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Impactos e descobertas ou sobre marcas, trajetórias e resíduos de nosso viver

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Sempre chega o dia, o momento em que o ser humano se descobre sozinho, se descobre acompanhado, se percebe como alguém que tem diante de si um infinito de possibilidades, de compromissos, de sucessos, de realizações, de medos, angústias e alegrias. Essas coisas surgem organizadas, desorganizadas, rápidas, lentas, embaralhadas ou nítidas. Estar diante de tudo isso transforma o homem em parte de um processo, tanto quanto configura o dentro, o fora, o objetivo, o subjetivo, ou seja, o eu e o outro, o aqui e o alí. Delimitar esses lados do processo gera divisões: corpo-mente, interior-exterior, passado-presente. Polêmicas e métodos são criados, surgem classificações para ver se as divisões são entendidas. E assim, perde-se de vista o processo, a relação. Goethe dizia ser a natureza miolo e casca, referindo-se à inexistência de dentro e fora independentes. Por que é difícil globalizar? Por que temos de dividir para entender? Uma das características da era moderna, do recém terminado séc. XX, é a ênfase dada Impactos e descobertas ou sobre marcas, trajetórias e resíduos de nosso viver VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS
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Publicado no Boletim da SBEM - Sociedade Brasileira de Endocrinologia e
Metabologia - Regional Bahia/Sergipe ANO 5, Nº 17, p. 54-55!!
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PSICOLOGIA
Sempre chega o dia, o momento em que o ser humano se descobre sozinho, se
descobre acompanhado, se percebe como alguém que tem diante de si um infinito de
possibilidades, de compromissos, de sucessos, de realizações, de medos, angústias e
alegrias. Essas coisas surgem organizadas, desorganizadas, rápidas, lentas,
embaralhadas ou nítidas. Estar diante de tudo isso transforma o homem em parte de
um processo, tanto quanto configura o dentro, o fora, o objetivo, o subjetivo, ou seja,
o eu e o outro, o aqui e o alí. Delimitar esses lados do processo gera divisões: corpo-
mente, interior-exterior, passado-presente. Polêmicas e métodos são criados, surgem
classificações para ver se as divisões são entendidas. E assim, perde-se de vista o
processo, a relação. Goethe dizia ser a natureza miolo e casca, referindo-se à
inexistência de dentro e fora independentes. Por que é difícil globalizar? Por que
temos de dividir para entender?
Uma das características da era moderna, do recém terminado séc. XX, é a ênfase dada
Impactos e descobertas ou sobre marcas,
trajetórias e resíduos de nosso viver
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS
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ao que era considerado como subjetivo. Essa importância decorria da necessidade de
reagir ao determinismo classificatório gerado no séc. XIX, no qual tudo era explicado
e representado por leis imutáveis, sem deixar lugar para a liberdade, para o livre-
arbítrio.
Desde Hegel, o conceito de sujeito, de subjetivo, se firmou nas discussões e polêmicas
acerca do humano, sua história e seu mundo. O subjetivo passou a ser uma questão,
tanto quanto um receptáculo de muitas ideias e conclusões. A identificação do
subjetivo como sede e estrutura do livre-arbítrio, encantou filósofos, cientistas e
religiosos. Era a escapada do humano. Era a descoberta de que nem tudo podia ser
classificado e determinado. Havia um papel do indivíduo que a ele cabia
desempenhar, que só ele conhecia. Eram as diferenças individuais afirmadas. As
idiossincrasias estavam delineadas.
Assim eram as ideias e pensamento no início do séc. XX. A psicanálise, o marxismo e
o existencialismo são representantes importantes desse momento na trajetória do
pensamento. Tanto o marxismo, quanto a psicanálise, e consequentemente o
existencialismo, foram gerados no seio do determinismo do c. XIX. Quando Marx
salientava o determinismo econômico, a luta de classes gerada pela detenção da
propriedade privada, para explicar o comportamento humano, quando Freud falava do
inconsciente como o responsável pela motivação e comportamento, e Sartre mostrava
o engano das ideologias, das escolhas sempre ditadas por compromisso e alienação,
eles decretavam o que acontecia ao sujeito, e agiam como pensadores do c. XIX.
Entretanto, havia alguma brecha, alguma luz - a antítese se fazia -, havia
possibilidade de mudança, havia perspectiva de recuperação do sujeito quase
esmagado pelas pressões alienadoras, pois eram indicadas saídas, ações responsáveis
por mudança. Marx propunha a militância, Freud, por meio da psicanálise, pregava
buscar a verdade que a fala revelava e o existencialismo mostrava o engajamento
como a maneira de quebrar as engrenagens. O sujeito, o livre-arbítrio podia ser
recuperado ou já estava resgatado.
Hoje em dia, séc. XXI, o que estamos construindo com essas heranças teóricas? Como
estamos entendendo, conceituando e nos relacionando com o sujeito, com o
subjetivo?
Desesperados pelo não encontro de respostas, recuamos às categorias deterministas e
buscamos sinonímias redutoras. Entender as variáveis sociais, culturais e psicológicas
como resultantes de processos biológicos é atualmente uma forte tendência. Nessa
perspectiva a questão subjetiva passa a ser entendida como manifestação e marca
genética.
Publicado no Boletim da SBEM - Sociedade Brasileira de Endocrinologia e
Metabologia - Regional Bahia/Sergipe ANO 5, Nº 17, p. 54-55!!
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Falar é resultante de uma estrutura biológica e genética. Salvo algumas anomalias
orgânicas, todo ser humano fala, alguns português, outros mandarim, outros japonês,
por exemplo. Mas, aprendizagem da língua depende fundamentalmente da atmosfera
cultural vivenciada. O cérebro é uma parte do corpo, do organismo. Afirmar que ele é
a mente e que mente é corpo (logo, tudo é biológico), cria um reducionismo mantido
por um discurso útil apenas para as indústrias de remédios psicotrópicos. É oportuno
citar: "No entanto, à força de acreditar no poder de suas poções, a psicofarmacologia
acabou perdendo parte de seu prestígio, a despeito de sua impressionante eficácia. Na
verdade, ela encerrou o sujeito numa nova alienação ao pretender curá-lo da própria
essência da condição humana. Por isso, por meio de suas ilusões, alimentou um novo
irracionalismo. É que, quanto mais se promete o 'fim' do sofrimento psíquico por meio
da ingestão de pílulas, que nunca fazem mais do que suspender sintomas ou
transformar uma personalidade, mais o sujeito, decepcionado, volta-se em seguida
para tratamentos corporais ou mágicos."1
Na visão biológico-reducionista a baixa de serotonina é um dos fatores determinantes
para explicar a depressão. Esse reducionismo biológico cancela, elimina a
subjetividade, o livre-arbítrio. não existem saídas para os homens, nada pode ser
mudado, salvo suas peças de manutenção pois elas são necessárias à continuidade de
seus compromissos, de sua sobrevivência.
Tratados e pensados como máquinas, a única coisa a ser valorizada é o poder, a
"tecnologia de ponta". Se existe o poder, se existe a força, não é necessária a
motivação. Em menos de 60 anos a Declaração dos Direitos Humanos (1948) foi
abolida, e vemos isso, no âmbito mundial, nesta recente guerra Estados Unidos versus
Iraque, e no âmbito nacional, na violência nas ruas e na rede organizada do crime.
E nós? Nosso eu? Nossa família, nosso dia a dia, como somos afetados por esta
ideologia biológico-reducionista?
Nos Estados Modernos, às redes institucionais e sociais se opõem as redes do crime,
anti-institucionais e anti-sociais. Existe uma sociedade organizada, existe um crime
organizado, são paralelas, pares de opostos. O que preenche este vácuo, este abismo
gerado pelas oposições paralelas é a violência criada pelo uso da força, pelo uso do
poder como forma de aniquilação do oposto, do antagônico. A família explode, a
velhice é o destroço e o impedimento, vale o novo e o modelado, aparecem as drogas
redentoras e as pílulas curadoras.
O reducionismo biológico repercute e surge em outro contexto sob a forma do culto
ao corpo. É o corpo malhado, o corpo recuperado, o corpo das plásticas
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1!Por que psicanálise? de Elisabeth Roudinesco, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2000, p. 22!
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rejuvenescedoras. Silicone, cirurgias plásticas, implantes, o homem pode se fazer,
pode se criar. É um artefato de si mesmo.
Este é um momento perigoso: o humano, a criatura, assume a forma de criador.
Podemos nos criar. Antigamente isso era feito por meio das roupas de grife e muito
antes, na era feudal, pelo título de nobreza comprado. Agora é o silicone, o botox,
breve serão os chips - mini-enciclopédias arquivadas - responsáveis por performances
verbais.
O sujeito está destruído. Já não sei se escolho ou se é o meu cérebro que o faz, ou se é
a minha dose de serotonina que decide. A destruição do sujeito possibilita a
estruturação do que podemos chamar de anti-sujeito, de seu contrário, seu corolário.
Temos dependentes, pessoas que preferem se entregar a sedações químicas
(psicotrópicos, cocaina etc.) a enfrentar seus sofrimentos psíquicos e suas não
aceitações. É a procura do que é mágico, a espera do milagre. É sempre o não
enfrentar, não se relacionar com os problemas, não integrar os limites do existir.
Esse anti-sujeito, criado pela negação do sujeito, é nutrido pelos restos humanos
destruídos. É um processo muito esvaziador e violentador. Seu contexto produtor é o
não pensar, o não se deter e apenas seguir a linha que foi traçada para que se apoie e
se sinta firme. Por isso as adaptações rigidamente mantidas, responsáveis pelas
manutenções impeditivas de quaisquer mudanças ou transformações.
A não saída possibilitada pelo atual discurso biológico é desumanizadora. Sem o
sujeito, restam as drogas, o que satisfaz e completa o nosso vício, nosso hábito, ou,
como diz Alain Ehrenberg: "O drogado é hoje a figura simbólica empregada para
definir as feições do anti-sujeito. Antigamente, era o louco que ocupava esse lugar. Se
a depressão é a história de um sujeito inencontrável, a drogadição é a nostalgia de um
sujeito perdido." 2
A modificação de todo esse reducionismo biológico será feita quando se perceber que
o sujeito e o objeto, que o subjetivo e o objetivo são polos de uma unidade: ser-no-
mundo. Não objetivo nem subjetivo enquanto tais, são aspectos relacionais
configurados pelo outro, pelo mundo, por si mesmo. A recuperação do humano, "do
sujeito", será feita quando o relacional for percebido e considerado.
Cabe à psicologia a grande tarefa de não cair em determinismos, não ceder às
explicações tautológicas e fáceis, não se deixar seduzir pelas remoções de sintomas.
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2!Por que psicanálise? Elisabeth Roudinesco, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2000, p. 19
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Publicado no Boletim da SBEM - Sociedade Brasileira de Endocrinologia e
Metabologia - Regional Bahia/Sergipe ANO 5, Nº 17, p. 54-55!!
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Cabe ao homem existir, existindo em relação, criando elos, laços, cultura e
civilização, linguagem, epopéias, transformando sua imanência biológica, realizando
suas possibilidades relacionais.
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.* Vera Felicidade de Almeida Campos é psicoterapeuta gestaltista, autora de diversos livros, tendo
recentemente lançado "A Questao do Ser, do Si Mesmo e do Eu" pela Editora Relume Dumará.
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