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OS PRENÚNCIOS DE UMA NOVA ORDEM: REFLEXÕES SOBRE A DÉCADA DE 1920 E A OBRA DE MACUNAÍMA

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Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato: Eliane Davila Dos Santos (2018): "Os prenúncios de uma nova ordem: reflexões sobre a década de 1920 e a obra de Macunaíma", Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales, (julio 2018). En línea: https://www.eumed.net/rev/cccss/2018/07/prenuncios-nova-ordem.html RESUMO Este artigo procura refletir sobre a sociedade brasileira da época, contextualizado na Semana da Arte Moderna de 1922 e na obra Macunaíma de Mário de Andrade. A busca por traços da realidade da sociedade no livro Macunaíma surge a seguinte questão: de que forma a obra Macunaíma reflete, em seus traços irônicos, a sociedade da década de 1920? Primeiramente buscar-se-á uma contextualização sobre a Semana da Arte Moderna e após refletir-se-á sobre aspectos irônicos encontrados no livro, buscando responder a questão proposta neste artigo. PALAVRAS CHAVES: Semana da Arte Moderna de 1922. Macunaíma. Movimento Modernista. ABSTRACT This article tries to reflect on the Brazilian society of the time, contextualized in the Week of Modern Art of 1922 and in the work Macunaíma of Mário de Andrade. The search for traces of the reality of society in the book Macunaíma raises the following question: How does Macunaíma's work reflect, in its ironic traits, the society of the 1920s? Firstly, a contextualization about the Week of Modern Art will be sought and after reflecting on the ironic aspects found in the book, seeking to answer the question proposed in this article. KEY WORDS: Modern Art Week of 1922. Macunaíma. Modernist Movement RESUMEN Este artículo busca reflexionar sobre la sociedad brasileña de la época, contextualizado en la Semana del Arte Moderno de 1922 y en la obra Macunaíma de Mário de Andrade. La búsqueda por rasgos de la realidad de la sociedad en el libro Macunaíma surge la siguiente cuestión: ¿de qué forma la obra Macunaíma refleja, en sus rasgos irónicos, la sociedad de la década de 1920?. Primero se buscará una contextualización sobre la Semana del Arte Moderna y después se reflejará sobre aspectos irónicos encontrados en el libro, buscando responder la cuestión propuesta en este artículo. PALABRAS CLAVES: Semana del Arte Moderno de 1922. Macunaíma. Movimiento Modernista
Julio 2018 - ISSN: 1988-7833
OS PRENÚNCIOS DE UMA NOVA ORDEM: REFLEXÕES SOBRE A DÉCADA DE
1920 E A OBRA DE MACUNAÍMA
Eliane Davila Dos Santos
Doutoranda em Processos e Manifestações Culturais
Bolsista de doutorado- Capes
Universidade Feevale- Novo Hamburgo Rs.
E-mail: eliane.d@feevale.br
Para citar este artículo puede utilizar el siguiente formato:
Eliane Davila Dos Santos (2018): Os prenúncios de uma nova ordem: reflexões sobre a década de
1920 e a obra de Macunaíma”, Revista Contribuciones a las Ciencias Sociales, (julio 2018). En línea:
https://www.eumed.net/rev/cccss/2018/07/prenuncios-nova-ordem.html
RESUMO
Este artigo procura refletir sobre a sociedade brasileira da época, contextualizado na Semana da Arte
Moderna de 1922 e na obra Macunaíma de Mário de Andrade. A busca por traços da realidade da
sociedade no livro Macunaíma surge a seguinte questão: de que forma a obra Macunaíma reflete, em
seus traços irônicos, a sociedade da década de 1920? Primeiramente buscar-se uma
contextualização sobre a Semana da Arte Moderna e após refletir-se-á sobre aspectos irônicos
encontrados no livro, buscando responder a questão proposta neste artigo.
PALAVRAS CHAVES: Semana da Arte Moderna de 1922. Macunaíma. Movimento Modernista.
ABSTRACT
This article tries to reflect on the Brazilian society of the time, contextualized in the Week of Modern
Art of 1922 and in the work Macunaíma of Mário de Andrade. The search for traces of the reality of
society in the book Macunaíma raises the following question: How does Macunaíma's work reflect, in
its ironic traits, the society of the 1920s? Firstly, a contextualization about the Week of Modern Art will
be sought and after reflecting on the ironic aspects found in the book, seeking to answer the question
proposed in this article.
KEY WORDS: Modern Art Week of 1922. Macunaíma. Modernist Movement
RESUMEN
Este artículo busca reflexionar sobre la sociedad brasileña de la época, contextualizado en la Semana
del Arte Moderno de 1922 y en la obra Macunaíma de Mário de Andrade. La búsqueda por rasgos de
la realidad de la sociedad en el libro Macunaíma surge la siguiente cuestión: ¿de qué forma la obra
Macunaíma refleja, en sus rasgos irónicos, la sociedad de la década de 1920?. Primero se buscará
una contextualización sobre la Semana del Arte Moderna y después se reflejará sobre aspectos
irónicos encontrados en el libro, buscando responder la cuestión propuesta en este artículo.
PALABRAS CLAVES: Semana del Arte Moderno de 1922. Macunaíma. Movimiento Modernista
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INTRODUÇÃO
As primeiras décadas do século XX foram marcadas por transformações na sociedade
brasileira. Os intelectuais da época buscavam uma nova identidade brasileira nas suas obras
literárias e artísticas. Desta forma, o presente artigo, tem como proposta refletir a respeito do cenário
social da década de 1920 e a nova mentalidade da arte brasileira, discutida na Semana de Arte
Moderna em 1922, por vários intelectuais da época, e o livro Macunaíma de Mário de Andrade.
Em resposta a estas mudanças, um dos mais conceituados letrados da década, Mário de
Andrade, emergiu com o sentimento do modernismo em Macunaíma. A obra foi escrita em
dezembro de 1926, porém publicada em sua forma definitiva apenas em 1928. A partir do cenário da
época e da publicação de Macunaíma, surge a seguinte questão: de que forma a obra Macunaíma
reflete traços irônicos da sociedade da década de 1920? Como possível resposta ao
questionamento, poderíamos dizer que a obra Macunaíma apresenta traços irônicos que ficaram
marcados ao longo de suas páginas. Ela trouxe o esboço de uma nova consciência que desafiou o
sistema cultural vigente. A obra trouxe por meio de uma nova organização da linguagem literária, o
lançamento de outras informações culturais, diferentes das posições mantidas por uma sociedade
dominada, até, então pelo reacionarismo e pelo atraso cultural generalizado.
A metodologia utilizada propõe uma pesquisa bibliográfica seguindo Provanov e Freitas
(2013) e aproxima os movimentos modernistas do início do século XX ao livro de Mário de Andrade
chamado Macunaíma. A obra foi elaborada segundo os parâmetros da Semana da Arte Moderna de
1922 que reflete o pensamento artístico do autor.
Dentro do vasto universo da literatura brasileira, a escolha da obra recaiu sobre a produção
poética de um momento muito importante da historiografia literária do país, uma produção que
permite uma leitura de sua formação cultural: a estética modernista pós 1922. Ressalta-se que este
artigo não procura esgotar todas as questões de uma obra literária, todavia, acredita-se colaborar
para uma reflexão enriquecedora sobre o livro Macunaíma, do período da década de 1920.
Os principais referenciais teóricos deste estudo são: Mário de Andrade (1991, 2000), Renato
Ortiz (2012), Darcy Ribeiro (1995) Aracy Amaral (1994), Francisco Alambert (1994) e Mendonsa Teles
(1982).
CONTEXTUALIZANDO SOCIALMENTE A SEMANA DA ARTE MODERNA DE 1922
Os anos 20 do século XX presenciaram o auge da mais vertical e profunda ruptura na história
cultural do Brasil: o Modernismo. Mais do que um movimento artístico, o Modernismo representou
toda uma época na vida intelectual e política brasileira. Inscrito em um grande processo social e
histórico, resultou em transformações que vão muito além dos seus limites estéticos.
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Que é o espírito moderno? No ardente e perpétuo movimento da
sensibilidade e da inteligência, como distinguir a expressão inequívoca do
momento fugitivo, o propulsor espiritual, que nos separa do passado e nos
arrebata para o futuro? Não será uma contradição pretender-se fixar o que
só tem uma existência imaginária e só é abstração? Para o observador que
assiste à fuga do tempo, nada é atual; o presente é uma ilusão. Como as
águas de um rio, em cada instante que passa, o espírito do homem não é
mais o mesmo. (TELES, 1982, p.311).
O espírito da modernidade estava provocando muitas mudanças no Brasil. A questão da
urbanização e da industrialização aceleram. Uma classe proletariada urbana começa a ganhar
espaço na sociedade. “O modernismo é considerado por muitos como um ponto de referência porque
este movimento cultural trouxe consigo uma consciência histórica que até então se encontrava de
maneira esparsa na sociedade”, conforme Ortiz (2012, p.40).
A Semana da Arte Moderna aconteceu de 13 a 17 de fevereiro de 1922. Entre seus principais
protagonistas estavam: houve artistas como Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e
Villa Lobos. No ano de 1922 o Brasil comemorava 100 anos da conquista da independência em
relação a Portugal. Assim, esse período foi um momento de reflexão sobre a nação que se desejava
construir nos anos seguintes e os artistas fizeram isso a seu próprio modo, segundo Alambert (1994).
É importante ressaltar que uma das propostas da Semana da Arte Moderna era e apresentar
ao público uma produção artística e uma linguagem que lembrassem o cotidiano vivenciado pelo
povo brasileiro, valorizando as práticas e aspectos culturais da época. Os autores recusaram as
antigas práticas existentes até então, que se limitavam a reproduzir, aqui no Brasil, os estilos
artísticos criados pelos europeus. Alambert (1994) ressalta que não havia uma recusa às produções
europeias, mas desta vez, percebia-se a importância do uso de apropriações, ao invés de simples
pias das expressões artísticas estrangeiras. Os intelectuais e artistas dos anos 20 tentaram
eliminar definitivamente da cultura brasileira qualquer vestígio da influência lusitana e colonizadora
que porventura houvesse escapado à escola romântica do século XIX, que se havia proposto a criar
conscientemente uma literatura eminentemente nacional.
A arte produzida e apresentada na Semana da Arte Moderna demonstrou a intenção de
colocar holofotes sobre a cultura brasileira, valorizando a arte popular, o samba e o cotidiano. O
evento pode ser considerado como um rompimento em relação a toda arte produzida no Brasil a
aquele momento. Por ser considerado um movimento totalmente novo, a elite tradicional brasileira se
recusou a chamar estas expressões de arte, com severas críticas. Segundo Alambert (1994), essa
elite somente reconhecia como arte o que reproduzia os estilos europeus e se recusava a
experimentar os estilos que pudessem mencionar a cultura africana ou indígena.
Segundo Alambert (1994), as revistas Estética, Klaxon e Antropofagia eram meios de
comunicação entre os artistas e a sociedade. Do movimento modernista surgiu o Grupo dos Cinco,
formado por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Menotti Del Picchia e Anita
Malfatti. O grupo buscou concretizar os ideais da Semana de Arte Moderna e desdobrou-os em
diversas tendências.
O Brasil dominado pelos latifundiários, que dependia de uma economia agro exportadora e
que tratava com violência as manifestações sociais; que aceitava as fraudes nas eleições; que
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mantinha a maioria da população no analfabetismo não podia ser considerado um país moderno. Era
necessária a mudança, pois a república brasileira precisava de uma reformulação, uma vez que ela
não atendia mais aos interesses da população. Esse movimento iria culminar no processo eleitoral de
1930 que traria consigo um golpe de estado, colocando fim à república velha e estabelecendo Getúlio
Vargas no poder.
E esse soterramento demogrfico corresponde a uma europeização da mentalidade e dos
hábitos" (RIBEIRO, 1995, p.406). No tocante a este ponto Ribeiro (1995) considera a ideia de que a
europeização não havia acontecido somente nas artes. As contribuições vislumbradas pelos
europeus na formação do movimento social brasileiro mostravam uma mentalidade de recusa do que
era nacional, pois o que valia eram os costumes e hábitos europeus.
A Semana da Arte Moderna de 1922 caracterizou um movimento que buscava a identidade
nacional. Com isso, buscava um distanciamento da dominação cultural estrangeira em troca de uma
valorização da nacionalidade brasileira, (ALAMBERT, 1994).
O modernismo, portanto, vem do desejo de uma liberdade de expressar e de criar algo novo.
O Brasil desejava conquistar a independência intelectual dos europeus e, com essa nova maneira de
ver o mundo, os artistas acabaram utilizando a ironia e o humor em seus textos literários. Nessa
vertente, Mário de Andrade lança Macunaíma em 1928.
MACUNAÍMA E O INÍCIO DE UMA NOVA MENTALIDADE BRASILEIRA
Macunama é uma das obras mais importantes da literatura brasileira do século XX. O
significado geral da obra, como sntese de uma reflexo crtica sobre o homem brasileiro, a insere em
nossa cultura, tornando-se parte fundamental da mesma, potencializando a compreenso da
singularidade do Modernismo brasileiro e de seu autor. Macunaíma tornou-se a convergência de um
processo estético e ideológico do Modernismo, vinculando o intelectual aos destinos da
nacionalidade, que se converteu em um paradigma do autor sobre o pensamento da cultura brasileira,
segundo Alambert (1994).
Mrio de Andrade (1991) definiu a sua visão de brasilidade em seu personagem:
Macunama, um heri que reuniu, ao mesmo tempo, as qualidades africanas, indígenas e europeias.
A beleza da cultura brasileira estava justamente na multiplicidade de suas raízes. O Brasil, dentro do
movimento antropofágico, que também partiu do propósito de repensar o país, acabou forjando a
explicação de como se opera a fusão dos elementos culturais díspares, revelando a sociedade
brasileira.
Frente aos movimentos do Modernismo contextualizados, pensar o Brasil a partir da obra
Macunaíma, é entender o país como uma mistura de mito da modernidade e folclore. A narrativa se
mostra por meio do personagem principal, surgindo da rapsódia como uma contraposição do que se
entendia como um sujeito novo: um sujeito moderno.
Mário de Andrade (1991) em sua obra Macunaíma, revelou uma dose de ironia que
caracteriza o imaginário moderno. A “falta de carter” do heri leva ao leitor o pensamento de que no,
Brasil, a homogeneidade não existe e que o país ainda não estava formado e maduro. Não se pode
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deixar o negro e o índio à margem daquilo que se chama povo brasileiro. Macunaíma se transforma e
o povo brasileiro moderniza suas raízes. Ortiz (2012), neste mesmo raciocínio entende que:
A identidade nacional é uma entidade abstrata e como tal no pode ser
apreendida em sua essncia. Ela no se situa junto à concretude do
presente, mas se desvenda enquanto virtualidade, isto é, como projeto que
se vincula s formas sociais que a sustentam (2012, p. 138).
Na obra Macunaíma, o índio é apresentado de forma distorcida. Macunaíma fala “Ai! Que
preguiça!” (ANDRADE, 1991, p. 2), mostrando, assim, a posição do europeu, que acreditava que os
índios brasileiros eram preguiçosos e não gostavam de trabalhar. “[…] feriado novo inventado para os
brasileiros descansarem.” (ANDRADE, 1991, p. 69), de forma irônica o autor, deixa transparecer a
apatia como sendo um sentimento de muitos brasileiros.
O próprio autor comenta: Macunama é uma stira mais universal ao homem
contemporneo, principalmente do ponto de vista desta sem-vontade itinerante, dessas noçes
morais criadas no momento de as realizar, que sinto e vejo também no homem de agora.
(ANDRADE, 2000, p. 473).
No que tange a questão da sexualidade, notamos que Mário de Andrade, em Macunaíma,
remete seu olhar irônico e crítico a inúmeras narrativas do folclore brasileiro, inclusive à questão do
carnaval. Entre tantas ações conscientes e premeditadas, o herói vive sua vida de acordo com sua
prpria vontade. Mente, “brinca”, dissimula, inventa coisas por bem ou por mal, simplesmente faz.
Filho do medo da noite, Macunaíma traz uma visão antropomorfista, um ser que pode fazer
qualquer coisa. Ao narrar a saga do personagem Macunaíma em busca de seu muiraquitã, um
amuleto com poderes, Mário de Andrade acaba nos remetendo às histórias míticas e às histórias do
povo brasileiro que trafega por todo o Brasil, de norte a sul, experimentando o prazer de viver.
Ressaltar a passagem da formação do brasileiro, essa mistura que acompanha o mito
fundador do Brasil foi uma das reflexões propostas por Mário de Andrade. Desde o primeiro capítulo
se evidencia esse complexo, mas onde fica mais claro é na passagem do poço encantado.
Macunaíma nasce ndio preto retinto e filho do medo da noite (ANDRADE, 1991, p. 9), mas, por
milagre, se transforma em “branco louro de olhos azuizinhos” (ANDRADE, 1991, p. 30) quando se
banha na água encantada. Jiguê, seu irmão, que representa o negro, entra na água com o negrume
do herói, porém não consegue ficar de todo branco. Maacana, que representa o índio, acaba
molhando as mãos que ficam mais claras. Por meio de toda a retrataço realizada por Andrade, em
um clima de irmandade e pureza, estava a aspiraço dos trs irmãos pelo branqueamentodo negro.
Ao falar da busca de identidade apresentada na obra Macunaíma, Amaral (1994) comenta
que isso é visível no discurso modernista do autor Mário de Andrade, a partir de 1923. Mário de
Andrade demonstrou desejo em assumir novas características, fossem elas de origem popular, afro-
brasileiras ou regionais, para, com elas, construir uma contribuição cultural para o mundo.
Dentro dessa ideia de identidade, Andrade (1991) apresenta uma rapsdia cujo heri “sem
nenhum carter” é uma sntese da sociedade brasileira. Cabe lembrar que esse heri no é mau-
caráter, mas desprovido de caráter, de identidade. heri e anti-heri. brasileiro. Com Macunama,
Andrade (1991) props um nacionalismo literrio fora do normal, ao contrário do que pregava o
movimento romntico. Na estética modernista, as formas de arte e literatura não tinham formas
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rígidas. Pelo contrário, havia a intenção de gerar uma nova visão da realidade.
Para Ortiz, A construço da identidade nacional necessita [...] desses mediadores que so os
intelectuais. So eles que deslocam as manifestaçes culturais de sua esfera particular e as articulam
a uma totalidade que as transcende” (ORTIZ, 2012, p.140).
Andrade colocou elementos fora do comum para a cultura brasileira em sua obra literária. O
autor sabia da importância do mito em sua obra. Em Macunaíma, que é uma ficção mitopoética,
buscou a alma brasileira e produziu o “heri sem nenhum carter”, o “heri de nossa gente”, com as
uma série de contradições.
Partindo do pressuposto das raças, destaca-se dentro desta figura desenhada por Andrade
(1991), o personagem Macunaíma, uma nova construção do brasileiro. Nascia mais uma face do
herói: o malandro.
Conforme DaMatta,
O campo do malandro vai, numa gradação, da malandragem socialmente
aprovada e vista entre nós como esperteza e vivacidade, ao ponto mais
pesado do gesto francamente desonesto. É quando o malandro corre o
risco de deixar de viver do jeito e do experiente para viver de golpes,
virando então autêntico marginal ou bandido. (DAMATTA, 1997, p. 269)
Andrade (1991) representou esta malandragem de forma irreverente e, muitas vezes,
cômica. A crença de que o conceito de liberdade que o modernismo trouxe para os escritores, foi
ressaltado no famoso “jeitinho brasileiro”, discutido por vrios autores como Ortiz (2012) e DaMatta
(1997) . Macunaíma é a representação do arquétipo do brasileiro, com sua forma de lidar com a vida.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As considerações feitas neste trabalho contribuíram para a reflexão a respeito do cenário
social da década de 1920 e a nova mentalidade da arte brasileira, discutida na Semana de Arte
Moderna em 1922 por vários intelectuais da época e o livro Macunaíma de Mário de Andrade.
Andrade (1991) demonstrou o seu espírito artístico-literário para interpretar e fazer emergir os
traços da sociedade brasileira. Visualiza-se na obra que o autor refletiu sobre a identidade do
brasileiro submisso a uma elite oligárquica, muito conservadora, que buscava trazer dos conceitos
europeus as explicações para problemas ideológicos e estéticos.
Segundo Ortiz (2012), ao refletir sobre a cultura brasileira e a identidade nacional, percebe-
se, frente ao processo de internacionalização do capital, juntamente com o processo de
modernização, que ambas passaram por diversas modificações em várias áreas das artes: teatro,
artes plásticas, cinema, literatura e música. Em cada forma de expressão artística os artistas
procuraram questionar o Brasil da época e desenvolver uma proposta do que poderia ser o Brasil no
futuro.
Existe a presença dos ideais modernistas na construção da obra Macunaíma, pois, nela, a
narrativa é voltada ideologicamente reflexo do mito fundador do Brasil. Quem é esse “heri sem
nenhum carter” que uma hora é negro, noutra branco ou índio? Ele é mentiroso, preguiçoso,
individualista irnico e “heri de nossa gente”.
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Macunaíma questionou a década de 20 através de uma linguagem repleta de metáforas que
permitiu ao leitor fazer a interpretação da obra. Tanto os aspectos sociais como étnicos foram
retratados de forma bem-humorada pelo autor. Com Macunaíma, a literatura legitimou um desejo de
ruptura social e étnica que continuou a aparecer nas obras literárias dos anos seguintes, assim como
em movimentos artísticos da época, seguidos pelos movimentos brasileiros das décadas
subsequentes.
Macunaíma é uma das obras que procurou refletir sobre a cultura brasileira. Uma obra que
repensou o sistema cultural da época, trazendo uma nova organização de pensamento cultural do
brasileiro. Macunaíma é uma representação de mutação; de continuidade e descontinuidade.
Macunaíma é metamorfose. A obra Macunaíma é a busca da nacionalidade brasileira.
Como resposta a pergunta deste artigo, acreditamos que existem evidências da realidade de
1920 no livro Macunaíma. Por meio dos traços irônicos da obra, Mário de Andrade criticou a
sociedade da época e propõe um novo olhar sobre o país.
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