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Abstract

RESUMO Quando o projeto parental é inviabilizado em decorrência da infertilidade e o casal recorre às Técnicas de Reprodução Assistida (TRA), a construção da paternidade pode ser afetada. Este estudo qualitativo, que teve como objetivo investigar a experiência paterna da gestação nesse contexto, foi realizado com 13 pais cujas companheiras engravidaram por meio de TRA e se encontravam no terceiro trimestre gestacional A análise de conteúdo das entrevistas revelou que os participantes estavam envolvidos com a gestação e com o bebê, bem como com aceitação da ideia de se tornar pai. Destaca-se que essa vivência foi permeada pelas repercussões da infertilidade e do tratamento, o que pode trazer dificuldades e especificidades para a paternidade. Nesse contexto, em que o desejo e a realização da paternidade sofrem entraves desde seu início, é importante que se possa oferecer aos futuros pais o apoio de profissionais da área da saúde mental.
1
Psicologia: Teoria e Pesquisa
Vol. 32 n. 4, pp. 1-9 doi: http://dx.doi.org/10.1590/0102.3772e324218
e324218
ARTIGO ORIGINAL
A Experiência Paterna da Gestação no Contexto da Reprodução Assistida
Joice Cadore Sonego1
Centro Universitário da Serra Gaúcha
Lia Mara Netto Dornelles
Universidade de Caxias do Sul
Rita de Cássia Sobreira Lopes
Cesar Augusto Piccinini
Eduardo Pandol Passos
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
RESUMO – Quando o projeto parental é inviabilizado em decorrência da infertilidade e o casal recorre às Técnicas de
Reprodução Assistida (TRA), a construção da paternidade pode ser afetada. Este estudo qualitativo, que teve como objetivo
investigar a experiência paterna da gestação nesse contexto, foi realizado com 13 pais cujas companheiras engravidaram por meio
de TRA e se encontravam no terceiro trimestre gestacional A análise de conteúdo das entrevistas revelou que os participantes
estavam envolvidos com a gestação e com o bebê, bem como com aceitação da ideia de se tornar pai. Destaca-se que essa
vivência foi permeada pelas repercussões da infertilidade e do tratamento, o que pode trazer diculdades e especicidades para
a paternidade. Nesse contexto, em que o desejo e a realização da paternidade sofrem entraves desde seu início, é importante
que se possa oferecer aos futuros pais o apoio de prossionais da área da saúde mental.
Palavras-chave: paternidade, técnicas de reprodução assistida, gestação
Father’s Experience of Pregnancy in the Context of Assisted Reproduction
ABSTRACT – When plans to become parents cannot be realized due to infertility, and when the couple resort to Assisted
Reproductive Technologies (ART), the construction of fatherhood may be aected. The objective of this qualitative study
with 13 men whose partners conceived through ART and were in their third trimester of pregnancy was to investigate the
experience of pregnancy according to the fathers’ perceptions. Content analysis of the interviews showed that the majority
of participants was involved with pregnancy and the baby, and also accepted the idea of becoming a father. It is noteworthy
that this experience was permeated by the repercussions of infertility and its treatment, which may lead to diculties and
specicities to fatherhood. In this context, in which the desire to become a father and the possibility to fulll such a dream are
dicult since the beginning, the authors suggest that these men may be supported by mental health professionals.
Keywords: fatherhood, assisted reproductive technologies, pregnancy
1 Endereço para correspondência: Rua Os Dezoito do Forte, 2551/72,
Centro, Caxias do Sul, RS, Brasil. CEP 95020-472. E-mail:
joicesonego@yahoo.com.br
Tornar-se paia1é um processo complexo que envolve
desejos, sentimentos e motivações, além de ser uma
das tarefas desenvolvimentais cruciais do homem e um
referencial identicatório para ele (Calero & Santana, 2006;
Farinati, Rigoni, & Müller, 2006; Gannon, Glover, & Abel,
2004; Ribeiro, 2004). É plausível se supor que esse processo
seja ainda mais complexo em contextos de infertilidade,
e em tratamentos que envolvem Técnicas de Reprodução
Assistida – TRA.
Freud (1925/1996) destacou que tanto a paternidade
quanto o desejo de ter lhos começam a ser construídos
na infância, especialmente com os desdobramentos do
complexo de Édipo e dos processos identicatórios. No caso
a Diferente do termo gestante, que se refere à mãe na gestação, não
existe, em português, termo para designar o pai na gestação. Assim,
no presente estudo, será usado o termo pai para se referir ao homem
durante a gestação da companheira. Além disto, o termo pais será usado
para se referir apenas aos homens, enquanto o termo pai e mãe para se
referir a ambos.
do menino, a identicação com o pai e sua escolha como
objeto inuenciariam a sua constituição psíquica, bem como
os relacionamentos amorosos da vida adulta. Outro aspecto
importante em relação a esse desejo refere-se à possibilidade
de graticação narcísica e à ilusão de alcançar a imortalidade
do ego favorecidas pelo nascimento de um lho (Freud,
1914/1996).
A literatura contemporânea também aponta que se
tornar pai e/ou mãe é um processo complexo que implica
níveis conscientes e inconscientes do funcionamento mental
(Houzel, 2004). A parentalidade, segundo o autor, estende-se
para além do conceito de genitor, e envolveria o exercício,
a experiência e a prática. O exercício refere-se à questão
jurídica, aos laços de parentesco que se estabelecem e aos
direitos e deveres que se agregam a eles. Já a experiência
contempla a subjetividade decorrente do fato de ser pai e/ou
mãe, tanto no nível consciente quanto inconsciente. Por m,
a prática diz respeito às atividades cotidianas e aos cuidados
parentais tanto físicos quanto psíquicos dos genitores com
seu bebê.
Estudos com foco na transição para a paternidade ainda
são recentes, mesmo envolvendo gestação espontânea e
nenhum foi encontrado especicamente no contexto das
TRA. Embora se perceba um crescimento de pesquisas na
área, os estudos sobre paternidade são ainda pouco frequentes
e pouco investigam a paternidade em diferentes congurações
(Souza & Benetti, 2009; Vieira et al., 2014). Alguns estudos
(Henn & Piccinini, 2010; Silva & Piccinini, 2007), apontam
que, embora os pais se envolvam e participem ativamente
na vida dos seus lhos, eles gostariam de se envolver ainda
mais, sendo que o trabalho aparece como um dicultador
ao reduzir o tempo que podem permanecer junto aos lhos.
Por outro lado, apesar dessa crescente participação dos pais
na vida do lho, o estudo de Krob, Piccinini e Silva (2009)
encontrou sentimentos de exclusão por parte deles, tanto na
gestação como especialmente após o nascimento dos lhos.
Para alguns pais, o período gestacional constitui-se
no mais estressante da transição para a paternidade, com
elevação dos sintomas de ansiedade, depressão e raiva
(Condon, Boyce, & Corkindale, 2004). Por exemplo, estudo
de Bornholdt, Wagner e Staudt (2007) revelou que, embora
os pais demonstrassem envolvimento nos cuidados com a
esposa e com a formação do vínculo com o bebê durante
a gestação, eles encontraram que a questão nanceira era
a principal preocupação de alguns pais no que se refere ao
exercício da paternidade. Outro estudo realizado com pais
na gestação (Piccinini, Silva, Gonçalves, Lopes, & Tudge,
2004) também revelou que muitos estavam envolvidos de
diversas maneiras (acompanhando nas ecograas e consultas
do pré-natal, dando apoio emocional e material, envolvendo-
se nos preparativos para a chegado do bebê), mostrando-
se emocionalmente conectados à gestante e ao bebê. No
entanto, alguns pais ainda encontravam diculdades quanto
ao envolvimento com seu lho, parecendo não o perceber
como real e apresentando uma baixa ligação emocional com a
gestação. Embora esses dados apontem para indícios de uma
modicação quanto à paternidade já no período da gestação,
revelam também a coexistência do modelo tradicional de
pai, como provedor, coexistindo com o modelo de um “novo
pai”, conforme destacado por alguns autores (Dessen, 2010;
Fleck & Wagner, 2003).
Sendo a paternidade uma construção pessoal, social e
cultural (Calero & Santana, 2006), permeada por desejos,
expectativas e crenças, quando o projeto parental é impedido
por questões de infertilidade, podem surgir sentimentos de
inferioridade, perda, frustração, medo, vergonha, culpa,
ansiedade, depressão, estigmatização, entre outros (Bernauer,
2009; Borlot & Trindade, 2004; Calero & Santana, 2006;
Costa, 2008; Farinati et al., 2006; Straube, 2007). Desse
modo, frente ao diagnóstico de infertilidade, poderão surgir
sentimentos de perda e de frustração pessoal, inuenciando
nos processos identicatórios do ser homem e ser pai, uma
vez que ter um lho representa no universo masculino
sentimento de poder, de proteção, de constituição de uma
família (Calero & Santana, 2006; Ribeiro, 2004). Ser infértil,
portanto, diminuiria seu valor como homem, pois o mesmo
não seria capaz de constituir a família desejada (individual e
socialmente). Por exemplo, o estudo de Gannon et al. (2004),
revelou que o homem infértil é visto pela mídia inglesa como
vulnerável e tomado por forças fora do seu controle, sendo
estigmatizado porque falhou em algo fundamental no que
diz respeito à sua masculinidade.
Estudos brasileiros ressaltam que os homens apresentam
maior diculdade em aceitar o diagnóstico de infertilidade do
que as mulheres, o que pode estar relacionado a sentimentos
de impotência e ao que caracterizaria a masculinidade
(Borlot & Trindade, 2004; Calixto, 2000; Tamanini, 2003)
e tendem a responsabilizar as mulheres, mesmo quando a
causa da infertilidade é masculina (Costa, 2008). Além disso,
segundo Hammarberg, Baker e Fisher (2010), os homens
parecem ter diculdade em falar sobre infertilidade com seus
amigos ou pessoas próximas, ou de procurar um atendimento
especializado. Entretanto, essas diculdades psíquicas não
se restringem aos homens, como aponta Ribeiro (2004) ao
destacar a infertilidade como uma ferida narcísica (Freud,
1914/1996), tanto para homens quanto para mulheres.
Frente à situação de infertilidade, diversos casais
recorrem às Técnicas de Reprodução Assistida (TRA) como
uma possibilidade de realizar o projeto parental. Durante
o tratamento, períodos de esperança e desesperança se
alternam e desencadeiam sofrimento emocional, que interfere
na autoestima, nos planos, na vida nanceira, por serem
tratamentos muito caros, e no relacionamento do casal.
Segundo Covington e Burns (2006), mesmo quando
sucesso no tratamento e a gravidez é alcançada, o desgaste
emocional e os efeitos colaterais causados pelo tratamento
se mantêm presentes por bastante tempo. As autoras referem
que a gestação nesse contexto difere da gestação espontânea,
envolvendo um gama de desaos que demandam ajustes
psicológicos e físicos. É considerada por alguns como um
prêmio, sem preço, representando investimento emocional,
de tempo e nanceiro do casal.
Como já destacado acima, não foram encontrados estudos
investigando a paternidade no contexto da reprodução
assistida. Os estudos encontrados tendem a comparar
homens e mulheres abordando os temas da infertilidade
ou sucesso do tratamento (Braverman, Boxer, Corson,
Coutifaris, & Hendrix, 1998; Gameiro et al., 2011). Além
disto, tendem a ser quantitativos e se detêm em determinado
aspecto da infertilidade ou da paternidade, mas de modo
mais fragmentado, investigando algumas poucas variáveis.
Percebe-se também uma escassez de estudos longitudinais e,
dentre os encontrados, destaca-se o de Repokari et al. (2005),
comparando casais férteis e inférteis.
Investigando o apego pré-natal, o estudo de Hjelmstedt,
Widström e Collins (2007) encontrou aspectos comuns em
relação aos padrões de apego pré-natal, tanto em concepção
espontânea quanto por reprodução assistida. Os autores
identificaram aumento no apego tanto nos casais cuja
gestante se submeteu às TRA, como naqueles com gravidez
espontânea, e não houve diferenças nos padrões de apego dos
dois grupos estudados. Este estudo destaca-se por investigar
o apego paterno, dicilmente abordado nas pesquisas, em
especial na situação de reprodução assistida.
Os casais com diculdades para engravidar têm tido
cada vez mais possibilidades de ter um lho, mas, segundo
Alkolombre (2008), têm também um trabalho psíquico
adicional na transição para a parentalidade, que é o de serem
pais de outra maneira, que não pela gestação espontânea.
Com as TRA, as representações de procriação e de família
começam a se modicar, o que faz com que os marcos
identicatórios também se modiquem e, consequentemente,
3Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, Vol. 32 n. 4, pp. 1-9
Experiência Paterna da Gestação e Reprodução Assistida
o tornar-se pai e a experiência da paternidade. A autora
apontou, ainda, que esse modo de concepção implica uma
revolução da parentalidade (Alkolombre, 2011, novembro).
Nesse sentido, Parke (2004) destacou que as novas
tecnologias estão expandindo cada vez mais os modos
como as pessoas podem se tornar pai e mãe e que, no caso
especíco da paternidade, há ainda muitas questões a serem
investigadas.
Desse modo, considerando a relevância da realização
do desejo de se tornar pai e da importância da paternidade
no desenvolvimento emocional da criança, bem como as
especicidades da gestação decorrente de TRA e a escassez
de estudos sobre a parentalidade nessas situações, o presente
estudo teve por objetivo investigar a experiência paterna da
gestação nesse contexto.
Método
Participantes
Participaram deste estudo 13 pais residentes na região
metropolitana de Porto Alegre, com idades entre 32 e
46 anos. Todos eram casados ou coabitavam com suas
companheiras que estavam no terceiro trimestre gestacional
e aguardavam seu primeiro lho, concebido por meio de
técnicas de reprodução assistida. Em relação à escolaridade,
os participantes tinham entre ensino fundamental completo
(dois), médio completo (quatro), superior incompleto
(um) e superior completo (seis). Quanto ao diagnóstico de
infertilidade, nove casos eram de infertilidade feminina,
três de infertilidade masculina e um de infertilidade mista.
A técnica utilizada pela maioria dos participantes foi
fertilização in vitro (nove), e a inseminação articial (dois)
e a doação de gametas (dois) foram menos frequentes.
Quanto ao número de tentativas para engravidar, sete casais
obtiveram sucesso na primeira tentativa, cinco, na segunda,
e um na quinta tentativa. Com relação à gestação, 10 foram
singulares e três, múltiplas.
Todos os participantes integram o projeto intitulado
Transição para a parentalidade e a relação conjugal no
contexto da reprodução assistida: da gestação ao primeiro
ano de vida do bebê ([REPASSI] Lopes, Piccinini, Dornelles,
Silva, & Passos, 2007), que tem por objetivo investigar
diversas questões sobre a maternidade, paternidade e
relacionamento conjugal no contexto da reprodução assistida.
Esse projeto acompanhou 35 casais que conceberam por
diferentes TRA. Foram realizadas diversas entrevistas em
três momentos distintos: na gestação, 3º e 12º meses de
vida do bebê. Todos os casais foram contatados por meio do
Serviço de Ginecologia e Obstetrícia de um hospital público
de Porto Alegre, o qual possui um Setor de Reprodução
Assistida. O REPASSI foi aprovado pelo CEP do referido
hospital (n° 07/153).
Procedimentos e Instrumentos
A partir de um levantamento realizado pela equipe do
hospital, todos os casais que haviam obtido sucesso no
tratamento foram convidados para participar do Projeto
REPASSI durante o 3º trimestre gestacional, sendo que
o contato inicial foi realizado com as mulheres. Àquelas
que aceitaram participar do estudo, foi solicitado que
convidassem o companheiro para participar da pesquisa,
sendo então agendado um encontro, no qual assinaram
o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Nessa
ocasião foram realizadas entrevistas simultâneas com a
mãe e o pai, por duas pesquisadoras em locais diferentes.
Para ns do presente estudo, foram consideradas somente
as entrevistas realizadas com o pai, durante a gestação de
sua companheira. Seguindo os procedimentos do Projeto
REPASSI, nessa fase os pais responderam a (1) Entrevista de
Dados Demográcos do Casal (NUDIF, 1998a), composta
por questões sobre o estado civil, pessoas que vivem na
mesma residência, ocupação, escolaridade, religião e etnia,
além de informações para contato e, (2) Entrevista sobre
a Gestação e as Expectativas do Futuro Pai (NUDIF,
1998b), uma entrevista semiestruturada que investiga como
o pai vivencia a gestação da companheira, contemplando
os sentimentos despertados nessa fase de transição para a
paternidade, a vivência do dia a dia, sua percepção sobre
o(a) lho(a) e sobre as repercussões das TRA na gestação.
Essa entrevista, com duração aproximada de 1h30min, foi
gravada na íntegra e, posteriormente, transcrita.
Resultados e Discussão
As respostas dos pais à Entrevista sobre a Gestação
e as Expectativas do Futuro Pai (NUDIF, 1998b) foram
examinadas por meio da análise de conteúdo qualitativa
(Laville & Dione, 1999) buscando compreender a experiência
paterna da gestação no contexto das TRA. Considerando-se o
conteúdo das entrevistas, dois dos autores do presente estudo
analisaram e classicaram independentemente os relatos dos
pais, agrupando-os em categorias temáticas: (a) Experiência
subjetiva do pai na gestação; (b) Repercussões do tratamento
na experiência da gestação. Além disso, subcategorias
foram criadas dentro de cada categoria, conforme será
descrito abaixo. A seguir, serão apresentadas e discutidas
as categorias e subcategorias emergentes, exemplicadas
com verbalizações dos pais. Para facilitar a exposição dos
achados foi utilizada a seguinte descrição quanto ao número
de participantes que zeram relatos classicados em cada
categoria: apenas um/só dois/poucos pais (um a três pais);
vários pais (quatro a seis pais); maioria dos pais (sete a nove
pais); e grande maioria/quase todos/todos (10 a 13). Já a
autoria das vinhetas será identicada pela letra “P” seguida
do número do caso.
A discussão dos achados foi realizada levando-se
em consideração a literatura referente à construção da
paternidade na gestação espontânea. Embora seria importante
considerar a especicidade da paternidade no contexto da
reprodução assistida, não foram encontrados estudos sobre
essa temática, na gestação (tanto na literatura nacional e
internacional). Assim, o uso da literatura mais genérica sobre
paternidade, como o estudo de Piccinini et al. (2004), que
4Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, Vol. 32 n. 4, pp. 1-9
JC Sonego et al.
investigou o envolvimento paterno na gestação espontânea,
teve por nalidade obter um parâmetro que norteasse as
discussões e, a partir daí, contribuir para a compreensão das
especicidades presentes no contexto das TRA.
Experiência Subjetiva do Pai na Gestação
Esta categoria refere-se ao modo como os pais se
envolveram emocionalmente com a gravidez, desde a
conrmação da mesma até as questões práticas do dia a dia.
Para ns de análise, esta categoria foi desmembrada nas
seguintes subcategorias: sentimentos despertados em relação
à notícia da gravidez; percepção da gestação; envolvimento
no dia a dia; interação do pai com o bebê.
Dentre os sentimentos despertados em relação à notícia
da gestação, o sentimento de alegria foi relatado pela maioria
dos participantes (oito), os quais referiram esse momento
como “Foi a melhor coisa do mundo, é a melhor coisa do
mundo!” (P1); “Quando a gente soube o resultado foi uma
felicidade só” (P8). Entretanto, vários pais (seis) também
associaram a alegria pela gestação ao fracasso de tentativas
anteriores, trazendo à tona lembranças do desgaste emocional
sofrido nesse período: “A alegria foi mútua. Apesar de na
primeira tentativa não ter dado, na segunda... foi muito
bom” (P4); Depois da quinta tentativa foi uma alegria pros
dois. No mesmo tempo, perdemos o chão e alcançamos o
céu” (P13).
Sentimento de responsabilidade em relação ao futuro lho
também foi expresso por um dos participantes, como pode
ser vericado no relato a seguir:
O sentimento maior que eu senti é de responsabilidade, a hora
que vai nascer, vou colocar um lho no mundo, [...] claro que
tem o sentimento de amor, vários sentimentos, mas o que eu mais
senti talvez seja a responsabilidade de colocar uma pessoa no
mundo e dar condições de subsistência para essa pessoa. (P2)
Quanto à percepção da gestação, a maioria dos
participantes (sete) a consideraram “Muito mais valorizada,
investida, por toda a diculdade(P1); “A gente vê um
resultado de um trabalho. De um investimento. Não deixa
de ser um investimento, né?” (P5); “Por ter sido uma coisa
que a gente teve que ir atrás, eu acho que tem um sabor
especial, ter que ser muito batalhado... teve um processo bem
diferenciado”. (P7). Entre esses pais, dois atribuíram esse
grande investimento e valorização da gestação ao tratamento
para engravidar: “Mas é que teve um sacrifício a mais, teve
um cuidado a mais... isso só veio a fazer com que a gente
curta mais e valorize mais a gestação” (P3).
No presente estudo, vários pais (cinco) relataram
diversas preocupações quanto à gestação: “Tudo é tensão,
preocupação de qualquer coisa que aconteça com ela.
Cuidando dela toda hora” (P4); Eu digo também pra ela
ter bastante cuidado [...] desde o início a gente tava com
aquela preocupação” (P12). Especialmente em relação à
percepção sobre a gestação gemelar: “Não vou comparar
também com uma gravidez normal, obviamente, natural, né?
(P5); “[A gestação] cou uma coisa mais acompanhada, uma
coisa mais técnica, menos natural” (P6). Contudo, entre os
participantes do estudo, dois pais relataram que o período
gestacional estava sendo percebido como tranquilo, sem
nenhum tipo de estresse ou diculdade: “Tá sendo muito
tranquilo, a gente não tá tendo estresse nenhum. Tá sendo
até bom, parece que não tem, parece que não tá grávida, a
real é essa” (P13).
Com relação ao envolvimento no dia a dia da gestante,
a grande maioria dos pais (12) relatou que participava e
acompanhava a companheira às consultas e exames, também
como uma forma de lhe dar apoio emocional nesse momento:
Acho que eu tenho ido quase em todas [as consultas]”;
Acho que todo [apoio à companheira], a gente está sempre
junto (P3); Eu agora vejo que eu realmente tô dando apoio
pra ela, tudo” (P5). Entretanto, um dos pais referiu não
participar das consultas devido ao trabalho: “Não, só nas
eco [ecograas] eu vou, porque o meu trabalho exige muito
lá e eu não tenho como tá toda hora saindo” (P13). Ainda
nesse sentido, outro pai acrescentou o suporte nanceiro
oferecido por ele, demonstrando, assim, a presença de uma
postura mais tradicional de pai provedor: “A parte de suporte
nanceiro é bem tranqüilo, e suporte, vamos dizer, logístico
da coisa” (P6).
Para outros, o envolvimento estendia-se à participação em
cursos: “Nós zemos um curso de primeiros cuidados com o
bebê, desde o banho, nutrição, esses cursos convencionais
para casais” (P2); “Teve um curso de pré-natal também. E
eu acompanhei tudo, desde o começo” (P8). E também ainda
a questionamentos acerca da gestação: “A gente começa a
conversar com outras pessoas, que as esposas estão grávidas,
enm, e que já passaram por isso, então eu acho que está
sendo muito bom” (P3).
Contudo, vários pais (quatro) referiram também
diculdade em interagir com a companheira e corresponder
às suas expectativas. Isolar-se foi a maneira encontrada
por um dos participantes: “Talvez eu tenha um pouco de
carência em dar atenção. Eu tento acompanhar, mas talvez
eu deixe a desejar um pouquinho. Me isolo no futebol. Eu
co mais quieto e isolado” (P1). O receio de se tornar um
intruso entre a companheira e o bebê neste momento, foi
destacado por um pai, como “momento dela”, uma vez que
Ela não me pede nada, entendeu, pelo menos no momento
eu não tô enxergando diculdade nenhuma nela [...] deixa, é
o momento dela, não vou ser eu que vou atrapalhar” (P13).
Outro pai mencionou ter se acostumado com a gestação, antes
considerada novidade, sendo o tempo gestacional responsável
por esse sentimento: “A gente acostuma, esse prazo aí de nove
meses que tem, porque a gente descobriu muito cedo” (P9).
Dois pais destacaram que, já desde a gravidez, foram
percebidas mudanças na vida do casal: “Já começou a mudar,
e a hora que nascer em diante, é mais um membro na família,
tudo é diferente”. (P9); “Cada dia tem uma novidade, a gente
nunca consegue imaginar como vai ser, então cada dia tem
uma situação diferente” (P3).
Cabe ressaltar também o caráter transformador da
experiência subjetiva da paternidade, referida por vários
pais no que diz respeito a se sentir pai: “Quando eu era
mais novo eu nem pensava em ser pai, em ter lhos, coisa
assim, mas depois que tu te acostuma com a ideia, tu vê que
é uma coisa boa, a gente sente” (P7). Contudo, três pais
destacaram que “Parece que não caiu a cha ainda, sabe
(P12); “Eu até não estou, como é que eu vou te dizer? No
auge do meu sentimento porque eu quero ver agora quando
5Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, Vol. 32 n. 4, pp. 1-9
Experiência Paterna da Gestação e Reprodução Assistida
nascer mesmo” (P2), sugerindo que para eles é preciso ver
o bebê para se sentir pai.
Destaca-se, ainda, que vários pais (quatro) perceberam-se
ansiosos, especialmente frente à proximidade do nascimento
do bebê: “Mas parece que agora esses dois meses a gente
já tem uma ansiedade maior. Parece que esses dois meses
vão ser mais demorados do que esse tempo que já passou
(P9); Eu tenho canalizado a minha ansiedade um pouco
em organizar a casa, organizar as coisas que tem que ser
organizadas, mas mesmo assim a gente tá ansioso” (P6).
Sentimento de alegria presente no cotidiano da gestação
foi mencionado por vários participantes (cinco): “Sentimento
de alegria por estar dando tudo certo até agora, [...] está
sendo um momento magníco para nós” (P2); “Pra mim tá
sendo ótimo, o nosso primeiro lho”. (P12). Esse momento
também é referido como emocionante, superando as
expectativas dos pais: “É bem legal, não tinha ideia, não
tinha noção de como é que era, está sendo bem emocionante
mesmo”; “Eles se mexem, está sendo muita coisa, é difícil de
explicar, uma emoção muito, nem sabia” (P11).
Com relação à interação do pai com o bebê, essa
foi manifestada de diversas formas. Vários pais (cinco)
demonstraram interagir com seus bebês por meio do toque
na barriga da companheira: “Dão muito chute, é muito
emocionante. Eu boto a mão, de repente eles tão sentindo,
claro. É a presença do pai deles também ali” (P5); “Gosto
quando chega de noite, daí eu falo com ele, aí parece que
ele sente, conhece, que é o pai” (P10) Contudo, um dos pais
apresentou diculdade em interagir com o bebê: Eu toco
na barriga, eu tento sentir ela quando ela chuta, não sou
muito de conversar, nem com a barriga, o meu forte não é
aquela coisa de chegar perto, eu toco, eu seguro na barriga,
converso, dou boa noite, mas não como a gente ouve falar
assim” (P1).
No que diz respeito à ecograa, destaca-se tanto a emoção
vivenciada pela maioria dos pais (oito) durante esse exame,
quanto a atribuição de características ao bebê: “Ah, é uma
sensação boa, que a gente ca tentando ver através da eco o
detalhezinho ‘é meu, é teu’ [ri], na eco não dá pra ver, mas a
gente já imagina aquilo ali tudo, a gente já olha e ‘ah a testa
é parecida com não sei quem, o narizinho’” (P13).
A partir dos relatos acima, pode-se pensar que a
experiência desses pais em relação à gestação da companheira
apresenta semelhanças e particularidades com a vivência
de pais cuja companheira engravidou de forma espontânea.
Assim como no estudo desenvolvido por Piccinini et al.
(2004) sobre o envolvimento paterno na gestação espontânea,
os participantes do presente estudo apresentaram sentimentos
ambivalentes de alegria e preocupação com a criação de
um lho, seu bem-estar e a possibilidade de lhe garantir
subsistência e proteção. Segundo Piccinini et al. (2004)
e Cook, Jones, Dick e Singh (2005), apesar do crescente
envolvimento demonstrado pelos pais no cuidado com os
lhos, sobressai-se ainda, o papel de um pai provedor e menos
um pai que expressa suas emoções ou discute os sentimentos
frente à paternidade.
Outra semelhança entre os relatos dos pais do presente
estudo e dos encontrados na literatura sobre pais de
gestação espontânea (Piccinini et al., 2004) é a preocupação
com a companheira e a necessidade de lhe dar apoio.
Entretanto, vericou-se no presente estudo comportamentos
de hipervigilância, o que se assemelha aos resultados
encontrados por Dornelles (2009), no qual, após um período
de infertilidade, os casais vivenciaram a gestação com
ansiedade e medo de perder o bebê, mesmo encontrando-se
no terceiro trimestre de gestação. Dessa forma, parece que
nas gestações com auxílio das TRA, essas preocupações
mostraram-se exacerbadas, talvez em decorrência da
necessidade da companheira e/ou deles próprios de se
submeter a procedimentos dolorosos, caros e sem garantia de
sucesso. Porém, nos três casos de gemelaridade deste estudo
(P5, P6 e P11), as preocupações paternas são particularmente
corroboradas pela realidade, uma vez que é sabido que esse
tipo de gestação traz riscos à mãe e ao feto.
A literatura tem destacado a ansiedade associada à
gestação, especialmente para a mulher no terceiro trimestre
(Brazelton & Cramer, 1992). Assim, é razoável encontrar que
essa ansiedade também esteja exacerbada nos relatos dos pais
do presente estudo submetidos à TRA e, pode-se inclusive
supor que ela já estava mais alta nos semestres anteriores de
gestação, em função do desgastante processo de diagnóstico
e tratamento até alcançar a gestação.
Diferentemente de estudos com pais na gestação
espontânea (Piccinini et al., 2004) e mesmo com casais que
conceberam por TRA (Braverman et al., 1998), no presente
estudo, somente um número restrito de pais relatou a gestação
como tranquila. Considerando as diculdades para engravidar
e as exigências físicas e emocionais de um tratamento via
TRA, a aparente tranquilidade também pode estar reetindo
uma defesa frente às questões decorrentes da infertilidade e
de todo o tratamento até a conrmação da gravidez. A esse
respeito, Baddo (2012) buscou identicar os mecanismos de
defesa utilizados por mulheres que engravidaram via TRA
e destacou a utilização de diversos mecanismos de defesa
na tentativa de minimizar a ansiedade desencadeada pelo
processo.
Pode-se perceber nos relatos dos pais do presente
estudo, o seu envolvimento no cotidiano como uma forma
de preparar-se para assumir a paternidade, o que já tem sido
relatado em estudos com gestação espontânea (Piccinini et
al., 2004). Esse envolvimento pode ser um reexo não
do contexto especíco envolvendo a gestação por meio de
TRA, que requer planejamento intenso e envolvimento do
casal, como pode estar reetindo o “novo pai”, que participa
ativamente da vida privada e do cuidado com os lhos (Fleck
& Wagner, 2003), tanto no contexto de gestação espontânea
e, talvez mais ainda, envolvendo as TRA. Identica-se
aqui, portanto, o modelo de pai cada vez mais presente nas
sociedades ocidentais mais desenvolvidas, que é corroborado
pelos estudos relatados na literatura com gestação espontânea
(Bornholdt et al., 2007; Henn & Piccinini, 2010; Krob
et al., 2009; Piccinini et al. 2004). Tais achados revelam
o envolvimento dos pais tanto em questões emocionais,
procurando dar suporte à esposa, compreendendo seus
medos e angústias, quanto no compartilhamento das tarefas
domésticas e atendimento às suas necessidades. Embora esses
achados reitam contextos em que não houve o desgaste e
os medos presentes nas gestações envolvendo TRA, também
neste contexto os pais mostraram-se emocionalmente
disponíveis na gestação. Assim, é plausível se pensar que a
6Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, Vol. 32 n. 4, pp. 1-9
JC Sonego et al.
gestação da companheira possibilitou que os pais do presente
estudo realizassem o desejo de se tornar pais e obtivessem,
assim, a graticação narcísica da paternidade destacada por
Freud (1914/1996), bem como colocassem em movimento
os processos identicatórios com seus próprios pais (Freud,
1921/1996).
Os relatos dos pais do presente estudo revelaram que eles
eram responsivos aos movimentos fetais, apesar de aparecer
também algumas diculdades nessa interação, à semelhança
de pais de gestações espontânea (Piccinini et al., 2004). Essa
interação com o bebê é importante, pois por meio dela os pais
podem personicar o lho, atribuindo-lhes características,
o que facilita a aproximação entre pai e bebê (Brazelton &
Cramer, 1992; Piccinini et al., 2004). Contribui para isso a
ecograa, que possibilita a aproximação entre pai e bebê,
como ocorre também com a mãe, uma vez que o mesmo é
“visto”, o que permite que se atribuam características físicas
ao bebê, além de permitir a conrmação de que seu bebê é
real (Draper, 2002).
Também apareceram no presente estudo, relatos de
exclusão, o que sugere pensar que o período gestacional ainda
é percebido como um assunto de mulheres, corroborando
estudos que revelam que alguns pais não se envolvem muito
com a gestação, especialmente com questões de ordem
afetiva (Piccinini et al., 2004). Isso pode ser tanto decorrente
da cultura, como também de uma forma de defesa contra as
angústias despertadas nesse período. Bornholdt et al. (2007)
identicaram sentimentos de exclusão no relato de alguns pais
na gestação, o que foi justicado pelos participantes como
decorrente das questões de gênero. No contexto da TRA,
esses sentimentos de exclusão podem ser exacerbados pelo
próprio contexto do tratamento. A maioria dos procedimentos
durante o tratamento por TRA ocorre no corpo da mulher
(ex. aplicação de injeções diárias de hormônio, ecograas
frequentes, exames laboratoriais, dentre outros), que exigem
a sua presença e participação ativa, mas raramente a do
homem. Nesse cenário já ocorre certa exclusão, inevitável,
dele. Ademais, a literatura aponta que, mesmo na gestação
espontânea, é a partir da informação da companheira sobre os
movimentos do bebê, bem como da visualização da ecograa
e até mesmo do seu nascimento, que o pai se aproxima mais
do bebê (Draper, 2002). Por m, cabe destacar que esses
sentimentos de exclusão podem não ser apenas expressão de
uma diculdade de interagir com a companheira, mas estão
associados ao uso de mecanismos de defesa para lidar com
a situação, para se proteger (Baddo, 2012).
Chama a atenção que alguns aspectos presentes em outros
estudos sobre paternidade na gestação (Piccinini et al., 2004)
não foram identicados nos relatos dos participantes deste
estudo, entre eles o desejo de assistir o parto, a preocupação
com a inexperiência nos futuros cuidados com o bebê e a
intensa preocupação nanceira. Pode-se pensar que devido
às diculdades para conceber e assim realizar o projeto
parental, algumas dessas questões tornam-se secundárias,
perdendo assim sua importância, pois o que mais interessa
no momento é garantir o bem-estar da companheira e do
bebê, expresso pelo comportamento hipervigilante relatado
por pais do presente estudo.
Dessa forma, pode-se recorrer a Covington e Burns
(2009) que armam que casais com histórico de infertilidade
não somente concebem de forma diferente do que casais que
tiveram gestação espontânea, mas também experienciam a
gestação diferentemente. Para esse grupo, a gestação com o
auxílio das TRA necessita ser planejada, deliberada e traz
desaos especícos ao casal, os quais requerem ajustes
psicológicos e físicos importantes. Portanto, diferente
do que ocorre com a paternidade decorrente da gestação
espontânea, a paternidade nesse contexto coloca em foco
outros elementos básicos, que se referem à necessidade
de garantir que o bebê irá nascer, pois o nascimento do
próprio pai depende do nascimento desse bebê. Na gestação
espontânea, o ponto de partida é outro. O casal descobre-se
grávido ou planeja engravidar e obtém sucesso. Ao contrário,
na gestação por TRA o ponto de partida tem por cenário o
fracasso, a frustração.
Repercussões do Tratamento na Experiência da
Gestação
Nesta categoria destacam-se as especificidades da
experiência do tratamento via TRA e suas possíveis
repercussões na experiência paterna da gestação. As
subcategorias que se destacaram foram: dificuldades
enfrentadas pelo casal; influência do tratamento no
relacionamento conjugal; aspectos positivos e negativos do
tratamento; apagamento da experiência.
Vários pais (quatro) apontaram as diculdades enfrentadas
pelo casal durante o tratamento, bem como o sofrimento
vivenciado por eles nesse processo: “Até o momento que
ela disse ‘tô grávida, deu tudo certo’, foi muito angustiante.
Foi difícil (P1); Eu acho que a experiência foi muito
traumatizante, foi uma coisa assim, foi bem, bem difícil
(P6); “Então o que foi meio sofrido foi toda essa parte da
cirurgia, mas ela que sofreu e eu fui sofrendo junto” (P11).
Um ponto destacado por alguns pais (três) é sobre
a inuência do tratamento no relacionamento conjugal,
especialmente ao aproximar o casal: “Eu acho que até
fortaleceu mais por todo o processo que a gente passou. Foi
uns processos dolorosos, outros processos constrangedores
e coisa e tal(P3); A gente tá mais unido, em torno da
criança, então acho que melhorou [sobre a experiência da
reprodução assistida]” (P4).
Ao fazerem uma avaliação da experiência da reprodução
assistida, dois pais apontaram os aspectos positivos desta:
Positivo é que deu certo. Tivesse passado pelas tentativas
e não tivesse dado, tivesse dado errado, sei lá, a gente ia
car com o pé atrás” (P9); “Positivo que deu tudo certo
né, negativo não. Eu não penso coisa negativa, o que
passou, passou, penso só positivo” (P12). Já quanto aos
aspectos negativos dessa vivência, um dos pais relatou: “Ah
depende, negativo, negativo, não é que é negativo, né. Eu
digo assim, pra quem mora longe, tipo aqui foi trabalhoso.
A [companheira], várias vezes ela foi a Porto Alegre, ia três
vezes por semana, fazer aquele acompanhamento lá e sentia
bastante, bastante diculdade porque ela largava o serviço
aqui e justicava as aulas” (P9).
Dentre as especicidades da experiência com as TRA,
outro ponto que chama a atenção na fala de vários pais
(seis) refere-se a um certo apagamento da experiência:
7Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, Vol. 32 n. 4, pp. 1-9
Experiência Paterna da Gestação e Reprodução Assistida
“A gente nem fala nisso, nem pensa nisso [em ter feito
uma FIV]” (P3); “Às vezes eu nem lembro que teve isso aí
[reprodução assistida], às vezes é uma coisa que passa meio
desapercebida, então não me afetou em nada”; “Talvez por
esse fato de ser na primeira tentativa, imagino, por esse fato
de ter sido tranquilo, na boa, e rapidamente já fez o exame
e deu positivo, então às vezes eu nem lembro, eu acho que
foi bem tranquilo(P11); Uma coisa que eu nunca me
importei é da maneira como foi gerada a [lha]”; “A minha
preocupação de como foi feito, se foi feito articialmente, se
foi feito normal nunca me afetou” (P13).
Os achados acima apresentados permitem destacar
que a gestação no contexto das TRA apresenta algumas
peculiaridades em relação à gestação espontânea. Uma dessas
peculiaridades refere-se a todo o processo de diagnóstico e
posterior tratamento para conseguir engravidar. Os pais do
presente estudo destacaram, em suas falas, o sofrimento
vivenciado pelo casal nesse processo. O estudo de Straube
(2007), realizado com casais inférteis cinco anos após o
nascimento do bebê, apontou que eles ainda se sentiam
estigmatizados, mesmo após tanto tempo decorrido do
tratamento. Assim, é possível pensar que o sofrimento físico
e psíquico envolvendo os procedimentos de TRA deixem
marcas psíquicas que se estendem para muito além dos
procedimentos em si.
Além disso, a inuência do tratamento no relacionamento
conjugal, conforme relatado pelos participantes, está de
acordo com os achados de Borlot e Trindade (2004) de
que a experiência da infertilidade e do tratamento fortalece
o vínculo do casal, mesmo entre casais inférteis que não
conseguiram engravidar após a realização do tratamento. De
qualquer modo, pode-se pensar que esse fortalecimento ou
não do vínculo depende também de como estava a relação
do casal antes da descoberta da infertilidade e da realização
do tratamento.
Outro aspecto que parece caracterizar a experiência da
paternidade neste contexto refere-se a certo “esquecimento”
ou apagamento do sofrimento enfrentado para que o casal
pudesse ter seu lho, durante a gestação. Isso pode ser
percebido no fato de os pais atribuírem mais aspectos
positivos do que negativos às TRA, já que conseguiram
ter o lho desejado. Destaca-se nas falas desses pais o uso
da negação, tanto ao relatarem que nem lembram mais de
todo o processo que enfrentaram, quanto ao dizerem que
não falam mais sobre isso ou que não se importam com o
modo como o lho foi gerado. Tais relatos dos pais parecem
sugerir a presença do mecanismo de defesa de negação, tanto
frente à ferida narcísica da infertilidade quanto à angústia
vivenciada ao longo de todo o processo (Baddo, 2012; Freud,
1925/1996).
Considerações Finais
Os resultados do presente estudo revelam que a
experiência dos pais cujas companheiras engravidaram via
TRA apresentam algumas características semelhantes aos
pais com gestação espontânea retratados na literatura, tais
como satisfação e envolvimento com a gestação, mas também
diculdades e sentimentos de exclusão. Contudo, para além
dessas semelhanças, existem também algumas especicidades
da experiência de paternidade, que parecem ser próprias do
contexto da reprodução assistida, como a hipervigilância e a
preocupação intensa com o estado de saúde da companheira.
Entre as especicidades da paternidade na gestação,
após um período de infertilidade, pode-se destacar a intensa
experiência emocional vivida pelo pai (e obviamente pela
mãe) na busca da realização do projeto parental. Faz parte
desse momento o abalo sofrido frente à impossibilidade
de conceber um lho de forma espontânea e ter que se
submeter a procedimentos técnicos, gerando sentimentos de
impotência, frustração, medo, entre outros. Independente de
quem contribui para a infertilidade, essa afeta a masculinidade
e a feminilidade dos envolvidos e, consequentemente, a
paternidade e maternidade.
De qualquer modo, os achados do presente estudo
sobre a experiência do pai na gestação permitem pensar
que a notícia da gravidez e a forma como esse período foi
percebido apresentam várias características semelhantes às
encontradas em pais cuja concepção do bebê foi espontânea.
Entretanto, destacam-se no relato de alguns pais as marcas
tanto da infertilidade como aquelas deixadas pela vivência
do tratamento, com suas incertezas e fracassos. Isto pode
explicar os comportamentos de hipervigilância e preocupação
com a companheira, o constante estado de alerta de alguns
pais para garantir a saúde e o bem-estar da companheira e
do bebê. Além disso, sugere a percepção dos pais de uma
gestação frágil, reexo também das diculdades e demandas
emocionais e físicas presentes na luta para engravidar.
Cabe ressaltar, também, que a grande maioria desses pais
envolveu-se emocionalmente no dia a dia da gestação, o que
foi expresso por meio do acompanhamento nas consultas, do
carinho e da atenção referidos e pela busca de informações
que minimizassem suas angústias. Sentimentos de exclusão e
isolamento também foram manifestados por pais do presente
estudo, o que pode indicar resquícios de uma tradição que
confere à mulher, e não ao homem, o direito de expressão
de seus sentimentos de alegria e preocupações em relação
à gestação.
Os pais demonstraram também alegria frente à interação
com o bebê. Diferentemente da mulher, que carrega o bebê
em seu ventre e sente a sua presença constante, o homem
necessita da intermediação da mulher para percebê-lo. O
toque na barriga e, mais tarde, a visualização da imagem do
bebê pela ecograa possibilitam conrmar a sua existência
e, assim, dar sentido ao que antes era vivido de forma
mais particular pela mulher. Neste estudo, esse movimento
transformador de aproximação, aceitação e conrmação do
papel de pai, a partir do que ocorre com a mulher, permeou
o dia a dia desses participantes, de modo semelhante ao que
a literatura destaca no caso de pais com gestação espontânea.
No que diz respeito às repercussões do tratamento via
TRA na experiência da gestação, as lembranças de um período
traumático e desgastante se zeram presentes no relato dos
pais, reforçando a ideia de que o tratamento deixa cicatrizes
que não se apagam com a concepção e a gestação, mas que ali
permanecem tanto na forma de hipervigilância com relação à
companheira, como nas preocupações que os acompanham.
Entretanto, outros pais ressaltaram a conquista da gestação,
em detrimento das lembranças dolorosas da experiência
8Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, Vol. 32 n. 4, pp. 1-9
JC Sonego et al.
psíquica vivida, buscando negar ou minimizar o sofrimento
desse período.
Na verdade, a experiência paterna da gestação da
companheira é afetada também pela experiência da própria
infertilidade, antes da realização das TRA. Essa história
de infertilidade pode aproximar o casal, que percebe sua
relação fortalecida por enfrentarem juntos momentos difíceis,
bem como supervalorizar a conquista da concepção e dos
temores frente às possíveis fragilidades desse processo. Cabe
ressaltar que fatores importantes, como características de
personalidade e experiências de vida dos pais, que conferem
a esse momento um signicado individual e singular, não
foram considerados no presente estudo, mas são sem dúvida
importantes para serem investigados em futuros estudos.
Devido à ausência de literatura específica sobre
paternidade e reprodução assistida, neste estudo optou-se por
buscar subsídios teóricos e empíricos referentes à paternidade
com gestação espontânea como um ponto de partida, para
assim compreender as especicidades da paternidade no
contexto das TRA. Embora o objetivo deste estudo não
tenha sido comparar as experiências da gestação em pais
cujas companheiras engravidaram espontaneamente ou via
TRA, nas verbalizações dos participantes do presente estudo
perceberam-se semelhanças ao referido na literatura sobre
paternidade em geral. Outra limitação do presente estudo foi
em relação aos poucos casos disponíveis, o que levou a incluir
gestação gemelar, que obviamente apresenta especicidades
adicionais na vivência desse momento, mas que não foram
foco neste estudo. Além disso, devido ao número de casos,
não zemos distinção de quem era o portador da infertilidade,
se o homem ou a mulher, assumindo que a infertilidade é
do casal. Apesar de este estudo ter contemplado apenas o
terceiro trimestre gestacional, considera-se importante a
realização de estudos de caráter longitudinal, estendendo-se
desde a descoberta da infertilidade, passando pelo tratamento
e nascimento, até os primeiros anos da criança. Isso permitirá
que se tenha uma visão mais extensa e profunda sobre as
implicações da infertilidade, não só para a paternidade,
maternidade e conjugalidade, mas também para a própria
relação com o lho.
Por m, sugere-se que, frente à complexidade do contexto
da infertilidade e uso de TRA, tanto às mães como aos pais
seja disponibilizado acompanhamento por prossionais
da área da saúde mental. O espaço que o presente estudo
concedeu para escutar os pais, mostrou o quanto isto foi
valorizado por eles, comumente assumidos como homens que
precisam ser fortes e que não precisam receber apoio para
enfrentar suas diculdades. Ressalta-se que este espaço de
escuta poderia ser sistematicamente oferecido a todos os pais
e mães envolvidos com as TRA. Obviamente é preciso ser
sensível, para respeitar os processos singulares de tornar-se
pai, especialmente neste contexto envolvendo infertilidade.
Experiências subjetivas, modelos de pai e mãe e questões
culturais, dentre outros, constituem a tessitura emocional
que serve de invólucro para a transição para a paternidade,
em qualquer contexto e, talvez, mais ainda em contextos
como o das TRA.
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Recebido em 03.01.2014
Primeira decisão editorial em 29.04.2015
Versão nal em 08.06.2015
Aceito em 04.08.2015 n
... The current literature 7,8 focuses predominately on the antenatal experiences of the gestating partner experience. In addition, there is also evidence of hypervigilance and feelings of exclusion amongst fathers following MAC 14 . The current review is necessary to expand understanding regarding the transition to parenthood, incorporating postnatal experiences. ...
... The reality of becoming a breastfeeding mother after ART 14 Sadeghi Joy and pride in pregnancy 4) Anxiety and reassurance in selecting a birthing facility 5) Feeling of relief at having to come this far on a long journey 6) Acceptance that one can not have a natural delivery ...
... However, for others, these worries persisted throughout, switching to fears of stillbirth 30,31,33 . In papers that discussed the non-gestating partners' perspectives (in this case, all male partners' perspectives) these fears were often less apparent 12,14,29 , reassured by their partners' changing bodies. ...
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Background: Medicalised Conception (MAC) assists many couples to achieve pregnancy worldwide. As the impact of MAC has been linked to increased pregnancy-specific anxiety and parenting difficulties, this review aimed to explore parental experiences of pregnancy and early parenting following MAC, identifying their psychological, social and health needs. Method: Five databases were searched systematically. Identified articles were screened for eligibility. Twenty qualitative studies met inclusion criteria and results were analysed using thematic synthesis. The Critical Appraisal Skills checklist was employed to appraise methodological quality. Results: The findings were synthesised into three main themes: 1) The vulnerable parent: fear, doubt, uncertainty, 2) the stark realisation of the parental dream, 3) psychosocial needs and support. Parents lacked a sense of safety during pregnancy and acted protectively, both antenatally and postnatally. Identity transition was complex and non-linear, influenced by sociocultural context. Conclusions: Considerable unmet psychosocial needs were identified with a need for consistent, holistic care, integrating psychological services.
... Nem todas as mulheres conseguem a maternidade pela reprodução natural, e a constatação da infertilidade traz sofrimento e frustração, fazendo com que algumas mulheres recorram a tratamentos para gerar um filho biológico (Sonego et al., 2016;Félis & Almeida, 2016;Marques & Morais, 2018;Pinto & Lamounier, 2016). Diante disso, é preciso pensar no papel social da maternidade. ...
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Este estudo teve como objetivo compreender as vivências da mulher em processo de reprodução assistida. Para tal, utilizou-se de uma pesquisa exploratória com abordagem qualitativa, por meio de uma entrevista semiestruturada com perguntas abertas, realizada com oito mulheres no processo de reprodução assistida. Como resultados as mulheres em processo de reprodução assistida relatam sentir-se tristes e incompletas quando se deparam com o diagnóstico de infertilidade, e que uma das influências positivas é a relação amorosa, que serve de apoio e segurança. Além disso, muitas percebem uma evolução na sua percepção sobre maternidade durante o processo. Conclui-se que entre as vivências da mulher em processo de reprodução assistida estão os muitos lutos, com as tentativas, o diagnóstico da infertilidade e outros momentos. Além disso, muitas das mulheres também relatam aprendizados e evoluções pessoais positivas nesse processo.
... Se relaciona a ello, otro aspecto interesante, que se refiere a las ideas individualistas y de realización personal encontradas en las familias contemporáneas, cuyo fundamento es el amor y la libre elección de cada uno de sus miembros (ÁRIÈS, 1975;KAMMERS, 2006;LASCH, 1932;ROUDINESCO, 2003;ZORING, 2010). En cuanto a esto, destacamos las implicaciones de la reproducción asistida para la construcción de la parentalidad (QUAYLE & DORNELLES, 2005, SONEGO, et al., 2016, evidenciando las heridas narcísicas de los padres involucrados en estos procedimientos, generalmente relacionados a la cuestión de la infertilidad, en particular en el caso de los hombres, en los que todavía existe la presión social del masculino asociada a la virilidad y cuanto al deseo de tener un hijo estaría relacionado con un deseo de realización personal, de un proyecto de vida a ser alcanzado, principalmente en el caso de las familias monoparentales, generalmente formadas por mujeres, que optan por formar una familia. Freud (1914) ya afirmaba, en el deseo por tener un hijo, una búsqueda por la inmortalidad y completitud narcisista. ...
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Este estudo objetivou compreender a experiência da parentalidade de um casal heterossexual querecorreu à ovodoação e que tevetrigêmeos. O casal respondeu, individualmente, as entrevistas sobrematernidade e paternidade em três períodos: gestação, três meses e primeiro ano de vida dos bebês.Após repetidas leituras das entrevistas, construiu-se o relato clínico. Os resultados revelaramquestionamentos da mãe sobre a própria maternidade e uma compensação exacerbada nos cuidadoscom os bebês para suprir a ligação não consanguínea com os filhos. Além disso, as dúvidas arespeito da revelação da origem dos trigêmeos demonstraram angústia e desamparo frente aocontexto da ovodoação.
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A docência tem sido evidenciada cada vez mais como uma profissão extremamente estressante, devido à presença de fatores de riscos psicossociais no ambiente do trabalho, que têm sido associados à ocorrência de problemas de saúde física, psíquica e social. Este estudo teve o objetivo de conhecer os fatores de riscos psicossociais no trabalho docente e as estratégias de enfrentamento utilizadas por professores moçambicanos do ensino básico da rede pública. Trata-se de uma pesquisa exploratória e de natureza qualitativa com a aplicação de uma entrevista semiestruturada a dez professores, cinco do sexo feminino e cinco do sexo masculino. A análise de conteúdo temática dos dados indicou desvalorização social do professor, mau relacionamento interpessoal entre gestores e professores, baixos salários e remunerações, precárias condições do trabalho, limitadas oportunidades de desenvolvimento na carreira, falta de apoio profissional e social, grande quantidade de alunos nas turmas, falta de benefícios sociais e dificuldades de conciliar as atividades da casa e do trabalho como os principais fatores de riscos psicossociais apontados pelos professores investigados. Para lidar com as pressões do trabalho, os participantes tendem a recorrer a estratégias focadas na emoção. Esses resultados sugerem a necessidade de melhoria das condições de trabalho e continuidade e aprofundamento de investigações na perspetiva de compreender as repercussões desses fatores na saúde mental dos professores, para propor o delineamento e a implementação de políticas públicas de atenção à saúde desses profissionais.
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The aim of this study was to characterize the production of empirical articles involving the paternity issue and their contribution to child development among family members, published between 2000 and 2012 in Brazilian journals indexed in the databases IndexPsi, SciELO and PePSIC. Father, paternity and paternal were the descriptors used. One hundred articles were fully analyzed. The qualitative data analysis was used in 70% of them. Data collection was the preponderant method (60%) and interview was the most used collection technique (47%). Among the topics investigated include: pregnancy, delivery and postpartum (25%), exercise of parenthood (22%), child development (15%), adolescence (14%) and conceptions of paternal behavior (13%). It is suggested that future studies investigate the paternal participation and the sharing of roles in the family, integrating quantitative and qualitative approaches and involving longitudinal studies.
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RESUMO – O objetivo deste estudo foi investigar, através de uma abordagem qualitativa, o envolvimento paterno e a experiência da paternidade no contexto da Síndrome de Down (SD). Foram entrevistados seis pais de crianças com SD, cujos filhos tinham idades entre nove meses e três anos e três meses. Os resultados revelaram que os pais participavam ativamente das atividades e cuidados dos filhos, sendo responsáveis por diversas tarefas que os envolviam, embora o tempo disponível para estar com eles fosse restrito em função do trabalho. De qualquer forma, apesar das dificuldades, tanto objetivas (financeiras, tempo, emprego), como mais subjetivas (aceitação, tristeza, preocupação), eles demonstraram uma boa adaptação ao filho com SD, conseguindo exercer seu papel de pai. Palavras-chave: envolvimento paterno; Síndrome de Down; paternidade. ABSTRACT – The aim of the present study was to investigate, through a qualitative approach, paternal involvement and paternal experience in the context of the Down Syndrome (DS. More specifically, it aimed to understand the impact of DS on paternal involvement and experience. Six fathers of children with DS were interviewed, whose children were between nine months and three years and three months. The results indicated that fathers had been participating actively in children's activities and caretaking, being responsible for several tasks, although the available time to spend with them was restricted because of their jobs. In spite of both objective (financial, time, job) and subjective difficulties (acceptance, sadness, preoccupation), they demonstrated good adaptation to their child with DS, being able to carry out their role as a father.
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This article presents a part of the results obtained in the study conducted at the National Institute of Endocrinology (NIE) aimed at understanding the meanings and perceptions of infertility of a group of males that receive medical attention due to this ailment. Fourteen males from infertile couples attended at the NIE were interviewed. The information was recorded, transcribed, coded and triangulated, according to the qualitative research methodology. It was found that infertility is interpreted by males as an element of loss and personal frustration, where the impossibility to be father gives rise to strong consequences that endanger his identification as a full male. The negativity in the meanings of infertility constructed by males is in correspondance with the person who presents the infertility factor and with the presence of previous children.
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Este estudo teve como objetivo verificar a incidência de artigos internacionais e nacionais sobre o tema paternidade no período de 2000 a 2007 indexados nas bases de dados: LILACS, SciELO, Web of Science, MEDLINE, Redalyc. Um total de 2.205 trabalhos foi identificado, sendo analisados 353 artigos em relação ao ano de publicação, país, método e temática. Os resultados apontam para significativa produção internacional e nacional, destacando-se EUA, Inglaterra e Brasil. Verificou-se que o tema paternidade é foco importante para a compreensão das relações familiares, questão fundamental para a implantação de políticas públicas de apoio às famílias em diferentes contextos.
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The beliefs and expectations concerning father's role in childbearing had an extensive transformation in the last decades. However, little is known about how these changes are affecting the routine of parents and children, and how fathers are evaluating themselves in this role. Based on a qualitative approach, the present study aimed to investigate the feelings concerning fatherhood and father involvement in three married fathers who had an only child, preschool-aged. The fathers were interviewed and their answers were examined through content analysis. The results revealed that fathers shared child rearing responsibilities with their wives. Fathers believed that their participation in their children's life was very important and they are generally satisfied with fatherhood. However, there were important differences regarding father involvement, especially related to financial responsibilities and time available to their child.
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The pregnancy following infertility treatment is a premium pregnancy: precious, priceless, and precarious. It is also a high-stakes pregnancy, usually representing a considerable investment of time, emotion, energy, money, and medical treatment. Furthermore, the pregnancy after infertility may be the result of medical treatments facilitating conception, such as in vitro fertilization (IVF), donated gametes, or pregnancy in a gestational carrier or surrogate. The postinfertility pregnancy may be affected by the side effects of assisted reproductive technologies (ARTs), such as complicated multiple gestation, multifetal reduction, high-risk pregnancies/deliveries, and the ultimate risk – loss of the whole pregnancy. Pregnancy after infertility is more than a planned pregnancy: It is a deliberate pregnancy. Once achieved, it can be a distressing realization that it involves a myriad of new challenges and perils demanding considerable psychological and physical adjustments. This chapter addresses the unique aspects of pregnancy after infertility and: defines how the pregnancy after infertility is different from other pregnancies; outlines the psychological tasks of the postinfertility pregnancy; addresses issues of psychopathology and psychiatric treatment in the postinfertility pregnancy; delineates the unique characteristics of the post-infertility pregnancy, including multiples, third-party reproduction, and pregnancy in the older mother; specifies therapeutic interventions for helping the previously infertile couple manage the typically precious and highly valued postinfertility pregnancy.
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Because all too often the goal of infertility treatment is pregnancy, it can be disconcerting to both the patient and care giver when the pregnancy following infertility treatment is difficult and physically and psychologically challenging. Disbelief, denial, or hypervigilance in response to pregnancy may impact prenatal care and adjustment to pregnancy and parenthood. Factors contributing to the uniqueness of the pregnancy following infertility include pregnancy complications requiring bedrest, hospitalization, multiple fetuses, fetal reduction, pregnancy created as a result of donor gametes, pregnancy in a gestational carrier, or pregnancy in an older mother. These factors can impact psychological adjustment to and obstetric care of the pregnancy.