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O DISCURSO DA VITÓRIA: AS FORÇAS CENTRÍPETAS E CENTRÍFUGAS E A CONSTRUÇÃO DO ETHOS DE DONALD TRUMP NO YOUTUBE THE VICTORY SPEECH: THE CENTRIPETAL AND CENTRIFUGAL FORCES AND DONALD TRUMP'S ETHOS CONSTRUCTION ON YOUTUBE

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Resumo: O contexto internacional mostra o cenário político decorrente das eleições presidenciais nos Estados Unidos. Objetiva-se, aqui, analisar o primeiro discurso de Donald Trump como presidente, realçando a existência de forças centrípetas e centrífugas na linguagem (BAKHTIN, 2000, 2002), por meio da compreensão da cena enunciativa e da identificação do ethos 3 discursivo (MAINGUENEAU, 2008, 2011). A análise das informações evidencia um espaço de lutas valorativas, simbólicas e culturais pela linguagem, no qual se depreendem os ethés discursivos, como imagens de si, apoiados em cenografias enunciativas. Palavras-chave: Forças centrípetas; Forças centrífugas; Ethos discursivo. Abstract: The international context shows the political scene arising from the presidential elections in the United States. The purpose of this paper is to analyze Donald Trump's first speech as president, emphasizing the existence of centripetal and centrifugal forces in the language (BAKHTIN, 2000, 2002), through the understanding of the enunciative scene and the identification of the discursive ethos (MAINGUENEAU, 2008, 2011). The analysis of the information shows us a space of symbolic and cultural struggle of values through the language, in which the discursive ethés are deduced as images of themselves, supported by enunciative scenographies. 1 Introdução O cenário político internacional propiciou que as últimas eleições presidenciais dos EUA se tornassem extremamente importantes. Os discursos circularam por mídias tradicionais e por diversas ferramentas presentes no universo da internet, modificando a forma de comunicação com o público. A população mundial acompanhou uma das mais acirradas campanhas já vistas no país, que culminou na vitória de Donald Trump sobre Hillary Clinton. 3 "[...]-o ethos é uma noção discursiva que se constrói através do discurso, não é uma 'imagem' do locutor exterior a sua fala;-o ethos é fundamentalmente um processo interativo de influência sobre o outro;-é uma noção fundamentalmente híbrida (sociodiscursiva), um comportamento socialmente avaliado, que não pode ser apreendido fora de uma situação de comunicação precisa, integrada ela mesma numa determinada conjuntura sócio-histórica." (MAINGUENEAU, 2011, p. 17, grifos do autor).
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SANTOS, E. D. dos; FREITAS, E. C. O discurso da vitória: as forças centrípetas e centrífugas e
a construção do ethos de Donald Trump no Youtube. Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v.
06, n. 02, p. 209-226, jul./dez. 2017.
209
O DISCURSO DA VITÓRIA: AS FORÇAS CENTRÍPETAS E CENTRÍFUGAS E A
CONSTRUÇÃO DO ETHOS DE DONALD TRUMP NO YOUTUBE
THE VICTORY SPEECH: THE CENTRIPETAL AND CENTRIFUGAL FORCES
AND DONALD TRUMP’S ETHOS CONSTRUCTION ON YOUTUBE
Eliane Davila dos Santos
1
Ernani Cesar de Freitas
2
Resumo: O contexto internacional mostra o cenário político decorrente das eleições presidenciais nos Estados
Unidos. Objetiva-se, aqui, analisar o primeiro discurso de Donald Trump como presidente, realçando a
existência de forças centrípetas e centrífugas na linguagem (BAKHTIN, 2000, 2002), por meio da compreensão
da cena enunciativa e da identificação do ethos
3
discursivo (MAINGUENEAU, 2008, 2011). A análise das
informações evidencia um espaço de lutas valorativas, simbólicas e culturais pela linguagem, no qual se
depreendem os ethés discursivos, como imagens de si, apoiados em cenografias enunciativas.
Palavras-chave: Forças centrípetas; Forças centrífugas; Ethos discursivo.
Abstract: The international context shows the political scene arising from the presidential elections in the
United States. The purpose of this paper is to analyze Donald Trump's first speech as president, emphasizing the
existence of centripetal and centrifugal forces in the language (BAKHTIN, 2000, 2002), through the
understanding of the enunciative scene and the identification of the discursive ethos (MAINGUENEAU, 2008,
2011). The analysis of the information shows us a space of symbolic and cultural struggle of values through the
language, in which the discursive ethés are deduced as images of themselves, supported by enunciative
scenographies.
Keywords: Centripetal forces; Centrifugal forces; Discursive ethos.
1 Introdução
O cenário político internacional propiciou que as últimas eleições presidenciais dos
EUA se tornassem extremamente importantes. Os discursos circularam por mídias
tradicionais e por diversas ferramentas presentes no universo da internet, modificando a forma
de comunicação com o público. A população mundial acompanhou uma das mais acirradas
campanhas já vistas no país, que culminou na vitória de Donald Trump sobre Hillary Clinton.
1
Doutoranda e Mestre em Processos e Manifestações Culturais pela Universidade Feevale, Novo Hamburgo,
RS, Brasil, e-mail: eliane.d@feevale.br
2
Docente titular do Programa de Pós-graduação em Processos e Manifestações Culturais da Universidade
Feevale, Novo Hamburgo Rs. Pós-Doutor em Linguística aplicada e estudos de linguagem pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, Brasil, e-mail: ernanic@feevale.br
3
[...] o ethos é uma noção discursiva que se constrói através do discurso, não é uma ‘imagem’ do locutor
exterior a sua fala; o ethos é fundamentalmente um processo interativo de influência sobre o outro; é uma
noção fundamentalmente híbrida (sociodiscursiva), um comportamento socialmente avaliado, que não pode ser
apreendido fora de uma situação de comunicação precisa, integrada ela mesma numa determinada conjuntura
sócio-histórica.” (MAINGUENEAU, 2011, p. 17, grifos do autor).
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
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A repercussão mundial da vitória do republicano foi imensa, colocando em evidência o jogo
de forças sociais que atua pela linguagem, apresentando uma arena comunicacional repleta de
embates valorativos, simbólicos e culturais a partir dos sujeitos que dela participaram. O
estudo das falas políticas permite lançar luzes sobre as forças sociais da linguagem, onde cada
sujeito, discursivamente, constrói seu ethos apoiado em cenografias enunciativas. Trump é,
sem dúvida, um ator atípico
4
no meio político americano e sua campanha foi repleta de
conflitos com o Congresso, imprensa e com o partido. Foi rotulado de intolerante e sua
linguagem foi descrita ameaçadora aos regimes democráticos do país.
Assim, existe a necessidade de refletir sobre os valores e as crenças manifestados por
meio da linguagem e de que forma o sujeito legitima seu dizer. Destaca-se que a temática é
importante, uma vez que é na linguagem que circulam ideologias, aspectos culturais e
valorativos da sociedade e dos atores da vida pública. O estudo do discurso do Trump é um
elemento que pode auxiliar no entendimento, de forma mais abrangente, de como funciona a
política norte-americana sob a condução desse presidente.
Da mesma forma que para a academia e para os pesquisadores do tema, esse estudo é
de grande valia para a comunidade em geral. As contribuições acadêmicas, quando interagem
com a sociedade, podem ser fatores de mudança e de novas reflexões no pensar e no agir do
homem. A divulgação da pesquisa científica tem um papel significativo na sociedade, pois é
um dos fatores que pode fazer com que essa perceba o quanto o conhecimento é importante
em suas vidas e delas faz parte. A democratização dos saberes científicos, nas sociedades,
contribui para fomentar o senso crítico, sendo capaz de transformar um país e colaborar para a
aproximação entre o meio acadêmico e o mundo corporativo.
Esta pesquisa se insere na Linha de pesquisa Linguagem e Processos Comunicacionais
e a questão que a norteia revela a existência de forças centrípetas e centrífugas na linguagem,
que ficam evidenciadas pela compreensão da cena enunciativa e da identificação do ethos
discursivo como imagem de si. Objetiva-se, aqui, analisar o primeiro discurso de Donald
Trump como presidente, realçando a existência de forças centrípetas e centrífugas na
linguagem, por meio da compreensão da cena enunciativa e da identificação do ethos
discursivo como imagem de si no Youtube.
Dentre as inúmeras ferramentas da internet, o Youtube, configura como uma nova
forma de comunicar-se e relacionar-se entre os diversos atores sociais envolvidos, assim como
um instrumento para potencializar a comunicação e a circulação de sentidos. A ferramenta se
4
Donanld Trump, antes de se tornar presidente, era empresário e apresentador de televisão nos Estados Unidos,
e a presidência norte americana é o primeiro cargo político em sua carreira.
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
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assemelha à televisão, mas a disparidade se evidencia pela possibilidade dos próprios usuários
criarem seus canais e compartilharem seus vídeos sobre as diversas temáticas, modificando as
formas de dizer no ambiente digital. Além disso, na plataforma do Youtube, os vídeos podem
ser transmitidos ao vivo e podem ser assistidos, a qualquer momento, pelos usuários, sendo
considerado como um dos maiores congregadores de mídia de massa na internet.
Como marco teórico, utilizam-se postulados de Bakhtin
5
(2000, 2002), sob a
perspectiva discursivo-dialógica evidenciando questões que caracterizam as lutas valorativas,
ideológicas e culturais que as palavras travam a partir de atores políticos; os postulados de
Maingueneau (2008, 2011, 2016a), de cunho enunciativo-discursivo, sendo utilizados
conceitos de cenografia e de ethos discursivo como imagem de si. O aparato metodológico
que referencia a análise do discurso, neste estudo, é interpretado por meio de um dispositivo
criado que visa classificar os dados de acordo com os constructos teóricos definidos pelos
autores centrais desta pesquisa. A metodologia do estudo segue as recomendações de
Prodanov e Freitas (2013), sendo uma pesquisa aplicada, com abordagem qualitativa; seu
enfoque é exploratório, mediante um estudo documental.
Neste artigo opta-se, como corpus de pesquisa, pela análise da transcrição discursiva
de trechos do primeiro discurso político de Donald Trump, após vencer as eleições
presidenciais nos Estados Unidos. O motivo da escolha do objeto deve-se à importância do
discurso político de um presidente que terá a responsabilidade de governar uma das maiores
potências econômicas mundiais. Quanto à variedade de material disponível para a análise dos
discursos políticos, opta-se, pontualmente, pela materialidade especificada, por estar
disponível na internet, no site Youtube, e por fornecer materialidade discursiva para o
cumprimento do objetivo deste estudo.
Para melhor organização da pesquisa, as seções estão assim dispostas: primeiramente,
apresentam-se questões metodológicas. Na seção seguinte, o estudo trata de questões sob a
perspectiva enunciativo-dialógica, evidenciando quesitos que caracterizam as lutas
valorativas, ideológicas e culturais que os atores políticos travam a partir do uso das palavras.
A seguir, mencionam-se questões sobre o ethos e seus desdobramentos e, em seguida, com a
seção de resultados. Ao final, faz-se uma seção de considerações finais.
5
Mikhail Bakhtin foi um dos filósofos russos mais importantes do século XX. Nasceu em 1895 e faleceu em
1975. “Seu nome é referência fundamental para diversas teorias que, de uma forma ou de outra, discutem e
problematizam a questão da comunicação hoje. As suas maiores contribuições foram fundamentais para o
desenvolvimento dos estudos da linguagem e da estética, campos nos quais a sua obra é mais conhecida e
reconhecida.” (RIBEIRO; SACRAMENTO, 2010, p. 9).
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
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2 Conceitos em interação: concepções bakhtinianas e as forças sociais na linguagem
A linguagem, sob a ótica bakhtiniana e seu Círculo, é uma prática social entendida
como um movimento progressivo e constante elaborado pelo “fenômeno social da interação
verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui
assim a realidade fundamental da língua”. (BAKHTIN, 2002, p. 225, grifo do autor).
Ao lançar olhares sobre a visão bakthiniana, tem-se que a análise na teoria dialógica,
está para a língua como interação verbal em que a “palavra é uma espécie de ponte lançada
entre mim e os outros” (BAKHTIN, 2002, p.115). A concepção dialógica da linguagem é
relevante nos fenômenos discursivos, pois ao conceber a presença do outro no discurso e as
diversas vozes que circulam nesses espaços, admite-se a ampliação da função linguística de
“receptor” como apenas um ser passivo que recebe a mensagem. Considera-se que, ao falar,
escrever e expressar-se no mundo, o homem coloca-se em relação ao outro. O pensamento
pode ser expandido afirmando-se que o ser humano, ao se colocar em relação ao outro, faz
depender sua própria subsistência, visto que a consciência de si permeia a necessidade de
tomada de consciência do outro, “pela assimilação do outro e ao mesmo tempo pela
diferenciação com relação ao outro”. (CHARAUDEAU, 2009, p. 41-42).
O processo dialógico
6
aponta para a alteridade como um alicerce para a construção da
identidade. A tomada de consciência, as visões de mundo, as opiniões que o sujeito tem são
confrontadas a partir das relações dialógicas e valorativas de outros sujeitos. As identidades
são cogitadas como construções que determinam a coerência concebida frente às questões das
fragmentações e dispersões dos indivíduos que estão em constante transformação, gerando
também fragmentações dos códigos culturais e multiplicidade de estilos que resultam no
pluralismo cultural (HALL, 2009).
Pode-se considerar que “na perspectiva dialógica de Bakhtin tanto o eu quanto a
palavra são abordados dialogicamente. Para o autor, é impossível compreender o eu fora do
diálogo” (FREITAS, 2013, p. 194). Em decorrência desse enfoque, ressalta-se a existência de
um processo mental que permite a tradução do mundo. Essa tradução é o signo. Os signos
compõem a estrutura de significação da cultura. Ao utilizar a linguagem, o ser humano é
capaz de representar o mundo a alguém. Os significados, de acordo com Hall (1997), são
gerados com base em uma representação de mundo que é compreendida e reconhecida por
6
Para a análise do discurso a ideia de discurso é dialógica, “pois supõe a interação entre os locutores de um
discurso, expressa numa relação intersubjetiva entre os sujeitos, ou seja, supõe a presença do outro”. Isto não se
limita à presença física do outro. Atinge também a presença imaginária, que, ao enunciarmos, criamos uma
imagem de quem é nosso suposto interlocutor”. (BERTASSO, 2014, p. 43).
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
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cada cultura. É nesse modo de dizer, na expressão do ser humano, na linguagem, que
emergem os valores, a cultura e a ideologia
7
do sujeito. A ideologia é utilizada para que se
compreenda a diversidade social e as diversas vozes da linguagem.
Nesse sentido, pode-se dizer que a palavra isolada não direciona para o que ela
exatamente significa. É preciso entender que existem as palavras e “o que está implícito nas
palavras depende de outras palavras, das condições em que foram enunciadas, de sua
enunciação. É na situação de enunciação que as palavras revelam os pensamentos, as opiniões
e as estratégias daquele que as emite.” (CHARAUDEAU, 2016, p. 21). A plurivalência social
dos signos é que determina o caráter dinâmico das significações, dado que as muitas
apreciações sociais se embatem e se enfrentam na mesma matéria e no próprio signo. O ato de
enunciar pode, dependendo da orientação em que está aportado, ser heterogêneo, revelando o
processo de significação aberto e infinito. A aura heteroglótica da semiosfera social política é,
portanto, um espaço de lutas. Bakhtin (2002) destaca, em sua teoria discursivo-dialógica, que
existe uma diferença relevante no que tange os discursos monológico e dialógico.
A caracterização de um discurso monológico, na teoria bakhtiniana, é fechada e
conclusiva em relação à linguagem. “A atitude monológica contribui para que se fortaleçam
diversas crenças que servem, na realidade, para centralizar e unificar, simplificar e dominar o
que, por natureza social, é disperso, contraditório, múltiplo.” (FANINI, 2013, p.24). Essa
premissa evidencia que as forças centrípetas atuam no sentido de assegurar o consenso. As
vontades sociais, neste caso, tentarão sempre estancar", por gestos centrípetos, aquele
movimento: tenderão impor uma das verdades sociais (a sua) como verdade; tentarão
submeter à heterogeneidade discursiva (controlar a multidão de discursos); monologizar e
canonizar (dar a última palavra); tomar o signo monovalente (deter a dispersão semântica);
finalizar a dialogização da heteroglosia. (FARACO, 2013, p.175). Na perspectiva de Bakhtin
(2002), o discurso é descerrado, pois seu fundamento é plural e histórico. O processo
dialógico é admitido como infinito na teoria bakhtiniana e as forças centrífugas, presentes
também na linguagem, inclinam à desuniformizar, descentralizar. O que se sabe é que “na
lógica de Bakhtin, não (nem nunca haverá) um ponto de síntese dialética, de superação
definitiva das contradições”. (FARACO, 2013, p.176).
7
O conceito de ideologia é visto como “visão de mundo/sistema de crenças/ ponto de vista também ocorre em
Voloshinov e Medviédev, o que exige do leitor um cuidado para não se perder na ambivalência. Assim, o mantra
tradicional da vulgata bakhtiniana de que todo o signo é ideológico tem dois sentidos (mas nenhum carrega um
sentido crítico, negativo ou pejorativo como algumas vezes parece estar pressuposto na vulgata). Todo signo é
ideológico porque remete a uma visão de mundo axiologicamente constituída. E todo signo é ideológico porque
se materializa no espaço de uma das esferas da superestrutura (arte, religião, direito, filosofia, ciência, ética etc.)
e a materializa”. (FARACO, 2013, p. 180).
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Evidencia-se a necessidade de uma compreensão mais abrangente dos
pronunciamentos políticos para que se percebam as forças sociais dialógicas que atravessam
esses discursos. Qualquer discurso é influenciado pelas forças centrípetas e centrífugas.
Percebe-se que o caráter dialógico entre as infinitas vozes sociais que povoam o discurso são
mais evidentes para alguns discursos. Nota-se também que, em alguns discursos, essa
dialogicidade é ocultada. Os postulados de Bakhtin (2000, 2002), portanto, apontam para uma
afirmativa de que não existe discurso sem diálogo. Ao compor um discurso, o sujeito o faz
com o objetivo de responder a um outro, anteriormente proferido, bem como de suscitar uma
resposta posterior”. (BATISTA, 2015, p.46).
A língua, ideologicamente repleta de visões de mundo, é o instrumento com que o
sujeito expressa suas atitudes responsivas ativas. A linguagem é um movimento dialógico que
não separa forças centrípetas e centrífugas, e dessa forma, a necessidade de partilha de
significados está em constante grau de diversidade e embate.
A tensão e as lutas valorativas são movimentos dialógicos que fazem parte dos
espaços discursivos dos sujeitos que nele coabitam (BAKHTIN, 2000, 2002). Tendo em vista
que as lutas das forças sociais ocorrem na linguagem e que o sujeito expressa seu discurso
com uma maneira própria de dizer, no intuito de interpelar os coenunciadores a aderir à sua
fala, recorre-se, na próxima seção, às questões do ethos e seus desdobramentos. A finalidade é
compreender a cena enunciativa e a identificação do ethos no pronunciamento político nos
espaços de lutas de tensões das forças sociais da linguagem.
3 A cena enunciativa e o ethos discursivo: a imagem de si no discurso político
A questão do ethos vem sendo estudada desde a Antiguidade e sua concepção
discutida a partir dos estudos de Aristóteles sobre retórica. A noção de ethos estava ligada à
persuasão o elemento constituinte da arte. Nesse entendimento, o “ethos consiste em causar
boa impressão mediante a forma como constrói o discurso, em dar uma imagem de si capaz de
convencer o auditório, ganhando sua confiança. (MAINGUENEAU, 2008, p. 56). A retórica
antiga resume-se a um triângulo caracterizado pelo logos, pathos
8
e o ethos. O orador deveria
dispor de três características morais que garantissem sua credibilidade, tais como prudência,
8
O logos refere-se à lógica do puro argumento e aos tipos de argumentos empregados. O pathos refere-se aos
tipos de apelo e reconhecimento dado à audiência, levando em consideração a psicologia social das emoções.
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
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virtude e benevolência; o ethos também tem uma dimensão social; é adequado ao seu habitus
9
e suas posturas corporais.
Os estudos feitos por Maingueneau (2008) ampliam a visão do ethos a partir da obra
intitulada Gênese dos Discursos
10
e demonstram que é necessário conceber o discurso de
forma global e atentar para os planos que o constituem. No entanto, na obra Novas Tendências
em Análise do Discurso (1997), o autor articula, além dos itens da semântica global, os
conceitos de cenografia e ethos, para tratar das cenas de enunciação. Na análise do discurso, o
ethos é parte intrínseca da cena de enunciação.
Assim, a análise das instâncias de enunciação é desdobrada em três cenas distintas: a
cena englobante, a genérica e a cenografia. A cena englobante é caracterizada pelo tipo de
discurso: religioso, publicitário ou, como é o caso desta pesquisa, político. A cena genérica é
constituída com base nos diversos tipos de gênero de discurso que, neste estudo, caracteriza-
se como um pronunciamento político. Não é por meio desse quadro cênico que Maingueneau
(2013) relata o confronto dos sujeitos interlocutores, mas pela cenografia, que não é imposta
pelo tipo de gênero de discurso, mas instituída pelo próprio discurso. Quanto à cenografia
11
,
ela não é prescrita “pelo gênero, ela é construída pelo próprio texto: um sermão pode ser
enunciado por meio de uma cenografia professoral, profética etc.” (MAINGUENEAU, 2016a,
p. 75). Sendo assim, o gênero do discurso tem ligação intensa “com a cenografia, uma vez que
a enunciação se constrói de acordo com um gênero. No entanto, a escolha do gênero
discursivo pode nos antecipar qual cenografia será mobilizada.” (FACIN, 2012, p. 53).
O ethos possibilita pensar com mais abrangência sobre a aderência dos sujeitos a um
posicionamento discursivo
12
. Acredita-se que do discurso proferido, depreende-se uma voz
própria, conforme sugere Bakhtin (2000)
13
. Assim, pode-se dizer que o discurso comporta um
9
A dimensão sociológica de interpretação da noção retórica de ethos situa os trabalhos de Pierre Bourdieu, que
propôs uma reinterpretação da noção de ethos no quadro do conceito de habitus, designando o conjunto dos
princípios interiorizados que guiam nossa conduta e nossas posturas em relação ao corpo igualmente
interiorizadas.” (AMOSSY, 2016, p. 26, grifos do autor).
10
O livro Gênese dos Discursos foi lançado na França em 1984 e traduzido em português décadas depois.
Embora não se considere nas análises deste estudo, de forma detalhada, os planos da semântica global, destaca-
se que os planos mencionados pelo autor são: intertextualidade, vocabulário, temas, estatuto do enunciador e do
destinatário, dêixis enunciativa, modo de enunciação, modo de coesão (MAINGUENEAU, 2008).
11
“A cenografia, como o ethos que dela participa, implica um processo de enlaçamento paradoxal: desde sua
emergência, a fala supõe uma certa cena de enunciação que, de fato se valida progressivamente por essa mesma
enunciação. A cenografia é, assim, ao mesmo tempo, aquela de onde o discurso vem e aquela que ele engendra.”
(MAINGUENEAU, 2016a, p. 77).
12
“O termo posicionamento trata-se de uma categoria de base da análise do discurso, que diz respeito à
instauração e à conservação de uma identidade enunciativa.” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2012, p.
392).
13
Correlaciona-se o conceito de tom de Maingueneau (2008a) ao conceito de entoação de Bakhtin (2000). Por
intermédio da entoação, da cena enunciativa, percebe-se a junção entre o discurso verbal e o contexto
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
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tom, oral ou escrito, o qual “se apoia sobre uma dupla figura do enunciador, a de um caráter e
de uma corporalidade, estreitamente associadas.” (MAINGUENEAU, 2008, p. 92, grifo do
autor). O tom é compreendido como um valor social, ou seja, um relevo ou um sentido dado à
palavra no contexto em que a enunciação é articulada e compreendida por quem recebe a
informação. O tom oportuniza ao receptor do discurso construir “uma representação do corpo
enunciador, fazendo emergir uma instância subjetiva que desempenha o papel de fiador
14
do
que é dito.” (MAINGUENEAU, 2013, p. 98). A partir dessa ideia, “este é o tipo de fenômeno
que, por desdobramento da retórica tradicional, pode se chamar de ethos: por meio da
enunciação, revela-se a personalidade do enunciador.” (MAINGUENEAU, 2013, p. 97-98).
A maneira de dizer, que é também um modo de ser, possibilita a adesão do leitor que é
expressa pelo conceito de incorporação
15
pressupondo um mundo ético
16
do qual o fiador
participa.
É importante realçar que a problemática do ethos quanto a sua eficácia, em diversos
textos, motivou Maingueneau (2016b) a atribuir-lhe três dimensões (categórica, experiencial e
ideológica
17
). Além disso, destaca-se que o ethos está crucialmente ligado ao ato de
enunciação, mas não se pode desconsiderar que o coenunciador constrói uma imagem do
orador, que nesse estudo é o novo presidente dos Estados Unidos
18
, antes mesmo que ele fale.
Dessa forma, afirma-se a existência de uma diferenciação entre o ethos pré-discursivo e o
ethos-discursivo. Maingueneau (2008) evidencia que essas imagens prévias que se elaboram
do orador estão fundamentadas em representações culturalmente partilhadas. Quando se pensa
em ethos discursivo, logo se vincula a resultados da interação de diversos fatores: ethos pré-
discursivo (ethos prévio), ethos discursivo (ethos mostrado), mas também “os fragmentos do
extraverbal. Qualquer enunciado carrega uma entoação valorativa, um tom volitivo-emocional. Aquilo que não é
dito na cena enunciativa ganha relevância apoiado ao conceito de entoação de Bakhtin (2000).
14
O fiador é aquele que se revela no discurso. “O destinatário tem construído a figura de um fiador dotado de
propriedades físicas (corporalidade) e psicológicas (caráter) apoiando-se em um conjunto difuso de
representações sociais avaliadas positiva ou negativamente, de estereótipos que a enunciação contribui para
reforçar ou transformar.” (MAINGUENEAU, 2016b, p. 14).
15
“O conceito de incorporação exerce três finalidades: a enunciação confere uma corporalidade ao fiador, ela lhe
corpo; o destinatário incorpora, assimila através da enunciação um conjunto de esquema que corresponde a
uma maneira específica de se relacionar com o mundo; essas duas primeiras incorporações permitem a
constituição de um corpo, da comunidade imaginária dos que aderem ao mesmo discurso.” (MAINGUENEAU,
2016b, p. 14, grifos do autor).
16
Refere-se a cenários estereotipados alusivos a elementos verbais e não verbais.
17
A dimensão categórica abrange os “papéis discurso ou extradiscursivos. Os papéis discursivos são aqueles
relacionados à atividade de fala: animador, contador de histórias, pregador. Os estatutos extradiscursivos podem
ser de natureza muito variada: pai de família, funcionário, médico, camponês, americanos, solteiros, etc.; a
dimensão experiencial do ethos abrange as caracterizações sócio-psicológicas estereotipadas, associadas às
noções de incorporação e de mundo ético: bom senso e lentidão do campo, dinamismo do jovem executivo; a
dimensão ideológica se refere a alguns posicionamentos dentro de um campo: feminista, de esquerda,
conservador ou anticlericais.” (MAINGUENEAU, 2016b, 15).
18
Donald Trump.
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
217
texto nos quais o enunciador evoca sua própria enunciação (ethos dito)” diretamente “é
um amigo que lhe fala” ou “indiretamente, por meio de metáforas ou de alusões a outras cenas
de fala, por exemplo.” (MAINGUENEUAU, 2011, p. 18, grifo do autor). A diferença entre o
ethos dito e o ethos mostrado se inscreve nos limites de uma linha; é muito difícil definir uma
fronteira cristalina. O ethos efetivo resulta da interação entre as diversas esferas. A Figura 1
mostra o ethos efetivo e permite a compreensão da dinâmica e da complexidade na construção
do ethos.
Figura 1 - Ethos
Fonte: Maingueneau (2008, p. 71)
Pode-se depreender que é a partir do ethos, isto é, por meio do jeito de falar, que o
locutor desperta no coenunciador a elaboração de determinada representação de si. Portanto,
para a análise de discurso o ethos é concebido como parte constitutiva da cena de
enunciação, não como uma simples estratégia persuasiva”. (FREITAS, 2010, p. 179). Além
disso, destaca-se que esse locutor não é homogêneo, mas sim heterogêneo, eivado por
diversas vozes e forças sociais que atuam no seu discurso. O próximo item é dedicado às
diretrizes metodológicas do estudo.
4 Essência metodológica
A essência metodológica deste estudo segue as recomendações de Prodanov e Freitas
(2013). Quanto aos procedimentos metodológicos, a pesquisa é de natureza aplicada, com
abordagem qualitativa. Assume-se o caráter exploratório; quanto à coleta de dados; o
procedimento é bibliográfico e documental - corpus -, tratando-se de um estudo documental
disponibilizado no site Youtube. O critério da escolha do objeto empírico, isto é, a transcrição
discursiva de trechos do primeiro pronunciamento oficial de Donald Trump, depois de eleito
presidente dos Estados Unidos, deu-se em razão da importância do discurso político de um
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
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presidente que terá a responsabilidade de governar a maior potência econômica do mundo. A
materialidade discursiva de discursos políticos promove reflexões sobre o embate de forças
sociais, isto é, forças centrípetas e centrífugas, cruzando-se pelos fatos de ordenação política,
social e ideológica. A interação verbal remete à elaboração de uma cena enunciativa que
engendra a construção do ethos ou ethé do locutor.
Seguindo o aporte teórico do estudo, organizam-se os constructos teóricos
apresentados na Figura 2, que concebem o dispositivo que referencia a análise do corpus.
Figura 2 - Dispositivo epistemológico de análise
Fonte: Elaborado pelos autores
Conforme sugere o dispositivo, a análise do estudo baseia-se nos seguintes construtos
teóricos que serão apresentados na ordenação dos itens a e b, para uma melhor compreensão
do dispositivo, uma vez que existem momentos da análise que prevalecem um ou outro
aspecto. Dessa forma, seguem os constructos mobilizados:
a) As forças centrípetas e centrífugas em circulação: esse construto teórico evidencia, por
meio da perspectiva dialógica do discurso, de Bakhtin (2000, 2002), a existência de forças
centrífugas e centrípetas que demonstram as lutas valorativas, ideológicas e culturais que as
palavras travam por meio de atores sociais nos espaços discursivos.
b) A cena enunciativa e o ethos discursivo: são construtos teóricos que, por meio da
perspectiva enunciativo-discursiva de Maingueneau (2008, 2011, 2016a), abarcam questões
da cena enunciativa e os desdobramentos que engendra a construção do ethos discursivo.
O estudo está organizado da seguinte forma: primeiramente, apresenta-se o corpus de
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
219
pesquisa. Logo após, passa-se à análise de resultados e apresentação dos quadros sínteses de
cada constructo. Por último, constam as considerações finais do estudo.
5 Rumo ao pronunciamento de Donald Trump
O corpus do estudo é a transcrição discursiva de trechos do primeiro pronunciamento
de Donald Trump, após vencer as eleições presidenciais nos Estados Unidos. O vídeo é
apresentado no site do Youtube e leva-se à análise alguns recortes da linguagem verbal
utilizada pelo presidente eleito. As últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos
aconteceram no dia 8 de novembro de 2016, sendo a 58ª eleição presidencial no país.
Considera-se que essas eleições, que levaram o candidato republicano
19
a ganhar, foram uma
daquelas em que houve as disputas mais acirradas da história americana. O pronunciamento,
primeiramente, foi apresentado na televisão, ao vivo, e no dia seguinte, dia 09 de novembro
de 2016, foi disponibilizado pela mídia digital, no site do Youtube. A seguir, passa-se à
análise do primeiro bloco de construtos teóricos:
a) As forças centrípetas e centrífugas em circulação: a perspectiva dialógica de
Bakhtin e seu Círculo (2000, 2002) dá subsídios à compreensão das forças sociais que atuam
fortemente dentro dos grupos partidários, como o partido republicano, no qual Donald Trump
está inserido. Percebe-se que, mesmo em um partido “aparentemente coeso
20
”, constata-se a
coexistência de forças centrípetas e centrífugas que colocam em tensão os valores ideológicos
e as crenças do grupo. As marcas discursivas é hora de os Estados Unidos curarem as feridas
da divisão, de promover a união, revelam os conflitos e embates que circularam durante a
campanha eleitoral. Percebe-se que Trump, além de travar lutas ideológicas com o partido
democrata
21
, dividiu o próprio partido. Pode-se dizer que a visão do mundo é uma expressão
das atitudes responsivas ativas (BAKHTIN, 2002) que o sujeito enuncia na linguagem. As
feridas da divisão marcam que os espaços discursivos são espaços de lutas e valorativos que
se movimentam por gestos centrípetos e centrífugos. As pistas discursivas para aqueles que
optaram por não me apoiar no passado, e existem algumas pessoas nessa categoria, estou
solicitando sua orientação e sua ajuda para que possamos trabalhar juntos e unificar nosso
grande país, mostram que visões de mundo diferentes. O processo dialógico e de
alteridade evidenciam que as forças centrípetas atuam no sentido de assegurar o consenso
19
Há dois partidos principais nos Estados Unidos: os democratas (políticas de centro-esquerda) e os republicanos
(políticas mais conservadoras).
20
Referência à ideologia, crenças e valores do partido.
21
Partido de Barack Obama e Hillary Clinton.
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
220
entre os eleitores e entre os colegas do partido republicano que se dividiram pelas forças
centrífugas de descentralização e se posicionaram contra Trump durante as eleições.
É pertinente entender que as forças dialógicas do social encontram nos processos de
entoação do sujeito espaços para centralizar-se ou descentralizar-se. O rastro discursivo
trabalhando juntos, iniciaremos a urgente tarefa de reconstruir nossa nação e renovar o
sonho americano é um convite que Trump faz ao povo americano, que vê no novo presidente
a possibilidade de renovação, de mudança e de as forças centrífugas atuarem como uma
possibilidade de expressão responsiva dos sujeitos à situação atual do país. Nas pistas
discursivas buscaremos terreno comum, não hostilidade; parceria, não conflito emergem as
forças centrípetas como uma forma de resposta aos embates valorativos que povoaram a
mente da população dividida entre a manutenção do governo democrático ou uma busca por
mudança. Nota-se que a identidade (HALL, 2009) é construída a partir dos movimentos das
forças sociais da linguagem, visto que põe em xeque o posicionamento de Trump durante a
campanha eleitoral
22
. Apesar do que disse em campanha sobre a construção de um muro entre
os Estados Unidos e o México, por exemplo, ocasião em que mostrou um posicionamento
autocrático ‒ no discurso da vitória Trump tentou mostrar-se conciliador e unificador.
Um ponto relevante a ser destacado é que Trump, em seu pronunciamento, de forma
geral, utiliza entoações autocráticas evidenciadas nas pistas discursivas quero dizer à
comunidade mundial que sempre colocaremos os interesses dos Estados Unidos acima de todos
os demais, mas lidaremos de forma justa com todos, com todo mundo. Na mesma intensidade,
os enunciados autocráticos de Trump são revestidos por um verniz democrático, o que
evidencia a maneira de dizer do atual presidente, com o intuito de interpelar os coenunciadores
a aderir ao discurso.
Salienta-se que Trump, em seu pronunciamento, combina traços democratas e
republicanos. Percebe-se que não superação definitiva de contradições (FARACO, 2013),
isto é, Trump apoia seus discursos políticos em ideologias, por vezes, marcadas por forças
centralizadoras, noutras, marcadas por forças descentralizadoras. O que fica claro é que a
política, para Trump, é construída com apoio na valorização de sua identidade (HALL, 1997),
de seu jeito de ser e de dizer. Dessa forma, passa-se à análise do segundo bloco de construtos
teóricos:
b) A cena enunciativa e o ethos discursivo: seguindo o trajeto feito em busca da trilha
metodológica para a concepção do ethos como imagem de si, destaca-se a construção das cenas
22
Posicionamentos autocráticos e ditatoriais de Trump durante a maioria das falas na campanha eleitoral.
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
221
enunciativas: 1) cena englobante: trata-se de um discurso político; 2) cena genérica: trata-se de
um pronunciamento político; 3) a cenografia instituída convida os eleitores democratas e
republicanos a unirem-se e lutarem por um país melhor. O pronunciamento de Trump acontece
com a participação de sua família e pessoas importantes do meio político dos Estados Unidos.
Embora a campanha das eleições presidenciais norte-americanas tenha sido uma das mais
acirradas da história do país, a cenografia estabelecida no pronunciamento revela um tom
amistoso, apesar de que, durante a maior parte dessa campanha, o tom utilizado por Trump
tenha dividido opiniões até mesmo dentro do partido republicano. O convite cenográfico
interpela os coenunciadores a compartilhar o objetivo comum de lutar pelos Estados Unidos.
Pelas marcas discursivas vamos sonhar coisas para o nosso país, e coisas belas, coisas de
sucesso uma vez mais se evoca o desejo de todo o cidadão estadunidense de ver seu país
reerguer-se. Maingueneau (2016a) afirma, em relação a esse discurso, que as marcas do modo
de dizer do enunciador ficam mais evidenciadas, visto que o tom amistoso da enunciação de
Trump vai validando a cenografia por ele elaborada. As pistas enunciativo-discursivas olhem
todo esse pessoal que temos aqui. Olhem esse pessoal todo enfatizam que Trump fez uma
campanha eleitoral maravilhosa e que o resultado culminou na sua vitória sobre Hillary Clinton.
O tom conciliador de Trump, a partir das marcas textuais acabo de receber um
telefonema da secretária Clinton. Ela nos congratulou. Isso é sobre nós. Por nossa vitória, e eu
a congratulei, e à sua família, por uma campanha muito, muito disputada, permite que o
coenunciador elabore uma representação do enunciador (Donald Trump), que o coloca como
um fiador do pronunciamento proferido, situando-o como aquele que pede aos americanos que
se unam a uma causa comum: reerguer os Estados Unidos, afinal, mesmo com sua importância,
eventualmente, um pouco diminuída, eles são uma grande potência mundial.
O pronunciamento de Trump, sua maneira de dizer, oportuniza a adesão
23
dos
coenunciadores a um mundo ético (MAINGUENEAU, 2016b) em que o presidente pode
solucionar todos os problemas que há no país, ou seja, uma construção estereotipada da
atividade política. O ethos prévio remete à ideia de que Trump poderá reerguer o país com a
união de todos os americanos, tanto os democratas como os republicanos, conforme as pistas
discursivas: é um movimento formado por americanos de todas as raças, religiões e crenças,
que desejam e esperam que o governo sirva ao povo, e é isso que o governo fará. Vale lembrar
que a população ficou dividida quanto à campanha política de Trump, visto que, dentro do
próprio partido republicano, houve reprovação de suas ideias e sua forma autocrática de liderar.
23
Incorporação do coenunciador (MAINGUENEAU, 2016b).
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
222
As marcas enunciativo-discursivas - prometo a cada cidadão de nosso país que serei o
presidente de todos os americanos, e isso é muito importante para mim; A todos os
republicanos e democratas e independentes de todo o país, digo que é hora de nos unirmos
como um só povo - mostram um ethos dito que legitima a figura do presidente como um homem
que vai unificar o povo americano. As pistas textuais os homens e mulheres esquecidos de
nosso país deixarão de ser esquecidos; iniciaremos um projeto de crescimento e renovação
nacional; teremos grandes relacionamentos revelam a preocupação com todo o povo americano
e em gerar um diálogo que possibilite grandes relacionamentos. O ethos mostrado pela cena
enunciativa auxilia na construção de um ethos que busca o consenso entre o povo americano.
Trump procura restaurar os traumas gerados pela divisão partidária das eleições e promover a
união do povo para poder seguir em frente e fazer o melhor pelo país.
Nota-se, portanto, que a cena enunciativa evoca a grandiosidade de um país e legitima a
credibilidade de Trump como condutor desse enorme empreendimento que é a unificação de um
povo e a busca de melhorias para o mesmo. Trump estrutura um ethos discursivo de solidez e de
conciliação, ainda que, em sua campanha eleitoral, ele tenha apelado para pronunciamentos
recheados de polêmica e ironia que levaram muitos dos estadunidenses a rejeitar suas ideias.
O Quadro 1 apresenta uma síntese do construto teórico a) As forças centrípetas e
centrífugas em circulação. Trata-se da análise do primeiro pronunciamento de Trump, após sua
vitória como presidente dos Estados Unidos em 2016.
Quadro 1 Síntese das forças sociais
a) As forças centrípetas e centrífugas em circulação:
Percebe-se que mesmo em um partido “aparentemente coeso” há uma coexistência de forças centrípetas e
centrífugas que colocam em tensão os valores ideológicos e as crenças do grupo.
‒ Trump, além de travar lutas ideológicas com o partido democrata, dividiu o próprio partido. Pode-se dizer que
a visão do mundo é uma expressão das atitudes responsivas ativas (BAKHTIN, 2002) que o sujeito enuncia na
linguagem.
O processo dialógico e de alteridade evidenciam que as forças centrípetas atuam no sentido de assegurar o
consenso entre os eleitores e entre os colegas do partido republicano, que se dividiram pelas forças centrífugas
de descentralização e se posicionaram contra Trump durante as eleições.
‒ Nota-se que a identidade (HALL, 2009) é construída a partir dos movimentos das forças sociais da linguagem,
visto que põe em xeque o posicionamento de Trump durante a campanha eleitoral24. Observa-se que a
identidade de Trump, nesse discurso, converge a um processo de conciliação e unificação do povo.
‒ Os discursos autocráticos de Trump são revestidos por um verniz democrático, o que evidencia a maneira de
dizer do atual presidente que tem o intuito de interpelar os coenunciadores à adesão do discurso.
-Trump, em seu pronunciamento, combina traços democráticos e republicanos. Percebe-se que não
superação definitiva de contradições (FARACO, 2013), isto é, Trump apoia seus discursos políticos em
ideologias, por vezes marcados por forças centralizadoras, por vezes, marcados por forças descentralizadoras. O
que fica marcado é que a política, para Trump, é construída com apoio na valorização de sua identidade (HALL,
1997), de seu jeito de ser e de dizer.
Fonte: Elaborado pelos autores
24
Posicionamentos autocráticos e ditatoriais de Trump durante a maioria das falas na campanha eleitoral.
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
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As forças centrípetas e centrífugas são forças antagônicas que operam no meio social.
O discurso de Trump mostra os embates valorativos, simbólicos, ideológicos e cultuais que
são travados pela palavra e pelos atores que as enunciam. A compreensão desse ambiente
dialógico permite entender os confrontos existentes nas arenas comunicacionais. A seguir,
apresenta-se o Quadro 2 que mostra uma síntese dos construtos teóricos b) A cena enunciativa
e o ethos discursivo, a partir dos resultados detalhados neste estudo.
Quadro 2 Síntese da cena enunciativa e do ethos discursivo
b) A cena enunciativa e o ethos discursivo:
‒ Cena englobante: discurso político; cena genérica: pronunciamento político; cenografia: a cenografia
instituída convida os eleitores democratas e republicanos a unirem-se e lutarem por um país melhor. A
cenografia estabelecida no pronunciamento revela um tom amistoso nas enunciações. O convite cenográfico
interpela os coenunciadores a compartilhar o objetivo comum de lutar pelos Estados Unidos e fazer dele a
maior potência mundial; evoca-se o desejo de todo o cidadão estadunidense de ver seu país reerguer-se.
Maingueneau (2016) afirma que as marcas do modo de dizer do enunciador ficam mais evidenciadas, visto
que o tom amistoso da enunciação de Trump vai validando a cenografia por ele elaborada.
‒ O tom conciliador de Trump o coloca como um fiador do pronunciamento proferido, situando-o como
aquele que pede aos americanos que se unam a uma causa comum: reerguer os Estados
Unidos, afinal, mesmo com sua importância, eventualmente, um pouco diminuída, eles
são uma grande potência mundial. O pronunciamento de Trump, sua maneira de dizer, oportuniza a
adesão25 dos coenunciadores a um mundo ético (MAINGUENEAU, 2016b) em que o presidente pode
solucionar todos os
problemas que há no país, ou seja, uma construção estereotipada da atividade política.
‒ O ethos prévio remete à ideia de que Trump poderá reerguer o país com a união de todos os americanos,
tanto os republicanos quanto os democratas. Vale lembrar que a população ficou dividida quanto à
campanha política de Trump, visto que dentro do próprio partido republicano, houve reprovação de suas
ideias e de sua forma autocrática de liderar.
‒ O ethos dito legitima a figura do presidente como um homem que vai unificar o povo americano.
Preocupação com todo o povo americano em gerar um diálogo que possibilite grandes relacionamentos.
‒ O ethos mostrado pela cena enunciativa auxilia na construção de um ethos que busca o consenso entre o
povo americano. Trump procura restaurar os traumas gerados pela divisão partidária das eleições e
promover a união do povo para poder seguir em frente e fazer o melhor pelo país. Nota-se que a cena
enunciativa evoca a grandiosidade de um país e legitima sua credibilidade como condutor desse enorme
empreendimento que é a unificação de um povo e a busca de melhorias para o país.
‒ Trump estrutura um ethos discursivo de solidez e de conciliação, visto que, em sua campanha eleitoral, ele
apelou para pronunciamentos recheados de polêmica e ironia, o que levou muitos estadunidenses a
rejeitarem suas ideias.
Fonte: Elaborado pelos autores
O jogo das imagens de si, do ethos discursivo no pronunciamento de Trump,
relaciona-se ao cruzamento de olhares: o olhar do outro sobre aquele que se enuncia, o olhar
daquele que se enuncia como ele imagina que o outro o (CHARAUDEAU;
MAINGUENEAU, 2012). É importante realçar que nem sempre o ethos é construído de
25
Incorporação do coenunciador (MAINGUENEAU, 2016b).
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
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maneira consciente e nem sempre o destinatário adere ou percebe o ethos construído da
mesma maneira. Eis a complexidade da comunicação e dos estudos do ethos discursivo.
Para finalizar, tem-se que os dois blocos de construtos teóricos que constituem o
dispositivo de análise (Figura 2) evidenciam um espaço de lutas valorativas, simbólicas e
culturais pela linguagem, no qual se depreendem os ethés discursivos, como imagens de si,
apoiados em cenografias enunciativas.
6 Conclusão
As eleições presidenciais nos Estados Unidos, em 2016, foram pauta da maioria dos
meios de comunicação em todo o mundo. Este estudo tematizou o discurso político, tendo em
vista a riqueza da materialidade discursiva, delimitado à análise do primeiro pronunciamento
de Donald Trump, após vencer as eleições para a presidência de seu país.
A questão norteadora revelou a existência de forças centrípetas e centrífugas na
linguagem e o objetivo foi analisar o primeiro discurso de Donald Trump como presidente,
sob o aspecto da existência dessas forças no discurso, o que ficou evidenciado pela
compreensão da cena enunciativa e da identificação do ethos discursivo como imagem de si.
O estudo foi de grande valia, pois possibilitou reflexões acerca da análise do primeiro
discurso de Donald Trump como presidente, evidenciando a existência de forças antagônicas
que circulam concomitantemente na arena comunicacional e a pertinência dos estudos sobre o
ethos para a Linha de Pesquisa Linguagem em Processos Comunicacionais. Compreendeu-se
que é na interação verbal que se o embate de vozes discursivas e que é a partir desses
embates que as cenas enunciativas são construídas e que é delas que emana o ethos discursivo
de Donald Trump onde predominam ethés discursivos de solidez e de conciliação.
Acredita-se que a pesquisa, utilizando-se de materialidades discursivas de
pronunciamentos políticos, disponibilizado no Youtube, pode colaborar com futuras
investigações sobre os aspectos teóricos mobilizados. A potencialização da comunição e da
circulação de sentidos, nesta ferramenta, favorecem uma maior interação com os atores
sociais e modificam a forma de comunicar e construir sentido com o público, quando
comparado aos meios de comunicação mais tradicionais como a televisão. Pode-se considerar
como limitação desta pesquisa o fato de a investigação ocorrer apenas sobre um
pronunciamento político de Donald Trump. Aconselha-se ampliar, em estudos posteriores, a
análise de outros objetos empíricos, como vídeos, revistas impressas e programas de TV
divulgados durante a campanha política do novo presidente.
Diálogo das Letras, Pau dos Ferros, v. 06, n. 02, jul./dez. 2017.
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Nos regimes democráticos, o presidente de um país é o porta-voz de um povo. A
regulação da atividade política e a compreensão dos ambientes dialógicos onde circula o
embate de forças sociais são fundamentais para que entendamos os mecanismos que estão em
jogo na arena comunicacional. A cena enunciativa, o sujeito que atua e se enuncia, apoiado
em um ethos construído durante seu discurso, sugerem que esse gênero discursivo seja palco
de jogos de poderes, afinal, para ser digno do poder, é necessário que se passe pela
linguagem, pela palavra, pelo sujeito em seu ato de responsividade para com o outro.
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< https://www.youtube.com/watch?v=GDqUUpD26Hs> Acesso em: 20 nov. 2016.
Data de recebimento: 12 de abril de 2017.
Data de aceite: 9 de dezembro de 2017.
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O objetivo deste trabalho é analisar a cenografia e o ethos discursivo da linguagem carnavalizada inscrita no gênero samba-enredo intitulado "Uma História. Um Memorial. A Unidos Canta a Paz Universal", mediante as concepções de Bakhtin, sobre carnavalização, e de Maingueneau, em relação à cenografia e ao ethos discursivo. Um estudo dessa natureza se justifica pelo fato de que a carnavalização bakhtiniana pode ser analisada em textos de qualquer época e, sobretudo a partir da proposta teórico-metodológica de Maingueneau (1984/2008a), é viável investigar todo discurso atentando para os planos que o constituem. Os planos constitutivos são entendidos como alguns sinais que, posteriormente, permitem referenciar a cenografia e o ethos de um discurso como categorias que se depreendem da semântica global. Os resultados encontrados evidenciam que o samba-enredo distingue-se como gênero pela sua natureza ambivalente, a qual se configura pela inscrição da dêixis enunciativa em um espaço e tempo carnavalescos.
A leitura da palavra e a palavra da leitura: plasticidade e sentido. 2015, 115 f. Tese (Doutorado em Letras, Área de Concentração: Letras). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
  • A D Batista
BATISTA, A. D. A leitura da palavra e a palavra da leitura: plasticidade e sentido. 2015, 115 f. Tese (Doutorado em Letras, Área de Concentração: Letras). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.
Estética da criação verbal. Tradução de Maria Ermantina Galvão Pereira. 3
  • M Bakhtin
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Isto é e Carta Capital, 2014, 170 f. Tese (Doutorado em Comunicação e Informação)
  • D Bertasso
  • Jornalismo De Revista E Ethos
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Linguagem na atividade de trabalho: ethos discursivo em editoriais de jornal interno de empresa. Desenredo -Revista do Programa de Pós-Graduação em
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Círculo de Bakhtin: pensamento interacional
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O romance: uma forma ético-política na perspectiva bakhtiniana
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FANINI, A. M. R. O romance: uma forma ético-política na perspectiva bakhtiniana, Bakhtiniana Revista de Estudos do Discurso, São Paulo, v. 8, jan./jun. 2013: p. 21-39.