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De morenos e alemães-batata a quilombolas e pomeranos: reflexões acerca de marcadores identitários e políticas públicas

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Tomando que as identidades étnicas se configuram como fronteiras, neste trabalho buscamos refletir sobre a construção de identidades de quilombolas e pomeranos na Serra dos Tapes, região localizada ao sul do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Para além das categorias quilombola e pomerano, distintos termos são ali empregados pelos grupos para autodescrever-se bem como para descrever aos outros. A partir da elaboração, por um lado, de políticas de reconhecimento de comunidades remanescentes de quilombo e, por outro, de ações de valorização do patrimônio cultural pomerano, tais categorias são também incorporadas no cotidiano relacional. O trabalho evidencia que, na região estudada, as identidades étnicas, construídas social e politicamente, também o são por ação das políticas públicas.
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An t r o p o l í t i c A
Revista Antropolítica, n. 41, Niterói, p.266-294, 2. sem. 2016
DE MORENOS E ALEMÃES-BATATA A
QUILOMBOLAS E POMERANOS: REFLE-
XÕES ACERCA DE MARCADORES IDEN-
TITÁRIOS E POLÍTICAS PÚBLICAS1
Maurício Schneider
Bacharel em Antropologia e Mestre em Antropologia pel a Universid ade Federal de Pelota s.
Evander Eloí Krone
Mestre em Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e em Antropolo-
gia pela Universidade Federal de Pelotas. Doutorando em Antropologia pela Universidade Federal
de Pernambuco.
Renata Menasche
Doutora em Antropologia Social. Professora do Curso de Bacharelado em Antropologia e do Prog ra-
ma de Pós-Graduação em Ant ropologia da Univers idade Federal de Pel otas; Professora do Programa
de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural da Universid ade Federal do Rio Grande do Sul.
RESUMO
Tomando que as identidades étnicas se conguram como fronteiras, neste
trabalho buscamos reetir sobre a construção de identidades de quilombo-
las e pomeranos na Serra dos Tapes, região localizada ao sul do estado do
Rio Grande do Sul, Brasil. Para além das categorias quilombola e pomera-
no, distintos termos são ali empregados pelos grupos para autodescrever-se
bem como para descrever aos outros. A partir da elaboração, por um lado,
de políticas de reconhecimento de comunidades remanescentes de quilom-
bo e, por outro, de ações de valorização do patrimônio cultural pomerano,
tais categorias são também incorporadas no cotidiano relacional. O traba-
lho evidencia que, na região estudada, as identidades étnicas, construídas
social e politicamente, também o são por ação das políticas públicas.
1 Uma versão inicial deste trabalho foi submetida à discussão no Simpósio de Pós-Graduação “Rela-
ções raciais: desigualdades, identidades e políticas públicas”, no 39º Encontro Anual da ANPOCS,
ocorrido em Caxambu/MG, no período de 26 a 30 de outubro de 2015.
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Palavras-chave: campesinato; relações interétnicas; quilombolas; pome-
ranos; políticas públicas.
ABSTRACT
Considering that ethnical identities may be congured as borders, this
work seeks to reect on the construction of identities of quilombolas and
Pomeranians at Serra dos Tapes, located in the Southern region of the state
of Rio Grande do Sul, Brazil. In addition to the categories quilombola and
Pomeranian, the groups use dierent expressions to describe themselves
as well as to describe the others. From the development, on one hand, of
policies of acknowledgement of remaining Quilombo communities and,
on the other hand, of actions to appreciate the Pomeranian cultural he-
ritage, such categories are also incorporated into the relational quotidian.
e work shows that, in the region studied, ethnical identities are cons-
tructed not only politically and socially, but also through public policies.
Key-words: peasantry; interethnic relationships; quilombolas; Pomera-
nians; public policies.
Introdução
A região da Serra dos Tapes, ao sul do Rio Grande do Sul – que atual-
mente compreende, entre outros, partes dos municípios de Canguçu, Pelotas
e São Lourenço do Sul – foi, até o século XVIII, território dos Tapes, povo
indígena pertencente à família linguística Tupi Guarani e do qual deriva sua
denominação. Posteriormente, passou a ser ocupada por comunidades for-
madas por escravos afrodescendentes fugidos ou libertos do sistema escra-
vocrata e, mais tarde, pela criação de colônias de imigrantes europeus não
ibéricos (isto é, não portugueses e tampouco espanhóis), sobretudo, alemães,
pomeranos, italianos, franceses e irlandeses, conforme Giancarla Salamoni
e Carmen Aparecida Waskievicz (2013).
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Durante os períodos do Brasil Colônia e Império2, a região sul do Rio
Grande do Sul teve, como mostra o historiador pelotense Mário Osório Ma-
galhães (1993), sua economia baseada principalmente na produção de gado
de corte, com utilização de mão de obra escrava. A região da Planície Costei-
ra, onde hoje se encontra a zona urbana do município de Pelotas, às margens
da Lagoa dos Patos e vizinha à Serra dos Tapes, foi um dos mais importantes
polos de produção de charque3 do país. O charque era produzido em esta-
belecimentos semi-industriais denominados charqueadas, fazendo uso de
grande contingente de trabalhadores escravos (MAGALHÃES, 1993).
Desse modo, desde o nal do século XVIII, a Serra dos Tapes passou ser
ocupada por afrodescendentes, sobretudo escravos fugidos das charqueadas.
Segundo Rosane Rubert e Paulo Sergio da Silva (2009), com a abolição da es-
cravatura (em 1888), outras comunidades quilombolas foram se constituin-
do na região através de posse, compra ou doação de terras.
Já os pomeranos chegaram à Serra dos Tapes a partir de meados do
século XIX, por meio de processo de colonização, que, como aponta Giralda
Seyfert h (1992), assentou imigrantes europeus não ibéricos em outras regiões
do Rio Grande do Sul e do Brasil, especialmente, nos estados do Sul e Sudes-
te. Cabe destacar que as colônias criadas no sul do Brasil tiveram origem ora
por iniciativas governamentais (Governo central e Governos provinciais) e
ora por iniciativas particulares.
A ocupação colonial da Serra dos Tapes deu-se, desde o início, em in-
tenso compartilhamento territorial entre imigrantes de diferentes origens
nacionais e regionais. Como indica Marinês Grando (1984), assim foi que,
em uma mesma colônia, estabeleceram-se famílias de diferentes origens –
especialmente alemãs, pomeranas e italianas, mas eventualmente também
2 A m de evitar possíveis equívocos decorrentes do emprego dos termos colônia e colonial, opta-
mos por usar a expressão Brasil Colônia (grafada em letra maiúscula) quando referente ao perío-
do histórico. Já quando tratarmos de temas relacionados aos projetos estatais de colonização ou a
questões relacionadas à v ida dos colonos, os termos aparecerão g rafados em letra minúscu la.
3 Charque é o nome dado às peças de carne de gado salgadas e secas ao sol. O charque era destinado
à expor tação para outr as regiões do Brasi l e exterior, sendo espe cialmente uti lizado como al imento
de escravos.
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francesas e irlandesas. Do mesmo modo, algumas famílias brasileiras adqui-
riram propriedades e estabeleceram-se na região como colonos.
Em muitos casos, as famílias de diferentes origens étnicas vivem muito
próximas e compartilham o território e equipamentos públicos, tais como
escolas e postos de saúde. Compartilham também espaços e práticas religio-
sas e de trabalho. Há, ainda, casamentos e relações de compadrio entre eles.
Tais relações, contudo, são muitas vezes também conituosas. Há relatos de
discriminação, bem como de oportunidades desiguais entre pessoas de gru-
pos étnicos distintos.
É nesse contexto relacional que estabelecemos o ponto inicial de re-
exão do trabalho. Buscamos observar como as identidades são construí-
das e mantidas nas interações entre os grupos, notadamente quilombolas e
pomeranos. Procuramos também discutir como algumas políticas públicas,
comumente formuladas a partir da imagem de que os grupos são isolados,
incidem sobre grupos que, de fato, mantêm relações bastante próximas com
outros. Nesse sentido, trazemos para a análise o ensinamento do antropó-
logo Fredrik Barth (2000), para quem as identidades étnicas são denidas
menos a partir de conteúdos culturais especícos que das interações estabe-
lecidas entre eles, isto é, das fronteiras construídas em contextos de relação.
Situando o universo de pesquisa
Este trabalho foi concebido a partir de estudos etnográcos realizados
na região das Serra dos Tapes, por ocasião das pesquisas de mestrado dos
dois primeiros autores (KRONE, 2014; SCHNEIDER, 2015). Tais estudos se
inserem no quadro de iniciativas de pesquisas realizadas pelo Grupo de Es-
tudos e Pesquisas em Alimentação e Cultura (GEPAC), vinculado ao Labora-
tório de Estudos Agrários e Ambientais da Universidade Federal de Pelotas
(LEAA/UFPel)4.
4 Para acessar os trabalhos desenvolvidos no âmbito do Grupo de Estudos e Pesquisas em Alimenta-
ção e Cultura, ver: ht tp://www.ufrgs.br/pgd r/gepac/. É preciso notar que os estudos re alizados pelo
GEPAC encontram na obse rvação da al imentação abord agem para acessa r modos de vida, va lores e
prática s dos grupos que vi vem nessa região. Todavia , tais estudo s não estão restr itos a essa temática
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A pesquisa de Krone (2014) centrou-se em discussão a respeito de ações
de valorização do patrimônio cultural pomerano no município de São Lou-
renço do Sul, bem como na relação dessas ações com a vida cotidiana de
famílias pomeranas. São Lourenço do Sul tem parte de seu território situado
na Serra dos Tapes e conta com presença de comunidades quilombolas e de
famílias de colonos pomeranos e alemães.
A partir de 1858, por meio de projeto privado de colonização, estabeleceu-
-se na região uma colônia de famílias de origem pomerana e alemã, a Colônia
São Lourenço. Segundo Patrícia Bosenbecker (2011), registros e documentos
ociais identicam os imigrantes como vindos, salvo raras exceções, da Prús-
sia, que à época correspondia a um vasto território, marcado por diferenças
regionais. Entre os primeiros imigrantes a chegarem à Colônia São Lourenço,
estavam grupos vindos da costa do mar báltico, originários do território da
Pomerânia – correspondente às atuais regiões norte da Alemanha e da Polônia
–, enquanto que outro grupo de imigrantes veio da Renânia, região situada no
oeste da atual Alemanha. Os dois grupos de imigrantes se distinguiam em
muitos aspectos, inclusive linguisticamente: enquanto os pomeranos falavam
o Pommersch, os renanos falavam o dialeto Hunsrückisch5.
Segundo Charles Furtado Vilela (2008), os pomeranos representaram
cerca de 80% do contingente de imigrantes prussianos que colonizaram São
Lourenço do Sul6. Contudo, apesar da superioridade numérica dos pomera-
nos, houve um processo de germanização desses imigrantes, como eviden-
ciado nos trabalhos de Carmo um (2009) e Evander Eloí Krone (2014). Tal
processo pode ser associado ao fato de os pomeranos dedicarem-se majori-
tariamente a atividades vinculadas ao mundo rural, enquanto os alemães se
voltavam para atividades urbanas, socialmente mais valorizadas, ocupando
posições de poder na vida política, econômica e religiosa da região.
e é assim que o trabalho aqui apresentado não se debruça diretamente sobre a temática da alimen-
tação.
5 Para maiores informações sobre as diferenças linguísticas entre esses grupos, ver o trabalho de
Marina Marchi Mujica (2013).
6 No Brasil, o estado do Espírito Santo é o que recebeu maior número de imigrantes pomeranos, se-
guido por Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
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Valores germânicos foram sendo impostos a partir de instâncias for-
madoras como escolas e igrejas, em que professores e pastores de origem
alemã ensinavam e rezavam no dialeto Hunsrückisch. Assim, ainda que
no cotidiano das famílias pomeranas as crianças fossem sociabilizadas na
língua e cultura pomeranas, nas instituições escolares e religiosas eram
educadas a partir de valores germânicos, correspondentes ao grupo local
socialmente dominante. Também, ainda que renanos e pomeranos fossem
considerados alemães, os segundos eram marcados como de tipo inferior,
associando-se ao estigma a distinção étnica e a característica camponesa
dos pomeranos7.
Como evidenciado no estudo de Krone (2014), é possível observar a
existência, entre os pomeranos da região, de uma autoimagem negativa, sen-
do comum escutar deles próprios comentários que os caracterizam como
atrasados, desconados, rudes e grosseiros, em oposição aos alemães, con-
siderados trabalhadores, organizados e bons comerciantes. É nesse contexto
que, como mostram um (2009) e Krone (2014), muitos pomeranos passa-
ram a não expor sua origem étnica pomerana fora de ambientes domésticos,
preferindo assumir-se publicamente apenas como alemães.
Tal situação começou a alterar-se apenas a partir dos anos 2000, quan-
do o poder público municipal de São Lourenço do Sul passou a investir em
uma política de valorização do patrimônio cultural pomerano. Foi nesse con-
texto que, em 2008, foi criada no município uma rota turística denominada
“Caminho Pomerano”, que proporciona visitas a várias propriedades rurais e
contato com costumes pomeranos. Também nesse quadro, é promovida no
município a doktoberfest, festa de cunho étnico que celebra – através de
manifestações de música, dança, folclore e comidas consideradas típicas – a
germanidade e, nos últimos anos, também a pomeraneidade.
7 Principalmente a partir da revolução industrial e do processo de urbanização das cidades, as práti-
cas e modos de v ida camponeses fora m sistematicamente desvalor izados em diferentes sociedades,
implicando em uma visão de campo como espaço marcado pelo atraso técnico, econômico e inte-
lectu al de seus moradores . Para uma introdu ção ao assunto, va le ver o trabal ho Raymond Will iams
(199 0) .
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Ainda que, como destacado por Krone (2014), de natureza essencialis-
ta, as ações de valorização do patrimônio cultural pomerano têm, de algum
modo, contribuído para reverter a estigmatização vivida por esse grupo. Se
antes – dado o processo de germanização, anteriormente comentado – rara-
mente alguém se armava enquanto pomerano, atualmente muitos parecem
assumir essa identidade. No entanto, vale mencionar que, tal como apontado
por Carolina Vergara Rodrigues (2012), ao centrar-se na valorização do pa-
trimônio cultural pomerano, as políticas públicas implementadas também
contribuem para ocultar o lugar de outros grupos étnicos – especialmente os
afrodescendentes – na formação histórica, social e econômica do município.
No plano das vivências cotidianas, o trabalho de Schneider (2015)
abordou a temática das relações interétnicas entre quilombolas e pomera-
nos a partir de etnograa realizada em duas comunidades quilombolas e em
uma localidade com forte presença de famílias pomeranas, respectivamente,
Comunidade Quilombola da Favila, no município de Canguçu, Comunida-
de Quilombola do Algodão e Colônia Triunfo, as duas últimas situadas no
município de Pelotas.
Tais comunidades são próximas umas das outras e seus moradores es-
tabelecem diversas e frequentes relações: utilizam os mesmos equipamentos
públicos, como escola e posto de saúde, trabalham junto em plantações de
fumo, frequentam as mesmas festas comunitárias e benzedeiras e alguns
quilombolas falam o idioma pomerano. Há também casos de relações ma-
trimoniais entre membros dos dois grupos, apesar de tais casamentos não
serem considerados preferenciais, como veremos adiante.
Desde 2010, a Comunidade Quilombola do Algodão foi reconhecida
como tal pela Fundação Cultural Palmares. A comunidade é formada por
mais de oitenta famílias, que vivem em núcleos separados uns dos outros,
entremeados por propriedades de colonos pomeranos. Em cada núcleo resi-
dem de três a dez famílias. Segundo contam os moradores da comunidade,
os quilombolas estabeleceram-se na região pela posse da terra em pequenas
áreas. Quando, posteriormente, chegaram os pomeranos, a terra foi dividida
em lotes e o território ocupado em torno das áreas quilombolas. As famílias
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que vivem nos núcleos da comunidade do Algodão não possuem terras su-
cientes para cultivar, sendo que a maior parte desses moradores trabalha
como diarista em propriedades de pomeranos.
A Comunidade Quilombola da Favila teve sua certidão expedida pela
Fundação Palmares em 2009. Diferentemente do Algodão, essa comunidade
é formada por território contíguo, onde vivem cerca de dez famílias. O ter-
ritório pertencia a um ancestral dos atuais membros da comunidade e foi
deixado para estes por herança. Cada família possui um lote de terra de cerca
de 10 hectares, onde cultivam suas próprias plantações, geralmente fumo,
para comercialização.
Nenhuma das comunidades possui a posse coletiva do território que
ocupa. No caso da comunidade do Algodão, seus membros alegam temer
que, uma vez iniciado o processo – e contando com a demora em sua con-
clusão –, os colonos, sabendo que poderiam ser desapropriados, deixem de
lhes oferecer empregos. Também na comunidade da Favila acreditam que o
processo de regularização poderia acarretar no desalojamento de famílias
que vivem próximo a eles, o que consideram não seria correto, mesmo que
em tais casos o Governo Federal viesse a indenizar pelas terras sobre as quais
têm domínio e pelas benfeitorias nelas existentes. Tal situação evidencia a
complexidade das relações estabelecidas entre os grupos8.
Já os colonos pomeranos que moram na Colônia Triunfo possuem pe-
quenas propriedades, onde vivem e trabalham com suas famílias, em geral
produzindo fumo destinado à comercialização. Cabe destacar que, durante
muito tempo, a Serra dos Tapes caracterizou-se por uma matriz associada
principalmente à produção voltada ao autoconsumo (SALAMONI; WAS-
KIEVICZ, 2013). Nas últimas décadas, contudo, a produção de fumo tem se
fortalecido, sendo um dos cultivos mais rentáveis e presentes na paisagem
da região.
É preciso observar que as interações entre quilombolas e pomeranos,
assim como entre estes e outros grupos étnicos, são amplamente presentes
8 Para aprofu ndamento dessa discussão, ver a rtigo de Schneider e Menasche (2016).
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na Serra dos Tapes, não sendo particulares às localidades estudadas nes-
te trabalho. Nesse sentido, cabe mencionar como ilustrativo o fato de que,
como apontam Patrícia Weiduschadt et al. (2013), por toda a região muitos
quilombolas falam a língua pomerana e alguns são adeptos do luteranismo,
religião predominante entre as comunidades de origem alemã e pomerana.
Também, como relatado por Daniel Cassol (2013), a existência, em um dis-
trito rural do município de Canguçu, de dois templos religiosos da Igreja
Evangélica Luterana do Brasil (IELB), distantes apenas um quilômetro um
do outro, sendo um deles frequentado apenas por famílias negras e o outro
exclusivamente por famílias de origem alemã e pomerana.
Morenos, alemães e outras variações
No quadro em que as identidades são construídas nas interações, chama
atenção a profusão de termos utilizados pelos membros dos dois grupos para
se autodenominarem e para descreverem aos outros. Nesse sentido, quilombo-
la e pomerano constituem-se como duas possibilidades não exclusivas dentro
de um amplo espectro de termos utilizados como marcadores de diferenças.
O termo mais difundido entre quilombolas para se autodesignarem é o
termo negro. Também é este termo mais antigo que aquele: como veremos, a ca-
tegoria quilombola apenas recentemente chegou a este contexto. O termo negro
é acionado no cotidiano dos moradores das comunidades, mas também é uti-
lizado pelas lideranças, alternando-o com o termo quilombola, em falas politi-
zadas, como a de Nilo Dias, presidente da Associação Quilombola do Algodão9:
Tudo que vinha do negro era feio. Então as pessoas não se assumiam
negras porque o que mais falavam era que tudo que vinha do negro
não prestava. Ficava um serviço errado: isso é coisa de negro.
9 Ao longo do texto, nomes de alguns interloc utores foram mantidos e out ros omitidos. Uma vez que
o contexto d a pesquisa é marc ado por relações muit as vezes conit uosas, a não uti lização de nomes
verdadeiros se mostrou, por vezes, necessária , sob o risco de expor demasiada e desnecessar iamen-
te interlocutores. No entanto, a om issão dos nomes de alguns interlocutores não faria sentido, pois
carac terística s particul ares de suas identid ades ou posições que oc upam os tornam fac ilmente iden-
ticáv eis, como no caso dos pre sidentes das asso ciações das comu nidades qui lombolas pesqui sadas.
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Utiliza-se também o termo carambola10, como substituto de quilom-
bola. Este é utilizado principalmente pelos mais velhos e sua existência pode
indicar a recente familiarização com a categoria quilombola, que até pouco
tempo não fazia parte do vocabulário local.
Os pomeranos alternam sua autoidenticação entre este e o termo
alemão. Como relata uma agricultura pomerana da localidade de Colônia
Triunfo:
Nós falávamos tudo em pomerano lá também [no município de San-
ta Cruz do Sul, onde tinham ido para vender fumo]. Aí uma [pessoa]
falou uma coisa para mim em alemão legítimo e eu não entendi. [...]
Lá na rma onde nós fomos vender fumo. Aí ela disse umas coisas e
eu não entendi. Eles falavam de outro jeito. Minha nossa! [...] Aquele
é Hunsrückisch. Eu não entendi uma palavra que eles disseram. Bem
ligeiro eles falam. É, nós, assim, entre nós, nós dizemos que falamos
alemão. Mas agora a gente diz que é pomerano. A gente confunde
ainda.
As identidades de alemães e de pomeranos mantêm relação estreita
com o idioma falado por cada um desses grupos. No passado acreditava-se
que o pomerano não passava de um dialeto derivado do Hunsrückisch, idio-
ma falado pelos imigrantes de origem renana. Atualmente, tanto estudiosos
quanto os próprios pomeranos reconhecem tratar-se de dois idiomas distin-
tos11. Pode-se dizer que é pomerano quem fala o idioma pomerano e renano
(ou alemão) quem fala o Hunsrückisch. No dia a dia, contudo, pomeranos se
reconhecem muitas vezes como alemães e se dizem falantes de alemão, ainda
que um alemão diferente do falado pelos renanos12.
10 Como observaram A lexandre Daros et al. (2007), o uso do termo carambola também é comum
entre membros de comunidades quilombolas – bem como, em referência a seus membros, entre
colonos alemã es e italianos – d a localidade de São Roque, município d e Arroio do Meio, no Vale do
Taquari, Rio Grande do Sul.
11 Ver, a respeito, o trabalho de Ismael Tressmann (2008).
12 Segundo Neubiana Silva Veloso Beike (2013), o termo pomerano originou-se da forma latinizada
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Mas não basta ser falante do idioma para ser considerado pomerano.
No contexto estudado, muitos quilombolas falam pomerano. Ainda que
não sejam muito bem aceitos, existem casamentos entre membros dos dois
grupos, o que leva muitos quilombolas a aprender o pomerano. No passado,
também era comum que aprendessem o idioma ao trabalhar em proprieda-
des de colonos pomeranos, muitos dos quais não falavam português. Além
disso, recentemente a escola da Colônia Triunfo, que atende a quilombolas e
a pomeranos, reativou uma disciplina de língua pomerana e cultura afro. Na
disciplina são ensinados elementos da língua pomerana intercalados com
elementos tomados como de origem cultural africana.
De ambos os lados, é também relatado o uso de termos entendidos
como pejorativos ou depreciativos. Quando desejam reportar-se aos negros,
no mais das vezes os pomeranos ou utilizam o termo quilombola ou o termo
moreno13 . Este não é utilizado pelos quilombolas para se autodenominarem
e é entendido por alguns deles como tentativa de “amenizar” sua identidade
enquanto negros.
Em algumas ocasiões, o termo negro é utilizado pelos pomeranos, se-
guido de expressões pejorativas, como ladrão. Nilo relata que essa situação
era comum no passado: Olha como eram chamadas antigamente as comuni-
dades quilombolas: eram chamadas dos negros-ladrões. Cabe mencionar que,
segundo relatam os moradores da região estudada, devido à falta de terras
cultiváveis (que foram ocupadas pelos colonos pomeranos) e outras formas
de renda, no passado eram frequentes casos em que quilombolas apropria-
vam-se de alimentos de lavouras vizinhas.
Entre os pomeranos, é também comum o uso do termo tuca para refe-
rir-se àquelas pessoas que não são de origem europeia e que não dominam a
da palav ra alemã Pommersch. De acordo com essa autora, além do Pommersch (forma em a lemão),
há menções, com referência à fala pomerana, a Pomeranian (forma inglesa, utilizada nos Estados
Unidos), Plattdeutsch (para os pomerano-brasileiros, que se referem dessa forma à língua), sendo
ainda possível encontrar as denominações Pommerschplatt ou Pommeranisch.
13 Letícia de Faria Ferreira e Patrícia Ma rasca Fucks (2014) observam que, na localidade de São Paulo
das Tunas, no mun icípio de Giruá, na reg ião noroeste do Rio Gra nde do Sul, também é comu m entre
os colonos alem ães a utiliza ção do termo moreno para referi r-se a quilombolas que v ivem na região.
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língua pomerana. De modo geral, tuca é um termo classicatório utilizado
para inferiorizar os “estrangeiros”, sujeitos de fora, especialmente luso-bra-
sileiros e negros.
Outro termo próximo a tuca é Schwarz. Este, contudo, difere daquele
por ser utilizado para referir-se exclusivamente a negros. Schwarz é indicati-
vo da cor da pele do sujeito, sendo que a palavra está presente em dicionários
contemporâneos da língua alemã, tendo como tradução negro ou preto.
Ambos os termos, tuca e Schwarz, possuem sentido classicatório na
delimitação de parceiros possíveis e aceitáveis nos matrimônios. Tucas e Sch-
warz são sujeitos considerados indesejados nas relações matrimoniais pome-
ranas, ainda que, na prática, existam casamentos entre os grupos. Entre as
famílias rurais pomeranas do município de São Lourenço do Sul, os casa-
mentos com pessoas de origem alemã ou pomerana são valorizados, sendo
tomados como indicativo de ascensão social. Já casamentos com luso-bra-
sileiros não são bem aceitos, ainda que mais tolerados do que aqueles com
negros.
Já ao se referirem aos pomeranos, os quilombolas igualmente utilizam
os dois termos, alemães e pomeranos. Alguns pomeranos, contudo, costu-
mam queixar-se de que quilombolas fazem uso pejorativo do termo alemão,
fazendo-o seguir de adjetivos como grosso, batata e de merda, como ilustra
o relato reproduzido abaixo, de uma colona de origem pomerana, moradora
da Colônia Triunfo:
Os quilombolas que tem por aqui, eles não chamam nós de... como
é que se diz... a gente mora no Brasil, a gente é brasileiro também,
né. Eles chamam nós de alemão-grosso. Alemão-batata. Assim eles
falam. Alemão de merda.
Em relação aos colonos, além dos termos pomerano e alemão, é tam-
bém empregado o termo de origem, que faz referência não apenas a pomera-
nos, mas, de modo geral, aos descendentes de imigrantes europeus não ibé-
ricos, vindos para o Brasil no processo de colonização. Esse termo é bastante
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utilizado por quilombolas para referir-se a colonos, não fazendo distinção se
são pomeranos/alemães ou de outra origem étnica. Seyferth (1992) aponta a
utilização do termo de origem entre colonos de distintas etnias no Vale do
Itajaí, em Santa Catarina. Segundo a autora, para além das diferenciações
entre alemães, italianos e poloneses, presentes na região de seu estudo, a ca-
tegoria colono inclui a todos e assume forte componente étnico. Assim, são
colonos ou de origem aqueles que compartilham a crença em uma origem
comum, europeia, além de certos valores, como o apego à terra e ao trabalho,
que os diferenciariam de caboclos ou brasileiros.
Voltando à Serra dos Tapes, os termos brasileiros ou pelo duros são utili-
zados pelos de origem, europeus de distintas procedências, para referirem-se
aos que não são, como eles, de origem, mas que tampouco são negros. Estes
últimos, conforme já visto, são chamados de morenos. O termo branco é em-
pregado por muitos quilombolas ao referir-se a pomeranos. Nesse caso, não
se faz distinção clara entre pomeranos e outros. Todos são não negros ou não
quilombolas – termos também utilizados por eles.
Há, por m, mais uma categoria que aparece nesse contexto relacional,
a de alemão-quilombola. Apesar de não tão frequentes, acontecem alguns
casamentos entre quilombolas e pomeranos. Nesses casos, o(a) quilombola
deixa de pertencer a sua comunidade de origem, passando a viver na resi-
dência do(a) cônjuge, como colono(a), ou, alternativamente, o(a) colono(a)
pomerano(a) passa a integrar a comunidade quilombola. Essa situação é re-
latada por Seu Olívio, presidente da Associação Quilombola da Favila:
Tem alemão-quilombola dentro da minha comunidade. Porque eles
casaram com gente daqui. Casaram, zeram a família. Tem um ne-
gro, que é meu sobrinho, que é casado. Eu tenho lho casado com
uma alemoa loira, mas esse não é da minha comunidade porque ele
mora lá no Arroio do Padre. E aí deu aquela encrenca lá em Can-
guçu, quando vieram essas casas [como benefício do Programa do
Governo Federal “Minha Casa, Minha Vida”] para os quilombolas
[...]. Mas ela [funcionária da Secretaria do Município de Canguçu]
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não quis aceitar casa para esses alemães, esses que são sócios casados.
Para o meu sobrinho, que é casado com uma alemoa, ela não queria
dar casa. Não, essa é alemoa. Mas para aí. Ela é alemoa, o marido é
negro e tem lho já estudando. Não são casados, estão juntos, mas
têm os mesmos direitos. Tem lho já com sete, oito anos, no colé-
gio. Como é que não é quilombola? Isso que nós já tínhamos feito
reunião lá em Porto Alegre, discutido o assunto e que eles disseram:
pode ser alemão, pode ser branco, desde que acompanhando as reu-
niões, legalizando-se como quilombola, adotando que ele seja qui-
lombola, não interessa a cor.
Conforme evidenciado no relato, apesar de no plano comunitário os
alemães serem reconhecidos como membros legítimos da comunidade, sen-
do-lhes atribuída a identidade de alemães-quilombolas, o poder público lo-
cal parece não entender esse arranjo matrimonial como uma possibilidade,
negando direitos a pessoas que se autorreconhecem e são reconhecidas pelo
grupo como integrantes.
Ainda pensando em categorias: colonos, pequenos agricultores
e agricultores familiares
Além de marcadores vinculados a distinções étnicas e raciais, existem
outros que estão também presentes nas relações entre os membros dos dois
grupos no contexto estudado. A categoria colono diz respeito, assim como
de origem, a todos os imigrantes que se estabeleceram através de processo de
colonização, adquirindo lotes de terra. A colônia signica tanto a localidade,
como a propriedade em que cada família mora. Por consequência, os descen-
dentes de imigrantes e que receberam propriedades destes em herança são
também considerados colonos.
Segundo Jean Roche (1969), os termos colono e colônia têm origem no
idioma alemão, respectivamente nos termos Kolonist (que se refere ao ho-
mem que desbrava e cultiva a terra) e kolonie (que diz respeito a um lote
ou estabelecimento rural). Cabe notar que o termo colono tem sua origem
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nos projetos estatais de colonização, sendo posteriormente apropriado pelos
imigrantes como categoria genérica de identicação. Como aponta Seyferth
(1992, p.80), “para o Estado, eram colonos todos aqueles que recebiam um
lote de terras em áreas destinadas à colonização”. Nesse sentido, pode-se su-
gerir que, na Serra dos Tapes, a diversidade étnica existente no processo de
colonização apresentou-se como que amalgamada pela identicação comum
colono, em processo semelhante ao que a autora descreve em estudo realiza-
do no Vale do Itajaí, Santa Catarina (SEYFERTH, 1994).
No contexto estudado, contudo, colono diferencia-se do termo de ori-
gem na medida em que, diferentemente do que se dá no Vale do Itajaí es-
tudado por Seyferth (1992), também é empregado para designar brasileiros
que possuem e trabalham em pequena propriedade. Além de alemães, po-
meranos, italianos e imigrantes oriundos de outros países e regiões, na Serra
dos Tapes, conforme observam Salamoni e Waskievcz (2013), foram também
criadas colônias com famílias brasileiras.
Alternativamente a colono, mas em menor frequência, são ainda utili-
zados os termos pequeno agricultor e agricultor familiar, que, assim como o
primeiro, em épocas distintas constituíram-se a partir de políticas públicas.
Pode-se sugerir que o emprego dessas expressões esteja vinculado à atuação
de entidades ligadas à produção agrícola na região, a exemplo de empresas
fumageiras, que estabelecem contratos com os produtores de fumo, e de or-
ganizações que prestam assistência técnica, como a Empresa de Assistência
Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (EMATER) e a organização
não governamental Centro de Apoio ao Pequeno Agricultor (CAPA).
Segundo Delma Pessanha Neves (2007), no Brasil, ao nal da década de
1990, o termo pequeno agricultor, até então usual nos cenários político e aca-
dêmico, foi substituído pelo termo agricultor familiar. A autora observa que,
enquanto o primeiro fazia referência ao tamanho das propriedades, o segundo
destaca o tipo de trabalho realizado – no caso, familiar –, marcando distinção
em relação à agricultura patronal, realizada com mão de obra assalariada.
Na esfera política, o termo agricultor familiar teve o mérito de agregar
diferentes grupos sociais na busca por reconhecimento de direitos. No plano
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do cotidiano, contudo, nem sempre essa categoria é plenamente apropriada,
dando-se muitas vezes preferência, em delimitações identitárias, a outros
termos, enraizados em contextos especícos. Assim, percebe-se que, na re-
gião estudada, em comparação ao termo colono, os termos pequeno agricul-
tor e agricultor familiar são bem menos empregados. Pode-se sugerir que
isso se deva também ao fato de colono ser termo menos restrito à atividade
prossional. Segundo Neves (2007), a utilização do termo agricultor familiar
enquanto categoria socioprossional pode obscurecer a análise das especi-
cidades de cada grupo. Como aponta essa autora, nem sempre os elementos
centrais a serem considerados na denição de identidades e modos de vida
são a agricultura ou o trabalho familiar.
Na região estudada, utilizam-se, ainda, outros termos diferenciadores
vinculados à dimensão do trabalho. Categorias como diarista, empregado e
peão servem para designar aqueles que trabalham em propriedades de outros
e recebem remuneração por dia de serviço prestado. São tanto quilombolas
como pomeranos, ainda que seja mais frequente que os primeiros vendam
sua força de trabalho. Se ocorre mais comumente que aqueles que contratam
reram-se a partir dos dois últimos termos (empregado e peão), também se
dá que aqueles que são contratados empreguem o primeiro (diarista). Es-
sas expressões, contudo, apontam não para atividades desempenhadas, mas
para a condição de assalariamento.
A esse respeito, quando em campo, um episódio chamou atenção. Uma
interlocutora, mesmo trabalhando para colonos e recebendo por dia de ser-
viço, armou não ser diarista e sim agricultora que trabalha por dia. Em suas
palavras: eu trabalho para fora, de agricultora, assim, no fumo. Eu trabalho
de agricultora, por dia. Parecia com isso querer armar que o que congura
sua identidade é o tipo de atividade que realiza como agricultora, não a for-
ma de remuneração por seu trabalho, por dia. Ou ainda talvez sua armação
fosse, enquanto mulher, no sentido de diferenciar seu trabalho como agri-
cultora do trabalho doméstico, diferenciação que está na base de bandeira
antiga das mulheres agricultoras organizadas em movimento, no processo
de construção de seu reconhecimento.
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O termo patrão designa aquele que contrata força de trabalho de diaris-
tas. São proprietários, em geral colonos.
Há, ainda, a categoria fumicultor, que se refere àquelas pessoas – tan-
to quilombolas quanto pomeranos – que possuem pequenas propriedades e
cultivam fumo, atualmente principal atividade desenvolvida pelas famílias
rurais da região.
Por m, destaca-se também a existência do termo parceiro, que desig-
na aquelas pessoas que arrendam terras, ou, como é referido no contexto
estudado, que trabalham de sociedade, de meia ou em parceria. A sociedade
consiste em um acordo em que uma das partes (o proprietário da terra, em
geral colono) cede uma área para plantio de fumo e o parceiro cede sua força
de trabalho. As duas partes dividem igualmente os gastos com a produção e
posteriormente os lucros com a venda do produto. No entanto, uma vez que
as sociedades não são mais tão frequentes como antigamente, o emprego da
categoria também passou a não o ser.
A seguir, organizamos um quadro sistematizando os principais termos
apresentados até aqui, utilizados pelos grupos para se autodenominarem e
para descreverem aos outros. Nas duas primeiras colunas aparecem expres-
sões utilizadas por quilombolas como autodenominações, bem como as de-
nominações a eles atribuídas. Já nas duas últimas, encontram-se autodeno-
minações utilizadas por pomeranos e as denominações a eles atribuídas. Na
parte superior do quadro constam os termos de conotação étnica e abaixo
estão outros termos, como aqueles que designam atividades. Para cada tipo,
os termos estão dispostos em ordem alfabética.
A partir da análise dos termos marcadores de identidade, antes apre-
sentados, percebe-se que, enquanto parte deles surge como que espontanea-
mente no contexto relacional estudado, outros surgem em esferas políticas,
passando a ser apropriados por essas pessoas e incorporados em seu vocabu-
lário e nas relações com o grupo vizinho.
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Figura 1: Quadro de termos empregados em referência a quilombolas e
pomeranos.
Quilombolas
(autodenomi-
nações)
Quilombolas
(denominações
atribuídas)
Pomeranos
(autodenomi-
nações)
Pomeranos
(denominações
atribuídas)
TERMOS DE CONOTAÇÃO ÉTNICA
carambola
negro
quilombola
moreno
negro
negro-ladrão
quilombola
Schwarz
tuca
alemão
colono
de origem
pomerano
alemão
alemão-batata
alemão-grosso
alemão de merda
branco
colono
de origem
não negro
não quilombola
pomerano
OUTROS TERMOS
diarista
fumicultor
parceiro
patrão
empregado
peão
pequeno agricul-
tor
agricultor familiar
diarista
fumicultor
parceiro
patrão
empregado
peão
pequeno produtor
produtor familiar
Sobre processos políticos: construindo quilombolidades e pomeraneidades
A análise de categorias vinculadas às atividades prossionais, não mar-
cadas exclusivamente pela dimensão étnica, pode auxiliar a entender como
os termos étnicos surgem ou se fortalecem no cotidiano relacional. A catego-
ria colono, por exemplo, como antes mencionado, surgiu com o projeto po-
lítico de colonização e foi apropriada pelos imigrantes como categoria gené-
rica de identicação, passando a designar todos os imigrantes europeus não
ibéricos e a servir como elemento de diferenciação em relação aos demais
grupos (SEYFERTH, 1992).
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Em relação aos termos quilombolas e pomeranos, também estes têm
suas trajetórias associadas a processos políticos mais amplos, que extrapo-
lam o cotidiano desses grupos. Por um lado, uma política nacional de reco-
nhecimento das comunidades remanescentes de quilombos, voltada, sobre-
tudo, para a regularização de seus territórios e, por outro, uma política local
de valorização do patrimônio cultural pomerano, estimulada, vale mencio-
nar, pela reivindicação do reconhecimento dos pomeranos enquanto povo
tradicional.
Segundo Eliane Cantarino O’Dwyer (2005), antes associada estrita-
mente ao passado escravocrata, a categoria comunidade remanescente de
quilombo foi atualizada com o advento da Constituição Federal de 1988,
mais precisamente a partir do artigo 68 do Ato das Disposições Constitucio-
nais Transitórias (ADCT)14. O artigo tinha como objetivo conferir direitos
territoriais às comunidades remanescentes de quilombo que estivessem ocu-
pando suas terras, garantindo a titulação denitiva pelo Estado. Para essa
autora, contudo, tal expressão não nomina diretamente indivíduos, grupos
ou populações, isto é, não é espontaneamente empregada como termo de
autoidenticação. Tal fato, segundo ela, coloca a questão de quem, anal,
seriam os chamados remanescentes de quilombo, que teriam seus direitos
atribuídos pelo dispositivo legal.
A introdução do substantivo quilombo no Brasil ocorreu no período do
Brasil Colônia, sendo que já então tinha signicado ambíguo. Rubert e Silva
(2009) observam que a palavra exprimia, simultaneamente, sentido de afronta
à ordem instituída, portanto passível de repressão, e sentido de resistência ao
cativeiro. Essas formas de resistência teriam se dado tanto de maneira direta
quanto indireta. Os autores destacam – no Rio Grande do Sul, região focaliza-
da em seu estudo – como delas característicos o tradicional esconderijo/refú-
14 Note-se que a introdução no texto constitucional de direitos étnicos ou diferenciados ocorreu por
meio de “Disposições Transitórias”, não como parte permanente da Constituição. Ilka Boaventura
Leite (2000) comenta que se acreditava, à época, que a sociedade brasileira estaria em processo
de “embranquecimento” e que por isso não faria sentido uma lei denitiva para as comunidades
quilombolas. Também se presumia que no lapso temporal de cinco anos todos os territórios de
quilombos já estivess em regulari zados, daí o car áter transitório do d ispositivo.
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gio, a doação testamental por parte de antigos senhores/estancieiros, a compra
(ainda que paga não apenas em dinheiro, mas também com trabalho ou outros
bens), a posse de terrenos devolutos e impróprios a atividades produtivas do-
minantes e a recompensa por participação em guerras e revoluções.
A partir do artigo 68 do ADCT, o termo quilombo consagrou-se como
símbolo aglutinador das mais variadas formas de resistência “às mais variadas
práticas de discriminação racial, às hierarquias raciais historicamente repro-
duzidas e à recorrente desatenção, por parte do poder público, das necessida-
des especícas dos afrodescendentes” (RUBERT; SILVA, 2009, p.257-258).
Como observa Alfredo Wagner Berno de Almeida (2011, p.162):
O que mais chama a atenção, quando reetimos sobre o advento da
categoria quilombola, é que, passados 21 anos, após a promulgação
da Constituição Federal de 1988, o que foi tratado pelos legislado-
res como categoria residual produto de uma classicação externa,
fundada na idéia de “remanescente”, tem sido redenido e ampliado
pela força das mobilizações e demandas de agentes sociais que assim
se autodenominam se constituindo hoje numa identidade coletiva
objetivada em movimento social. (grifo do autor)
Esse autor aponta, ainda, para certa dispersão geográca das autodeno-
minações das comunidades. Cabe registro aos termos mocambeiro, no Bai-
xo Amazonas e na região do Gurupi (Tocantins), e calhambolas na Baixada
Maranhense e no Amazonas. Apesar de não haver unanimidade, a grande
maioria das comunidades no Brasil passou a assumir o termo quilombola
como autoidenticação. E, segundo Almeida (2011), há tendência para que
as demais façam o mesmo. Nesse sentido, observa-se que tal categoria gené-
rica passa a ser apropriada por diferentes grupos sociais em distintas regiões,
aglutinando-os todos em torno de uma origem comum na resistência ao an-
tigo regime escravocrata e à atual discriminação racial e exclusão histórica.
O emprego corrente do termo pomerano tampouco tem existência
longínqua na vida das pessoas da região estudada. Conforme mencionado
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anteriormente, desde o início do processo de colonização na Serra dos Tapes,
os pomeranos foram identicados como alemães, ainda que alemães de tipo
inferior. Contudo, na última década, um processo de sentido contrário à es-
tigmatização, pautado por diversas ações e políticas de valorização do patri-
mônio cultural pomerano, vem sendo promovido pela Prefeitura Municipal
de São Lourenço do Sul. Observa-se que o poder público desse município
passou a investir em política local de valorização do passado, da memória
e do patrimônio cultural das famílias rurais de origem pomerana. É nesse
contexto de construção e armação de uma nova pomeraneidade que se ob-
servam iniciativas como a criação da rota de turismo rural “Caminho Pome-
rano” e a atualização da Südoktoberfest, conforme comentado anteriormente.
Além das mencionadas acima, outra iniciativa relacionada à valoriza-
ção do patrimônio cultural pomerano consistiu nas encenações da chegada
dos imigrantes, realizadas em 2008 e 2009, por ocasião das comemorações,
respectivamente, dos 150 e 151 anos da imigração em São Lourenço do Sul.
Nessas ocasiões, grupos de cerca de cem pessoas caracterizadas com roupas
da época da colonização encenaram, no porto do município, o desembarque
dos imigrantes vindos da Pomerânia e de outras regiões alemãs e seguiram,
a pé ou em carroças, até a região onde foi fundada a Colônia São Lourenço.
Tais iniciativas podem ser entendidas a partir de uma perspectiva mais
ampla, em que se constitui uma política nacional de valorização do patrimô-
nio imaterial. Conforme apontam Maria Leticia Mazzucchi Ferreira e Ro-
berto Heiden (2009), a promulgação da Constituição Federal de 1988 incor-
porou a dimensão imaterial às políticas de patrimonialização, que até então
estavam voltadas apenas a bens edicados e obras de arte.
Abordado no interior dessas manifestações sociais, o patrimônio
passa então a se identicar, para além do material, com aquelas ex-
pressões que caracterizavam uma Nação plural, multiétnica, com-
posta por diferentes matizes culturais. As celebrações religiosas, as
formas de expressão, os lugares e os saberes que atravessavam gera-
ções, passaram a ter um papel fundamental naquilo que se denomi-
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nou Patrimônio Cultural Nacional, cuja tarefa de proteção passou a
ser uma atribuição do Estado, denida no próprio texto constitucio-
nal de 1988 (FERREIRA; HEIDEN, 2009, p.138).
Vale ter presente que as ações observadas em São Lourenço do Sul são,
ainda, inuenciadas por outras iniciativas de valorização da cultura pome-
rana, realizadas a partir do Espírito Santo15, estado que possui a maior co-
lônia de imigração pomerana do Brasil. Em vários municípios capixabas o
bilinguismo é reconhecido e o idioma pomerano é ensinado em escolas de
comunidades pomeranas. A partir de sua organização no Espírito Santo, os
pomeranos têm mantido papel ativo nos fóruns de debate dos povos tradi-
cionais, com participação na Comissão Nacional de Desenvolvimento Sus-
tentável dos Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT).
Ainda que tendo como principais objetivos o fomento do setor turístico
e da economia local, pode-se considerar que em São Lourenço do Sul as ini-
ciativas de valorização do patrimônio cultural pomerano têm contribuído
para o fortalecimento dessa identidade. Os colonos pomeranos, que antes
sofriam com a estigmatização, atualmente parecem sentir-se mais valoriza-
dos e é nesse contexto que, diferentemente do ocorrido em período anterior,
hoje muitos parecem querer armar-se pomeranos.
Percebe-se, assim, que, de formas distintas, a constituição de identida-
des de quilombolas e pomeranos passa pela interação com políticas públicas
voltadas a esses grupos. Em relação aos quilombolas, observa-se um proces-
so de emergência dessa identidade étnica vinculada ao reconhecimento, em
âmbito nacional, das comunidades remanescentes de quilombos. Quanto
15 Ainda que não seja objetivo desde artigo a comparação com contextos de grupos pomeranos de
outras re giões do Brasil, v ale mencionar que des valorizaç ão similar à v ivenciada por pomer anos no
Rio Gra nde do Sul parece pre sente no Espírito Sa nto. Trabalhos lá rea lizados por Is mael Tressmann
(2005) e Joana Bahia (2011) mostram a existência de preconceito linguístico em relação a falantes
do pomerano e inferiorização de práticas culturais e religiosas pomeranas. A título de ilustração,
vale mencionar o artigo publicado na Revista Veja, em junho de 1994, em que o jornalista Ricardo
Grinbaum descreveu os pomeranos como “gente do outro mundo”, armando que “os descenden-
tes de pomera nos vivem no Espírito Santo como se est ivessem na Europa do séc ulo passado”.
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aos pomeranos, tal identidade é ressignicada e revalorizada a partir de ini-
ciativas locais de valorização do patrimônio cultural pomerano.
Nesse sentido, pode-se associar o processo de emergência dessas identi-
dades étnicas a um movimento social mais amplo e vinculado ao surgimento
de políticas de salvaguarda de modos de vida de povos e comunidades tradi-
cionais. Segundo Regina Abreu (2005), esse processo teve início nos anos de
1990, quando a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência
e a Cultura (UNESCO) anunciou a preocupação com o desaparecimento dos
chamados povos tradicionais diante do aprofundamento da globalização. É
nesse quadro que a UNESCO passou a recomendar que os Estados Nacionais
criassem políticas de proteção para salvaguardar os conhecimentos e culturas
de povos e comunidades tradicionais. Para Almeida (2008), os conhecimentos
nativos, até então contestados pela sociedade envolvente, passaram a assumir a
base do reconhecimento dos direitos dos povos tradicionais. É nesse contexto
que, nas últimas décadas, surgiram vários movimentos sociais, com a emer-
gência de identidades étnicas reivindicando direitos territoriais e sociais.
No âmbito nacional, a nova fase de democracia do Estado brasileiro, mar-
cada pela abertura democrática nos anos 1980 e pela promulgação da Consti-
tuição Federal, em 1988, abriu espaço para “novos” sujeitos de direitos, sendo
que alguns deles viriam a colocar-se no cenário político nacional armando-se
através de identidades étnicas. Segundo Marcelo de Oliveira (s.d.), com vistas
ao reconhecimento da sociedade como pluriétnica e multicultural, o Estado
brasileiro contribuiu para a armação desses novos sujeitos de direito.
Almeida (2008) observa que as formas de associação e atuação política
de grupos tradicionais têm incorporado a dimensão étnica, estando volta-
das ao reconhecimento de territórios tradicionalmente ocupados. O autor
aponta o surgimento de “novas” identidades coletivas, tais como quilombo-
las, seringueiros, castanheiros, quebradeiras-de-coco-babaçu, pescadores,
ribeirinhos, atingidos por grandes obras, moradores de fundos de pasto e
faxinalenses, além dos povos indígenas16.
16 Almeida (2008) menciona, a inda, pomeranos da região de Pancas (ES), que habita m área de preser-
vação ambiental, bem como ciganos, considerados nômades e desterritorializados.
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Nesse processo de organização política a partir da dimensão étnica e
da busca por direitos, sobretudo territoriais, podemos perceber, ainda, ou-
tras ações voltadas para a valorização da diversidade étnica e cultural. É o
caso de políticas de salvaguarda do patrimônio imaterial de diferentes gru-
pos culturais, mencionadas anteriormente.
Apesar de constituírem-se como políticas distintas, em alguns mo-
mentos se pode observar, na região estudada, cruzamento e sobreposição de
ações voltadas para esses grupos. Conforme relatado por Rodrigues (2014),
em 2009 o movimento negro local demandou sua participação na comemo-
ração dos 151 anos da imigração pomerana em São Lourenço do Sul. Segun-
do essa autora, durante a encenação da chegada dos imigrantes pomeranos
foi possível observar “mulheres negras investidas no papel de quitandeiras à
beira da lagoa e, quando do deslocamento até a zona rural, os imigrantes ou-
viram o som dos atabaques e cantos dos negros e das negras aquilombados
(RODRIGUES, 2014, p.40).
Há, ainda, o caso dos alemães-quilombolas – anteriormente menciona-
dos – que, apesar de fazerem parte de comunidades quilombolas e terem esse
pertencimento por elas reconhecido, nem sempre são entendidos pelo poder
público como beneciários legítimos de tais políticas.
Pode-se sugerir que, na região estudada, as políticas públicas voltadas
a quilombolas e a pomeranos nem sempre dialogam. Apesar da grande
quantidade de afrodescendentes e de comunidades quilombolas em São
Lourenço do Sul, o município se reconhece como essencialmente pome-
rano (RODRIGUES, 2014) e volta sua política de patrimonialização exclu-
sivamente a esse grupo, deixando à margem os demais. A política voltada
aos quilombolas, ao menos em âmbito local, desconsidera outros grupos
que com eles convivem e se relacionam. Pode-se assim sugerir que, nos
momentos de formulação e implementação de tais políticas, por vezes se
desconheça ou desconsidere os contextos relacionais em que os grupos vi-
vem, promovendo, em alguns casos, imagens essencializadas a seu respeito.
Tudo se passa como se as políticas públicas soubessem exatamente quem é
e o que dene cada grupo social.
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A esse respeito, no âmbito do uso ideológico da tradição e do patrimô-
nio, o apelo ao essencialismo tem se congurado em estratégia de constru-
ção, elaboração e ressemantização da identidade cultural de muitos grupos
sociais. Os atuais processos de etnização e o recurso ao essencialismo emer-
gem muitas vezes de contexto de lutas identitárias e de processos reivindica-
tórios que tiveram lugar em políticas públicas brasileiras na última década.
Assim é que autores como Gayatri Chakravorty Spivak (1987) têm falado em
essencialismo estratégico, ou seja, um tipo de essencialismo que estaria im-
bricado em solidariedades dirigidas à ação social.
Entretanto, mesmo que motivado por ações militantes, dirigidas à ação
social, o essencialismo pode alojar discursos perigosos, mobilizados por
uma espécie de purismo étnico, muitas vezes ocultando o próprio processo
de acúmulo, comunicação e intercâmbio entre diferentes grupos e socieda-
des humanas. Vale mais uma vez lembrar que, como já argumentava Barth
(2000), não apenas as diferenças culturais distinguem um grupo de outro,
mas também – e principalmente – cumprem esse papel as fronteiras étnicas
estabelecidas, isto é, as denições formuladas daqueles que pertencem e dos
que não pertencem a determinado grupo.
Considerações finais
Há que reconhecer, na região estudada, o importante papel das polí-
ticas públicas voltadas para quilombolas e para pomeranos. Em relação aos
primeiros, foi a partir de políticas de reconhecimento das comunidades
remanescentes de quilombos que diversos afrodescendentes tiveram reco-
nhecido seu direito sobre os territórios que tradicionalmente ocupam, além
de se tornarem beneciários de políticas públicas de distribuição de renda,
moradias populares, energia elétrica, entre outras. Do lado dos pomeranos, a
política de valorização do patrimônio cultural foi responsável pela positiva-
ção da identidade étnica deste grupo, colocando-se em sentido contrário ao
predominante no longo processo de estigmatização vivido por eles.
Contudo, pode-se sugerir que o conhecimento mais aprofundado da
realidade local, bem como do contexto relacional em que vivem estes grupos
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poderia auxiliar na conguração de políticas públicas mais adequadas. Tais
políticas, acreditamos, não deveriam perder de vista o fato de que as identi-
dades étnicas são uidas, se estabelecem nas fronteiras das relações entre os
grupos e que os termos identitários atuam como marcadores de diferenças
em um campo relacional.
Conforme vimos, o vocabulário de termos classicatórios utilizados
na região estudada é bastante vasto e complexo. Enquanto alguns termos
marcam características exclusivas de um grupo ou de outro, separando-os,
tais como negros e brancos ou quilombolas e pomeranos, outros agregam
características, promovendo a intersecção entre os grupos, como é o caso
dos alemães-quilombolas. Do mesmo modo, se alguns termos surgem mais
ou menos espontaneamente na esfera cotidiana, outros são apropriados ou
revalorizados no contexto local a partir das categorias utilizadas pelas políti-
cas públicas. Como vimos, este é o caso dos termos quilombola e pomerano.
Mais que conteúdos culturais especícos, que podem ser alvo de es-
sencializações, procuramos mostrar que as identidades são forjadas rela-
cional e politicamente. Nesse sentido, a melhor maneira de entender como
se constroem as identidades e como os grupos se autodenem, estabelecem
pertencimentos e fronteiras entre si parece ser assegurando o direito a que
eles próprios o façam, bem como o direito de que suas autodenições sejam
ouvidas e respeitadas. Assim, a promoção da diversidade pode ser pensada a
partir da pluralidade de campos relacionais, sem que, para incentivar a va-
lorização de determinado grupo, seja preciso promover sua essencialização
ou invisibilizar os demais.
REFERÊNCIAS
1. ABREU, Regina. Quando o campo é o patrimônio: notas sobre a participação
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O objetivo foi compreender o sistema de cuidado à saúde entre famílias rurais ao Sul do Rio Grande do Sul. Constituiu-se de uma pesquisa qualitativa, com orientação etnográfica, realizada em 2014, com 25 interlocutores, residentes em um território rural. Os dados foram analisados por meio de uma abordagem hermenêutica antropológica. As práticas de cuidado à saúde, para essas famílias rurais, envolvem diferentes saberes, tanto os oriundos do sistema formal, quanto do sistema informal de saúde. Essas práticas transitam pelo cuidado familiar, serviços biomédicos, religiosidade, não ocorrendo um fluxo único, mas utilizando-se dos diferentes espaços e serviços, de acordo com suas necessidades. Nesse sentido, para realização de um cuidado integral à saúde dos indivíduos e das suas famílias, os profissionais necessitam conhecer o contexto cultural da comunidade acompanhada, entender e valorizar as práticas e as dinâmicas de cuidado que integram seu sistema de cuidado à saúde.Descritores: População Rural, Família, Cultura, Enfermagem. Health care system of rural familiesAbstract: The aim was to comprehend the health care system of rural families in the south of Rio Grande do Sul. Qualitative research with etnographic orientation, developed in 2014, with 25 interlocutors, residents of a rural territory. Data were analyzed through antropological hermeneutic approach. Health care practices, for these rural families, involve different knowledge, those from the formal system and those from the informal system of health. These practices transit through family care, biomedical systems and services, religiosity, not a single flow, but using different spaces and services, according to their needs. Thus, the realization of an integral health care of the individuals and their families requires professionals that know the community’s cultural context, understand it and value practices and care dybamics that integrate their health care system.Descripstors: Rural Population, Family, Culture, Nursing. Sistema de atención de salud a familias ruralesResumen: El objetivo era comprender el sistema de atención de salud entre las familias rurales en el sur de Rio Grande do Sul. Consistió en una investigación cualitativa, con orientación etnográfica, realizada en 2014, con 25 interlocutores, residentes en un territorio rural. Los datos se analizaron utilizando un enfoque hermenéutico antropológico. Las prácticas de atención médica para estas familias rurales implican diferentes tipos de conocimiento, tanto de los sistemas de salud formales como informales. Estas prácticas se mueven a través de la atención familiar, los servicios biomédicos, la religiosidad, no un solo flujo, sino que utilizan diferentes espacios y servicios, de acuerdo con sus necesidades. En este sentido, para brindar atención médica integral a las personas y sus familias, los profesionales necesitan conocer el contexto cultural de la comunidad que se sigue, comprender y valorar las prácticas y dinámicas de atención que integran su sistema de atención de salud.Descriptores: Población Rural, Família, Cultura, Enfermería.
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Resumo: O objetivo foi compreender o sistema de cuidado à saúde entre famílias rurais ao Sul do Rio Grande do Sul. Constituiu-se de uma pesquisa qualitativa, com orientação etnográfica, realizada em 2014, com 25 interlocutores, residentes em um território rural. Os dados foram analisados por meio de uma abordagem hermenêutica antropológica. As práticas de cuidado à saúde, para essas famílias rurais, envolvem diferentes saberes, tanto os oriundos do sistema formal, quanto do sistema informal de saúde. Essas práticas transitam pelo cuidado familiar, serviços biomédicos, religiosidade, não ocorrendo um fluxo único, mas utilizando-se dos diferentes espaços e serviços, de acordo com suas necessidades. Nesse sentido, para realização de um cuidado integral à saúde dos indivíduos e das suas famílias, os profissionais necessitam conhecer o contexto cultural da comunidade acompanhada, entender e valorizar as práticas e as dinâmicas de cuidado que integram seu sistema de cuidado à saúde. Descritores: População Rural, Família, Cultura, Enfermagem. Health care system of rural families Abstract: The aim was to comprehend the health care system of rural families in the south of Rio Grande do Sul. Qualitative research with etnographic orientation, developed in 2014, with 25 interlocutors, residents of a rural territory. Data were analyzed through antropological hermeneutic approach. Health care practices, for these rural families, involve different knowledge, those from the formal system and those from the informal system of health. These practices transit through family care, biomedical systems and services, religiosity, not a single flow, but using different spaces and services, according to their needs. Thus, the realization of an integral health care of the individuals and their families requires professionals that know the community's cultural context, understand it and value practices and care dybamics that integrate their health care system. Descripstors: Rural Population, Family, Culture, Nursing. Sistema de atención de salud a familias rurales Resumen: El objetivo era comprender el sistema de atención de salud entre las familias rurales en el sur de Rio Grande do Sul. Consistió en una investigación cualitativa, con orientación etnográfica, realizada en 2014, con 25 interlocutores, residentes en un territorio rural. Los datos se analizaron utilizando un enfoque hermenéutico antropológico. Las prácticas de atención médica para estas familias rurales implican diferentes tipos de conocimiento, tanto de los sistemas de salud formales como informales. Estas prácticas se mueven a través de la atención familiar, los servicios biomédicos, la religiosidad, no un solo flujo, sino que utilizan diferentes espacios y servicios, de acuerdo con sus necesidades. En este sentido, para brindar atención médica integral a las personas y sus familias, los profesionales necesitan conocer el contexto cultural de la comunidad que se sigue, comprender y valorar las prácticas y dinámicas de atención que integran su sistema de atención de salud.
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Resumo Este artigo busca refletir sobre as diferenciadas estratégias de busca de acesso à terra entre quilombolas e pomeranos na Serra dos Tapes, Rio Grande do Sul.Esses grupos viveram processos históricos distintos e, atualmente, encontram-se em situações diferenciadas em relação à capacidade de acessar terras produtivas. Os pomeranos chegaram à região por meio de processo de colonização incentivado pelo Estado, ainda que, em alguns casos, financiado por empresas privadas, sendo as terras adquiridas pelos colonos. As comunidades quilombolas constituíram-se na resistência ao regime escravocrata. No presente, os colonos pomeranos vivem em pequenas propriedades dedicadas, sobretudo, à produção de fumo. No que se refere aos quilombolas, alguns são proprietários de terras e também cultivam fumo, enquanto outros trabalham como diaristas em propriedades de colonos pomeranos. A etnografia mostra que, enquanto quilombolas proprietários estabelecem com pomeranos relações de tipo horizontal, aqueles que são diaristas mantêm com eles relações de dependência. No contexto estudado, as relações entre os dois grupos são acionadas como justificativa para a opção por não demandar a regularização do território a que quilombolas têm direito.
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No Brasil existe atualmente uma grande variedade de línguas faladas. Algumas não possuem formas escritas, outras vêm sendo catalogadas e fomentadas por iniciativas isoladas, porém muitas estão se perdendo pelo falecimento dos falantes e falta de interesse das novas gerações em praticar e preservar. Diante da quantidade de línguas presentes no nosso território, é possível afirmar que este ainda é um grande campo a ser desbravado. Alguns dialetos caem no esquecimento sem vir ao conhecimento do grande público, por haver carência de mais pesquisas nessas áreas e por desinformação sobre a diversidade cultural e linguística do país. É preciso criar condições para que dessa multiplicidade de línguas não restem apenas vestígios e, combater o perigo do desaparecimento completo de algumas variantes dialetais. Devemos motivar uma consciência coletiva a fim de registrar essa pluralidade linguística tão rica no nosso país. Este artigo visa discutir objetivamente a existência dessa diversidade de falares e revelar a necessidade de seu estudo e suas formas de transmissão, mostrando brevemente o que já tem sido feito (iniciativas de co-oficializações, atlas linguísticos, mapeamentos e inventários) e que ainda há muito a fazer para catalogar, analisar, preservar. E assim dar visibilidade a essa riqueza da nossa “plurilinguística brasilidade”.
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RESUMO Nesse artigo discutimos a relação entre políticas públicas, tradição e patrimônio na cidade de São Lourenço, sul do Brasil. A etnia pomerana, que por longo tem po foi ignorada nessa região, encontra-se atualmente supervalorizada através de uma política de "invenção do passa-do". O discurso político fala de um "resgate de identidade desse povo, valorizando o turismo como fonte de economia... a busca pelo passado com os olhos no futuro" (O Lourenciano, p.2, 18/01/2008). Nossa pesquisa consiste em verifi car o impacto dessas intervenções nessa comunidade e como a mesma passa a aceitar esse passado como tradição e os elementos coti-dianos como patrimônio. ABSTRACT In this paper, we discuss the relation between publics politics, tradition and heritage in the town of São Lourenço do Sul, southern Brazil. The pomeranian ethnic group that for long time was ignored, nowadays is overvalued through a local policy of "past invention". The political speech approaches a "rescue of the identity of this people, valuing the tourism as a source of economy.... the search for the past with the eyes on the future" (O Lourenciano, p.2, 18/01/2008).Our research consists in verifyng the impact of these interventions in this society, and how it accepts this heritaged past as true, an invented past, shaped in the present.
babaçuais livrecastanhais do povo" faxinais e fundos de pasto: terras tradicionalmente ocupadas
, terras indígenas, "babaçuais livre", "castanhais do povo" faxinais e fundos de pasto: terras tradicionalmente ocupadas. Manaus: PGSCA/UFAM, 2008. p. 25-131.