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Responsabilidade social universitária: uma definição prudente e responsável

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O artigo propõe uma definição da responsabilidade social universitária (RSU) fundamentada em uma análise filosófica dos desafios éticos complexos enfrentados pela humanidade na era do seu perigo de insustentabilidade. Critica as limitações de uma visão gerencial estreita da responsabilidade social tal como as ferramentas de gestão empresarial abordam e aprofunda a definição de responsabilidade social universitária baseada em quatro grandes impactos da instituição do ensino superior: impactos organizacionais, educativos, cognitivos e de participação social. Essa visão transversal da responsabilidade social universitária permite redefinir profundamente o papel das ciências na globalização e lutar contra a mercantilização do ensino superior.
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COLÓQUIO Revista do Desenvolvimento Regional - Faccat - Taquara/RS - v. 14, n. 2, jul./dez. 2017
Responsabilidade social universitária:
uma definição prudente e responsável
François Vallaeys1
Resumo
O artigo propõe uma definição da responsabilidade social universitária (RSU) fundamentada em uma análise
filosófica dos desafios éticos complexos enfrentados pela humanidade na era do seu perigo de insustentabilidade.
Critica as limitações de uma visão gerencial estreita da responsabilidade social tal como as ferramentas de gestão
empresarial abordam e aprofunda a definição de responsabilidade social universitária baseada em quatro grandes
impactos da instituição do ensino superior: impactos organizacionais, educativos, cognitivos e de participação
social. Essa visão transversal da responsabilidade social universitária permite redefinir profundamente o papel das
ciências na globalização e lutar contra a mercantilização do ensino superior.
Palavras-chave: ética da sustentabilidade; pensamento complexo; desenvolvimento sustentável; responsabilidade
social universitária; gestão do conhecimento.
Abstract
The article proposes a definition of the university social responsibility (USR) based on a philosophical analysis of
complex ethical challenges that deals with the humanity and its dangerous unsustainability. It criticizes the limits of
a managerial tiny point of view about social responsibility just as the tools of business management focus it, and
deepens the university social responsibility definition based on 4 greats impacts of universities: organizational,
educational, cognitive, and social participation. This transversal vision of university social responsibility allows the
deep redefinition of science role in globalization and the fight against commercialization of education.
Keywords: ethics of sustainability, complex thinking, sustainable development, university social responsibility,
knowledge management.
1 Teoria da responsabilidade social: virtude, justiça, sustentabilidade para uma ética em “3D”
A responsabilidade social é uma nova responsabilidade central que complementa as
responsabilidades moral e jurídica, sendo uma responsabilidade coletiva promotora de
criatividade política em vez de uma responsabilidade que rffeffresponsabilize pessoalmente
(Vallaeys, 2011).
As responsabilidades moral e jurídica regulam os nossos atos, enquanto a
responsabilidade social regula os nossos impactos, isto é, não o que fazemos com as suas
consequências imediatas e locais, mas o que produz o que fazemos com as suas emergências
sistémicas afastadas e globais. Uma vez que entendemos que a responsabilidade social é uma
responsabilidade pelos impactos e que os impactos não são atos, podemos abordar, em toda a
riqueza teórica e prática, o que significa a responsabilidade social das organizações e, em
particular, das universidades.
Os problemas que exigem uma socialização da responsabilidade dizem respeito sempre
a questões sistémicas que decorrem das rotinas sociais de uma multitude de pessoas que
convivem, impactos muitas vezes invisíveis sem o concurso da investigação científica (as
alterações climáticas por exemplo). Estas rotinas, ligadas a um modo de viver, produzem efeitos
1 Doutor em Filosofia. Professor-Investigador na Escuela de Postgrado de la Universidad del Pacífico (Lima, Perú).
Presidente da Unión de Responsabilidade Social Universitária (RSU) Latinoamericana (URSULA).
f.vallaeys@up.edu.pe. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2879-1695
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colaterais crónicos não desejados que ferem a vida social e precisam, por isso, de uma
corresponsabilização por parte dos cidadãos associados para (1) perceberem que o seu modo
de viver gera problemas endémicos que não são sustentáveis e (2) instituir as mudanças sociais
necessárias para resolver os referidos problemas. A passagem do simples padecer individual
dos problemas sociais sem tomada de consciência da corresponsabilidade ativa para a solução
consensual dos problemas comuns é o que o filósofo Dewey designava por constituição de um
Público (Dewey, 1927), quer dizer, o surgimento de um sujeito coletivo político capaz de
colocar o seu próprio destino nas suas mãos e inovar para se dotar da constituição política
adequada, justa e sustentável, com bons órgãos de regulação da ação coletiva. A
responsabilidade social é uma responsabilidade política por excelência, isto é, relacional, não a
responsabilidade individual dos representantes eleitos, senão a de todos os cidadãos unidos.
Hoje é óbvio que os nossos problemas coletivos estão ligados (1) ao perigo da
inabitabilidade ecológica do planeta devido ao produtivismo industrial e (2) à carência de
controlo dos sistemas sociais modernos (sistemas económico, financeiro, científico e técnico
sobretudo) que se desenvolvem de forma acelerada, desenfreada e autónoma sem que
possamos garantir que continuam a ter uma desejabilidade social norteada por poderes
legítimos. O problema ecológico global é uma consequência do problema de controlo político
global. Nos inícios da Modernidade era necessário decidir como controlar politicamente o
domínio político e como sair do estado de escassez coletiva. Inventámos a Democracia e a
Tecnociência industrial para resolver ambos os problemas com sucesso. Hoje, o maior
problema é o de recuperar um poder democrático sobre as potencialidades derivadas da
Tecnociência nas mãos do interesse lucrativo cego e da “inteligência cega” (Morin, 2004) dos
científicos especializados de todo o tipo, que sem querer caminham no sentido da validação da
lei de Gabor: “Tudo o que se puder fazer far-se-á, independentemente das consequências”. Ter
o poder de controlo sobre o seu próprio poder, para que não se lhe escape como força
incontrolável, esse é o dever do ser responsável. O risco político de outrora era o da
superabundância de poder político. O risco político de hoje é o de uma carência de poder
político, uma impossibilidade de governar as potências sociais desencadeadas pela
Modernidade industrial. Por isso a nossa época é a época da responsabilidade e da
reflexividade, a do domínio do domínio (Serres, 1990), a do “princípio responsabilidade” (Jonas,
1979). Mas é uma responsabilidade rara e difícil de assumir: uma responsabilidade coletiva,
mutualizada, partilhada, e não uma responsabilidade individual de cada sujeito (pessoa ou
organização), é uma responsabilidade “social”, meta-subjetiva.
Distinguir bem as três responsabilidades fundamentais (moral, jurídica, social) é, pois,
uma tarefa filosófica muito importante de forma a evitar confusões no momento de analisar o
que é a responsabilidade social corporativa (CSR) ou a responsabilidade social universitária (RSU)
e, sobretudo, para não as continuarmos a confundir com a ação filantrópica para terminar por
cair no greenwashing. De acordo com Morin (2004) e Vallaeys (2011), a ética complexa que
devemos assumir visualiza-se em três dimensões, é uma “ética em 3D” (Quadro 1).
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Quadro 1 - As três dimensões da ética complexa
Ética em “3D”
1ª dimensão:
Auto-ética
2ª dimensão:
Socio-ética
3ª dimensão:
Antropo-ética
Tipo de deveres
Virtude
Justiça
Sustentabilidade
Sujeito do dever
A pessoa (deveres
pessoais)
A comunidade
(deveres interpessoais)
A Humanidade (deveres
transgeracionais)
Objeto do dever
Os atos
As leis
O mundo
Âmbito da obrigação
A consciência pessoal
O Estado de direito
A governança
internacional
Tipo de
responsabilidade
Responsabilidade moral
Responsabilidade
jurídica
Responsabilidade social
Gerador de
responsabilidade
O mal próprio e a dor
alheia
O ato ilegal e a
injustiça
O impacto negativo e a
insustentabilidade
sistémica
Modo de regulação
A moral
O direito
A política
Fonte: Morin (2004) e Vallaeys (2011).
Nesta ética complexa, é importante destacar três aspectos:
1 Nenhuma dimensão pode funcionar de forma separada das demais sem decair em patologia
ética (fanatismo moral, dogmatismo jurídico, totalitarismo ecológico).
2 A “Sustentabilidade” não deve reduzir-se aos assuntos ecológicos (proteção da “Natureza”)
devendo ser entendida de forma complexa como o cuidado pela continuidade da liberdade da
humanidade, como justiça entre as gerações humanas, com respeito pela autonomia e
dignidade das gerações seguintes e com respeito pelos esforços éticos das gerações anteriores.
3 A “governança” começa quando não é possível o “governo”, isto é, quando os atores
devem regular juntos a sua ação coletiva sem que um possa dar ordens aos demais (sem que
um governe os demais). Uma situação de governo implica uma cadeia hierárquica de ordens
aceites e sanções seguras em caso de desobediência (Luhmann, 1975). Uma situação de
governança implica a necessidade de regular-se mutuamente com vista a um bem comum (a
habitabilidade planetária, o equilíbrio financeiro mundial, a superação do dumping social e
fiscal internacional, etc.) na ausência de um governo que coaja todos os atores debaixo de uma
mesma lei.
A governança produz acordos de corresponsabilidade sob normas vigiadas mutuamente
entre pares. A maioria dos nossos impactos negativos atuais apela à construção de regulações
por governança, dado que implicam a coordenação transnacional e meta-governamental de
múltiplos atores que não podem satisfazer-se nem com as autorregulações do mercado, nem
com as leis de cada Estado por seu lado (Ostrom, 1990). Os ideólogos liberais recusam a
governança porque entendem que o mercado é suficiente para regular a ação coletiva. Os
ideólogos socialistas também recusam a governança porque entendem que nunca será eficaz e
que são necessárias leis para coagir os agentes sociais. Nem os liberais nem os socialistas
entendem do que trata a responsabilidade social, por isso os primeiros reduzem-na a
filantropia corporativa (a responsabilidade moral do bom CEO virtuoso) e os segundos negam-
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na em nome da responsabilidade jurídica (a obrigação estatal). Na realidade, uma regulação
socialmente responsável necessita tanto da lei como do mercado, mas não se limita a ambos, é
uma regulação híbrida que implica também associações e inovações sociais entre pares, para
além do laissez-faire liberal e da coação legal. Pensar uma verdadeira responsabilidade social
liberta-nos do conflito sempre eterno entre liberais e socialistas e apresenta-nos o desafio de
instituir uma verdadeira corresponsabilidade para o destino da humanidade, presente e futura,
usando todas as possibilidades de regulação da ação coletiva (Quadro 2).
Quadro 2 - Possibilidades de regulação da ação coletiva
Ética
Autorregulação não programada:
Compromisso pessoal
A minha lei
Mercado
Heterorregulação não programada:
Feedbacks sistémicos
Sem lei
Direito
Heterorregulação programada:
Coação jurídica
Lei dura
(hard)
Associação (partnership)
Autorregulação programada:
Obrigação mútua
Lei leve (soft)
Fonte: Fonte: Vallaeys (2011).
2 As normas de responsabilidade social organizacionais serão suficientes para suprimir os
impactos negativos?
A nossa reconstrução filosófica de uma definição de responsabilidade social em termos
de corresponsabilidade pelos impactos sociais e ambientais negativos que decorrem
sistemicamente do modo de viver coletivo não é uma invenção ad hoc correspondendo antes
ao consenso efetivo que se vai gerando internacionalmente em torno da noção e que a Norma
ISO 26000 de responsabilidade social (2010) expressa nitidamente: a responsabilidade social de
uma organização é a sua responsabilidade pelos impactos dos quais participa no seu contexto
social quer local quer global. Mas, como os impactos não são atos, ninguém pode assumir esta
responsabilidade sozinho sem se associar com os demais atores do campo social. Esta
dimensão intrinsecamente coletiva da responsabilidade social todavia não está muito bem
percebida.
O que está a nascer é a sensibilidade ética relativa aos contornos das ligações entre atos
individuais e impactos globais. O auge na agenda pública internacional dos temas da
insustentabilidade ambiental e injustiças da globalização económica habitua-nos cada vez mais
à perceção das “pegadas” ecológicas e sociais que acompanham os nossos atos quotidianos de
compra, transporte, consumo, produção, etc. Alfabetizamo-nos na preocupação ética pelo
distante: A minha compra não manterá um sistema injusto de exploração de trabalhadores sem
direitos? O meu transporte não aumentará as emissões de CO2 na atmosfera? O meu trabalho
não promoverá a colisão das ciências com os interesses privados das multinacionais? Por tudo
isto começamos a exigir cada vez mais uma gestão socialmente responsável às empresas,
organizações, instituições com as quais nos vinculamos.
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Assim, nas últimas décadas, foram desenvolvidos numerosos standards de boas práticas
empresariais (ISO 14000, EMAS, SD 21000, AA 1000, SA 8000, SGE 21, GLOBAL, GAP, GRI, Dow
Jones Sustainability Index, ISO 26000, etc.). Estas normas definem boas práticas de gestão que
cada organização deveria seguir, de acordo com o seu próprio core business,
independentemente das leis às quais está submetida em cada Estado em que opera. Estas
normas são de aceitação voluntária (dado que não são leis), mas espera-se que da pressão
conjunta dos clientes, investidores, governos, profissionais, dirigentes, entre outros, se tornem
universais. São definidas muitas vezes por especialistas, por vezes em mesas redondas de multi
stakeholders ou, inclusivamente, através de longas negociações entre atores sociais privados e
públicos, nacionais e internacionais, como foi o caso da norma ISO 26000 (Capron et al., 2011).
Pretendem que a sua legitimidade decorra tanto da sua pertinência ética (definição de boas
ações universalizáveis) como da sua eficácia técnica (definição de qualidade avaliável e bem
sucedida). Pretendem também complementar como soft law as irremediáveis carências da hard
law dos Estados limitados a legislar sobre o seu próprio território quando os problemas
ocorrem agora a nível global. Contudo, não existe dúvida de que a soft law não deve substituir
nunca a hard law, que antes complementa e antecipa.
As universidades estão atualmente a entrar nesta dinâmica dos standards de boas
práticas normalizadas e começam a formular, para além das iniciativas socialmente
responsáveis de cada uma, ferramentas de gestão que pretendem servir de modelo e
paradigma para qualquer universidade: STARS na União Europeia, LIFE no Reino Unido, AISHE
na Holanda, PLAN VERT em França, Memorias de Sostenibilidad y Responsabilidad Social em
Espanha … As Nações Unidas também promovem o tema através da UNAI (United Nations
Academic Impact, 2010) e as Escolas de Negócios subscrevem os PRME (Principles for
Responsible Management Education). Na América Latina também promovemos, desde os
primeiros anos do novo século, uma RSU que deu lugar à publicação de um Manual de primeros
pasos en responsabilidad social universitaria (Vallaeys et al., 2009).
Tal significa que tudo está bem e que é necessário confiar neste movimento voluntário
das organizações que aceitam cada vez mais as normas de gestão socialmente responsável para
um mundo mais justo e sustentável? Na realidade, se analisarmos com maior profundidade
estas normas e as organizações que as adotam, percebemos que não fazem mais do que definir
algumas “boas práticas” que cada organização implementa de forma solitária, no “seu
processo de gestão, com os “seus” colaboradores e as “suas” partes interessadas. Isto, sem
dúvida, permite a promoção de comportamentos mais virtuosos no seio das organizações (boas
práticas ambientais, igualdade de género nos cargos dirigentes, melhor relação laboral com os
empregados, participação em atos de solidariedade com populações vulneráveis…) motivo pelo
qual podemos certamente falar de maior responsabilidade moral das organizações que se
preocupam com a RSO. Mas falta muito para que dita responsabilidade moral se torne
responsabilidade social provocando mudanças em todo o campo social, entre as organizações
(e já não no seu seio) e por cima de todas as organizações.
As atuais normas de responsabilidade social não animam, para lá das boas práticas,
movimentos de associação em corresponsabilidade inter e transorganizacional que possam
realmente romper com as tendências injustas e insustentáveis do sistema atual e traduzir-se
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em inovações sociais capazes de suprimir os impactos negativos crónicos da “sociedade
mundial do risco” (Beck, 1986). Por exemplo, defendem a redução da pegada ecológica de cada
empresa por si só, mas não defendem a implementação de um sistema económico novo como
é o da “economia circular” ou da “economia de funcionalidade” que implicam uma gestão inter
e trans organizacional. Contudo, como esperar uma redução da pegada ecológica global se
continuamos com um sistema económico baseado no incremento das vendas e na
obsolescência programada?
O erro filosófico das normas de responsabilidade social é o de confundir os atos das
organizações com os impactos sistémicos que provocam. Tal confusão condena, de antemão ao
fracasso, qualquer esforço na intenção de atacar as causas profundas que conduzem aos
impactos negativos sistémicos, pois a sustentabilidade do mundo não se reorganiza se
pedirmos apenas a alguns atores que se portem bem. Pelo contrário, os atos bons podem
esconder os maus impactos (greenwashing) e os maus impactos, como são sistémicos,
necessitam de uma reorganização do sistema (corresponsabilidade política), não de boas
iniciativas dentro do mesmo sistema (filantropia inefetiva). Considerando apenas a
problemática da RSU de que serve tomar iniciativas de “campus sustentável” se continua a
ensinar, na Faculdade de Economia, economia neoclássica absolutamente cega aos problemas
ambientais? De que serve desenvolver projetos de solidariedade com populações indígenas se
se continua a negar a possibilidade de uma medicina não ocidental na Faculdade de Medicina?
De que serve falar de gestão socialmente responsável da Universidade se não se atacam os
preconceitos epistémicos de fundo que conduziram a nossa Modernidade ao estado atual de
um desenvolvimento social e ambiental insustentáveis?
3 O que deveria ser a RSU?
Pelo anteriormente exposto, necessitamos de uma teoria da RSU mais racional e
coerente do que as atuais práticas de RSO. O mais indicado é mantê-la próxima da definição
central de responsabilidade pelos impactos da universidade, recordando que ninguém ode gerir
os “seus” impactos sozinho dado que são sociais. A partir daí, a responsabilidade social deve
consistir numa dinâmica de associação para a transformação do campo social que reproduz os
impactos dos quais participa a universidade. Nesse sentido, o fio condutor de uma definição da
responsabilidade social universitária é constituído pelos tipos de impactos universitários e os
riscos a eles associados. A especificidade da RSU com relação à responsabilidade social de
outras organizações (em particular com a das empresas: a RSE) depende da especificidade dos
impactos universitários que dependem, por sua vez, do que fazem as universidades, com quem
o fazem, a quem afetam e como podem participar da finalidade de toda a responsabilidade
social que é a sustentabilidade social e ambiental da sociedade no seu todo, a nível local e
global.
A universidade, ao fazer o que está a fazer, o que é que está realmente a fazer? O quê e
a quem é que está a afetar? Como é que participa da atual crise global de insustentabilidade
humana no planeta? Como agrava a referida crise ou, pelo contrário, abre perspetivas de
solução? Como reproduz ou reduz as desigualdades sociais que recebe em cada ano do seu
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contexto através dos novos estudantes que nela ingressam? Como pode ser agente de
mudança social, tecer novas redes no seu contexto, permitir aos atores sociais externos
construir novos conhecimentos e novos processos para o desenvolvimento justo e sustentável?
Como consegue ser fonte de aprendizagem para todos para lá das suas paredes ou, ao
contrário, funciona como claustro universitário fechado? Como se liga ao seu território ou, pelo
contrário, se desentende da sua localização e promove um conhecimento e uma formação
desligados do seu contexto social? Que atitudes valoriza no seu pessoal docente e não docente,
que inspira ou desanima, que processos facilita ou trava?
Cada universidade tem de responder a todas estas perguntas se quer assumir a sua
responsabilidade social para além dos discursos sentenciosos e ribombantes que nada mudam
nas rotinas institucionais (as declarações de “compromisso social” que não custam nada). Para
ajudar os membros de cada comunidade académica na formulação e resposta às perguntas
mencionadas, é preciso determinar quais são os tipos de impactos que a universidade provoca
no seu labor quotidiano, que tipos de riscos estão associados aos referidos impactos e como
promover reflexão e iniciativas a favor de impactos positivos a partir dos mesmos atores
universitários (dirigentes, administrativos, investigadores, docentes e estudantes).
Seguindo um duplo eixo organizacional e académico, distingue-se 4 tipos de impactos
relevantes na universidade (Figura 1):
1. Impactos internos da própria organização universitária do seu campus para os seus
membros e o seu meio ambiente (impactos laborais e ambientais).
2. Impactos externos para a sociedade em geral.
3. Impactos académicos de formação de pessoas.
4. Impactos académicos de construção de conhecimento.
Figura 1 - Impactos relevantes na universidade
Fonte: Vallaeys (2011).
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Impactos organizacionais
Como qualquer organização laboral, a universidade impacta na vida dos seus membros
(administrativos, docentes e estudantes). Também a forma como organiza as suas atividades
quotidianas tem impactos ambientais (resíduos, desflorestação, consumos energéticos dos
edifícios, transporte, etc.). Este tipo de impactos desdobra-se, assim, em impactos para as
pessoas e para o meio ambiente. A universidade responsável interroga-se sobre a sua pegada
social e ambiental: Quais são os valores que vivemos diariamente no campus? Como devemos
viver na nossa universidade de forma responsável, com respeito pela natureza e a dignidade e
bem-estar dos membros da comunidade universitária?
Impactos educativos
A universidade influencia a formação dos jovens e profissionais, na sua ética e escala de
valores, na sua maneira de interpretar o mundo e de nele se comportar. Incide ainda na
deontologia profissional e orienta (de forma consciente ou não) a definição da ética profissional
de cada disciplina e o seu papel social. A universidade responsável questiona-se sobre o tipo de
profissionais, cidadãos e pessoas que forma, e sobre a adequada organização do ensino para
garantir uma formação socialmente responsável dos seus estudantes. Que tipo de profissionais
e pessoas estamos a formar? Como devemos estruturar a nossa oferta educativa para formar
cidadãos responsáveis pelo desenvolvimento humano sustentável? Serão os nossos diplomados
capazes de querer e poder reorientar o rumo de um desenvolvimento global atualmente
insustentável e sem equidade, ou apenas procurarão encontrar um emprego?
Impactos cognitivos
A universidade orienta a produção de conhecimento, influencia na definição do que
designa socialmente verdade, ciência, racionalidade, legitimidade, utilidade, ensino, etc.
Incentiva (ou não) a fragmentação e separação dos saberes ao delimitar os âmbitos de cada
especialidade ou formação. Articula a relação entre tecnociência e sociedade, possibilitando
(ou não) o controlo e a apropriação social do conhecimento. Influencia a definição e seleção
dos problemas da agenda científica. A universidade responsável questiona-se quanto ao tipo de
conhecimentos que produz, quanto à sua pertinência social e quanto aos seus destinatários:
Que tipo de conhecimentos produzimos, para quê e para quem? Que tipo de ciência
promovemos, uma ciência democrática ou nas mãos da elite? Que conhecimentos devemos
produzir e como devemos difundi-los para atender às carências cognitivas que prejudicam o
desenvolvimento sustentável?
Impactos sociais
A universidade tem um peso social enquanto referência e ator que pode (ou não)
promover o progresso, criar capital social, vincular os estudantes à realidade exterior, fazer
aceder outros atores ao conhecimento, etc. Uma universidade pode fechar-se sobre si mesma
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como um “claustro académico” que partilha um saber desvinculado do ambiente; pode querer
apenas imitar o que é feito a nível internacional e não se preocupar com a sua realidade local
circundante; ou pode assentar e vincular-se profundamente no seu contexto de forma a
participar na resolução de problemas específicos. A universidade responsável interroga-se
sobre como pode acompanhar o desenvolvimento da sociedade e ajudar a resolver os seus
problemas fundamentais: Que papel assumimos no desenvolvimento da sociedade, com quem
e para quê? Como pode a universidade ser, desde a sua fundação e competência específica, um
ator participante no progresso social, através do fomento da educação e do conhecimento,
para uma responsabilidade social territorial? Com quem nos devemos associar para alcançar
esta responsabilidade social territorial?
Os impactos significam riscos, riscos de não cumprir bem com a nossa missão
universitária, riscos de sermos incongruentes entre o que declaramos que somos (universitários
comprometidos com a sociedade e a excelência) e o que na realidade fazemos, riscos de não
perceber, no dia-a-dia, as patologias sociais e ambientais que vamos reproduzindo e
fortalecendo. Visibilizar os impactos negativos constitui uma tarefa essencial para que uma
organização assuma a sua responsabilidade social. Assim como uma pessoa responsável, uma
organização responsável está atenta ao que faz, previne os possíveis futuros adversos,
mantém-se em estado de vigília para não se deixar surpreender, toma precauções para
diminuir as possibilidades de lamentar alguma coisa.
É totalmente errada a opinião que declara que “a universidade é por si socialmente
responsável dado que tem fins educativos e de ciência”. A realidade é diferente. Inclusive
quando temos finalidades boas e queremos fazer as coisas bem, podemos ter impactos
negativos. Do mesmo modo que uma lei pode ser injusta, uma educação pode deseducar e uma
ciência pode gerar riscos e ameaças sociais mais do que a solução de problemas humanos.
Nenhuma organização está imune aos impactos negativos que gera no seu contexto social e
ambiental. E se a universidade forma profissionais e líderes deste mundo social e
ambientalmente insustentável quer, sem dúvida, dizer que é corresponsável, desde a sua forma
de ensinar e gerar conhecimentos, pelas patologias sociais do seu contexto. Culpada não,
corresponsável sim. Podemos produzir um panorama dos possíveis impactos negativos da
atividade universitária (Figura 2).
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Figura 2 - Possíveis impactos negativos das universidades
Fonte: Vallaeys (2011).
Os impactos negativos que ameaçam a pertinência e congruência do trabalho
universitário são, na realidade, poderosos aiados para nos despertarmos, assombrarmos e
motivarmos para fazer coisas novas, criativas, inovadoras, com o objetivo de mudar a vida
diária no campus, nas salas de aula, nos laboratórios de investigação e na participação social
com agentes externos. Devem servir-nos como bússolas para não cairmos na complacência,
inclusive quando devemos estar orgulhosos por cumprir com boas práticas (que as há nas
universidades, felizmente!).
Contudo, a luta contra os impactos negativos tem de ser gerida de forma racional. Quatro
processos básicos permitem à universidade ser vigiante relativamente aos seus riscos de
impactos negativos e incongruências. Trata-se de evitar os quatro perigos de uma organização
irresponsável: a corrupção, o autismo, a cegueira e o egocentrismo organizacionais.
1. A boa “governança” (ou bom governo) da universidade: Definir e cumprir de forma
congruente com a sua Missão organizacional, implementar um Código de Ética e um
Comité autónomo responsável por promover e acompanhar o seu cumprimento,
assegurar não apenas o cumprimento das leis nacionais mas também das mais exigentes
normas internacionais (laborais, sociais, ambientais), assegurar um bom ambiente de
trabalho, lutar contra as discriminações e a iniquidade de género, proteger os direitos
humanos das pessoas e relatar, de forma transparente e confiável, os resultados do
desempenho organizacional, constituem uma série de recomendações que promovem
os instrumentos de gestão da responsabilidade social universitária, basicamente para
lutar contra o risco de corrupção da organização.
2. O diálogo com a prestação de contas às partes interessadas: O modelo dos
stakeholders convida a encarar a universidade como um espaço aberto no qual se
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cruzam interesses e riscos de muitos atores pertencentes (ou não) à comunidade
universitária, vinculados (ou não) com ela, afetados pelo seu desempenho e tendo (ou
não) poder para a afetar. A universidade deve responder de forma satisfatória às suas
“partes interessadas”, estabelecer um vínculo e processos de relação transparente e
democrática com elas, assim como reportar-lhes, de forma confiável e honesta, os
resultados das decisões tomadas. Deve escutar as partes internas interessadas:
estudantes, docentes (do quadro e contratados a tempo parcial), investigadores,
pessoal administrativo; assim como as externas: diplomados, vizinhos, fornecedores,
governos e comunidades locais, Estado, empregadores, ONG, outras universidades. Este
processo de regulação socialmente responsável através do diálogo e da escuta luta
contra o perigo de autismo da organização.
3. O autodiagnóstico dos impactos meio-ambientais e sociais: A filosofia de gestão da
Responsabilidade Social convida a universidade a tornar-se consciente de todas as
consequências e efeitos que as suas estratégias de atuação provocam nos domínios
humanos, sociais e ambientais. Promovendo o “desenvolvimento sustentável”, a
universidade deve tomar consciência dos seus próprios impactos na sua envolvente
(interna e externa) e resolver os problemas diagnosticados, de tal modo que o
funcionamento normal da organização não produza mais os ditos impactos, ou possa
mitigá-los de forma a levá-los a níveis legal e socialmente aceitáveis. Sem um
autodiagnóstico permanente, realizado pelos mesmos membros da comunidade
universitária, pouco podemos fazer para melhorar as coisas e mudar os hábitos
adquiridos: o que não se mede dificilmente pode ser melhorado. Desta forma, a
responsabilidade social é uma política de gestão que obriga a universidade a examinar-
se a si mesma e a assumir os riscos dos seus impactos de forma responsável. Para além
disso, o autodiagnóstico é fundamental pois constitui uma forma de realizar o bom
governo universitário (democracia, transparência) e a audição e prestação de contas a
todas as partes interessadas. Ajuda assim a lutar contra o risco de cegueira da
organização.
4. As alianças para participar no desenvolvimento social e ambientalmente sustentável do
território da universidade: A adequação com a Missão e Valores da universidade, a
gestão dos impactos e a participação das partes interessadas, em conjunto, levam de
uma lógica reativa a uma lógica proactiva de envolvimento na solução dos problemas
sociais da envolvente da universidade, logo à ancoragem social e à criação de redes e
alianças para o tratamento conjunto de problemas sociais. A referida estratégia de
alianças para a responsabilidade social, não apenas da universidade enquanto tal, mas
do território em que opera, será sustentável se a participação externa da universidade
retorna a ela sob a forma de melhor formação dos estudantes, melhor gestão do
campus, melhor inovação científica e criação de conhecimentos pertinentes. Pelo
exposto, a constituição de alianças para o desenvolvimento local não significa gastos de
filantropia a fundo perdido. Evitando fazê-la cair na soberba de se considerar a única
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fonte de conhecimentos e pertinência social, a RSU ajuda a universidade a tecer redes
com outros atores sociais (governos locais, ONG, empresas, comunidades locais,
governo central, organismos internacionais, universidades nacionais e internacionais,
etc.) para alcançar metas ambiciosas enquanto transformação social. A RSU ajuda assim
a universidade a lutar contra o perigo de egocentrismo da organização.
Este último processo básico de responsabilização social é frequentemente esquecido
apesar de, na realidade, ser essencial por uma simples razão: ninguém pode controlar por si só
os “seus” impactos, seja para os suprimir ou os mitigar. Isto porque, como vimos, os impactos
dos quais participamos como agentes sociais “enredam-nos” literalmente, colocam-nos em
redes de inter atores, juntamente com muitos outros atores sociais locais, nacionais e globais.
Seria irrealista pensar que uma organização possa resolver por si mesma o “seu” problema de
pegada ecológica insustentável, o “seu” problema de participar na reprodução da pobreza dos
mais marginalizados pelo sistema económico. Contudo, se a responsabilidade social de
qualquer organização é a responsabilidade pelos impactos que provoca na sociedade e no meio
ambiente (e esta é a única definição precisa de responsabilidade social) então qualquer
vontade de se responsabilizar pelos referidos impactos obriga a associar-se com outros atores
sociais para tratar de reorientar processos sistémicos que superam as forças e possibilidades da
organização isolada. Assim, toda a responsabilidade social organizacional (RSO) conduz ao
dever de associação e criação de alianças para o desenvolvimento justo e sustentável, ou seja,
conduz a responsabilidade social territorial (RST) entre parceiros situados num determinado
território local, regional, nacional, internacional ou, inclusive, planetário, dependendo do
alcance das alianças e dos problemas por tratar.
É inútil considerar a responsabilidade social como um assunto que diz respeito a cada
organização de forma isolada, como se se tratasse da sua responsabilidade moral (cumprir com
boas ações e recusar atos ilegais e injustos). Ou a responsabilidade social é “social”, quer dizer
de e entre todos, ou falamos de uma responsabilidade “individual” (pessoal ou de uma
organização em particular) e então trata-se de uma simples responsabilidade moral e/ou
jurídica.
Os 4 tipos de impactos que definimos permitem, uma vez que entendemos que
devemos responder por eles, delimitar quatro âmbitos de gestão socialmente responsável da
Universidade (Figura 3).
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Figura 3 Âmbitos de responsabilização social
Fonte: Vallaeys (2011).
4 A RSU como modelo para uma universidade ancorada no seu território, promovendo um
conhecimento público e democrático, contra a mercantilização da educação e das ciências
Nestes tempos de liquefação financeira de toda a economia, tudo tende a tornar-se uma
mercadoria de forma a entrar nos fluxos de intercâmbios em redes. O conhecimento não
escapa a esta tendência. Duas inovações na fronteira da educação superior apresentam-se
atualmente sob um rosto muito simpático, apesar de poderem augurar horizontes sombrios de
mercantilização universitária transnacional. O primeiro são os cursos virtuais massivos abertos
(MOOC: Massive Open Online Courses), o segundo é o modelo da “Tripla Hélice” (Etzkowitz,
Leydesdorff, 1997), que congrega o Estado, as Empresas e as Universidades em torno da
inovação da inovação tecno-económica, modelo no qual os poderes públicos e privados se
associam para promover uma “ciência empresarial”.
Apesar de os cursos virtuais massivos serem, de momento, gratuitos e afirmarem
quebrar as paredes do claustro universitário para dar acesso a todos ao melhor conhecimento,
o de Stanford, MIT, Harvard (Ver: Coursera, Udacity, EdX) induzem, sem querer querendo, um
modelo de conhecimento desgarrado, desancorado, suscetível de ser produzido e difundido
para todos, seja qual for a sua história, lugar, idioma, contexto social, tal como qualquer
mercadoria adquirida por qualquer cliente. O processo de ensino-aprendizagem ficará assim
otimizado como fluxo de informações uniformizadas acessíveis ao maior número possível de
clientes igualmente uniformizados. O currículo oculto de dito modelo é a negação do carácter
singular e pessoal do processo de ensino-aprendizagem como processo trans-formativo e não
apenas in-formativo de uma pessoa. O conhecimento valorizado será aquele que possa ser
desligado das suas condições territoriais e intersubjetivas de produção e compreensão. No
horizonte está também o desaparecimento da diversidade universitária mundial, o domínio
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exclusivo do inglês (ele mesmo empobrecido em globish”), o auge do monopólio da educação
superior por parte de algumas multinacionais.
O modelo da Tripla Hélice, pela sua parte, tem como currículo oculto (não tão oculto!) a
privatização do conhecimento através do pedido público e privado de uma ciência com fins
lucrativos. Sem ignorar as vantagens do mercado na promoção de melhorias e inovações para o
bem-estar social, é necessário destacar o facto de que o aproveitamento lucrativo de um bem
ou serviço necessita que expressamente se proíba o seu livre acesso pelo público, para
assegurar que seja vendido e não livremente usado. Se a ciência se torna mercadoria, significa
que deve deixar de ser um bem comum e uma atividade democrática aberta, de forma
transparente, à crítica pelos pares na comunidade de comunicação (Habermas, 1981; Apel,
1973). O seu uso mercantil (privatizado) contradiz então o seu processo de produção que exige
livre exame e crítica universal. Tal é possível apenas se se abandona a procura do saber
verdadeiro legitimado pela comunidade aberta dos homens de ciência numa “sociedade
aberta” (Popper, 1945) e se pratica uma tecnociência que apenas procura a transformação
ativa do mundo, isto é, uma ciência que faz, mas não procura saber. É inútil referir que todos os
homens de ciência que procuram saber e, sobretudo, os que alertam para os perigos das
inovações científicas (os alertadores: whistleblowers) serão sistematicamente marginalizados
pela Tripla Hélice.
Contra tal mercantilização da educação e da ciência, a RSU constrói-se como modelo de
universidade ancorada no seu território, ouvindo as suas gentes, preocupada com os seus
impactos na sociedade e no meio ambiente local e global, promovendo uma ciência produzida
numa comunidade democrática como um bem público não mercantilizável. A RSU convida
constantemente à autorreflexão da comunidade académica sobre os seus pressupostos
epistémicos e os efeitos da sua ação. É um modelo “ecológico” de academia que trata cada
contexto singular de cada universidade, assegura a diversidade académica mundial contra os
monopólios e a normalização da produção do conhecimento, dado que acarinha a
aprendizagem-ação e a investigação-ação em comunidades de aprendizagem tendo em vista
um desenvolvimento justo e sustentável. Nada diz que os seus contributos para o processo
cognitivo e espiritual universal da humanidade serão menores do que os do modelo da ciência
empresarial e o conhecimento como mercadoria. É tempo de os universitários escolherem para
qual dos modelos de sociedade querem trabalhar. Nisto reside a sua responsabilidade moral
para com a responsabilidade social.
Referências
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failure to protect worker rights. 2013. Disponível em:
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VALLAEYS, F.; DE LA CRUZ, C. & SASIA, P. Responsabilidad Social Universitaria,Manual de
primeros pasos. 2009. México: McGraw-Hill Interamericana Editores; BancoInteramericano de
Desarrollo. Disponível em:
<http://idbdocs.iadb.org/wsdocs/getdocument.aspx?docnum=35125786>. Acesso em: 9 set.
2017.
... A RSC tem uma relação estreita com o termo 'ética', um termo que tem ganhado destaque na linguagem organizacional (ENRIQUEZ, 1997). Nesse sentido, ressalta-se que as organizações precisam ir além das responsabilidades econômicas e legais, e assumir, também, responsabilidades éticas, sociais e ambientais (ASHLEY, 2002), inclusive as universidades (VALLAEYS, 2017). Entende-se, portanto, que as responsabilidades organizacionais não são neutras, mas, apropriam-se de valores éticos em sua conceituação e compreensão (PENA, 2003). ...
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Resumo As organizações têm procurado realizar atividades sustentáveis que conciliem os aspectos sociais, econômicos e ambientais, dada a necessidade de mudança em suas ações frente aos problemas ambientais. Contudo, a divulgação dessas atividades nem sempre se mostram coerentes com as percepções dos diferentes atores organizacionais. Por isso, o presente estudo propõe analisar as convergências e divergências entre o discurso organizacional de sustentabilidade e a compreensão de atores sobre suas práticas. Para atingir esse objetivo, realizou-se um estudo qualitativo e descritivo em uma instituição de ensino superior atuante na região do Alto Paranaíba, por meio de pesquisa documental e de entrevistas com quatro pessoas vinculadas à organização. Como resultado, verificou-se que, em ambos os discursos, há uma valorização das atividades de responsabilidade socioambiental desenvolvidas pela instituição e o reconhecimento da sua importância. Porém, nem sempre há o envolvimento de atores sociais na proposição das atividades voltadas à comunidade, como abordado no discurso oficial. Além disso, esse discurso não reconhece o caráter estratégico que a sustentabilidade tem para a instituição. Palavras-chave: Responsabilidade Social. Sustentabilidade. Discurso Organizacional. Abstract The organizations have sought to carry out sustainable activities that reconcile social, economic and environmental aspects, given the need to change their actions against environmental problems. However, the dissemination of these activities is not always coherent with the perceptions of the different organizational actors. Therefore, the present study proposes to analyze the convergences and divergences between the organizational discourse of sustainability and the actors' understanding of their practices. To achieve this objective, a qualitative and descriptive study was carried out at a higher education institution in the Alto Paranaíba region, through documentary research and interviews with four people linked to the organization. As a result, it was verified that, in both discourses, there is an appreciation of the socio-environmental responsibility activities developed by the institution and the recognition of its importance. However, there is not always the involvement of social actors in proposing community-oriented activities, as discussed in the official discourse. Moreover, this discourse does not recognize the strategic nature that sustainability has for the institution.
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La extensión universitaria asume una función de práctica social en las casas de estudios superiores, ya que tiene como propósito el acto de educar. Además de promover herramientas para docentes, estudiantes y la comunidad externa, logrando así mantener sus conocimientos actualizados a través de formaciones continúas. De igual forma, la extensión universitaria desempeña un papel transcendental en la construcción de los ciudadanos para el nuevo modelo de sociedad. En este sentido, este artículo teórico tuvo como objetivo reflexionar sobre la extensión universitaria con sentido de responsabilidad social. Las experiencias de responsabilidad social universitaria deben relacionarse con la extensión como un acuerdo colectivo, de manera que se pueda establecer un diálogo dinámico entre la academia y el mismo entorno, desarrollando así el verdadero sentido de pertenencia que debe existir en el recinto estudiantil.
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Resumo: As universidades têm a atribuição de formar cidadãos responsáveis e éticos, de forma que contribuam com o desenvolvimento sustentável e resolução de problemas sociais. Nesta esteira, a responsabilidade social no ambiente universitário viabiliza a construção de ações que impactam a sociedade favorecendo a inclusão social, melhoria na qualidade de vida e outros benefícios. Diante desse cenário, busca-se nesta pesquisa responder ao seguinte questionamento: qual a importância da responsabilidade social nas universidades? E para responder a essa indagação, o artigo apresenta como objetivo geral: identificar qual a importância da responsabilidade social no ambiente universitário, e como objetivos específicos (1) compreender fatores históricos e práticos que favorecem a aplicabilidade da responsabilidade social nas universidades; (2) identificar os desafios na aplicabilidade de responsabilidade social; (3) analisar as características fundamentais da responsabilidade social. Quanto à metodologia aplicada, o artigo foi construído por meio de uma análise sistemática da literatura que permitiu realizar uma revisão teórica e conceitual, em seguida, houve a discussão da literatura, considerações finais e referencial teórico. Os Resultados revelam que a Responsabilidade Social Universitária possui muitos desafios a serem enfrentados e que o espaço universitário precisa ser fortalecido para que proporcione à sociedade indivíduos com capacidade técnica capaz de resolver problemas sociais. Abstract: Universities are responsible for training responsible and ethical citizens, so that they contribute to sustainable development and the resolution of social problems. In this way, social responsibility in the university environment enables the construction of actions that impact society, favoring social inclusion, improved quality of life and other benefits. Given this scenario, the aim of this research is to answer the following question: what is the importance of social responsibility in universities? And to answer this question, the article presents the general objective: to identify the importance of social responsibility in the university environment, and as specific objectives (1) understand historical and practical factors that favor the applicability of social responsibility in universities; (2) identify challenges in the applicability of social responsibility; (3) analyze the fundamental characteristics of social responsibility. As for the methodology applied, the article was built through a systematic analysis of the literature that allowed for a theoretical and conceptual review, then there was a discussion of the literature, final considerations and theoretical framework. The Results reveal that University Social Responsibility has many challenges to be faced and that the university space needs to be strengthened so that it provides society with individuals with technical capacity capable of solving social problems. Keywords: Social Inclusion. Social development. Quality of life. Social justice.
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Purpose The purpose of this paper is to analyze the relationship between empathy and social responsibility (SR) practices in a university organization in Brazil during the COVID-19 pandemic in 2020. Design/methodology/approach The research was qualitative, using case study methodology. The case study was about the Brazilian organization Ânima Educação, which is the greatest among the five largest publicly traded education companies in Brazil. Secondary data collection and content analysis was carried out. Findings As emotional response toward the problems caused by the pandemic, the company's leadership adopted an empathic behavior, allowing traces of its empathic culture to emerge. Empathy was expressed through the implementation of SR practices aimed at workers (policy of not firing in the first two months of the pandemic), at students (provision of technological apparatus, online classes, physical/psychological assistance and negotiation of late fees) and at the society (assistance to the elderly). Originality/value It was concluded that empathy can be taken as the emotional motivator for companies to engage in SR practices, especially in extreme circumstances in society, as the economic and health challenges that the world is experiencing with the COVID-19 pandemic nowadays. SR practices, in turn, can foster even more empathy in organizations, mobilizing leaders and their respective groups in the creation and implementation of new practices, thus demonstrating that the relationship between empathy and SR practices is a “two-way street.”
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Este texto está voltado à discussão da Responsabilidade Social Universitária (RSU). Considerando a influência de fatos históricos na constituição do conceito, o estudo tem por base uma pesquisa bibliográfica de caráter histórico. A discussão contempla a composição do conceito ao longo da trajetória da universidade, os fatos institucionais e a base legal no caso brasileiro. Também são discutidas as múltiplas definições de responsabilidade social presentes em estudos acadêmicos e a complexidade envolvida na adoção do conceito no âmbito das organizações universitárias. Como contribuições o estudo apresenta a sistematização contextualizada das ideias sobre a RSU, considerando os fatos relacionados a constituição do conceito, e que a temática representa um avanço nas formas de controle e mensuração da gestão das universidades. As conclusões do estudo apontam para a multidisciplinaridade do tema, considerando para tal as raízes implícitas na razão de ser da universidade e que a implantação de ações de RSU vai além de atribuições específicas do grupo responsável pela gestão deste tipo organizacional.
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Este artigo apresenta um estudo sobre a Responsabilidade Social Universitária (RSU) na visão de docentes e discentes de uma Universidade Federal. Tendo em vista a natureza da universidade, o estudo foi desenvolvido com base no modelo de análise da RSU proposto por Vallaeys, Cruz e Sasia (2009). Foram abordados os eixos Campus Responsável, Formação Profissional e Cidadã, Gestão Social do Conhecimento e Participação Social. A base teórica discute brevemente o modelo utilizado para análise. O delineamento metodológico adotado caracteriza um estudo descritivo quantitativo, tendo como unidade de análise a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Para isso um questionário foi aplicado a fim de verificar se o modelo usado descreve a concepção dos docentes e discentes a respeito da RSU praticada na UFFS. Os resultados da regressão múltipla revelam que, apesar de terem percepções diferentes sobre o compromisso social desenvolvido pela Instituição, docentes e discentes compreendem o compromisso social a partir do Eixo Campus Responsável, que implica em integrar as preocupações de responsabilidade social de forma transversal na estratégia e na matriz base das atividades desenvolvidas.
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This article aims to analyze whether University Social Responsibilities - USR is regulated in the control mechanisms that inspect and allow the opening and continuity of a Higher Education Institution, making an analysis as to whether the MEC assessment instruments are efficient in the implementation of a socially responsible organizational culture, having as a reference the systemic view, which allows a macro analysis from the legal side. It is a qualitative research, where the documentation of the Higher Education legislation was analyzed, using techniques to understand the object of study in its entirety, but whose raw material is the legislation that deals with the evaluation systems and the Instruments for Assessment of Accreditation of an HEI and course. The importance of this research is due to the fact that it performs an analysis to find out how USR is inserted in the legislation, and that the absence of a clear and objective legislation, make the HEIs comply only with what is required by law, that is, the minimum , and in accordance with legislation.
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O presente estudo teve como objetivo verificar o desempenho das Comissões Próprias de Avaliação no contexto dos atos regulatórios do Ministério da Educação quanto aos elementos decisórios da gestão universitária. Metodologicamente trata-se de uma pesquisa descritiva com abordagem quantitativa, tendo como universo os representantes das Comissões das 2.448 Instituições de Ensino Superior brasileiras. Aplicou-se, em 2018, um questionário estruturado, enviado por correio eletrônico, para o total de 2.802 representantes, obtendo-se uma amostra de 278 respondentes. A extração e análise de fatores significativos evidenciam o contexto dos atos regulatórios e da gestão universitária, por meio da técnica estatística multivariada - Análise Fatorial Exploratória. Dentre os principais resultados tem-se que as Comissões estão situadas em um âmbito de relevância nas Instituições estudadas, tendo autonomia para a realização de seu trabalho, exercendo a função precípua de um organismo interno orientador do direcionamento da estratégia institucional. Conclui-se que, quando se analisa a gestão do processo de avaliação no contexto da regulação do ensino superior no Brasil, as Comissões Próprias de Avaliação atendem ao direcionamento da estratégia institucional. Palavras-chave: Comissão Própria de Avaliação. Sinaes. Gestão Universitária. Análise Fatorial.
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We have become unsustainable. We have to organize a global responsibility to take care of theplanetary side-effects of human action. Social Responsibility may be the practical model of thisresponsibility for the various organizations. But we must found ethically this new collective,anonymous and prospective responsibility, which is not imputing acts to somebody any longer, butcreates united groups to take care of the impacts of people's acts. In this philosophical thesis, we definea 3D ethic: virtue, justice, sustainability. We reformulate Corporate Social Responsibility andScientific Social Responsibility under the aegis of the discourse ethics (Apel, Habermas). Because ofthis ethical foundation, Social Responsibility can no longer be conceived as a voluntary commitmentbut as a duty that has to be institutionalized by a hybrid regulation of our shared responsibility
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El Manual de Responsabilidad social universitaria presenta un conjunto de instrumentos dirigidos a ayudar a las instituciones de educación superior, paso a paso y de manera sencilla, a identificar más cabalmente su rol fuera de las aulas e incorporar medidas que permitan mejorar su contribución para una sociedad más justa y sostenible. Las universidades son organizaciones complejas en las que muchas personas piensan, investigan y aprenden, pero no necesariamente lo hacen en forma articulada y dirigida hacia un mismo propósito institucional. No es infrecuente que los valores de una universidad y sus prácticas diverjan. Este Manual propone un proceso de diálogo y auto-diagnóstico para que las instituciones integren sus diferentes áreas y funciones y colaboren coherentemente con el desarrollo del medio donde están insertas.
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‘If in this book harsh words are spoken about some of the greatest among the intellectual leaders of mankind, my motive is not, I hope, to belittle them. it springs rather from my conviction that, if our civilization is to survive, we must break with the habit of deference to great men.’
Book
The governance of natural resources used by many individuals in common is an issue of increasing concern to policy analysts. Both state control and privatization of resources have been advocated, but neither the state nor the market have been uniformly successful in solving common pool resource problems. After critiquing the foundations of policy analysis as applied to natural resources, Elinor Ostrom here provides a unique body of empirical data to explore conditions under which common pool resource problems have been satisfactorily or unsatisfactorily solved. Dr Ostrom uses institutional analysis to explore different ways - both successful and unsuccessful - of governing the commons. In contrast to the proposition of the 'tragedy of the commons' argument, common pool problems sometimes are solved by voluntary organizations rather than by a coercive state. Among the cases considered are communal tenure in meadows and forests, irrigation communities and other water rights, and fisheries.
  • M Le
SERRES, M. Le contrat naturel. Paris: François Bourin, 1990.
Responsibility Outsourced: Social audits, Workplace Certification and twenty years of failure to protect worker rights
  • Afl-Cio
AFL-CIO. Responsibility Outsourced: Social audits, Workplace Certification and twenty years of failure to protect worker rights. 2013. Disponível em: <http://www.aflcio.org/content/download/77061/1902391/CSReport+FINAL.pdf>. Acesso em: 9 set. 2017.
  • K-O Apel
APEL, K-O. Transformation der Philosophie, Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1973.