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“Preces a Nosso Senhor para dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de Coimbra (séculos XVIII-XIX)

Authors:
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Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo “Preces a Nosso Senhor para
dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
“Preces a Nosso Senhor para dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência
da Ordem Franciscana Secular de Coimbra (séculos XVIII-XIX)
“Prayers to Our Lord for good weather”. Prayers and Penance processions of the
Secular Franciscan Order of Coimbra (18th and 19th centuries)
« Prières à notre Seigneur pour le beau temps ». Prières et processions
pénitentielles de l'Ordre Franciscain Séculier de Coimbra (18ème et 19ème siècles)
"Oraciones a Nuestro Señor por buen tiempo". Oraciones y procesiones de
Penitencia de la Orden Franciscana Seglar de Coimbra (siglos XVIII y XIX)
Ana Margarida Dias da Silva
(FCT-Universidade de Coimbra)
margaridadiasdasilva@gmail.com
Fernando B. Figueiredo
(CITEUC-CMUC-Universidade de Coimbra)
fernandobfigueiredo@gmail.com
Resumo: Os registos históricos são bastante importantes para os estudos atuais de climatologia. Os
registos eclesiásticos merecem particular atenção pelas descrições vivas da incompreensão da população
face às causas dos fenómenos meteorológicos adversos, encarados, invariavelmente, como manifestação
do desgosto e castigo de Deus. As procissões de preces e penitência, realizadas em período de
calamidade, rogavam a Deus a benesse da sua cessação. Nos anos 1744, 1753, 1772, 1793, 1800, 1818 e
1824 a Ordem Franciscana Secular de Coimbra registou, para memória futura, a realização de procissões
em períodos de calamidade continuada. Neste artigo apresenta-se a transcrição destes registos.
Palavras-chave: estudos históricos de clima, fontes eclesiásticas, chuva, seca, ciência e sociedade.
Abstract: Historical records are significant for current climatology studies. Ecclesiastical records deserve
attention for the lively description of people’s incomprehension of weather adverse phenomena causes,
which were invariably seen as a manifestation of God displeasure and punishment. The religious
processions and penitence, done in times of calamity, besought God’s blessing for calamity's end. In the
years 1744, 1753, 1772, 1793, 1800, 1818 and 1824, the Franciscan Secular Order of Coimbra recorded,
for future memory, some of these processions related to extreme weather events that devastated the city of
Coimbra. In this article, we present the transcription of seven of these registers.
Keywords: climate historical studies, ecclesiastical sources, rain, drought, science and society.
Résumé: Les documents historiques sont significatifs pour les études climatologiques en cours. Les
documents ecclésiastiques méritent l'attention pour la description vivante de l'incompréhension par les
gens des phénomènes météorologiques défavorables, qui étaient invariablement perçus comme une
manifestation du mécontentement et de la punition de Dieu. Les processions religieuses et la pénitence,
accomplies en temps de catastrophe, demandaient la bénédiction de Dieu pour la fin de la calamité. Dans
les années 1744, 1753, 1772, 1793, 1800, 1818 et 1824, l'Ordre Séculier Franciscain de Coimbra a
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Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo “Preces a Nosso Senhor para
dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
enregistré, pour mémoire future, certaines de ces processions liées à des événements météorologiques
extrêmes qui ont dévasté la ville de Coimbra. Dans cet article, nous présentons la transcription de sept de
ces registres.
Mots-clés: études historiques du climat, sources ecclésiastiques, pluie, sécheresse, science et société.
Resumen: Los registros históricos son significativos para los estudios de climatología actuales. Los
registros eclesiásticos merecen atención por la viva descripción de la incomprensión de las personas de
las causas de los fenómenos meteorológicos adversos, que invariablemente se veían como una
manifestación del desagrado y el castigo de Dios. Las procesiones religiosas y la penitencia, hechas en
tiempos de calamidad, suplicaban la bendición de Dios para su fin. En los años 1744, 1753, 1772, 1793,
1800, 1818 y 1824, la Orden Franciscana Seglar de Coimbra grabó, para su memoria futura, algunas de
estas procesiones relacionadas con eventos climáticos extremos que devastó la ciudad de Coimbra. En
este artículo, presentamos la transcripción de siete de estos registros.
Palabras clave: clima, estudios históricos, fuentes eclesiásticas, lluvia, sequía, ciencia y sociedad.
Introdução
Os estudos históricos que investigam o papel do clima e dos eventos catastróficos
nas alterações sociais e do território, permitem estudar e compreender a relação das
populações com o ecossistema (Alcoforado, 1999). O conhecimento de como no
passado se lidou com questões climáticas pode ajudar a tomar decisões mais
consentâneas e a exigir mais e melhores respostas dos decisores políticos aos problemas
ambientais atuais (Asayama et al., 2014; Oreskes et al., 2014). Vários projetos
científicos interdisciplinares, reunindo diferentes grupos de investigadores, desde
arquivistas, historiadores, geógrafos, geocientistas e matemáticos, têm vindo atualmente
a ser desenvolvidos em vários países no sentido de contribuírem para um conhecimento
da história climática e de eventos extremos passados do nosso planeta, particularmente
ocorridos em épocas pré-instrumentais, anteriores aos séculos XVII e XVIII1.
1. Fontes eclesiásticas
O recurso a fontes históricas, institucionais ou particulares, para o estudo e
compreensão das evoluções e variabilidades climáticas e da relação dos fenómenos
atmosféricos com a sociedade, é uma ferramenta de trabalho imprescindível para a
paleoclimatologia (Guimarães et al., 2016). A análise deste tipo de fontes, tendo em
conta o contexto local, social e cultural em que foram escritas, permite identificar e
conhecer os fenómenos climatéricos, bem como perceber como a sociedade os
percecionou e com eles se relacionou, através dos tempos. As fontes são vastas e
diversas (Barriendos, 1996; Silva, 2017), sendo as fontes históricas eclesiásticas de
1 Em Portugal o projeto KlimHist é disso exemplo: http://clima.ul.pt/klimhist-project.
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dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
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1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
particular relevância, devido à implementação uniforme da Igreja católica no território
nacional. A partir destas é possível recolher, de forma direta e indireta, descrições e
referências esporádicas, de quando fenómenos extremos interferiram no quotidiano das
populações, como se verifica pela leitura dos registos transcritos no final, o que se torna
particularmente relevante para estudos de reconstrução climática de pequenas
localidades afastadas dos grandes centros populacionais, por exemplo.
Na evidente impossibilidade humana de fazer cessar o fenómeno meteorológico
extremo, a multidão dos crentes implorava a intervenção divina através dos atos de
culto, nomeadamente através das preces e procissões Pro Pluvia e Pro Serenitate (Silva,
2017). A ansiada melhoria do estado do tempo era atribuída a Deus, motivando
naturalmente manifestações de “ação de graças”. Mas não eram os fenómenos
meteorológicos a única razão para se fazerem procissões, a ocorrência de epidemias, de
pestes e abalos sísmicos, eram também momentos de manifestação pública e de atos
solenes de súplica a Deus, da realização de procissões de penitência e ação de graças
(Gouveia 2000: 345).
De facto, “apontando os fenómenos naturais cíclicos como expressão da
insatisfação de Deus com a conduta do povo” as populações procuravam “acalmar a ira
divina através de penitências, preces e lágrimas” (Cabral 2011: 87-88). As alterações
climáticas prolongadas e adversas eram motivo da realização de procissão de preces,
“cerimônia [que] decorria em períodos de calamidades, os quais ocasionavam
problemas para a comunidade” (Moraes 2009: 244). É neste contexto que se inserem as
preces e procissões de penitência realizadas pela Venerável Ordem Terceira da
Penitência de São Francisco de Coimbra.
2. Um arco temporal de cerca de um século de Preces e Procissões de Penitência
Este artigo faz parte de um estudo mais amplo que se está a desenvolver sobre a
perceção e entendimento da população de Coimbra dos finais do Antigo Regime acerca
dos fenómenos naturais. As procissões em estudo realizaram-se durante os reinados de
D. João V (1706-50), D. José (1750-77), D. Maria I (1777-1816) e D. João VI (1816-
26), um amplo arco temporal marcado por uma transformação do panorama científico e
técnico do país, que se materializa na Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra
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dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
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1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
(1772) que “representou uma decisiva viragem científica e pedagógica” (Fonseca, 2017:
13) e que “pretendia ser a concretização de um projeto que tinha por finalidade
sintonizar Portugal com as ideias iluminadas da Europa e encaminhá-lo na direção do
progresso e das ciências (Figueiredo et al., 2017: 204). Assiste-se à criação das
faculdades de Matemática e Filosofia, que introduziriam “no elenco dos estudos
superiores as ciências exatas e as ciências naturais” (Fonseca 2017: 36), apoiadas em
novos estabelecimentos científicos como o Teatro Anatómico, o Dispensatório
Farmacêutico, o Observatório Astronómico, os gabinetes de História Natural e de Física
Experimental, o Laboratório Químico e o Jardim Botânico. A ideia e a visão de
conhecimento e ciência, nomeadamente das ciências naturais e físico-matemáticas, que
se expressam nos Estatutos, está em perfeita sintonia com as ideias do Iluminismo
europeu, particularmente com a sua expressão francesa (Figueiredo et al., 2017: 204). A
ciência e a técnica começam cada vez mais a entrar na esfera pública, promovendo
mudanças e comportamentos sociais e económicos. Nas décadas de 1770, 1780 e 1790
dá-se a especialização profissional e científica de filósofos naturais, matemáticos,
astrónomos, engenheiros, botânicos, químicos e mineralogistas.
É de especial interesse tentar compreender se de algum modo as novas ideias
científicas e as suas explicações acerca dos fenómenos meteorológicos ajudaram a
população a percecioná-los de outra maneira. Entender como se a articulação entre
uma matriz de cientificidade que se começa a instituir, e que caracteriza o Portugal pós
Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra, e os cultos e modos populares de
pedir e agradecer as bênçãos divinas nas tão ansiadas melhorias do estado do tempo.
Será que os cataclismos naturais, quase sempre encarados como manifestação da ira
divina, começam a ser vistos de maneira diferente? De que modo os avanços da ciência
na interpretação dos fenómenos físicos vão sendo apreendidos pela população?
Sabemos que a religião se mostra como uma ação comunicativa entre o homem, a
natureza e a divindade (Rodrigues 2004: 348), de que modo o discurso científico se
interfere nessa acção?
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dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
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3. Preces e Procissões de Penitência na Ordem Franciscana Secular de Coimbra
A Venerável Ordem Terceira da Penitência de São Francisco de Coimbra foi
fundada em 1659, com sede primitiva na igreja do convento de S. Francisco da Ponte2.
A busca pela perfeição evangélica, a partir da vivência religiosa rigorista, marcada pela
disciplina, obediência, autocontrole e penitência, configuram-se como o objetivo
principal dos membros das ordens terceiras franciscanas.
Durante o século XVIII foi intensa e modelar a vida espiritual litúrgica e cristã
dos franciscanos seculares com a divulgação do pregão da encomendação das almas em
novembro, a realização das procissões da Penitência, dos Passos, do Enterro do Senhor,
Quarta-feira de Cinzas, no primeiro Domingo da Quaresma ou na Sexta-feira Santa.
No arquivo da instituição encontram-se Memórias que contêm “informação
minuciosa dos santos exercícios realisados nos annos de 1744, 1753, 1772, 1800, 1808 e
1832”3 (Barrico, 1895: 86). É a partir desta chamada de atenção feita por Joaquim
Simões Barrico, secretário do Definitório entre 1896 e 1905, que se localizou
informação sobre procissões de “Preces para o Senhor dar bom tempo”. Uma leitura
alargada da documentação permitiu juntar às procissões acima citadas aquelas
realizadas em 1793, 1818 e 1824 pelo mesmo motivo4. Os secretários da instituição
registaram, “para constar para o tempo futuro”, a ocorrência de determinados
fenómenos climatéricos e o recurso à intervenção divina através de preces e procissões
de penitência.
A Ordem Franciscana Secular de Coimbra, perante “a grande esterilidade de
agoa” (1744, 1753, 1793, 1818 e 1824)5 ou “as continuadas chuvas” (1772, 1799-1800)6
que assolaram não a cidade de Coimbra como “a maior parte do reino”, viu-se na
obrigação de organizar procissões de preces7. Pelas Memórias percebe-se que se
2 Sobre a história da Ordem Franciscana Secular de Coimbra ver Silva, 2013.
3 Barrico descreve em pormenor as procissões de 1800 e 1832. Esta última está relacionada com o surto
de cólera-morbus que assolou a cidade de Paris em finais de março desse ano, com expressão em Europa
e a que Portugal não escapou no ano seguinte e, por isso, não se transcreve aqui.
4 Livro de Memórias da Nossa Venerável Ordem feito em 1774, Arquivo da Venerável Ordem Terceira da
Penitência de S. Francisco de Coimbra (AVOTPFCBR), liv. 4, 1774-03-08 a 1888-05-10; e Livro das
mesas e lembranças da Venerável Ordem, AVOTPFCBR, liv. A7, 1785-10-14 a 1835-02-23.
5 Documentos 1, 2, 4, 6 e 7, respetivamente.
6 Documentos 3 e 5, respetivamente.
7 Também em 1744, 1753, 1772 e 1793 se realizaram preces e procissões «pela bênção da chuva» ou
«pela serenidade do tempo» no Porto e em Braga (Silva, 2017). Em Braga há nota de seca e calor
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Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo “Preces a Nosso Senhor para
dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
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1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
associam os momentos de seca e/ou de chuva intensa a castigos de Deus motivados pelo
pecado, como fica expresso nos registos das várias procissões, nomeadamente: “como a
mizericordia devina ainda não sucurria aos peccadores mas antes continuavão os
castigos toda esta cidade e todo o nosso Portugal com este grande castigo sem acharem
refugio para a sua penna” (1744) ou “o Senhor amiasava castigo ao Reino nas
continuadas chuvas que embarasavão as sementeiras e não deixavão crecer as feitas, e
que este castigo procedia dos pecados” (…) “vendo a grande estrelidade de calores com
que Nosso Senhor ameassava a homanidade” (1818).
E a crença na súplica a Deus fundamentava-se na prova de que as preces eram
atendidas. Veja-se o que aconteceu depois de “tão grandes calores que parece se
acabava o mundo”: a misericórdia divina “succurreu com ella em tanta abundancia que
inundava as ruas da cidade” e “com inundancia de agoa que durou por espaço de 3 dias”
(1744); e o “benefficio recebido da Mizericordia do Senhor sobre nos mandando agoa
com tanta abundancia depois de huma tão grande esterelidade”. E mesmo as
“continuadas chuvas” que eram “Com tanta abondancia que no nosso ryo erão cheyas
humas sobre as outras, quaze se pode dizer que era huma cheya continuada” (1800) logo
“na primeira tarde de penitência e oração principiou a não chover” (1772), “secarão as
chuvas, apareceu o bom tempo” por “milagre que obrou por emtercesão de Nosso
Patriarca São Francisco” (1800).
No entanto, nem sempre o “primum movens” do ato cultual seria a mudança de
vida: o que se rogava a Deus (supondo naturalmente a fé) era exatamente a benesse, a
cessação da calamidade, como fica expresso nas preces e procissões de penitência que
aqui se transcrevem.
Conclusões
Este trabalho reconhece a necessidade de coligir dados sistemáticos e a
importância da identificação de fontes documentais para a história do clima. A
apresentação das transcrições de uma série documental relativa às procissões de preces e
penitências realizadas pela Ordem franciscana secular de Coimbra num arco temporal
excessivo no ano 1780 que “provocavam problemas na agricultura, marchando em procissão percorrendo
as ruas da cidade com o andor de São Francisco e o Santo Lenho (Moraes, 2009: 245-246).
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1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
de quase um século mostra, por um lado, a validade das fontes eclesiásticas para a
compreensão da atitude das populações relativamente a fenómenos meteorológicos
extremos e, por outro, pela descrição dos acontecimentos que relatam, procura alertar e
complementar informação coligida noutras fontes documentais, procurando acrescentar
mais dados para estudos históricos de climatologia.
Transcrições8
Documento 1
Memoria de hua procição que fes a Veneravel Ordem Terceira desta cidade de
Coimbra da sua capella nova que se acha contigua com a igreja de S. Francisco para a
do Real Mosteiro de Santa Cruz e de alguns prodigios que Deus ofrece por interceção
do Nosso Padre São Francisco depoes que se transferio para a sua nova capella9.
Pellos annos de 1744 ouve neste nosso reino de Portugal hua grande esterelidade
de agoa de tal sorte que já a não havia não só para a fertelidade dos campos mas para a
sustentação dos viventes e ainda dos racionais os quais se vião opremidos sem poderem
levar o necesario para remediar a sua necessidade e vendose nesta como verdadeiros
catholicos recurrerão ao Ceo implorando para este as imagens de maior valimento.
Fizerão-se preces pellos conventos mosteiros colegiadas recolhimentos e mais igrejas e
capellas não só nas cidades e villas mas na maior parte do reino. Na igreja do meu Padre
São Domingos desta cidade se fizerão com muita grandeza porque nella alem de outros
exercicios santos se fez hua publica procição na qual hia hum admiravel andor com a
Virgem Senhora do Rozario e em outra seu amado filho pendente de hua cruz com o
Sacramento Santissimo exposto no lado fez termo e asento por espaço de hum dia na
catedral adonde forão veneradas depois pella tarde voltarão para onde sahirão e por
ultimo se pregarão as doutrinas conducentes para huma boa esperança de que tanto se
necesitava mas como a mizericordia devina ainda não sucurria aos peccadores mas antes
continuavão os castigos vendose toda esta cidade e todo o noso Portugal com este
grande castigo sem acharem refugio para a sua penna clamavão que emquanto não
8 Neste trabalho foram seguidas as regras de transcrição do padre Avelino Jesus da Costa: Normas gerais
de transcrição e publicação de textos modernos, 3ª ed., Coimbra: Universidade de Coimbra, Instituto de
Paleografia e Diplomática, 1993.
9 Arquivo da Venerável Ordem Terceira da Penitência de São Francisco de Coimbra (AVOTSF), Livro de
Memórias da Nossa Venerável Ordem feito em 1774, fl. 82v.-83v.
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1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
sahice a pedir agoa o grande pai S. Francisco não acharião alivio nem remedio para a
sua <necesidade>.
E revestida toda a cidade desta fé se dispôs fazer se preces na forma seguinte.
Mandou o Padre Commissario desta Veneravel Ordem Terceira convocar não só a
illustre Meza mas a todos os mais filhos e filhas desta Venerável Ordem para que juntos
e congregados suplicacem a Nosso Padre São Francisco pella grande esterelidade em
que se vião e juntos na nossa nova capella em hua das quintas feiras de Agosto do dito
anno lhe fes hua breve pratica de que os dispôs para no domingo seguinte se
confeçasem e comungasem em que havia de haver hum dos 4 jubileos do anno logo se
deu principio à Via Sacra publica que se fes por espaço de 3 dias nos quais tãobem se
recomendou muito alem de outras penitencias a do jejum e acabada a Via Sacra em cada
dia estava a communidade dos religiozos na capella na qual pondo manifesto o
Santissimo Sacramento se cantava a ladainha e se concluia a função com a Antifona e
oração de Nosso Padre São Francisco. Chegado o domingo era tão grande o concurço de
devoçam desta terra que se não cabia pella igreja e capella e feita a função deu se a
confição e comunhão concurreu de tarde não só muitos filhos do grande pay S.
Francisco mas a maior parte da cidade a quem o Padre Commissario fes huma breve
pratica encomendando muito às irmans e mais pessoas do sexu femenino que se
recolhecem para suas cazas e nellas ocultas e devotamente suplicacem a Deos e ao
Nosso Patriarcha por esta grande esterelidade, já a este tempo que era junto da noute se
hia ennubelando os ares estando nos 3 e mais dias antecedentes tão grandes calores que
parece se acaba<va> o mundo. Em fim chegou a noute e com ella os filhos da
Veneravel Ordem Terceira os quais de suas cazas vinham sem mais ornato que o
hábito da Veneravel Ordem sem capa e descalços. Seguioce logo hum sermão que
animava a todos a grandes penitencias; acabado este principiouce a procição de
penitencia. Primeiramente sahirão 3 religiozos com cruz e cereais logo a Veneravel
Ordem Terceira descalcos com cordas ao pescoço e outras mais penitencias a quem
igualmente nellas e em tudo o mais acompanhava a communidade dos religiozos e no
fim o andor do Nosso Padre São Francisco recebendo as chagas o qual levaram os
irmãos da Meza e adiante da crux da communidade hia a das penitencias por que hiam
muitos penitentes com … e vestidos de branco. Apenas a procição principiava a sahir da
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1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
nossa capella pellas nove horas fazendo o padre commissario já fora da igreja hua breve
exortação da humildade com que havião de hir asim como dice digam todos Senhor
Deos Mizericordia quando logo Deos nos succurreu com ella em tanta abundancia que
inundava as ruas da cidade e esta se fazia mais cupeoza pellas muitas lagrimas que
todos deramavam não só com alegria de se verem sucurridos na sua mayor neccessidade
mas tãobem porque com esta demonstração queriam pagar tão grande beneficio. Digno
he de toda a memoria o que recebemos no Real Mosteiro de Santa Crux por que ao
entrar da igreja estava toda a sua religiozissima communidade em duas alas de joelhos
com cordas ao pescoço para receberem ao Serafim chagado o qual puzerão na capella
maior em hum requissimo mausoleu e ali ficou o Santo Patriarcha por espaço de outo
dias com asistencia daquela santa communidade de alguns religiozos … e de muita
parte dos irmãos da Venerável Ordem Terceira fez se logo hum altissimo sermão ao
povo que ao mesmo tempo que se desfazia em lagrimas tãobem os ceos se desafogavão
com inundancia de agoa que durou por espaço de 3 dias e pasados os outo dias destas
asistencias e religiozos cultos se pregou em ação de graças e depois pella tarde se fez
hua nobilissima procição em que asistio toda a nobreza da cidade e a recolher na capella
da Veneravel Ordem Terceira se pregou em ação de graças e desta sorte se concluio esta
sempre memoravel e prodigioza função com admiração não só de toda esta nobillissima
cidade mas de todo o mundo donde chegou o annuncio de tam grande prodígio.
Documento 2
Memoria das procisoins de preçes que fez a Veneravel Ordem da Penitencia do
nosso Patriarca S. Francisco no anno de 175310.
Em o anno de 1753 houve huma grande esterelidade cauzada da falta das agoas,
secarão quazi todas as fontes, não havia agoa para os engenhos de moer e os de azeite se
forão suprindo a força de braços não havia farinhas nem aonde se moeçem, muitos
gados por varias forras morrerão de cede. E o nosso rio Mondego levava pouco mais de
duas varas de medir pano de largura e pouco mais de dous palmos de altura no principio
do mes de Julho. E tendo sahido a Senhora do Terço varias vezes em procição de preces
sem que Deus se movese a despachar as suplicas.
10 AVOTSFC, Livro de Memórias da Nossa Venerável Ordem feito em 1774, fl. 84-85.
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No dia 8 do mesmo mes que era domingo determinou a Meza se principiacem no
mesmo dia e continuassem per espaço de tres na nossa cappella a que assistisse a
Ordem, preces e estas se fizerão cantadas pellos religiosos com o secrario aberto,
estavão acezas na tribuna ao Santo Cristo seis velas e no altar ardião doze, seis na
banqueta e outras seis sobre o altar, e o padre comissario asistia com pluvial roxo ao
altar e cantava as oracoins.
No dia de quarta-feira 11 do mesmo mes se fes procição de penitencia da nossa
cappella para a igreja do mosteiro de Santa Cruz com o andor do Nosso Padre
recebendo as chagas e no fim o Santo Lenho debaixo do palio que servio o da
Irmandade do Senhor dos Passos por ser mais maniavel que o nosso. Foran-se cantando
em dous coros as preces que determina a Santa Madre Igreja hum de relligiosos e outro
de clerigos que hião diante do dito Andor e ao pe ardião seis tochas e ao palio outras
seis hião mais dezaseis alinternas acezas, a saber, duas a cruz da penitencia que hião no
principio da mesma procição e outras duas à cruz da comunidade que se seguia finda a
penitencia, seis ao andor e outras seis ao palio. Os nossos irmaons terceiros hião a maior
parte descalsos, todos sem capas com cordas de esparto ao pescoso e coroas de espinhos
na cabesa. E pello caminho hião os relligiozos principais do convento lançando
bradados de largas praticas para mover a contrição nas partes em qua parecião mais
conducentes e de maior concurso de gente.
Desta sorte chegou a procicão a igreja do dito Mosteiro aonde a recebeo toda a
communidade em duas alas com velas acezas nas maons decalsos sem murças e com
cordas ao pescosso. O primeiro da ala direita hera o Excelentissimo e Reverendissimo
Senhor D. Miguel da Anunciação bispo desta cidade relligiozo que foi do mesmo
mosteiro que foi eleito sendo prior geral de toda a conggreguação. E da esquerda o
Muito Reverensissimo Senhor D. Francisco da Anunciação prior geral cancelário
reformador e reitor da Universidade, ambos irmaons da Nossa Ordem. Houve sermão
que pregou o reverendo padre D. João de Nossa Senhora.
Na cappella mor se colucou o andor onde esteve the o dia de sesta feira da semana
seguinte 20 do mesmo mes a noute, ardendo ao redol delle seis tochas da nossa ordem e
seis velas da communidade do mesmo mosteiro desde que se abria a igreja pella
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Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo “Preces a Nosso Senhor para
dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
manham the se fichar ao meio dia e de tarde the o fim da oração mensal da noute. E em
todo este tempo asistirão em Laus Prene os nosso irmaos por turno.
No dito dia de sesta feira 20 do mesmo mes depois de noute per serem acabados
os nove dias de preçes na igreja do mesmo mosteiro e Deus não ser servido
despacharnos nossas suplicas por meos grandes pecados, se levou o andor de Nosso
Padre para a sua cappella com a mesma procicão de penitencia, sem o Santo Lenho,
palio, nem tochas mas sim com as lenternas e canto funebre de miserere psalm 50 e ao
sahir a porta de Santa Cruz e entrada da nossa cappella fes o Reverendo padre
commissario Frei Antonio da Piedade pregador jubilado humas breves praticas
emplorando de Deos Mizericordia.
No dia antecedente feira 19 do mesmo por ordem do Excelentissimo Senhor
Bispo Conde se fez outra procicão de preçes com as imagens do Senhor de Jezus e
Senhora do Rozario para a Sé onde estiverão the o domingo 22 e com procição solemne
no mesmo domingo forão tresladadas a sua igreja de S. Domingos e tambem não
despachou Deos as suplicas the feira seguinte 27 do dito mes de Julho que mandou
algumas chuvinhas.
E porque hera cauza commua se emprestou da nossa Ordem diadema, manto,
tunica, andor, jarras e ramalhetes para a Senhora do Rozario de que para todo o tempo
constar fiz esta declaração e memoria aos 28 de Julho de 1753.
Antonio Rodriguez Balão [assinatura autógrafa] secretario.
Documento 3
Termo que se mandou fazer das Preces para o Senhor dar bom tempo11.
Ponderando a Meza da Veneravel Ordem Terceira da Penitencia que o Senhor
amiasava castigo ao Reino nas continuadas chuvas que embarasavão as sementeiras e
não deixavão crecer as feitas, e que este castigo procedia dos pecados animados na
palavra do Senhor que não pode faltar que prometem serem ouvidos os que
arrependidos pedirem. Detreminou comvocar a todos os Irmãos e Irmans para juntos na
capella da mesma Ordem fizecem tres dias de penitencias e oração com fervor ao
Senhor tomando para isso a proteção do Nosso Patriarcha Francisco e no 3º dia se
11 AVOTSFC, Livro de Memórias da Nossa Venerável Ordem feito em 1774, fl. 86-86v.
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Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo “Preces a Nosso Senhor para
dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
confesacem e comungacem e para todos os mais fieis se deo o mesmo avizo e asim na
quarta-feira que se contarão o primeiro do Mes de Abril do presente anno de 1772 pellas
coatro oras da tarde se deo principio às ditas preces com o sacrário aberto ornado com
muitas luzes e toda a Meza e comonidade com tochas offeciando as preces o Nosso
Irmão Menistro Theotonio Valerio de Figueiredo, professo na ordem de Cristo e
arcedi[a]go de Cea na cathedral desta cidade e ex prior da villa de Pereira com capa
roixa e coatro rellegiozos revestidos com elle com capas tambem roixas cantarão as
preces os rellegiozos e respondendo os Irmãos 3os e mais povo; acabadas se ajuntarão
na igreja e vezitarão a via sacra com muita devoção trazendo o Senhor no andor e
saindo pellas ruas na forma do costume, o que lhe premetio o spirito pois logo nessa
primeira tarde principiou a não chover e asim tem continuado, recolhida a via sacra
entrarão a louvar a Maria Santissima como a milhor Patrona (f. 86v.) cantando lhe o seu
tersso e emquanto este durou andarão os Irmãos da Meza e os mais Irmãos em continua
penitencia, huns com cruzes, cordas ao pescosso, coroa de espinhos, outros com
caveiras e ossos, outros postrados por terra deixandoce pizar de todos, outros com hum
Santo Espirito(?) clamando Mizericordia, andando de joelhos todo o pavimento que se
descobria da capella mor animandoce huns a outros a mayor penitencia e asim se fes
todos os tres dias, porem no 3º se confessou e comungou muita gente e Irm[ã]os e
Irmans Terceiras. Neste ultimo dia estando o Senhor exposto com missa cantada pella
muzica da Sée a qual offeciou o Nosso Irmão Menistro; de tarde depois das preces ouve
procição solene com o Santissimo que levou o mesmo Menistro com os acólitos de
manhãa, que forão dois rellegiozos graves asestindo a esta função o mayor numaro de
gente que ha memoria se vice nesta igreja; recolhida a procição se continuarão os
exercissios da Penitencia como asima se dis.
E vendo a Meza a utelidade que se concegue com ajuntar a Penitencia e a oração a
esmola mandou dar vinte mil reis aos nossos Irmãos pobres e doentes repartidos pella
mão de Nosso Dignissimo Padre Comissario que com o seu costumado zello, repartio e
para que constace a todo o tempo desta acção e de que o Senhor foi servido ouvir as
nossas suplicas mandarão fazer este termo que asinarão e eu Bráz Teiceira de Paula
secretario actual da Ordem a fis e asinei aos 3 de Mayo de 1772. [assinaturas
autógrafas].
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Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo “Preces a Nosso Senhor para
dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
Documento 4
Memoria da Procição de Preces que fez a Veneravel Ordem da Penitencia do
Nosso Patriarcha S. Francisco no anno de 179312.
Em o anno de 1793 houve huma grande esterilidade cauzada de falta de agoas por
cujo motivo se fizerão Preces em todos os mosteiros, conventos, collegiadas e em todo
o bispado, determinando a Nossa Ordem fazer as mesmas suplicas a Deus asentando-se
em Meza de 13 de Agosto do dito anno fazerem-se preces nos dias 14, 15 e 16 como se
fizerão na igreja da Sé Velha com o Santissimo exposto na boca do sacrario asistindo a
ellas a maior parte da Meza com todos Irmaons que concorrerão por avizo que se lhes
deu hindo ao altar o nosso padre comissario.
No ultimo dia das Preces à noute se fez huma procissão de Penitencia dirigida ao
Mosteiro de Santa Cruz aonde ja tinhão hido duas, huma no anno de 1744 e outra no
anno de 1753 e antes de sahir a nossa Procissão da igreja da Se Velha ahi pregou o
padre mestre Doutor frei Manoel Nicolau rellegiozo do Carmo Calçado e depois se
prosseguiu a dita procissão na qual hião os nossos Irmãos em loba descalcos, com hua
corda ao prescoco, coroa de espinhos na cabeça, conduzindo nella o andor do Nosso
Santo Patriarcha recebendo as chagas hindo debaixo do palio o Nosso Comissario com
o Santo Lenho hindo a dita procissão pela Calcada, rua dos Gattos, Praca, rua dos
Sapateiros e em volta do Terreiro de S. Sebastiam foi recebida a porta da igreja de Santa
Cruz por toda a comunidade que estavão descalcos sem murça e com huma corda ao
prescoço. Foi collocado o andor do Nosso Santo Patriarcha no corpo da capella mor
para a parte do Evangelho em hum altar que ja lhe estava preparado com seis luzes na
banqueta que a mesma comunidade lha mandou por e no altar da dita capella mor
estavão as reliquias dos Martires Santos de Marrocos com hum trono de luzes à custa da
mesma comunidade entre as quais relliquias tãobem estava a de Santo Theotonio. Logo
pela Nossa Ordem se fez distribuição pelos Irmaons para asestirem dois em cada meia
hora com suas tochas açezas e ao pe do andor do Nosso Santo Patriarcha mandou por a
Nossa Ordem 4 tocheiras com tochas acezas que estiverão a arde emquanto lá se
conservou o andor. Foi o noso Patriarcha respeitado e venerado por toda a comunidade
de sorte que às missas cantadas e rezadas que nunca os padres revestidos passavão sem
12 AVOTSFC, Livro de Memórias da Nossa Venerável Ordem feito em 1774, fl. 89-90v.
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Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo “Preces a Nosso Senhor para
dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
que lhes fizessem reverencia e muitos relligiozos particulares tinhão devoção de estarem
em asestençia com os nossos Irmãos. Tanto que se começarão as nossas preces que foi
como ja disse no dia 14 logo no dia 15 de mane no dia 17 e no dia 19 de tarde
choveu alguma couza e como o Estio continuou com grandissimo calor sendo muito
intenço com vento suão no dia 23 vespora de S. Bartolomeu determinou a Ordem fazer
novas preces em Santa Cruz e Via Sacra de Penitencia cuja acção se principiou no dia
25 de tarde no altar do Sacramento de Santa Cruz onde se expoz com hum trono de
luzes à custa da comunidade que não consentiu desse a Nossa Ordem sera alguma.
Nesse mesmo dia de manhã houve comunhão geral para os nossos Irmaons que se
avizarão para esse fim e na verdade concorrerão muitos a confessarem-se e
comungarem <na Sé Velha> sendo então dia de S. Luis Rei de França em que ganharão
jubileu.
No fim das preces em Santa Cruz que forão capitulados pelo Nosso Padre
Comissario pregou hum grande sermão de Penitencia o Padre Dom João da Natividade
e no fim do sermão que hera de noute se formou a Via Sacra de Penitencia desde a
igreja de Santa Cruz athe a de Santa Justa na qual hia adiante huma cruz com duas
lanternas e depois os nossos Irmaons todos descalços com coroa de espinhos na cabeça
e corda ao pescosso; e porque herão muitos hião dois nossos Irmaons sacerdotes a ler no
fim hia o andor do Nosso Santo Patriarcha a receber as chagas com 8 lanternas e toda a
Meza e Irmaons sacerdotes todos descalços na forma dita com brandoens acezos. Tanto
que chegou a dita procissão de Via Sacra a Santa Justa estava à porta o parroco e mais
benefficiados de sobrepelizes e com tochas acezas <e descalços> que nos receberão e
acompanharão athe a capella mor, onde estava exposto no trono o Senhor crucificado
que hé e sempre foi de grande veneração para os fieis,
A dita Via Sacra se fez duas noutes que vem a ser no dia 25 26 e neste dia houve
ao jantar huma copiosa chuva que durou duas horas por cujo motivo se não fez 3ª como
se tinha asentado, e tãobem por que como no dia 27 hera vespora de Santo Agostinho
embaraçava as Matinas solemnes que a comunidade costuma fazer ao seu Santo porem
no dia seguinte do mesmo Santo Agostinho visto que Deus ja se tinha lembrado de nos
com hua tão copiosa chuva de tarde se cantarão vesporas com o Senhor exposto em
Santa Cruz e no fim dellas foi conduzido o Nosso Santo Patriarcha em huma procissão
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Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo “Preces a Nosso Senhor para
dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
em que hia o Santissimo conduzido pello Nosso Comissario hindo pelas mesmas ruas
por onde tinha vindo athe a igreja da Se Velha onde estava preparado hum trono para se
collocar o Santissimo emquanto se cantou o Te Deum em acção de Graças pello
benefficio recebido da Mizericordia do Senhor sobre nos mandando agoa com tanta
abundancia depois de huma tão grande esterelidade. Não he justo deixe em silencio o
grande obsequio que a Nossa Veneravel Ordem deve aos relligiozos do Mosteiro de
Santa Cruz porque alem de não consentirem que a Nossa Ordem desse sera algum tanto
para as preces como para a exposição do Santissimo no dia procissão tãobem à sahida
della veio toda a comunidade com o seu geral e vigario prezidente e à porta da igreja em
duas alas estiverão athe que sahiu o Santissimo. No dia seguinte forão dois Mezarios da
parte da Ordem vizitar o Geral de Santa Cruz e gratificar-lhe o obsequio recebido. E
para constar para o tempo futuro fis esta lembrança como secretario que sou da Ordem
aos 30 de Agosto de 1793. Manoel Joze da Cunha [assinatura autógrafa]
Documento 5
Memoria da Procição de Preces que fés a Venerável Ordem da Penitençia do
Nosso Patriarcha São Francisco no anno de 1800, o seguinte13.
Em o anno de 1799, em Setembro do dito anno, principiou a chover coaze de
continuo athé 5 de Março do anno de 1800. Com tanta abondancia que no nosso ryo
erão cheyas humas sobre outras, quaze se pode dizer que era huma cheia continuada, o
campo todo coberto de agoa, não se fizerão sementeiras de trigos, cevadas, senteios e
verdes para os gados comerem, que muitos morrerão a fome outros os vendião por não
ter sustento para lhes dar, fazendo-se por varias comunidades preces a Nosso Senhor
para dar bom tempo.
Detreminou a nossa Ordem a fazer as mesmas suplicas a Deus asentando-se em
Meza de dois de Março do anno de 1800 fazerem-se preces na nossa igreja da Sée Velha
nos dias 5 e 6 e 7 do dito més e anno como Santissimo exposto na boca do sacrario
asestindo a ellas a maior parte da Meza e muitos Irmãons e povo que concorrerão indo
ao Altar o nosso comissario o Reverendissimo Doutor Antonio Joze da Fonseca
Bordalo.
13 AVOTSFC, Livro de Memórias da Nossa Venerável Ordem feito em 1774, fl. 91-92v.
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Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo “Preces a Nosso Senhor para
dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
No ultimo dia das preces 7 de Marco de 1800 a noute se fés huma porcição de
Penitençia deregida ao Musteiro de Santa Cruz donde ja tinhão hido tres vezes, huma no
anno de 1744, outra no anno de 1753 e outra no anno de 1793. Antes de sahir a procição
da Igreja da Sée Velha pregou as Trindades o padre reverendo Doutor Frei Vicente
rellegiozo de S. Bento, era tanto o concurso de gente que não cabião na igreja, não
obestante estar a chover de continuo nesse dia e de noute; no fim do sermão se dispos a
Procição indo diante a nossa cruz de prata com sua manga roxa rica com dois ceriaes, a
chover sahyo da Sée Velha pela rua de S. Christóvão a Santo António da Estrella, aqui
parou a chuva, foi continuando rua das Fangas, arco de Almedina, Calçada, rua dos
Gatos, Praça, rua dos Sapateiros, Sancão; se recolheu em Santa Cruz como digo a nossa
crus adiante muitos Irmãons Terceiros a maior parte descalsos todos sem capa com
cordas ao pescosso e c[o]roa de espinhos na cabeça, no fim dos nossos Irmaons hia o
nosso andor do Nosso Padre S. Francisco recebendo as chagas, de tras delle a Meza
sendo Menistros o Illustrissimo conigo Francisco Xavier de Almeida Pais, e muitos
mais que tinhão servido na Meza, seguia-se muitos clerigos com cotas e a doze levão
thochas, dispois o nosso rico palio roixo debaixo hia o nosso Padre Comissario com o
Santo Lenho, com a nossa rica capa de asperges roixa, com seis lenternas ao palio e
quatro ao andor, dois padres a cantar de ladainha dos Santos, quase ao pé da crus, outros
dois no meio da porcição, e outros dois ao pé do andor, ao pé do dito hião doze thochas
levadas por Irmãons, hião duas duzias e meia de archotes espalhados pella porcição;
forão dois rellegiozos marianos a pregar na porcição a ezurtar o povo a penitencia, o
povo era tanto que pellas ruas asima declaradas não se podia mover nimgem com o
muito concurso que se ajuntou, de sorte que hum dos ditos rellegiozos pregou no largo
da Sée Velha coaze não se ouvia pella muita gente, pregou outro no largo da Estrella,
outro nas Escadas da Audiençia e milhor lembrado se pedio huma jenela de grades na
calcada da caza de Dom Rodrigo donde pregou, o mesmo se fez ao fundo da Prassa e
também em Sanção; todo o povo gozava das missoens que ovião; com grandes choros e
gritos e suspiros a pedir a Deus Mizericordia, finalmente chegou a procição a igreja de
Santa Cruz e como o povo era tanto de tras do pallio muitos estudantes descalços,
outros com lavancas de ferro às costas, e muita gente com diversos genaros de
penitencia, com muita devoção; acompanharão a dita porcição seis verdiaéis para
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Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo “Preces a Nosso Senhor para
dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
fazerem praca e caminho, asim como na igreja que estava cheia de gente não cabião os
nossos Irmãons e mais povo e como os rellegiozos querião vir esperar a porcição a porta
da igreja como seu costume não puderão vir pello muito povo, ficarão as grades em
duas alas da parte direita o Reverendissimo padre Geral, e do outro o vigario prezidente
seguindo-se toda a comunidade de juelhos descalços sem murcas com cordas ao
pescoço, paçou toda a porcição por meio da comunidade athé a capela mor nella estava
huma maquineta ricamente ornada com seu ducel roixo bordado de ouro debaixo delle
se via reliquia do meio corpo de prata de S. Thiatonio, logo por baixo huma cabeça dos
Santos Martires de Marrocos, logo mais abaixo o meio corpo de prata com reliquia de
Santa Comba, e mais abaixo de huma parte o braço de prata com a reliquia de Santo
Agostinho, e da outra outro braço com reliquia de São Sebastião; em hum trono de
casticaeis de prata com muntas flores, estava ricamente asiado como nunca se fés,
posse14o nosso andor do Santo Patriarca para a parte do Avengalho (sic) sobre huma
urna rica muito asiada, pos o nosso comissario a nossa crus de prata com o Santo Lenho
no altar, os clerigos que erão muntos lerão as comumoraçoins a todos os santos que
estavão no altar, e a do Noss padre se recolherão para a sancristia, logo mediato
apareceu o pregador no pulpito rellegiozo dos cruzios que fés hum altiçimo sermão,
com muntos choros do povo que todos ficarão compungidos, couza adimiravel, deusse
fim a esta função com hum emzemplo muito edeficativo, depois de fecharem as portas
da igreja veio a comunidade dos rellegiozos de Santa Cruz a igreja ahy tomarão huma
rigorosa deseplina diante do nosso padre e das relequias.
Nos dias 8 e 9 do més de Março de 1800 estiverão dois Irmaons com thochas
acezas de juelhos de ora em ora por destrubuição na capella mor asestindo ao Nosso
Padre as relequias que estavão expostas no altar mor desde as 8 oras da manhã athé o
meio dia e desde as 3 oras da tarde athé as 6, era respeitada a nossa imagem pella
comunidade fazendo-lhe reverençia os padres revestidos das missas cantadas ou rezadas
que hião ao altar mor e vezitada particularmente pelos relegiozos, no dia 10 do dito més
e anno, por cauza da novena de S. Joze que prencepiou neste dia mudarão as areliquias
para o altar de Nossa Senhora da Conceiçam e nosso andor para defronte dele, por ser
percizo o corpo da capela mor para a comunidade fazer a dita novena com o Senhor
14 Sic. Deve ler-se “pôs-se”.
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Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo “Preces a Nosso Senhor para
dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
exposto, neste dia e asim continou se mandarão por 4 Irmãons de asistençia com
thochas acezas dois ao altar da Senhora e 2 para o nosso Santo Padre, revezados em oras
como asima fica dito e asim desta forma se continuou athé dia 19 de Março dia de S.
Jozé.
Neste mesmo dia pelas 4 oras da tarde se fés huma porcição em accão de Graças a
Deus, a qual sahio da igreja de Santa Cruz indo adiante dois pretos a tucar de pandão
que era cramezim, depois a nossa cruz de prata da Ordem com sua manga rica, com dois
c[e]riaeis de prata ceguia-se muitos Irmãons com suas thochas, hião tres anjos na
porcição ricamente bem compostos a deitar flores, hum quaze ao pe da cruz, e outro no
meio da porcição, e outro ao de Nosso Santo Padre, todos vestidos de gala muito
bem adreçados, o andor do nosso Santo Padre hia muito bem composto de gala, com
sanefas de damasco de ouro cramezim com muitos ramalhetes e flores; detras delle hia o
ministro o illustrissimo conigo Francisco Xavier de Almeida Paiis, e mais corpo da
Meza, e muitos que já tinhão servido na dita, seguia-se a crus dos clerigos, detrás desta
a muzica, depois muitos cllerigos de cotas e os prementados com bellos ornamentos
brancos de damasco de ouro, todos Irmãons, findos estes vinhão 4 mossos fidalgos por
banda, e dois com tribullos, todos de cotas crespas que os rellegiozos mandarão por sua
devoção, logo vinha o nosso palio branco rico e debaixo delle vinha o Santiçimo em
costodia rica dos mesmos relegiozos que a trazia o nosso comissario o reverendissimo
Doutor Antonio Joze da Fonseca Bordalo com dois acolitos com os ornamentos de capa
e dialmaticas bordados de outo que tambem era dos relegiosos dos seos pontificais, oito
lenternas de prata, 4 por banda, e seis ao nosso andor, veio a comunidade dos relegiozos
a porta da igreja em duas fileiras com thochas acezas nas mãons estando de huma parte
o reverendissimo geral e da outro o vigario prezidente athé que se despedio a porcição,
vindo pellas mesmas ruas por onde tinha hido todas barridas as jen[e]llas bem ornadas
com cobertores e finalmente se recolheo na nossa igreja da Sée Velha donde na capella
mor da dita estava bem armada e ricamente goarnecida de muito damasco e nella posta
huma maguinela com seu ducel com muitos lumes donde se expos o Santissimo e se
cantou o The Deum por muzica em acção de graças a Deus pello benefiçio recebido, no
fim se derão as oraçoins e a bençõa ao povo com o Senhor se emcarrou(?) e se deu fim a
esta fonção tão edeficativa, como grandioza, levava na dita porcição duzentos e vinte
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Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo “Preces a Nosso Senhor para
dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
lumes fora as alenternas, comcurreu muita gente não só pelas jenelas mas ainda mesmo
pellas ruas e praças na igreja não cabia o povo muitos ficarão de fora com muito
contentamento e alegria de todos.
Esteve o nosso andor de Nosso Padre São Francisco 13 dias na ygreja de Santa
Crus, neste meio tempo secarão as chuvas, apareceu o bom tempo, fizeram-se muitas
sementeiras, com muita alegria do povo deste milagre que obrou por emtercesão de
Nosso Patriarca São Francisco, no dia vinte do mes de Março de 1800 forão o nosso
comissario com o menistro da parte da Meza a vezitar o geral de Santa Cruz a
grateficar-lhe o obzequio reçebido, e para constar para o tempo futuro fis esta lembrança
como secratario que sou da Ordem aos 25 de Março de 1800. Joze da Fonseca e Lima
[assinatura autógrafa].
Documento 6
Forma da Procissão de Penitençia que fes a nóssa Ordem no dia 26 de Julho de
181815.
O Illustrissimo Senhor Ministro e mais Definitorio vendo a grande estreludade de
calores com que nosso Senhor ameassava a homanidade com a pouca predução de
frutos; e que implorar a Sua devina Mezicordia despós hua procissão de penitencia com
a nossa Irmandade no dia 26 de Julho de 1818 pressedendole nos dias imediatos de
presses na nossa capella na forma do custume, a que asistio o Reverendissimo Padre
Goardião com a sua comunidade e offiçiou o reverendo padre Comissairo comcorrendo
muito povo e Irmãos Terceiros e no segundo dia pregou no fim das preces o padre
goardião e ao treçeiro dia no fim das presses e próximo a sahida da proçissão pregou o
reverendissimo frei Martinho Mestre de F[i]lozofia do collegio com grande aplauzo dos
devoentes e depois de Trindades sahio a proçissão com muito e edificante com o
andor do Senhor da Nuvem e São Francisco das Chagas emtoando se a ladainha dos
Santos e todos os Irmãos e Relegiozos com a sua corda e coroa de silva e nosso
reverendo comissario com hum Santo Christo nas mãos no meio da prossão fazendo
repetidas vezes pontos de refleção pellas ruas que maior devoção fazião dando a volta à
cidade com muito silencio se tornou a recolher a nossa capella aonde pregou o
15 AVOTSFC, Livro das mesas e lembranças da Venerável Ordem, fl. 30v.-31.
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Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo “Preces a Nosso Senhor para
dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
reverendissimo Frei Antonio Taveiro ficando ali o mesmo andor do Senhor exposto, e
todos os dias alumiado ate 9 de Agosto que nosso Senhor foi servido mandar chuva e
andor se recolheu. E para constar fis a prezente lembrança. Joaquim da Silva
Guimarães, secretario da Ordem.
Documento 7
Memoria da Porsicão da Penitencia que fez a Nossa Veneravel Ordem Terceira da
Penitençia do Nosso Serafico Padre São Francisco no anno de 182416.
Em o anno de 1824 houve huma grande esterilidade cauzada de falta de agoa,
por cujo motivo se fizerão presses em todas as Igrejas e freguezias da cidade;
determinou a nossa Veneravel Orde fazer as mesmas supplicas a Deos nosso Senhor,
asentandosse em Meza de 20 de Julho do dito anno fazeremsse presses nos dias 21, 22 e
23 do dito mez de Julho do dito anno como se fizerão na nossa capella com o
Santissimo Exposto na bocca do Sacrario, asistindo a ellas a maior parte da Meza e
muntos Irmaons que comcorrerão por avizo que se lhes deo, hindo ao altar o nosso
reverendissimo senhor padre comissario.
No ultimo dia de Presses a noute se fez huma porsição de penitencia dirigida ao
Real Mosteiro de Santa Cruz, aonde já tinhão sido derigidas quatro vezes huma no anno
de 1744, outra em 1753, outra em 1800 e outra em 1818, todas pella mesma esterilidade
à excepção da de 1800 que foi pella munta chuva e o Senhor se dignou mandar bom
tempo, e antes de sahir a porsição da nossa capella ahi pregou nosso reverendo senhor
padre comissario frei Antonio de Nossa Senhora da Piedade Veiga, e depois se
prosseguio a porsição na qual hião os nossos Irmaons em duas allas alguns descalças
com corda ao pescoço e coroa de expinhos na cabessa, e outros muntos relligiozos;
conduzindo nella os andores da Rainha Santa Izabel, e de nosso Santo Patriarca
recebendo as chagas, indo a dita porsicão ao entrar na cidade pellas ruas dos Gattos,
Prassa, Rua dos Capateiros e em volta do Terreiro de Sencão, foi reçebida a porta da
igreja de Santa Cruz por toda a comonidade que estava a porta sem murça e corda ao
pescosso, e coroa de expinhos na cabeça, forão colocados os nossos andores, o da
Rainha Santa da parte do Evangelho fronteiro ao altar de São João e o de Nosso Santo
16 AVOTSFC, Livro das mesas e lembranças da Venerável Ordem, fl. 36v.-37.
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dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
Patriarca da parte da Epistolla fronteiro ao altar da Senhora da Comceiçam, em altares
que lhes estavão preparados com seis luzes na banqueta que a mesma comonidade
lhes mandou por, e os ditos altares, capella mor, estavão todos com luzes asezas,
igualmente a igreja com a bancada das grades e candieiros que a dita comonidade se
dignou prestar-lhe. Concluise esta accão com hum excelente sermão que pregou o
reverendissimo senhor padre vigario prezidente do dito real mosteiro acomodado ás
çirconstançias.
E no dia 10 de Agosto se fez a porsição de accão de gracas com os nossos andores
em que hia o Santissimo Sacramento comduzido pello nosso illustrissimo ministro
padre senhor Doutor Thome Rodriguez Sobral, hindo emborra (sic) pello Terreiro de
Sencão, rua do Chruxe, Calçada a recolhersse na nossa capella onde estava o altar
desente para se colocar o Santissimo Sacramento emquanto se cantou o tantuergo em
accão de gracas pello beneffissio recebido da Mizericordia do Senhor sobre nós; tanto a
esta porsicão como a primeira comcorrerão muntos fieis e os senhores reverendos
parocos das freguezias da cidade e Irmoins das mesmas Irmandades para o que forão
rogados por carta da Meza. He junto fassamos commemoracão dos ventajozos
benefissios que a nossa Veneravel Ordem recebeo dos religiozos do Real Mosteiro de
Santa Cruz, em razão do munto que nos obzequiarão no dia da porsicão da penitencia e
no decurso do tempo que se concervarão os nossos andores donde será para estarem
alumiados como no dia da nossa porsicão de accão de graças em 10 de Agosto a solene
missa que fizerão com a muzica da cidade convidada pella nossa Meza e com o Senhor
Exposto todo o dia.
E no dia 16 do dito mez de Agosto foi toda a Meza e o nosso reverendo padre
comissario vezitador vezitar o reverendissimo senhor padre vigario prezidente do Real
Mosteiro gratificarlhe tantos obzequios recebidos e para constar para o tempo futuro o
refferido fiz esta lembrança e termo que todos asignarão e eu o secretario da Ordem o
escrevi, Frei Antonio de Nossa Senhora da Piedade [assinatura autógrafa].
[assinaturas autógrafas]
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Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo “Preces a Nosso Senhor para
dar bom tempo”. Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de
Coimbra (séculos XVIII-XIX) História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº
1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4
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1888-05-10
Livro das mesas e lembranças da Venerável Ordem, liv. A7, 1785-10-14 a 1835-02-23
Bulas e Estatutos da Nossa Venerável Ordem Terceira, liv. A12, 1789[?]
Estatutos e Regulamento interno da Venerável Ordem Terceira da Penitência de S.
Francisco de Coimbra seu Hospital e Asilo, liv. A15, 1828; 1890
Estudos:
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... From January to March 1800, public rogations were celebrated in Monção 40 , Porto 41 , Coimbra (Silva & Figueiredo, 2018), and Lisbon 42 to ask God to stop the rain. ...
... From the 20 th of June, the heat intensified considerably and remained so throughout the summer 122 . At the end of July and early August, prayers were held in Penafiel 123 , Guimarães (Braga, 1993), and Coimbra (Silva & Figueiredo, 2018) to ask God for rain. In Lisbon, according to instrumental observations by the military engineer Marino M. Franzini, temperatures in June, July, and August 1818 were particularly high 124 Manuscritos, ms. ...
Article
This paper aims to assess the impact of hydrometeorological phenomena on agricultural production in northwest Portugal, from the end of the eighteenth century through the first three decades of the nineteenth century. The study analyses and discusses two recently discovered weather diaries from the agricultural region of Entre-Douro-e-Minho, in northwest Portugal (along the Atlantic coast of the Iberian Peninsula, southwest Europe). These written records were kept by Benedictine monastic communities, which used to own large farms in this region. As sources, they provide systematic data concerning weather conditions from 1798 to 1830, along with indications of the impacts on agricultural production in the region. For data analysis, we developed indices for precipitation, temperature, and agricultural production, converting qualitative data into categories of intensity. The results point to important thermal and rainfall anomalies that significantly impacted crops (in terms of yield and harvesting times) and food prices.
Article
Full-text available
Refere-se a importância dos estudos dos climas do passado, que resultaram unicamente de causas naturais, enquanto, nos períodos recentes, a acção antrópica pode intensificar ou mascarar as variações naturais. E brevemente apresentado um projecto de climatologia histórica da Europa, sobre o fim do Mínimo de Maunder (1675- 1715), período particularmente frio da Pequena Idade do Gelo. Embora não se tenham verificado nítidas tendências, observou-se que os meses de Inverno e de Primavera foram particularmente frios, também em Portugal. A irregularidade inter-anual da precipitação assemelha-se à da situação presente. Foram detectados meses de severa seca, assim como anos muito chuvosos. São passadas em revista as causas naturais que podem ter contribuído para as variações climáticas observadas no passado.
Article
Full-text available
The Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) plays a significant role in bridging the boundary between climate science and politics. Media coverage is crucial for understanding how climate science is communicated and embedded in society. This study analyzes the discursive construction of the IPCC in three Japanese newspapers from 1988 to 2007 in terms of the science-politics boundary. The results show media discourses engaged in boundary-work which rhetorically separated science and politics, and constructed the iconic image of the IPCC as a pure scientific authority. In the linkages between the global and national arenas of climate change, the media "domesticate" the issue, translating the global nature of climate change into a discourse that suits the national context. We argue that the Japanese media's boundary-work is part of the media domestication that reconstructed the boundary between climate science and politics reflecting the Japanese context.
Article
Authors' note: Science fiction writers construct an imaginary future; historians attempt to reconstruct the past. Ultimately, both are seeking to understand the present. In this essay, we blend the two genres to imagine a future historian looking back on a past that is our present and (possible) future. The occasion is the tercentenary of the end of Western culture (1540-2073); the dilemma being addressed is how we-the children of the Enlightenment-failed to act on robust information about climate change and knowledge of the damaging events that were about to unfold. Our historian concludes that a second Dark Age had fallen on Western civilization, in which denial and self-deception, rooted in an ideological fixation on "free" markets, disabled the world's powerful nations in the face of tragedy. Moreover, the scientists who best understood the problem were hamstrung by their own cultural practices, which demanded an excessively stringent standard for accepting claims of any kind-even those involving imminent threats. Here, our future historian, living in the Second People's Republic of China, recounts the events of the Period of the Penumbra (1988-2073) that led to the Great Collapse and Mass Migration (2074).
Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de Coimbra (séculos XVIII-XIX) -História
  • Ana Margarida Dias Da Silva
  • Fernando B Figueiredo
Ana Margarida Dias da Silva, Fernando B. Figueiredo -"Preces a Nosso Senhor para dar bom tempo". Preces e Procissões de Penitência da Ordem Franciscana Secular de Coimbra (séculos XVIII-XIX) -História. Revista da FLUP. Porto. IV Série. Vol. 8, nº 1. 2018. 54-77. DOI: 10.21747/0871164X/hist8a4 Bibliografia: Fontes:
Entre o Sagrado e o Profano: As Procissões em Portugal no Século XVIII Segundo Alguns Relatos de Estrangeiros
  • Isabel Braga
  • Drumond
BRAGA, Isabel Drumond (1992), "Entre o Sagrado e o Profano: As Procissões em Portugal no Século XVIII Segundo Alguns Relatos de Estrangeiros". In Maria Helena Carvalho dos Santo (coord.), A Festa. Actas do VIII Congresso Internacional, Vol. II, Lisboa, Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII, pp. 455-468.
  • Isabel Braga
  • Drumond
BRAGA, Isabel Drumond (1993), "Para a História do Medo Quinhentista: peste e religiosidade". Revista de Ciências Históricas, Universidade Portucalense. Vol. VIII, pp. 83-96.
Castigo e apelo: a religiosidade aterrorizada no conto de temática açoriana
  • Mónica Cabral
  • Serpa
CABRAL, Mónica Serpa (2011), "Castigo e apelo: a religiosidade aterrorizada no conto de temática açoriana". Teografias 1, pp. 83-97.
João Francisco Marques
  • História Religiosa Da Portugal
História Religiosa da Portugal. Vol. 2, João Francisco Marques; António Camões Gouveia (coord.). Humanismos e Reformas. Lisboa: Círculo de Leitores, pp. 334-345.