disjunções colunares,
planares sub-horizontais, cavidades preenchidas (amígdalas) ou não
(vesículas), e xenólitos podem ocorrer nesses corpos, que costumam
apresentar textura fanerítica inequigranular fina a média. Localmente também é
possível encontrar fenocristais de plagioclásio e piroxênio.
3 MÉTODOS
Para atingir com maior eficiência os objetivos propostos, a metodologia
adotada envolveu basicamente três etapas principais: na primeira etapa foi
realizada a revisão bibliográfica e a elaboração de um mapa geológico
preliminar; aquisição e processamento dos dados constituíram a segunda
etapa e, por último, a analise e interpretação dos dados coletados. Nos itens a
seguir as etapas metodológicas serão descritas em detalhe.
28
3.1 Revisão bibliográfica e elaboração do mapa geológico
preliminar
1. Revisão e Levantamento Bibliográfico Nessa etapa foram realizadas
pesquisas bibliográficas sobre a geologia, regional e local, assim como
pesquisas de informações cartográficas básicas como arruamento, hidrografia,
imagens de satélite etc.
2. Confecção de mapa geológico preliminar, na escala 1:25.000 Nessa etapa,
foram utilizadas imagens SRTM para adquirir informações topográficas, para
confeccionar um mapa geológico preliminar a partir do traçado das quebras
negativas no relevo. Nesse mapa preliminar foram esboçadas as interpretações
dos principais traços estruturais reconhecidos na imagem SRTM.
Nessa etapa foi confeccionado o mapa base para ser utilizado durante
as etapas de campo para navegação, contendo as informações geológicas
preliminares, e as informações cartográficas básicas como o arruamento,
hidrografia, cotas topográficas e edificações.
Nessa fase foi utilizado o software ArcGis 9.3, onde foi possível
manipular as imagens SRTM, e as demais fontes de dados para elaboração do
mapa geológico preliminar e mapa base.
3.2 Aquisição e processamento dos dados
3. Trabalhos de Campo Essa etapa totalizou 6 dias efetivos, separados em
duas etapas, quando foi realizado o mapeamento geológico, em escala
1:25.000, com ênfase na caracterização e distribuição faciológica e
empilhamento estratigráfico.
4. Confecção dos produtos cartográficos finais Nessa etapa, foi elaborado o
mapa final, assim como uma seção geológica que ilustram o presente relatório
utilizando os softwares ArcGis 9.3 e o CorelDRAW.
Nessa etapa foi elaborada ainda uma coluna estratigráfica que exibe o
empilhamento das unidades faciológicas da área. Que foi ainda utilizada para
confecção de uma seção de correlação geológica na qual foi construída pela
interpolação de dados de poços fornecidos pela Petrobras e CPRM com a
coluna estratigráfica construída.
29
3.3 Análise e interpretação dos dados coletados
5. Integração dos dados por ultimo as fácies sedimentares, foram agrupadas
em associações, com o intuito de interpretar os processos que as formaram.
Possibilitando a inferir o ambiente geológico que foram depositadas.
4 RESULTADOS
4.1 Fácies Sedimentares
Uma vez finalizadas as etapas de campo, coletas de dados da sucessão
estratigráfica, existe a necessidade de agrupar as informações através das
fácies. Tucker (2014) define fácies como um conjunto particular de atributos
sedimentares característicos, tais como: litologia, textura, estruturas
sedimentares, conteúdo fossilífero, cor, geometria, processos de formação e
padrão de paleocorrentes, entre outros. A analise da fácies permite inferir o
processo que a produziu, levando em consideração que processos
diagenéticos e pós-deposicionais podem modifica-las. Uma fácies pode se
repetir varias vezes na sucessão, ou então mudar vertical e horizontalmente.
Ao longo das etapas de campo foram descritas 23 fácies, que estão
descritas a seguir, levando em consideração suas características
sedimentares, assim como a interpretação do processo que a formou de
acordo com os seguintes trabalhos: (Suguio, 2003), (Tucker, 2014) e (Miall
1985). A Tabela 1 resume as fácies descritas, assim como os processos que
atuaram durante sua deposição. A nomenclatura e as siglas foram baseadas
em Tucker (2014), a classificação consiste em duas partes, a primeira com
letra maiúscula representa a litologia, exemplo: Arenito=A ou diamictito=D; a
segunda letra, minúscula representa a estrutura, exemplo: Estratificação
Cruzada Tabular=ct, Marca Ondulada Simétrica=os.
Fácies
Sigla
Processo Deposicional
Folhelho Negro
F
Processos de suspensão, unidirecionais, em regime de fluxo
inferior e baixa densidade.
30
Ritmito
Rpp
Ritmito pelítico, alternância de processos de decantação e
sedimentação em fluxo inferior por suspensão de sedimentos
em fluidos de baixa densidade. Em ritmitos arenosos, a
alternância ocorre entre processos de regime de fluxo inferior,
ora decantação, ora tração de sedimentos arenosos.
Siltito com
laminação plano-
paralela
Fpp
Sedimentos depositados, majoritariamente por processos de
decantação, ou ainda fluxo inferior de baixa densidade.
Lamito maciço
Fm
Infere-se que tenha ocorrido rápida sedimentação (descarga
abrupta).
heterolito wavy e
linsen com plano
paralela
Hwl-
pp
A estrutura wavy indica proporções semelhantes de processos
de tração alternados com decantação, a estrutura linsen
reflete a predominância de processos de decantação. A
laminação plano-paralelas é formada em regime de fluxo
inferior, unidirecionais, a partir de sedimentos em suspensão,
em correntes de baixa densidade.
Heterolito wavy
com bioturbação e
marca ondulada
simétrica
Hw-b-
os
Regime de fluxo inferior, produzidas por fluxo oscilatório de
ondas. Além disso, a bioturbação indica ambiente oxigenado.
A estrutura wavy é resultado da alternância de processos de
tração e decantação, ocorrendo em proporções iguais.
Arenito com flaser
e climbing ripples
Af-cr
Produto da alternância dos processos de tração e decantação,
predominado a tração. A presença das climbing ripples nos
níveis arenosos indica que durante os processos de tração
ocorre um regime unidirecional, onde ocorre a migração de
ripples assimétricas que cavalgam entre si.
Arenito com flaser
Af
Produto da frequente alternância de atuação de processos de
tração e decantação, mas ocorrendo preferencialmente os
processos de deposição de areia.
Arenito com
estratificação
Aca
Forma-se quando os sedimentos arenosos são depositados
através de fluxos inferiores, trativos e unidirecionais, através
31
cruzada
acanalada
da migração das dunas subaquosas de cristas sinuosas.
Arenito com
estratificação
cruzada tabular
Act
Sedimentos arenosos depositados através de fluxos inferiores,
trativos e unidirecionais, como produto da migração de dunas
subaquosas com cristas retas.
Arenito com
estrtificação plano-
paralela
App
Gerada por processos de tração provocados por correntes de
fundo de leito plano em regime de fluxo superior, sob uma
lâmina de água pouco espessa.
Arenito maciço
Am
Formada por processos de deposição acelerada, como em
dispersões sedimentares aceleradas, tal quais os movimentos
gravitacionais.
Arenito com marca
ondulada simétrica
Aos
Produto de processos de tração em fluxos oscilatórios que
ocorrem em leitos ondulados.
Arenito com marca
ondulada
assimétricas
Aoa
Formada por processos de deposição por tração em fluxos
unidirecionais de regime inferior.
Arenito com
climbing ripples
Acr
Se formam pela migração do leito ondulado, ocorre em regime
de fluxo unidirecional trativo, onde ocorre a migração de
ripples assimétricas que cavalgam entre si.
Arenito com
estrutura em
chamas e dobras
sinsedimentares
Asc
Escorregamentos originados pela rápida sedimentação em
vertentes acentuadas, ou ainda pelo caráter dúctil dos
sedimentos recém depositados sotopostos à fácies.
Arenito com
estratificação
hummocky
Ah
Formada por fluxos oscilatórios de grande comprimento de
onda, relacionadas a tempestades.
Arenito com
gradação normal
Ag
Formada pela diminuição de energia de transporte por tração
ao longo de certo período de tempo, fazendo com que
deposite grãos mais grossos na base da camada e
32
gradacionalmente grãos mais finos
Areia com
estratificação
cruzada
Aica
Forma-se quando os sedimentos arenosos são depositados
através de fluxos inferiores, trativos e unidirecionais, pela
migração das dunas subaquosas de cristas sinuosas.
Areia lamosa com
estratificação
plano paralela
Aipp
Forma-se quando os sedimentos arenosos são depositados
através de fluxos inferiores, trativos e unidirecionais, através
da migração das dunas subaquosas de cristas sinuosas.
Seixos
inconsolidados
S
Processos de tração e rolamento no fundo do rio, onde a
direção do fluxo é oposta à direção de mergulho do eixo maior
dos clastos.
Diamictito
D-r
Produto de movimentos gravitacionais de massa (MTD’s),
podendo ser ressedimentação de depósitos antigos da própria
bacia sedimentar.
Paraconglomerado
Pcm
Fluxo superior de alta densidade, gravitacionais, com rápida
deposição de detritos e sedimentos finos.
Tabela 1: fácies sedimentares descritas durante esta caracterização geológica. Código
adaptado de Tucker (2004).
Folhelho negro (F)
São folhelhos, de cor cinza escuro, constituídos de matriz silte-argilosa e
traços de areia fina quartzosa no arcabouço (Figura 9). laminação plano-
paralela de espessura milimétrica a centimétrica. São encontrados icnitos de
locomoção, classificados como nereites, com base em Pemberton et al. (1992).
Esta fácies ocorre nos pontos 45, 48, 60, 61, 62, 64, 65, 66, 67, 68, 73, 74, 75,
76, 77, 78 e 104.
33
Figura 9 Fotografia da fácies F. Folhelhos negros com laminação plano-paralela com
icnitos de locomocação encontrados no Ponto 65.
A presença de laminação plano-paralela indica processos de decantação
em ambientes calmos.
Ritimito (Rpp)
Constituído por alternância de lâminas cinza-claro siltosas com lâminas
cinza-escuro argilosas, de espessuras milimétricas a centimétricas a
laminação é plano-paralela (Figura 10). Em certos intervalos, a alternância é
entre níveis silte-argilosos e areia fina a média, subangulosa, de composição
quartzosa com mica branca, com estratificação cruzada de pequeno porte e
marcas onduladas assimétricas. Ocorre nos pontos 1, 20, 46, 47, 67, 76, 77,
84, 102 e 103.
Figura 10 Fotografia da fácies Rpp. (a) ritmito pelítico com laminação plano-paralela,
encontrado no Ponto 20; (b) ritmito areno-siltoso com estratificação cruzada de
pequeno porte em nível arenítico, observado no Ponto 77.
No caso do ritmito pelítico, há alternância de processos de decantação e
sedimentação em fluxo inferior por suspensão de sedimentos em fluidos de
baixa densidade. Em ritmitos arenosos, a alternância ocorre entre processos de
A
B
A
B
34
regime de fluxo inferior, ora decantação, ora tração de sedimentos arenosos. A
estratificação cruzada de pequeno porte ocorre com fluxos trativos e
unidirecionais, com migração de dunas subaquosas.
Siltito com laminação plano-paralela (Fpp)
Esta fácies é descrita como siltitos branco acastanhados a cinza claros,
com tons róseos e matriz composta de silte e argila, de 90 a 100%. Em certos
intervalos, está presente um arcabouço contendo areia fina, perfazendo até
10% da rocha, composta por quartzo e muscovita. Há laminação plano-paralela
de espessura milimétrica a centimétrica (Figura 11). Em alguns níveis, há
intensa silicificação e fraturamento, podendo ser preenchido por óxidos de Fe e
Mn. Assim como a fácies Fh, esta também ocorre frequentemente de forma
friável, se desplacando muito facilmente. Esta fácies foi observada nos pontos
5, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 15, 16, 17, 27, 37, 38, 39, 41, 43, 45, 50, 52, 53, 57,
69, 79, 82, 83, 85, 86, 87, 88, 89, 90, 91, 92 e 106.
Figura 11 Fotografia da fácies Fpp. Siltitos com laminação plano-paralela do Ponto
79 (a) e Ponto 89 (b).
Depósitos por decantação de sedimentos em suspensão, ou ainda, por
fluxos de baixa densidade (Tucker, 2014).
Lamito maciço (Fm)
Esta fácies compreende lamitos acastanhados, com matriz argilo-siltosa
em razões semelhantes, e estrutura maciça. Ocorre nos pontos 23, 39 e 45.
A
A
B
35
Uma vez que não estrutura evidente formada durante a deposição
dos sedimentos, infere-se que tenha ocorrido rápida sedimentação (descarga
abrupta).
Heterolito wavy e linsen com plano-paralela (Hwl-pp)
Esta fácies contém heterolitos wavy e linsen, onde há, em certos
intervalos, razões semelhantes de níveis cinza-escuros argilo-siltosos e níveis
acastanhados de areia fina a média subangulosa quartzosa e micácea (Figura
12). Já em outros intervalos, a proporção dos níveis lamosos se sobrepõe aos
níveis arenosos (linsen). Ao todo, há laminação plano-paralela, que pode estar
ondulada. Por vez, apresenta concreções ferruginosos penecontemporâneas.
Esta fácies ocorre no ponto 2, 3, 4, 14 e 106.
Figura 12 Fotografia da fácies Hwl-pp (a) heterolito wavy com concreção ferruginosa
penecontemporânea do Ponto 3; (b) heterolito linsen com laminação plano-paralela
encontrado no Ponto 106.
Enquanto a estrutura wavy indica proporções semelhantes de processos
de tração alternados com decantação, a estrutura linsen reflete a
predominância de processos de decantação. As laminações plano-paralelas
são formadas em regime de fluxo inferior, unidirecionais, a partir de sedimentos
em suspensão, em correntes de baixa densidade (Tucker, 2014).
Heterolito wavy com bioturbação e marca ondulada simétrica (Hw-
b-os)
Compreende heterolitos wavy, com níveis cinza-escuros de argila e silte
intercalados com níveis acastanhados de areia fina a média subangulosa
(Figura 13), composta predominantemente por quartzo e muscovita, em
A
B
A
36
proporções semelhantes. laminação plano-paralela, bioturbação e marcas
onduladas simétricas. Encontrado no Ponto 97.
Figura 13 Fotografia da fácies Hw-b-os. Heterolito wavy com bioturbação e marcas
onduladas simétricas, encontrado no Ponto 97.
As marcas onduladas simétricas indicam regime de fluxo inferior,
produzidas por fluxo oscilatório de ondas. Além disso, a bioturbação indica
ambiente oxigenado. A estrutura wavy é resultado da alternância de processos
de tração e decantação, ocorrendo em proporções iguais (Tucker, 2014).
Arenito com flaser e climbing ripples (Af-cr)
A fácies descrita como um arenito apresentando estrutura heterolítica
flaser, assim como climbin ripples foi observada nos pontos: 72, 81 e 102. São
arenitos de cor castanhos claro, com arcabouço composto majoritariamente por
areia fina a muito fina e matriz de silte e argila, composta basicamente por
quartzo (100%) e muscovita (TR). Os grãos possuem baixa esfericidade e são
subangulosos a subarredondados, moderadamente selecionados. A rocha é
imatura texturalmente e supermatura mineralogicamente. Ocorrem finos níveis
de argila em meio ao arenito caracterizando a estrutura heterolítica flaser
(Figura 14a), nos níveis arenosos é possível observar climbing ripples de
pequeno porte (Figura 14b). Alguns níveis argilosos em meio às estruturas
trativas se assemelham aos drapes de argila descritos na literatura.
37
Figura 14 Fotografica da fácies Af-cr. (a) Arenito flaser com climbign ripples no ponto
73. (b) Detalhe da figura A.
A estrutura flaser se forma como produto da alternância dos processos
de tração e decantação, predominado a tração, por este motivo temos mais
areia que argila. A presença das climbing ripples nos níveis arenosos indica
que durante os processos de tração ocorre um regime unidirecional, onde
ocorre a migração de ripples assimétricas que cavalgam entre si.
Arenito com estratificação flaser (Af)
A fácies que apresenta estratificação heterolítica flaser gradando do tipo
simples até bifurcada e ondulada, segundo a classificação de Reineck & Singh
(1975). Foi discriminada nos pontos de campo: 18, 19, 73, 97, 102 e 106. É
caracterizada por arenito fino castanho claro acinzentado, compostos
predominantemente por grãos de areia, em pouca (<5%) matriz de silte a
argila, de composição mineralogica de quartzo, muscovita subordinada e
argilominerais em meio a matriz. É, então, maturo mineralogicamente e
submaturo texturalmente. Ocorrem lâminas milimétricas dispersas, formadas
por argila e silte de cor castanho escuro. As lâminas de lamito apresentam
formas onduladas, muitas vezes estando preservadas as calhas e as cristas
destas formas (Figura 15). Em certas porções dos afloramentos foi observada
uma gradação total entre as estratificações flaser e linsen.
A estrutura flaser se forma como produto da frequente alternância de
atuação de processos de tração e decantação, mas ocorrendo
preferencialmente os processos de deposição de areia (Suguio, 2003).
A
B
38
Figura 15 Fotografia da fácies Af. Heterolito com estratificação linsen gradando pra
arenito com estratificação linsen do tipo ondulada.
Arenito com estratificação cruzada acanalada (Aca)
A cies descrita como um arenito apresentando estratificação cruzada
acanalada de pequeno a médio porte foi observada nos pontos: 25, 29, 30, 32,
49, 58, 81, 100 e 106. São arenitos de cor castanhos alaranjado, com
arcabouço composta por areia e fina a média e matriz de silte e argila,
composta basicamente por quartzo (95%), feldspato (5%), máficos (TR) e mica
(TR). Os grãos possuem baixa esfericidade e são subangulosos a
subarredondados, moderadamente selecionados. A rocha é matura
texturalmente e supermatura mineralogicamente. Apresentando uma
estratificação cruzada acanalada de pequeno porte (Figura 16), e localmente
de médio porte. Os estratos apresentam uma granodecrescência ascendente
partindo de uma areia média a grossa, as vezes muito grossa da base, até uma
areia média a fina, as vezes muito fina no topo.
A
B
39
Figura 16 Fotografia da fácies Aca. (a) Arenito com estratificação cruzada de médio
porte no ponto 53. (b) Arenito com estratificação cruzada de pequeno porte no ponto
73.
A estratificação cruzada acanalada se forma quando os sedimentos
arenosos são depositados através de fluxos inferiores, trativos e unidirecionais,
através da migração das dunas subaquosas de cristas sinuosas. A gradação
normal indica fluxos desacelerantes ou waving flows (Tucker, 2014).
Arenito com estratificação cruzada tabular (Act)
A cies descrita como um arenito apresentando estratificação cruzada
tabular foi observada nos pontos: 6, 73, 93 e 113. São arenitos de cor cinza
claro esbranquiçado, com arcabouço composto areia fina a média, e matriz de
silte e argila, composta basicamente por quartzo (100%) e máficos (TR). Os
grãos possuem baixa esfericidade e são subangulosos a subarredondados,
moderadamente selecionados. A rocha é matura texturalmente e supermatura
mineralogicamente. Apresentando uma estratificação cruzada tabular de
pequeno a médio porte (Figura 17).
Figura 17 Fotografia da fácies Act. Arenito com estratificação cruzada tabular no
ponto 73.
A estratificação cruzada tabular se forma quando os sedimentos
arenosos são depositados através de fluxos inferiores, trativos e unidirecionais,
como produto da migração de dunas subaquosas com cristas retas (Tucker,
2014).
40
Arenito com estratificação plano-paralela (App)
A cies descrita como um arenito apresentando estratificação paralela
ao acamamento foi observada nos pontos: 32, 34, 35, 47, 91,93, 94, 95, 96, 97,
98, 102, 106 e 108. São arenitos de cor castanhos claro, com arcabouço
composto por areia fina a média e matriz de silte e argila, composta
basicamente por quartzo (100%) e em alguns locais muscovita (TR). Os grãos
apresentam baixa esfericidade e são subangulosos a subarredondados, bem
selecionados. A rocha é matura texturalmente e supermatura
mineralogicamente. Apresentando uma estratificação localmente uma
laminação plano-paralela (Figura 18), de médio porte. Em alguns afloramentos
é possível observar uma granodecrescência ascendente nos estratos.
Figura 18 Fotografia da fácies App. Arenito com estratificação plano paralela no
ponto 102.
A estratificação ou laminação plano-paralela é gerada por processos de
tração provocados por correntes de fundo de leito plano em regime de fluxo
inferior, sob uma lâmina de água pouco espessa. A gradação normal indica
fluxos desacelerantes ou waning flows.
Arenito maciço (Am)
A fácies Am foi identificada em poucos afloramentos: 26, 43 e 91 (há
diversos afloramentos em que nenhuma estrutura foi identificada e então
denominados como “aparentemente maciços”, esses não foram considerados
aqui). É caracterizado por estratos tabulares decimétricos (cerca de 0,5 m) de
arenitos maciços médios a grossos (Figura 19), moderadamente selecionados,
41
compostos por grãos de quartzo subangulosos a subarredondado em meio a
matriz silto-argilosa.
A estrutura maciça é formada por processos de deposição acelerada,
como em dispersões sedimentares aceleradas, tal quais os movimentos
gravitacionais.
Figura 19 Fotografia da fácies Am. Estrato decimétrico de arenito maciço
(afloramento 91).
Arenito com marca ondulada simétrica (Aos)
A fácies (Figura 20) descrita como um arenito apresentando estrutura
heterolítica flaser, foi discriminada nos pontos de campo, 45, 97 e 102. É
caracterizada por arenito fino castanho acinzentado amarelado, compostos
predominantemente por grãos de areia, em pouca matriz de silte a argila
(<5%), de composição mineralógica de quartzo, muscovita subordinada e
argilominerais, compondo a matriz. É, então, maturo mineralogicamente e
texturalmente. Apresenta marcas onduladas simétricas, de comprimento de
onda de até 20 centímetros.
As marcas onduladas são produto de processos de tração em fluxos
oscilatórios que ocorrem em leitos ondulados.
42
Figura 20 Fotografia da fácies Aos. Marcas onduladas simétricas em arenito fino
(afloramento 97).
Arenito com marcas onduladas assimétricas (Aoa)
A fácies Aoa (Figura 21a) foi identificada nos afloramentos: 40, 41, 47 e
73. É caracterizada por camadas tabulares decimétricas a métricas de arenito
fino a médio, de cor castanho claro acinzentado, composta por quartzo,
argilominerais e minerais máficos escuros em grãos subarredondados e com
alta esfericidade. Sendo arenitos maturos mineralogicamente e texturalmente.
Apresenta marcas onduladas assimétricas, caracterizadas por comprimentos
de onda de poucos centímetros até 20 centímetros. Dentro das marcas pode
ser encontrada laminação cruzada de pequeno porte (Figura 21b) indicando o
sentido de paleocorrente.
Essa estrutura é formada por processos de deposição por tração em
fluxos unidirecionais de regime inferior.
Figura 21 Fotografia da fácies Aoa. (a) marcas onduladas assimétricas de pequeno
porte, em arenito fino-médio do afloramento 41; (b) marcas onduladas de pequeno
A
m
a
r
c
a
s
o
n
d
u
B
m
a
r
c
a
s
o
n
d
u
43
porte em arenito fino, onde é possível observar laminação cruzada de pequeno porte
(afloramento 47).
Arenito com climbing ripples (Acr)
A fácies descrita como um arenito apresentando climbing ripples foi
observada nos pontos: 30, 40, 41, 46, 47, 58, 73 e 106. São arenitos de cor
castanhos claro, com arcabouço composto por areia média a areia fina, e
matriz de silte e argila (TR), composta basicamente por quartzo (100%),
feldspato (TR), e mica (TR). Os grãos apresentam baixa esfericidade e são
subangulosos a subarredondados, moderadamente selecionados. A rocha é
matura texturalmente e supermatura mineralogicamente. Apresentando
climbing ripples de pequeno porte (Figura 22), e localmente de médio porte.
Analisando o empilhamento estratigráfico podemos evidenciar que as ripples
aumentam em quantidade e em tamanho da base para o topo da coluna.
Figura 22 Fotografia da fácies Acr. Arenito com climbing ripples no ponto 46.
As climbing ripples se formam pela migração do leito ondulado, ocorre
em regime de fluxo unidirecional trativo, onde ocorre a migração de ripples
assimétricas que cavalgam entre si.
Arenito com Estrutura de Sobrecarga (Asc)
A fácies descrita como um arenito apresentando deformações plásticas
sinsedimentar foi observada nos pontos: 47, 60 e 73, ocorrendo sempre no
contato entre a unidade mais basal da aera e unidade localizada
estratigraficamente logo acima desta. São arenitos de cor castanhos claro, com
arcabouço composto por areia fina a muito fina e matriz de silte e argila,
composta basicamente por quartzo (100%). Os grãos possuem baixa
44
esfericidade e são subangulosos a subarredondados, bem selecionados. A
rocha é matura texturalmente e supermatura mineralogicamente. Apresentando
deformações plásticas na forma de dobras convolutas centimétricas a
milimétricas (Figura 23a), e estrutura em chamas (Figura 23b).
Figura 23 Fotografia da fácies Asc. (a) Dobras convolutas em arenito fino no ponto
47 (b) Estrutura em chamas também no ponto 47.
Essas estruturas de deformação pós-deposicionais são formados por
escorregamentos originados pela rápida sedimentação em vertentes
acentuadas onde os sedimentos ainda recém depositados e plásticos se
deformam em resposta a carga imposta à estes, gerando por exemplo as
dobras convolutas (Tucker, 2014).
Arenito com estratificação hummocky (Ah)
Esta fácies foi individualizada em apenas um ponto (56), onde ocorre
arenito fino de cor castanho médio, composto por quartzo, mica branca e
argilominerais. São grãos arredondados e esféricos, bem selecionados. Sendo
maturo texturalmente e submaturo mineralogicamente. Apresenta estratificação
A
B
45
hummocky de médio a grande porte (Figura 24)., o qual não foi possível medir
seu comprimento de onda.
As estratificações hummocky são formadas por fluxos oscilatórios de
grande comprimento de onda, relacionadas a tempestades (Tucker, 2014).
Figura 24 Fotografia da fácies Ah: Arenito fino com Hummocky (afloramento 55).
Arenito com gradação normal (Ag)
A fácies Ag foi individualizada nos pontos: 93. Foi observada em arenitos
grossos submaturos mineralogicamente e texturalmente, com estratificação
cruzada gradando para arenitos médios com estratificações cruzadas. É
possível perceber a gradação normal também em arenitos médios com
estruturas como climbing ripples, marcas onduladas e estratificação cruzada,
gradando para arenito fino a muito fino.
A gradação normal é formada pela diminuição de energia de transporte
por tração ao longo de certo período de tempo, fazendo com que deposite
grãos mais grossos na base da camada e gradacionalmente grãos mais finos.
Areia com Estratificação Cruzada (Aic)
A fácies descrita como areia com estratificação cruzada foi observada no
ponto: 105, que está localizado na margem esquerda do Rio Itajai. Trata-se de
um deposito de areia (material ainda inconsolidado) fina a média, composta
basicamente por quartzo (100%). Os grãos apresentam baixa esfericidade e
são subangulosos a subarredondados, moderadamente selecionados. A rocha
46
é matura texturalmente e supermatura mineralogicamente. Apresentando uma
estratificação cruzada não determinada o tipo de pequeno porte (Figura 25).
Figura 25 Fotografia da fácies Aic. Areia com estratificação cruzada no ponto 105.
A estratificação cruzada se forma quando os sedimentos arenosos são
depositados através de fluxos inferiores, trativos e unidirecionais, através da
migração das dunas subaquosas de cristas sinuosas.
Areia Lamosa com Estratificação Plano-Paralela (Aipp)
A fácies descrita como areia lamosa com estratificação plano-paralela foi
observada no ponto: 105, que esta localizado na margem esquerda do Rio
Itajai. Trata-se de um deposito de areia (material ainda inconsolidado) fina a
média, com matriz de silte e argila composta basicamente por quartzo (100%).
Os grãos apresentam baixa esfericidade e são subangulosos a
subarredondados, moderadamente selecionados. A rocha é imatura
texturalmente e supermatura mineralogicamente. Apresentando uma
estratificação plano-paralela de pequeno porte (Figura 26).
47
Figura 26 Fotografia da fácies Aipp. Areia com estratificação plano paralela no ponto
105.
A estratificação ou laminação plano-paralela é gerada por processos de
tração provocados por correntes de fundo de leito plano em regime de fluxo
inferior.
Seixos inconsolidados (S)
Esta fácies é composta por clastos inconsolidados imbricados de seixos
alongados subarredondados a arredondados, constituídos de fragmentos líticos
graníticos e sedimentares (Figura 27).
Figura 27 Fotografia da fácies S. Seixos imbricados ao longo do Rio Itajaí do Sul.
Formados por processos de tração e rolamento no fundo do rio, onde a
direção do fluxo é oposta à direção de mergulho do eixo maior dos clastos.
Diamictito (D-r)
Esta fácies foi identificada em apenas dois afloramentos: 60 e 63. É
caracterizada por diamictitos castanho claro amarelado com arcabouço
B
A
A
48
composto por grânulos, seixo e a blocos (de no máximo 0,4 m), de
composição polimítica, predominando fragmentos líticos de granitoides (Figura
28a), rochas vulcânicas e blocos de arenitos deformados (Figura 28b). Estes
clastos apresentam forma elipsoidal arredondado a subarredondado e pouco
esféricos, enquanto os blocos de arenito deformados apresentam formas
irregulares que demostram a perturbação das estruturas internas dos arenitos e
dimensão métrica. Sua matriz é formada por silte e argila, podendo ser mais
arenosa em algumas porções, como identificado no afloramento 63. Por vezes,
ainda, se observa laminação plano-paralela branda. Fragmentos de vegetais
milimétricos de formas prismáticas.
A presença de blocos de arenitos métricos e deformados, indicam que a
fácies é produto de movimentos gravitacionais de massa, da ressedimentação
de depósitos da bacia, como sugere Gama Jr. et al. (1992). Com isto, com
base na classificação de Eyles et al. (1983, modificada por Vesely, 2006)
(Figura 29), foi adotada a sigla D r para estes diamictitos.
Figura 28 Fotografia da fácies D-r. (a) Diamictito, em detalhe o clasto arredondado
de granitóide (afloramento 60); (b) bloco de arenito intrabacinal deformado.
A
A
B
49
Figura 29 - Siglas de diamictitos com base em suas características. Retirado de Eyles
et al. (1983) e modificado por Vesely (2006).
Paraconglomerado (Pcm)
Corresponde a conglomerados maciços cinza a acastanhado com matriz
silte-arenosa, com predomínio de quartzo. O arcabouço, em menor proporção,
é constituído por frações de grânulo a seixo, polimíticos, subangulosos a
arredondados, compostos por fragmentos líticos graníticos e sedimentares.
Esta fácies foi encontrada nos pontos 14 e 59, em camadas de no máximo 0,5
metros de espessura.
Formados a partir de fluxo superior de alta densidade, gravitacionais,
com rápida deposição de detritos e sedimentos finos.
5 DISCUSSÕES
5.1 Associações de Fácies Sedimentares
Com a definição das fácies realizada em campo, estas foram agrupadas
por concordância de processos deposicionais pertencentes aos diversos
ambientes de deposição. Deste modo, foi possível interpretar a evolução
paleoambiental que resultou no empilhamento litoestratigráfico atual.
Foram, então, definidas quatro associações faciológicas:
I. Associação de Fácies I - Marinho profundo (ou distal);
II. Associação de Fácies II - Frente deltaica;
III. Associação de Fácies III - Bacia central de estuários;
IV. Associação de fácies IV - Barreira (shoreface/foreshore)
50
5.1.1 Associação de Fácies I - Marinho profundo
A associação de fácies marinho profundo (Figura 30) (ou marinho distal)
é caracterizada pela associação entre camadas tabulares métricas de ritmito
(R), intercalado com camadas de folhelho negro (Fn), principalmente na base
da associação e restritamente, ocorrendo em lentes espessas, diamictitos (D).
Os folhelhos negros ocorrem em camadas métricas tabulares,
principalmente nas porções mais baixas da associação. O folhelho negro é
tipicamente associado à deposição tipicamente hemipelágica. A ocorrência de
icnitos de locomoção, de nereites permite inferir um ambiente de planície
abissal, como reconhecido por Pemberton et al. (1992).
51
Figura 30 - Seção colunar composta representativa da Associação de fácies I.
A fácies de ritmito apresenta intercalação arenosa-pelítica, onde há
localmente ocorrência de marcas onduladas assimétricas com preservação de
estratificação cruzada de pequeno porte e, ainda, ritmitos de caráter pelítico.
Gama Jr., et al. (1992) descrevem a recorrência de fácies ritmitos arenosos
com estratificações cruzadas e climbing ripples em ambiente glacio-marinho
distal, ao qual os autores associam a deposição à correntes de turbidez de
baixa concentração, que podem estar relacionadas a diluição de correntes de
alta concentração confinadas (em canais). Neste processo os sedimentos são
depositados por tração em baixa velocidade, sucedidos por decantação, o que
52
demonstra a característica episódica destes processos. Em relação aos ritmitos
pelíticos, os quais os autores denominam “várvico”, é atribuído como sendo
formados apenas por processos de decantação da nuvem caudal das correntes
de turbidez de baixa concentração. A ritmicidade desta fácies é atribuída a dois
processos: sazonalidade e intercalação de decantação de correntes
superficiais com decantação das nuvens caudais, que geraria diferentes
texturas e assim a ritmicidade de lâminas; ou então, intercalação entre
decantação a partir de correntes de profundidade e das nuvens caudais (Gama
Jr. et al., 1992).
Os diamictitos, por sua vez, apresentam matriz lamosa e arenosa, com
arcabouço formado por uma gama de clastos arredondados e blocos de
arenitos deformados, ocorrem em corpos de espessura métrica, não contínuos
lateralmente, limitados na base por feições erosivas. Na literatura local, os
diamictios são atribuídos tanto a processos de fluxos densos (MTD’s) quanto a
processos de decantação de sedimentos finos com contribuição de chuva de
detritos (rain-out) a partir de icebergs (Suss & Vesely, 2014). Deste modo, é
possível inferir que as fácies de diamictitos na área estudada neste trabalho,
sejam fruto de movimentos de massa, que apresentam certa deformação
interna, com laminação plano-paralela incipiente e blocks de arenitos
deformados, não apresentam um contato gradacional com litotipos sotopostos
e sim um limite erosivo, bem como feições de influência de geleiras na
formação dos clastos.
Os trabalhos mais recentes sobre esta unidade litoestratigráfica
relacionam tanto os diamictitos quanto ritmitos a processos de retrabalhamento
subaquoso de depósitos glaciogênicos. Gama Jr., et al. (1992) e Vesely &
Assine (2005) atribuem os diamictitos a diversos movimentos de massa, tais
como deslizamentos, escorregamentos e fluxos de detritos que ocorrem no
talude continental, remobilizando depósitos de diversas gêneses, mas em geral
depósitos de recuo da geleira (tilitos) e de degelo (principalmente depósitos de
outwash). Quanto aos ritmitos recorrentes nesta unidade Gama Jr. et al.
(1992), Suss & Vesely (2014) e Vesely & Assine (2005) e Vesely (2006) os
atribuem a correntes de turbidez de baixa densidade relacionados ao
desenvolvimento desses movimentos gravitacionais em ambiente glácio-
marinho, como já citado (Figuras 31 e 32).
53
Figura 31 - Esquema de ambiente glaciomarinho, onde se observa a dinâmica de
diversos fluxos com influência da geleira. Retirado de Vesely & Assine (2005).
Figura 32 - Bloco diagrama de ambiente marinho-glacial, em um contexto de degelo,
do Grupo Itararé, que mostra MTD's sendo depositados em ambiente marinho
profundo. Retirado de Suss & Vesely (2014).
Contudo, apesar da atribuição, pela bibliografia, desses depósitos ao
ambiente glacio-marinho, nenhuma feição de influência glacial foi identificada
em campo. De modo que não seja possível afirmar que esta associação de
fácies apresente influência glacial, apenas que se formaram em ambiente
marinho profundo, com influência de movimentos de massa no talude
continental gerando as três cies encontradas. Uma delas produto de
processos de decantação, comum em ambiente marinho profundo, o folhelho
negro; as outras duas influenciadas por processos ativos no talude continetal -
os movimentos de massa: diamictitos, produto diretos desses processos,
formando depósitos restritos e os ritmitos ocorrendo próximos aos últimos e
formados indiretamente por estes.
54
5.1.2 Associação de Fácies II - frente deltaica
A associação de frente deltaica (figura 33) é caracterizada pela
intercalação de arenitos com dobras sinsedimentares (Asc), arenitos com
estratificação cruzada acanalada e tabular (Aca e Act), arenitos com ripples
assimétricas (Aoa), climbing ripples (Acr), arenitos flaser (Af-o) e arenito flaser
com climbing ripples (Af-cr), todos ocorrendo em camadas métricas acunhadas
e canalizadas, além de camadas decimétricas de heterolitos wavy e linsen
(Hwl-pp e Hw-b-os), arenitos com marca ondulada simétrica (Aos), lamitos
maciços (Fm) e, muito restritamente, paraconglomerados (Pcm).
Figura 33 - Seção colunar representativa da associação de fácies II
A associação faciólogica é interpretada como produto de frente deltaica
proximal a medial. Esta associação, contudo, é de difícil interpretação, já que a
diversidade de fácies associadas reflete um ambiente onde há uma diversidade
55
de fatores atuantes, devido à inter-relação entre processos fluviais, de maré e
de ondas.
Bhattacharya et al. (2004; 2010) descreve as frentes de deltas
dominadas por rios (Figura 34) como associações com granocrescência para o
topo, devido a progradação deltaica, onde são comuns fácies com estruturas
de alta taxa e rápida deposição, como dobras convolutas, e processos trativos,
tais como climbing ripples e estratificações cruzadas de pequeno a médio
porte. Estas são formadas pela descarga de sedimentos no mar, resultando em
fluxos hiperpicnais. Tais fluxos são subdivididos em dois tipos por Mutti et al.
(2003), um fluxo turbulento separado por densidade que transporta lama e
areia em suspensão e fluxos recorrentes com sedimentos rudíticos, que são de
rápida deposição, formando gradação longitudinal inversa. Estas
características de frentes deltaicas são, contudo, frequentemente alteradas
pela ação de ondas e marés em diferentes proporções (Bhattacharya et al.,
2004). De modo que a associação faciológica aqui descrita se assemelha muito
com a associação de fácies II, no entanto, a última apresenta fácies
heterolíticas, não citadas no modelo desses autores, estruturas de fluxo
oscilatório e uma tendência geral de granodecrescência.
Figura 34 - Três tipos de deltas: dominados por rios, influenciados por ondas de
tempestado e dominados por ondas de tempestade. Neste contexto as associações
aqui descritas corresponderiam ao modelo de deltas dominados por rios.
Os heterolitos são formados em diversos ambientes sedimentares, mas
apresentam extrema importância em ambientes influenciados por maré, assim
como relata Dalrymple (2010). O autor, ao tratar de modelos de fácies nestes
56
ambientes, ressalta a importância da ocorrência de heterolitos, os quais são
chamados de non-cyclic rhythmites, que são formados por recorrentes
alternâncias nos níveis de maré. Quando da presença de fortes correntes de
maré atuantes, mud drapes são encontradas em meio a arenitos com
estruturas trativas climbing ripples do mesmo modo que na associação
faciológica II, além da presença de fácies de caráter mais lamoso (heterolitos
wavy e linsen).
É possível, então, identificar uma interação de processos deltaicos e de
maré através da associação de fácies encontrada na área de trabalho. Do
mesmo modo, as estruturas de fluxo oscilatório podem ocorrer em frentes
deltaicas quando influência ou mesmo predominância da ação das ondas
(Bhattacharya et al., 2004). A recorrência dessas últimas fácies, em associação
com as demais citadas, nos leva a interpretar a formação desta associação a
um ambiente deltaico com influência de ondas e maré, ou seja, um sistema
misto.
A progradação deltaica gera uma associação de fácies com
granocrescência ascendente, diferentemente da tendência geral encontrada na
região, onde a sucessão de fácies encontrada começa com arenitos médios
passando para fácies mais finas e heterolíticas. Isto pode ser explicado, por
uma tendência agradativa e não progradativa, como comum em deltas. Essa
tendência poderia fazer com que fácies mais distais da frente deltaica
sobrepusessem fácies menos distais, em um ciclo de caráter mais
transgressivo para esta unidade litoestratigráfica, assim como citam Zacharias
& Assine (2005).
Zacharias & Assine (2005) em trabalhos no Permiano da Bacia do
Paraná, reconhecem associações de ambiente estuarino misto, os quais
relacionam estruturas heterolíticas aos processos de maré, no entanto, não foi
descrito a presença de deltas propriamente ditos, o que dificulta a comparação.
Em outros trabalhos sobre a transição da Fm. Rio do Sul com a Fm. Rio Bonito,
como Vesely (2006), trata a presença de fácies heterolíticas como depósitos de
franjas distais de lobos de frente deltaica retrabalhados por ondas. Castro
(1992; 2005), sobre as fácies deltaicas da Fm. Rio Bonito, descreve fácies de
arenitos com estruturas de tração com mud-drapes intercalados com fácies
heterolíticas e bioturbadas, ao qual associa a uma frente deltaica medial.
57
De modo geral, a interpretação do ambiente de sedimentação desta
associação é complexa, devido às múltiplas variantes que atuam nesses
sistemas. É, contudo, possível definir um ambiente de frente deltaica, que
apresenta tanto fácies proximais a mediais intercaladas, retrabalhadas por
ondas e/ou marés. Na sessão 5.3 serão novamente discutidos alguns pontos
acerca deste ambiente, uma vez que a sucessão de fácies definida neste
trabalho fornece melhores informações sobre o caráter transgressivo imperante
neste ambiente, ou seja, um sistema estuarino, diferente do modelo
progradante dos deltas.
5.1.3 Associação de fácies III bacia central de estuários
A associação faciológica III (Figura 35) é formada pela correlação entre
estratos tabulares e métricos de siltito com laminação plano-paralela (Sp),
arenitos muito finos com laminação plano-paralela (Ap) e, localmente, ritmitos
pelíticos (R). A associação é interpretada como formada em ambiente onde
predominava eventos de decantação, mas que estava sujeito a incursões
marinhas depositando arenitos finos com estratificação plano-paralela.
58
Figura 35 - Seção colunar representativa da associação de fácies III.
A zona central de sistemas estuarinos são zonas de baixa energia, onde
a energia fluvial e das ondas é anulada, esta zona é chamada de bacia central
(Zaitlin et al., 2004), onde predomina a deposição de siltitos e lamitos com
variáveis graus de bioturbação. Longe da ação das ondas e dos rios, estas
regiões podem experimentar episódios de avanço da maré, formando canais de
fluxo da maré em direção ao continente. Os produtos destes processos são
fácies de arenitos finos com laminação plano-paralela (Zaitlin et al., 2004).
Dalrymple et al. (2007) descrevem, em sistemas estuarinos, a formação
de fácies de arenitos fino a muito finos com laminação plano-paralela aos
quais atribui um sistema de canais e barras distributárias de maré. Local este
que os autores descrevem como o local de sedimentação das areias mais finas
no sistema estuarino, principalmente aqueles dominados por maré. Estes
sedimentos seriam levados do mar para dentro do estuário e transportados por
fluxo superior unidirecional, uma vez que essa região não seria afetada pela
energia dos fluxos fluviais.
59
De modo geral a associação é interpretada como uma bacia central de
estuário, onde predomina processos de decantação, com a formação de siltitos
de modo semelhante aos mud flats, de Dalrymple et al. (2007).
Esporadicamente, essa bacia seria invadida pela ação da maré depositando
finos arenitos em canais confinados ou não, ou então em barras distributárias,
formando finos arenitos com laminação/estratificação plano-paralela, como
descrito por Dalrymple et al. (2007) (Figura 36). Nesta associação de fácies
abstenção de fácies de fluxo oscilatório que indicariam contribuição das ondas
no sistema. Isto leva a entender que esta associação fora formada em um
ambiente com anulação de energias e, provavelmente, com ação esporádica
das marés. A falta de fósseis e de uma sistemática aferição e análise de dados
de paleocorrentes dificulta a certeza quanto tal interpretação, mas como será
discutido na sessão 5.3, esta interpretação pode corresponder ao
empilhamento proposto.
Figura 36 - Modelo de estuário dominado por maré, que difere, em partes, do ambiente
proposto neste trabalho. Atentar para a relação entre a porção onde ocorre a mud flat
e as barras distributárias, na porção central do estuário. Retirado de Dalrymple et al.
(2007).
5.1.4 Associação de fácies IV barreira (foreshore/shoreface)
Associação faciológica formada pelas fácies de arenito com
estratificação hummocky (Ah), arenitos limpos com estratificação cruzada
60
acanalada (Aa), estratificação plano-paralela, climbing ripples (Acr), arenito
com marcas onduladas assimétricas (Aoa) e simétricas (Aos) e restritamente
ocorrem heterolitos wavy e linsen (Hwl-pp) no topo da associação (Figura 37).
Figura 37 - Seção colunar representativa da associação de fácies IV.
A ocorrência predominante nesta associação é a das fácies de arenitos
com estratificação cruzada acanalada e arenitos com climbing ripples que são
característicos de diversos ambientes deposicionais onde predominam
processos trativos, tais como processos fluviais meandrantes, deltaicos e os
diversos ambientes praiais. A presença, no entanto, de fácies formadas em
fluxos oscilatórios e por ondas de tempestades, permite ter certeza que a
associação foi formada em ambiente marinho.
Clifton (2004) ao retratar o modelo de fácies para ambientes costeiros
descreve a presença de estratificações cruzadas de médio porte nas porções
de superiores do shoreface, associadas a marcas onduladas assimétricas e
climbing ripples; estratificações de tempestitos e marcas onduladas simétricas
na porção baixa e média do shoreface (Figura 38).
61
Figura 38 - (a) perfil dos ambientes de praia ao offshore; (b) seção colunar
representativa dos diferentes ambientes deposicionais costeiros. Retirado de Walker &
Plint (1992).
A associação faciológica, então, é interpretada como formada em um
ambiente com alta energia de ondas capaz de gerar estruturas de fluxo
superior (estratificação plano-paralela), de fluxo inferior e de fluxo oscilatório.
De modo geral, se assemelha com a porção superior do shoreface, foreshore
e, mais restritamente, porção média e inferior do shoreface. A denominação de
barreira aqui utilizada se deve ao entendimento do empilhamento estratigráfico
e evolução paleoambiental adotadas neste trabalho e discutidas na sessão 5.3.
Uma vez que as barreiras formadas na desembocadura de estuários sofrem
intensamente a ação das ondas e da maré, podendo ser caracterizada como
uma zona de praia clássica shoreface (Zaitlin et al., 2004). Canais de maré
podem modificar essas porções do estuário, apresentando fácies típicas, no
entanto, quanto maior a influência das marés, menor é a preservação das
estruturas de fluxo oscilatório e de ondas de tempestade.
62
5.1.5 Associação de fácies V fluvial recente
A associação é caracterizada pela correlação das fácies de sedimentos
inconsolidados encontrados no vale do Rio Itajaí do Sul, encontradas em
exposições em afloramentos naturais na margem do rio. São depósitos de
seixos imbricados (S), sobrepostos por areias médias com estratificação
cruzada (Aic) e areia lamosa com laminação plano paralela (Aipp).
É interpretada como depósitos fluviais do Rio Itajaí do Sul, já que
apresentam estruturas indicativas de processo deposicional por tração,
associadas às barras de canal, por fluxo denso, associadas a processos
gravitacionais que preencheram o canal fluvial e então, estes seixos passaram
a ser retrabalhados.
5.2 Sucessão e Unidades Litoestratigráficas
O trabalho de mapeamento no município de Alfredo Wagner resultou na
identificação e descrição de 5 unidades litoestratigráficas. Tais unidades foram
separadas ainda antes das etapas de campo através do traçado das quebras
negativas de relevo usando as curvas topográficas. Durante a realização do
campo essas unidades foram descritas detalhadamente, seus contatos foram
refinados e classificados como definidos.
A distribuição dos pontos de descrições de cada unidade pode ser
observada no “Mapa de Pontos” em anexo a esse relatório. Tais pontos foram
feitos ao longo das estradas secundarias e da rodovia SC-350 que corta área
estudada. Algumas porções do mapa não tiveram pontos de descrição em
virtude da dificuldade de acesso, tendo em vista que é uma região dominada
por agricultura, o numero estradas é restrito e existem grandes áreas de
propriedades cercadas e sem acesso direto.
A seguir serão descritas as 5 unidades em uma ordem estratigráfica
partindo da mais antiga até a mais recente. Levando em consideração
trabalhos clássicos assim como releituras destes trabalhos que descrevem as
sequências permocarboníferas da bacia do Paraná, tais como: Assine (1996),
Castro (2005), Eyles (1993), França (1988), Fernandes (1996), Gama (1992),
Maack (2001), Milani (1997 e 1998), Vesely e Assine (2006) e Schneider et al..
(1974) essas unidades foram renomeadas para nomes consagrados de
63
formações e membros. Desta forma as cinco unidades são: Unidade 1-
Formação Rio do sul; Unidade 2- Formação Rio Bonito- Membro Triunfo;
Unidade 3- Formação Rio Bonito- Membro Paraguaçu; Unidade 4- Formação
Rio Bonito- Membro Siderópolis e Unidade 5- Depósitos Recentes.
De acordo com dados de campo as Unidades 1 a 4 encontram-se
basculadas por processos tectônicos posteriores, apresentando um mergulho
de 2 a 5° principalmente para oeste.
5.2.1 Unidade 1- Formação Rio do Sul
Essa unidade corresponde à base da coluna estratigráfica da área
estudada, ela encontra-se aflorante na porção central nas cotas altimétricas
mais baixas, junto ao Rio Itajaí do Sul. A espessura corresponde a cerca de
120 metros, com uma vasta continuidade lateral, com cerca de 7,02 K
aflorantes que corresponde a 18,7% da área mapeada.
Litologicamente essa unidade é composta por folhelhos negros
(Fácies F), gradando para ritimitos (Fácies Rpp) em direção ao topo, com dois
níveis onde foram encontrados diamictitos (Fáceis D) que possuem pouca
continuidade lateral.
Dentro desta unidade, no ponto 68 junto ao rio Itajaí do Sul, é possível
observar uma rocha ígnea básica intrudida ao longo do plano de acamamento
do folhelho (Figura 39). Trata-se de um diabásio (Figura 40) de cor cinza
escura e granulação fina a muito fina, composto basicamente por feldspato e
piroxênio, com estrutura maciça, localmente vesicular, e textura porfirítica. Os
fenocristais são de plagioclásio anédricos variando de 0,5 a 2 cm, dispostos em
meio a uma matriz fenerítica fina a afanítica. Esse corpo ígneo é uma soleira
pertencente a Província Magmática do Paraná, que gerou junto ao contato com
o folhelho um metamorfismo de contato restrito a poucos centímetros.
64
Figura 39 - Soleira de diabásio intrudida ao longo do plano de acamamento do folhelho
no ponto 68.
Figura 40 - Diabásio da soleira encontrada no ponto 68.
Essa unidade corresponde a Associação de fáceis II, interpretada como
um ambiente marinho profundo. Levando em consideração os litotipos
descritos assim como o ambiente de sedimentação desta unidade, ela é
interpretada como pertencente ao Grupo Itararé, tal como descrito por Milani
(1997). No entanto, o Grupo Itararé é subdividido por diversos autores em
formações e membros, sendo assim essa unidade pode ser correlacionada à
Formação Rio do Sul de Schneider et al. (1974) ou à Formação Taciba de
França e Potter (1988). Dentro da Formação Taciba podemos ainda
correlacionar a Unidade 1 com o Membro Rio do sul.
A Formação Rio do Sul (Schneider et al. 1974) assim como o Membro
Rio do Sul da Formação Taciba (França e Potter, 1988) correspondem a
porção superior do Grupo Itararé, e ambos são constituídos principalmente por
folhelhos, folhelhos com seixos caídos, arenitos finos, ritmitos e diamictitos,
formados em ambiente marinho profundo.
5.2.2 Unidade 2- Formação Rio Bonito, Membro Triunfo
Essa unidade esta localizada estratigraficamente acima da Unidade 1, o
contato entre elas foi observado nos pontos 47, 60 e 73, descrito como abrupto
e erosivo. Entre as duas unidades nestes pontos ocorre um arenito fino a muito
fino apresentando estruturas de deformação sinsedimentares, mostrando que a
Unidade 2 teve uma rápida deposição gerando deformação no sedimento ainda
plástico recém-depositados. Entretanto no ponto 102 o contato entre essas
unidades é gradacional, na base temos um ritimito da Unidade 1 que começa a
se intercalar com camadas de arenito até predominar arenitos da Unidade 2.
65
Essa unidade possui uma espessura total em cerca de 140 metros, e com
14,56 K aflorantes que corresponde a 38,8% da área mapeada.
Litologicamente essa unidade é composta por uma alternância de
camadas métricas de arenito com camadas métricas a centimétricas de siltito.
Os estratos tendem a ser ondulados e irregulares apresentando em alguns
afloramentos truncamento entre as camadas. A unidade 2 apresenta maior
heterogenia que a descrita anteriormente, nela foram encontradas as seguintes
fácies: arenitos com dobras sinsedimentares (Asc), arenito com estratificação
cruzada acanalada (Fácies Aca), arenito com estratificação cruzada tabular
(Fácies Act), arenito com estratificação plano paralela (Fácies App), arenito
com climbing ripples (Fácies Acr), paraconglomerado (Fácies Pcm) arenito com
flaser e marcas onduladas assimétricas (Fácies Af-os), arenito flaser com
climbing rippls (Fácies Af-cr), arenito com gradação normal (Fácies Ag), arenito
com marcas onduladas simétricas (Fáceis Aos), heterolito wavy com
bioturbação e marcas onduladas simétricas (Fácies Hw-b-os), heterolito wavy e
linsen com estratificação plano paralela (Fácies Hwl-pp), siltito com laminação
plano paralela (Fácies Fpp) e lamito maciço (Fácies Fm).
Essa unidade corresponde a Associação de fáceis II, comparada às
unidades formais, pode ser relacionada como a base da Formação Rio Bonito
que corresponde ao Membro Triunfo (Schneider et al. 1974). O ambiente
interpretado para essa unidade corresponde a uma frente deltaica proximal a
medial com a influência de marés e ondas.
Schneider et al. (1974) descreve o Membro Triunfo como arenitos
esbranquiçados finos a médio, com estratificações cruzadas tabulares e
acanaladas, intercalados com siltitos, lamitos, conglomerados e folhelhos, e
com raras camadas de carvão depositados em um ambiente flúvio-deltáico.
5.2.3 Unidade 3 - Formação Rio Bonito, Membro Paraguaçu
Essa unidade está localizada estratigraficamente acima da Unidade 2, o
contato entre elas foi registrado na coluna estratigráfica feita em campo entre
os pontos 37 e 39 (Figura 41). A seção mostra um contato gradacional e de
difícil determinação entre as unidades, o que é refletido na quebra negativa que
separa estas unidades, que é muito discreta. A unidade 3 tem a menor
66
espessura, cerca de 60 metros e com 4,14k aflorantes que corresponde a
11% da área mapeada.
Figura 41 - Coluna estratigrafia entre os pontos 37 e 39 passando pelo ponto 38.
Litologicamente essa unidade é composta por uma alternância de
camadas métricas de arenito com camadas métricas de siltito com laminação
plano paralela. Essa unidade mostra uma granodecrescência partindo da base
de um arenito médio até arenitos finos a muito finos com siltitos no topo. É
possível observar em muitos pontos dentro dessa unidade a presença de
muscovita na matriz, chegando a 10-15% da mineralogia da rocha. A unidade 3
compreende as seguintes fácies: arenito com estratificação plano-paralela
(Fácies App), siltito com laminação plano paralela (Fácies Fpp) e lamito maciço
(Fácies Fm).
Essa unidade corresponde a Associação de fáceis III, comparada às
unidades formais, pode ser relacionada com o Membro Paraguaçu da
Formação Rio Bonito (Schneider et al. 1974). O ambiente interpretado para
essa unidade corresponde à bacia central de um estuário.
Schneider et al. (1974) descreve o membro Paraguaçu como alternância
de siltitos e folhelhos com laminação plano-paralela formados em a ambiente
marinho transgressivo, assim como arenitos finos refletindo a influência de
marés.
67
5.2.4 Unidade 4 - Formação Rio Bonito, Membro Siderópolis
Essa unidade esta localizada estratigraficamente acima da Unidade 3, o
contato entre elas encontra-se encoberto, entretanto é provável que ele seja
abrupto como pode ser observado no Perfil Vertical Composto em anexo. A
unidade 4 está localizada nas cotas altimétricas mais elevadas do mapa sendo
assim esta muito erodida, entretanto nas porções mais espessas chega a 160-
180 metros, e com cerca de 8,9 K aflorantes que corresponde a 23,7% da
área mapeada.
Litologicamente essa unidade é composta basicamente por corpos de
arenitos dispostos em camadas métricas. Em escala de afloramento as
camadas aparentam ser tabulares, entretanto em um ponto de observação
podemos ver que os estratos são levemente ondulados, como pode ser visto
na Figura 42.
Figura 42 - Ponto 31, vista frontal da Unidade 4.
A unidade 4 compreende as seguintes fácies: arenito com estratificação
cruzada acanalada (Fácies Acc), arenito com climbing ripples (Fácies Acr),
arenito com estratificação cruzada tabular (Fácies Act), arenito com gradação
normal (Fácies Ag), arenito com marcas onduladas assimétricas (Fácies Aoa),
arenito com marcas onduladas simétricas (Fácies Aos), arenito com
estratificação hummocky (Fácies Ah), arenito com estratificação plano paralela
(Fácies App) e arenito com flaser (Fácies Af).
Essa unidade corresponde a Associação de fáceis IV e comparada às
unidades formais, pode ser relacionada com o Membro Siderópolis da
Formação Rio Bonito (Schneider et al., 1974). O ambiente interpretado para
essa unidade corresponde a marinho raso porção foreshore e shoreface.
68
Schneider et al. (1974) descreve o membro Siderópolis como
alternância de arenitos finos a muito finos, com laminação plano-paralela e
estratificação cruzada de pequeno porte, intercalados argilitos, folhelhos,
formados em ambiente marinho litorâneo.
5.2.5 Unidade 5 - Depósitos Recentes
Essa unidade corresponde a sedimentos ainda inconsolidados,
depositados junto ao Rio Itajaí do Sul, desta forma ela está localizada na
porção central do mapa ao longo do vale do rio, sobre a Unidade 1. Sua
espessura não foi possível ser determinada, entretanto sua área é de 2,91 K
que corresponde a 7,8% da área mapeada.
A Unidade 5 é composta por depósitos de seixos imbricados e areia com
lama com estruturas como estratificação plano-paralela e cruzada.
Compreende as seguintes fácies: seixos inconsolidados (Fácies S), areia com
estratificação cruzada (Fácies Aic) e Areia lamosa com estratificação plano
paralela (Fácies Aipp).
5.3 Evolução Paleoambiental
Com base nos estudos de associações de fácies e empilhamento
estratigráfico das unidades encontradas na região, foi possível ilustrar de que
forma o ambiente deposicional migrou no espaço e deu lugar à novas situações
com diferentes configurações do controle deposicional (como hidrodinâmica, clima
e espaço de acomodação).
Na porção basal da área de estudo está situada a Fm. Rio do Sul, cuja
associação de fácies definida equivale a ambiente marinho profundo (ou marinho
distal). A presença de folhelhos negros com laminação plano-paralela (Fn) sugere
a presença de uma espessa lâmina d’água, em um ambiente de deposição
tipicamente hemipelágica. Icnofósseis nereites encontrados nesta fácies indica,
segundo Pemberton et al. (1992), planícies abissais distais. Quanto à fácies
diamictito (D), sugere-se que tenha sido formada por movimentos gravitacionais
associados ao talude continental no ambiente marinho. A preservação de
fragmentos de vegetais fósseis nestes litotipos propõe um ambiente deposicional
de caráter redutor, com baixa oxigenação e confirmam a hipótese de fluxo
gravitacional.
69
A presença da fácies ritmito arenoso com estratificação cruzada de
pequeno porte, por indicar uma alternância entre decantação e tração de
sedimentos finos, infere um leve aumento local unidirecional na velocidade da
corrente de turbidez por períodos intermitentes, de pequena duração. A Figura 43
mostra a progressão do ambiente deposicional da Fm. Rio do Sul, onde é
possível observar, nas ilustrações 1 e 2, a diminuição do nível relativo do mar.
Esta variação negativa da lâmina d’água, significando uma regressão
forçada, resulta em exposição e, desta forma, discordância sub-rea dos
folhelhos negros (Fn) da Fm. Rio do Sul, através de uma progradação da linha de
costa. Esta regressão atinge seu auge e define uma Superfície Basal de
Regressão Forçada (BSFR -