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O turismo e o crédito bancário: Que caraterísticas apresentam os turistas que recorrem ao crédito para viajar

Authors:

Abstract

Sociodemographic changes in contemporary societies have a significant impact on tourism, as these affect tourism consumers behavior that seek alternative solutions to benefit from what they assume as a need (Gaulia, 2009). We witness the bird of a new era of consumers that look at tourism in a diferente way, willing to appeal to bank loans to realize their tourism wishes (Oliveira & Jesus, 2013). Thus, the objective of this study is to identify the diferences between tourist who use this credit strategy to participate in tourism and those who do not. For this, we developed an empirical exploratory study, based on a qualitative analysis, supported by semi-structured interviews. Results show that, potentially, people who use credit to go on vacation have distinctive characteristics, both in terms of family values and travel options, and also in terms of sociodemographic variables.
The online market and
the consumer in the
tourism activity
Volume 7 | Número 1 | Setembro 2016
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ISSN: 2183-0800
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O TURISMO E O CRÉDITO BANCÁRIO: QUE CARATERÍSTICAS
APRESENTAM OS TURISTAS QUE RECORREM AO CRÉDITO
PARA VIAJAR?
Moura, A.
Escola Superior de Educação, Instituto Politécnico de Coimbra
Mira, M. R.
Escola Superior de Educação, Instituto Politécnico de Coimbra
Paiva, S.
Caixa Geral de Depósitos, S. A.
Moura, A., Mira, M. R. & Paiva, S. (2016). O turismo e o crédito bancário: Que
caraterísticas apresentam os turistas que recorrem ao crédito para viajar?. Tourism and
Hospitality International Journal, 7(1), 70-90.
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Resumo
As alterações sociodemográficas nas sociedades contemporâneas têm impacte na
atividade turística, que estas afetam o comportamento dos consumidores turísticos
que procuram soluções alternativas para responderem ao que assumem como sendo uma
necessidade (Gaulia, 2009). Observa-se um novo comportamento dos consumidores na
forma como olham para o turismo, dispondo-se a recorrer ao crédito bancário para
concretizarem os seus desejos (Oliveira & Jesus, 2013). Assim, o objetivo deste estudo
é conhecer as diferenças entre os turistas que recorrem a estas estratégias e os que não o
fazem. Para isso, realizou-se um estudo empírico de caráter exploratório, de natureza
qualitativa, apoiado em entrevistas semiestruturadas. Os resultados demonstram que,
potencialmente, as pessoas que recorrem ao crédito para a realização de viagens
apresentam algumas caraterísticas distintas das restantes, tanto ao nível dos valores
familiares e do tipo de viagem que realizam, como ao nível de variáveis
sociodemográficas.
Palavras-Chave
Turismo, Crédito, Comportamento do consumidor, Empréstimo bancário
Abstract
Sociodemographic changes in contemporary societies have a significant impact on
tourism, as these affect tourism consumers behavior that seek alternative solutions to
benefit from what they assume as a need (Gaulia, 2009). We witness the bird of a new
era of consumers that look at tourism in a diferente way, willing to appeal to bank loans
to realize their tourism wishes (Oliveira & Jesus, 2013). Thus, the objective of this
study is to identify the diferences between tourist who use this credit strategy to
participate in tourism and those who do not. For this, we developed an empirical
exploratory study, based on a qualitative analysis, supported by semi-structured
interviews. Results show that, potentially, people who use credit to go on vacation have
distinctive characteristics, both in terms of family values and travel options, and also in
terms of sociodemographic variables.
Keywords
Tourism, Credit, Consumer behavior, Bank loans
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Introdução
As sociedades contemporâneas sustentam-se em pilares consumistas que
proporcionaram a democratização da facilidade de acesso ao crédito. De acordo com
Gaulia (2009), este fenómeno favorece o que o autor denomina de “hiperconsumo” ou a
propagação de atos de consumo excessivo, não estando associado nem com as origens,
nem com o potencial socioeconómico dos consumidores.
O crédito é a solução apresentada pelas instituições bancárias a estas tendências
sociais generalizadas, traduzindo-as numa oportunidade de negócio, facilitando aos
indivíduos acederem a bens de consumo e de conforto, tais como habitação,
equipamentos, transporte ou viagens, de forma antecipada, permitindo a adaptação
temporal dos seus ciclos de despesas aos seus ciclos de rendimento (Frade & Jesus,
2011).
No caso de Portugal, tal como noutros países da Europa, verifica-se que
aproximadamente 60% dos sujeitos que recorrem ao crédito bancário referem que se
trata de uma resposta rápida e acessível para o financiamento das suas necessidades
(Alter & Schuler, 2012). Tendencialmente, o modelo de endividamento dos sujeitos
realiza-se de acordo com o seu ciclo de vida, dependendo da sua evolução em termos de
idade, estado civil, número de filhos, situação perante o emprego, rendimentos, bem
como pelo nível educacional do agregado familiar, pela existência ou não de habitação
própria ou até pela proveniência de meios rurais ou urbanos (Alegre & Pou, 2004).
A participação dos indivíduos na atividade turística, tem vindo a assumir-se, cada
vez mais, como uma necessidade inequívoca do ser humano, tendo em consideração o
seu contributo para o crescimento pessoal, o desenvolvimento social e até para a
melhoria da saúde e bem-estar (Gilbert & Abdullah, 2004). Por este motivo, constata-se
que o turismo é uma realidade transversal a todas as etapas do ciclo de vida dos
indivíduos do século XXI e que representa, progressivamente, um consumo inevitável e
de grande relevo nos seus orçamentos familiares (Crouch, Oppewal, Huybers, Dolnicar,
Louvier & Devinney, 2007).
Crouch, et al (2008) salientam que cada vez mais segmentos de mercado que
viajam com muita frequência, cujos rendimentos discricionários, considerados pelos
mesmos autores como a renda disponível para gastos, depois do indivíduo ter suprido
todas as suas despesas essenciais (alimentação e habitação, por exemplo), são
canalizados para a prática turística, em detrimento de investimentos financeiros ou
poupanças.
Simultaneamente, e no caso de Portugal, Cruz (2011) acrescenta que estão a
desenvolver-se mudanças ao vel das estruturas sociais, designadamente no que diz
respeito à disseminação de novos valores e estilos de vida, ao crescimento da busca do
bem-estar geral e, naturalmente, à propagação da possibilidade de escolha e ao aumento
das ambições de consumo a estratos populacionais mais vastos. A autora afirma que
“estes fatos indiciam a emergência da sociedade de consumo em Portugal” (Cruz, 2011,
p. 8).
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Neste contexto de evolução e transformação social, vislumbra-se a importância de
compreender de forma mais aprofundada o fenómeno transformacional do crédito
bancário nos comportamentos dos indivíduos, bem como a sua relevância para o
usufruto de viagens ou participação turística, tal como se pretende fazer ao longo do
presente artigo.
O Fenómeno do Crédito Bancário na Sociedade Atual
De acordo com Lipovetsky (2007, p. 32) “é por volta de 1950 que se estabelece um
novo ciclo histórico das economias de consumo (…) o chamado «milagre do consumo»
(...) fez aparecer um poder de compra discricionário em camadas sociais cada vez mais
vastas, vulgarizando o crédito ao consumo e consentindo que os indivíduos de
distanciassem da carência estrita. Segundo o mesmo autor, as massas passam a ter um
acesso liberalizado ao crédito que lhes permite aceder a um novo estilo de vida, até
reservado às elites sociais, consentindo o consumo de bens duráveis, lazer, viagens ou
moda.
Na mesma linha de pensamento, Gaulia (2009) salienta que se vive numa sociedade
de aparências, que nos chamados tempos pós-modernos se valoriza apenas o que o
indivíduo aparenta ser. Constata-se, portanto, que esta sociedade de hiperconsumo” é
alimentada pelos provedores de crédito, ou seja, é, pois, o crédito, com as suas
fórmulas tradicionais de expansão e sedução, que catapulta alguém que nada tem, para o
palco iluminado onde todos possam observá-lo como alguém” (Gaulia, 2009, p. 104).
De uma maneira geral, sabe-se que 61% dos indivíduos em todo o mundo recorrem
ou recorreram ao crédito bancário, sendo de salientar que este valor se eleva para
63% no âmbito Europeu (Frade & Jesus, 2011). Para estes autores as principais
motivações de acesso ao crédito variam em torno de: (i) imobiliário (86%); (ii) cuidados
médicos (82%); (iii) educação (65%); (iv) automóvel (60%); (v) obras (58%); (vi)
viagens e férias (9%).
Apesar da maioria das transações implicarem trocas monetárias, presentemente, os
consumidores não necessitam de liquidez para a aquisição de bens. Basta, por vezes,
uma negociação prévia com uma entidade bancária, para a supressão de
constrangimentos financeiros (Berentsen, Camera, & Waller, 2007). Os consumidores
atuais, têm, portanto, ao seu dispor uma panóplia de soluções de financiamento (cartões
de crédito, crédito pessoal, entre outros) que lhes permite efetivar muitas compras,
mesmo quando não existe disponibilidade monetária naquele momento. De acordo com
Bernanke e Blinder (1988) o crescimento económico está, muitas vezes, intimamente
relacionado com o estímulo ao crédito.
As entidades bancárias e outras, com capacidade de financiamento, valem-se das
últimas tendências generalistas de “hiperconsumo” para disseminar, promover e
transacionar os seus produtos de crédito. No entanto, que sublinhar o papel
estimulador das entidades governamentais nacionais e internacionais, que
simultaneamente, incentivam o acesso ao crédito e que, por sua vez, estimulam o
consumo, descortinando-se uma perigosa situação de “bola de neve”. Bernanke e
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Blinder (1988) sublinham até que a apreciação realizada pelas entidades bancárias
acerca da facilitação ou não de crédito, influenciam os investimentos, o emprego e a
economia, de uma forma geral.
A palavra “crédito” deriva do latim credere, isto é, acreditar ou confiar, sendo que na
literatura se constata alguma unanimidade na sua conceptualização como uma forma de
penhora do rendimento futuro ou liberalização de rendimentos ainda indisponíveis,
proporcionando o usufruto do consumo, através da imposição de obrigações ou
sacrifícios financeiros futuros (Marques & Frade, 2003; Frade & Jesus, 2011).
Todavia,
decidir sobre o crédito implica uma decisão prévia sobre a compra, ou
sobre aquilo que o dinheiro emprestado permite alcançar, e o
julgamento de crédito não se separa nunca desta herança afetiva ligada
à expetativa de obtenção de algo desejado ou necessitado (Oliveira &
Jesus, 2013, p. 41).
Hofmann (2004) defende que o risco de crédito é um dos mais importantes fatores do
mercado financeiro, que cada operação de crédito envolve o risco de não
cumprimento por parte do devedor. Neste âmbito, Frade e Jesus (2011, p. 1)acrescentam
que “com as despesas cada vez mais justapostas aos rendimentos, muitas famílias
dispõem de pouca ou nenhuma margem financeira para acomodar gastos ocasionais ou
inesperados e para suportar perdas de rendimento. Rapidamente resvalam para situações
de incumprimento e de insolvência”. Desta forma, averigua-se que existe risco, não
para a entidade bancária (provedora de crédito), mas também para o consumidor
(devedor de crédito).
Em ambos os casos o risco está associado a fatores externos, tais como
transformações económicas e sociais, difíceis de prever e controlar. Por exemplo, a crise
económica e financeira internacional, a partir de 2008, precipitou uma grave
desconfiança na funcionalidade das instituições financeiras do capitalismo
contemporâneo (Bodosca, Gheorghe, & Nistoreanu, 2014). Por isso, a única forma de
minimizar riscos e apoiar uma tomada de decisão de crédito consciente e criteriosa, quer
para os credores financeiros, quer para os sujeitos devedores, é através dos 5C’s do
crédito: carácter, capacidade, capital, colateral e condições (Allen, DeLong, &
Saunders, 2004).
O crédito é, portanto, uma possibilidade real de financiamento, exigindo uma
avaliação minuciosa de preço, utilidade, esforço e valor, que deve ser ponderada na
decisão final de compra (Oliveira & Jesus, 2013). Os mesmos autores sublinham ainda
que esta tomada de decisão acerca de um crédito acarreta um legado afetivo ligado à
expetativa de obtenção de um benefício desejado ou necessitado que deve ser tida em
consideração.
Em suma, o crédito implica risco e esse risco influencia a tomada de decisão dos
indivíduos, isto é, a decisão de um indivíduo de contrair ou não crédito e a posterior
gestão que ele faz das suas obrigações financeiras é, em boa medida, determinada pela
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perceção que o mesmo tem sobre a sua probabilidade de incumpri-lo e as vantagens e
desvantagens que prevê obter em todo o processo” (Frade & Jesus, 2011, p. 3). Desta
forma, e tendo em consideração os objetivos deste trabalho, vislumbra-se necessário
analisar a relevância do crédito para o consumo de uma vantagem ou benefício
específico: viajar ou participar no turismo.
A Relevância do Crédito Pessoal para Viajar ou Participar no Turismo
As decisões do consumidor tendo em consideração as opções turísticas podem
basear-se num processo de escolha complexo que inclui determinantes de participação,
de tempo, de frequência ou de gastos (Eugenio-Martin, 2003, citado em Alegre, Mateo,
& Pou, 2010). Assim, viajar ou participar no turismo depende de vários fatores, sendo
que os mais decisivos são os rendimentos discricionários, o tempo livre, e os desejos ou
motivações pessoais (Carr, 2005). Os resultados do estudo levado a cabo em Espanha
por Alegre, Mateo e Pou (2010), demonstram, que a participação turística é influenciada
por barreiras financeiras, designadamente através do nível de rendimentos dos
indivíduos, da sua capacidade de poupança, da sua estabilidade perante o emprego ou
do seu estatuto social (por exemplo, se possuem ou não habitação própria, automóvel
próprio, entre outros).
Oliveira e Jesus (2013) referem o modelo de Prelec e Loewenstein (1998),
denominado de Prospective Accounting Model, para destacar o grande inter-
relacionamento “entre a dor do pagamento e o prazer do consumo (coupling)”, que é
mitigado pela figura do crédito pessoal. Isto é, o crédito pessoal “dificulta a
representação desse equilíbrio, na medida em que o equilíbrio entre o benefício e o
custo apenas se constrói mediante a ponderação de um terceiro elemento: o tempo”
(Oliveira & Jesus, 2013, p. 41).
Deste modo, e de um ponto de vista concetual, é possível classificar o crédito
segundo a finalidade (1) e a duração (2). Segundo Barone e Sader (2008), quanto à
finalidade existem os créditos ao consumo (1a), nos quais se incluem os que se dirigem
à satisfação de necessidades duradouras, tais como: aquisição de habitação, automóvel,
eletrodomésticos, viagens ou outros e os créditos à produção. Por outro lado,
encontramos o crédito dirigido às empresas (1b), cujo objetivo visa colmatar
dificuldades de funcionamento e tesouraria ou proporcionar oportunidades de
investimento. Estes podem ser de curto prazo (2a) (prazos de pagamento são inferiores a
um ano), de médio prazo (2b) (prazos de pagamento entre um a cinco anos) e de longo
prazo (2c) (prazo de pagamento superior a cinco anos).
Todavia, o Banco de Portugal (2015) assegura que o crédito aos consumidores,
independentemente da finalidade ou da duração, inclui-se no regime jurídico do
empréstimo a particulares. Neste sentido, qualquer que seja a modalidade ou condições
oferecidas pelas instituições bancárias, define-se que no crédito aos consumidores se
incluem: o crédito pessoal (a título de exemplo referimos o financiamento de
equipamentos domésticos, educação, saúde e outros); o crédito automóvel, mais
direcionado para a aquisição de veículos por meio de locação financeira (leasing), com
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reserva de propriedade ou outro; o cartão de crédito, que atribui um plafond ou limite de
crédito atribuído; e, por último, a facilidade de descoberto, que favorece a
movimentação de contas à ordem para além do respetivo saldo, até um limite máximo
previamente atribuído.
Neste âmbito, vários autores constatam a existência de constrangimentos financeiros
que obstruem ou bloqueiam a participação no turismo (Crawford, Jackson, & Godbey,
1991). No entanto, os mesmos autores sublinham que os rendimentos dos indivíduos
podem ter, igualmente, um efeito positivo e até determinante na tomada de decisão
dessa participação.
De acordo com o estudo de Crouch et al. (2007) desenvolvido na Austrália, a maior
parte dos rendimentos discricionários dos indivíduos (45%) são utilizados para reduzir o
endividamento das famílias, em particular para saldar cartões de crédito e hipotecas.
Para além destes, os itens mais importantes identificados foram: os investimentos
financeiros, as obras na habitação, as viagens no estrangeiro, e as viagens domésticas,
contabilizando entre 9 a 13% das despesas discricionárias. Estes resultados evidenciam
que o turismo faz parte da estrutura de despesas dos sujeitos, competindo globalmente
para uma quota de despesas discricionárias das famílias (Crouch, et al., 2007).
Em Portugal, tendo como base o estudo de Lima (2015) é possível aferir que cerca de
22% das famílias portuguesas, ao nível nacional, dispõem de um rendimento anual, per
capita, igual ou abaixo da linha de pobreza, e que uma grande percentagem de famílias
não apresenta despesas em lazer e turismo (DLT). De acordo com o mesmo estudo, do
total de 9.489 agregados familiares analisados, 6,86% não refere qualquer despesa em
“lazer, distração e cultura”, 31,92% não alude a despesas do tipo “hotéis, restaurantes,
cafés e similares”, o que perfaz um total de 3,84% das famílias portuguesas que
mencionam a terem qualquer DLT em 2009.
Considerando os resultados deste estudo, verifica-se que a despesa total apurada das
famílias portuguesas rondou os 18.500€ em média, no ano de 2009, sendo que as
despesas em lazer, distração e cultura perfizeram 3,83% deste total; as despesas em
hotéis, restaurantes, cafés e similares chegaram aos 7,73% e as DLT somaram 11,55%
(ver Quadro 1).
A análise do Quadro 1, e somando as DLT às outras despesas que muitas vezes lhe
estão associadas, permite verificar que o peso do turismo na estrutura das despesas dos
indivíduos e famílias poderá ascender aos 23,11%. Deste modo, poder-seconstatar
que o turismo tem uma relevância significativa nos orçamentos familiares dos
indivíduos, o que aponta para a eventual necessidade destes acederem a crédito bancário
para fazer face a essas despesas.
Metodologia
Crompton (1979) declara que, tendo em conta os motivos que levam as pessoas a
viajar, é possível identificar diferentes tipologias de turismo, tal como de turistas. De
acordo com este autor, para a satisfação das suas necessidades, as pessoas procuram,
cada vez mais, novas experiências e novas vivências associadas. Por este motivo,
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constata-se que a participação no turismo é, progressivamente, um bem essencial
equiparado a qualquer outro bem de consumo. Logo, afigura-se essencial compreender
qual o conjunto de fatores de carácter demográfico, sociológico ou económico dos
indivíduos, que determina a escolha do crédito para a realização de viagens? Neste
contexto, desenvolveu-se um estudo exploratório de natureza qualitativa com o intuito
de responder a esta questão de investigação inicial.
A revisão bibliográfica realizada, revelou a existência de bastantes lacunas nesta área
do conhecimento, mas fortaleceu a ideia da sua importância e atualidade, tendo-se
enveredado, então, pela utilização de uma metodologia qualitativa, considerando a
natureza exploratória do estudo, ou seja, a procura de pistas de reflexão, ideias e
sugestões para futuros trabalhos de investigação (Quivy & VanCampenhoudt, 1998).
Deste modo, o que se procura é identificar padrões nos dados de forma a gerar
intuitivamente uma teoria, refletindo sobre as diferentes associações que emergem dos
resultados encontrados (Creswell, 2009; Flick, 2009; VanderStoep & Johnston, 2009;
Veal, 2006).
Neste domínio, a seleção de casos de forma intencional tem como propósito
identificar aqueles (participantes ou elementos) que revelem ser os detentores de uma
maior riqueza e pertinência de informação, visando obter uma diversidade de pontos de
vista que não só apoiem como também desafiem as questões em estudo e que, ao
mesmo tempo, coadjuvem os trabalhos de investigação (Yin, 2011). Assim, neste
trabalho, delimitaram-se os casos estudados a uma instituição bancária do distrito de
Coimbra, devido à facilidade de acesso e contacto com os seus clientes que foi facultada
aos investigadores, tendo em conta os critérios descritos no Quadro 2.
No que diz respeito ao número de casos, não existem regras definidas na
investigação qualitativa, pelo que tudo depende dos objetivos do estudo, bem como dos
recursos e tempo disponíveis (Patton, 2002). Neste caso, e de acordo com Ritchie e
Lewis (2003) se os dados forem devidamente analisados, chegar-sea um ponto em
que um maior número de casos não evoluirá para novas evidências.
Considerando o objetivo da presente investigação, a recolha de dados qualitativos
tem como intuito obter dados primários através da aplicação de inquéritos por entrevista
a turistas que já recorreram a crédito bancário, bem como a turistas que não recorreram
a crédito bancário para viajar ou participar no turismo. Então, sabendo que
relativamente a este meio de inquérito, as três técnicas mais referidas na literatura são a:
entrevista não estruturada/não diretiva; entrevista semiestruturada/semidiretiva; e,
entrevista estruturada/diretiva (Creswell, 2009; Jennings, 2001), optou-se pela entrevista
semiestruturada/semidiretiva. Segundo Yin (2011), no caso da entrevista
semiestruturada, a entrevista deverá apresentar-se sob o formato de conversação,
estabelecendo-se uma relação social entre entrevistador e entrevistado e, conforme
Creswell (2009), este método pode ser aplicado “cara-a-cara”, via telefone ou via
internet. Neste estudo, elegeu-se a aplicação via telefone e email de entrevistas
semiestruturadas pois, para além de ser o formato mais adequado aos recursos e tempo
disponíveis, possibilita explorar de forma mais aprofundada o fenómeno em estudo e
identificar padrões gerais ou caraterísticas dos indivíduos em estudo.
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Pelo exposto, e como a técnica de entrevista semiestruturada implica a delineação do
conjunto de perguntas a aplicar, foi elaborado um guião de entrevista. Este instrumento
foi desenvolvido com base na revisão literária efetuada, sendo que algumas das questões
foram reformuladas e otimizadas depois da realização de um pré-teste. Posteriormente,
todas as entrevistas foram submetidas a uma análise de conteúdo, envolvendo um
processo de codificação e categorização dos discursos originais dos entrevistados. Esta
análise consistiu na classificação dos conteúdos atribuindo-lhe um significado, ancorado
por um sistema de codificação, formulado com base na revisão bibliográfica realizada.
Construíram-se categorias de análise de acordo com a informação surgida nos discursos
dos participantes, com o principal intuito de inferir sobre o fenómeno em estudo (ver
Quadro 3).
Em síntese, Creswell (2009, p. 193), “o valor da investigação qualitativa assenta na
descrição particular e nos temas desenvolvidos no contexto de um local específico”.
Desta maneira, os resultados obtidos neste estudo dificilmente poderão ser alvo de
generalização, mas não deixam de constituir um contributo para o avanço científico
neste domínio (Yin, 2011).
Discussão de Resultados
Realizaram-se 40 entrevistas, considerando-se que o aumento da amostra não iria
proporcionar a obtenção de informação adicional revelante para a compreensão do
fenómeno em estudo, dando-se por finalizada a fase de recolha (VanderStoep &
Johnston, 2009). Deste modo, a amostra total corresponde a 40 participantes, todos com
residência no distrito de Coimbra e com idades compreendidas entre os 23 e os 68 anos,
perfazendo uma idade média de cerca de 41 anos, sendo de salientar o equilíbrio da
amostra em termos de género (21 mulheres e 19 homens). No que diz respeito à situação
profissional e educacional dos indivíduos, a maioria está empregada (N=37), apresenta
um nível superior de habilitações literárias (N=17) e aufere mensalmente entre 501€ a
1.000€ líquidos (N=21), destacando-se a média do rendimento discricionário mensal de
286,15€, tal como se pode observar através do Quadro 4., sendo que o termo
“rendimento discricionário” se refere à renda disponível para gastos, depois do
indivíduo ter suprido todas as suas despesas essenciais (como alimentação e habitação,
por exemplo) (Dolnicar, et al., 2008). De acordo com o mesmo Quadro 4, constata-se
ainda que grande parte dos inquiridos é casada (N=23) e que não tem filhos (N=22).
Todavia, quando a situação familiar inclui filhos, os respondentes apresentam em média
1 filho (ver Quadro 4).
Para além destes aspetos, é ainda importante referir que as viagens mais importantes
do ano são maioritariamente realizadas em época alta, ou seja, em Julho (N=17) e
Agosto (N=12) e que a sua estada média é de 9,28 noites.
Por fim, e tal como havia sido referido, a aplicação do inquérito por entrevista
semiestruturada ou semi-diretiva implicou a utilização de um guião de entrevista
organizado através de 11 questões que se analisaram de acordo com as categorias
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identificadas no Quadro 3 e cujos resultados se apresentam de seguida, devidamente
descriminados.
Hábitos de Poupança
Constatou-se que todos os entrevistados realizam viagens envolvendo a atividade
turística, ou seja, para fora do seu ambiente habitual e por períodos superiores a 24
horas, verificando-se que as viagens têm em média um peso de cerca de 8,89% no
orçamento familiar dos sujeitos, anualmente. Porém, e apesar da prática turística se ter
revelado um importante componente da estrutura das despesas dos indivíduos e
famílias, observou-se que a maioria dos entrevistados não tem quaisquer hábitos de
poupança (N=19), sendo que apenas 11 refere ter o hábito de poupar mensalmente, tal
como refletem os seguintes testemunhos: “Para fazer poupanças levanto dinheiro e
coloco num envelope.”; “Poupo, pondo de parte algumas sobras do mês e alguns extras,
como presentes de aniversário ou outras datas festivas quando oferecidos em
numerário.
Plafond de Viagens/ Turismo
De uma forma global, os indivíduos estabelecem um Plafond de Viagens ou Turismo
(N=24), (ou seja, valor estipulado previamente que o indivíduo está disposto a gastar
durante as viagens) cujo valor médio é de cerca de 1.060€, sendo que o mínimo se situa
nos 200€ podendo ascender aos 2.500€, considerando viagens ou atividades turísticas
para duas pessoas (em média). Exemplo disso é o seguinte depoimento: “Para as
próximas viagens poderei recorrer a crédito com um valor máximo de 500€, para mim e
para a minha esposa, e espero pagar esse valor em apenas dois ou três meses.”.
Financiamento de Viagens/ Turismo
As principais fontes de financiamento de viagens são o crédito (N=15) e as
poupanças (N=10). Neste sentido, destacam-se os seguintes relatos que ilustram como é
utilizado o crédito como fonte de financiamento de viagens: “O crédito é usado apenas
em caso de reservas ou pagamentos que exijam cartão de crédito. Esses gastos estão
calculados e incorporados no orçamento disponível para viagens e são feitos dessa
forma porque não existe alternativa.; “Apenas recorro ao cartão de crédito como meio
de pagamento visto ser mais cómodo”.
Relativamente à opção de financiamento de viagens através de poupanças, salientam-
se as declarações: “Não recorro ao crédito porque apenas gasto até ao limite que posso,
por isso utilizo as poupanças.”
Jamais recorreria a crédito para viagens. Recorre-se ao crédito quando
necessidade de aquisição de algum bem/ serviço imperioso. Nesta
circunstância, o valor do crédito é ponderado em função da capacidade
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de pagamento, por forma a que se dilua qualquer tipo de risco de
incumprimento.
Inibidores de Participação em Viagens/ Turismo
No que diz respeito a inibidores de participação turística, constata-se que a amostra
selecionada não apresenta praticamente condicionantes à realização de viagens. Apenas
4 sujeitos referem ter alguns constrangimentos financeiros e outros 3 mencionam
problemas familiares (designadamente doenças de familiares) como principais
inibidores de participação turística. No entanto, todos sublinham que apesar desses
obstáculos, tencionam fazer turismo nas próximas viagens.
Crédito para Viagens/ Turismo
Do total de entrevistados, a maioria não recorre ao crédito para fazer turismo (N=25),
mas aqueles que o fazem (N=15), recorrem principalmente à tipologia de cartão de
crédito, que apenas um destes respondentes referiu utilizar o crédito pessoal com o
intuito de fazer viagens. Considerando a tipologia de crédito mais utilizada tendo em
conta o turismo, não admira que os todos os indivíduos tenham indicado uma
periodicidade de utilização anual, sendo de ressalvar que alguns indivíduos justificam as
suas motivações com a efetivação de reservas (on-line, alojamento, rent-a-car, entre
outros).
Por seu turno, o valor máximo que os indivíduos que recorrem ao crédito se
predispõem a gastar a crédito é, em média, cerca de 980€, variando desde os 300€ até
aos 2.000€, o que se pode justificar através das seguintes afirmações, transcritas quando
os indivíduos foram questionados acerca do valor que estariam dispostos a gastar a
crédito para as suas viagens: “Mínimo possível para garantir as reservas.; “Valor que o
cartão pagar!”.
O tempo de pagamento do valor gasto a crédito é aproximadamente de 161 dias,
verificando-se que varia bastante de pessoa para pessoa. Enquanto alguns sujeitos
referem 30 dias como tempo de pagamento limite do seu crédito de viagens, outros
mencionam 365 dias, tal como se constata através das declarações: “Eu pago logo no
mês seguinte.”; “Normalmente, não peço a totalidade do valor e pago em prestações
suaves ao longo do ano.”
Por último, todos os participantes foram interrogados acerca do risco que associavam
ao crédito para o usufruto de viagens e atividades turísticas, aferindo-se que 14 desses
indivíduos consideraram que a utilização de crédito não implica qualquer risco, tal
como se pode verificar através das seguintes citações: “Não considero que haja risco.”;
“Não associo nenhum risco ao crédito, uma vez que a minha situação financeira é
estável.”; “Não considero que haja risco, porque recorreria a esse crédito com a
certeza de que teria liquidez para o pagar.”.
Neste contexto é ainda importante ressalvar que destes 14 sujeitos, 4 que não
recorrem a crédito para fazer turismo, mas sublinham: “Não associo nenhum risco ao
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crédito.”; “Penso que recorrer ao crédito não acarreta risco.”; “Recorrer ao crédito não
acarreta algum risco desde que cumpra com as minhas obrigações.”; “Não vejo qualquer
risco, no entanto, atualmente, não tenho necessidade de recorrer a crédito.”.
Por outro lado, 17 entrevistados associam risco à tomada de decisão de uso de crédito
e destes, apenas 4 recorrem ao crédito para participar no turismo. Neste âmbito,
averiguou-se a existência de três motivos principais associados ao risco de crédito: (i) o
sobre-endividamento da família, (ii) o desemprego, e (ii) a doença. Senão vejamos os
testemunhos para cada categoria de risco apurada:
(i) Sobreendividamento da Família
“Associo o risco de crédito ao endividamento do agregado familiar e ao aumento dos
encargos mensais.”
“O crédito acarreta mais encargos financeiros e, com isso, mais despesa.”
O crédito ilude as pessoas, na perspetiva de permitir gastos superiores ao
rendimento disponível, agravando ainda o balanço financeiro de longo prazo devido aos
juros cobrados.”
(ii) Desemprego
“Sim, posso ficar desempregado.”
“Sim, posso ficar sem trabalho.”
(iii) Doença
“A qualquer momento pode surgir um imprevisto, por exemplo uma doença.”
De uma maneira geral, vislumbram-se, desde logo, algumas diferenças entre os
indivíduos que recorrem ao crédito para a participação no turismo e aqueles que não o
fazem. Deste modo, foi possível sintetizar essas diferenças no Quadro 5.
Em síntese, conseguiu-se compreender que existem algumas diferenças entre os
turistas que recorrem ao crédito para a realização de viagens ou participação no turismo,
daqueles que não o fazem, constatando-se que os primeiros são, preferencialmente,
sujeitos casados, de meia idade (média de 49 anos) e do género masculino. Revelam não
possuir hábitos de poupança e o peso das viagens no seu orçamento familiar anual é
bastante significativo, ou seja cerca de 10%. Os seus rendimentos discricionários
mensais situam-se, aproximadamente, nos 200€ e, habitualmente, realizam viagens com
uma duração média de 7 noites. Por sua vez, os sujeitos que não recorrem ao crédito são
mais jovens (média de 36 anos) e do género feminino, defendendo possuir hábitos de
poupança esporádicos. O peso das viagens no seu orçamento familiar é ligeiramente
menos, cerca de 8%, mas, os seus rendimentos discricionários mensais são bastante
superiores, cerca de 344€ e, a duração média das suas viagens turísticas é de 11 noites.
Conclusões
Vive-se, hoje em dia, numa sociedade altamente consumista, a que alguns autores
apelidaram de sociedade do “hiperconsumo” (Gaulia, 2009; Lipovetsky, 2007; Cruz,
2011), alimentada pela democratização do acesso ao crédito bancário (Frade & Jesus,
2011; Marques & Frade, 2003; Oliveira & Jesus, 2013).
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Desta forma e através da revisão de literatura, constatou-se que o crédito bancário é,
de facto, um fenómeno impactante na sociedade atual, que se assume como uma
ferramenta aparentemente simplificadora das necessidades de consumo dos indivíduos,
permitindo-lhes alcançar o estilo de vida desejado. Conclui-se, portanto, que existe uma
facilidade de acesso ao crédito praticamente intrínseca às sociedades modernas que,
muitas vezes, dissimula os riscos que lhe estão associados, nomeadamente de
acomodação de gastos inesperados ou, simplesmente, de hipoteca dos consumos
futuros.
Por outro lado, averiguou-se que as viagens, especificamente, as associadas ao
turismo, têm um papel, cada vez mais relevante na vida dos sujeitos, apresentando-se
como uma necessidade premente associada a todos os estágios do seu ciclo de vida
(Dolnicar, et al., 2008; Frade & Jesus, 2011). Assim, atesta-se que o usufruto de viagens
com participação turística tem um peso significativo na estrutura das despesas ou dos
orçamentos familiares dos indivíduos (Lima, 2015), vislumbrando-se,
consequentemente, o seu relacionamento inequívoco com o crédito bancário.
Neste sentido, foi possível compreender que a participação turística tem,
efetivamente, grande potencial como motivação de crédito. No entanto, verificou-se
também que se conhece pouco acerca dos turistas que recorrem ao crédito para a
participação turística. Assim, estabeleceu-se o objetivo da presente investigação, sendo
necessário recorrer à realização de um estudo empírico de natureza qualitativa e de
caráter exploratório, apurando-se as diferenças entre os turistas que recorrem ao crédito
para fazer viagens, e aqueles que não o fazem. Deste modo, obtiveram-se resultados
acerca dos hábitos de poupança dos indivíduos, do seu plafond de viagens/ turismo, das
suas principais fontes de financiamento de viagens/ turismo, dos seus inibidores de
participação em viagens/ turismo e, finalmente, acerca das suas preferências e ideias
sobre o crédito para viagens/ turismo.
Relativamente aos hábitos de poupança, verifica-se que os entrevistados não têm
rotinas ou o costume de economizar, tal como referem Dolnicar et al. (2008) nos seus
estudos, revelando que os rendimentos discricionários são direcionados para o turismo
em prejuízo de investimentos financeiros ou poupanças. Já no que concerne ao peso que
as viagens têm no orçamento familiar, os inquiridos garantem que estas representam
aproximadamente 9% das suas despesas anuais, o que fica um pouco aquém dos
resultados obtidos na investigação desenvolvida por Lima (2015) que refere cerca de
12% de despesas anuais em lazer e turismo. Por seu turno, o plafond de viagens apurado
situa-se nos 1.060€, enquanto o estudo de Lima (2015) alude a gastos em lazer e
turismo na ordem dos 2.607€.
No que diz respeito às fontes de financiamento de viagens, destacam-se as poupanças
e o crédito bancário como principais fontes de financiamento. De acordo com o Banco
de Portugal (2015), dentro do crédito bancário a consumidores, existem várias
tipologias, tais como o crédito pessoal, o crédito automóvel, a facilidade a descoberto e
o cartão de crédito, sendo que esta última é a mais utilizada ao nível do turismo, tal
como se constatou neste trabalho, sobretudo com o intuito de realizar a efetivação de
reservas de serviços turísticos.
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Considerando os inibidores de participação no turismo, corrobora-se Crawford,
Jackson e Godbey (1991), constatando-se que estes, quando existem, são
maioritariamente de ordem financeira e familiar.
Por fim, a análise do crédito para viagens ou como fonte de financiamento da
participação turística permitiu aferir que a maioria das pessoas não recorrem ao crédito
para fazer turismo. Porém, aquelas que o fazem, utilizam preferencialmente o cartão de
crédito, principalmente devido à facilidade de acesso e, posteriormente, de pagamento.
Ao mesmo tempo, não pretendem gastar mais do que 980€ a crédito e tencionam efetuar
o seu pagamento em média nos 6 meses subsequentes à sua utilização. Neste contexto,
constatou-se também que a maioria dos sujeitos que recorrem ao crédito para participar
no turismo não associam qualquer risco a esta transação bancária. Todavia, é de
salientar que a maioria dos indivíduos entrevistados associa riscos ao crédito, tal como
foi discutido na revisão da literatura através de Frade e Jesus (2011), tendo-se
identificado três grandes categorias de riscos: o sobre-endividamento da família, o
desemprego e a doença.
Em conclusão, as pessoas que recorrem ao crédito para a realização de viagens
turísticas apresentam, de facto, caraterísticas distintas das restantes de acordo com
alguns dos determinantes de comportamento do consumidor turístico já identificados
por Alegre et al. (2013) e Kuo e Lu (2013), especificamente ao nível da duração média
de viagens, do rendimento discricionário mensal, do peso das viagens no orçamento
familiar, dos hábitos de poupança e ainda do plafond de viagens pré-estabelecido, não
esquecendo algumas caraterísticas sociodemográficas de destaque, tais como o género, a
idade e o estado civil.
Este estudo exploratório abre caminho para uma nova área de interesse no âmbito do
turismo, oferecendo, portanto, importantes linhas orientadoras para o aprofundamento
desta temática por meio de investigações futuras, reconhecendo-se, desde logo, algumas
limitações ao trabalho desenvolvido. Neste contexto, que salientar as dificuldades
inerentes à ausência de literatura e instrumentos específicos que cruzassem os âmbitos
científicos do crédito e do turismo e os problemas de acesso aos casos de estudo, já que
a maioria das pessoas se recusa ou não se sente confortável a partilhar ou discutir
assuntos relacionados com os seus rendimentos.
Concluindo, crê-se pertinente criar e validar instrumentos que permitam analisar de
forma mais detalhada, consistente e robusta as caraterísticas dos indivíduos que
recorrem ao crédito para fazer turismo, designadamente através de uma investigação de
índole quantitativa, mais alargada e de extensão nacional, o que permitirá, no futuro,
realizar estudos comparativos, interculturais com outros países. Por último, sugere-se
ainda que as investigações futuras se realizem numa perspetiva longitudinal,
permitindo, assim, avaliar a relação entre o ciclo de vida dos sujeitos, o acesso ao
crédito e a participação turística, tal como sugerido na literatura.
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Quadro 1
Despesas das famílias portuguesas em lazer e turismo
Agregados Familiares Portugueses
(N=9.489)
Média (€)
Despesa total
18.492,87
Despesa em lazer, distração e cultura
880,31
Despesa em hotéis, restaurantes, cafés
e similares
1.727,06
Despesa em Lazer e Turismo
2.607,37
Fonte: Adaptado de Lima (2015, p. 118)
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Quadro 2
Critérios utilizados para a seleção dos casos
INQUIRIDOS
CRITÉRIOS
Turistas
- Pessoas maiores de 18 anos, com residência no distrito de
Coimbra, que já recorreram ao crédito para fazer viagens;
- Pessoas maiores de 18 anos, com residência no distrito de
Coimbra, que não recorreram ao crédito para fazer viagens
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Quadro 3
Codificação aplicada na análise de conteúdo
Categoria de Análise
Subcategoria de Análise
Hábitos de Poupança
Nenhum | Mensal | Anual | Esporádico
Plafond de Viagens/ Turismo
Valor | Nº de Pessoas
Financiamento de Viagens/ Turismo
Poupanças | Crédito
Inibidores de Participação em Viagens/
Turismo
Financeiros | Familiares | Profissionais
Crédito para Viagens/ Turismo
Tipologia | Periodicidade | Motivo | Valor
Máximo | Tempo de Pagamento | Risco
Associado
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Quadro 4
Caraterísticas sociodemográficas dos casos estudados
VARIÁVEIS
MODA
Género
Feminino (N=21)
Situação Profissional
Empregado (N=37)
Habilitações Literárias
Ensino superior (N=17)
Rendimento Líquido Mensal
[501€ - 1000€] (N=21)
Situação Familiar/ Estado Civil
Casado (N=23)
Parentalidade
Sem filhos (N=22)
VARIÁVEIS
MÉDIA
Número de Filhos
[0 3] (Média=0,83)
Rendimento Discricionário Mensal
[37,5€ 1.000€]
(Média=286,15)
Grupo Etário
[23 68] (Média=40,98)
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Quadro 5
Principais diferenças entre os indivíduos que recorrem ao crédito para realizar viagens
e aqueles que não o fazem
Caraterísticas
Indivíduos que recorrem ao
crédito para a realização de
viagens
Indivíduos que não
recorrem ao crédito para a
realização de viagens
Duração Média de
Viagens (nº de noites)
7
11
Rendimento
Discricionário Mensal
(€)
202
344
Peso das Viagens no
Orçamento Familiar
Anual (%)
10
8
Hábitos de Poupança
Nenhum
Esporádico
Plafond de Viagens (€)
1.054
1.067
Género
Masculino
Feminino
Idade
49
36
Estado Civil
Casado
Solteiro / Casado
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Article
Full-text available
We use a modified version of the Lagos-Wright model to introduce an essential role for banks. Due to preference shocks, agents have excess demand for or supply of money balances. Banks arise to reallocate excess cash by taking deposits from sellers and making loans to buyers. We consider two variations of the model: one in which buyers borrow to finance consumption and another in which they borrow to finance investment. We show that for any positive nominal interest rate, the existence of banks leads to a higher level of steady state output and welfare. We also derive conditions under which borrowers voluntarily repay loans. Finally, we examine how monetary injections into the banking system affect the economy. The effects are very similar to limited particiption models and gives rise to a liquidity effect on nominal interest rates
Article
Retail loan markets create special challenges for credit risk assessment. Borrowers tend to be informationally opaque and borrow relatively infrequently. Retail loans are illiquid and do not trade in secondary markets. For these reasons, historical credit databases are usually not available for retail loans. Moreover, even when data are available, retail loan values are small in absolute terms and therefore application of sophisticated modeling is usually not cost effective on an individual loan-by-loan basis. These features of retail lending have led to the development of techniques that rely on portfolio aggregation in order to measure retail credit risk exposure. BIS proposals for the Basel New Capital Accord differentiate portfolios of mortgage loans from revolving credit loan portfolios from other retail loan portfolios in assessing the bank's minimum capital requirement. We survey the most recent BIS proposals for the credit risk measurement of retail credits in capital regulations. We also describe the recent trend away from relationship lending toward transactional lending, even in the small business loan arena traditionally characterized by small banks extending relationship loans to small businesses. These trends create the opportunity to adopt more analytical, data-based approaches to credit risk measurement. We survey proprietary credit scoring models (such as Fair, Isaac and SMEloan), as well as options-theoretic structural models (such as KMV and Moody's RiskCalc) and reduced form models (such as Credit Risk Plus).
Article
The substantial size of the senior worldwide population and its demands have drawn considerable attention, making it the 'silver economy' or 'senior' market. Baby boomers, those born in the years after the Second World War, or more typically between 1946 and 1964, are the specific focus of this research interest. This paper estimates the determinants of travel expenditures in baby boomer senior households in Taiwan. The traditional ordinary least squares (OLS) approach, combined with quantile regression analysis, is adopted to capture both the mean and quantile behaviours of travel expenditures in baby boomer households, using the 2008 Survey of Family Income and Expenditure (SFIE) in Taiwan. The OLS model is used to obtain the average (mean) expenditure behaviour, whereas quantile regression analysis captures the extreme behaviours of the two tails of travel expenditures in baby boomer households. The estimation outcomes have important policy implications for travel marketers and operators in the tourism industry who seek to understand baby boomer senior consumers.
Article
This paper examines household tourism participation decisions and tourism expenditure across the business cycle. Microdata is used from the Spanish Household Budget Survey for the years 2006-2010, facilitating an analysis of the consequences of the economic crisis and unemployment on tourism consumption decisions by households. By estimating a Heckman model, the effects of households' socioeconomic determinants on participation and expenditure decisions can be identified. Taking the year 2008 (the beginning of the crisis) as a reference, the stability of the tourism expenditure model is tested, identifying variables whose effects alter in times of crisis. One important aspect of the study is how household unemployment affects tourism participation and expenditure decisions. The effect of unemployment takes into account whether it is the main breadwinner, his or her spouse, or another member of the household who is unemployed. Concentrating on those households whose main breadwinner was employed at the time, an analysis is also made of how job insecurity affects tourism consumption decisions. From the results, the unemployment variables can be seen to have a significant explanatory power, suggesting that unemployment information does help to explain the evolution of tourism expenditure across the business cycle. (c) 2013 Elsevier Ltd. All rights reserved.