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USO DE CADERNOS ELETRÔNICOS DE LABORATÓRIO PARA AS PRÁTICAS DE CIÊNCIA ABERTA E PRESERVAÇÃO DE DADOS DE PESQUISA

Authors:

Abstract and Figures

The current scientific research generates different kinds of data, and the digital environment is the place where most part of it is produced. The scientific data becomes more complex and multidisciplinary and new management processes has to be put in practice. This article analyses the pros and cons of the electronic laboratory notebooks, as an alternative to the paper laboratory notebooks, to the best research data management and their posterior share, taking in account the open science movement and the role of the librarians as intermediate between data preservation and access, taking them as the responsible professionals to the information curatorship produced and registered for researches in their research practices.
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USO DE CADERNOS ELETRÔNICOS DE LABORATÓRIO PARA AS PRÁTICAS
DE CIÊNCIA ABERTA E PRESERVAÇÃO DE DADOS DE PESQUISA
Resumo: As pesquisas científicas atuais geram
dados das mais diferentes naturezas, e a maior
parte deles é produzido em ambientes digitais. Por
isso, os dados científicos se mostram cada vez
mais complexos e multidisciplinares, e novas
formas de gestão precisam ser colocadas em
prática. Este artigo analisa as vantagens e
desvantagens dos cadernos eletrônicos de
laboratório, como uma alternativa aos cadernos de
laboratório em papel, para o melhor gerenciamento
de dados de pesquisa e seu posterior
compartilhamento, levando em consideração o
movimento da ciência aberta e o papel dos
profissionais bibliotecários como mediadores de
preservação e acesso a esses dados, indicando-os
como profissionais importantes para a curadoria
das informações produzidas e registradas por
pesquisadores em suas práticas de pesquisa.
Palavras-chave: Cadernos eletrônicos de
laboratório. Dados de pesquisa. Ciência aberta.
Preservação de dados. Acesso de dados.
ELECTRONIC LABORATORY NOTEBOOK USAGE FOR OPEN SCIENCE
AND RESEARCH DATA PRESERVATION PRACTICES
Abstract: The current scientific research generates different kinds of data, and the digital environment
is the place where most part of it is produced. The scientific data becomes more complex and
multidisciplinary and new management processes has to be put in practice. This article analyses the
pros and cons of the electronic laboratory notebooks, as an alternative to the paper laboratory
notebooks, to the best research data management and their posterior share, taking in account the open
science movement and the role of the librarians as intermediate between data preservation and access,
taking them as the responsible professionals to the information curatorship produced and registered for
researches in their research practices.
Keywords: Electronic laboratory notebook. Research data. Open science. Data preservation. Data access.
Lucas de Lima Rocha
Mestre em Ciência da Informação e
Bacharel em Biblioteconomia pela UFF.
lucasdlrocha@gmail.com
Luana Farias Sales
Doutora em Ciência da Informação pelo IBICT/UFRJ e
MestrE em Ciência da Informação (UFF).
luanafsales@gmail.com
Luís Fernando Sayão
Doutor e Mestre Ciência da Informação
pela (UFRJ/IBICT)
lsayao@cnen.gov.br
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1 INTRODUÇÃO
O registro de dados é uma das rotinas elementares para a pesquisa científica em
laboratórios. Seja por parte de pesquisadores doutores, alunos de graduação e de pós-
graduação ou de técnicos de laboratório, a prática de anotações e registros das etapas é
essencial para que o andamento das pesquisas aconteça de maneira fluida e eficaz.
No entanto, os cadernos nos quais esses registros são anotados muitas vezes ficam
limitados às paredes dos laboratórios, acentuando uma cultura de segredo que, cada vez mais,
precisa ser discutida e superada. Os dados que sustentam uma pesquisa, diferente de uma tese
de doutorado, por exemplo que tem seu conteúdo publicizado e discutido pela comunidade
acadêmica geralmente ficam adormecidos, armazenados em computadores ou mídias
pessoais que, com o passar do tempo, sofrerão pela “obsolescência tecnológica, pela
fragilidade das mídias e, sobretudo, pela fata de intencionalidade de preservá-los
adequadamente de forma que sirvam de ponto de partida para novas pesquisas” (SAYÃO;
SALES, 2012, p. 180).
As anotações das pesquisas são feitas em ferramentas conhecidas na ciência como
cadernos de laboratório. Eles são ferramentas fundamentais aos pesquisadores, uma vez que
constituem a espinha dorsal da guarda de registros, gestão de dados, análises iniciais e
interpretação de resultados em pesquisas.
O caderno de laboratório é uma ferramenta de organização e de memória que serve
de registro primário da pesquisa científica e das atividades relacionadas. O caderno de
pesquisa registra as hipóteses, experimentos e análises iniciais ou interpretações dos
experimentos; serve também como o registro legal da propriedade intelectual das ideias e dos
resultados obtidos pela pesquisa (SCHNELL, 2015).
Existem códigos internacionais, nacionais e institucionais que detalham as
especificações e guarda destes cadernos que, na grande maioria das vezes, são anotados em
suportes físicos , de forma a se obter maior integridade e boas práticas laboratoriais nas
pesquisas. Esses códigos geralmente estipulam um número sequenciado de páginas pautadas,
uso de tinta permanente e estocagem por no mínimo dez anos; também estipulam que as
entradas sejam assinadas e datadas por uma testemunha (DIRNAGL; PREZESDZING, 2016).
No momento atual em que os avanços tecnológicos estão cada vez mais evidentes na
sociedade, fenômenos que dizem respeito à informação se acentuam: a velocidade com que as
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informações são compartilhadas é cada vez maior e a quantidade de dados a serem analisados
nas pesquisas científicas cresce exponencialmente. Nesse cenário de dados cada vez mais
complexos, as práticas de anotações em cadernos de laboratório em suporte físico se tornam
cada vez mais obsoletas.
Durante séculos, os cientistas usaram cadernos de papel. No entanto, a revolução
digital mudou todos os aspectos do tratamento de dados: a sua aquisição tornou-se
automatizada, os dados primários existem em uma enorme variedade de formatos e
requerem um vasto espaço de memória e a análise usa softwares cada vez mais
sofisticados.
1
(NUSSBECK et al., 2014, p. 631).
Dados e informações digitais gerados pelas atividades de pesquisa necessitam de
cuidados específicos, tornando-se necessário a criação de novos modelos de custódia
e de gestão de conteúdos científicos digitais que incluam ações de arquivamento
seguro, preservação, formas de acrescentar valor a esses conteúdos e de otimização a
sua capacidade de reuso. (SAYÃO; SALES, 2012, p. 180).
Nesse contexto, onde não os resultados finais de pesquisa, mas também os dados
gerados ao longo da investigação precisam ser melhor gerenciados e preservados, os cadernos
eletrônicos de laboratório surgem como uma alternativa para tornar essa gestão mais eficaz e
veloz, levando em conta a quantidade de dados crescente e complexa que as novas pesquisas
atualmente produzem.
Nesse artigo, apresenta-se uma discussão sobre a utilização de cadernos eletrônicos
de laboratório no que diz respeito às práticas de ciência aberta e de preservação de dados
institucionais, além da importância dos profissionais da informação para atuar em parceria
com pesquisadores para informá-los sobre as potencialidades da migração analógica para a
eletrônica e para preservar esses dados de pesquisa de forma segura, levando sempre em conta
as mudanças tecnológicas que ocorrem com o avançar do tempo.
Após a introdução, apresentam-se as definições, vantagens e desvantagens na
utilização de cadernos eletrônicos de laboratório; depois, discute-se o conceito de ciência
aberta e em que medida os cadernos eletrônicos de laboratório podem auxiliar ao tornar esse
conceito uma prática concreta; também discute-se o papel dos profissionais da informação
como agentes mediadores entre as tecnologias da informação e comunicação e os
pesquisadores que registram seus dados, demonstrando de que maneira devem não
apresentar as potencialidades dessas tecnologias como também preservá-las para reutilização
por futuros pesquisadores; por fim, conclui-se que os cadernos eletrônicos de laboratório são
1
Texto original: “For centuries, scientists have been using paper notebooks. However, the digital revolution has
changed every aspect of data handling: Acquisition has become automated, primary data exist in a huge
variety of formats and require vast memory space, and analysis increasingly uses sophisticated software.”
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ferramentas potencialmente interessantes para tornar a ciência mais colaborativa e para
facilitar a preservação dos dados de pesquisa gerados nas instituições acadêmicas.
2 CADERNOS ELETRÔNICOS DE LABORATÓRIO
De acordo com a Collaborative Electronic Notebook Systems Association (Censa), os
cadernos eletrônicos de laboratório são definidos como “um sistema para criar, guardar,
recuperar e compartilhar registros puramente eletrônicos em conformidade com todos os
requisitos legais, regulatórios, técnicos e científicos” (RUBACHA; RATAN; HOSSELET,
2011, p. 91, tradução nossa). Eles surgiram com a evolução das tecnologias da informação e
comunicação, mas sua implantação, a princípio, não foi vista com entusiasmo por parte da
comunidade acadêmica. Os cadernos eletrônicos de laboratório eram mal vistos nos anos 1980,
uma vez que as discussões sobre proveniência e validade informacional levavam a crer que
esse novo tipo de registro era mais passível de fraudes do que os cadernos de laboratório em
suporte físico. Apenas nos anos 2000 o governo norte-americano e de países europeus, como
a Inglaterra, assinaram novas leis que garantiam a mesma validade informacional delegada
aos cadernos em suporte físico para os cadernos eletrônicos de laboratório (RUBACHA;
RATAN; HOSSELET, 2011).
A resistência para mudar uma prática que vêm sendo executada pelo menos desde o
período Renascentista vem, pouco a pouco, diminuindo. A complexidade das informações
atuais como protocolos repetitivos, imagens digitais, links para grandes bases de dados, etc.
–, além da “crise de reprodutibilidade” (DIRNAGL; PREZESDZING, 2016, p. 3, tradução
nossa) e o número cada vez maior de casos de má conduta em pesquisas divulgadas em
revistas científicas de grande relevância vêm colocando a rotina de anotações de registros em
evidência (DIRNAGL; PREZESDZING, 2016).
Mas por que mudar de suporte, tendo em vista que, no contexto das universidades e
das pesquisas acadêmicas, a tradição continua sendo a de registrar os dados em suporte físico?
Existem vantagens e desvantagens ao se migrar de um suporte para o outro. Entre as
desvantagens, as mais imediatamente aparentes são: custo de tempo, custo financeiro e
segurança (NUSSBECK et al., 2014). Qualquer laboratório interessado em migrar para a
mídia digital deve ter em mente que serão necessários investimentos substanciais, que não
incluem apenas a aquisição de softwares, mas passam por servidores dedicados
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exclusivamente a esse fim, sistemas de backup e profissionais de tecnologia da informação.
Os cadernos eletrônicos de laboratório ainda podem introduzir novos erros e riscos à
segurança que antes não existiam no papel.
Mas as vantagens são substanciais nesta transição: a longo prazo, o uso dos mesmos
padrões para processos similares possibilitam a economia de tempo; as funções de busca
podem acelerar o processo de relatórios, manuscritos e apresentações; e, pela perspectiva do
profissional que preserva essa informação, um caderno eletrônico de laboratório oferece
grande potencial para padronizar coleções de dados e facilitar o seu gerenciamento.
Rubacha, Rattan e Hosselet (2011) também listam vantagens e desvantagens para a
transição de cadernos de laboratório para cadernos eletrônicos de laboratório. Como
vantagens, pode-se citar a habilidade de escolha do consumidor entre diferentes tipos de
produtos; a queda gradual de preços, através da competição entre concorrentes; e a qualidade
do produto, que é crescentemente melhorada para estar à frente da competição. Como
desvantagens, pode-se citar a exaustão até encontrar o melhor caderno eletrônico de
laboratório para determinada ocasião; e o fato de que os cadernos eletrônicos de laboratório,
quando criados por startups emergentes, possuem falta de estabilidade e podem sair do ar ou
ser comprados por outras empresas.
Dirnagl e Prezesdzinng (2016) indicam que as vantagens dos cadernos eletrônicos se
sobrepõem às desvantagens. Eles consideram que a maior parte dos dados obtidos em
pesquisas, atualmente, já está em formato digital, e podem ser facilmente integradas aos
cadernos eletrônicos de laboratório, ou mesmo referenciados através de links. Cadernos
eletrônicos de laboratório também possibilitam colaboração, uma vez que os protocolos,
dados e conceitos podem ser compartilhados por diferentes grupos de pesquisa; a entrada dos
dados pode ter sua data e horário automaticamente registrados, as alterações são
documentadas e as versões podem ser controladas; o progresso dos projetos pode ser
facilmente monitorado por grupos ou por líderes das pesquisas. Além disso, podem-se
pesquisar os conteúdos desses cadernos, seu arquivamento é simples e a possibilidade de fazer
cópias para a instituição e para o pesquisador é mais fácil.
Ao escolher um caderno eletrônico de laboratório deve se levar em consideração o tipo
de pesquisa que está sendo feita, os recursos disponíveis para a aquisição de um novo software e
qual deles melhor se adequa às necessidades dos pesquisadores. A seguir, as características
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principais de três diferentes categorias de cadernos eletrônicos de laboratório, desde os mais
simples até os mais complexos, são sintetizadas (DIRNAGL; PREZESDZING, 2016).
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Figura 1 Característica de três diferentes tipos de cadernos eletrônicos de laboratório.
Fonte: autores baseado em Dirnagl e Przesdzing (2016)
Nos sistemas simples, a facilidade de uso, o baixo custo e a similaridade com o
processo manual de registro de dados são atrativos; no entanto, a maior problemática sobre
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esses sistemas está na falta de qualquer tipo de auditoria ou certificação. Já os cadernos
eletrônicos de laboratório dedicados e comerciais estão em conformidade com códigos de
regulação norte-americanos como o CRF Title 21
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, e possibilitam o gerenciamento de direitos
intelectuais de forma mais rigorosa por parte dos institutos e grupos de pesquisa, além de
poderem integrar os dados originais. Os sistemas complexos não só incluem todos os atributos
de um caderno eletrônico de laboratório dedicado e comercial, mas também possibilitam o
gerenciamento de sistemas de informação dos laboratórios, facilitando as pesquisas pela
possibilidade de se ligar diretamente aos equipamentos laboratoriais (como microscópios,
sequenciadores etc.) (DIRNAGL; PREZESDZING, 2016).
É necessário ter em mente que existem diversos softwares disponíveis no mercado
para as mais diferentes necessidades de pesquisa, e vão desde os mais básicos e gratuitos até
os mais específicos e pagos. Em 2006 foram documentados vinte e oito diferentes produtores
de cadernos eletrônicos de laboratório, e a tendência de crescimento anual é de vinte por
cento. Os autores efetuaram uma comparação entre trinta e cinco diferentes softwares de
cadernos eletrônicos de laboratório, separando-os de acordo com seu público-alvo em:
Pesquisa e Desenvolvimento, Biologia, Química, Controle de Qualidade e Multidisciplinares.
Após a análise de todos os softwares, os autores chegaram à conclusão de que a tendência dos
desenvolvedores é a de produzir programas de apelo multidisciplinar, já que essas aplicações
podem ser comercializadas para diferentes tipos de público-alvo e não necessitam de soluções
específicas para um domínio particular, quando algum problema acontece (RUBACHA;
RATTAN; HOSSELET, 2011).
Não é só nas facilidades voltadas para o momento da pesquisa que os cadernos
eletrônicos de laboratório de destacam. No momento posterior o de preservação dos dados
de pesquisa , suas potencialidades são ainda mais interessantes, seja para futuros
pesquisadores ou para os profissionais da informação responsáveis por preservar e
disponibilizar essas informações de maneira eficaz àqueles que necessitam delas.
3 A CIÊNCIA ABERTA E OS CADERNOS DE LABORATÓRIO
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“CFR Title 21 part 11 sets rigorous specifications for electronic record keeping, including electronic
signatures and version control.” (DIRNAGL; PREZESDZING, 2016, p. 4).
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“A qualidade das pesquisas científicas produzidas nas universidades está diretamente
relacionada à possibilidade de acesso e intercâmbio de informações” (VILLALOBOS;
GOMES, 2015), e no contexto atual, onde as informações de caráter digital são centrais em
pesquisas acadêmicas, onde os dados são cada vez mais numerosos e complexos e as
fronteiras entre os diferentes domínios de conhecimento se tornam cada vez menos sólidas, a
cultura de segredo das pesquisas, sobretudo em pesquisas nas quais a maior parte dos
investimentos provém de financiamentos públicos, precisa dar lugar à colaboração e à
reutilização de informações não só de pesquisas concluídas, mas também daquelas que ainda
se encontram em andamento.
A Ciência Aberta surge na segunda parte do século XX através de iniciativas como a
Open Archives Initiative (OAI) e o movimento Open Acess (OA), como alternativas aos altos
preços de assinaturas de periódicos. Também é durante esse movimento de ciência aberta que
surgem os sistemas de gerenciamento de informação científica de acesso aberto, dentre os
quais pode-se citar: E-prints, DSpace, Fedora e Open Journal System (VILLALOBOS;
GOMES, 2015).
Um dos conceitos mais interessantes sobre os cadernos eletrônicos de laboratório
dentro da lógica da ciência aberta vêm através do químico Jean-Claude Bradley com aquilo
que chama de Open Notebook Science (ONS) (HOURCADE, 2015). Diferentes de outras
abordagens de acesso aberto, nas quais os dados eram tradicionalmente liberados após a
conclusão das pesquisas, na abordagem de Bradley a disponibilização se daria em tempo real,
à medida que a pesquisa vai sendo feita. Esse acabou se tornando o lema da ciência aberta,
que é definida como “a ideia de que o conhecimento científico, de todos os tipos, deve ser
compartilhado abertamente tão cedo quanto praticável no processo de descoberta” (NIELSEN,
2011 apud HOURCADE, 2015, p. 52).
Em entrevista (POYNDER, 2010), Bradley afirma que a cultura de segredo impedia
que suas pesquisas tivessem o impacto que ele gostaria, uma vez que seu campo de atuação,
tradicionalmente, participava de processos de patentes em nanotecnologia e terapia de genes.
No entanto, ao tornar os dados brutos de suas pesquisas disponíveis de forma gratuita apenas
horas depois de gerá-las, Bradley percebeu que a colaboração entre pesquisadores era muito
maior e gerava resultados de forma mais veloz.
De acordo com Clinio (2016, p. 95), o caderno aberto proposto por Bradley significa
uma inovação no campo científico, “cujas origens se localizam na confluência das novas
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formas de colaboração em ambientes digitais e das influências da cultura livre.A utilização
dos ONS é uma das vertentes do movimento da Ciência Aberta, que “compartilha a premissa
de que os modos atuais de produção e comunicação da atividade científica criam importantes
obstáculos legais e econômicos para o acesso à informação e ao conhecimento. (CLINIO,
2016, p. 95).
O acesso livre às informações não publicadas através de teses e dissertações, mas
também de dados utilizados ao longo das pesquisas, vêm se consolidando cada vez mais nas
comunidades científicas como uma prática bem vista. É inegável que a possibilidade de
analisar dados já estruturados evita processos de retrabalho e faz com que os avanços
aconteçam de forma mais rápida.
No entanto, durante esse processo, esbarra-se em um problema: a grande quantidade de
dados gerados atualmente, que “vem sendo desencadeado principalmente pelo avanço de
instrumentos, sensores e escalas, que aumentaram exponencialmente a capacidade de obtenção
dos dados pela realização de observações e medições de fenômenos, somados às informações
geradas artificialmente por simulações e por softwares (SAYÃO; SALES, 2012, p. 181).
Nesse oceano informacional, onde tudo o que existe pode ou não ser interessante às
pesquisas futuras, onde a quantidade e a qualidade desses dados precisam estar em equilíbrio
e, acima de tudo, acessíveis de forma não discriminatória e eficaz, faz-se necessário o
gerenciamento desses dados, provenientes de diferentes fontes. Nesse sentido, é necessária a
atuação do profissional da informação como agente mediador para a promoção e preservação
dos dados de pesquisa digitais, como pode ser visto a seguir.
4 O BIBLIOTECÁRIO DE DADOS ENQUANTO MEDIADOR DA PRESERVAÇÃO
E DO LIVRE ACESSO AOS DADOS DE PESQUISA
A preservação dos dados de pesquisa científica é um tema de extrema importância
para o atual estágio das ciências, onde questões como acesso livre, qualidade, primariedade e
confiabilidade dos dados gerados se colocam em pauta nas discussões sobre a utilização e
reutilização dessas informações para outras pesquisas acadêmicas. As potencialidades de uma
mídia nativamente eletrônica, como a dos cadernos eletrônicos de laboratório, facilitam
questões de reprodutibilidade ao mesmo tempo em que colocam em xeque assuntos mais
delicados, como segurança da informação. Para que essa preservação possa ser efetiva e se dê
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de maneira consistente, a atuação de Bibliotecários de Dados, treinados para lidar com todas
as particularidades da gestão de dados de pesquisa, se torna necessária.
A gestão de dados possui diversas faces; no plano econômico, por exemplo, a
reutilização de dados de difícil reprodução se mostra como um mecanismo interessante para
tornar as pesquisas menos caras; no plano acadêmico, a possibilidade de divulgação dos dados
brutos em conjunto com as pesquisas publicadas faz com que os pares possam verificar a
consistência do estudo apresentado, sugerindo possíveis modificações ou apontando possíveis
falhas quando cabível (SAYÃO, SALES, 2012); a definição de Jean-Claude Bradley para
ONS demonstrou ser possível que tais sugestões fossem feitas no momento em que as
pesquisas estejam em andamento, aumentando ainda mais as potencialidades de colaboração e
diminuindo as possibilidades de erro no produto final das pesquisas.
No que tange aos laboratórios de pesquisa, existe cada vez mais uma demanda de
profissionais da informação que atuem junto aos pesquisadores nas bancadas de experimentos
(FEDERER, 2013). Nesta direção, defende-se a atuação do Bibliotecário de Dados, aqui
entendido como o profissional que trabalha junto com um grupo de pesquisa na gestão e
preservação dos dados, análises bibliométricas e buscas refinadas, como um profissional que
acompanhe o processo experimental, coletando os dados, tratando-os e os preservando dentro
do ambiente científico, onde os pesquisadores são preparados para lidar com o experimento,
mas nem sempre para cuidar dos dados gerados por suas pesquisas. Essa necessidade é
ressaltada, principalmente quando os próprios pesquisadores precisam recuperar seus dados
para continuar ou começar novas pesquisas, ou quando precisam reutilizar dados
produzidos, poupando o trabalho ou o valor financeiro de gerá-los novamente.
Ao trabalhar diretamente com o pesquisador, o Bibliotecário de Dados se coloca
também diante da necessidade de ter os dados coletados e preservados ao longo do tempo,
uma vez que grande parte deles, infelizmente, ainda são perdidos no momento em que as
pesquisas tomam a forma de uma tese ou uma dissertação acadêmica. Estratégias precisam ser
colocadas em prática por esses profissionais para que as informações que fazem parte das
pesquisas perdurem ao longo do tempo e possam ser recuperadas.
“Uma eficiente gestão de dados reduz a quantidade de trabalho necessária para a
interpretação e compilação de informações obtidas no final de um projeto”, e o bibliotecário
tem o papel de auxiliar o pesquisador a entender de que maneira os dados gerados podem ser
melhor organizados para serem posteriormente acessados e preservados (CORRÊA, 2016, p.
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388). Divide-se o processo de ações que o bibliotecário pode oferecer à comunidade
acadêmica nas etapas de: obtenção de dados, processamento de dados e preservação de dados.
Através de um planejamento de gestão de dados, entrevistas com os pesquisadores e a
utilização de repositórios confiáveis, o autor afirma ser possível melhorar a colaboração.
Na etapa de obtenção de dados, os pesquisadores devem encontrar uma maneira
eficiente de armazenar os dados coletados e uma estratégia de metadados que seja
compreensível por todos os participantes da pesquisa. Após a obtenção dos dados, eles passam a
ser processados através de práticas como transcrição, digitalização, validação, limpeza e
armazenamento; nesse momento, o bibliotecário pode sugerir soluções ou ferramentas que
possam auxiliar os pesquisadores na geração dos metadados (CORRÊA, 2016).
Depois da obtenção e processamento, os dados passam pela etapa de preservação.
Nesse momento, os bibliotecários também podem sugerir aos pesquisadores ferramentas de
preservação, informando sobre formatos de preservação, ou oferecer oficinas para
treinamento sobre gerenciamento de dados.
Os repositórios funcionam como mecanismos importantes para a preservação das
informações institucionais. Mesmo que um repositório de dados funcione através de processos
de indexação que agregam valor ao conteúdo disponível, é importante escolher o repositório
adequado, além de educar os pesquisadores sobre questões referentes à privacidade da
informação (CORRÊA, 2016).
O conceito de curadoria digital define de que maneira os dados de pesquisa podem ser
melhor gerenciados com vistas à preservação. Citam o Digital Curation Center (DCC) e o seu
Modelo de Ciclo de Vida da Curadoria, incluindo ações que se dividem em: ações para todo o
ciclo de vida, ações sequenciais e ações ocasionais. Entre as ações para todo o ciclo de vida,
estão: descrição e representação da informação; planejamento da preservação; participação e
monitoramento; e curadoria e preservação. Entre as ações sequenciais, estão:
conceitualização; criação e/ou recebimento; avaliação e seleção; arquivamento; ações de
preservação; armazenamento; acesso, uso e reuso; e transformação. E entre as ações
ocasionais, estão: eliminação; reavaliação; e migração. Essas ações são importantes para
manter uma gestão eficiente das informações de caráter eletrônico, aumentando a
confiabilidade dessas informações para os pesquisadores (SAYÃO; SALES, 2012).
No entanto, o grande aspecto negativo que ainda estigmatiza as informações de caráter
eletrônico está na segurança da informação, seja no sentido de garantir a autenticidade da
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mesma, seja no sentido de acreditar que aqueles conjuntos de dados eletrônicos possam
perdurar ao longo do tempo, tendo em vista a crescente velocidade com que as tecnologias da
informação e comunicação evoluem. Nesse aspecto é que a curadoria digital mostra-se como
uma ferramenta importante.
A curadoria digital, em resumo, assegura a sustentabilidade dos dados para o futuro,
não deixando, entretanto, de conferir valor imediato a eles para os seus criadores e
para os seus usuários. Os recursos estratégicos, metodológicos e as tecnologias
envolvidas nas práticas da curadoria digital facilitam o acesso persistente a dados
digitais confiáveis por meio da melhoria da qualidade desses dados, do seu contexto
de pesquisa e da checagem de autenticidade. Dessa forma, a curadoria contribui para
assegurar a esses dados validade como registros arquivísticos, significando que eles
podem ser usados no futuro como evidência legal. O uso de padrões comuns entre
diferentes conjuntos de dados, proporcionado pela curadoria digital, cria mais
oportunidades de buscas transversais e de colaboração. Na ótica financeira, o
compartilhamento, o reuso dos dados e as oportunidades de novas análises, além de
outros benefícios, valorizam e protegem o investimento inicial na obtenção dos
dados. (SAYÃO; SALES, 2012, p. 185).
Conhecer sistemas que apoiem as atividades científicas, técnicas de curadoria, bem
como treinar os pesquisadores para usufruir de todo potencial dos seus dados também é um
papel que deveria ser desempenhado pelos Bibliotecários de Dados, que precisam ter o
conhecimento necessário para oferecer produtos que tornem a gestão dos dados da pesquisa
científica mais racionais, com possibilidades de guarda, certificação de primariedade e
autenticidade e reutilização.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Existem diversas formas de gerar dados de pesquisa e outras tantas maneiras de
preservá-los. Ao longo do artigo, apresentamos os cadernos eletrônicos de laboratório como
uma alternativa que facilita a obtenção e interligação dos dados de pesquisa por parte dos
pesquisadores. Além desses aspectos, outra vantagem para esse tipo de dados gerados
nativamente em formato eletrônico é o da facilidade que os profissionais da informação
possuem para preservá-los em repositórios institucionais, para que o acesso por outros
pesquisadores se torne mais fácil e a informação produzida ao longo da pesquisa possa ser
reutilizada em outras pesquisas, evitando o retrabalho e os custos envolvidos na captação
desses dados.
Essa facilidade, no entanto, não vem sem desafios: no Brasil, ainda é muito difícil
conservar dados de pesquisa, seja pela falta de experiência dos profissionais da informação
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com repositórios institucionais, seja por falta de interesse das instituições em entender o
potencial desse tipo de espaço de armazenamento como um local seguro para a guarda de
dados gerados. As barreiras culturais, institucionais, econômicas e políticas para a curadoria
de dados digitais é, hoje, um dos maiores obstáculos que profissionais da informação,
pesquisadores e instituições de ensino e pesquisa precisam ultrapassar.
Outro problema na implantação de cadernos eletrônicos de laboratório reside na
resistência por parte da comunidade acadêmica para migrar de uma prática que perpassa a
ciência por séculos para outra que ainda esbarra em problemas como instabilidade de
hardwares e softwares, atualizações constantes e modelos econômicos baseados em
concorrência de mercado. Cabem aos pesquisadores, em parceria com os Bibliotecários de
Dados, fazer boas escolhas que sejam adequadas à realidade de suas rotinas em laboratórios
de pesquisa e à possibilidade de uma preservação de informações eletrônicas de forma
adequada, através de análise do mercado de softwares de cadernos eletrônicos de laboratório.
No entanto, mesmo com as potenciais desvantagens que essa nova maneira de gerar
dados pode trazer, as vantagens são notáveis: as possibilidades de compartilhamento de
pesquisas em tempo real, de discussões sobre o andamento dos projetos e a facilidade de
reutilização desses dados geram impactos significativos nos orçamentos dessas pesquisas,
bem como no tempo em que levam para serem concluídas e na possibilidade de alguém, em
outro lugar do mundo, ser capaz de analisar aquele conjunto de dados e comunicar algum tipo
de erro que tenha passado despercebido por um pesquisador. Além disso, a facilidade de
armazenamento, duplicação e preservação desses dados em repositórios institucionais faz com
que seja possível praticar a ciência aberta de maneira mais eficiente, tornando o processo de
armazenagem mais eficaz e menos dispendioso para os profissionais da informação.
REFERÊNCIAS
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experimento e o experimento da política. 2016. 240 f. Tese (Doutorado em Ciência da Informação)
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Article
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Introdução: Composta por vários movimentos, a Ciência Aberta vem ganhando expressividade considerável na busca pela ampliação da confiança nos resultados de pesquisa, buscando a transparência em todos os elementos que compõem um processo de investigação científica. Objetivo: Nesse cenário, objetivou-se com este artigo analisar a importância atribuída por atores envolvidos com a Ciência Aberta, seus movimentos e iniciativas. Metodologia: Um questionário foi enviado a personalidades envolvidas com o processo científico por meio de dois grupos de aplicativos de troca de mensagens e comunicação em áudio e vídeo pela internet e uma lista de discussão de atores interessados na temática, composta por bibliotecários, pesquisadores, professores e editores. Estruturado por uma questão aberta e 20 variáveis relacionadas à Ciência Aberta, os respondentes foram orientados a indicar, em uma escala Likert de cinco pontos, a importância de cada uma delas, observando o contexto da comunicação científica desenvolvido na universidade pública. Resultados: Com o auxílio do software SPSS, foram realizadas análises estatísticas descritivas de frequência e média. Ainda, aplicou-se a análise fatorial e identificou-se a possibilidade de condensar as informações em um total de quatro componentes ou agrupamentos. Conclusão: Por meio deste estudo, concluiu-se que, apesar de alternar a frequência, todas as variáveis apresentaram como moda o fator cinco, indicando que todas as iniciativas e movimentos elencados no estudo foram considerados muito importantes pelos atores envolvidos com a Ciência Aberta.
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Estudos Avançados em Organização do Conhecimento Trabalhos apresentados no V Congresso Brasileiro Em Organização e Representação do Conhecimento, do Capítulo Brasileiro da ISKO
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Introdução: Os repositórios de dados de pesquisa emergem como sistemas contemporâneos e heterogêneos de recuperação da informação científica, em que se destacam dois conceitos: Biblioteconomia de dados e bibliotecário de dados. Estas novas concepções atrelam-se às discussões em Organização do Conhecimento na defesa de instituições eficazes e sustentáveis, em atenção aos métodos e práticas empregadas para a análise de dados de pesquisa, especialmente no ambiente web, tornando o papel do bibliotecário na organização destes sistemas muito mais desafiador. Objetivo: Diante desse cenário, objetivou-se realizar pesquisa exploratória sobre os aspectos relacionados a esses novos conceitos no contexto das bibliotecas acadêmicas e a perspectiva que se apresenta para os estudos de organização da informação. Metodologia: Pesquisa exploratória e qualitativa. Resultados: Observa-se que os repositórios de dados de pesquisa trazem uma perspectiva inovadora à atuação do bibliotecário ao demandarem questões relacionadas à cobertura do sistema, metadados, acesso e qualidade dos dados, preservação digital, confiabilidade dos sistemas e interoperabilidade. Conclusões: As questões relativas à Biblioteconomia de dados exigem o envolvimento de pesquisadores e profissionais na condução de pesquisas e ações dedicadas à gestão digital de dados de pesquisa e as perspectivas e desafios que se apresentam para a organização da informação.
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Para que haja uma efetiva gestão das coleções de dados de pesquisa, o requisito essencial é que ela se realize por meio de plataformas que assegurem infraestrutura tecnológica e gerencial, sustentabilidade econômica e politica de longo prazo e que sejam capazes de oferecer serviços disciplinares e um espaço de colaboração para os pesquisadores. Esses sistemas cumprem um duplo papel: se configuram como sistemas de informação que apoiam os pesquisadores na publicação, preservação e disseminação de suas próprias coleções de dados; e, ao mesmo tempo, são ferramentas críticas para o descobrimento e o acesso a coleções de dados de outros pesquisadores, possibilitando o reuso e promovendo a pesquisa interdisciplinar. Avaliar as plataformas colaborativas de gestão de dados, tanto do ponto de vista do pesquisador que quer depositar seus dados ou encontrar dados de outras fontes, usufruir de serviços informacionais, computacionais e de capacitação, bem como da instituição de pesquisa que deseja mensurar a conformidade do seu repositório com as melhores práticas, tecnologias, padrões e metodologias, exige considerar um grande número de parâmetros técnicos, gerenciais e organizacionais. Como contribuição para a composição de um modelo de avaliação de plataformas colaborativas de dados de pesquisa, o presente trabalho apresenta uma sistematização dos principais itens que devem ser considerados na geração de métricas que podem ser aplicadas esses sistemas.
Conference Paper
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RESUMO No cenário da ciência contemporânea os dados deixam de ser meros subprodutos da pesquisa e se tornam protagonistas das novas metodologias de investigação científica, tendo como catalisador as tecnologias digitais e as redes de computadores que transformam a ciência e tornam os seus processos de pesquisa. mais transparentes e abertos. Porém, apesar dos avanços na comunicação científica e no acesso e compartilhamento dos materiais de pesquisa, metodologias, códigos instrumentos e muito mais, redefinidos pelos pressupostos da ciência aberta, há uma parcela considerável do trabalho científico que não está visível nem para a sociedade em termos de benefícios e qualidade de vida, nem para os pares para o reuso em novos experimentos ou para impulsionar a interdisciplinaridade da ciência. Uma grande parte das descobertas científicas não aparecem na literatura publicada, ao invés disso, reside nas gavetas e nos computadores pessoais dos pesquisadores. Este fenômeno tem os contornos mais nítidos no segmento da ciência conhecido como "cauda longa da ciência", onde um grande número de pequenas equipes de pesquisadores e laboratórios independentes gera no seu dia a dia de pesquisa uma ampla variedade de coleções de dados de pesquisa. Estes dados são reconhecidos como ativos informacionais de alto valor, que coletivamente tem o potencial de ser mais relevante que a soma de suas partes. A cauda longa é ainda um território de criatividade e inovação. Tomando a riqueza e diversidade dos dados da cauda longa como a ambiente de estudo, o presente artigo tem como objetivo compreender as principais causas, os desdobramentos e as possíveis soluções da invisibilidade dos dados de pesquisa deste segmento da ciência. Como recurso metodológico, analisamos a literatura que fala sobre a cauda longa, extraindo as informações sobre o problema e as soluções e revendo as experiências, as discussões internacionais e os estudos em outras áreas da ciência. ABSTRACT In today's scenario of contemporary science, data cease to be a mere by-product of research and become protagonists of new scientific research methodologies, using as a catalyst digital technologies and computer networks that transform science and make its research processes more transparent and open. However, despite of the advances in scientific communication and in access and sharing of research materials, methodologies, instrument codes and much more, redefined by the assumptions of open science, there is a considerable part of scientific work that is not visible to society in terms of benefits and quality of life, nor for other scientists to reuse in new experiments or to leverage scientific interdisciplinarity. A large part of the scientific findings does not appear in the published literature, but rather remain in the researchers' drawers and stored in personal computers. This phenomenon has the clearest limits in the science segment known as "long tail of science" where a large number of small teams of researchers and independent laboratories generates in their day-today research a wide variety of research data collections. These data are recognized as high-value information assets, which collectively have the potential to be more relevant than the sum of their parts. The long tail is still a territory of creativity and innovation. Taking the richness and diversity of long tail data as the study environment, the present article aims to understand the main causes, consequences and possible solutions of the invisibility of the research data of this segment of science. As a methodological resource, we analyze the literature
Article
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The paper-based laboratory notebook has served scientists well for a long time. Given the increasing digitalization of research, it might be time to adopt electronic alternatives. © 2014 The Authors. Published under the terms of the CC BY NC ND 4.0 license.
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A considerable part of the results of research activities is being created in digital formats. Although valuable, these data are at risk of being lost by technological obsolescence and by the inherent fragility of digital media. Thus, the management of research data in a digital networked and distributed environment becomes an increasing challenge for the world of research and for the information science. In response to this challenge arises the concept of digital curation, which involves the management of research data from its planning, ensuring its long-term preservation, discovery, interpretation and reuse. In this sense, this study briefly examines the importance of research data and of the idea of digital curation and its impact on the formulation of new documents and scientific communication.
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Apresentamos uma análise das possibilidades de atuação do bibliotecário em conjunto com pesquisadores para um gerenciamento eficiente de dados científicos. O resultado obtido, por meio de um levantamento de ferramentas e técnicas de gestão atualmente disponíveis, demonstra um quadro analítico de ações de apoio que os bibliotecários podem fornecer para a elaboração de um projeto para o ciclo de vida dos dados científicos. Conclui-se que a gestão de dados científicos exigem soluções de planejamento que incluem conhecimentos específicos sobre a escolha do repositório e técnicas de armazenamento para a conservação e o uso permanente dos dados como chave para o êxito de um projeto de pesquisa.Palavras-chave: Dados científicos. Ciclo de vida dos dados. Preservação digital. Bibliotecas Universitárias. Repositórios Científicos. E-ciência. Curadoria de dados. Acesso livre. bibliotecários acadêmicos.Link: http://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/rdbci/article/view/8646333/pdf_1
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Os repositórios institucionais (RI) têm-se tornado uma alternativa relevante para as instituições de pesquisa e ensino reunirem a produção científica em um único local, potencializando a disseminação e o acesso à informação científica. Um dos pré-requisitos para que os RI cumpram esse papel é que eles garantam a descrição de documentos com metadados padronizados. Nesta perspectiva, teve-se como objetivo geral identificar e analisar como os repositórios institucionais de universidades federais brasileiras padronizam os metadados na representação da informação, desdobrando-se como objetivos específicos detectar os RI destas universidades registrados nos diretórios ROAR, OpenDOAR e Luso-Brasileiro; identificar e analisar as políticas de funcionamento e os manuais divulgados nos sítios destes repositórios, quanto à padronização de metadados na descrição de documento e; verificar e analisar as ações, realizadas por estes repositórios, que visam a padronização de metadados na representação da informação. A metodologia caracterizou-se como descritiva, cuja investigação se deu através da combinação dos métodos levantamento, documental e estudo de casos múltiplos, a partir de uma amostra composta de 21 RI registrados em, pelo menos, um dos três diretórios selecionados, com o URL em funcionamento. Para obtenção das informações, optou-se pela adoção das técnicas de observação sistemática e aplicação de questionário junto aos gestores dos RI. A análise dos dados foi realizada a partir da integração das abordagens quantitativas e qualitativas. Os principais resultados apontaram que dos 32 RI registrados nos diretórios selecionados, somente 22 estavam registrados em pelo menos um dos diretórios e com a URL em funcionamento, e desses, apenas 13 (59,09%) constavam registros nos três diretórios. Dos 21 repositórios analisados, apenas 13 (61,90%) e 4 (19,05%) possuíam, respectivamente, política de funcionamento e manual divulgados; bem como 8 (38,10%) RI não disponibilizaram quaisquer destes documentos em seus sítios. Na análise das 13 políticas, em 9 (69,23%) constatou-se apenas informações relativas à definição de depositante. Quanto aos 4 manuais, verificou-se orientações sobre revisão/controle de metadados em apenas 2 (50%) documentos. Dos 20 gestores que responderam ao questionário, 17 (85%) declararam oferecer treinamento para os responsáveis pelo depósito; 19 (95%) informaram realizar revisão/controle de metadados; contudo, em 4 (21,05%) RI esta atividade não é desenvolvida por bibliotecário. Além disso, 14 (70%) afirmaram utilizar instrumentos de representação da informação para a padronização dos pontos de acesso (entradas) na representação descritiva; 13 (65%) declararam empregar base de dados para o controle de autoridade de autores; 15 (75%) afirmaram adotar regras gerais de padronização de metadados para descrever título, autor e assunto do documento. Entretanto, 11 (55%) disseram que a equipe técnica do RI possui apenas um bibliotecário e 14 (70%) informaram inexistência de política de indexação. Assim, concluiu-se que, embora a maioria dos repositórios institucionais analisados afirme realizar diversas ações que visam a padronização de metadados na representação da informação, observou-se questões críticas que a compromete, tais como número insuficiente de bibliotecários e carência de políticas de funcionamento e de manuais divulgados com conteúdos relevantes para auxiliar o depositante no processo de descrição de documento.
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How can an embedded research informationist add value to the scientific output of research teams? The University of California-Los Angeles (UCLA) Louise M. Darling Biomedical Library is an academic health sciences library serving the clinical, educational, and research needs of the UCLA community. A grant from the National Library of Medicine funded a librarian to join a UCLA research team as an informationist. The informationist meets regularly with the research team and provides guidance related to data management, preservation, and other information-related issues. Early results suggest that the informationist's involvement has influenced the team's data gathering, storage, and curation methods. The UCLA Library has also changed the librarian's title to research informationist to reflect the new activities that she performs. The research informationist role provides an opportunity for librarians to become effective members of research teams and improve research output.
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Electronic laboratory notebooks are becoming an increasingly popular tool for research and routine laboratories as part of a way to optimize workflow and minimize cost while realizing time-saving benefits. The number and variety of available solutions are quickly increasing; making selection of the right notebook a cumbersome process. To allay some of the strain associated with an exhaustive search through notebook technologies, this paper details some key features from a pool of 35 electronic notebooks available today. This review effectively classifies these notebooks into five categories based on market audience as follows: notebooks suited for a Quality environment can be found within the Quality Assurance/Quality Control pool. Notebooks suited for specialized tasks in Biology or Chemistry can be found within the Biology or Chemistry pools, respectively. Notebooks that are suitable for general science functionalities can be found under either the Research and Development or the Multidiscipline pools. Lastly, notebooks that are designed and developed for the spectrum of stringent Quality laboratories to free-form research laboratories can be found within the Multidiscipline pool. The guidelines put forth in this paper eliminate the need to perform an exhaustive search for a suitable notebook.
Ten Simple Rules for a Computational Biologist's Laboratory Notebook
  • Santiago Schnell
SCHNELL, Santiago. Ten Simple Rules for a Computational Biologist's Laboratory Notebook. PLoS Computational Biology, São Francisco, v. 11, n. 9, 2015. Disponível em: <http://journals.plos.org/ploscompbiol/article?id=10.1371/journal.pcbi.1004385>. Acesso em: 29 nov.
Dissertação (Mestrado em Divulgação Científica e Cultural)-Universidade Estadual de Campinas
  • V Nussbeck
HOURCADE, V. O movimento de ciência aberta no Brasil. 2015. Dissertação (Mestrado em Divulgação Científica e Cultural)-Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2015. NUSSBECK, S. Y. et al. The laboratory notebook in the 21 st century. EMBO reports, [S.l.], v. 15, n. 6, p. 631-634, 2014.
  • R Interview With
  • Jean-Claude Bradley
POYNDER, R. Interview with Jean-Claude Bradley: the impact of Open Notebook Science. Information Today, Medford, v. 27, n. 8, set. 2010. Disponível em: <http://www.infotoday.com/it/sep10/Poynder.shtml#top>. Acesso em: 28 nov. 2017.
Novos cadernos de laboratório e novas culturas epistêmicas: entre a política do experimento e o experimento da política. 2016. 240 f. Tese (Doutorado em Ciência da Informação)-Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
  • A Clinio
CLINIO, A. Novos cadernos de laboratório e novas culturas epistêmicas: entre a política do experimento e o experimento da política. 2016. 240 f. Tese (Doutorado em Ciência da Informação)-Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, Rio de Janeiro, 2016.