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Homophobia as a determining factor in discriminatory practices towards the production of subjectivities: a study with homosexual people working for companies in Rio de Janeiro

Authors:

Abstract

The objective of this research is to describe and analyze which are the mechanisms that contemporary business organizations employ to shape the subjectivities of homosexual subjects from the perspective of the genealogical method which has been specifically developed by Rohm (2003). This study is endorsed by some post-structuralist concepts from philosophers such as Michel Foucault and Félix Guattari. As reflections due to some homophobic discourses within companies, one has found subjects reporting various ways of coping with such discrimination, such as self-denial, fear of coming out, a search for instrumentalisation of technical expertises and even resigning.
A HOMOFOBIA COMO UM FATOR DETERMINANTE NAS PRÁTICAS DISCRIMINATÓRIAS PARA A PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES
PSICOLOGIA POLÍTICA. VOL. 14.30. PP. 347-365. MAIO AGO. 2014 347
A Homofobia como um Fator Determinante nas Práticas
Discriminatórias para a Produção de Subjetividades: um estudo
com pessoas homossexuais em empresas do Rio de Janeiro
Homophobia as a Determining Factor in Discriminatory Practices
Towards the Production of Subjectivities: a study with
homosexual people working for companies in Rio de Janeiro
La Homofobia como un Factor Determinante en las Prácticas
Discriminatorias para la Producción de Subjetividades: un estudio
con personas homosexuales en empresas en Río de Janeiro
Le Homophobie comme un Facteur Déterminant sur les Pratiques
Discriminatoires pour la Production de Subjectivités : une étude
avec homosexuels dans les entreprises de Rio de Janeiro
Ricardo Henry Dias Rohm
ricardorohm@terra.com.br
Samira Loreto Edilberto Pompeu ★★
samira@mst.iag.puc-rio.br
Resumo
O objetivo desta pesquisa consiste em descrever e analisar quais
são os mecanismos de que as organizações empresariais
contemporâneas se valem para moldar as subjetividades de
pessoas homossexuais mediante o método genealógico
especialmente desenvolvido por Rohm (2003) e explicitar as
relações de poder subjacentes a tais discursos. Para tanto, este
estudo é referendado nos principais conceitos de filósofos pós-
estruturalistas tais como Michel Foucault e Félix Guattari.
Encontrou-se, como reflexos dos discursos homofóbicos
relatados pelos sujeitos da pesquisa nas empresas, diversas
formas de lidarem com tal discriminação, tais como a negação e
o medo de se assumirem homossexuais, a busca por
instrumentalização de competências técnicas, e mesmo a
demissão voluntária.
Psicólogo pela Universidade
Federal Fluminense, Brasil,
Mestre e Doutor em Administração
pela Fundação Getúlio Vargas,
Brasil. Atualmente é professor da
Faculdade de Administração e
Ciências Contábeis da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro, RJ, Brasil.
★★ Mestranda no Programa de
Pós-Graduação em Administração
de Empresas da Pontifícia
Universidade Católica do Rio de
Janeiro, Rio de Janeiro, RJ,
Brasil.
Rohm, Ricardo Henry Dias.,
& Pompeu, Samira Loreto
Edilberto. (2014). A homofobia
como um fator determinante
nas práticas discriminatórias
para a produção de
subjetividades: um estudo
com pessoas homossexuais
em empresas do Rio de
Janeiro. Psicologia Política,
14(30), 347-365.
RICARDO HENRY DIAS ROHM SAMIRA LORETO EDILBERTO POMPEU
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSICOLOGIA POLÍTICA
348
Palavras-chave
Homofobia, Organizações, Subjetividade, Genealogia, Diversidade.
Abstract
The objective of this research is to describe and analyze which are the mechanisms that
contemporary business organizations employ to shape the subjectivities of homosexual
subjects from the perspective of the genealogical method which has been specifically
developed by Rohm (2003). This study is endorsed by some post-structuralist concepts from
philosophers such as Michel Foucault and Félix Guattari. As reflections due to some
homophobic discourses within companies, one has found subjects reporting various ways of
coping with such discrimination, such as self-denial, fear of coming out, a search for
instrumentalisation of technical expertises and even resigning.
Keywords
Homophobia, Organizations, Subjectivity, Genealogy, Diversity.
Resumen
El objetivo de este estudio es describir y analizar cuáles son los mecanismos que las
organizaciones empresariales actuales se basan para dar forma a las subjetividades de las
personas homosexuales a través del método genealógico específicamente desarrollado por
Rohm (2003) y explicar las relaciones de poder que subyacen a tales discursos. Por lo tanto,
este estudio se apoyó en conceptos posestructuralistas de los filósofos como Michel Foucault
y Félix Guattari. Como reflejos de los discursos homófobos, informes de diversas formas de
lidiar con ese tipo de discriminación fueran encontradas: la negación y el miedo a salir del
armario, la búsqueda de la explotación de los conocimientos técnicos, y mismo la rescisión
voluntaria
Palabras clave
Homofobia, Organizaciones, Subjetividad, Genealogía, Diversidad.
Résumé
L'objectif de cette recherche est de décrire et d'analyser quels sont les mécanismes que les
organisations d'affaires contemporains comptent pour façonner les subjectivités des
homosexuels par la méthode généalogique spécialement développé par Rohm (2003 ) et les
relations de pouvoir explicites sous-tendent de tels discours . Par conséquent , cette étude est
approuvé dans les concepts clés de philosophes post-structuralistes comme Michel Foucault
et Félix Guattari. Il a été constaté, comme des reflets de discours homophobes signalés par
les sujets de recherche dans les entreprises, diverses formes de traiter avec une telle
discrimination, comme déni et la peur de prendre des homosexuels, la recherche pour
l'exploitation de compétences techniques, et même la démission.
Mots clés
L'homophobie, Organisations, Subjectivité, Généalogie, Diversité.
A HOMOFOBIA COMO UM FATOR DETERMINANTE NAS PRÁTICAS DISCRIMINATÓRIAS PARA A PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES
PSICOLOGIA POLÍTICA. VOL. 14.30. PP. 347-365. MAIO AGO. 2014 349
Introdução
Na pós-modernidade um processo de dominação e controle dos corpos se destaca: trata-se
da produção de subjetividades. De acordo com Guattari e Rolnik (2007) o capitalismo
mundial integrado firma-se a partir da opressão, produzindo subjetividades serializadas e
normalizadas. Corroboram com esta visão os estudos de Rohm (2003) acerca da produção de
subjetividades pasteurizadas, mercantis e erráticas, bem como Foucault (1984)
especificamente em relação às formas de controle social e docilização dos corpos por meio
das instituições disciplinares. A tendência predominante, segundo Félix Guattari é a de se
igualar tudo por meio de grandes categorias unificadoras e redutoras que impedem que se dê
conta dos processos de singularização.
Em outras palavras, os mecanismos disciplinares oriundos das instituições sociais mais
abrangentes, tais como a família, a escola, os diversos tipos de templos, as empresas e o
próprio Estado, tendem a homogeneizar os padrões de comportamento, os valores, as atitudes
das pessoas, destacando uma maior semelhança e identificação entre as práticas sociais e os
discursos que estas engendram. Com o advento da intensificação das práticas econômicas e
culturais presentes na globalização, mais homogêneas parecem tornar-se as subjetividades
produzidas no domínio das empresas, em detrimento de processos autênticos e criativos de
singularização.
Segundo Guattari e Rolnik (2007), toda vez que uma problemática de identidade ou de
reconhecimento surge em determinado espaço, parece estar-se, no mínimo, diante da uma
ameaça de bloqueio e de paralização do referido processo de produção de subjetividades. Por
isso, desejou-se tratar aqui da questão da identidade sexual como ameaça ao sucesso de tal
produção, especificamente no ambiente empresarial por seguir as normas, princípios ou
valores preconizados pelos capitalistas. Tal ambiente merece destaque pela relevância que
ocupa na vida das pessoas nos dias de hoje, uma vez que, segundo Rohm (2003) a crise de
referências e valores do mundo pós-moderno ocasiona um vazio de sentido a ser
pretensamente ocupado pelas organizações por conta de sua promessa de progresso,
desenvolvimento e sucesso.
No que tange as pesquisas sobre homofobia nos estudos organizacionais, Garcia e Souza
(2010); Pompeu (2012) destacam o atraso brasileiro em relação a comparação da produção
científica nacional com a internacional sobre a temática ou ainda com relação às práticas pró-
diversidade em tais ambientes. No âmbito da psicologia política, o tema da homofobia tem
espaço em abordagens e contextos diversos (Costa, Machado & Prado, 2008; Detoni,
Marques, Soares, & Nardi, 2011; Gouveia & Camino, 2009; Irigaray & Freitas, 2013; Neto,
Saraiva & Bicalho, 2013; Rottenbacher, Espinosa, & Magallanes, 2011;
Silva & D’Addio, 2012) apenas para citar alguns e, de acordo com Silva e D’Addio
(2012), há o crescimento visível do interesse de pesquisadores(as) nesse tema. É neste sentido
que desejou-se fazer esta contribuição no âmbito da psicologia política, desta vez em uma
frente ainda pouco estudada – porém não menos vulnerável à ocorrência da homofobia – ao
abordar o referido tipo de discriminação no contexto das organizações empresariais (públicas
ou privadas).
Uma iniciativa no combate a homofobia, da qual fazem parte os presentes autores, é o
Programa de Estudos e Pesquisas PEP-Rohm, no seio do qual esta pesquisa foi produzida. O
PEP possui três linhas de pesquisa que se relacionam entre si e podem ser comparadas com o
planejamento estratégico organizacional conforme a figura:
R
ICARDO
H
ENRY
D
IAS
R
OHM
S
AMIRA
L
ORETO
E
DILBERTO
P
OMPEU
A
SSOCIAÇÃO
B
RASILEIRA DE
P
SICOLOGIA
P
OLÍTICA
350
Figura 1 – Relação entre os níveis de planejamento estratégico organizacional e as estratégias
de atuação do PEP segundo suas linhas de pesquisa.
Fonte: Rohm (2012b).
A Figura 1 hierarquiza a gestão de uma organização (operacional) que tem em sua base as
operações e processos padronizados e controlados pelo nível intermediário (tático), a partir da
visão, missão e cultura (estratégico). Por analogia, os estudos e pesquisas acerca da
diversidade fomentarão os valores e a visão na formação de lideranças transformadoras,
capazes de promover o respeito às diferenças humanas e à boa convivência humana, ao passo
que tal mudança cultural multiplicada como política de Recursos Humanos em outras
organizações seja estimulada e garantida pelas boas práticas de governança corporativa.
Vale destacar que o presente estudo sobre a produção de sentidos, mediante análise das
práticas organizacionais ou de seus discursos por meio das retóricas do mercado diz respeito à
Gestão da Diversidade, e esta, por seu turno, não deixa de atravessar as demais áreas
temáticas da Figura 1.
Afinal, o conceito de liderança transformadora de Rohm (2012b) destaca o papel da figura
do(a) líder como a pessoa responsável por proporcionar mudanças de ruptura – e não apenas
incrementais – que possibilitem a tomada de decisão voltada para a inclusão de minorias
sociopolíticas excluídas como os LGBTs (lésbicas, gays, bissexuais e travestis). Segue na
mesma perspectiva, o modelo crítico de Governança Corporativa adotado pelo programa de
pesquisa mencionado mais acima.
O objetivo desta pesquisa consiste em analisar e descrever quais são os mecanismos de
que as organizações empresariais contemporâneas se valem para moldar as subjetividades de
pessoas homossexuais recorrendo, para tanto, ao método genealógico desenvolvido por Rohm
(2003) ao explicitar as relações de poder subjacentes a tais discursos. Assim, abordaremos a
seguir alguns conceitos relevantes sobre a produção de subjetividades e a homofobia.
A Produção de Subjetividades nas Organizações e Homofobia
Para a análise da produção de subjetividades nas organizações e seus imbricamentos com
a homofobia, destacaram-se neste artigo alguns conceitos fundamentais presentes na obra do
A HOMOFOBIA COMO UM FATOR DETERMINANTE NAS PRÁTICAS DISCRIMINATÓRIAS PARA A PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES
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filósofo francês Michel Foucault, sobretudo, o poder disciplinar, por seu valor heurístico na
compreensão das práticas discursivas e políticas (ROHM, 2003) na produção de
subjetividades e controle dos corpos.
De acordo com Foucault (1984), o poder disciplinar atua no adestramento dos corpos,
produzindo comportamentos obedientes, dóceis, alinhados com valores utilitários para sua
própria exploração, assujeitamento, ao invés de produzir um efeito físico, patrimonial ou
material sobre a vida cotidiana do sujeito. Nesse sentido, o poder disciplinar pode acrescentar
normas, hábitos, expectativas e mesmo novos comportamentos nos corpos para tal
assujeitamento (territorialização) ou, ao contrário, pode retirar destes, expectativas, expropriar
normas, desconstruir hábitos, ou mesmo, extinguir comportamentos indesejados
(desterritorialização).
Por sua vez, a disciplina atua fabricando indivíduos, sendo uma técnica de um poder que
toma as pessoas ao mesmo tempo como objetos, bem como instrumentos de seu exercício e
reprodução. A disciplina, de acordo com o referido autor, constitui-se dos métodos que
permitem o controle meticuloso das operações do corpo, que efetuam a sujeição constante de
suas forças e lhes estabelecem uma relação de docilidade-utilidade.
Entre as principais instituições disciplinares destacadas por Foucault, e que fazem uso do
poder disciplinar para controle e fabricação de corpos dóceis, encontram-se: as escolas, os
hospitais, as organizações e as fábricas ou oficinas – aqui denominadas de Organizações.
Como instrumentos essenciais para o sucesso de tal poder, o filósofo pós-estruturalista
aponta: o olhar hierárquico, a sansão moralizadora e o exame. No primeiro caso, o exercício
da disciplina pressupõe a existência de um dispositivo que obrigue, pelo jogo do olhar, um
aparelho no qual as técnicas que permitem ver induzam a consequências do poder e, de onde,
os meios de coerção tornem visíveis aqueles sobre quem exercem (Foucault, 1984). A sansão
moralizadora refere-se a qualquer penalidade existente em um espaço deixado pelo vazio das
leis, qualificando e reprimindo todo aquele comportamento que escape aos grandes sistemas
de castigo. Por último, o exame, age combinando as técnicas da hierarquia vigente com a
sanção moralizadora. Trata-se de uma modalidade de vigilância que possibilita qualificar,
classificar e punir as pessoas, determinando sobre elas uma visibilidade por meio do qual são
diferenciadas e sancionadas.
É por meio destes dispositivos disciplinares aparentemente invisíveis nas Organizações
que teremos indivíduos como resultado de uma produção em massa, serializados, registrados e
modelados (Guattari & Rolnik, 2007). Ou ainda, segundo Rohm (2003) subjetividades
pasteurizadas, mercantis e erráticas.
Cabe mencionar que se entende aqui que a subjetividade relaciona-se à singularidade do
indivíduo, sua interioridade, aos significados percebidos, aos sentimentos e é expressa por
meio de pensamentos, condutas, emoções e ações (Davel & Vergara, 2001).
A homofobia também pode ser vista como um instrumento de controle social a serviço de
lógicas dominantes, possuindo um papel político que se assemelha aos papéis do machismo da
desigualdade de gênero e do racismo (Silva & D’Addio, 2012). Em diversos casos, a
homofobia atua como afirmação de virilidade que se manifesta ao rejeitar modos de ser vistos
como impróprios, ou justificando o homoerotismo como um ato de subversão diante da
“ordem natural das coisas”, trazendo como consequência a violência homofóbica (Gouveia &
Camino, 2009).
RICARDO HENRY DIAS ROHM SAMIRA LORETO EDILBERTO POMPEU
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No âmbito da psicologia política, estudos recentes abordam a temática do preconceito por
orientação sexual nas organizações. Neto e col. (2013) levantam a questão da violência
simbólica que é sofrida nas trajetórias profissionais de homens homossexuais em Juiz de Fora.
Por sua vez, Irigaray e Freitas (2013) identificam que homens homo e bissexuais usam
estratégias para sobreviver nos ambientes corporativos marcados pelo heterocentrismo e pela
heteronormatividade.
Nesse contexto, deseja-se dar continuidade aos estudos de psicologia no ambiente
organizacional acerca da homofobia no trabalho por meio desta pesquisa genealógica – desta
vez não apenas tratando dos homens que podem sofrer tal discriminação, como também das
mulheres homossexuais, de forma a apresentar um trabalho mais inclusivo.
Procedimentos Metodológicos
Optou-se por uma pesquisa de caráter qualitativo, uma vez que ela está relacionada ao
significado que as pessoas dão as coisas e a sua vida; parte de focos de interesses amplos e
buscou-se compreender o fenômeno estudado através da perspectiva dos(das) participantes
conforme assinala Godoy (1995). Pesquisas qualitativas com entrevistas também são adotadas
em estudos da psicologia política sobre homofobia (Costa e col., 2008; Gouveia & Camino,
2009; Irigaray & Freitas, 2013; Neto e col., 2013).
O método escolhido foi a Genealogia elaborada por Rohm (2003) em sua Tese de
Doutoramento, cujo propósito é:
[...] explicitar os enunciados, enquanto precursores de proposições e frases, longe das
formalizações interpretativas clássicas ou das abordagens modernas com relação ao
sujeito. Visa também demonstrar as visibilidades das formas ou aparelhos institucionais
por meio dos quais os diagramas de poder produzem a própria realidade por meio das
imagens e falas de si, ou melhor, desde os saberes de si. (ROHM, 2003:69)
O autor almejou responder a determinadas questões fundamentais mediante este método
tais como: sob quais condições históricas foi produzido o discurso em análise, como este foi
produzido, diferenciou-se e por qual motivo? Para além de investigar “a quem” tal discurso
serve, também a “quê” serve, a quê des-serve e, se possível, a que poderia servir.
Para a aplicabilidade da referida genealogia o autor desenvolveu três tecnologias
disciplinares fundamentais, das quais as organizações se valem para produzir subjetividades
pasteurizadas, mercantis e erráticas (Rohm, 2003), que são a retórica modernizadora e
economicista, a dietética moralizadora e a andragogia instrumental, respectivamente.
A retórica modernizadora e economicista, ligada às questões micropolíticas, pode ser
potencializadora da produção de subjetividades caracterizadas pela ausência de
questionamento, pelo conformismo ideológico, pela perpetuação de valores economicistas e a
territorialização da culpa em quem não os segue, moldando uma subjetividade utilitária,
excluindo assim a valorização das diferenças.
Por sua vez, a dietética moralizadora, ligada a ideia da vigilância e atuando principalmente
mediante discursos relativos ao assédio moral, produz modos de subjetivação que enfatizam
os cuidados com a imagem, a valorização das atitudes tidas como politicamente corretas, a
prudência, gerando a desterritorialização das singularidades e a culpa nos indivíduos que
fogem a tais ditames moralizantes.
A
H
OMOFOBIA COMO UM
F
ATOR
D
ETERMINANTE NAS
P
RÁTICAS
D
ISCRIMINATÓRIAS PARA A
P
RODUÇÃO DE
S
UBJETIVIDADES
P
SICOLOGIA
P
OLÍTICA
.
VOL
.
14.
30.
PP
.
347-365.
MAIO
AGO
.
2014 353
Por fim, a andragogia instrumental atua no treinamento de habilidades e regulamentação
de seu exercício. Os discursos ligados a esta tecnologia preconizam a mudança incremental (e
nunca de ruptura), uma inteligência instrumental a formação de uma rede de relacionamentos
utilitária ao treinamento e desenvolvimento de competências que permitam uma maior
empregabilidade em detrimento de outras sociais e humanas. Um esquema que sumariza as
implicações e desdobramentos dessas tecnologias disciplinares pode ser visualizado a seguir:
Figura 2 – Tecnologias fundamentais à enunciação de subjetividades nas organizações
desenvolvidas na Tese de Rohm (2003) e seus desdobramentos.
Fonte: Elaboração própria dos autores.
Tecnologias Disciplinares
Retórica Modernizadora
Ausência de
questionamento
Valores
economicistas
Conformismo
ideológico
Subjetivação
‘cyborg’
Exclusão das
diferenças
Culpa
Subjetividade
utilitária
Dietética Moralizadora
Assédio
Moral
Imagem
Prudência
Culpa
Desterritorialização
das singularidades
Atitudes
politicamente
corretas
Andragogia Instrumental
Mudanças
incrementais
Melhoria
contínua
Inteligência
instrumental
Aprendizagem
social
T&D da
empregabilidade
Rede de
relacionamentos
Produção de subjetividades pasteurizadas, mercantis e erráticas
Perda da alteridade, dos processos de singularização e da criatividade
RICARDO HENRY DIAS ROHM SAMIRA LORETO EDILBERTO POMPEU
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354
Assim, para a realização da etapa de campo da presente pesquisa, foram entrevistadas 13
pessoas homossexuais, tanto mulheres quanto homens, que trabalham em empresas públicas e
privadas de diversos setores localizadas no Rio de Janeiro no período de Julho de 2011 a
Fevereiro de 2013, segundo a técnica bola de neve de coleta de dados segundo a qual uma
pessoa entrevistada indica outra. As pessoas entrevistadas de código E1, E2, E11 e E13 fazem
parte do círculo social dos autores. Após a realização das entrevistas individuais com essas
pessoas foi perguntado, ao final, se não poderiam indicar outras mantendo a garantia de
anonimato. Assim, as demais pessoas entrevistadas foram localizadas. Vale destacar que a
utilização de entrevistas tem sido central nas pesquisas sobre movimentos sociais, sendo a
semiestruturada uma ferramenta comum neste campo de estudo (Costa e col., 2008).
Considerou-se mais relevante e enriquecedor para a produção de conhecimento realizar
entrevistas com pessoas homossexuais provenientes de empresas de diversos setores em vez
de delimitá-la em apenas a uma empresa ou setor único, uma vez que o foco aqui é a
homofobia e a produção de subjetividades em empresas, de um modo mais amplo, e não uma
empresa ou setor específico. Se a homofobia está presente na sociedade de onde vêm as
pessoas que trabalham nas mais diversas empresas, considerou-se uma possível delimitação
setorial irrelevante. O Quadro 1 apresenta informações gerais dos(as) entrevistadas. Vale
lembrar que todas as pessoas entrevistadas são homossexuais.
Quadro 1– Identificação e perfil das pessoas entrevistadas
Código Gênero Idade Setor da empresa Tipo
E1 Feminino 26 Shopping Centers Privada
E2 Feminino 24 Tecnologia da informação Privada
E3 Feminino 24 Academia de ginástica Privada
E4 Feminino 59 Conservação Privada
E5 Feminino 29 Construção civil Privada
E6 Feminino 26 Produtos eróticos Privada
E7 Feminino 40 Engenharia Privada
E8 Feminino 37 Energia Pública
E9 Masculino 39 Tecnologia da informação Privada
E10 Masculino 47 Salão de beleza Privada
E11 Masculino 23 Petróleo Privada
E12 Masculino 32 Telecomunicação Privada
E13 Masculino 26 Audiovisual Pública
Fonte: Elaboração própria.
A HOMOFOBIA COMO UM FATOR DETERMINANTE NAS PRÁTICAS DISCRIMINATÓRIAS PARA A PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES
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Para a realização das entrevistas, foi utilizado um roteiro semiestruturado com
perguntas abertas. As entrevistas foram gravadas e transcritas com o auxílio do software
Atlas TI gerando um documento de 126 páginas. Após esta etapa, foi realizada a revisão
gramatical das transcrições, em especial das pausas e pontuações para facilitar o
entendimento do(a) leitor(a), tornando o relato das entrevistas mais fidedigno e mais
próximo à a forma como foi falada pelas pessoas entrevistadas. Assim, os resultados
encontrados, bem como sua respectiva análise, serão apresentados na sessão a seguir. Como
critério de escolha dos fragmentos discursivos, selecionamos aqueles em que a pessoa
entrevistada relatasse algum discurso – seja que tenha sido dito a ela no ambiente laboral ou
que fundamente suas crenças pessoais ao tomar decisões nas empresas – que se enquadrasse
em alguma das três tecnologias disciplinares de Rohm (2003).
Análise dos Resultados
Para melhor entendimento da análise de acordo com o método adotado, separamos os
fragmentos discursivos mais relevantes em três subseções de acordo com a tecnologia a que
referiam. Vale destacar que tanto a retórica modernizadora, a dietética moralizadora bem
como a andragogia instrumental atuam na operação dos agenciamentos de docilização dos
corpos nas organizações, aumentando o coeficiente de efetivação do diagrama disciplinar por
meio da interiorização de dispositivos de controle refinados (Rohm, 2003).
Retórica modernizadora e economicista
O termo “retórica” correntemente faz alusão a um discurso sem significado, bonito na
forma, porém vazio de conteúdo de sentido. Dessa forma, a retórica modernizadora refere-se a
um discurso que aparenta modernidade e ou cientificidade (Rohm, 2012a). O referido autor
demonstrou em sua Tese que a retórica modernizadora está relacionada a ausência de
questionamento – que conduz ao conformismo ideológico – e, portanto a exclusão das
diferenças. Além disso, a retórica modernizadora é responsável por conduzir no bojo do seu
discurso valores economicistas, gerando a produção de subjetividades utilitárias conforme
demonstrado na figura 2. Um exemplo de discurso retórico pode ser encontrado no fragmento
a seguir:
Uma coisa interessante que eles têm é que, é o caso dos dual careers [grifo nosso], que
são as pessoas que são os casais que trabalham na empresa... Eu nunca ouvi falar de um
casal do mesmo sexo, mas que nos países onde há a união estável de pessoas do mesmo
sexo são reconhecidas, eles têm políticas que englobam esses benefícios (Entrevistado 11,
23 anos, Rio de Janeiro).
Nesta perspectiva, chama à atenção a incoerência da realidade apresentada por meio do
fragmento discursivo acima. A oposição se dá entre “uma coisa interessante” e “eu nunca
ouvi falar”. A retórica modernizada pelo termo no idioma inglês do mercado – ainda que a
filial em que o entrevistado homossexual trabalhe esteja localizada no Rio de Janeiro – se dá
por meio da inconsistência entre o discurso e a prática. A suposta “novidade gerencial” ou
prática que diferencie esta empresa de outras não ocorre de fato. A extensão de benefícios
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para casais homossexuais em países em que a união estável já é reconhecida não se trata de
bônus ou qualquer vantagem: apenas de obrigação legal. As práticas empresariais estariam a
frente dos Direitos Humanos de um país se o reconhecimento daquele direito antecedesse às
normas político-legais do referido local.
Quando perguntado o porquê ele não se assume como homossexual para as outras pessoas
no ambiente de trabalho, o entrevistado 11 apresenta a seguinte explicação:
[...] a questão de que eu não sei se eu... Se no ambiente empresarial às vezes eu poderia
estar tendo algum problema com outras pessoas e que pudesse me prejudicar dentro da
empresa. Assim, no caso, sou uma pessoa nova. Então, às vezes, se acontecesse alguma
coisa, eles poderiam dar preferência em, pra evitar problemas no futuro, me desligarem. Já
que sou estagiário. (E11, 23 anos, Rio de Janeiro)
Ou seja, ele apresenta uma justificativa para um possível desligamento a retórica gerencial
para fins ideológicos. Qual relação poderia haver entre ser homossexual e o desligamento de
um funcionário de uma empresa se não a própria perseguição de cunho homofóbica? A
retórica bem conhecida pelos oprimidos é apresentada quando o homem homossexual fala
eles poderiam dar preferência” e “para evitar problemas no futuro”. A resposta é
convergente com outra entrevistada, que se vale da mesma justificativa, “eu não sei o que
poderia acontecer” (E1, 26 anos, Rio de Janeiro) para justificar o porquê de não declarar sua
homossexualidade no ambiente de trabalho. O temor de se assumir homossexual pode ser
explicado uma vez que, segundo Rottenbacher e col. (2011), pessoas homossexuais podem ser
percebidas como tendo um status baixo ou representando uma ameaça ao status quo,
tornando-se, portanto, vulneráveis à discriminação. A criação de um ambiente que valorize
o(a) funcionário(a) homossexual, no entanto, parece ter pouco valor para as empresas
conforme ilustrado por um homem homossexual sobre sua tentativa frustrada de alertar a área
de Recursos Humanos sobre a importância de se pensar no desenvolvimento de Políticas de
Diversidade de combate a homofobia:
Então, a gente já tentou de alguma forma alertar a área de Recursos Humanos que isso
influencia na motivação do funcionário, isso influencia na produção e influencia o
resultado, e o que eles mais querem é resultado [...]. Falei com um gerente de recursos
humanos, que hoje já não é gerente de recursos humanos mais, porque, como um cargo
comissionado, está disposto no foro político. Ele falou ''tá ótimo''[...] Não houve nenhuma
manifestação formal, que ''isso é algo que deveria ser estudado pela alta instituição, pela
direção dos recursos humanos e que daqui a pouco a gente poderia ter alguma resposta
positiva'', que até hoje não veio. E já faz um ano, um ano e meio praticamente. Aquela
coisa que vai pra debaixo do tapete e fica eternamente. (E13, 26 anos, Rio de Janeiro)
A retórica aqui se faz presente pelo discurso supostamente compreensivo e politicamente
correto do gerente da área de Recursos Humanos, “tá ótimo”, que não fez nada para combater
a homofobia nem promover a diversidade por meio da extensão dos benefícios no ambiente
empresarial. É apenas um discurso sem sentido que foi emitido pelo gerente já que a
implementação prática é que provaria a congruência de sua posição.
A retórica modernizadora atua de forma a criar um ambiente natural para a existência da
dietética moralizadora (Rohm, 2012a), segundo dispositivo disciplinar, e cuja tecnologia será
tratada a partir dos resultados analisados a seguir.
A HOMOFOBIA COMO UM FATOR DETERMINANTE NAS PRÁTICAS DISCRIMINATÓRIAS PARA A PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES
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Dietética moralizadora
De acordo com Rohm (2003) a dietética territorializa uma série de procedimentos, de
cuidados de si, de incentivos a tais cuidados, de priorizações de investimentos pessoais e
profissionais uma vez que serão necessários à eficiência, eficácia bem como a efetividade
organizacionais. De acordo com o referido autor, tais práticas discursivas condicionarão uma
disciplina minuciosa dos comportamentos e atitudes julgadas e socializadas como
“politicamente corretas”. Um enunciado fundamental na operação da dietética moralizadora
pode ser revelado tanto nas práticas discursivas quanto nas práticas do assédio moral.
É, mas você imagina assim: por exemplo, numa convenção. Tá todo mundo, é...
conversando e tudo mais... E aí aparece um amigo seu que é próximo, que convive com
você, levanta e te dá um beijo no rosto. Daí todo mundo olha, entendeu? E esse não é meu
companheiro, entendeu? [...] Porque até então é aquela engrenagem social que as pessoas
são treinadas para ser homens e mulheres. (E9, 39 anos, Rio de Janeiro)
No excerto, o entrevistado, um microempresário pós-graduado de 39 anos, relata a
diferença de tratamento percebida pela sociedade mediante seu discurso entre a demonstração
de afeto entre um homem e uma mulher ou duas pessoas do mesmo sexo – ainda que seja uma
relação apenas de amizade. Ele se sentiria constrangido se, em uma Convenção, fosse
abordado por um de seus amigos como de costume, com um beijo no rosto por conta da
opinião dos outros (“todo mundo olha”). Como afirmam Gouveia e Camino (2009), não
importa como as pessoas homossexuais se comportam, mas como são interpretados seus
comportamentos, motivados pela necessidade de certos grupos de se posicionarem contra a
difusão de ideias que tais grupos compartilham. O desconforto que ele sente ao ser abordado
também denota sua homofobia internalizada (Nunan, 2003), pois sua subjetividade parece ser
territorializada (Guattari & Rolnik, 2007) e condicionada pelo ódio do inimigo a partir da
efetivação de um discurso homofóbico, segundo o qual dois homens não podem demonstrar
afeto da mesma forma que dois amigos de sexos opostos.
Em verdade, trata-se de um dispositivo de controle micropolítico do afeto. A ideologia
heterossexista educa por intermédio do assédio moral dos olhares punitivos, como uma forma
de verticalização hierárquica do olhar necessário ao pleno sucesso do poder disciplinar
(Foucault, 1984) a quem se destinam as possibilidades de afeto e amor e quais seriam as
regras, permissões e limites desta expressão pública. O sucesso da pasteurização de uma
subjetividade mercantil (Rohm, 2003), ou seja, aquela ligada a valores mercadológicos,
também está relacionada ao tipo de local, dentre tantos outros, que o entrevistado escolhe para
citar como passível de reprovação social da demonstração de homoafetividade: uma
Convenção, ou seja, um encontro de negócios.
Assim como no caso anterior, a mulher homossexual entrevistada é analista de Recursos
Humanos de uma empresa de construção civil de grande porte e também sofre o assédio
moral:
Às vezes assim: ‘– e você? Fala um pouquinho de você!’ Ainda mais RH que é muito
visado, né? ‘– E aí você é casada?’, ‘– Você tem namorado?’, ‘– Tem filho?’, ‘– Já é mãe
e tal?’ Sempre surgem esses assuntos. [...] dia dos namorados está chegando né, aí
começam as perguntas: ‘– e aí o que que você vai dar para o seu namorado e tal’ e vai que
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eu recebo flores no ambiente de trabalho? ‘– Quem te mandou?’, como já aconteceu
[risos]! Na verdade foi aniversário de mês de namoro e eu recebi um buquê enorme, lindo,
de rosas e todo mundo ficou me instigando: ‘– de quem era?’, ‘– você nunca comentou
que tinha namorado e tal’. E ai eu inventei uma desculpa que era um garoto que eu estava
ficando né? E ai passou. Ficou por isso mesmo. (E5, 29 anos, Rio de Janeiro)
As perguntas a seguir são frequentes no trabalho desta mulher homossexual: se ela é
casada, se tem namorado, filho, se é mãe e assim por diante, como um guia dietético para
assediar moralmente a mulher homossexual que ocupa um cargo de poder no setor de
Recursos Humanos. Não por acaso o referido setor é o responsável por promover, desenvolver
e desligar os funcionários de acordo com os valores que permeiam a cultura organizacional da
empresa. De fato, não é a uma pessoa aleatória que tantas sanções morais são feitas, é a uma
pessoa de poder, pois como muitos pensam, o poder na empresa, deveria ser destinado aos
heterossexuais e, portanto, a uma mulher com namorado, com filho.
Tal como numa dieta, a dietética moralizadora (Rohm, 2003) adestra e arregimenta
diversas atitudes estereotipadas e politicamente corretas em uma economia reprimida do
desejo, o que produz culpa nos indivíduos em permanente tensão com as expectativas de
comportamentos pró-ativos, assertivos e adaptativos, valorizados pelas lideranças
organizacionais. No relato da E5, por exemplo, ao receber o buquê de rosas de sua namorada,
o comportamento adaptativo utilizado por ela é o de não falar que as flores vieram de uma
mulher e sim de um garoto, reprimindo, portanto, a possibilidade de que descubram sua
orientação homossexual. Tal atitude também pode ser entendida como uma forma de se
eximir de uma sensação de culpa (“inventei uma desculpa”) por não se enquadrar na
orientação sexual dominante, adotando a atitude estereotipada de uma mulher que recebe
flores do namorado – como se fosse do homem a única possibilidade de uma mulher receber
tal presente.
Percebe-se, portanto, a produção de uma subjetividade pasteurizada (Rohm, 2003) pela
decisão de usar a mentira do namorado: afinal, tal como a maioria, negando a existência de
sua singularidade individual, ela também parecerá heterossexual. Isto é suficiente para
garantir a sua empregabilidade como mulher de sucesso em uma sociedade espetáculo (Dupas,
2001), em que a performance define o lugar social de cada um. Distancia-se, com essa decisão
de se passar por heterossexual, a possibilidade da mulher homossexual se tornar visível na sua
empresa e, ainda mais distante a possibilidade de sua atuação política em defesa das minorias
sexuais na referida organização, uma vez que nem o próprio direito de existir com sua
verdadeira subjetividade a entrevistada acredita ter.
A mesma mulher homossexual entrevistada quando perguntada sobre os motivos pelos
quais não assume sua orientação sexual na empresa em que trabalha, justifica:
Porque eu não conheço bem as pessoas com que eu trabalho. Eu não sei se eu posso
confiar né [...]. Não digo nem meus colegas diretos, mas eu digo em relação a liderança.
Porque se as outras pessoas fossem abertas, não teria problema nenhum. Eu ia ter receio
de sofrer algum tipo de ação, um desligamento, uma represália [...] A gente vive numa
sociedade que rotula tudo né. Então tem que passar pelo rótulo. Tem que ter uma culpa.
Tem que ter um fator que gere aquilo. Então as pessoas vão rotular. A culpa é disso, é da
opção, a culpa é da raça, da condição social e aí vai. (E5, 29 anos, Rio de Janeiro)
A HOMOFOBIA COMO UM FATOR DETERMINANTE NAS PRÁTICAS DISCRIMINATÓRIAS PARA A PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES
PSICOLOGIA POLÍTICA. VOL. 14.30. PP. 347-365. MAIO AGO. 2014 359
Além de perceber a possibilidade de ameaças ou de sanções disciplinares punitivas por ser
homossexual, apresenta a questão da culpa que atravessa a dietética moralizadora (Rohm,
2003) bem como demonstra suposta prudência ao analisar as ameaças possíveis de assumir-se
homossexual. A questão da culpa também está presente no rótulo (Nunan, 2003) que pode
corporificar o preconceito, bem como a percepção da pessoa discriminada como um bode
expiatório (Nunan, 2003), sobre a qual é comum ser canalizada a culpa pelas mazelas sociais.
Ou seja, a E5 decide não se declarar homossexual no trabalho por saber que a orientação
sexual minoritária pode ser usada por determinadas pessoas para atribuir a culpa aos (às)
pessoas homossexuais por quaisquer motivos. Em outras palavras, pessoas homossexuais
podem ser usadas como bodes expiatórios, a quem são atribuídas a culpa não por,
necessariamente, terem feito algo errado no trabalho que mereça uma demissão por justa
causa, mas como forma de perseguição discriminatória e retaliação. A origem da culpa na
sociedade, como percebe a entrevistada, é o fato de fazer parte de grupos minoritários (“a
culpa é disso, é da opção”, “é da raça”, “da condição social”). Ou seja, a culpa é atribuída
como forma de discriminação social.
O medo de sofrer retaliações por se assumir, todavia, não é infundado como relata o
próximo entrevistado homossexual:
Eu acho que um dos fatos de eu justamente ter sido exonerado do meu cargo foi o de eu
não ser amigo do rei. E não ser amigo do rei inclui exatamente minha sexualidade,
entendeu? Eu não dava muito crédito ao que era a conversinha entre os homens da minha
coordenação. [...] mesmo que o meu trabalho fosse mais reconhecido do que outros,
inclusive do substituto atual. O J. (coordenador atual) é o xiita da turma, com certeza. Ele
tem a posição mais extremada, a ponto de, declaradamente, fazer piadas com toda e
qualquer pessoa que parece homossexual. Ele que tomou meu cargo. Eu era o coordenador
substituído, só que ele que foi nomeado justamente por uma... Digamos, uma atitude
antiética. (E13, 26 anos, Rio de Janeiro).
O E13 é pós-graduado, homossexual assumido e especialista em regulação, atuando na
implementando de políticas públicas em uma empresa pública. Embora haja a crença de que
em uma empresa pública a pessoa possa estar supostamente mais assegurada como em caso de
demissões, por exemplo, no caso do E13 ele não está isento de perder cargos de poder. Ele
havia sido promovido como coordenador, porém só ficou por um ano e meio no cargo – sendo
este cargo posteriormente ocupado por alguém de menor capacidade técnica, porém com
maior proximidade ideológica de quem decidiu pela promoção. O fato relatado pelo
entrevistado revela claramente um caso homofobia, uma vez que o humor opera como forma
de discriminação. Percebe-se neste caso, que não apenas o poder nas empresas é destinado,
sobretudo, aos heterossexuais, como no exemplo da E5, mas que entre um homossexual e uma
pessoa homofóbica ocupar um cargo de liderança, a homofobia torna-se subliminarmente um
critério forte nas decisões.
O poder de destaque e muitas vezes perverso que as organizações ocupam na vida das
pessoas pode afetar suas decisões de vida, conforme relata a próxima entrevistada:
A minha descoberta da sexualidade e [erra palavras] abstinência alcoólica foi paralela,
porque, era assim, como uma bomba atômica assim. Eu tomava muito álcool, tomava
muitos remédios de tarja preta deste tratamento que eu fazia, e um dia muito angustiada
com que tipo de vida que eu ia viver, se eu ia abrir pra minha família, pros meus amigos,
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pro meu trabalho que eu era gay ou não... Por causa desta angustia eu... eu tentei me
suicidar [...] Mas ai eu acordei com um pensamento muito forte assim já. É que eu ia abrir
minha história pra todo mundo, que isso... Se eu não abrisse, é... Seria uma questão assim,
de, fazia parte da minha sanidade mental abrir pra todo mundo, a questão [...] Eu tenho
uma postura assim da visibilidade muito clara assim. (E8, 37 anos, Rio de Janeiro)
Por conta da homofobia internalizada (Nunan, 2003), bem como sentimento de culpa
introjetado pela dietética moralizadora (Rohm, 2003), a mulher homossexual vive uma
dissonância cognitiva extrema entre quem ela é (“gay” – em suas palavras) e quem a
sociedade espera que ela seja (heterossexual), encontrando no suicídio a possível solução para
o fim desta aflição já que não há como deixar de ser homossexual. Talvez neste exemplo
ilustra-se com evidência o maior ‘sucesso’ da efetivação do poder disciplinar (Foucault, 1984)
em que o indivíduo “desviante” toma por si só a decisão da sanção moralizadora que a
sociedade lhe ensina na semiótica dos discursos ou em exemplos concretos como o
homocausto (Mott, 2012; Rohm, 2012a), dado os crescentes números de assassinatos de
homossexuais no Brasil – o que lhe confere o primeiro lugar mundial em crimes de ódio por
conta da homofobia segundo relatório do Grupo Gay da Bahia.
Nas empresas públicas eu não passei por um processo de captação de recursos humanos
que passasse por um psicólogo. Não. Mas na empresa privada sim. E foi logo na primeira
(nome da empresa). E tive uma entrevista com uma psicóloga, né? E... eu não sei porque
mas eu... assim, talvez eu não tenha muito conhecimento... eu critico muito isso, mas acho
que as empresas privadas querem entrar na sua vida íntima, né? [...] E me perguntaram
logo se eu tinha um namorado e se ele ia ficar chateado com o meu horário de trabalho.
Achei de um machismo e de uma intromissão na minha vida íntima assim atroz! Eu falei
na entrevista na hora: não, eu não tenho namorado. Mas se eu tivesse uma relação afetiva
não seria namorado, seria namorada [...]. Se alguém se coloca logo de início assim pode
ter problema sério [...] Podia, podia ser um risco. Mas como me foi colocado assim, e foi
logo de cara perguntando se: “o meu namorado teria problema” então realmente eu tive
que falar que “realmente não seria um problema para ele, poderia até ser para ela”. (E8, 37
anos, Rio de Janeiro)
Este é o cenário de assédio moral na área do Recrutamento e Seleção da empresa em que
trabalhou a entrevistada 8, após sua tentativa de suicídio (tentativa que foi relatada por ela no
excerto anterior a este sobre a sua descoberta da sua sexualidade). Apesar de sua decidida
postura de enfrentamento da homofobia e de sua integridade em relação a sua sexualidade
demonstrada na resposta à pergunta da recrutadora, só aguentou continuar por 2 meses neste
ambiente organizacional machista e homofóbico, conforme ela mesma descreve:
Já no primeiro dia já ouvi comentários homofóbicos [...] Então, primeiro comentário: ‘Ah,
uma das piores partes desse trabalho aqui de fiscal é ter que ir nestas boates de gays, de
lésbicas, horrorosas, que você fica... E que... E... Pode levar uma cantada de alguém’, este
tipo de comentário. Era sempre a mesma pessoa fazia a risada geral, e tudo e mais. E foi o
primeiro dia. No segundo dia eu... Cheguei lá com um broche enorme do arco íris, do
grupo arco íris, pendurado aqui na altura do coração né, uma camisa branca pra chamar
bem atenção, e levei uma caixa de bombom dei [...] Ofereci bombom em cada mesa para
todas as pessoas verem aquele broche, né. Foi meu enfrentamento. Eu não sei se as
pessoas não viram o broche, eu não sei se as pessoas é... Ignoraram, se são homofóbicas
A HOMOFOBIA COMO UM FATOR DETERMINANTE NAS PRÁTICAS DISCRIMINATÓRIAS PARA A PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES
PSICOLOGIA POLÍTICA. VOL. 14.30. PP. 347-365. MAIO AGO. 2014 361
mesmo, aqueles comentários continuaram [...] Aquilo ficou me chateando muito já lá
dentro, por estas atitudes homofóbicas e por este trabalho bem intelectualmente nulo eu já
procurei sair dali, estava distribuindo meu currículo para ir pra outros lugares [...] [Fiquei]
Só dois meses. Não aguentei mais. (E8, 37 anos, Rio de Janeiro)
O assédio dietético moralizante encontra sua maior eficácia no pedido de desligamento da
empregada homossexual desviante da norma politicamente correta: pessoas heterossexuais e
homofóbicas. Ou seja, a vítima da discriminação, não aguentando mais viver naquele
ambiente, decide largar aquele emprego por conta do assédio psíquico em que vive. Não se
poderá então, mediante o assédio moral, alegar formalmente que quem ocasionou sua
demissão foram os outros, afinal faz parte da corrosão do caráter (Sennett, 2001) não ter a
quem atribuir a responsabilidade pelo erro. Será mais fácil, cômodo e, especialmente,
covarde, atribuir ao indivíduo desviante que não suporta mais conviver em um território
psicossocialmente perverso.
Andragogia instrumental
Por fim, a terceira tecnologia disciplinar – a andragogia instrumental – é constituída por
práticas discursivas e políticas que operam o treinamento de habilidades bem como a
regulamentação de seu exercício (Rohm, 2003). Segundo o autor, a andragogia busca
homogeneizar, pasteurizar as subjetividades, instrumentalizando-as (Rohm, 2003).
Eu sou uma pessoa muito esforçada no meu trabalho e as pessoas veem isso, eu sou bem
acessível e gosto de ajudar as pessoas. As pessoas com quem eu trabalho criaram uma
confiança no que eu faço, nas coisas que eu tenho pra ensinar no tempo que eu tenho
disponível para elas. Então, o meu ambiente de trabalho, de certa forma, pelo menos, eu
não desminto que seja algo utilitário, às vezes eu penso que é, mas, de certa forma, as
pessoas têm um apreço pelo meu trabalho e pela minha pessoa também [...] Na verdade, o
fato de ser homossexual pode ser criticado a qualquer momento na sociedade brasileira,
então você tem que levantar sempre, superar tudo, né? Não à toa, sou eu, uma pessoa que
nasci onde nasci, que não tive a educação, tive que batalhar muito, estudar com bolsa
durante muito tempo para ter a educação que eu tive ao segundo grau, para lutar por uma
vaga na faculdade, para me manter na faculdade, para fazer um concurso público. Então,
eu tive que me superar, eu tive que dar minha cara à tapa. Porque se eu não fizesse isso
por mim, com certeza, a sociedade ia fazer muito pouco. (E13, 26 anos, Rio de Janeiro)
No exemplo acima nota-se o que Irigaray e Freitas (2013) qualificaram como a estratégia
de sobrevivência do homem homossexual gente boa – na qual o indivíduo homossexual possui
um esforço extra para ser prestativo com os colegas, disponível para ajudá-los como busca de
desviar a atenção da homofobia que pode sofrer por conta de sua orientação sexual para o seu
esforço acima da média. Além disso, a andragogia instrumentaliza este indivíduo à margem
para ser ainda mais explorado no trabalho, inclusive por meio desta relação tão “prestativa”
com os colegas como uma dinâmica utilitária de trabalho e convivência por parte destes
próprios colegas.
Isto pode ser explicado de forma ainda mais efetiva pelo conceito da andragogia
instrumental (Rohm, 2003). A pasteurização da subjetividade deste homem homossexual,
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negro e que possui origem humilde se dá por meio da instrumentalização mercadológica. Este
esforço extra para o treinamento e desenvolvimento de habilidades técnicas é percebido por
ele como necessário para lhe conferir uma vantagem competitiva perante seus pares
heterossexuais que, aos olhos da sociedade, estão em vantagem em relação ao entrevistado
(ainda que possuíssem as mesmas habilidades e competências técnicas). Cabe refletir que
outras habilidades e competências não instrumentais – como as ligadas a arte, ao
desenvolvimento humano e social – não poderiam ser desenvolvidas pelo E13 que não fossem
apenas para saldar um hiato da discriminação, mas estivessem ligadas a outras formas mais
amplas de expressão de seu talento, desejo e verdadeiros interesses pessoais.
Considerações Finais
Constatou-se que, por intermédio do uso de discursos retóricos, as empresas apresentam
incoerências no que tange à gestão da diversidade sexual. Observou-se a introjeção por parte
de indivíduos homossexuais do discurso opressor, e que baseados nisso, avaliam suas
decisões de assumir ou não publicamente sua sexualidade nas empresas, temendo, na maioria
das vezes, as retaliações oriundas das retóricas de caráter homofóbico. A área de Recursos
Humanos, nos casos analisados, procura manter uma imagem politicamente correta e
supostamente pró-diversidade, porém sem nenhuma ação concreta e eficaz neste sentido. Isto
dificulta ainda mais a tentativa dos(as) funcionários(as) homossexuais de serem ouvidos(as) e
terem suas especificidades respeitadas.
Encontrou-se também os discursos dietéticos moralizantes atuando mediante o assédio
moral, que se expressa em perguntas constantes de colegas de trabalho como forma de
disseminação do preconceito sexual; um fluxo informal de interpelações no ambiente de
trabalho, fortalecendo o isolamento a as estratégias de sobrevivência das pessoas estudadas; a
dominação da heteronormatividade como ideologia dominante e estimulada, gerando a
manutenção desse preconceito; a evitação pública do comportamto homoerótico por conta da
prudência e dos cuidados com a imagem perante o mundo dos negócios, restringindo a
espontaneidade na demonstração de afeto e mesmo homossociabilidade para que tais sujeitos
minoritários possam maximizar sua empregabilidade rumo aos cargos de liderança; a
promoção de funcionários que possuam valores homofóbicos mais próximos do responsável
pela referida promoção – sendo estes valores, em muitos casos, mais influentes na decisão do
que a competência e o conhecimento de habilidades e atitudes referentes ao cargo.
Como consequencia do assédio moral cotidiano, sofrido mesmo por entrevistados(as) com
um perfil de maior enfrentamento da homofobia, percebeu-se a alta rotatividade em cargos
que a pessoa homossexual trabalha quando existe uma cultura organizacional homofóbica.
Isto privilegia a empregabilidade daqueles que estão dentro dos padrões esperados em uma
cultura heteronormativa, inclusive as pessoas homofóbicas, em detrimento do homossexual,
facilitando o predomínio e a sobrevivência daqueles que possuem tal visão de mundo como
massa formadora de opiniões persecutórias e reprodutora de preconceitos. Notou-se
claramente, também, a homofobia sofrida ou exercida por membros da área de Recursos
Humanos – a qual constitui uma função estratégica nas empresas. Em vez de promover o
pluralismo, a criatividade ampla e a democracia nas relações humanas, muitas vezes, as áreas
de RH acabam por reproduzir, de maneira sofisticada e capilar, as tecnologias da disciplina no
crescimento da homofobia.
A HOMOFOBIA COMO UM FATOR DETERMINANTE NAS PRÁTICAS DISCRIMINATÓRIAS PARA A PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES
PSICOLOGIA POLÍTICA. VOL. 14.30. PP. 347-365. MAIO AGO. 2014 363
Na última tecnologia disciplinar da metodologia adotada – a andragogia instrumental –
sobressaem o treinamento de habilidades e de competências instrumentais por parte de
indivíduos homossexuais como forma de compensação para garantirem sua empregabilidade e
reconhecimento em uma sociedade permeada por valores homofóbicos e que, portanto, lhes
confere desvantagens em relação aos heterossexuais. A busca por se destacar no trabalho para
evitar discriminação encontrada aqui converge com outros estudos da psicologia política no
contexto organizacional, como de Neto e col. (2013) e Irigaray e Freitas (2013).
Vale ressaltar que os protagonistas em mudanças sociais de ruptura observados ao longo
das lutas pelos direitos civis nas democracias modernas nas últimas décadadas parecem
experimentar um sentimento de autoestima e autoconfiança, ingredientes necessários não
apenas a ação política individual, como também a motivação para liderança no movimento
social e, portanto, na luta e superação das desigualdades.
Em que pese caber a todo(a) cidadão(ã) a responsabilidade por lutar por seus direitos – e
as pessoas homossexuais não são excessão – a análise de dados da pesquisa aponta diversas
carências no desenvolvimento da auto-estima e auto-confiança supracitadas: a inesxitência e
mesmo a fragilidade das políticas inclusivas nas empresas, a formação profissional
heterocentrada, o Estado que demora a ligitimar direitos civis e reconhecer seus deveres com
as minorias sexuais, entre outras.
Diante deste cenário, como implicações nos ambientes empresariais, urge a efetiva
implementação de políticas inclusivas de Recursos Humanos para a diversidade sexual que
não se restrinjam ao discurso à imagem corporativa. Além disso, a educação dos futuros
líderes organizacionais também merece papel de destaque que proporcione, uma formação
mais profunda e menos instrumental e uma maior visão crítica do mundo e, de acordo com
Rohm (2012a), a mudança não apenas incremental, mas de ruptura – voltada para a inclusão
das minorias como as pessoas homossexuais.
Sugere-se, por fim, algumas possibilidades de pesquisa para saber o que as pessoas
homossexuais perdem ao moldarem suas vidas de acordo com os dítames do mercado, quais
valores humanos seriam deixados de lado para uma busca de adequação social e não da
expressão de sigularidades? Estudos sobre políticas públicas e trabalho ligados à diversidade
sexual e sobre boas práticas de Recursos Humanos para pessoas homossexuais, de forma que
a se disseminar este conhecimento, estimulando o protagosnismo político de homossexuais
para que possam tabalhar de forma digna e justa com seus pares heterossexuais.
RICARDO HENRY DIAS ROHM SAMIRA LORETO EDILBERTO POMPEU
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• Recebido em 13/12/2013.
• Revisado em 19/05/2014.
• Aceito em 01/07/2014.
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Article
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This study analyzes the relationship between political ideology and different expressions of prejudice in a sample of inhabitants of the city of Lima (N = 199). The variables studied are: intolerance of uncertainty and ambiguity, the Left/Right Position, Right-Wing Authoritarianism (RWA), Social Dominance Orientation (SDO), Homophobia, Ambivalent Sexism and Prejudice toward ethnic minorities. Two structural equation models were proposed. One of them showed a better degree of fit and suggests that intolerance of uncertainty and ambiguity influences RWA and SDO. Also RWA and SDO influence the various forms of prejudice. However, RWA has a better predictive capability with respect to the diverse forms of prejudice in contrast to SDO. The final discussion proposes that is reasonable to use in Perú a multidimensional ideological approach, and the theoretical proposal of conservatism as motivated social cognition, to understand prejudice and negative stereotyping toward threatening or low-status groups. Individuals with greater tendency toward right-wing authoritarianism and conservatism tend to perceive these groups as threats to traditionally established social order.
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Este artigo discute o fazer psicológico face à constituição das políticas públicas voltadas à diversidade sexual. Desta forma, utilizamos o conceito de governamentalidade para entender como vem se produzindo as regulamentações/intervenções do Estado e as transformações do dispositivo da sexualidade, seguindo a perspectiva foucaultiana. Percorremos brevemente a história da Psicologia com o objetivo de contextualizar a emergência de suas práticas e a relação com a constituição de subjetividades no que tange as políticas publicas associadas à diversidade sexual. Por fim, são feitos alguns apontamentos acerca do redimensionamento das práticas e teorias que atravessam e constituem a Psicologia frente às novas proposições governamentais e não governamentais dirigidas à diversidade sexual.
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This article aims to discuss the dynamic of the political participation of GLBT´s in the GLBT social movement of Belo Horizonte/BR. This work addresses to several relations and conflicts between the GLBT social movement of Belo Horizonte/BR, the State and other social organizations. Moreover, it is focused on different aspects in the reflexion about the obstacles and possibilities of the political participation of GLBT´s in the GLBT social movement of Belo Horizonte. With this article we seek to indicate the need of enlargement of the politic space to understand the political participation in the contemporary society and to contribute to the construction of a democratic society.
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Durante o século XX, o capitalismo global apossou-se por completo dos destinos da tecnologia, libertando-a de amarras metafísicas e orientando-a única e exclusivamente para a criação de valor econômico. Transformados em fator fundamental na disputa dos mercados e na acumulação capitalista global, os vetores tecnológicos autonomizaram-se definitivamente de considerações de natureza ética, social ou de políticas públicas. As conseqüências foram, dentre outras, o aumento da concentração de renda e da exclusão social, o perigo de destruição do habitat humano por contaminação e a manipulação genética, ameaçando o patrimônio comum da humanidade.É preciso pois buscar condições para que nova hegemonia mundial, que inclua mas não se constranja ao capital,possa construir um mundo melhor, utilizando- se dos avanços da ciência em benefício da grande maioria de seus cidadãos.
Violência simbólica nas trajetórias profissionais de homens gays de Juiz de Fora
  • Henrique L C Neto
  • Saraiva
  • A S Luiz
  • Renata A Bicalho
Neto, Henrique L. C., Saraiva, Luiz A. S., & Bicalho, Renata A. (2013). Violência simbólica nas trajetórias profissionais de homens gays de Juiz de Fora. Psicologia Política, 13(26), 93-110.
Sexualidade e trabalho: estudo sobre a discriminação de homossexuais masculinos no setor bancário
  • Agnaldo Garcia
  • Souza
  • M Eloísio
Garcia, Agnaldo., & Souza, Eloísio M. (2010). Sexualidade e trabalho: estudo sobre a discriminação de homossexuais masculinos no setor bancário. Revista de Administração Pública, 44(6), 1353-1377.
Análise psicossocial das visões de ativistas LGBTs sobre família e conjugalidade
  • Raimundo Gouveia
  • Leôncio Camino
Gestão com pessoas e subjetividade
  • Eduardo Davel
  • Sylvia C Vergara
Davel, Eduardo., & Vergara, Sylvia C. (2001). Gestão com pessoas e subjetividade. São Paulo: Atlas.