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Abstract

Antes de qualquer coisa, fixemos alguns referenciais, alguns contextos que nos permitam compreender, apreender as estruturas configuradoras imanentes à impotência. A impotência é o denominador comum da história da humanidade. É a mola propulsora do desenvolvimento, do processo civilizatório, do processo tecnológico. O homem, diante de impossibilidades, sente-se impotente, sem condições de atuar, de solucionar os impasses existentes. Aceitando esse limite, essa realidade, sente-se impotente. Não aceitando as impossibilidades, acha que alguma coisa está errada, está faltando, fica desesperado, amedrontado, ameaçado, irritado, culpado, transformando assim, a vivência de impossibilidades, a vivência de impotência, em incapacidade, vitimando-se e consequentemente enchendo-se de complexos e não-aceitações. Essa vivência de incapacidade é o que ocorre quando a impotência não é aceita. Frequentemente confunde-se
Publicado no Boletim da SBEM - Sociedade Brasileira de Endocrinologia e
Metabologia - Regional Bahia/Sergipejulho/setembro 2000, p. 43-46!!
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ARTIGOS MÉDICOS
Antes de qualquer coisa, fixemos alguns referenciais, alguns contextos
que nos permitam compreender, apreender as estruturas configuradoras
imanentes à impotência.
A impotência é o denominador comum da história da humanidade. É a
mola propulsora do desenvolvimento, do processo civilizatório, do
processo tecnológico. O homem, diante de impossibilidades, sente-se
impotente, sem condições de atuar, de solucionar os impasses existentes.
Aceitando esse limite, essa realidade, sente-se impotente. Não aceitando
as impossibilidades, acha que alguma coisa está errada, está faltando, fica
desesperado, amedrontado, ameaçado, irritado, culpado, transformando
assim, a vivência de impossibilidades, a vivência de impotência, em
incapacidade, vitimando-se e consequentemente enchendo-se de
complexos e não-aceitações. Essa vivência de incapacidade é o que
ocorre quando a impotência não é aceita. Frequentemente confunde-se
Impotência é a integração de limites
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS
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incapacidade com impotência. Em contextos mais específicos, falar de
impotência é falar de determinado fracasso: a impossibilidade sexual.
Vivenciando a impotência temos os pés no chão, estamos inteiros no aqui
e agora da situação apesar de imobilizados, impotentes. Não aceitando a
impotência, perdemos o presente, fugimos para um futuro/passado,
dividindo-nos entre desejo e medo, tampando a impotência com culpa,
raiva, apreensão. Não nos imobilizando, movimentamo-nos através de
dispersões que terminam por esvaziar-nos.
É a vivência da impotência, da imobilidade, do impasse, que possibilita a
mudança, a criação, enfim, o desenvolvimento da criatividade, do
progresso científico, tecnológico e em termos individuais é o que
possibilita a transcendência do limite, do impasse. Impotente diante da
sobrevivência, o homem coletor-caçador desenvolveu os instrumentos. A
faca de sílex foi uma maneira de resolver o impasse criado pela
insuficiência, pela impossibilidade dos dedos, unhas e dentes abrirem as
caças. Detendo-se no problema: "como abrir esta barriga de alce?" ele
notou que faltava ponta nos dedos e as que sobravam dos dentes e unhas
permitiam apenas furos descontínuos. Imobilizado no problema percebeu
que a questão não era a falta da ponta, mas sim o como dar
continuidade aos furos, seja rasgando com uma pedra, um pedaço de
pau… qualquer insight. Surgiram as facas. É interessante notar que nas
mais diversas culturas pré-históricas as facas são essencialmente iguais,
são estruturadas pelas mesmas relações, é a apreensão da globalidade, é o
resultado da aceitação do impasse, da aceitação da impotência.
Aceitar a impotência é o caminho para aceitar a realidade, é a aceitação
do limite. Essa aceitação, cria uma nova dinâmica: o limite é integrado,
não é mais um obstáculo diante de si; passa a ser um referencial
possibilitador, um contexto estruturante de novas relações. É mudança,
continuidade dinâmica que impede o posicionamento adaptador.
Posicionar-se é estabelecer pontos, ilhas de sobrevivência. O homem pré-
histórico continuaria sobrevivendo, bastaria lascar a caça com os dentes,
mas essa adaptação ao impasse, subdimensionaria sua possibilidade
relacional, embora nunca o deixasse imobilizado, impotente diante de
como abrir a caça. A vivência da impotência cria a imobilidade, mas é
exatamente essa imobilidade, essa antítese à mobilidade reinante, que
permite a superação das contradições, a superação do impasse.
Bem, neste momento podemos dizer que a melhor coisa para um ser
Publicado no Boletim da SBEM - Sociedade Brasileira de Endocrinologia e
Metabologia - Regional Bahia/Sergipejulho/setembro 2000, p. 43-46!!
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humano, enquanto dinâmica e desenvolvimento relacional, é a
impotência. É ela que causa a desadaptação propiciadora de mudança.
Não mudar é estabilizar-se, coisa impossível no cosmos, no mundo.
Se é tão boa a impotência, por que é tão ruim vivenciá-la? a
vivenciamos como ruim quando não aceitamos estar impotentes. Aceitar
a impotência é aceitar a realidade. Realidade é o que percebemos embora
nem sempre percebamos o que existe. Os conceitos de realidade,
existência e limite são muito próximos. A filosofia, em certo sentido a
psicologia também, muito debateram essa questão. Pensemos que diante
do real, do existente, do limite está sempre um indivíduo, o que
transforma a questão em uma dinâmica relacional. O ser no mundo
percebe o que está diante dele, é real, existe, podendo ou não ser
vivenciado como limite. O dado imediato, a percepção da mesa, por
exemplo, é real, existe. Percebendo essa percepção podemos dizer que a
mesa limita um espaço, ou que ela é um limite para meus movimentos
etc. Em nosso dia-a-dia não percebemos a lei da gravidade, tampouco
vivenciamos o limite de não poder voar, embora eles sejam reais e
existentes. Essa lei e essa impossibilidade não são pregnantes na vivência
de realidade e existência. Santos Dumont dedicou-se a isso e projetou o
avião; Ícaro colou asas em suas espáduas e ficou no chão, impotente
diante da cera derretida.
Ciências, religiões, filosofias perceberam os limites humanos e tentaram
neutralizá-los, transcendê-los, questioná-los. A história da humanidade,
sua trajetória de pensamento, de perguntas e respostas, tem sido motivada
pela constatação da impotência, ora aceita, ora negada. Quando as
religiões criaram os mandamentos, quando a Igreja estabeleceu os sete
pecados capitais, criaram antídotos para a não aceitação da impotência.
Não matarás - um dos mandamentos - diz: aceita sua frustração, as
injustiças que sofres etc. Criticar e punir a ira, a gula, a cobiça, a luxuria,
a inveja, a preguiça e o orgulho é uma maneira de coibir excessos
sonegadores da realidade, da existência. É uma maneira de estabelecer
limites, de criar condições para que a impotência seja aceita a fim de
mostrar o poder absoluto da divindade. Aceita-se a impotência terrena e
vivi-se na insegurança e dúvida do merecimento pós-morte.
Enfim, é sempre uma perspectiva maior, um não posicionamento em
necessidades circunstanciais que nos possibilita perceber e aceitar nossas
impossibilidades.
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A aceitação de impossibilidades ou vivência da impotência é o que nos
humaniza. Aceitação é integração com o que ocorre. Não hiatos, não
cogitação, não avaliação. Aceita-se e pronto. Essa fusão é quase
impossível, existe sempre o saber que se sabe, o perceber que se percebe,
o ver que se viu. Essas reflexões, esses ecos impedem a integração, o
fusionamento. Foi a percepção disso que criou nos yogues a ideia de
pausa, de parar a mente para ouvir o silêncio, ver o não visto. Essa
mesma ideia permite as postulações da física quântica. Se vivemos
integrados, aceitamos o que vivenciamos, aceitamos o outro, aceitamos o
mundo. Quando vivemos articulados, adaptados, encaixados, o mundo é
um quebra-cabeças. Temos que acertar, temos que decifrar enígmas.
Dividimos as coisas em certas e erradas, legais e ilegais, morais e
imorais, bem e mal etc. Esses dualismos, geralmente maniqueistas,
estabelecem linhas de fuga necessárias à sua compreensão. Surgem as
ideologias, as regras, os preconceitos e, quando aceitamos, isso acontece
por meio de outro critério, criando mais desintegração. Nesses contextos,
vivenciar a impotência é sinônimo de falhar, de não conseguir. Não
aceitação da impotência, aceita-se o impasse e a impossibilidade por
alguma outra variável interveniente, alheia ao dado. Quando a impotência
é vivenciada como incapacidade, isso se transforma em justificativa para
manutenção de problemas, para desumanização. Algumas situações
desumanas são justificadas pela aceitação de regras, normas e padrões:
"era o meu trabalho, aceitei as ordens, tinha que torturar pessoas".
Aceitação recortada, desintegrada em X e integrada em Y, é sinônimo de
desumanização, é justificativa para o medo, a ganância, a inveja, a
carência, o desespero. Só existe aceitação quando ela é vivenciada no
presente. Aceitação é a integração com o que ocorre e isso é responsável
por imobilidade. O fato de aceitar a dificuldade do outro e por isso ajudá-
lo, pode não ser resultante de aceitação, mas sim expressão de regras,
dogmas e princípios obedecidos. Essa obediência a um princípio (situação
X), quando aplicada ao que ocorre, explica a consciência aplacada do
torturador, por exemplo.
A condição humana passa, oscila sempre no fio da impotência. Vale
lembrar os desmoronamentos das ilusões de Sidarta, as vivências de
impotência que contribuíram para que ele se transformasse em Buddha
(Buddhi ! conhecimento em sânscrito). O príncipe Sidarta vivia na
realidade do palácio, seu mundo era aquele, seu limite percebido era uma
porta. Um dia, ele resolve abrir a porta da cidade/palácio e sai. um
enterro e pessoas chorando, avista um velho pedindo esmola, ouve o
Publicado no Boletim da SBEM - Sociedade Brasileira de Endocrinologia e
Metabologia - Regional Bahia/Sergipejulho/setembro 2000, p. 43-46!!
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choro dos doentes. Quanto sofrimento, ele pensa! Para que viver?! Todos
vamos morrer, doenças sempre existirão, riquezas poucos têm e mesmo
isso não impede a morte e a doença. Imobilizado, impotente, siderado
pelo percebido, Buddha transcende os impasses e começa a ensinar essa
transcendência dos limites, do samsara (roda da vida) como maneira de
não sofrer pelas ilusões estabelecidas. Novamente é a aceitação da
impotência criando novas dimensões para o humano e a humanidade.
Depois de Buddha foram necessários mais alguns séculos para que a
grande questão da impotência fosse recolocada dentro de seus
estruturantes, de sua imanência. São as questões psicológicas. É a
impotência diante do outro, é a impotência diante de si.
O outro é meu limite, tanto quanto meu estruturante relacional. O outro é
o diferente de mim, pelo fato de não ser eu própria. A constatação de
diferença pressupõe uma semelhança. Saber o que é parte nesse todo, se
constitui em enigma. Queremos o diferente por desejarmos o igual. São
as afinidades eletivas, como dizia Goethe. Buscamos o igual por
desejarmos o diferente. Essas avaliações impedem integrações.
Precisávamos não perceber o outro, ou não nos percebermos. Impotentes,
imobilizados diante do outro, nos perceberíamos e ao outro através desse
encontro gerador de impotência, de impasse. Essa antítese, a impotência,
passaria a ser o contexto através do qual eu e o outro existiríamos.
Surgiria a disponibilidade propiciadora de integração com o que ocorre. É
aceitação do outro como limite, não importando mais diferença ou
semelhança, o outro está comigo. Esse limite esvaziador de
significados é o estruturante relacional.
Em 1988, em meu livro "Relacionamento Trajetória do Humano",
pág.34, eu escrevia:
"o que importa saber e descrever é a atitude estruturada diante do limite:
a de impotência ou de onipotência, seja em termos de culpa, omissão
(medo) ou metas, expectativas, ansiedades. Estruturando uma atitude de
impotência, não negando o que percebemos até fácil), ficamos livres
das injunções, cobranças, exigências, enfim dos limites e apoios
familiares, sociais, circunstanciais. Estruturando atitude de onipotência,
através do faz de conta, da imagem, das metas, ficamos comprometidos,
acrescentamos o limite, o apoio que nos desindividualiza, a nossa vida,
dividimo-nos, sentimo-nos culpados, medrosos, inseguros; buscamos um
outro que nos aceite, que nos dê o que não tivemos, o que precisávamos.
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Surgem assim os grandes dramas e sonhos do relacionamento humano,
do estar-no-mundo-com-o-outro e consigo mesmo, as frustrações
profissionais, as realizações profissionais, as trocas de experiência de
vida, a angústia, as fobias, os sintomas comprometedores e reveladores
do aprisionamento".
A não aceitação da impotência frente ao outro cria esperanças, desejos,
sonhos e temores. A não aceitação da impotência diante de si mesmo
nada mais é que o processo de não aceitação, caracterizado por medo,
revolta, frustrações, culpas e vivências de ser injustiçado. Não aceitar a
impotência, a incapacidade de remover problemas que nos afligem, é se
sentir vítima, é se sentir abandonado pelos próximos, pelos relativos-
familiares, e pelo absoluto-Deus.
Estar sozinho é a grande impotência humana que, quando aceita,
possibilita grandes mudanças, inúmeros relacionamentos e que, quando
não aceita, cria os desamparados, as vítmas, os revoltados.
A impotência humana é intrínseca à sua própria condição: estar em um
mundo submetido à lei da gravidade, conviver, adaptar-se aos radicais
livres e não ter asas ou ter uma espinha dorsal. A condição orgânica,
neste mundo físico, nos obriga a não esquecer, a aceitar nossos limites e
quando não aceitamos, nos preparamos para as vivências de revolta,
medo e cólera, por exemplo. Aceitar a nossa limitação é o que nos
dinamiza e amplia nossos referenciais por integração dos limites, quebra
dos obstáculos. Quando os médicos integram o limite de não conseguir
saber o que havia no organismo (dentro do corpo) surgiram os estudos
anatômicos, mais tarde o raio X, a ultrasonografia, a tomografia etc.
Adaptados às insuficiências, vivênciamos a impotência como
incapacidade, ficamos oprimidos pelos limites, sem integrá-los. A
hipocondria, o medo da doença é um exemplo do anteriormente afirmado.
Nosso corpo, em certo sentido, é o outro, o estranho. Não sabemos o que
está ocorrendo com nosso fígado, coração, próstata e seios.
Desenvolvimentos anômalos podem estar acontecendo, sem indícios, sem
sintomas. Viver querendo controlar essas possibilidades, estabelece a
preocupação como maneira de acessar o desconhecido. Aceitar a
impotência dentro deste universo estranho que é nosso corpo, permite que
ele seja integrado e revelado. Conhecendo nossos limites, questionando
nossos conflitos, "não tampando o sol com a peneira", abrindo-mão do
fazer de conta alienante, percebendo que se o problema do outro me
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atinge, o problema é meu, não esquecendo que o relacionamento depende
sempre necessariamente de duas partes, neutralizamos o atrito, o estresse
do estar-no-mundo com necessidades e possibilidades. Resolver
contradições desaliena, individualiza, humaniza, impede a fragmentação
psicológica.
A doença é um grande limite, é uma situação desencadeadora de
impotência. Aceitar a doença nos torna disponíveis para cuidar dela,
minorá-la, erradicá-la, neutralizar suas multiplicações limitadoras. A falta
de dinheiro, por exemplo, a pobreza, também é limitadora, gera
impotência que quando aceita, possibilita mudanças vivenciais.
Às vezes somos impotentes diante dos fatos, circunstâncias e realidades,
mas sempre temos condições, possibilidades para lidar com elas. Essa é a
grande lição que aprendemos. As impossibilidades sempre são
possibilidades, o importante é não se pontualizar, não se ilhar no “não
posso”, “não consigo”. Não posso, não consigo, mas posso não poder,
posso não conseguir. Criando essa possibilidade, aceitando a impotência,
o movimento retorna, a imobilidade acaba.
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