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Abstract

A identidade cultural moçambicana forja-se pela força do diálogo e da articulação funcional de diferentes identidades. Neste particular, a obra de Mia Couto destaca-se pelo modo único como congrega a riqueza desse mecanismo, afirmando-se como um interlocutor original no processo de construção da identidade nacional para o qual concorrem diversos elementos identitários que formam a especificidade moçambicana no conjunto da africanidade. Viajante do tempo, Mia Couto faz a história (e a identidade) moçambicana pela soma de um enorme conjunto de estórias, marca de um conhecimento ancestral que se revela necessário para a construção de um novo paradigma identitário – uma identidade que se constrói no compromisso entre o passado e o presente – que o autor vai afinando em cada nova obra porque se reconhece como “mulato de existências” que anseia pela esperança do futuro.********************************************************************Mia Couto: traveler and tuner of identitiesAbstract: Mozambique's cultural identity is forged by the force of dialogue and functional articulation of different identities. In this regard, Mia Couto’s work is distinguished by the unique way he brings together the wealth of this mechanism, asserting itself as an original party in the national identity building process to which many identity elements contribute to form the Mozambican specificity in set of Africanness. Time traveler, Mia Couto makes Mozambican history (and identity) summing up a huge set of stories, marks of an ancestral knowledge that proves necessary for the construction of a new identity paradigm – an identity that is built on a compromise between past and present – that the author tunes in each new work because he is recognized as "mulatto of existences" that yearns for future hope.Keywords: Mozambique; Mia Couto; Identity; Tradition; Hybridity
Navegações
v. 10, n. 1, p. 30-35, jan.-jun. 2017
Ensaios
Exceto onde especicado diferentemente, a matéria publicada neste periódico é licenciada
sob forma de uma licença Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional.
http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/
http://dx.doi.org/10.15448/1983-4276.2017.1.25272
Mia Couto: viajante e afinador de identidades
Mia Couto: traveler and tuner of identities
Orquídea Maria MOreira ribeirO
FernandO albertO tOrres MOreira
Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Resumo: A identidade cultural moçambicana forja-se pela força do diálogo e da articulação
funcional de diferentes identidades. Neste particular, a obra de Mia Couto destaca-se pelo modo
único como congrega a riqueza desse mecanismo, armando-se como um interlocutor original
no processo de construção da identidade nacional para o qual concorrem diversos elementos
identitários que formam a especicidade moçambicana no conjunto da africanidade.
Viajante do tempo, Mia Couto faz a história (e a identidade) moçambicana pela soma de um
enorme conjunto de estórias, marca de um conhecimento ancestral que se revela necessário
para a construção de um novo paradigma identitário – uma identidade que se constrói no
compromisso entre o passado e o presente – que o autor vai anando em cada nova obra porque
se reconhece como “mulato de existências” que anseia pela esperança do futuro.
Palavras-chave: Moçambique; Mia Couto; Identidade; Tradição; Hibridismo
Abstract: Mozambique's cultural identity is forged by the force of dialogue and functional
articulation of different identities. In this regard, Mia Couto’s work is distinguished by the
unique way he brings together the wealth of this mechanism, asserting itself as an original party
in the national identity building process to which many identity elements contribute to form the
Mozambican specicity in set of Africanness.
Time traveler, Mia Couto makes Mozambican history (and identity) summing up a huge set of
stories, marks of an ancestral knowledge that proves necessary for the construction of a new
identity paradigm – an identity that is built on a compromise between past and present – that
the author tunes in each new work because he is recognized as "mulatto of existences" that
yearns for future hope.
Keywords: Mozambique; Mia Couto; Identity; Tradition; Hybridity
“A identidade de um povo é feita por um somatório de identidades
individuais, colectivas, religiosas, de grupos, de raças, etc. (…) A
ideia é que a identidade é uma moldura, mas essa moldura tem de dar
espaço a diversidades. Portanto, quando falamos de uma identidade
temos que falar sempre no plural, porque se estou à procura de uma
identidade pura vou cair sempre no erro.”
Mia COutO, Entrevista (2007)
“a nossa essência é a nossa história comum, as nossas sociedades, por
muito diferentes que pareçam, partilham o mesmo confronto entre a
utopia de podermos renascer das cinzas e a frustração de carregarmos
um passado demasiado pesado.”
Mia COutO, Entrevista (2009b)
“As identidades culturais não são rígidas nem, muito menos,
imutáveis. São resultados transitórios e fugazes do processo de
identicação.”
bOaventura sOusa santOs, 1995, p. 119
Mia Couto: viajante e afinador de identidades 31
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, Porto Alegre, v. 10, n. 1, p. 30-35, jan.-jun. 2017
Segundo Homi Bhabha, “The enunciation of
cultural difference problematizes the division of past and
present, tradition and modernity, at the level of cultural
representation and its authoritative address (…) [and]
we should remember that it is the “inter” – the cutting
edge of translation and negotiation, the in-between, the
space of the enter (…) that carries the burden of the
meaning of culture” (BHABHA, 1995, p. 207). É esta
problematização entre passado e presente, entre tradição
e modernidade, bem notória nas suas obras, que orienta
a reexão de Mia Couto na busca do estabelecimento da
identidade cultural moçambicana.
Consciente de que uma identidade cultural se forja no
diálogo e articulação funcional de diferentes identidades,
Mia Couto congura a ideia de nação na sua narrativa
ccional, instituindo-se como um interlocutor que, na
esteira de Bhabha, sabe que “a identidade é reivindicada
a partir de uma posição de marginalidade” (BHABHA,
1998, p. 247). A sua opção recai numa narração de
costumes que se vai anando a cada nova narrativa,
numa acumulação de histórias somadas de que os velhos
personagens são éis depositários e que existem apenas
enquanto elementos culturais para ajudar à (re)construção
da moçambicanidade, agora em novo paradigma, como
bem observou Carlos Baptista Bach quando arma que
“Em ‘Terra Sonâmbula’ nota-se que o conhecimento
ancestral é necessário para que se possa construir um
novo paradigma” (BACH, 2008, p. 3).
Por isso é que Mia Couto, crente na necessidade de
um compromisso entre passado e presente e na sua auto-
designação de “mulato não de raças, mas de existências”
(COUTO, 1987, p. 85), conta as suas histórias apostando
no hibridismo cultural, na miscigenação identitária tão
caros a Pecora e a Spivak (SPIVAK, 1999, p. 155) e no
entre-lugar lançado por Bhabha, como solução para a
problemática da identidade da nação moçambicana.
Os romances de Mia Couto demonstram a pluralidade
cultural (e étnica) de Moçambique e provam o carácter de
mosaico da identidade do país; enquanto palavra escrita
são isso mesmo, já que combinam, numa “harmonia
híbrida”, o novo com o antigo, o oral e o escrito,
apresentando a língua escrita como anadora maior da
oralidade.
André Cristiano José salienta que “longe de (re)criar
identidades essencialistas, cristalizadas no tempo e no
espaço, Mia Couto é el à historicidade, complexidade
e dinâmicas que lhes são próprias” (JOSÉ, 2008, p. 151).
A proposta de Mia Couto para a construção da identidade
moçambicana é, portanto, a miscigenação cultural que ele
materializa no seu discurso linguístico de poeta que conta
estórias mas que escreve em prosa, numa escritoralidade
(que ressuma o velho e o novo) única que bem pode ser a
marca de água identitária fracturante e necessária à ideia
de nação, uma tarefa só ao alcance de um “contrabandista
entre dois mundos”, como o próprio se dene ao jornal
brasileiro A Folha de S. Paulo (18 de Novembro 1998).
Trata-se de uma re-invenção da moçambicanidade que
exclui uma demarcação nítida entre história e cção, um
processo durante o qual “myth blends with history and
fantasy with reality” (AFOLABI, 2001, p. 118). Talvez
o seu próprio hibridismo enquanto escritor – mistura de
poeta, jornalista e contador de histórias – tenha colocado
Mia Couto numa posição privilegiada para o desempenho
desta tarefa de construtor e anador de identidades (uma
mistura de sonho, realidade e fantasia) e ser, por isso, um
“regenerative writer” como o dene Afolabi (AFOLABI,
2001, p. 119), um “cronista da experiência moçambicana
contemporânea”, alguém que “trabalha a modernidade
sem virar as costas ao património cultural”, tal como
o vê o compatriota Nelson Saúte, preocupado com “as
tradições, a diversidade cultural, o domínio da oralidade”
(SAÚTE, 1991a, p. 10). Mia Couto sabe que cada
moçambicano, aliás como ele próprio, é um constructo
cultural, um produto de várias culturas endógenas, de
moçambicanidade e também de culturas exógenas, e,
consciente como está desta realidade, o seu objectivo
enquanto construtor da identidade é consolidar o legado
memorial de Moçambique; ele é um “pessimista com
esperanças” (COUTO, 1994, p. 15) que luta contra o
esquecimento em favor da memória, que denuncia bem
alto esse consenso silencioso, mas ensurdecedor, que quer
apagar a história recente do seu país e assim limitá-lo na
sua identidade.
Um dos propósitos essenciais de Mia Couto é
alimentar a esperança (que nele é incessante) de que o
povo moçambicano preserve os aspectos culturais que
suportam a sua identidade; esta preservação vai no sentido
de uma identicação com os sinais culturais produzidos
que habitam o imaginário das pessoas, um imaginário
que não apenas é preenchido com elementos da tradição
cultural moçambicana, mas também com novos elementos
identitários resultantes do contacto com outras culturas. O
escritor sabe, na esteira de um Stuart Hall, que
uma cultura nacional é um discurso – um modo de
construir sentidos que inuencia e organiza tanto
as nossas acções quanto a concepção que temos de
nós mesmos (…) As culturas nacionais, ao produzir
sentidos sobre ‘a nação’, sentidos com os quais
podemos nos identicar, constroem identidades. Esses
sentidos estão contidos nas histórias que são contadas
sobre a nação, memórias que conectam o seu presente
com o seu passado e imagens que dela são construídas
(HALL, 2005, p. 50-51).
Contribuir para a construção de uma identidade
moçambicana, de uma ideia de nação, é um objectivo
32 Ribeiro, O. M. M., Moreira, F. A. T.
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claro e assumido por Mia Couto, como se de uma viagem
se tratasse, uma viagem em busca (e construção) de
um espírito de nação; essa intenção está bem explícita
e enunciada numa entrevista concedida a Michel Laban
onde o autor caracteriza Moçambique como um país
“muito comprido e a estrada é o único factor que liga,
que faz com que o país circule dentro de si próprio e
Moçambique tem de viajar dentro de si próprio para ser
um país” (COUTO apud LABAN, 1996, p. 117); de igual
modo, esse propósito surge num comentário que o escritor
fez sobre o seu romance Terra Sonâmbula que descreve
como “um livro de viagem, é um livro de procura de
identidade” (COUTO apud SILVA, 1997, p. 041). Percebe-
se porquê: em Terra Sonâmbula as personagens são
microcosmos paradigmáticos dessa busca por uma estrada
simbólica, com particular destaque para Muidinga, que
nasce de novo, assume uma outra identidade, ao saber-
se, identicar-se como Gaspar; mas este nascimento,
ou deveríamos dizer renascimento, mais não é do que a
conrmação da estratégia coutiana com vista à construção
identitária: Moçambique, precisa de se (re)conhecer, de
celebrar a tradição como base do futuro, tal como o fez o
jovem Muidinga que, pela leitura dos cadernos de Kindzu
reencontra as tradições do seu povo e se reencontra
também como Gaspar, um ser todo ele marcado por/
resultado de uma cultura tradicional e de um passado
colonialista2. Também Ermelindo Mucanga, o morto/
personagem de A Varanda do Frangipani (1996), na sua
breve incursão de seis dias à vida por pessoa interposta,
queria lembrar o passado, recuperar a memória, no fundo,
do mesmo modo que Muidinga, aspira a uma identidade
que já não reconhece; e o problema é exactamente esse
porque, como arma Marta Gino, personagem do mesmo
romance, “O verdadeiro crime que está a ser cometido
[em Moçambique] é que estão a matar o antigamente”
(COUTO, 1996, p. 59), e daí que “Há que guardar este
passado senão o país ca sem chão” (COUTO, 1996,
p. 103), um chão que sustenta identitariamente o país, que
está na sua matriz cultural, um chão de que os velhos são
a terra: “Mas são pessoas [os velhos], são o chão desse
mundo que você pisa lá na cidade” (COUTO, 1996,
p. 78).3 Mas Marta chega ainda a uma outra conclusão
denitiva sobre a identidade moçambicana: “Nessa altura
1 SILVA, Ana Cláudia da. Um café com Mia Couto. Entrevista com Mia
Couto (não publicada). São Paulo: 1997. Fotocópia gentilmente cedida
pela autora e entrevistadora a Susana Ramos Ventura. (VENTURA,
2013, p. 221).
2 Cabe aqui referir as palavras do escritor chileno Luís Sepúlveda no
programa da RTP1 Câmara Clara em 15/11/09 onde declarou só ter
percebido o conceito de africanidade após a leitura de Terra Sonâmbula.
3 Maria Alzira Seixo caracteriza A Varanda do Frangipani deste modo:
“um livro sobre as identidades culturais, não encaradas no absoluto do
seu isolamento e de um nacionalismo redutor, mas através da experiência
histórica, mesmo dramática ou castradora, que a assunção dos tempos
instituiu de forma indelével” (SEIXO, 2001, p. 359)
eu não sabia que, bem vistas as contas, todos nós somos
mulatos. Só que, em alguns, isso é mais visível por fora”
(COUTO, 1996, p. 131).
O processo de reconstrução identitária está bem
patente, de igual modo, em O Voo do Flamingo (2000).
Máximo Risi, o representante da ONU, tem de aprender
o que é a africanidade porque, como muito bem intui, “O
que eu não entendo é este mundo daqui” (COUTO, 2000,
p. 42) e, por isso, “Não sabe pisar, não sabe andar neste
chão” (COUTO, 2000: 70) e tem de aprender a caminhar
naquela terra em que os pés terreiam e acariciam o innito
do chão (COUTO, 2000, p. 53), tem de saber que em
Moçambique “a terra é um ser [que] carece de família,
desse tear de inexistências a que chamamos ternura”
(COUTO, 2000, p. 114); o tradutor/narrador também
sofre um processo de aprendizagem porque, tal como o
povo, “(…) andava bastante confuso com o tempo e a
actualidade” (COUTO, 2000, p. 26); formado nas artes de
ler e escrever porque estudou em escola, o tradutor tem
um problema de fundo: “aquilo que sabe tem pouca idade”
(COUTO, 2000, p. 140) nas palavras de seu pai Sulplício,
faltando-lhe a substância do tempo. Mais: lembra-se do
passado, do que se passou antigamente, “mas não sabe
de nada” (COUTO, 2000, p. 140) porque, como bem lhe
ensina o velho pai, “na nossa terra, um homem é todos
os outros” (COUTO, 2000, p. 144) e, por isso, é preciso
ouvir a terra que “(…) guarda a raiz da gente”( COUTO,
2000, p. 204).
Marianinho, protagonista de Um Rio Chamado
Tempo, uma Casa Chamada Terra (2002), é um reinventor
da identidade cultural, começando por resgatar o passado,
as tradições, enquanto parte do processo que conta também
com a negociação com novas culturas.; ele próprio
pertence a uma cultura híbrida e é o exemplo acabado
do trabalho de costura feito por Mia Couto pela simbiose
entre oralidade/tradição e a escrita/modernidade num
balanço constante em que o intervalo entre os dois pares
carece de ser cerzido continuamente. Marianinho vive um
processo de tradução cultural, vive o entre-lugar e é o
portador de uma nova cultura: a sua identidade compõe-
se pela tradição e pela modernidade dos seus valores e,
no nal da sua construção identitária, quando se assume
como o esteio de Nyumba-kaya, ele é denitivo para com
o tio Ultímio que quer comprar a casa: “porque essa casa
sou eu mesmo. O senhor vai ter que me comprar a mim
para ganhar posse da casa. E para isso, Tio Ultímio, para
isso nenhum dinheiro é bastante” (COUTO, 2002, p. 249).
Marianinho dava assim sentido nal à frase/epígrafe que o
autor atribuiu a Dito Mariano: “O importante não é a casa
onde moramos. Mas onde em nós a casa mora” (COUTO,
2002, p. 53). O jovem Mariano não ca na casa, mas ela
ca a morar nele enquanto espaço simbólico de valores
histórico e culturais. Nyumba-Kaya, aliás Marianinho,
Mia Couto: viajante e afinador de identidades 33
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tornou-se o exemplo do hibridismo cultural que enforma
a moçambicanidade.
Em Jesusalém (2009a), Mia Couto rearma o
hibridismo cultural e o insustentável peso do passado
na construção do futuro. Como esclareceu, “Neste livro,
está presente a impossibilidade de renascermos do zero
e da absoluta negação do que já fomos” (COUTO,
2009b, s/p.). Silvestre Vitalício quis fazer tudo isso, quis
viver na desmemória, despir-se da identidade, construir
tudo de novo, cortando rente com o passado; criou-se
Deus e, como tal, quis criar o seu mundo, Jesusalém,
um espaço iniciático, fechado ao movimento, para um
homem novo sem a memória do passado e, desde logo,
como nova identidade, como se depreende pelas palavras
de Mwanito: “Quando nos mudámos para Jesusalém,
meu pai nos conferiu outros nomes. Rebaptizados, nós
tínhamos outro nascimento. E cávamos mais isentos do
passado” (COUTO, 2009a, p. 41) A realidade identitária
de Jesusalém era bem simples: “Se não há passado, não
há antepassados” (COUTO, 2009a, p. 43) Jesusalém é
um mundo outro, sem história nem memória, um lugar
de mortos/vivos que não têm viagem, parados no tempo.
Mas a tentativa de renascer do zero e renegar o passado
memorial falhou desde o início porque a memória de
Dordalma é convocada a todo o instante, e Silvestre
Simplício que fora um bom contador de histórias tornou-
se uma caricatura, uma história mal contada no dizer do
seu lho mais novo (COUTO, 2009a, p. 72).
Viver no lugar do esquecimento não é possível
porque o homem é fruto de uma inscrição no tempo; e
Marta, a portuguesa que vem em busca de memórias e
espoleta as memórias dos habitantes de Jesusalém, alertou
Silvestre: “Não se pode esquecer tudo tanto tempo. Não
existe viagem assim tão longa” (COUTO, 2009a, p. 171)
A mensagem é clara: a identidade não se constrói no
esquecimento ou nos silêncios consensualizados sobre o
passado; haverá sempre um momento em que a travessia
do silêncio é interrompida pelo ruído da história, pela
paisagem que a viagem identitária xou. A obra de Mia
Couto inscreve-se neste percurso, traduzindo mestiçagens
que se interpenetram, expondo a diversidade cultural
que compõe o país assim anando o estabelecimento
da moçambicanidade certo de que, como escreveu em
Terra Sonâmbula, “escrever é ensinar alguém a sonhar”
(COUTO, 1992, p. 73).
Na esteira da herança legada por José Craveirinha,
que engendrou nos seus poemas um espaço de africanidade
onde “ibéricas heranças de fados e broas / se africanizaram
para a eternidade nas minhas veias” (CRAVEIRINHA,
1982, p. 107), Mia Couto é crente de que a identidade
moçambicana é o resultado de trocas de memórias e,
por isso, se constrói sobre os problemas que vieram do
passado colonial, da guerra pela independência, da guerra
civil que se lhe seguiu, da nova “colonialidade do poder”
(QUIJANO, 2000) pós 1992 e com a “confrontação do
mosaico de vozes que constitui o universo cultural” do
povo de Moçambique, projectando “para o país e para o
mundo, uma ideia de moçambicanidade e de cidadania”
(JOSÉ, 2008, p. 151).
Para André José, “em Mia Couto a oscilação pendular
entre múltiplos elementos identitários resulta na criação
de uma dinâmica identitária própria, moçambicana”
(2008, p. 155). A estratégia de construção identitária em
Mia Couto apoia-se sempre no passado (= tradição) e no
futuro, emblematicamente representados por personagens
idosas e por crianças ou jovens que se confrontam,
que conituam entre si mas que, no nal, espelham
um compromisso necessário. Em Terra Sonâmbula
(1992) temos o par Tuahir/Muidinga, em A Varanda de
Frangipani (1996) temos os velhos e Marta Gino, em
O Último Voo do Flamingo (2000) o jovem tradutor e o
seu velho pai, em Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa
Chamada Terra (2002) o velho Mariano e o seu lho/neto
Marianinho e, nalmente, em Jesusalém (2009a) Silvestre
Simplício e o seu lho Mwanito. Todos estes velhos,
como deixa bem expresso Marta Gino de A Varanda de
Frangipani, “não são apenas pessoas (…) são guardiões
de um mundo. É todo esse mundo que está sendo morto”
(COUTO apud MACHAVA, 2007, p. 57). Esta frase
exprime, a um tempo, a constatação de uma realidade e
uma preocupação constantes de Mia Couto: o papel das
tradições, das raízes culturais ancestrais do povo, por um
lado e, por outro, a importância dessas tradições para a
construção do presente e de uma identidade futura que se
pretende recupere as experiências do passado4 dentro da
“diversidade de matrizes culturais que informam o país”
(JOSÉ, 2008, p. 151). O próprio autor, repetidamente,
mostra o seu sentimento pela desvalorização dos velhos
(e crianças), o mesmo é dizer dos improdutivos, no tempo
presente, em diversas entrevistas:
Mia Couto explica que
a ideia de que, em África, os velhos são sempre
respeitados resulta de uma misticação. Isso nem
sempre sucede, mesmo em sociedades que não foram
desarrumadas pela colonização. Subsiste na visão
sobre a África ainda uma ideia cor-de-rosa, certa
romantização do “bom selvagem”. Mas é verdade
que, em certas sociedades – e muitas delas estão
vivas em Moçambique – o lugar dos mais velhos é
fonte de prestígio e saber (…) Essa tradição está
sendo reconstruída pela actualidade. A modernidade
4 Vários autores, como, por exemplo, Ungulani Ba Ka Khosa, têm
demonstrado a sua preocupação com as questões da identidade no período
pós-independência em Moçambique, já que o espaço identitário foi
“abafado”, e alguns valores culturais perderam-se devido à diminuição
de interesse pela tradição cultural (KHOSA, 2012, p. 202-203, 208).
34 Ribeiro, O. M. M., Moreira, F. A. T.
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africana convive de modo atribulado com isso que
chamamos de tradição e está refabricando rituais
e crenças. Mas isso sucede num universo em que a
miséria absoluta vai corroendo aquilo que antes era
dominado pelo respeito. Num mundo ajoelhado
perante a mercadoria, sucede na África aquilo que
sucedeu em outros continentes: velhos e crianças estão
desvalorizados porque produzem pouco e compram
ainda menos (ZARUR, 2007)5.
Não é difícil localizar a sabedoria dos velhos nos
textos de Mia Couto e associar a expressão dessa sabedoria
a práticas rituais, crenças, numa palavra, à tradição, ao
passado cultural; os velhos são ao guardiães desse mundo
tradicional, papel que o autor também reivindica para si,
de um saber ancestral em que realidade e maravilhoso
não raras vezes se confundem e são também a esperança
existente para uma reconstrução identitária do povo
moçambicano, projeto para o qual todos são convidados a
participar até porque, percebe-se que Mia Couto, tal como
Nelson Saúte, está convencido de que “povo que perde a
sua identidade cultural, não tem mais nada para perder”
(SAÚTE, 1991b, p. 5). Mas esta cultura da tradicional
oral já não circula como antes, já não há lugar para os
contadores de histórias, para as reuniões ao m da tarde à
volta da fogueira ou debaixo de uma árvore para transmitir
e receber os valores e o conhecimento, e é por isso que
Mia Couto introduz a leitura (e a escrita) para fazer
circular a tradição, as histórias dos velhos, os seus usos
e costumes e fá-lo pela voz (leitura) dos mais novos, que
sabem ler: Muidinga lê os cadernos de Kindzu, Mariano
é o intérprete dos “testamentos” do avô, Mwanito escreve
e lê para os mais velhos. Agora o tempo é outro, a história
oral precisa ser escrita para ser preservada e renovada,
e as histórias do estorinhador Mia Couto, qualicativo
certeiro de Cecília Martins, “resgatam o imaginário
ancestral moçambicano profundamente enraizado na
oralidade” (COUTO apud MARTINS, 2002), já que na
“desordem [após conito] há a emergência de poderes
tradicionais que pareciam estar enterrados no tempo”
(COUTO apud SAÚTE 1991a, p. 10). Para Francisco
Noa, “a componente da oralidade (...) funciona como
substrato cultural e como factor constitutivo da identidade
da literatura moçambicana” (NOA, 2008, p. 39).
Ao assumir a literatura como força interventiva e
participante na construção da nação, Mia Couto institui-
se como viajante e construtor da mesma enquanto
mediador que é da cultura oral e escrita e desempenha, em
consequência, um papel ativo na preservação da memória
colectiva. Para ele, como se vericou, a identidade
forja-se, também, pelas pequenas histórias das pequenas
coisas e dos homens comuns que vivem na marginalidade
5 Grifos nossos.
da grande História, mas que, no rasto e evolução do
tempo são, no m de contas, aquilo que confere a
essência cultural a esta última; é o quotidiano, ilustrado e
revelado pelas histórias simples que, no seu maravilhoso
sonhado, é apresentado como verdadeiro alicerce de uma
identidade que se sonha, que se deseja, sonhos e desejos
que passam pela mudança, por novas vozes, por um novo
tempo congregador para cuja estabilização a memória
colectiva contribui.
Como se constata, Mia Couto assume, nos seus
textos, o hibridismo como marca indelével das identidades
que são sempre produto de várias misturas que o tempo
opera numa dinâmica permanente. O escritor tem mesmo
a certeza de que “A identidade é uma coisa que muda
no tempo, dentro de nós próprios e, portanto, não é uma
verdade pura e imutável” (COUTO apud MACHAVA,
2007). Consciente deste dinamismo das identidades,
Mia Couto optou por nele participar, ao seu jeito, num
esforço de anação contínua, como a sequência das
suas obras o comprova, e seguro de que o amanhã da
identidade moçambicana, sendo também o que é hoje
e todo um passado matricial enformador, é, de certeza,
uma coisa diferente porque continuamente mutável. Ou,
como armava o curandeiro de Terra Sonâmbula sobre
o futuro de Moçambique e, claro, da sua identidade, “O
problema não é o lugar (…) mas o caminho” (COUTO,
1996, p. 34).
É este caminho que Mia Couto quer ajudar a percorrer,
a construir, estorinhando como Tuahir, estorinhando
como só ele sabe, assumindo-se como terra dentro de
cada pessoa, como alguém que anda a juntar os sonhos, a
costurar os sonhos (COUTO, 1992, p. 197) porque, como
muito bem lembrou em Raiz de Orvalho e outros Poemas,
“Preciso ser um outro / para ser eu mesmo (…) Existo
onde me desconheço / aguardando pelo meu passado /
ansiando a esperança do futuro” (COUTO, 2009c, p. 13).
Assim se anam identidades, numa viagem contínua e no
silêncio, essa língua de Deus (COUTO, 2003, p. 150) que
o escrevinhador mediatiza nos seus textos, seguro de que,
nas asas do amingo, um novo dia se anuncia.
Referências
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Recebido: 15 de setembro de 2016
Aprovado: 25 de maio de 2017
Contato: oribeiro@utad.pt
fmoreira@utad.pt
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Article
O TEXTO ANALISA ALGUNS ASPECTOS DE DOIS ROMANCES MOCAMBICANOS, VENTOS DO APOCALIPSE, DE PAULINA CHIZIANE E O ULTIMO VOO DO FLAMINGO, DE MIA COUTO. A APROXIMACAO SE FARA EM TORNO DOS PERSONAGENS E DAS REPRESENTACOES DA GUERRA.
Article
Resumo: Este artigo analisa a forma como Mia Couto, em seu livro Terra Sonâmbula, mistura realidade e fantasia de forma mágica, criando um entrelaçamento entre a tradição e o moderno. Em Terra Sonâmbula, a oralidade perpetua a tradição que faz nascer o futuro sonhado. Na busca por sua identidade o personagem Muidinga vai adentrando no conhecimento ancestral e unindo a tradição à cultura moderna, através da oralidade. Abstract: This article analyses the manner through which Mia Couto, in his book Terra sonâmbula, mixes reality and fantasy in a magic way, creating a connection between the tradition and the contemporary. In Terra sonâmbula, the orality perpetuates the tradition which brings up the dreamed future. Seeking his identity, the character Muidinga goes deeper into the ancestral knowledge and joins tradition and modern culture through orality.
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