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O dilema de segurança e a modernidade absoluta de Tucídides

Authors:
RELAÇÕES INTERNACIONAIS SETEMBRO : 2017 55 [ pp. 135-138 ] https://doi.org/10.23906/ri2017.55r01
Estão os Estados Unidos e a China a caminho da
guerra? Encontram‑se ambos os colossos enredados
na chamada «armadilha de Tucídides», definida pela
ascensão de uma potência revolucionária no sistema
internacional e pelo medo que desperta nas potências
estabelecidas? Em tal cenário, a probabilidade de guerra
aumenta exponencialmente em função da perceção do
rompimento da balança de poder. Na sua lapidar História
da Guerra do Peloponeso, Tucídides aponta o crescimento
imparável de Atenas como causa primeira de um conflito
catastrófico, que acabaria por levar à sua própria derrota
em 404 a.C. Como assinalou, Esparta reagiu com grande
determinação na defesa do statu quo, por receio de des
vantagem perante a insegurança manifesta
que a ambição e as ações expansionistas
de Atenas provocaram. A reedição de tal
cenário histórico marca hoje indelevel
mente as relações internacionais. É este o
cerne do livro de Graham Allison, recen
temente publicado. A obra, intitulada Des-
tined for War: Can America and China Escape
Thucydides’s Trap?, percorre e atualiza os
pressupostos enunciados pelo grande
autor grego e explora os efeitos altamente
destabilizadores sobre o sistema interna
cional decorrentes da ascensão e crescente
influência da China, e a consequente emer
gência de um iniludível dilema de segurança
com os Estados Unidos – conceito brilhan
temente sugerido por Tucídides nos seus
escritos. A modernidade absoluta de Tucí
dides – que nós próprios temos tido ensejo
de enfatizar1 – assenta numa teoria da
guerra baseada nos efeitos prováveis de
um grave desequilíbrio de poder no sis
tema, ou seja, numa fortíssima correlação
GRAHAM ALLISON
Destined for War:
Can America and
China Escape
Thucydides’s Trap?
Nova York,
Houghton Mifflin Harcourt,
2017, 364 páginas
RECENSÃO
O dilema
de segurança
e a modernidade
absoluta
de Tucídides
Luís Lobo-Fernandes
RELAÇÕES INTERNACIONAIS SETEMBRO : 2017 55 136
entre desequilíbrio e a deflagração de con
flitos. Nas mãos de Tucídides, a história é
feita à escala de uma ciência dos fenóme
nos políticos, de tal modo que o seu trabalho
constitui um verdadeiro paradigma. O que
nos está a sugerir é que não é possível con
finar a história ao mero relato dos factos.
Esta formulação teórica, que viria a ser
mais tarde designada genericamente de
realismo, remete igualmente para as
noções críticas de «regra do interesse» e de
«razão de Estado», para sublinhar os dile
mas perenes a que as potências internacio
nais fazem face num ambiente externo
hostil, que continua a ser fundamental
mente definido pela imagem de anarquia.
Segundo Allison, os Estados Unidos e a
China poderão evitar a confrontação
bélica, mas só se internalizarem duas ver
dades cruas. Primeiro, na atual trajetória,
a guerra entre os dois é não só possível,
mas muito mais real do que é reconhecido
presentemente; em rigor, ao subestimar o
perigo dessa eventualidade, os riscos
aumentam. Segundo, a guerra não é ine
vitável. Vários exemplos históricos atestam
como as grandes potências podem gerir,
sem recurso à solução bélica, a relação
com os principais rivais mesmo perante
sinais ameaçadores. O registo dos suces
sos e dos fracassos oferece importantes
lições para os decisores políticos e os líde‑
res. Como se pode ler nos comentários
lúcidos de Allison, igualmente autor de
uma das mais influentes obras no domínio
da ciência internacional dos últimos 50
anos – Essence of Decision: Explaining the
Cuban Missile Crisis –, «só os que falham no
aprofundamento das circunstâncias trágicas
do passado estão condenados a repeti‑las».
Ora, é precisamente no estudo circunstan
ciado de 16 situações históricas de grave
stress estrutural – como ele mesmo as
designa – que o esforço aturado do pro
fessor Allison é especialmente pungente
para a conjuntura internacional que atra
vessamos. Este exercício criterioso de ver
dadeira história aplicada revela que em 12
desses 16 processos de desafio ao poder
ou à estrutura prevalecente nas relações
internacionais, o resultado foi a guerra,
ou seja, em 75 por cento dos casos em
apreço. Não obstante a probabilidade de
conflito aberto em episódios similares ser
elevadíssima, como se constata, Allison
convida a refletir sobre quatro períodos
em que as resultantes não se traduziram
em guerra: Portugal e Espanha nos finais
do século
xv
, Reino Unido e Estados Uni
dos nos inícios do século
xx
, o caso mais
extremo e paradigmático do «equilíbrio do
terror» na Guerra Fria, e o cenário europeu
pós‑1990, plasmado no desafio complexo
que a reunificação da Alemanha colocava,
quer à França, quer ao Reino Unido. Nes
tes quatro marcos históricos as potências
contemporâneas respetivas conseguiram
escapar à «armadilha de Tucídides», mere
cendo, assim, uma atenção especialíssima
perante o caso vertente das ambições chi
nesas. São prova de que a guerra não é
inevitável, como assinalado por Allison.
Este é, aliás, um ponto essencial alvo do
esforço analítico do autor e que as várias
analogias aqui aprofundadas revelam. His
toricamente, como sabemos, nos sistemas
internacionais as grandes potências – em
função do seu poder relativo – detêm sem-
pre a responsabilidade primordial de lide
rança e de resposta a eventuais crises.
O dilema de segurança e a modernidade absoluta de Tucídides Luís Lobo-Fernandes 137
Por isso, talvez mereça determo‑nos um
pouco mais detalhadamente no cenário n.º 7
explorado por Allison, a saber, o período
de finais do século
xviii
e princípios do
século
xix
em que a França revolucionária
desafia abertamente a potência então
dominante em terra e no mar – o Reino
Unido. Sendo certo que a «afronta» napo
leónica à liderança britânica no plano
internacional vai implicar um período de
guerras generalizadas no continente euro‑
peu e nos oceanos envolventes, o ciclo
longo que se segue, maioritariamente de
paz, requer mais de perto a nossa atenção.
A este propósito, a dissertação de douto
ramento de Henry Kissinger apresentada
na Universidade de Harvard há mais de 60
anos – publicada ulteriormente sob o título
A World Restored – evidencia como a França
revolucionária é inserida numa nova arqui
tetura de segurança pelas potências euro
peias mais «conservadoras». Com efeito,
o protagonista principal do Congresso de
Viena de 1814‑1815 seria o chanceler aus
tríaco Metternich, que, juntamente com o
britânico Castlereagh, definiram um vir
tuoso sistema de balança de poder que per
mitiu manter a paz geral no continente
durante quase um século. No conhecido
enunciado de Hedley Bull, este regime tem
preenchido três funções essenciais no sis
tema moderno de estados: preveniu a sua
captura e transformação num império uni
versal; as balanças de poder regionais pro
tegeram a independência e autonomia dos
estados; e, por último, propiciou as con
dições para o desenvolvimento de outras
instituições essenciais para a manutenção
do próprio sistema, tais como a diploma
cia, a gestão de crises, o direito interna
cional, e a guerra enquanto meio legítimo
para impedir políticas expansionistas ou
ações hostis de conquista.
Mas, como acomodar a nova ambição e
proeminência da China? É que o primeiro
requisito para uma solução de «tipo Met
ternich» assentou na derrota prévia da
potência revolucionária. Com efeito, foi o
desastre de Napoleão na Rússia em 1812
que propiciou os desenvolvimentos diplo
máticos ulteriores que levariam ao cha
mado «concerto de Viena». A questão que
emerge hoje, mais complexa, é a de saber
se é possível alcançar, sem «derrota chi
nesa», um arranjo diplomático que con
temple os interesses de segurança das
potências em causa. Como Kissinger
sugere, na barganha diplomática que leva
ao Congresso de Viena, o elemento essen
cial do novo equilíbrio era que a França
renunciasse a pretensões hegemónicas ou
mesmo a exercer influência indevida para
das suas fronteiras. No caso presente
da China, o desafio de uma abertura diplo
mática mais ambiciosa requereria sempre
a identificação dos interesses críticos das
potências‑chave e a localização dos pontos
de convergência e de divergência, assu
mindo, a fortiori, que a razão prevalece em
todos os lados. Ao invés, pode muito bem
acontecer que o diálogo em curso revele a
impossibilidade de atingir uma versão
atualizada do entendimento conseguido
em Viena. Tal seria mau para todas as par
tes, e, diga‑se, para o mundo. A história
mostra tal como os casos de insucesso
escalpelizados neste estudo de Allison
comprovam que se a China continuar a
atuar como uma potência «revolucionária»
e pretender expandir e projetar o seu poder
RELAÇÕES INTERNACIONAIS SETEMBRO : 2017 55 138
militar de forma imoderada e intimidató
ria, aparente na tentativa de criação de
esferas de influência, então a possibilidade
de uma guerra de containment pode estar
no horizonte. Mas, esse curso de ação
seria, como também sugere Allison, pro
fundamente errado da parte da China – tal
como foi a decisão insensata de Napoleão
ao exacerbar as aspirações francesas e
marchar sobre Moscovo.
Numa Ásia crescentemente vestefaliana,
os Estados Unidos detêm o papel‑chave
de balanceador, mas simultaneamente são
o mais importante aliado do Japão e um
parceiro da China, uma situação algo com
parável àquela em que Bismarck, que
detinha um sentido apuradíssimo do
regime da balança de poder, fez uma
aliança com a Áustria balanceada ao
mesmo tempo com um tratado com a Rús
sia. Paradoxalmente, foi essa «ambigui
dade construtiva» – na conhecida expressão
de Kissinger – que preservou a flexibili
dade do equilíbrio europeu. Em contrapar
tida, seria o seu abandono que
desencadearia uma sequência de confron
tações que culminariam na Primeira
Guerra Mundial. Ora, uma deterioração
das relações sino‑americanas, na qual os
dois estados caíssem na «armadilha de
Tucídides», constituiria o mais provável
catalisador de um conflito de larga escala.
O livro de Graham Allison é, pois, de lei
tura imprescindível nas circunstâncias
históricas presentes, na exata medida em
que o plano global é cada vez mais mar
cado pela crescente volatilidade nos vários
subsistemas internacionais e por novas
vulnerabilidades e temores estratégicos.
A sua fragmentação é um dado iniludível,
revelador dos paradoxos de um modelo
difuso, parcialmente globalizado, apo
dado de «era da não‑polaridade» ou «apo
laridade», que continua a incluir
assinaláveis componentes letais de cariz
interestatal clássico e de perduração das
relações de poder – que os dilemas revisi
tados neste trabalho projetam e amplifi
cam de forma particularmente eficaz –, e
a que se somam hodiernamente outras
expressões mais híbridas, patentes nos
chamados conflitos de baixa intensidade
e no ciberterrorismo. Afastando‑se de
qualquer conceção do «fim da história» – a
sua abordagem é cíclica, não linear, e não
necessariamente progressiva –, Allison
reconhece por isso a propensão dos líderes
e dos estados em repetir os erros do pas
sado, pelo que se torna ainda mais neces
sário aprofundar as circunstâncias que
conduziram às maiores catástrofes. Este
poderia ser considerado o epítome deste
excelente estudo, agora à disposição dos
especialistas e do público mais atento.
NOTA
1 C f. L
obo
-F
erna ndes
, Luís – «E studo
Introdutório». In Histó ria da Guerr a do Pelo-
poneso. 1.ª ediç ão, 2.ª impr essão. Li sboa:
Edições Sílabo (Clássicos do Pensamento
Estratég ico), 2015.
Article
This article attempts to build a rational case about China’s burgeoning expansion revisiting the interrelated questions of the long cycles, hegemonic transitions and the so-called “Thucydides’s trap” among other analytical dimensions, drawing mainly upon some of the most important theoretical propositions from Thucydides, Kautilya, Organski, Modelski, Gilpin, and G. Allison. The conclusion points to the idea that the current international system already reveals a new phase of strategic containment.
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