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Decisão lexical e rastreamento ocular na leitura de vocábulos com prefixos, raízes e sufixos com letras transpostas

Authors:

Abstract

O presente trabalho pretende contribuir para avançar o debate entre os modelos holísticos e decomposicionais de processamento morfológico, investigando o impacto da transposição de letras no processamento de vocábulos. O foco da pesquisa foi o de avaliar se há diferenças no processamento, dependendo da posição da transposição das letras, entres os morfemas que compõem os vocábulos, i.e., no prefixo, na raiz ou no sufixo. Com esse objetivo realizou-se experimento clássico de decisão lexical e experimento de decisão lexical monitorado por rastreador ocular. Os resultados do primeiro experimento teriam indicado apenas efeito de recência do sufixo na decisão lexical, enquanto que os resultados on-line do experimento de rastreamento ocular permitiram diferenciar os tempos de fixação nas regiões de prefixos, raízes e sufixos (Raiz > Sufixo > Prefixo), aduzindo evidências em favor de decomposição morfológica prévia ao acesso lexical.
Signo. Santa Cruz do Sul, v. 43, n. 77, p. 87-97, maio/ago. 2018
.
A matéria publicada nesse periódico é licenciada sob forma de uma
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http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
Http://online.unisc.br/seer/index.php/signo
ISSN on-line: 1982-2014
Doi:
10.17058/signo.v43i77.11407
Decisão lexical e rastreamento ocular na leitura de vocábulos
com prefixos, raízes e sufixos com letras transpostas
Lexical decision and eye tracking in the reading of words with prefixes, roots, and
suffixes with transposed letters
Aline Saguie
Marcus Maia
Sabrina Santos
Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ – Rio de Janeiro – Rio de Janeiro - Brasil
Resumo: O presente trabalho pretende contribuir para avançar o debate entre os
modelos holísticos e decomposicionais de processamento morfológico, investigando o
impacto da transposição de letras no processamento de vocábulos. O foco da
pesquisa foi o de avaliar se há diferenças no processamento, dependendo da posição
da transposição das letras, entres os morfemas que compõem os vocábulos, i.e., no
prefixo, na raiz ou no sufixo. Com esse objetivo realizou-se experimento clássico de
decisão lexical e experimento de decisão lexical monitorado por rastreador ocular. Os
resultados do primeiro experimento teriam indicado apenas efeito de recência do
sufixo na decisão lexical, enquanto que os resultados on-line do experimento de
rastreamento ocular permitiram diferenciar os tempos de fixação nas regiões de
prefixos, raízes e sufixos (Raiz > Sufixo > Prefixo), aduzindo evidências em favor de
decomposição morfológica prévia ao acesso lexical.
Palavras-chave: Processamento morfológico; decisão lexical; rastreamento ocular.
Abstract: The present work intends to contribute to advance the debate between the
holistic and decompositional models of morphological processing, investigating the
impact of the transposition of letters in the processing of words. The focus of the
research was to evaluate if there are differences in processing, depending on the
position of the transposed letters, among the morphemes that make up the words, i.e.
in the prefix, in the root or in the suffix. For this purpose, a classic lexical decision
experiment and a lexical decision experiment monitored by an eye-tracker were
performed. The results of the first experiment would indicate only a suffix recency
effect in the lexical decision, whereas the online results of the eye-tracking experiment
allowed to differentiate the average fixation times in the regions of prefixes, roots and
suffixes (Root> Suffix> Prefix), adding evidence in favor of morphological
decomposition prior to lexical access.
Keywords: Morphological processing; lexical decision; eye-tracking.
Recebido em 03 de Dezembro de 2017 Aceito em 28 de Junho de 2018 Autor para contato: sabrilopessantos@gmail.com
88 Saguie, A.; Maia, M.; Santos, S.
Signo [ISSN 1982-2014]. Santa Cruz do Sul, v. 43, n. 77,
p. 87-97
, maio/ag0. 2018.
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1 Introdução
Uma questão central da pesquisa sobre o
reconhecimento visual de palavras complexas tem
sido a de saber se análise morfológica prévia ao
acesso lexical. Em outras palavras, trata-se de
descobrir se uma palavra é acessada holisticamente
apenas como listema (DISCIULLO; WILLIAMS, 1987)
, se os morfemas que compõem palavras complexas
são passíveis de computação sintática, ou se os dois
processos podem coocorrer. Como qualquer questão
linguística, pode-se pensar a computação de palavras
do ponto de vista da representação gramatical e do
processamento. No quadro da teoria gerativa, por
exemplo, há modelos lexicalistas e não-lexicalistas.
De um lado, o minimalismo (CHOMSKY, 1995)
assume que a computação sintática inicie apenas no
nível supralexical, após a seleção de palavras prontas
na numeração. De outro lado, uma teoria
construcionista, como a Morfologia Distribuída
(HALLE; MARANTZ, 1993), propõe que as palavras
sejam computadas em camadas funcionais. No que
diz respeito às teorias de processamento, quadro em
que se situa a pesquisa reportada neste artigo, há
uma divisão clássica entre modelos
decomposicionais, não decomposicionais e de dupla
rota.
Os modelos decomposicionais ou estruturais
preveem a computação plena, de baixo para cima
(bottom-up), dos componentes morfológicos dos
vocábulos complexos, de modo que se identifiquem
raízes e afixos previamente ao acesso lexical, em um
processo que se chamou de desmontagem ou
desnudamento afixal ou affix-stripping (TAFT, 1979;
TAFT; FORSTER, 1975, 1976). Modelos não
decomposicionais propõem a listagem plena dos
vocábulos, sendo seu acesso “de cima para baixo”
(top-down), sem levar em conta os morfemas
constituintes (BUTTERWORTH, 1983). Finalmente,
ainda os modelos ditos de “dupla rota”, com
arquiteturas de processamento duais, que admitem
tanto a via da decomposição morfológica, quanto a
via não decomposicional, a depender, por exemplo,
de fatores como frequência e familiaridade
(CARAMAZZA et al., 1988), regularidade de formas
(PINKER, 1991), transparência entre raiz e afixos
(MARSLEN-WILSON et al., 1994). Conforme lembra
Garcia (2015), em excelente artigo em língua
portuguesa sobre o processamento de palavras,
também os modelos não-decomposicionais
conexionistas, com a proposta de que o
reconhecimento de vocábulos complexos na leitura
se daria em uma arquitetura baseada em redes, na
qual seriam feitos ajustes constantes nos pesos das
conexões entre ortografia e fonologia, permitindo o
reconhecimento de palavras de maneira associativa,
sem o uso de informação morfológica
(MCCLELLAND; ELMAN, 1986).
A literatura sobre o processamento morfológico
é relativamente extensa, tendo-se pesquisado uma
variedade de questões, por meio de diferentes
técnicas experimentais (cf. AMENTA; CREPALDI,
2012, para uma ampla revisão desses estudos).
Desde o trabalho seminal de Forster, Davis e
Schoknecht (1987), sabe-se que palavras com letras
misturadas são efetivas na pré-ativação de palavras
alvo, facilitando a sua identificação. Como revisto em
Amenta e Crepaldi (2012), o sistema de
reconhecimento vocabular tem tolerância a
imprecisões no posicionamento de letras, podendo-se
adotar o chamado jumbled word effect para estudar o
processamento de palavras. Diversos estudos têm
utilizado este efeito para estabelecer que a
decomposição morfológica opera cedo, antes mesmo
da identificação lexical, em consonância com os
modelos do tipo bottom-up (GRAINGER; WHITNEY,
2004; DUÑABEITIA et al., 2007, entre vários outros).
Como é o caso, de modo geral, nos estudos
psicolinguísticos, o efeito de letras misturadas pode
fornecer indicações quanto à dificuldade relativa de
reconhecimento visual em contextos variáveis,
permitindo identificar diferenças importantes entre
eles. Por exemplo, Rayner, White, Johnson e
Liversedge (2006), em estudos em que, além de
verificar o jumbled word effect na leitura de frases,
testaram a transposição de letras também em
vocábulos isolados, identificando que a transposição
de letras no interior da palavra, como em prolbem,
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leva a uma diminuição de 12% na compreensão da
leitura. Por outro lado, quando a transposição ocorre
nas letras finais, como em problme, a diminuição é de
26% e, nas iniciais, como em rpoblem, de 36%. O
estudo de Rayner et al. (2006) mostra que as bordas
das palavras (letras iniciais e finais) são, de fato,
importantes para o processamento da palavra, por
isso, apresenta grandes perdas para a leitura. O
estudo não controlou, no entanto, fatores estruturais,
apenas lineares. Já Duñabieita, Perea e Carreiras
(2014) comparam a transposição de letras em
posição intra e entre morfemas, em espanhol,
conseguindo através desse contraste distinguir entre
leitores lentos e rápidos, que estariam utilizando
diferentes estratégias de leitura. No presente artigo,
utilizamos o efeito de letras transpostas no
reconhecimento de palavras com prefixos e sufixos,
em português brasileiro, em tarefa clássica de
decisão lexical e em tarefa de decisão lexical
monitorada por rastreador ocular. Em português
brasileiro, vários estudos têm investigado o
processamento morfológico utilizando diferentes
técnicas, mas até o momento não se conhecem
trabalhos que tenham utilizado o efeito de letras
transpostas para investigar a realidade psicológica de
raízes, prefixos e sufixos, como se faz no presente
artigo.
Maia, Lemle e França (2007) reportaram um
experimento de rastreamento ocular de palavras e
outro baseado no chamado efeito Stroop,
investigando se a decomposição morfológica é uma
propriedade fundamental do processamento lexical na
leitura de palavras isoladas. Os autores apresentaram
evidências de que as palavras seriam derivadas
morfema a morfema durante a leitura, mas
propuseram que heurísticas globais da visão também
atuariam simultaneamente.
França, Lemle, Gesualdi, Cagy e Infantosi
(2008) compararam palavras mono e polimorfêmicas
em um estudo de acesso lexical estimulado por
priming auditivo com aferição de potenciais cerebrais
relacionados a eventos (ERP), analisando a
eletrofisiologia do acesso lexical. Os resultados
indicam que o acesso a palavras pequenas é mais
rápido do que a grandes, em pares com semelhança
fonológica.
Garcia (2009) aplicou um experimento de
priming encoberto com decisão lexical testando a
relação entre prime e alvo nos seguintes contextos:
(1) prime e alvo relacionados morfologicamente
(FILA/fileira); (2) prime e alvo com relação apenas
semântica (ORDEM/fileira); (3) prime e alvo com
relação apenas fonológica (FILÉ/fileira); e (4) prime e
alvo sem nenhuma das relações anteriores
(MATO/fileira). A sua hipótese era a de que haveria
maior facilitação significativa na condição em que as
palavras tivessem relação morfológica, devido à
identidade de raízes, o que foi confirmado pelos
resultados. A discussão feita pela autora é de que
essa facilitação de palavras morfologicamente
relacionadas favorece os modelos de processamento
de decomposição plena e a interpretação a partir da
proposta não-lexicalista ou construcionista da
Morfologia Distribuída.
Pederneira (2010), com base em experimento
de priming com decisão lexical também encontrou
evidências empíricas em favor da decomposição
morfológica, como previsto pela Morfologia
Distribuída. Utilizou, em um de seus experimentos, a
técnica de priming aberto, com decisão lexical, para
investigar o papel da morfologia na leitura de
vocábulos isolados, contendo pares de palavras
prime/target em que a palavra target, ou alvo,
continha prefixos nas três condições seguintes: pares
de palavras com prefixos de morfologia e semântica
regulares (anular/nulo; predizer/dizer); pares de
palavras com prefixos de semântica irregular
(arrumar/rumo; denegrir/negro), palavras sem
morfologia ativadora, em pares com relação
etimológica remota (e.g., degradar/grau;
comentar/mente). Embora os índices de decisão
lexical não tenham apresentado resultados
relevantes, com taxas altas de acerto nas três
condições, os tempos médios de decisão lexical
permitiram observar diferenças significativas entre as
condições. Os resultados confirmaram a hipótese de
que a morfologia acelera o reconhecimento de
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palavras, conforme previsto em modelos
construcionistas, como a Morfologia Distribuída.
Maia e Ribeiro (2015) também reportaram um
experimento de rastreamento ocular com decisão
lexical investigando a identificação de palavras em
sua leitura isolada, distribuídas em quatro grupos:
palavras e pseudopalavras mono e polimorfêmicas.
Sua hipótese era a de que, no momento de decisão,
se tratava-se ou não de uma palavra, a Duração Total
de Fixação e os números de movimentos sacádicos
seriam maiores em palavras e pseudopalavras com
sufixos do que em palavras e pseudopalavras
monomorfêmicas. Nos resultados, confirmando a
hipótese adotada, as palavras e pseudopalavras com
sufixos apresentaram Duração Total de Fixação
significativamente maior do que seus
correspondentes monomorfêmicos. Os vocábulos
com sufixos também receberam maior número de
movimentos sacádicos do que os vocábulos
monomorfêmicos. Os autores concluem que os
resultados não se explicam somente pelo modelo top-
down, porém não foram controladas as variáveis que
afastariam um acesso por dupla rota, alegando-se
que, quando a estrutura interna do vocábulo permite,
o reconhecimento se bottom-up, apresentando-se
ainda evidências em favor dos modelos
construcionistas, como a Morfologia Distribuída.
À semelhança de Maia, Lemle e França
(2007), Dias (2014) também reportou um experimento
baseado no efeito Stroop e um de priming encoberto,
investigando como palavras complexas formadas com
bases presas são processadas, analisando se são
acessadas em sua forma completa (wholeform) ou se
são acessadas por seus morfemas, havendo
separação dos afixos (affix stripping). Ao contrário
dos estudos anteriores, os resultados de Dias (2014),
em geral, mostraram que as palavras complexas
formadas com bases presas estão estocadas no
léxico mental por inteiro e não passam por nenhum
processo de prévia decomposição quando são
acessadas.
Como se vê, o processamento de vocábulos
morfologicamente complexos envolve questões que
vêm sendo produtivamente debatidas na literatura
internacional e nacional. O presente trabalho
pretende contribuir para avançar o debate,
investigando o impacto da transposição de letras no
processamento de vocábulos. O foco da pesquisa foi
o de avaliar se o processamento de vocábulos
polimorfêmicos se dá por distribuição morfológica e
se diferenças no processamento, dependendo da
posição da transposição das letras, entres os
morfemas que compõem os vocábulos, i.e., no
prefixo, na raiz ou no sufixo. Como se viu na revisão
da literatura sobre o processamento da morfologia em
língua portuguesa, nenhum estudo ainda comparou
sistematicamente prefixos, raízes e sufixos, tentando
obter resultados concernentes à sua importância
relativa na leitura. Em francês, no entanto,
Beyersmann, Ziegler e Grainger (2015)
desenvolveram estudo em que utilizam uma tarefa de
busca de letras (letter search task), comparando
prefixos e sufixos com a finalidade de tentar verificar
se haveria diferenças no modo como esses dois tipos
de afixos são processados. Os resultados
demonstraram que os tempos de busca são maiores
quanto a letra alvo está embutida em um sufixo,
comparativamente a um não sufixo. Em contraste,
quando a letra alvo encontrava-se em um prefixo, não
se identificou diferença nos tempos médios de busca,
relativamente a não prefixos. Os autores interpretam
seus resultados como demonstrativos de que prefixos
e sufixos exercem funções distintas, sendo também
computados através de processos diferenciados:
enquanto prefixos teriam um status “quase-lexical”, os
sufixos teriam natureza “sublexical”.
Na presente pesquisa, entretemos a hipótese
de que o processamento se daria por meio de
computação morfológica, conforme proposto em
modelos bottom-up, como os de Taft (1979), Taft e
Foster (1975, 1976) e Foster (1979), que preveem o
armazenamento, em separado, de raízes e afixos,
implicando na decomposição da palavra no acesso
lexical. Esperávamos encontrar diferentes valores nos
índices e tempos de decisão lexical (experimento 1) e
nos tempos médios de fixação ocular, bem como nos
índices de decisão (experimento 2), de acordo com o
posicionamento da transposição. Além disso, na
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comparação sistemática entre prefixos, raízes e
sufixos, esperávamos encontrar maiores latências no
processamento de vocábulos com transposição
dentro da raiz, devido à carga semântica contida em
tal morfema, seguida pelo sufixo, pela carga
categorial que carrega, e, então, pelo prefixo (Raiz >
Sufixo > Prefixo).
2. Experimento de decisão lexical
Com o objetivo de identificar se e como a
transposição de letras interfere no processamento de
vocábulos do PB, realizamos inicialmente um
experimento de Decisão Lexical, esperando encontrar
índices de respostas diferenciados, de acordo com a
posição da transposição, que poderia ocorrer no
prefixo, na raiz ou no sufixo.
2.1. Metodologia
O experimento foi realizado no programa Open
Sesame, no Laboratório de Psicolinguística
Experimental (LAPEX) da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ). Foram manipulados os tipos
de morfema (Prefixo, Raiz ou Sufixo) e o Local da
Transposição (Intramorfêmico) o que configuraram
nossas variáveis independentes, i.e., Prefixo
Intramorfêmico (PA), Raiz Intramorfêmico (RA) e
Sufixo Intramorfêmico (SA). Um vocábulo era
apresentado com letras transpostas em um dos
morfemas mencionados e solicitava-se que, após a
leitura, o sujeito pressionasse a tecla Verde, caso
identificasse uma palavra e a tecla Vermelha, caso
não a identificasse. As variáveis dependentes, ou
seja, os dados a serem analisados, foram: (i) os
índices de resposta referentes à decisão, indicando
se o item permitia identificar ou não uma palavra e (ii)
os tempos médios de decisão lexical.
2.2. Materiais
Selecionamos uma lista de 24 vocábulos de
até 6 sílabas do Português Brasileiro, controlando o
tamanho de cada morfema em exatamente duas
sílabas. As condições foram distribuídas em quadrado
latino de forma que os participantes vissem todas as
condições, mas não a mesma palavra para cada
condição. Como distratores, escolhemos 24
vocábulos de 6 sílabas do português brasileiro,
manipulando a transposição para que ocorresse ao
acaso.
Quadro1: Exemplos de materiais experimentais nas
três condições
2.3. Participantes
Rodamos o experimento com 60 estudantes
universitários de graduação de ambos os sexos e de
até 35 anos de idade, escolhidos ao acaso,
pressupondo que os universitários seriam bons
soletradores e teriam bom vocabulário, ou seja, com
perfil ortográfico (cf. Duñabeitia, Perea e Carreiras,
2014).
2.4. Procedimentos
A tarefa solicitada a cada participante era a
leitura de palavras com letras transpostas e a
subsequente indicação de sua decisão sobre se
poderia identificar ou não uma palavra da língua
portuguesa. Inicialmente, os participantes
manifestavam sua concordância em realizar
voluntariamente o experimento, assinando um termo
de consentimento livre e esclarecido. Cada teste
incluía uma sessão inicial de prática e levava em
média 20 minutos para ser aplicado. Os participantes
deveriam ler a palavra e decidir se era ou não uma
palavra do português. Se a identificassem como uma
palavra do português deveriam apertar a tecla verde,
disposta no próprio teclado do computador, se
achassem que não, deveriam apertar a tecla
vermelha.
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2.5. Resultados
Aferiram-se, inicialmente, os índices de acerto
na decisão lexical.
Gráfico 1: Índices de Decisão Lexical afirmativa por tipo
de morfema.
A variável categórica “índice de decisão lexical”
não demonstrou significância no teste Chi-quadrado,
não se rejeitando H0, ou seja, a variação entre os
índices é randômica, conforme se pode observar na
Tabela 1, que apresenta os cruzamentos estatísticos.
Tabela 1: Teste Chi-quadrado dos índices de
decisão lexical
Analisa-se, a seguir, a variável dependente off-
line cronométrica, a saber, os tempos médios de
resposta.
Gráfico 2: Tempos médios de decisão lexical por tipo de
morfema.
Percebe-se que a condição onde se registram
as latências médias mais elevadas para a decisão
lexical seria a condição de sufixo, seguida do prefixo
e, então pela raiz, contrariando, em parte, as nossas
expectativas, uma vez que, embora prevíssemos
maior dificuldade quando a transposição estivesse na
região do sufixo do que na região do prefixo,
prevíamos que a transposição na raiz e não no sufixo
seria a condição mais difícil de todas para se tomar
uma decisão. A variável cronométrica Tempos de
Resposta, submetida a uma ANOVA por sujeitos,
indica diferença significativa entre os tempos médios
de decisão na comparação entre sufixos e raízes, não
se registrando significância nas demais comparações,
como se na Tabela 2. Ou seja: quando a
transposição de letras se encontra no sufixo, os
tempos médios de decisão são significativamente
mais altos do que quando a transposição se encontra
na raiz.
Tabela 2: ANOVA e Testes-t dos tempos médios de
decisão lexical
Esses resultados indicaram maior dificuldade
na decisão lexical quando a transposição se dá no
sufixo do que quando se dá na raiz. Os resultados
parciais motivaram realizar teste com metodologia on-
line, como o rastreamento ocular, que tem o potencial
de tornar mais claros esses padrões.
2.6. Discussão
A análise dos índices de decisão lexical
afirmativa não oferece indicadores robustos para
diferenciar o processamento de prefixos, raízes e
sufixos. As análises dos tempos médios, por outro
lado, indicaram maior dificuldade na decisão lexical
quando a transposição se dá no sufixo do que quando
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se dá na raiz. As medidas dos índices de decisão
lexical e de seus tempos médios constituem variáveis
dependentes off-line, ou seja, obtidas após a leitura
dos itens vocabulares. O índice de decisão é variável
off-line não cronométrica, enquanto que o tempo
médio de decisão é variável off-line cronométrica.
Especula-se que o resultado off-line cronométrico,
ocorrendo em momento a posteriori à leitura em si,
possa expressar latências relativas à consciência
metalinguística, mas não necessariamente expressa
com precisão os dados relativos à captura mais
imediata e reflexa dos processos de leitura. Nesse
sentido, os valores obtidos no primeiro experimento,
que indicam maiores tempos de decisão na área do
sufixo do que na área da raiz, poderiam estar
expressando simplesmente efeitos de recência na
avaliação dos itens experimentais, uma vez que a
região do sufixo é a mais próxima do momento de
decisão lexical. Portanto, os resultados pouco
informativos em ambas as medidas off-line motivam
realizar teste com metodologia on-line, como o
rastreamento ocular, que tem o potencial de tornar
mais claros esses padrões, capturando o
escaneamento visual dos vocábulos no momento
mesmo em que são lidos.
3. Experimento de Rastreamento Ocular
Diante dos resultados inconclusivos, obtidos a
partir de tarefa off-line na qual obtivemos indícios de
diferenças entre o processamento de prefixos, raízes
e sufixos com letras transpostas, decidiu-se realizar
experimento de rastreamento ocular com decisão
lexical. Este experimento visava obter dados on-line
na leitura dos itens vocabulares, além de dados off-
line na tarefa de decisão lexical, pretendendo-se que
a medida on-line fosse capaz de capturar diferenças
nos tempos de fixação ocular na leitura das palavras.
A técnica de rastreamento ocular permite
registrar os movimentos dos olhos quando lemos ou
observamos imagens. Em função de propriedades do
aparato visual humano, a percepção visual demanda
fixações e refixações do olhar, produzindo
alternâncias entre fixações e deslocamentos que são
chamados sacadas (saccades). Entre esses rápidos
deslocamentos existem pequenas fixações que
duram em torno de 200-300ms (RAYNER, 1998).
Irwin (2004) sugere que movimentos oculares podem
ser a variável dependente ideal porque se mover é
um comportamento natural e frequente dos olhos. As
pessoas geralmente olham para algo porque querem
obter informações sobre aquilo. Então, parece
razoável assumir que fixações locais correspondem
ao locus espacial do processamento cognitivo e que o
tempo dessa fixação corresponde à duração do
processamento do material localizado nessa fixação.
3.1. Metodologia
O experimento foi realizado no aparelho Tobii
TX300 no Laboratório de Psicolinguística
Experimental (LAPEX) da Universidade Federal do
Rio de Janeiro (UFRJ). Era apresentado o vocábulo
e, após a leitura, os sujeitos deveriam clicar na tecla
amarela, passando para uma tela com um quadro
SIM e outro NÃO. Era solicitado que os sujeitos
olhassem para o quadro SIM se reconhecessem uma
palavra do português no vocábulo com letra
transposta e olhassem para o quadro NÃO, caso não
reconhecessem.
3.2. Materiais
Os materiais foram os mesmos utilizados no
experimento anterior (cf. Quadro 1) e foram
apresentados da mesma forma, em quadrado latino.
3.3. Participantes
Os sujeitos foram 30 estudantes universitários
de graduação, de ambos os sexos, de até 35 anos,
selecionados ao acaso, considerando que os
universitários seriam bons soletradores com bom
vocabulário, ou seja, com perfil ortográfico
(DUÑABEITIA; PEREA; CARREIRAS, 2014).
3.4. Procedimentos
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O experimento foi aplicado na sala do
Laboratório de Psicolinguística Experimental
LAPEX, na Faculdade de Letras da UFRJ. A tarefa
solicitada a cada participante era a leitura
automonitorada de palavras com letras transpostas e
a subsequente indicação de sua decisão sobre se
poderia identificar ou não uma palavra da língua
portuguesa, enquanto o rastreador ocular Tobii TX300
monitorava seus movimentos oculares. Assim como
no primeiro experimento, os participantes assinaram o
termo de consentimento livre e esclarecido, como é
prática habitual no Laboratório de Psicolinguística
Experimental LAPEX. Cada teste levava em média
20 minutos para ser aplicado, dependendo de cada
voluntário e da boa calibração de cada um. Os itens
vocabulares foram apresentados em uma tela com
fundo branco, fonte Monaco 24, na cor preta,
aparecendo em uma única linha, da esquerda para
direita. Na tela das questões interpretativas,
apresentava-se a pergunta em uma linha e as duas
opções de resposta algumas linhas abaixo, situando-
se a opção SIM à esquerda da tela e a opção NÃO, à
direita.
3.5. Resultados
Analisamos, em seguida, os tempos de fixação
ocular e os índices de resposta. Na medida on-line,
houve diferenças significativas nas durações médias
de fixação nas áreas críticas, indicando que a
inspeção da raiz exige mais tempo de fixação do que
a inspeção do sufixo que, por sua vez, exige maiores
latências de fixação ocular do que os prefixos (RA>
SA > PA), como indicado no Gráfico 3. Uma ANOVA
por sujeitos indicou efeito principal significativo para o
fator tipo de morfema (F(2,478) = 4,88 p<0,007) e
testes-t pareados demonstraram a existência de
diferenças significativas na comparação entre os
tempos médios de fixação na área da raiz em relação
à área do sufixo ([R]vs[S] t(239)=3,08 p< 0,0023*),
obtendo-se também diferenças significativas na
comparação entre prefixo e raiz ([P]vs[R] t(239)=1,78
p< 0,05) e na comparação entre prefixo e sufixo
([P]vs[S] t(239)=1,48 p< 0,014).
Gráfico 3: Análise da Duração Total das Fixações
Oculares por Condição
Conforme as estatísticas indicam, na medida
off-line, a maior perda foi apresentada na Raiz (35%
de erros), porém, os morfemas sufixo e prefixo não
apresentam diferença significativa entre si (p> 0,05),
só se observando diferenças significativas quando as
comparações incluem a raiz, ou seja, nas
comparações entre prefixo e raiz (p<0,05) e entre
sufixo e raiz (p<0,05)
Gráfico 4: Análise da Percentagem de Respostas
Erradas por Condição.
3.6. Discussão
Os resultados da medida on-line indicam
diferenças significativas em relação à posição
morfêmica onde ocorre a transposição. Tais valores
Decisão lexical e rastreamento ocular na leitura de vocábulos
95
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posicionais diferenciados em termos da morfologia
favorecem os modelos de processamento
decomposicionais e também as teorias de
processamento bottom-up, como vem sendo
mostrado por Perdeneira (2010), Garcia (2009) e
Maia e Ribeiro (2015), dialogando, portanto, com
modelos como os de Taft (1979), Taft e Foster (1975,
1976) e Foster (1979), em seu modelo de Affix-
Stripping.
Como se pode observar no mapa de calor da
Imagem 1, em que a transposição de letras encontra-
se na raiz do vocábulo, há maior intensidade da
fixação ocular nesta posição central que, como se viu
na seção de resultados, é a que obtém maiores
latências médias significativamente, tanto em relação
às latências de fixação médias de sufixos, quanto de
prefixos.
Imagem 1: Exemplo de Mapa de calor de vocábulo RA:
ANTILAELDADE.
Na Imagem 2, o mapa de calor demonstra a
maior intensidade de fixação ocular ocorrendo na
área das letras transpostas na região do sufixo. Note-
se que a raiz, região detentora de maior carga
semântica no vocábulo, também obtém fixação
intensa, ainda que não tanto quanto a área do sufixo,
onde se encontra a transposição de letras.
Imagem 2: Exemplo de mapa de calor de vocábulo SA:
ANTILEALDDAE
.
No mapa de calor, visto na Imagem 3,
exemplifica-se caso em que a transposição de letras
encontrava-se na área do prefixo, atraindo as
fixações relativamente mais intensas, mas
significativamente menores do que as obtidas quando
a transposição se encontrava na área da raiz. Da
mesma forma, distinguem-se significativamente as
latências de fixação entre as áreas dos prefixos e dos
sufixos.
Imagem 3: Exemplo de Mapa de calor de vocábulo PA:
ATNICARTOLISMO.
Como dissemos, tais resultados evidenciam
que as palavras seriam derivadas morfema a
morfema, em conformidade não só com teorias de
processamento do tipo bottom-up, como com teorias
construcionistas de representação gramatical, tal
como a Morfologia Distribuída, que propõe que haja
computação sintática operando por fases no nível
sublexical.
Pode-se, portanto, avaliar os achados relativos
à variável on-line como sendo indicativos de
processamento morfológico prévio ao acesso lexical.
As raízes, que contém a semântica lexical
fundamental do vocábulo, exigem as maiores
latências de fixação, quando a transposição de letras
aí se localiza. Em segundo lugar, distinguem-se os
sufixos, relativamente às raízes. Tendo função de
indicação categorial, de natureza sublexical, os
sufixos recebem latências de fixação
significativamente menos elevadas do que as raízes
quando são o local da transposição de letras. Por
último, viriam os prefixos que teriam valor quase-
lexical, sem função categorial.
4. Considerações Finais
A pesquisa sobre o reconhecimento visual de
palavras tem como questão crucial investigar se
análise morfológica prévia ao acesso lexical.
Buscamos, então, em experimentos, que avaliaram o
processamento de vocábulos polimorfêmicos com
letras transpostas, dados para responder a essa
pergunta. Entretendo a hipótese de que haveria de
fato decomposição morfológica previamente ao
acesso lexical, questionamos também se o locus da
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Signo [ISSN 1982-2014]. Santa Cruz do Sul, v. 43, n. 77,
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transposição (i.e., no prefixo, na raiz ou no sufixo)
ocasionaria grau distinto de perdas na leitura.
Os resultados do experimento de rastreamento
ocular indicaram que valores posicionais de
natureza morfológica na leitura da transposição, ou
seja, os tempos de fixação aumentam ou diminuem
significativamente de acordo com a localização da
transposição em diferentes morfemas. Raízes
requerem maiores latências de fixação do que sufixos
e sufixos requerem maiores latências do que prefixos.
Há uma maior dificuldade na leitura de raízes, já que
estas têm valor lexical fundamental, seguida pela
leitura dos sufixos, que têm carga categorial
sublexical, sendo os prefixos os morfemas que
requerem menos intensidade de fixações, uma vez
que seu valor seria apenas quase-lexical. Em outras
palavras, prefixos parecem ter propriedades de
processamento diferenciadas em relação a sufixos,
em função de seu estatuto igualmente diferenciado na
gramática da língua portuguesa. Enquanto as raízes
têm função lexical, os prefixos têm função quase-
lexical. os sufixos têm função semântica e
sintática, não apenas impactando adicionalmente o
significado, mas também sua categoria gramatical.
Pretende-se, em próximos estudos, controlar
fatores como o valor categorial dos sufixos, além de
sua frequência, de modo a explorar mais
profundamente as relações entre o processamento
morfológico e a natureza gramatical dos afixos na
computação de palavras. A literatura também tem
obtido avanços interessantes, controlando o
deslocamento de letras em posição intra e
intermorfêmica (DUÑABEITIA; PEREA; CARREIRAS,
2008), sendo esse outro desdobramento da presente
pesquisa, a ser futuramente desenvolvido. Ainda
outro fator que deverá ser considerado nos próximos
estudos diz respeito ao valor categorial que
determinados prefixos parecem também carregar,
bem como a relação de transparência ou opacidade
que prefixos e sufixos podem manter em relação à
raiz. O prefixo des- de desterrar, por exemplo, já tem
sido analisado como portador de carga categorial
(SILVA; MIOTO, 2009), além de lexical (MEDEIROS,
2010), em contraste com o que foi assumido no
presente trabalho. Em pesquisas futuras, portanto,
essas questões deverão ser incluídas em novos
estudos experimentais, de modo a avançarmos na
investigação da leitura de vocábulos polimorfêmicos
em português brasileiro.
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Signo [ISSN 1982-2014]. Santa Cruz do Sul, v. 43, n. 77,
p. 87-97
, maio/ago. 2018.
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COMO CITAR ESSE ARTIGO
SAGUIE, Aline; MAIA, Marcus; DOS SANTOS, Sabrina Lopes. Decisão lexical e rastreamento ocular na leitura
de vocábulos com prefixos, raízes e sufixos com letras transpostas. Signo, Santa Cruz do Sul, v. 43, n. 77, p.
87-97, july 2018. ISSN 1982-2014. Disponível em:
<https://online.unisc.br/seer/index.php/signo/article/view/11407>. Acesso em:__________________________.
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... A consciência morfológica poderá estar relacionada com o desenvolvimento do desempenho ortográfico e da compreensão leitora, uma vez que o Português Europeu utiliza um sistema de escrita, em que os fonemas e os morfemas são representados graficamente. É necessário realizar mais estudos sobre o desenvolvimento da consciência morfológica para o português para compreender o impacto da consciência morfológica na leitura e escrita Saguie, Maia & Santos, 2018). ...
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O artigo pretende caracterizar o nível de consciência morfológica no 1º ciclo e analisar a possível relação entre a consciência morfológica e a leitura e escrita. A amostra é constituída por 20 crianças, que frequentam o 2º (n=10) e o 4º ano de escolaridade (n=10). A recolha de dados foi realizada através da Grelha de Avaliação da Linguagem - Nível Escolar, da Bateria de Avaliação da Consciência Morfológica, da Bateria de Avaliação da Leitura em Português Europeu e de uma adaptação de provas de outros estudos. Conclui-se que o nível de consciência morfológica das crianças do 4º ano é estatisticamente superior às do 2º ano, nomeadamente na prova de analogia de palavras e de decisão morfossemântica-afixos, relativamente aos sufixos. Ainda assim foi possível verificar diferenças significativas nas tarefas de leitura de ambos os grupos. Verifica-se uma correlação entre algumas provas de consciência morfológica e a leitura e escrita.
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O objetivo deste estudo é analisar a desambiguação lexical durante a compreensão leitora em inglês como língua estrangeira. Sabe-se que, para desambiguar uma palavra, o leitor normalmente recorre ao contexto; assim, a pesquisa está fundamentada teoricamente em questões que dizem respeito à definição de contexto, e abarca uma teoria lexical denominada Hipótese da Qualidade Lexical (HQL) que explica como as características das palavras (aspectos fonológicos e semânticos, por exemplo), são parte fundamental da compreensão leitora. Este trabalho faz parte de um projeto maior, ainda em andamento, que aqui, traz um estudo de caso que analisa a ambiguidade das palavras record e track em diferentes contextos de uso. Os resultados preliminares mostram que as características das palavras, bem como os diferentes tipos de contexto não estão desvinculados do fenômeno da desambiguação, mas o leitor nem sempre tem a ciência de que precisa desambiguar, ainda que compreenda o que leu.
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O presente trabalho investiga o prefixo des- do português brasileiro assumindo o arcabouço teórico da Morfologia Distribuída. Na proposta, o prefixo nega sub-eventualidades estativas das estruturas de evento dos verbos em que é licenciado. O artigo ainda apresenta uma definição semântica que explica sua ocorrência também em adjetivos e em nomes.
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A letter-search task was used to test the hypothesis that affixes are chunked during morphological processing and that such chunking might operate differently for prefixes and suffixes. Participants had to detect a letter target that was embedded either in a prefix or suffix (e.g., ‘R’ in propoint or filmure) or in a non-prefix beginning or non-suffix ending (e.g., ‘R’ in cropoint or filmire). Prefixed and suffixed letter-strings comprised real stems and affixes but never formed a real word. Effects of letter cluster frequency were also investigated by manipulating the frequency of non-affix beginnings and endings. Letter search took longer in suffixes compared with non-suffix endings but not for prefixes compared with non-prefix beginnings. Moreover, performance was not affected by letter cluster frequency. We interpret our findings in the light of recent accounts of morpho-orthographic segmentation and the different function of prefixes and suffixes.
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Masked affix priming effects have usually been obtained for words sharing the initial affix (e.g., re action- RE FORM). However, prior evidence on masked suffix priming effects (e.g., bak er -WALK ER ) is inconclusive. In the present series of masked priming lexical decision experiments, a target word was briefly preceded by a morphologically or orthographically related prime, or by an unrelated prime. In Experiment 1, the prime words in the suffix priming condition were formed by their suffixes (e.g., er -WALK ER ). In Experiment 2, the primes included the suffix inserted in a nonsense symbol string (e.g., %%%% er -WALK ER ). In Experiment 3, the primes were formed by a real word that shared the suffix with the target (e.g., bak er -WALK ER ). The results showed that, when compared with an orthographic priming condition, masked suffix priming can be obtained independently of the degree of segmentation of the prime. Furthermore, the present experiments reveal a clear dissociation between orthographic priming and morphological priming.
Article
The authors investigated the lexical entry for morphologically complex words in English, Six experiments , using a cross-modal repetition priming task, asked whether the lexical entry for derivation-ally suffixed and prefixed words is morphologically structured and how this relates to the semantic and phonological transparency of the surface relationship between stem and affix. There was clear evidence for morphological decomposition of semantically transparent forms. This was independent of phonological transparency, suggesting that morphemic representations are phonologically abstract. Semantically opaque forms, in contrast, behave like monomorphemic words. Overall, suffixed and prefixed derived words and their stems prime each other through shared morphemes in the lexical entry, except for pairs of suffixed forms, which show a cohort-based interference effect.
Article
"On The Definition of Word" develops a consistent and coherent approach to central questions about morphology and its relation to syntax. In sorting out the various senses in which the word "word" is used, it asserts that three concepts which have often been identified with each other are in fact distinct and not coextensive: listemes (linguistic objects permanently stored by the speaker); morphological objects (objects whose shape can be characterized in morphological terms of affixation and compounding); and syntactic atoms (objects that are unanalyzable units with respect to syntax).The first chapter defends the idea that listemes are distinct from the other two notions, and that all one can and should say about them is that they exist. A theory of morphological objects is developed in chapter two. Chapter three defends the claim that the morphological objects are a proper subset of the syntactic atoms, presenting the authors' reconstruction of the important and much-debated Lexical Integrity Hypothesis. A final chapter shows that there are syntactic atoms which are not morphological objects.Anne Marie Di Sciullo is in the Department of Linguistics at the University of Quebec. Edwin Williams is in the Department of Linguistics at the University of Massachusetts. "On The Definition of Word" is Linguistic Inquiry Monograph 14.
Article
RESUMO: Este estudo tem por objetivo defender a hipótese de que os prefixos, como os sufixos, selecionam rigidamente a base com a qual se combinam. Para tanto, serão examinados casos de sufixação para mostrar que certas características da seleção, como as incompatibilidades categoriais ou semânticas entre a base e os afixos e a possibilidade de homonímia de sufixos, também se encontram na prefixação. PALAVRAS-CHAVE: prefixação; seleção categorial; morfologia gerativa. INTRODUÇÃO A afixação é um título geral que recobre tradicionalmente dois processos na formação das palavras: a prefixação e a sufixação. Embora em teorias morfológicas mais recentes (como a de Di Sciullo, 2005 ou a morfologia distribuída de Halle e Marantz, 1993) os dois processos sejam considerados rótulos de generalizações descritivas, a tradição morfológica os tem tratado como distintos. O ponto de distinção diretamente observável é que os prefixos se colocam antes da base lexical a que se afixam e os sufixos depois. Outro ponto largamente apontado na tradição é que os sufixos têm a propriedade de mudar a classe das palavras, enquanto os prefixos não fazem isso. Porque os sufixos determinam a classe da palavra formada (que doravante chamaremos de produto), seu estudo nunca perdeu de vista a classe da palavra primitiva (aqui chamada base). Em conseqüência, formou-se um consenso razoável de que os sufixos selecionam a base. Por outro lado, não se formou para os prefixos uma tradição que os classificasse de acordo com a base com a qual se combinam. Assim, por 1 Universidade Federal de Santa Catarina -UFSC. Ambos os autores são pesquisadores do CNPQ, respectivamente processos n o . 300.737.1994-7 (II) e n o . 301.396/84-1 (Id).
Article
Form-priming occurs when a prime that is graphemically similar to the target word facilitates processing of the target. In an activation model (such as Morton's logogen model), such an effect can be interpreted as a partial-activation effect. A prime that shares letters with the target must inevitably produce activation in the detectors for both the prime and the target. Alternatively, form-priming could be seen as a special case of repetition-priming, in which the prime actually accesses the entry for the target. It is shown that masked-priming effects in the lexical decision task can be obtained for graphemically related pairs such as bontrast-CONTRAST, but not for four-letter pairs such as bamp-CAMP. It is suggested that the priming effect is controlled by neighbourhood density, short words usually having many neighbours, long words having very few. This hypothesis is supported by the finding that form-priming does occur for four-letter words if the prime and target are drawn from low-density neighbourhoods. For a partial-activation theory, an inhibitory mechanism that is sensitive to the number of prime-neighbours is required to explain the results. Of the several versions of a repetition account considered, the “best match” hypothesis appears to be the most promising: this assumes that priming is limited to the stimulus that best matches the prime. It is also shown that prime-target pairs that are related in form and meaning (e.g. made-MAKE) produce the same priming effect as identical pairs, as predicted by a repetition account that assumes a common entry underlying both forms.