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PROMETEU ACORRENTADO: UMA LEITURA DISCURSIVA DE RELAÇÕES DE PODER E RESISTÊNCIA

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RESUMO: A presente pesquisa busca evidenciar o discurso e suas relações de poder e de resistência na tragédia Prometeu Acorrentado, escrita por Ésquilo em 470 AC. Para isso, tomamos como base a vertente teórica da Análise do Discurso, sobretudo os conceitos desenvolvidos por Michel Foucault em A Ordem do Discurso (1970), A Arqueologia do Saber (1969,) e O Sujeito e o Poder (1982). Percorremos algumas de suas concepções para o entendimento da noção teórica de discurso, tais como, a de enunciados, formações discursivas, sujeito e, ainda, as noções de poder e de resistência. Com relação à análise, dividimos o corpus em dois blocos distintos, o primeiro deles enfatizando o poder, o segundo a resistência, concluindo que elas se estabelecem em uma relação de interdependência. A partir do caminho investigativo percorrido foi possível observar que a tomada das lentes discursivas para observar a materialidade linguística permite uma leitura mais aprofundada, na medida que convoca o aspecto sócio-histórico constitutivo da produção de sentido dos enunciados. ABSTRACT: This research aims to evidence the discourse and its relations of power and resistance in the tragedy Prometheus Bound, written by Aeschylus in 470 AC. For this purpose, we are based on the Discourse Analysis perspective, especially the concepts developed by Michel Foucault in The order of discourse (1970), The archaeology of knowledge (1969), and The subject and the power (1982). We follow some of his concepts in order to comprehend the theoretical notion of discourse, such as statement, discursive formation, subject, not to mention the notions of power and resistance. In the analysis, we separated our corpus into two main parts; the first one emphasizing the power, and the second one the resistance, which led us to conclude that they are interdependent. As a result from investigative path, it was possible to observe that by using discursive lenses to observe the linguistic materiality we were able to offer a deeper reading, since it convokes the socio-historical aspect constitutive of the production of meaning of the statements.
INTERLETRAS, ISSN Nº 1807-1597. V. 5, Edição número 23, Março/Setembro 2016 - p
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PROMETEU ACORRENTADO: UMA LEITURA DISCURSIVA DE
RELAÇÕES DE PODER E RESISTÊNCIA
Elizandra Fernandes Alves*
Janaína Senem**
Michele Teixeira Passini***
RESUMO: A presente pesquisa busca evidenciar o discurso e suas relações de poder e de resistência na
tragédia Prometeu Acorrentado, escrita por Ésquilo em 470 AC. Para isso, tomamos como base a
vertente teórica da Análise do Discurso, sobretudo os conceitos desenvolvidos por Michel Foucault em A
Ordem do Discurso (1970), A Arqueologia do Saber (1969,) e O Sujeito e o Poder (1982). Percorremos
algumas de suas concepções para o entendimento da noção teórica de discurso, tais como, a de
enunciados, formações discursivas, sujeito e, ainda, as noções de poder e de resistência. Com relação à
análise, dividimos o corpus em dois blocos distintos, o primeiro deles enfatizando o poder, o segundo a
resistência, concluindo que elas se estabelecem em uma relação de interdependência. A partir do
caminho investigativo percorrido foi possível observar que a tomada das lentes discursivas para
observar a materialidade linguística permite uma leitura mais aprofundada, na medida que convoca o
aspecto sócio-histórico constitutivo da produção de sentido dos enunciados.
ABSTRACT: This research aims to evidence the discourse and its relations of power and resistance in the
tragedy Prometheus Bound, written by Aeschylus in 470 AC. For this purpose, we are based on the
Discourse Analysis perspective, especially the concepts developed by Michel Foucault in The order of
discourse (1970), The archaeology of knowledge (1969), and The subject and the power (1982). We
follow some of his concepts in order to comprehend the theoretical notion of discourse, such as statement,
discursive formation, subject, not to mention the notions of power and resistance. In the analysis, we
separated our corpus into two main parts; the first one emphasizing the power, and the second one the
resistance, which led us to conclude that they are interdependent. As a result from investigative path, it
was possible to observe that by using discursive lenses to observe the linguistic materiality we were able
to offer a deeper reading, since it convokes the socio-historical aspect constitutive of the production of
meaning of the statements.
PALAVRAS-CHAVE: Discurso; Sujeito; Ésquilo; Poder; Resistência.
KEYWORDS: Discourse; Subject; Aeschylus; Power; Resistance.
INTRODUÇÃO
Quando falamos em discurso, falamos em sujeito, em língua, em história, em sociedade.
Sabemos que esse termo foi, e ainda é, difundido de diferentes formas, mas ninguém
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contesta essas relações da linguagem, mesmo que elas não sejam tomadas como base
para um trabalho. Pensando nesta relação estabelecida na linguagem, o presente
trabalho percorre por noções foucaultianas pertinentes à Análise do Discurso para
sustentar este conceito de discurso e entendê-lo em sua forma mais ampla, como uma
prática histórica. Dentro desta perspectiva, compreendemos que o discurso é dispersão,
que é constituído por enunciados que se interligam em redes, formando, então, nós,
pontos de encontro entre eles. Tal qual uma rede usada no ofício do pescador, são os
nós que conectam os fios entre si, e juntos, formam a rede por completo. Dessa mesma
forma se dá o discurso, nesta ideia de dispersão e pontos de entrecruzamentos.
É nesse sentido, e por este viés, que olhamos para a tragédia grega de Ésquilo em sua
versão em Língua Inglesa, Prometheus Bound (2012), com o objetivo principal de
analisar como as relações de poder e resistência ali se concretizam. Sobre o poder, é
preciso entender, primeiramente, que ele não pertence a um ser soberano, ao Estado, por
exemplo, mas que ele é capilarizado em micro instâncias, em micro relações. De tal
noção decorre, portanto, que se entenda o poder não de forma individualizada, mas sim
presente em toda construção social, manifestado de formas diversas. São nestas relações
que entendemos que o sujeito discursivo ocupa diversas posições no discurso, isto é,
determinados espaços, entendidos como lugares a partir do qual certas relações de poder
são estabelecidas, como no caso do corpus desta pesquisa pelas figuras principais de
Zeus e Prometeu, sendo o primeiro deles, aquele que governa, mas que também é
governado, e o segundo aquele que resiste, mas também exerce poder.
Tendo em vista esses conceitos brevemente abordados, traçamos nosso percurso
investigativo com vistas a tornar visível em nossas análises as relações de poder que se
instauram nos sujeitos discursivos, e, ainda, entender, por meio da tragédia
1
, como os
enunciados são repetidos e também como eles ressignificam o mito grego do Prometeu.
1. O DISCURSO EM FOUCAULT
O termo discurso não é estranho às diversas concepções da Linguística, ao contrário, ele
parece diferentemente estruturado e compreendido das mais variadas formas dentro
desse campo de estudo. Tem-se como marco inicial dos estudos linguísticos a obra
póstuma de Ferdinand Saussure, a partir da qual a Linguística passou a se afirmar como
disciplina autônoma. Um dos elementos centrais do legado saussuriano encontra-se na
dicotomia entre langue e parole (língua e fala), sendo que seus estudos se voltaram para
a língua, tendo em vista a complexidade de abordar a fala e seu caráter individual, e,
consequentemente, de difícil sistematização. Dessa forma, ao excluir a fala e o sujeito,
Saussure analisou a língua como sistema de signos que possuem um significante e um
significado, isto é, uma imagem acústica que forma a palavra, e um significado que
remete ao conceito, ou seja, esse “objeto” no mundo. Este estudo, dedicado puramente à
estrutura da língua, foi contestado e ampliado por Émile Benveniste, que entendia que o
sujeito precisava fazer parte do entendimento do discurso. Para este estudioso, o
discurso apoiava-se em três noções basilares: na pessoa, no tempo e no espaço. Logo,
percebemos um salto com relação aos estudos de Saussure, salto esse que passou a
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incluir o contexto de produção como característica sine qua non para o entendimento do
fenômeno discursivo.
Assim, é possível perceber que este termo polissêmico transita pelos estudos da
linguagem de variadas formas, o que resulta na necessidade de esclarecer sobre qual
noção de discurso refere-se o autor que tomamos por base nesta reflexão, Michel
Foucault. A proposta de análise apresentada pelo autor não se encerra em um sujeito
empírico que fala em determinado contexto, mas procura entender como os saberes
solidificados na sociedade foram construídos pela história e, além disso, como
diferentes sujeitos discursivos ocupam “lugares” no discurso.
Para melhor compreender a noção de discurso, é importante ressaltar uma das
indagações norteadoras do trabalho de Foucault (1969/2013), que questiona o
surgimento de um enunciado específico e não qualquer outro em seu lugar. A isto, ele
acrescenta que é preciso:
[...] compreender o enunciado na estreiteza e singularidade de sua situação;
de determinar as condições de sua existência, de fixar seus limites da forma
mais justa, de estabelecer suas correlações com os outros enunciados a que
pode estar ligado, de mostrar que outras formas de enunciação exclui. Não se
busca, sob o que está manifesto, a conversa semissilenciosa de um outro
discurso: deve-se mostrar por que não poderia ser outro, como excluir
qualquer outro, como ocupa, no meio dos outros e relacionado a eles, um
lugar que nenhum outro poderia ocupar. (FOUCAULT, 2013, p. 34).
Neste sentido, o discurso é entendido como um grupo de enunciados que se relacionam
com outros enunciados e, por conseguinte, formam um sistema complexo de relações e
de dispersões, visto que são instâncias, acontecimentos descontínuos que formam um nó
em uma rede. Desta forma, a proposta não busca fechar o discurso em si mesmo, e nem
os enunciados que o compõe, e sim possibilitar a ampliação desse conceito para que ele
possa ser compreendido dentro de um jogo de relações com outros discursos, e
enunciados.
Entendendo o enunciado como em constante jogo de relações, é preciso abordar,
brevemente, um conceito central da arqueologia que procura organizar, na medida do
possível, essa dispersão enunciativa: a formação discursiva. Este conceito subentende
que o discurso é formado por enunciados que se apoiam em um mesmo sistema de
formação. A formação discursiva constitui, então, um sistema de dispersão que reparte
os enunciados levando em conta as suas relações de semelhança. Como o autor bem
acrescenta,
No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados
semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos
de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma
regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos,
transformações), diremos, por convenção, que se trata de uma formação
discursiva [...]. (FOUCAULT, 2013, p. 47, grifos nossos).
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Deste modo, podemos encontrar diferentes enunciados em uma mesma formação
discursiva, como no caso da presente pesquisa, na qual podemos compreender que os
enunciados analisados são repartidos na formação discursiva dos mitos e que, por
consequência, formam o que chamamos de discurso mítico, englobando uma série de
enunciados que se complementam e também se anulam, que carregam lutas e forças
distintas, mas que não são, livres e independentes. Isto pressupõe que todos os
enunciados estão sempre constituindo relações com outros e, por isso, não são originais
e neutros, e se estabelecem em um conjunto.
Ainda sobre o enunciado, Foucault acrescenta que ele está sempre associado a uma
memória, e por isto apresenta historicidade. Esta memória não deve ser entendida
simplesmente como aquilo que somos capazes de lembrar, mas sim como uma
construção histórica e social que possibilita que um enunciado reatualize outros. Nesse
sentido, podemos perceber a amplitude do entendimento da concepção de discurso que
pode ser descrito através de uma investigação arqueológica, ou seja, de um
mapeamento histórico que consolidou um saber na sociedade. Em acréscimo, as ideias
deste filósofo distinguem-se também da Linguística tradicional, ao entender o sujeito
como um lugar vazio no discurso. Em outras palavras, entendemos que o enunciado
apresenta um lugar e um status que pode ser ocupado por diferentes sujeitos
discursivos, mas ele não traz o sujeito como o autor empírico, e sim como “[...] um
lugar determinado e vazio que pode ser efetivamente ocupado por indivíduos diferentes;
[...]” (FOUCAULT, 2013, p.155).
Dada esta exposição teórica acerca do enunciado, algumas questões referentes ao
processo de análise podem ter surgido. Como, analisaremos, então, o discurso ou os
enunciados? Para clarear estas noções, é importante sempre pensar no discurso como
conjunto de enunciados dispersos, considerando este primeiro conceito em sua
amplitude não passível de redução ou aproximação à ideia de texto. Em seguida, a
noção de enunciado, também bastante ampla, deve ser entendida de maneira diferente
da frase, da proposição e do ato de fala, mas a sua materialidade é que possibilita a
análise. Dito de outra forma, o enunciado possui uma materialidade repetível, -
materialidade esta que permite a análise das marcas linguísticas e isto implica afirmar
que ele pode ser repetido em circunstâncias nas quais se mantenham sua substância, seu
lugar e seu status. Além disso, é através de um campo de utilização que ele pode manter
sua identidade, mas também perdê-la quando for o caso, e entrar em redes. É desta
maneira que um enunciado circula, sempre em dependência com outros, sem esconder
um sentido obscuro e implícito que deve ser encontrado, mas que nem sempre é visível.
A materialidade do enunciado, que não é original por ser repetível, possibilita, então, a
análise das marcas linguísticas de um texto como dispersão de um saber construído
historicamente. Procuramos dizer, durante todo o estudo, que Foucault busca entender o
discurso em vista de uma abordagem histórica de construção de saberes, mas, afinal, o
que podemos entender como saber? De acordo com Foucault, “[...] um saber é, também,
o espaço em que o sujeito pode tomar posição para falar dos objetos de que se ocupa em
seu discurso [...]” (FOUCAULT, 2013, p. 220). Para exemplificar, no presente estudo
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podemos entender, como dito, o discurso mítico inserido em uma formação
discursiva que, por sua vez, envolve enunciados diversos que são atravessados por um
saber (os mitos ou a mitologia), e que geram um mundo significativo próprio. Desse
modo, compreendemos o mito não como uma fantasia de espírito, algo ligado ao
homem primitivo sem conhecimento científico, mas como um saber que possibilita a
existência de um conjunto de enunciados em uma mesma formação (discursiva). Assim,
o saber da mitologia grega é um conjunto de funções de explicação da humanidade,
justificativa da ideia de existência, de crenças antropológicas, de dogmatização, de
imposição de condutas, que pode ser exercido pelo discurso mítico. Dessa forma, os
mitos não entram nos domínios científicos da antropologia, mas nos territórios
arqueológicos, ou seja, no território do saber.
Tendo compreendido algumas das noções básicas de discurso, nos deparamos com uma
série de questões que, como os estudos de Fischer (2013) bem pontuam, a ideia de
discurso de Foucault se difere da noção de representação das coisas como a Linguística
e também a filosofia acreditavam anteriormente. A autora acrescenta que a concepção
aqui abordada apresenta um a mais, quer dizer, o discurso não é somente representação,
e esse a mais está ligado intimamente com o que ela coloca como perigo da palavra. É
este perigo, ou seja, esta não transparência, não neutralidade, e não inocência que se
apresentam no discurso e que passaremos a nos ater no tópico a seguir.
2.PODER E RESISTÊNCIA
De início, ao perceber que o discurso opera sempre constituído de poder, poder este que
controla a ordem discursiva (aquilo que pode ou não ser dito), e que desencadeia esse
perigo da palavra, Foucault passa a dedicar seus estudos, também, ao desenvolvimento
de uma noção de poder, como se nota em A ordem do discurso (1970/2012). Entretanto,
ao invés de questionar o que é o poder, o filósofo prefere iniciar sua análise a partir da
questão de como o poder é exercido. Desta forma, entendemos que o poder sempre se
exerce através de relações entre indivíduos ou grupos e, de forma semelhante ao
discurso, é mobilizado por meio de práticas. (FOUCAULT, 2013). Assim, o poder não
pode ser entendido como algo que pertence a alguém, mas, sim, como relações que se
estabelecem entre indivíduos, caracterizando então as relações de poder. Tais relações,
como Fernandes pontua, “[...] não são fixas, imóveis, ou estáticas; estão sempre em um
campo de forças e sofrem deslocamentos e modificações sociais.” (2012, p. 53). Em
outras palavras, para Foucault, o poder é pulverizado em diversas micro relações, sendo
estas constantemente modificadas em dependência do lugar discursivo no qual o sujeito
ocupa.
Para entender melhor essas relações de poder, Foucault sugere que passemos a
investigar as formas de resistência como estratégias para desmembrar essas relações.
Isto porque é por meio da resistência que passamos a reconhecer o poder, ou seja, para
que uma relação de poder se afirme é preciso haver resistência. Esta resistência vista
como estratégia consiste na tentativa de estabelecer uma vantagem de um sujeito sobre
outro e implica, necessariamente, uma insubmissão. Assim,
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[...] há uma “insubmissão” e liberdades essencialmente renitentes, não há
relação de poder sem resistência, sem escapatória ou fuga, sem volta
eventual; toda relação de poder implica, então, pelo menos de modo virtual,
uma estratégia de luta, [...] (FOUCAULT, 2013, p. 294).
Nesse sentido, o poder recai em um sujeito, mas também emana deste sujeito e entra em
redes, através da resistência e das “liberdades renitentes”. Esta ideia de liberdade está
relacionada ao pressuposto de que só há relação de poder entre sujeitos livres. Estes
sujeitos se constituem como indivíduos que podem apresentar diferentes condutas,
reações e modos de comportamento. Deste modo, assim como a resistência, a liberdade
também é condição de existência das relações de poder.
Tendo em mente como o poder é exercido, como integra as relações discursivas e como
recai sobre os sujeitos, entendemos que:
O poder coloca em jogo relações entre sujeitos. O poder é um exercício, um
modo de ação de alguns sobre outros, existe somente em forma de ação, uma
ação sobre a sua própria ação, ação sobre ações, uma maneira de agir sobre a
ação dos outros para conduzir condutas. (FERNANDES, 2012, p. 59).
Destarte, entendendo o poder como este jogo entre os sujeitos, como ações sobre ações,
onde podemos afirmar a relação do poder e do discurso? Como explicitado
anteriormente, a noção de sujeito, dentro dessa perspectiva, consiste em uma função, ou
seja, o sujeito assume uma posição dentro do discurso e é esta posição que interessa à
nossa análise. Este lugar assumido pelo sujeito discursivo é marcado por relações de
poder que se opõem. O poder, por sua vez, possibilita este jogo entre os sujeitos e é no
discurso, materializado através de enunciados, que podemos perceber quais as posições
que os sujeitos (nestas relações adversas) ocupam. E é tendo em mente tal relação
indissociável entre discurso e poder e, consequentemente, liberdade e resistência, que
ancoramos nossas análises.
3. O GESTO ANALÍTICO
Como mencionado, a análise do corpus é norteada por uma abordagem discursiva
foucaultiana, e procura refletir sobre a relação de poder e resistência na obra Prometeu
Acorrentado. Antes de partirmos para a análise, é preciso trazer à cena o mito grego a
partir do qual a da tragédia de Ésquilo foi concebida. Nele, encontramos 08
personagens: Poder; Força; Hefesto; Prometeu; Coro; Oceano; Io; e Hermes. O primeiro
deles, personagem de destaque em nossa análise, corresponde a um agente de Zeus,
assim como Hefesto e Hermes, o qual é filho de Zeus. O coro é formado pelas filhas de
Oceano que é o deus do mar, e Io é uma mortal pela qual Zeus se apaixona
perdidamente. Em acréscimo, a Força é um personagem mudo e podemos associá-la à
resistência de Prometeu, titã que roubou o fogo do monte Olimpo e cedeu aos mortais.
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Por este motivo, Zeus ordena o acorrentamento de Prometeu a um rochedo, e os
personagens Poder e Hefesto tornam-se os responsáveis pela concretização do fato,
sendo este último aquele que deve executar as ordens de Zeus.
Assim, a narrativa da tragédia inicia-se com o acorrentamento de Prometeu que,
posteriormente, conta com a presença do Coro e do amigo Oceano que tentam ajudá-lo
a encarar este momento difícil. Mesmo em tais condições, Prometeu não hesita em
ressaltar a injustiça que lhe fizeram, acorrentando-o por tentar ajudar os mortais, seres
que, graças a sua compaixão, agora aprendiam ciências como a medicina, engenharia,
artes, e também a graça da esperança. Ao longo da história, Prometeu se coloca como
um herói-trágico muito próximo aos humanos, porém, com poderes e força
sobrenaturais, já que o titã pode prever os futuros acontecimentos. Neste sentido,
quando Io, personagem que resiste aos desejos de Zeus, o avista preso no rochedo ela
decide parar para saber quem teria cometido tal brutalidade. Ao saber que Zeus, o deus
dos deuses, tinha cometido o ato, Io fica horrorizada e Prometeu, como já a conhecia e
já sabia de seu futuro, se encarrega de expô-la à realidade dramática de sua vida: Io fora
expulsa de casa pelo seu próprio pai, a mando de Zeus, justamente porque ela recusou
(e, portanto, resistiu) às suas afrontas sexuais. Ao recusar os pedidos de Zeus, ele
ameaça desgraçar toda a humanidade e a casa onde a personagem vivia com seu pai se
ela continuasse onde estava. Deste modo, Io se torna um ser errante que, em busca de
refúgio, pede que Prometeu lhe conte suas futuras desventuras. Neste momento da
história, podemos perceber claramente a sanção que Zeus comete àqueles que recusam
seguir suas ordens (assim como aconteceu com Prometeu).
Após revelar os infortúnios de Io e também os seus, (pois, o titã sabe exatamente
quando irá ser libertado do rochedo), ele assevera que Zeus cairá em seus próprios erros
e seu poder sucumbirá quando ele contrair um casamento misterioso. Como o deus dos
deuses está presente em todos os lugares, ele descobre os ditos de Prometeu e ordena
que Hermes vá ao encontro do titã acorrentado e lhe arranque esta informação tão
desejada. Entretanto, Prometeu se recusa a ceder ao poder (Zeus), mesmo sabendo que
este aumentará seu sofrimento. Deste modo, podemos notar claramente a resistência do
personagem a Zeus e a posição do poder que ele assume.
Para melhor explicitação do trabalho, dividimos as análises em dois blocos, sendo que o
primeiro deles volta-se para a observação das manifestações do poder, e o segundo para
a questão da resistência. Optamos em desenvolver, primeiramente, as análises sobre a
representação do poder, pois, isto facilita na compreensão da noção de resistência, já
que esta só é entendida em sua relação com o poder.
3.1. BLOCO PRIMEIRO: AS FACES DO PODER
Nesse primeiro excerto, torna-se claro a posição de poder ocupada pelo sujeito
discursivo Zeus que é definida pela voz do personagem Poder. Esta personificação do
poder através do personagem, não como pessoa física, mas como lugar no discurso
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específico, reafirma certo jogo das relações de poder. Aqui, na primeira fala da história,
o personagem Poder está assegurando a necessidade de Hefesto concluir sua tarefa:
PODER: [...] Hefesto, cabe a ti a execução das ordens que te foram dadas
por teu pai, acorrentando esse celerado sobre escarpados rochedos com
indestrutíveis cadeias e liames de aço. Pois a chama do fogo que é teu
atributo, esse fogo pai de todas as artes que ele roubou e entregou aos
mortais. É preciso que pague aos deuses por esse crime e que aprenda a se
curvar perante o reinado de Zeus, deixando de favorecer os homens dessa
maneira
2
(ÉSQUILO, 1982, p. 11).
Podemos perceber a imposição da figura de Zeus sobre os demais (ainda que sejam
deuses) e também a punição para aqueles que não correspondem a seus ditos. É
importante entender que o “deus dos deuses” é uma posição sujeito, assim como
exemplifica Foucault com a posição de Rei, e isso quer dizer que se não fosse Zeus esse
deus, qualquer outro deus do Olimpo seria (FERNANDES, 2012). Com a relação às
marcas linguísticas, que nos possibilitam compreender os enunciados, os termos
“atributo” e “ordens” estão diretamente relacionados com o discurso do poder e, em
seguida, percebemos que esses deveres e ordens são provenientes do Pai dos deuses,
Zeus. Além disso, ao ordenar que Hefesto “execute” sua tarefa, Poder evidencia que
determina que este deus é aquele que pode ordenar que uma tarefa seja cumprida, ou
seja, é ele quem estabelece as leis do que é crime e de como tal afronta será sancionada.
Ademais, a marca de modalizações tais como “deve”, remete à noção de pagamento,
punição, pois, como sabemos, elas indicam obrigação de que Prometeu deve pagar pelo
crime que cometeu, e, ainda, suportar as regras de Zeus, como é exposto na segunda
expressão acima. Por último, o vocábulo “crime” está associado à ideia do
estabelecimento do que é ou não crime pela figura de Zeus, e também ressalta a
resistência de Prometeu ao poder, já que, mesmo sendo proibido por Zeus, ele não segue
suas advertências. Todas estas marcas linguísticas apontam para uma noção de Foucault
(1970/2012) que assegura que o discurso define o direito privilegiado do sujeito
discursivo, neste caso representado por Zeus, ou seja, ele pode falar sobre tal coisa
(crime, ordem, punição), e não outros.
Para enfatizar este jogo de relações entre os sujeitos, percebemos que Hefesto
demonstra uma total rendição ao poder (Zeus) por medo de uma possível punição, como
podemos verificar no excerto abaixo:
HEFESTO: Poder e Força, vós concluístes a missão que Zeus vos confiou e
nada mais vos retém aqui. Mas eu não encontro a coragem de acorrentar pela
violência, nesta rocha varrida pelas tempestades, um deus do mesmo sangue
que o meu. Isso, porém, não importa; devo encontrar a energia para
cumprir minha tarefa, pois alto seria o preço que eu teria de pagar se
deixasse de cumprir as ordens de meu pai. (ÉSQUILO, 1982, p. 11.).
Como demonstrado no trecho acima, Hefesto, mesmo sendo um sujeito livre, não
apresenta nenhuma resistência às ordens de Zeus, por medo das possíveis consequências
que recairiam sobre ele caso ele se recusasse a cumprir sua tarefa, assim, percebemos
uma relação de poder entre esses dois personagens. Além disso, notamos os termos
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“missão confiada”, diretamente relacionadas ao poder; enquanto alto seria o preço a
pagar se deixasse de cumprir as ordens”, estão ligados a sanção que resultaria do
descumprimento do poder de “pai”. Esta posição de controle de Zeus sobre Hefesto,
remonta a um dos procedimentos de exclusão do discurso propostos por Foucault
(1970/2012),
3
a chamada interdição. A interdição é um procedimento exterior que
consiste no estabelecimento de restrições e proibições com relação ao ato de dizer.
Deste modo, sabemos que nem tudo pode ser dito por qualquer um de qualquer lugar.
Neste caso, Hefesto prefere se sujeitar ao controle a assumir enunciados que
comprometeriam seu discurso e, por conseguinte, sua própria existência.
Assim, percebe-se que é preferível ir contra seus princípios a desagradar aquele que
tudo pode fazer. No próximo exemplo, encontramos uma relação de poder entre os
personagens Poder e Hefesto, como vemos:PODER: Ainda assim te dou as ordens;
quero até gritá-las para ti. Ajoelha e imobiliza as pernas dele dentro deste anel.
(ÉSQUILO, 1982, p. 14).
Esta relação se estabelece porque Poder está dando ordens a Hefesto, e há uma ação
sobre outra ação. É importante destacar que, neste momento, não há uma relação de
poder entre os personagens Poder e Prometeu, ou entre Hefesto e Prometeu, isso porque
Poder e Hefesto estão coibindo o titã através de uma relação de violência física e isto,
como afirma Foucault (1982/2013), não lhe caracteriza como livre. Esta situação,
porém, se modifica quando se trata da relação de Zeus e Prometeu, já que o titã
acorrentado exerce seu poder (através da previsão do futuro) sobre Zeus. Entende-se,
com isto, que os sujeitos podem assumir várias posições no âmbito discursivo.
Ainda neste último excerto, o uso da expressão: te dou ordens; quero até gritá-las para
ti”, demonstra que quem pode ditar ordens é o próprio poder, ou seja, é o poder, aqui
tratado na posição que ocupa o personagem Poder, que determina aquilo que pode ou
não ser dito e, sendo assim, assume um lugar privilegiado em relação a outros. Em
acréscimo, também notamos a caracterização do poder como agressivo devido a uma
série de discursos que incitam a violência contra Prometeu, pois ele é o “criminoso” e
deve pagar pelo que fez. Podemos pensar também, deste modo, na relação de tais
enunciados de poder com os de violência, visto que, o discurso do poder também
controla a violência.
No trecho abaixo percebemos, novamente, o poder exercido pela figura de Zeus e a
punição que Io sofre por recusar seus desejos amorosos.
IO: [...] Por fim, Ínaco recebeu uma resposta clara que fazia uma
recomendação expressa e o exortava a me expulsar de casa e do país para
errar em liberdade até os últimos confins do mundo. Se recusasse, Zeus
lançaria sobre ele seu raio flamejante e aniquilaria toda a sua raça.
Vencido pelos oráculos de Lóxias, ele me expulsou e me atirou para fora
de casa, malgrado sua vontade e malgrado a minha também, mas o
poder de Zeus o obrigou a praticar tamanha violência. Imediatamente se
alteraram minha forma e meu espírito. Podeis ver os chifres que
começaram a desapontar. [...] (ÉSQUILO, 1982, p. 33-34.).
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Notamos, aqui, que Io também oferece resistência ao poder de Zeus, e por isso, é
castigada com chifres e condenada a viver como nômade. Marcas linguísticas como
“obediência”, “violência”, “exortar” estão inseridas na formação discursiva dos
discursos de poder, pois se remetem a ele e às atitudes que a sociedade possui diante
dele: a submissão ou a insubmissão. Io não se submete ao poder e é castigada, assim
como Prometeu. Em acréscimo, além do poder que Zeus exerce pela sua posição,
podemos relacionar seu castigo a Io como forma de representação do poder do homem
perante à mulher na sociedade, relacionando então, este enunciado a muitos outros que
exprimem esta outra relação de poder.
3.2. BLOCO SEGUNDO: RESISTÊNCIA
Como já comentado, não há relação de poder sem resistência, e esta, por sua vez,
também implica poder. Prometeu, em sua relação com Zeus, representa a resistência ao
poder e aos discursos coercitivos de Zeus, e pode se colocar na mesma pelo fato de
conhecer o futuro e de ser um deus. Notamos estas nuances em:
PROMETEU: [...] Não vou permitir que me toquem os discursos doces da
persuasão. As ameaças, por mais duras que sejam, não me farão tremer. Não
revelarei meu segredo enquanto não estiver livre destas algemas bárbaras e
não for reparado meu ultraje.”
CORO: Tu és orgulhoso e, em lugar de cederes ao teu amargo infortúnio,
falas com muita liberdade. Mas eu sinto o terror penetrar e agitar meu
coração. Teu destino me deixa trêmula. Quanto terás de suportar para ver o
fim de teus sofrimentos? Ninguém influi na alma de Zeus, filho de Crono;
seu coração não se verga jamais.
PROMETEU: Sei que ele é duro e mede a Justiça pela sua vontade. [...]
(ÉSQUILO, 1982, p. 17-18).
Aqui, percebemos marcas linguísticas que apontam para a ideia do discurso persuasivo
do poder em: “discursos doces da persuasão”, justamente pelo fato que o poder tem
caráter de controlador social. Característica muito comum das tragédias, o Coro
representa a sociedade que não se impõe ao poder ocupado pela posição de Zeus,
simplesmente segue-o temendo a punição. A palavra orgulhoso expressa exatamente a
visão do grupo de que aquele que resiste ao poder, não possui escrúpulos e age
“impulsivamente”. Assim, o fato de Prometeu falar livremente, sem temer ao poder de
Zeus faz com que o Coro tente alertá-lo da punição. Esta maneira de falar de Prometeu é
a sua principal característica como sujeito livre, e é através de seu discurso que
percebemos a resistência e também reflexos de sua relação de poder sobre Zeus, visto
que ele conhece segredos sobre seu futuro e não hesita em falar.
Torna-se claro, no exemplo que se segue, o poder e a resistência de Prometeu quando
Hermes, porta-voz de Zeus, tenta convencer o titã a revelar o segredo sobre o casamento
que irá destronar Zeus, e, no entanto, Prometeu se recusa a ceder sob qualquer
circunstância:
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HERMES: É a ti, espírito astucioso, coração cheio de amargura, tu, que
traíste os deuses comunicando seus privilégios a seres efêmeros, ladrão do
fogo, meu pai te intima a declarar que casamento é esse com o qual fazes
tanto barulho, e por quem deverá ele ser derrubado do poder. E dessa vez,
explica-te sem enigmas e chama cada coisa pelo seu nome adequado; não me
inflijas uma segunda viagem, Prometeu. Vês, não é com processos como
os que estás empregando que se adoça Zeus.
PROMETEU: Eis uma linguagem orgulhosa e cheia de arrogância, tal
como convém a um serviçal dos deuses. [...] volta depressa pelo caminho
que o trouxe até aqui: não vais saber nada do que desejas de mim.
HERMES: E dizer que foi para destroçar com essa obstinação que já passaste
por todo esse abismo de dores.
PROMETEU: Saibas bem que eu não trocaria minha infelicidade contra tua
escravidão. Estou melhor servido nesse rochedo do que sendo o fiel
mensageiro de Zeus. [...] (ÉSQUILO, 1982, p. 44-45).
Como se vê, o verbo “intimar” utilizada por Hermes faz referência as ditames de Zeus e,
novamente, ao poder que este detém sobre os demais. Em seguida, ele tenta convencer
Prometeu a contar o segredo utilizando ameaças, como observado na sentença “não me
inflijas uma segunda vez”, com o intuito de asseverar que alto poderá ser o preço a
pagar se ele não acatar as ordens do poder. Assim, Hermes posiciona-se em uma relação
de poder assimétrica com Prometeu, mas que é mantida através do poder que Zeus
confere (e também exerce) a ele. Em reação a tais ameaças, Prometeu acrescenta que
esse discurso é propício dos servos dos deuses, pois, aqueles que seguem Zeus utilizam
o poder que ele tem para coibir os demais através de seus ditos. Este discurso dos servos
também faz menção à noção de que o enunciado possui um lugar e um status, e assim
como Zeus possui o dele como o lugar da soberania, aqueles que lhe são fiéis também
assumem uma posição no campo enunciativo, posição esta de submissão quando
relacionadas àquela.
Em seguida, logo após demonstrar sua inquietação com relação à fala de Hermes,
Prometeu afirma que ele não revelará uma palavra daquilo que Zeus tanto deseja,
provando então que, mesmo ameaçado, ele não sucumbe ao poder, ele resiste. Na última
sentença deste excerto, temos o uso do vocábulo “serviçal”, que reativa, pela memória,
outros enunciados que remetem à submissão, e a qual Prometeu associa todos aqueles
que servem obedientemente ao poder, como é o caso de Hermes. Assim, Prometeu
deseja ressaltar que ele não é escravo, que ele resiste ao poder, que ele pratica a
resistência, diferentemente de Hermes. Relacionamos esta luta do personagem Prometeu
como elemento fundamental que o caracteriza e lhe identidade, identidade esta que
renega a submissão. (FERNANDES, 2012, p. 57).
Percebemos outro exemplo de resistência no excerto:
HERMES: Então digna-te, pobre insensato, digna-te, ante as tuas desgraças
atuais, a dar provas de bom senso.
PROMETEU: Tu me aborreces e tuas exortações são tão inúteis como se
estivesse falando com as ondas do mar. Não vás pensar que, assustado com
a prisão de Zeus, meu coração vai-se transformar num coração de mulher e
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que, levantando para ele as mãos dobradas, como fazem as mulheres, vou
suplicar a quem abomino para soltar essas correntes. [...]
HERMES: Se eu começar a falar, vejo que perderia meu tempo fazendo
longos discursos; pois tu não te mostras flexível e nem te deixas tocar pelos
meus rogos. [...] Mas tua violência tem por base raciocínio frágil, pois a
teimosia, quando se raciocina mal, por si mesma não tem mais força que
o ar. Então considera, se não queres te render aos meus conselhos, que
tempestade, que vagalhões monstruosos vão recair sobre ti, sem que
possas escapar. [...] Consulta tua consciência; isso que acabo de falar não é
fanfarronada nem fingimento. As palavras são verdadeiras. A boca de
Zeus não mente nunca; todas as palavras que saem dela se cumprem. Então
olha ao teu redor, reflete, e não acredites que a teimosia valha mais que
uma sábia deliberação.
CORO: Para nós, esse conselho de Hermes não parece ser despropositado.
Ele pede a ti que desistas da teimosia para ouvir a voz da inteligência.
-lhe ouvidos, pois para um sábio é vergonhoso perseverar no erro.
PROMETEU: Eu já conhecia as notícias com as quais ele me encheu os
ouvidos; mas de inimigo em inimigo, não há vergonha em sofrer maus
tratos. [...] Faça o que fizeres, não conseguirás fazer perecer o deus que eu
sou.
HERMES: Eis os pensamentos e os discursos que fazem os dementes. Tal
voto não releva uma loucura completa? [...]” (ÉSQUILO, 1982, p. 47-48).
Este diálogo entre Prometeu, Hermes, e o Coro mostra como o titã representa a
resistência ao poder, e como a sociedade e os servos da instituição encaram isso como
anormalidade. As marcas linguísticas pobre insensato”, “tolo”, “demente” presentes
nos enunciados proferidos por Hermes e também pelo Coro, retificam a visão de
Prometeu como “anormal”, que possui raciocínio frágil por não se submeter ao poder da
forma como seria sábia. Isto remonta um segundo procedimento de exclusão do
discurso proposto por Foucault (1970/2012): a separação e rejeição. O filósofo
exemplifica tal mecanismo pela diferenciação do louco e do não louco, ou o “são”,
sendo que um existe a partir do conhecimento do que é o outro. Aqui, vemos que a
razão pertence a Hermes e ao Coro, ou seja, àqueles que sucumbem ao poder, enquanto
a loucura é exclusiva a Prometeu, àquele que não se submete.
Em seguida, outro ponto relevante à análise é o uso do termo “inimigo”, no qual
Prometeu afirma que não há vergonha do sofrimento advindo de um inimigo para outro.
Essa afirmação, retoma a ideia da relação entre os enunciados, isso porque quando
falamos em inimigo formamos toda uma série de enunciados que são correlacionados e
que podem, portanto, gerar o sofrimento, a penalidade, de um indivíduo ao outro. Isso
não aconteceria, por exemplo, entre amigos; aqui a relação é distinta e, portanto, os
enunciados acionados são distintos.
Outro ponto que chama atenção para esta relação entre os enunciados é no momento em
que Prometeu fala da mulher, que ele não suplicará como as mulheres fazem em
situação de perigo. Nessa ideia da mulher como indefesa, ou incapaz de suportar, ecoam
a memória de enunciados que chamam atenção para a figura da mulher desde a Grécia
Antiga, e que ainda são repetidos e, também, transformados.
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Ainda, no dado segmento, percebemos, através da colocação de Hermes “a boca de
Zeus não mente nunca”, que Zeus ocupa uma posição-sujeito de legitimação da verdade.
Como propõe Foucault (1970/2012), em seu terceiro procedimento de exclusão exterior,
a chamada vontade de verdade é algo latente em nossa sociedade e nos é
constantemente imposta pelo discurso científico ou religioso. Neste caso, o lugar que
Zeus ocupa permite que seus ditos sejam sempre verdadeiros, pois a sociedade o
concebe como lugar legítimo da propagação da verdade. Em outras palavras, o que é
crime é aceito por todos como crime por meio desta legitimação, expressada e reforçada
por Hermes. Prometeu, porém, também dota deste discurso verdadeiro, pelo fato de ser
um deus que prevê o futuro e, então, ele e Zeus, que quer muito saber qual é o
casamento que o destruirá, se afirmam em uma constante relação de poder. Além disso,
Prometeu tem o mesmo poder que todos os deuses, ele é imortal, e isso lhe assegura
uma liberdade e uma resistência.
Isto posto, percebemos que há forte relação de poder entre o personagem Zeus e
Prometeu, sendo que o primeiro ocupa a posição-sujeito de poder, e o segundo assume o
lugar do discurso de resistência. É importante acrescentar, entretanto, que a posição
discursiva de Prometeu também reflete o poder, e que ambos são sujeitos livres, e, por
isso, podem se estabelecer nesta relação. Tal relação reforça a concepção de Foucault de
que o exercício do poder é exercido uns pelos outros, ou seja, é um conjunto de ações de
sujeitos discursivos sobre outros. Para reforçar esta ideia de pulverização do poder, de
sua dispersão em pequenas instâncias, percebemos outros personagens assumindo
posições de poder, como o Poder, mas esta figura discursiva só se estabelece neste lugar
de coerção sobre Prometeu, por exemplo, porque está submetido à posição de Zeus. Em
outras palavras, um sujeito discursivo pode ocupar diversas posições e assumir
diferentes lugares nas relações de poder. E estas relações são perceptíveis pelos
enunciados dispersos que são materializados, e que recebem seu sentido de nó em rede
(relações) na formação discursiva dos mitos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo da análise foi possível observar que, conforme ressalta Foucault, as relações
de poder são pulverizadas em micro-relações e que os sujeitos discursivos podem
ocupar diferentes posições dentro do discurso, sendo ora, aqueles que exercem o poder
e, ora, os que são governados por ele. Isto não implica dizer que tais relações estão no
mesmo nível e que, por exemplo, uma instituição maior, como a que aqui é representada
e ocupada por Zeus, estaria no mesmo nível que a relação de Hermes e Prometeu, por
exemplo. Entretanto, é possível dizer que o poder não é concentrado apenas em uma
instituição suprema, em uma soberania, mas sim se difunde em várias relações, e que
até mesmo a posição de Zeus é ameaçada pelo poder, mostrando então que há uma luta
entre dois “inimigos”, Prometeu e Zeus. Estas relações podem ocorrer porque os
sujeitos discursivos em questão são livres e podem exercer ações sobre outras ações. As
dadas ações são permeadas pela resistência que não aceita a submissão e que recorre a
estratégias para agir sobre o poder. Este jogo de ações é perceptível pelas suas posições
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no discurso e, portanto, tudo o que podemos analisar está no âmbito dos enunciados
(sejam eles verbais ou não).
Ainda, em se tratando de poder, chama-nos a atenção a construção da subjetividade de
Prometeu, como sujeito que resiste, sendo por vezes considerado teimoso e orgulhoso
pelos demais personagens, justamente pela sua relação de poder com Zeus, que é
inscrita nos enunciados que formam discursos, e que é perceptível nas práticas
discursivas. Desta forma, as noções de discurso, enunciado e sujeito são essenciais para
o entendimento aprofundado das análises, e também para entender este jogo de ações, e
de enunciados, postos em redes. Além disso, tais concepções são pertinentes para
entender o corpus em uma situação histórica, em um posicionamento constitutivos da
discursividade mítica e que, portanto, apresenta suas características próprias, como a
figura dos deuses, por exemplo, pensada a partir de uma formação discursiva específica.
Vale, ainda, ressaltar que o gesto analítico que lançamos na presente reflexão, foi
possível ao seguirmos certas marcas linguísticas, as quais funcionam como pistas que
possibilitaram o acesso aos enunciados, às relações de poder, e também a alguns dos
procedimentos de controle do discurso que reforçam a sua não inocência e não
neutralidade.
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Luiz Camargo, Simone Campos; coordenação e revisão da tradução Marcelo Brandão
Cipolla São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.
1
Jean-Pierre Vernant (1988) ressalta que as tragédias não podem ser entendidas como os mitos em sua
forma “pura”. Isso porque, o gênero trágico surgiu no final do século VI quando os mitos já não estavam
sendo vivenciados como realidade latente da sociedade, acrescentando que as tragédias possuem
características próprias e independentes. Desse modo, podemos considerá-las como uma nova
manifestação que englobava tanto o antigo modo de interpretar o mundo (através dos mitos), como os
novos valores democráticos construídos pela cidade. Entretanto, na pesquisa aqui abordada, visamos
analisar como se dá a discursivização do mito, por meio da tragédia e não nos ater às características
literárias do gênero em pauta.
2
Os termos destacados em negritos nos excertos que constituem o gesto de análise são todos nossos.
3
Os procedimentos do controle do discurso, ou procedimentos de exclusão, são desenvolvidos em seu
trabalho A ordem do discurso: Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de
1970.
* Mestre pela Universidade Estadual de Maringá. Docente na Universidade Estadual do Centro-Oeste.
** Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina.
Bolsista CAPES.
*** Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul. Bolsista CAPES.
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Curso de linguística geral
  • Ferdinand Chelini
  • Antonio
  • Jose Paes
  • Paulo
  • Izidoro Blinkstein
SAUSSURE, Ferdinand de; CHELINI, Antonio; PAES, Jose Paulo; BLINKSTEIN, Izidoro. Curso de linguística geral. 15 ed. São Paulo: Cultrix, 1989.
Mitos e lendas Tradução Angela Maria Moreira Dias
  • Philip Wilkinson
WILKINSON, Philip. Mitos e lendas. Tradução Angela Maria Moreira Dias, Jefferson Luiz Camargo, Simone Campos; coordenação e revisão da tradução Marcelo Brandão Cipolla – São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.
Problemas de linguística geral I
  • Emile Benveniste
BENVENISTE, Emile. Problemas de linguística geral I. 3ª ed. Campinas: Pontes: Ed. da UNICAMP, 1991.
  • Prometeu Ésquilo
  • Acorrentado
ÉSQUILO. Prometeu Acorrentado. Traduções: Abril Cultural, São Paulo, 1982.
Discurso e Sujeito em Michel Foucault
  • Cleudemar Fernandes
  • Alves
FERNANDES, Cleudemar Alves. Discurso e Sujeito em Michel Foucault. Editora Intermeios, São Paulo, 2012.
Estudos do discurso: perspectivas teóricas
  • Rosa Maria Fischer
  • Bueno
  • Foucault
FISCHER, Rosa Maria Bueno. Foucault. In: OLIVEIRA, Luciano A. (Org). Estudos do discurso: perspectivas teóricas. São Paulo: Parábola Editorial, 2013.
O homem que sabe: do home sapiens à crise da razão
  • Viviane Mosé
MOSÉ, Viviane. O homem que sabe: do home sapiens à crise da razão. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.