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Coletor menstrual: uma análise a luz do metaprojeto

Authors:
  • Universidade do Estado de Minas Gerais, UEMG, Belo Horizonte, Brazil

Figures

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Coletor menstrual: uma análise a luz do
metaprojeto
Victória Carolina Pinheiro Lopes Dias;
Giordana Anjos;
Maria Regina Álvares Correia Dias
___________________________________________________________________
resumo:
O presente trabalho busca estudar um coletor menstrual a partir dos requisitos do metaprojeto, por
meio da análise de produto existente. Inicialmente buscou-se conhecer a cronologia do coletor,
passando do cenário estático permeado por valores do racionalismo industrial, ao cenário dinâmico,
definido como um cenário, complexo, dinâmico e desafiador para os designers. Em seguida verificou-
se os aspectos relacionados ao design, a partir das etapas propostas pela metaprojeto. Durante o
desenvolvimento do estudo outras reflexões se fizeram necessárias, ampliando a abordagem do
design, para um olhar antropológico. As novas gerações têm retornado pautas discutidas pelo
feminismo nos anos 1970 do século XX, como a reapropriação da mulher sobre o próprio corpo e a
representatividade feminina em espaços de poder, como na política e nas diversas áreas
conhecimento. Nesse sentido aspectos ligados à cultura e a questões de gênero servem de caminho
de aprofundamento para reflexões, que vão desde questões da relação da mulher com seu próprio
corpo e o seu protagonismo enquanto produtora de soluções no nível da materialidade para o
universo feminino. As relações entre gênero e design vêm despertado o interesse acadêmico e em
rede feministas do mundo inteiro. A análise do coletor propõe uma reflexão vai muito além de sua
função prática, para o estudo de aspectos intangíveis, porém inerentes ao entendimento de toda a
dinâmica que envolve seu uso e de como ele se tornou símbolo de autoconhecimento para as
mulheres contemporâneas.
palavras-chave:
Coletor menstrual; metaprojeto; design; protagonismo feminino.
1. Introdução
O ciclo menstrual feminino foi por muito tempo motivo de curiosidade e especulação. Várias culturas
criaram sua própria verdade e noção de entendimento deste fenômeno natural do corpo feminino.
Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade, isto é: os
tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e
as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a
maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são
valorizados para a obtenção da verdade e o estatuto daqueles que têm o encargo de
dizer o que funciona como verdadeiro (FOUCAULT, 1979, p. 12).
Muitas civilizações antigas eram matriarcais e costumavam venerar tal fenômeno, sendo
muitas vezes o sangue menstrual considerado símbolo da fertilidade, conforme atestou Marshack
(1991), ao analisar imagens femininas do paleolítico superior (25.000) encontradas na França,
Espanha, Itália, elas retratavam nuas como "Vênus" e "Deusas da fertilidade".
Com o surgimento da sociedade patriarcal, o que antes era venerado, passou a ser visto como
algo repulsivo.
Buckey e Gottlieb (1988) afirmam que a maioria dos estudos etnográficos sobre costumes e
crenças menstruais comprova que fenômeno da menstrual e visto como algo impuro por muitas
culturas, e relacionam o tabu em relação a menstruação como uma forma de opressão as mulheres.
A compreensão dessas sociedades não partia de um entendimento da fisiologia do corpo
feminino, ela se baseava em dogmas religiosos e princípios morais que regiam o comportamento
social àquela realidade histórica e cultural. Ao recorrermos a história da cultura ocidental percebemos
que a origem do tabu relacionado ao ciclo menstrual é remota, o que pode ser exemplificado na
passagem bíblica de (Levíticos 14-15) que diz: "a mulher que tiver corrimento menstrual ficará
durante sete dias na impureza das regras. Quem a tocar ficará impuro até a tarde. Atribui-se a autoria
de Levíticos a Móises, sendo escrito entre 1440 a 1.400 a.C. "
Graças ao progresso científico dos séculos XIX e XX , o conhecimento a respeito do corpo
humano avançou, fazendo com que as ideias equivocadas relacionadas ao seu funcionamento fossem
revistas. "O que distinguiu o século XX de qualquer outro período precedente foi uma tendência
continua e acelerada de uma mudança tecnológica com efeitos multiplicativos e revolucionários
praticamente sobre todos os campos da experiência humana e todos os âmbitos da vida no
planeta”(SEVCENKO 2004, p. 23).
Ao longo da história várias formas preexistentes foram adaptadas para conter o sangue
menstrual, cada cultura a sua maneira propunha soluções para este fim, as egípcias utilizavam papiros
amaciados, as romanas lãs, as gregas enrolavam retalhos de tecidos em ripas de madeira, as africanas a
grama e a japonesas o papel. Somente na idade média as mulheres começaram a utilizar toalhas
externas.
Em 1933 o absorvente foi desenvolvido e patenteado, na mesma cada, no ano de 1937 a
inventora americana Leona W Chalmers, desenvolveu e patenteou o coletor menstrual. Há poucos
estudos a respeito do objeto de que trata este estudo, e da dinâmica que envolve seu uso recente no
Brasil. Pra tanto, se fez necessário a realização de uma pesquisa online, direcionada a mulheres
usuárias e não usuárias do coletor no estado de Minas Gerais, afim de se verificar os aspectos sociais e
funcionais relacionados ao seu uso.
2. Cronologia do coletor menstrual: cenário estático
Antes da globalização de fato, época reconhecida por alguns autores como a da “primeira
modernidade” (BECCK, 1999; BAUMAN, 2002; BRANZI, 2006), tudo que se produzia era
facilmente comercializado, sendo a demanda maior que a oferta. Vários estudiosos definiram este
período “cenário estático” (LEVIT, 1990; MAURI, 1996; KLEIN, 2001; FINIZIO, 2002), quando
prevaleciam mensagens de fáceis entendimentos e de previsíveis decodificações. (MORAES, 2011,
p.35)
O coletor menstrual foi inventado em 1897 por uma pessoa de identidade desconhecida, não se
sabe se chegou a ser produzido. Em 1937 ele foi revisto, patenteado e divulgado pela inventora e
escritora americana Leona W. Chalmers. Ela teve a colaboração de ginecologistas para que o coletor
fosse higiênico, saudável e econômico para as mulheres. Detalhes da primeira patente (Figura 1 e 2)
apresentada por Chalmers.
Figura.1: Primeiro pedido de patente – W. Chalmers
3 de Agosto de 1937. 1 .. w. CHALMERS I CATAMENIAL APPLIANCE
Arquivado em 11 de julho de 1935 Patenteado em 3 de agosto
Fonte: http://www.google.com/patents/US2089113
Figura 2: Desenho do coletor menstrual desenvolvido por W. Chalmers
Fonte: http://www.google.com/patents/US2089113
Patentes subsequentes foram apresentadas por ela, e ao longo dos anos a mesma foi sendo
aperfeiçoada por empresas até o estado atual que se encontra hoje. Ele chegou a ser produzido em
látex e comercializado até 1945, porém, houve muita resistência por parte das mulheres pelo fato do
coletor ser pesado e pouco flexível. Um dos maiores entraves para disseminação do seu uso, foram as
questões culturais relacionadas a educação feminina repressora, representada pela grande dificuldade
das mulheres tocarem sua própria genitália, na medida em que teriam que introduzir o coletor no canal
vaginal.
Entre os anos de 1930 a 1950 vários acontecimentos importantes propuseram discussões a
cerca das questões de gênero e influenciaram os movimentos pela conquista dos direito femininos. Na
década de 30 no Brasil as mulheres conquistam o direito ao voto, nos anos 40 a igualdade de direitos
entre homens e mulheres foi reconhecida em documento internacional através da carta das Nações
Unidas.
Segundo Alves e Pitanguy (1991) pelas lutas e reivindicações a igualdade de direitos com
relação ao gênero masculino, a mulher conquistou seu espaço na sociedade, obtendo o direito de votar
e de trabalhar fora do lar. Em 1949 a filósofa francesa Simone de Beauvoir publica o livro “O segundo
sexo” onde analisa a condição feminina. Sua obra teve grande impacto não só nos movimentos pela
luta dos direitos das mulheres, mas também no âmbito educacional.
Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume
no seio da sociedade, é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho
e o castrado que qualificam de feminino. (BEAUVOIR, 1980, p. 99). Dessa forma a autora defende a
teoria de que o gênero é uma construção social, e que essa definição não pode ser tomada como algo
natural. Beauvoir (1980) desconstrói essa ideia de natural, para validar a igualdade entre os gêneros,
demonstrando assim que, homens e mulheres devem ter os mesmos diretos.
A eclosão da segunda guerra e a escassez da matéria prima levou ao fim a produção do coletor
menstrual. Em 1950 Chalmers faz uma parceria com uma grande empresa e o coletor volta a ser
produzindo, porém em 1973 a empresa fechou as portas e os coletores pararam de circular nos Estados
Unidos.
3 Cenário dinâmico
O nivelamento da capacidade produtiva entre os países somados a livre circulação das matérias-primas
no mercado global e à fácil disseminação tecnológica reafirma o estabelecimento de um novo cenário
mundial, promovendo, por consequência, uma produção industrial de bens de consumo esteticamente
massificada, composta de signos previsíveis e repleta de conteúdos frágeis. Tal fato contribuiu
decisivamente para a instituição de uma nova ordem: a do “cenário dinâmico” (MORAES, 2011, p.
35).
Segundo Branzi (2006) o universo material que nos rodeira é diferente do que as premissas
modernas tinham imaginado no lugar de uma ordem racional orientada pela indústria, tem-se um
cenário diverso e complexo.
Atuar neste cenário que se configura é desafiador tanto para os designers quanto para as
empresas. Valores intangíveis que estão além da materialidade dos produtos, e antes não considerados
se colocam em primeiro plano, os indivíduos passam a influenciar de forma decisiva a construção de
significados e valores dentro do sistema produto/design.
Nos anos 2000 os coletores voltaram a cena em países da Europa, no Japão e Canadá,
recomendado por médicos. O coletor manteve o formato, porém passou a ser produzido a partir do
silicone medicinal, um material leve, flexível e hipoalérgico. Em 2010 eles começaram a circular no
Brasil, trazidos de fora, neste mesmo ano uma empresa brasileira passou a produzi-lo, hoje eles são
amplamente utilizados no país.
3.1 Análise metaprojetual de produto existente
Pelo seu caráter abrangente e holístico, o metaprojeto explora toda a potencialidade do design,
mas não produz output como modelo projetual único e soluções técnicas preestabelecidas, mas um
articulado sistema de conhecimentos prévios que serve de guia durante o processo projetual, segundo
Moraes (2011).
Dessa maneira o design vem aqui entendido, em sentido amplo, como disciplina
projetual dos produtos industriais e serviços, bem como um agente transformador nos
âmbitos tecnológico, social e humano (MORAES, 2011, p. 46)
Moraes (2011) define o metaprojeto como a prospecção teórica que antecede a fase de projeto,
se destacando como um modelo também nos âmbitos imateriais, atuando na definição de conceito e
significado. Sendo seu objetivo, promover a configuração de um cenário existente ou futuro, que
possibilite uma avaliação prévia de pontos positivos ou negativos relacionados ao desenvolvimento de
novos produtos ou serviços ou uma análise de produto ou serviço existente.
A pesquisa que suporte a esta análise metaprojetual do produto existente, foi realizada em
agosto de 2016 com uma amostragem de 150 mulheres do Estado de Minas Gerais. Um questionário
composto por questões abertas e fechadas foi elaborado e publicado em plataforma de pesquisa online
(Google Forms). Os objetivos do levantamento foram:
Verificar a disseminação do uso do coletor no estado de Minas Gerais;
Analisar o produto a partir de aspectos que seguem a premissa das análises metaprojetuais
como: uso e conforto, fatores comportamentais, culturais, mercadológicos, sustentabilidade,
tecnologia produtiva e materiais;
Propor reflexões e um estudo aprofundado a partir das contribuições fornecidas pelo resultado
da pesquisa, indicando melhorias no produto.
4 Fatores mercadológicos
O resultado do levantamento permitiu conhecer o perfil das usuárias do produto. Mais da metade das
entrevistadas faz uso frequente do coletor menstrual (Figura 3), sendo que faixa etária vai de 15 anos a
50 anos, das quais a maioria das usuárias está na faixa de 15 a 30 anos (Figura 4).
Figura 3: Percentual de entrevistadas que fazem uso
do coletor
Figura 4: Faixa etária das entrevistadas
Fonte: Elaborado pelas autoras (2016)
A maioria das entrevistadas possui nível de instrução superior (Figura 5) e possuem
conhecimento do produto avaliado (Figura 6)
Figura 5: Nível de instrução das entrevistadas Figura 6: Entrevistadas que conhecem o produto
Fonte: Elaborado pelas autoras (2016)
As questões relacionadas á forma de como conheceu o produto indica que a maioria das
entrevistadas tomaram conhecimento do produto nas redes sociais subsidiadas ou não pela tecnologia
online (Figura 7). A mídia impressa foi praticamente nula.
Figura 7: Onde tomou conhecimento do produto?
Fonte: Elaborado pelas autoras (2016)
Em relação à aquisição do produto, a pesquisa com 88 das entrevistadas que já haviam
comprado os coletores e na sua maioria de 59,1% com revendedoras, 21,65 em lojas de produtos
naturais e demais em feiras especializadas e drogarias.
Figura 8: Onde você adquiriu o do produto (88 respostas)
Fonte: Elaborado pelas autoras (2016)
O levantamento também indicou que a marca do coletor mais utilizado pelas entrevistadas é o Inciclo,
como mostra dos dados da Figura 9.
Figura 9: Consumo de coletores por marcas ( 86 respostas)
Fonte: Elaborado pelas autoras (2016)
Por ser o mais utilizado, o coletor Inciclo foi escolhido para análise mais aprofundada. A
marca Inciclo foi criada em 2010 pela administradora de empresas Mariana Bertioli, sendo a única
empresa brasileira que produz esse tipo de produto, ver Figura 10.
Figura 10: Coletor menstrual Inciclo - apresentação visual da marca, produto, embalagem e demais informações
técnicas
Fabricante Inciclo- Brasil
Material Silicone
Peso Não informado
Dimensão 4,2, com a haste 7,2
Preço 79,00
Fonte: Adaptado do website da Inciclo
A empresa tem como missão oferecer soluções para as mulheres durante o período menstrual
proporcionando através de um produto sustentável, conforto, praticidade e economia. Metade dos
produtos são vendidos por pessoas físicas (clientes fidelizadas) e o restante comercializado em
farmácias e lojas. A empresa, conforme autodeclara, segue tendências comportamentais femininas
contemporâneas, focando em públicos alternativos e formadores de opinião.
Possui uma estratégia inovadora por buscar aderência de grupos de mulheres organizadas em
redes sociais subsidiadas ou não pela tecnologia, nestes grupos além de discussões sobre os problemas
contemporâneos enfrentados pelas mulheres, como: a desigualdade, violação dos direitos, violência,
saúde etc.
Essas redes incentivam a prática da sororidade, que é a ajuda mútua entre as mulheres, que vão
desde a disseminação de informações relacionadas a saúde, luta pelos direitos até a indicação de uso
de produtos que possam vir a melhorar a qualidade de vida das mulheres, como o coletor menstrual.
Na atual conjuntura vê-se ressurgimento do feminismo como centro de discussões, concomitante a isso
surge uma rede social complexa incentivada pela cultura e tecnologia, dando voz a um grande
contingente de pessoas, este fenômeno tem gerado um grande potencial para engajar pessoas nas mais
diversas instâncias. A Inciclo desde o inicio voltou suas atenções para este fenômeno para promover o
coletor menstrual. BERTIOLI (2015) afirma que a estratégia de crescimento da Inciclo deu certo,
em sua avaliação, porque a empresa focou os esforços iniciais em públicos alternativos, "que são mais
abertos a certos assuntos". Ao conseguir aderência de alguns grupos, o "boca-a-boca" entre mulheres
fez o resto. Pode-se entender como um exemplo de rede social que pode ser subsidiada pela cultura e
tecnologia.
5 Tipologia e ergonomia
O coletor menstrual se apresenta como uma solução para conter o sangue menstrual em detrimento do
uso do absorvente externo ou interno, ambos descartáveis. Ele tem o formato semelhante ao de uma
taça, é fabricado em silicone cirúrgico, coleta o fluxo sanguíneo da menstruação por até 12 horas,
permitindo um maior número de benefícios em relação a outros métodos tradicionais. Os aspectos de
uso, sejam da colocação, tempo de uso, retirada do coletor e sua higienização posterior está ilustrada
na Figura 11 a seguir.
Figura 11: Situação de uso
Fonte: www.inciclo.com.br
As principais vantagens relatadas pelas usuárias são: conforto, comodidade, higiene,
praticidade, economia, sustentabilidade, liberdade e autoconhecimento do corpo e da sexualidade.
Porém no início da utilização do coletor, muitas tiveram dificuldades de adaptação (Figura 12).
No entanto, a adaptação do produto apresenta dificuldades como pode ser verificado nos dados
da Figura 12, dos quis 72,8% das pesquisadas reportaram dificuldades de adaptar ao coletor.
Figura 12: Dificuldades para se adaptar ao coletor ( 92 respostas)
Fonte: Elaborado pelas autoras (2016)
As principais queixas das usuárias no período de adaptação foram: dificuldades para colocar e
retirar, dor suave, vazamentos pelo mal posicionamento do coletor, incômodo ao utilizar sobretudo
pelo haste, sendo esta uma queixa muito recorrente das usuárias.
Entre as entrevistadas, 39,6% declararam não utilizar o coletor pelos seguintes motivos: não
sabem escolher o tamanho ideal para o seu corpo, não se sentem seguras, não se sentem confortáveis
inserindo o coletor no canal vaginal, não o acham prático, associam seu uso ao risco de infecções.
Dentro deste grupo ainda mulheres que querem se informar melhor com o ginecologista para
começarem a utilizar. A Figura 13 apresenta características que fariam com que mulheres não usuárias
utilizassem o produto. O conforto aparece como aspecto mais importante.
Figura 13: Características que aumentariam a probabilidade de uso para novas usuárias ( 128 respostas)
Fonte: Elaborado pelas autoras (2016)
Mesmo as mulheres que têm dificuldades de adaptação de uso, ainda assim não desistiram de
usar o produto, o que significa 83,35 das respondentes, como na Figura 14.
Outra questão colocada pelas entrevistadas é sobre o tamanho dos coletores, 86,4% gostariam
de mais variações no tamanho do coletor (147). Atualmente os fabricantes de coletores menstruais
oferecem duas opções de tamanho, sendo um baseado na faixa etária da mulher e o outro se a mulher
teve filhos ou não, 86,4 % das mulheres entrevistadas (Figura 15) acham que o fabricante deveria
oferecer mais variações de tamanho, levando em consideração outras características femininas. (147
respostas)
Figura 14: Tiveram dificuldades e não desistiram de
usar (90 respostas)
Figura 15: Possibilidades de mais variações no
tamanho do coletor (147)
Fonte: Elaborado pelas autoras (2016)
Com base nas informações fornecidas pela pesquisa puderam ser verificados pontos negativos
e positivos no produto analisado como mostra a Figura 16.
A haste que tanto incomoda as usuárias poderia ser feita com a mesma composição do silicone
do copo, porém com uma densidade menor, o que faria com que ela fosse mais flexível e confortável
ao uso. Algumas mulheres ainda têm dificuldades e inseguranças em relação ao uso do produto, o
fabricante poderia oferecer mais variações de tamanho levando em consideração outras características.
Apesar disso, o coletor menstrual supera sua função prática, indo além, pois promove o
autoconhecimento da mulher, requisito importante para que o corpo se adapte ao coletor, permitindo
que a usuária aproveite todos os seus benefícios. O autoconhecimento que acontece em função do uso
do produto oportuniza as usuárias uma nova relação com o próprio corpo.
Figura 16: Pontos positivos e negativos
Pontos positivos Pontos negativos
É flexível, permitindo inúmeras dobras Dificuldade para adaptação ao tamanho
da haste do coletor
Conforto Exige um período de uso para a adaptação
Higiene e economia 4,2, com a haste 7,2
Capacidade de armazenar um volume
maior de fluxo Dificuldade de adequação ao corpo
Por seu uso interno ajuda na não
proliferação de bactérias na região intima
Dificuldades para inserir e retirar no
período de adaptação
Liberdade, por permitir as usuárias
praticar atividades físicas
Seu posicionamento inadequado pode
causar cólicas
Promove o autoconhecimento da mulher
em relação ao seu corpo Só há duas opções de tamanho
Fonte: Adaptado de Moraes (2010)
6 Tecnologia produtiva e materiais
O coletor menstrual analisado é feito em silicone na forma PDMS, o processo produtivo começa com
o silicone em estado líquido e em seguida as partículas são condensadas num processo de
vulcanização que ocorre em temperaturas altíssimas.
Segundo Ashby e Johnson (2010), os silicones são feitos de silício e cloreto de metila em um
processo conhecido como “reação direta” ou “processo direto” esta reação entre o silicone e reagentes
reciclados produz metilclorosilanas. Elas são destiladas (purificadas), e a dimetildiclorosilana é
hidrolisada para dar PDMS. Embora “silicone” seja frequentemente usado como um termo genérico
para quase todas as substâncias que contêm um átomo de silício, é mais apropriado descrevê-lo como
um polímero sintético que contém uma cadeia Si-O. Essa descrição geral define a ampla classe de
polímeros conhecida como silicones, o exemplo mais comum é a polidimetilsiloxana ou PDMS, sendo
este a repetição do monômero (CH3)2SiO. Dependendo do número de repetições do monômero na
cadeia do polímero e do grau de cross-linking ("amarramento" das cadeias), pelo menos seis classes de
produtos comercialmente importantes podem ser produzidas: fluidos, emulsões, compostos,
lubrificantes, resinas, elastômeros ou Borrachas (ASHBY; JOHNSON, 2010).
7 Influências socioculturais
A Figura 17 apresenta uma síntese de alguns fatores que podem ou não influenciar a configuração do
produto em análise. As descobertas científicas e as novas tecnologias e materiais, influenciam muito o
produto analisado, estes aspectos devem ser considerados e são primordiais para a melhoria do
desempenho do produto, tanto em termos de segurança e conforto para as usuárias, como na busca de
possibilidades de materiais ecoeficientes.
Os novos comportamentos e costumes também têm grande influência, visto que segundo
Heskett (2008) as formas podem assumir sentido próprio de acordo com a maneira como são usadas,
ou os papeis e valores a ela atribuídos, não raro se tornando símbolos ou ícones consistentes dos
consumos e hábitos.
O coletor vem assumindo papéis sociais baseando-se na constituição de novos
comportamentos e formas de consumo.
Figura 17: Influências socioculturais
Fatores Estilo/ conceito Estética/ tendência Forma/ desenho
Novas tecnologias e
materiais sim sim sim
Novas descobertas
científicas sim sim sim
Novo movimento artístico não não não
Novos comportamentos e
costumes sim sim sim
Nova tendência de moda sim não não
Novos ritmos musicais não não não
Fonte: Adaptado de Moraes (2010)
8 Sistema produto design
Figura 18: Sistema/produto/design
Produto Instrumento de autoconhecimento
Preço Acessível, oferece um bom custo benefício as usuárias em
comparação aos absorvente tradicionais
Distribuição
Coerente com a estratégia de comercialização da empresa,
onde metade das vendas é realizada por pessoas física(
usuárias fidelizadas)
Promoção
Além das informações no site da empresa, as próprias
usuárias e revendedoras, formam grupos em redes sociais que
tiram dúvidas em relação ao uso, e promovem o produto de
forma eficiente.
Fonte: Adaptado de Moraes (2010)
9 Sustentabilidade socioambiental
Uma das características do silicone é sua longevidade e compatibilidade com os meios de aplicação.
Por ser inerte, não traz malefícios para o meio ambiente, não contamina o solo, nem a água ou ar. Não
foi encontrado na revisão da literatura especializada nenhum registro de que o silicone tenha causado
algum tipo de problema para o meio ambiente.
Além dessas propriedades, também não há registro de que tenha provocado algum tipo de
reações alérgicas em seres humanos. Com essas características, o silicone pode ser manipulado com
segurança, sem o risco de provocar poluição ou danos à saúde humana. Muitos tipos de silicone são
recicláveis e outros no caso do PDMS utilizado na produção do coletor são de simples disposição, sem
agressão ao meio ambiente.
Isso faz com que o coletor seja uma opção sustentável e com um melhor custo benefício para
as usuárias relação ao uso dos absorventes tradicionais descartáveis, além de ser mais saudável, pois o
sangue no coletor não entre em conato com o oxigênio do ar evitando maus odores e a formação de
bactérias. (ver Figura 19 )
Figura 19: Sustentabilidade socioambiental
Fonte: www.inciclo.com.br
A maioria das usuárias não sabe como deve fazer o descarte do coletor ao final do seu ciclo de
vida. O fabricante recomenda fazer o descarte no lixo comum. A pesquisa mostrou que 84,6% das
usuárias não sabem a maneira correta de proceder ao descarte.
Figura 20: Sustentabilidade socioambiental
Características Sim Não Justificativas
Utilização de poucas matérias-
prima num mesmo produto sim O produto é todo feito em
silicone
Escolha de recursos naturais de
baixo impacto ambiental sim O silicone é inerte e tem baixo
impacto ambiental
Utilização de poucos
componentes no produto sim O produto é uma peça única
Facilidade de desmembramento e
substituição dos componentes Não se
aplica O produto é uma peça única
Extensão da vida do produto sim É reutilizável
Fonte: Adaptado de Moraes (2010)
Apesar do silicone no coletor ser usado na forma de PDMS, e este não demonstrar afetar o
meio ambiente, o ecossistema global já pode estar sobrecarregado com este composto que leva algum
tempo para se degradar, sendo necessário consumi-lo com cautela, visto que ele tem um baixo
potencial para reciclagem. Não há informação na embalagem, isto inclui o manual do produto, sobre
como prolongar a sua vida útil, nem como fazer o descarte, de forma coerente com a proposta
sustentável do produto ao invés de jogá-lo diretamente no lixo comum.
10 Considerações finais
O Coletor ultrapassa suas funções já analisadas neste artigo, pela possibilidade de promover uma
discussão do protagonismo feminino em diversos níveis. Visto que, ele é um produto para mulheres
desenvolvido por mulheres, o que é algo novo e transformador, haja a vista a invisibilidade feminina
nos diversos campos de conhecimento, incluindo o design.
As novas gerações têm revisto as pautas discutidas pelo feminismo anos 70 do Século XX
como a reapropriação da mulher sobre o próprio corpo e a representatividade da feminina em espaços
de poder. É necessário dar visibilidade as contribuições femininas e gerar mais oportunidades, assim
como aponta Loschiavo (2013) a importância de considerar no design e em processo de
desenvolvimento de produtos, a perspectiva do olhar feminino, porque por um longo tempo, os
historiadores do design focaram sua observação apenas na contribuição masculina.
Quando a Escola Bauhaus abriu suas portas para os candidatos do sexo masculino e
feminino, em 1919, havia mais mulheres do que homens entre os candidatados para o
primeiro semestre. As coisas nem sempre foram fáceis para as mulheres, e em
retrospecto, pode-se atribuir a elas a maior parte do potencial inovador da Bauhaus.
(MULLER, 2009, p. 9).
A mesmo autora chama a atenção para o fato de que, mesmo com uma maciça contribuição
feminina na Bauhaus, havia uma percepção de gênero por parte dos professores, que concebia os
homens como inteligentes e cultos e as como seres mulheres sentimentais. È necessário resgatar o
protagonismo feminino ao longo da história e criar condições para que na contemporaneidade ele
tenha condições sociais de acontecer.
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Menstrual collector: a light analysis of the metaproject
Abstract:
Abstract The present work seeks to make a study of the menstrual collector from the requirements of
the metaproject, through the analysis of existing product, where a chronology of the collector was
made, passing through the static scenario permeated by values of industrial rationalism, to the
dynamic scenario, defined as A complex, dynamic and challenging setting for designers. Initially we
sought to verify aspects related to design, from the stages proposed by the metaproject, but during
the development of the study other reflections became necessary, extending the approach, besides a
study oriented by the optical design for an anthropological look. The new generations have reviewed
the guidelines discussed by feminism in the 1970s, such as the reappropriation of women over their
own bodies and female representativeness in power spaces, as in politics and in the various areas of
knowledge. In this sense aspects related to culture and gender issues serve as a way of deepening
reflections, ranging from issues of the relationship of women to their own body and their role as
producer of solutions on the level of materiality for the feminine universe. Addressing gaps in the
historiography of design, which notes only male participation, despite the great female contribution to
the area. The relationships between gender and design has aroused the academic and networked
feminist interest of the entire world. The collector's analysis proposes a reflection that goes far beyond
its practical function to the study of intangible aspects, but inherent in the understanding of all the
dynamics involved in its use and of how it has become a symbol of self-knowledge for contemporary
women.
Keywords:
Menstrual collector; metaproject; Design; Female protagonism
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Examining cultures as diverse as long-house dwellers in North Borneo, African farmers, Welsh housewives, and postindustrial American workers, this volume dramatically redefines the anthropological study of menstrual customs. It challenges the widespread image of a universal 'menstrual taboo' as well as the common assumption of universal female subordination which underlies it. Contributing important new material and perspectives to our understanding of comparative gender politics and symbolism, it is of particular importance to those interested in anthropology, women's studies, religion, and comparative health systems.
Materiais e design: arte e ciência da seleção de materiais para o design de produto
  • M F Ashby
  • K Johnson
ASHBY, M. F.; JOHNSON, K. Materiais e design: arte e ciência da seleção de materiais para o design de produto. Campus. São Paulo: 2010
Impurezas sexuais. Levitíco 14-15
  • Biblia Sagrada
BIBLIA SAGRADA. Impurezas sexuais. Levitíco 14-15. Ave Maria. São Paulo: 2006
Metaprojeto o design do design
  • Dijon De Moraes
DE MORAES, Dijon. Metaprojeto o design do design. São Paulo: Blucher, 2011.
Microfísica do poder. 2. ed. Tradução de Roberto Machado
  • Michel Foucault
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 2. ed. Tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
Tradução de Márcia Leme
  • John Heskett
  • Design
HESKETT, John. Design. Tradução de Márcia Leme. São Paulo: Ática, 2008.
Reflexões sobre design e humanismo
  • Loschiavo
LOSCHIAVO. Reflexões sobre design e humanismo. CADERNOS DE ESTUDOS AVANÇADOS EM DESIGN. Humanismo. EdUEMG, Barbacena: 2011.
  • Muller
  • Ulrike
MULLER. Ulrike. Bauhaus Womem. Flammarion. Paris: 2009.
Modernitá debole e diffusa
  • A Branzi
BRANZI, A.Modernitá debole e diffusa. Skira. Milano: 2006