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Perfil de pacientes com incapacidades físicas por hanseníase tratados na cidade de Palmas-Tocantins

Authors:
  • Secretaria Municipal de Saúde de Palmas, Tocantins, Brazil

Abstract

O objetivo deste estudo foi descrever as características dos indivíduos portadores de incapacidades físicas decorrentes da hanseníase, a partir dos dados obtidos no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). A pesquisa contou 443 pacientes que foram notificados entre os anos de 2005 e 2010, residentes em Palmas-TO, que apresentaram algum grau de incapacidade física no diagnóstico ou na alta medicamentosa e/ou tivessem passado por algum episódio reacional hansênico durante o tratamento com poliquimioterapia. O perfil traçado mostra que os pacientes eram, em sua maioria, do sexo masculino, com maior freqüência entre os 30 e 45 anos de idade, e que eram multibacilares da forma clínica dimorfa. Houve associações estatísticas significativas (p<0,01) entre o grau de incapacidade no diagnóstico e a quantidade de nervos afetados, apontando para uma relevante ocorrência de diagnósticos tardios. Também se constatou que o gênero masculino foi associado tanto à classificação operacional (Multibacilar) quanto à forma clínica (Dimorfa). Concluiu-se que há necessidade de investir em medidas preventivas e conscientização dos profissionais acerca da importância de avaliar seus pacientes quanto à incapacidade física.
2016
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PERFIL DE PACIENTES COM INCAPACIDADES FÍSICAS POR HANSENÍASE
TRATADOS NA CIDADE DE PALMAS-TOCANTINS
PROFILE OF PATIENTS WITH PHYSICAL DISABILITY DUE TO LEPROSY TREATED
IN THE CITY OF PALMAS-TOCANTINS
Tiago Veloso Neves1, Isabele Martins Valentim2, Kívya Borges Vasconcelos3, Elzirene Sousa Dias Rocha4,
Maria do Socorro Rocha Sarmento Nobre, José Gerley Díaz Castro5
Resumo: O objetivo deste estudo é descrever as características dos indivíduos portadores de
incapacidades físicas decorrentes da hanseníase, a partir dos dados obtidos no Sistema de
Informação de Agravos de Notificação (SINAN). A pesquisa contou com 443 pacientes que
foram notificados entre os anos de 2005 e 2010, residentes em Palmas-TO, que apresentaram
algum grau de incapacidade física no diagnóstico ou na alta medicamentosa e/ou passaram
por algum episódio reacional hansênico durante o tratamento com poliquimioterapia. O perfil
traçado mostra que os pacientes eram, em sua maioria, do sexo masculino, com maior
freqüência entre os 30 e 45 anos de idade, e que eram multibacilares da forma clínica dimorfa.
Houve associações estatísticas significativas (p<0,01) entre o grau de incapacidade no
diagnóstico e a quantidade de nervos afetados, apontando para uma relevante ocorrência de
diagnósticos tardios. Também se constatou que o gênero masculino foi associado tanto à
classificação operacional (Multibacilar) quanto à forma clínica (Dimorfa). Conclui-se que os
pacientes que possuem esse perfil e são diagnosticados tardiamente possuem maior risco de
desenvolver incapacidades físicas. É recomendável também dar maior atenção à avaliação
neurológica simplificada, pois nem todos os pacientes foram avaliados quanto à incapacidade
física durante a alta medicamentosa.
Palavras-chave: Hanseníase, Estatísticas de Sequelas e Incapacidade, Epidemiologia
1 Acadêmico do Curso de Fisioterapia. monitor do Programa de Educação pelo Trabalho para a
Saúde (PET-Saúde/Vigilância em Saúde), trabalhando com linha de pesquisa em Epidemiologia.E-
mail: nevestv@gmail.com
2 Acadêmica do curso de Medicina da Universidade Federal do Tocantins. Bolsista no PET-
Saúde/Vigilância em Saúde. E-mail: martins.isabele@yahoo.com
3 Enfermeira.Coordenação de Vigilância Epidemiológica. Secretaria Municipal de Saúde de Nova
Olinda. Voluntária no PET-Saúde/Vigilância em Saúde. E-mail: kivya_nana@hotmail.com
4 Bióloga. Mestranda em Ciências do Ambiente, Coordenadora em Doenças Transmissíveis da Secretaria
Municipal de Saúde de Palmas, Gerência de Vigilância Epidemiológica. Preceptora no PET-
Saúde/Vigilância em Saúde.E-mail: sarmentonobre@gmail.com
5 Zootecnista.Doutor em Ciências Biológicas, docente da Universidade Federal do Tocantins, coordenador
do Laboratório de Epidemiologia. Tutor acadêmico no PET-Saúde/Vigilância em Saúde.E-
mail: diazcastro@mail.uft.edu.br
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2017
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Abstract: The aim of this study is to describe the characteristics of individuals with physical
disabilities due to leprosy, from the data obtained from the Information System for Notifiable
Diseases (SINAN). The survey covered 443 patients who were reported between the years
2005 and 2010, living in Palmas, Tocantins, which had some degree of physical disability at
the diagnosis or at the discharge and / or had experienced immunological reaction. The profile
established in the research shows that the patients were mostly male, with higher frequency
among 30 to 45 years old, and they were mostly multibacillary and had the dimorphic clinical
form. There were statistically significant associations (p <0.01) between the disability grade at
diagnosis and the number of nerves affected, pointing to a significant occurrence of late
diagnosis. It also was found that the male gender was associated with both the operational
classification (multibacillary) and the clinical form (dimorphic). It was concluded that patients
who have this profile and are diagnosed late have higher risk of developing physical
disabilities. Greater attention to neurologic simplified assessment is also recommended,
because not all patients were evaluated about disability in the end of multidrug therapy.
Key-words: Leprosy, Statistics on Sequelae and Disability, Epidemiology
Resumén: El objetivo de este estudio es describir las características de las personas con
discapacidades físicas causadas por la lepra, a partir de los datos obtenidos del Sistema de
Información de Enfermedades de Declaración Obligatoria (SINAN). La investigación incluyó
a 443 pacientes que fueron reportados entre los años 2005 y 2010, viviendo en Palmas
(Tocantins), que tenían algún grado de discapacidad al momento del diagnóstico o en el
momento de parada de la droga y / o habían sufrido algún episodio de reactiva durante el
tratamiento con poliquimioterapia . El perfil muestra que los pacientes fueron en su mayoría
hombres, con mayor frecuencia entre los 30 y los 45 años de edad; e poseían la forma
multibacilar clínica de dimorfismo. Hubo una asociación estadísticamente significativa (p
<0,01) entre el grado de discapacidad al momento del diagnóstico y el número de los nervios
afectados, lo que apunta una incidencia significativa de retraso en el diagnóstico. También fue
encontrado que el sexo masculino se asoció con la clasificación operacional (multibacilar) y la
clínica (borderline). Se concluyó que los pacientes que tienen este perfil y se diagnostican
tarde tienen un mayor riesgo de desarrollar discapacidades físicas. También se recomienda
una mayor atención a la evaluación neurológica simplificada porque no todos los pacientes
fueron evaluados por discapacidad durante el final de la administración de la droga.
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Palabras-clave: Lepra, Estadísticas de Secuelas y Discapacidad, epidemiología
Introdução
A hanseníase é uma doença infecto-contagiosa, de evolução lenta, causada pelo
Mycobacterium Leprae. Manifesta-se por alterações dermatoneurológicas, como lesões
cutâneas e nos nervos periféricos, acometendo principalmente olhos, mãos, e pés,
representando assim um processo infeccioso crônico de elevada magnitude (1).
O impacto da doença pode ser visualizado por mudanças na coloração da pele, que
podem surgir como manchas hipocrômicas ou hipercrômicas; pelo comprometimento neural,
ao apresentar diminuição ou perda de sensibilidade e função nos locais afetados, o que pode
resultar em incapacidades físicas, como as advindas de reabsorções ósseas em mãos e pés,
perda de movimentos, úlceras de grande extensão na pele, bem como úlceras de córnea e
outras alterações oculares (2).
A hanseníase representa uma constante preocupação para a saúde pública brasileira,
tanto pela amplitude das consequências físicas e socioeconômicas, quanto pela endemicidade
em que se encontram alguns estados brasileiros. Historicamente a doença é carregada de
preconceito e o estigma ainda acompanha inúmeros pacientes mesmo após a cura,
principalmente quando há alguma incapacidade física (3).
A incapacidade física em hanseníase (IFH) pode ocorrer em conseqüência de
diagnóstico tardio, falta de tratamento e acompanhamento adequado, dentre outros fatores, de
forma a afetar diretamente a qualidade de vida do indivíduo e levando-o até mesmo ao
isolamento social (4).
Apesar de ser uma patologia de alta infectividade e baixa virulência, sua endemicidade
é alta, provavelmente por ser uma doença de evolução silenciosa e grande período de
incubação (5). A cada ano são descobertos em média 47.000 novos casos de hanseníase no
Brasil (2), dos quais 23,3% apresentam graus de incapacidade I e II, ou seja, são descobertos
já com alguma seqüela física (6). O Grau I de incapacidade representa uma alteração na
sensibilidade ou na função motora, e o Grau II pode ser definido por uma sequela já instalada,
como dedos em garra (nas mãos ou nos pés), reabsorção óssea, pé equino-varo, e outras (2).
O Brasil detém grande número de portadores desta doença, perdendo apenas para a
Índia em endemicidade. O estado do Tocantins, assim como o município de Palmas também
apresenta número elevado de casos novos da doença, sendo classificado como hiperendêmico.
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Este estado apresenta uma tendência decrescente de novos casos de hanseníase, porém
apresenta coeficientes de detecção de casos novos ainda muito acima da média nacional (7).
Diante dessa situação, é de suma importância que seja dada a devida atenção ao
diagnóstico e a avaliação em hanseníase para se caracterizar a forma clínica, a classificação
operacional, a presença de incapacidades físicas, e a ocorrência ou não de episódio reacional.
Quanto ao último elemento, deve-se ter uma atenção especial, pois os pacientes com episódios
reacionais estão muito mais suscetíveis ao desenvolvimento de incapacidades e deformidades,
e podem ocorrer tanto antes e durante, quanto após o tratamento (4,5,8). Além disso, atenção
especial também deve ser dedicada ao exame dos contatos intradomiciliares, pois estes estão
mais susceptíveis à contaminação e o indivíduo, mesmo depois de curado pela
poliquimioterapia (PQT), continua imunologicamente susceptível a um novo adoecimento por
contaminação do bacilo. Não obstante, profissionais que confundem os episódios
reacionais com a recidiva, e por isso, equivocadamente, encaminham o paciente para novo
tratamento desnecessariamente (9).
Ao considerar a hiperendemicidade local e o devastador poder incapacitante da
hanseníase, O objetivo deste estudo foi traçar o perfil dos indivíduos portadores de
incapacidades físicas decorrentes da hanseníase a partir dos dados obtidos no Sistema de
Informação de Agravos de Notificação (SINAN).
Métodos
Este é um estudo descritivo de corte transversal (10). Foram selecionados no SINAN
todos os casos de hanseníase os quais foram notificados entre os anos de 2005 e 2010, que
passaram, desde o início do tratamento até o momento da alta, por algum episódio reacional
ou tenham adquirido incapacidade física decorrente da hanseníase.
Os pesquisadores selecionaram somente os pacientes que estavam sendo tratados em
Palmas-TO. As variáveis analisadas foram: idade (na ocasião da notificação), sexo, grau de
incapacidade no diagnóstico, grau de incapacidade na alta, classificação operacional, forma
clínica, presença e tipo de episódio reacional, tipo de saída, e quantidade de nervos afetados.
Esses dados foram organizados em planilha de Excel e analisados no programa Epi-info
versão 3.3.2, mediante estatísticas descritivas (frequências absoluta e relativa). Também foi
usado o teste de qui-quadrado (com e sem correção de Yates) para verificar as associações
entre as variáveis. Em todos os testes usou-se um nível de significância de 0,05 para o Erro
Tipo I.
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A pesquisa foi realizada dentro do Programa de Educação Pelo Trabalho para a
Saúde/Vigilância em Saúde (PET-Saúde/VS) por intermédio da Secretaria Municipal de
Saúde de Palmas-TO (SEMUS), em parceria com o Centro Universitário Luterano de Palmas
(CEULP-ULBRA) e a Universidade Federal do Tocantins (UFT). A coleta de dados no
SINAN aconteceu como parte do projeto “Análise de Incapacidades Físicas e das Reações em
Hanseníase no Período de 2005 a 2010”, após receber o Parecer 14/2011 do Comitê de Ética
em Pesquisa do CEULP-ULBRA, atendendo assim a todas as exigências éticas contidas na
Resolução CNS 196/96.
Resultados
Entre 2005 e 2010, 1362 indivíduos foram notificados como portadores da hanseníase
em Palmas-TO7. Dessa população foram selecionados 443 pacientes, os quais atendiam aos
critérios de inclusão. Observou-se que eles são, em sua maioria, homens (67,3%),
Multibacilares (77,4%), especialmente na forma clínica Dimorfa (48,6%), seguida pela forma
Virchowiana (21,3%).
Na Tabela 1 é possível observar que, apesar de a idade predominante ter variado entre
15 e 60 anos, os pacientes que tiveram incapacidades físicas ou episódios reacionais em
hanseníase estiveram particularmente concentrados no grupo que tinha de 30 a 45 anos na
ocasião da notificação.
Os dados encontrados deixam evidente e reforçam a acentuada ocorrência das lesões
neurológicas em hanseníase nos homens. Apesar disso, não foi encontrada associação
estatística entre gênero e a afecção dos nervos periféricos. Observou-se que, das 71 mulheres,
70,4% tiveram entre 0 e 2 nervos afetados, enquanto que dos 161 homens, 64,1% tiveram
também entre 0-2 nervos afetados. Quando analisados os dados de mulheres e homens que
tiveram entre 3 e 5 nervos afetados, os percentuais foram: 26,7% e 26,0%, respectivamente.
Enquanto 3,3% das mulheres analisadas tiveram seis ou mais nervos afetados, esse percentual
no grupo dos homens foi de 9,3%. A associação estatística entre “gênero” e “forma clínica”,
foi altamente significativa, bem como a associação entre gênero e classificação
operacional (p<0,01).
Tabela 1. Perfil dos pacientes portadores de incapacidade física e/ou episódio reacional
de Palmas-TO entre 2005 e 2010: idade, sexo, forma clínica e quantidade de nervos
afetados
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Variável
Frequência Absoluta
Frequência Relativa
p
Idade
17
03,85
15├30
114
25,85
129
29,25
-
45├60
118
26,76
43
09,75
75├90
20
04,54
Sexo
Nervos afetados
0,21
Masculino
0├3
104
64,60
42
26,09
≥6
15
09,32
Feminino
0├3
50
70,42
19
26,76
≥6
2
02,82
Sexo
Forma Clínica
0,008
Masculino
Indeterminada
27
09,38
36
12,50
Dimorfa
152
52,78
73
25,35
Feminino
26
18,57
Tuberculoide
34
24,29
60
42,86
Virchowiana
20
14,29
Na análise da variável avaliação no diagnóstico, os resultados foram os seguintes:
dentre os casos selecionados (que representam 32,5% do total de contaminados dentro do
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período de corte), 62,2% dos pacientes ingressaram no tratamento de hanseníase já com grau I
de incapacidade física. Houve associação altamente significativa entre a avaliação do grau de
incapacidade no diagnóstico e a quantidade de nervos afetados (p<0,01).
A variável avaliação de grau de incapacidade na alta revelou que 118 pacientes não
foram classificados no SINAN quanto a esse item. Por isso não se sabe se eles deixaram de
ser avaliados ou se simplesmente seus dados foram incorretamente preenchidos, tornando este
fato, um bias na análise dessa variável. Assim, esses dados não foram colocados em análise
junto ao item não avaliado”. Do restante dos pacientes (n=325), 35,7% dos pacientes não
foram reavaliados ao final do tratamento. Ainda assim, 81,7% do total de pacientes
selecionados no SINAN constam como tendo encerrado este tratamento por cura através da
poliquimioterapia. Dentre os pacientes que foram avaliados no momento da alta, vale destacar
que 52,2% deles concluíram o tratamento poliquimioterápico sem nenhum grau de
incapacidade. Em contraposição, 43,1% desses pacientes avaliados na alta ainda apresentaram
grau I de incapacidade.
Ao contrário do esperado, a maior parte dos pacientes analisados (61,5%) não
passaram por nenhum episódio reacional, e não houve associação estatística entre nervos
afetados e episódios reacionais.
Discussão
O perfil dos pacientes corrobora os estudos apresentados por Mantellini et al (4): os pacientes
hansênicos que desenvolvem incapacidades físicas são, em sua maioria, homens,
multibacilares, adultos. A associação estatística altamente significativa entre “gênero” e
“forma clínica” reforça esses resultados, já que a maioria dos pacientes foi caracterizada como
sendo portador da forma clínica dimorfa, que se enquadra dentro da classificação operacional
multibacilar. Além disso, o grupo analisado foi constituído predominantemente de pacientes
adultos e do gênero masculino.
O grande número de pacientes diagnosticados com Grau I e sua associação com a
quantidade de nervos afetados evidenciam que o diagnóstico tem sido realizado de maneira tardia.
Isso representa uma necessidade imediata de melhora nas medidas preventivas em hanseníase,
como educação permanente em saúde, monitoramento das ações de controle da hanseníase, dentre
outros (11). Existe também, a necessidade de fazer uma apropriada avaliação dos contatos
intradomiciliares (9). Em estudos anteriores (12) foi verificado que o número de
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contatos intradomiciliares examinados em Palmas já chegou a atingir 79,2% em 2007 (acima
da média nacional).
Quanto ao percentual de pacientes que não passaram pela Avaliação Neurológica
Simplificada na Alta: talvez seja possível atribuir esse ao incipiente compromisso ou ainda à
insegurança de alguns profissionais da saúde da rede de atenção básica. Outros estudos
realizados em Palmas-TO (13) mostraram que uma das maiores dificuldades dos profissionais
da saúde nesta cidade é realizar a avaliação de grau de incapacidade física em hanseníase.
Apesar da maioria dos pacientes que foram avaliados na alta terem terminado seu
tratamento com Grau O, persiste percentual muito alto de pacientes com Grau I ao final do
tratamento, e isso evidencia que o acompanhamento do indivíduo hansênico ainda precisa de
mais atenção quanto à prevenção de incapacidades físicas.
As células do SINAN encontradas em branco não se mostram como um evento
isolado, pois outro estudo epidemiológico recente que usou o mesmo sistema como fonte de
informação também encontrou dificuldades em ter dados exatos devido a inconsistências dos
bancos de dados do mesmo (14).
A curiosa ausência de associação estatística entre a quantidade de nervos afetados e
episódios reacionais, e o pequeno percentual de pacientes que apresentou esse agravo podem
ser explicados pelo fato de que o SINAN só armazena os dados obtidos durante o tratamento.
Essa constatação dá margem à hipótese de que alguns dos casos de episódios reacionais
tenham acontecido fora desse período, e por isso não foi encontrada associação entre o grau
de incapacidade e as reações hansênicas (4,5,8,9).
Pode existir viés dentro dos resultados apresentados tanto pela possibilidade de erros
de digitação durante a entrada dos dados no SINAN quanto, principalmente, de informações
incompletas dentro do próprio banco de dados desse sistema, como ainda ausência de alguns
dados sobre episódios reacionais, como citado acima.
Considerações Finais
O perfil dos indivíduos com incapacidade física em hanseníase na cidade de Palmas-
TO aponta para homens, especialmente entre 30 e 45 anos, multibacilares, da forma clínica
dimorfa, com grau I de incapacidade física. A análise estatística aponta que o diagnóstico
tardio é fator de risco para originar incapacidade física, muitas vezes irreversível.
Contrariando um padrão comum da hanseníase, não foram encontrados casos de
episódio reacional na maioria dos pacientes com sequela em hanseníase. Além disso, não
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houve associação estatística entre a reação hansênica e o acometimento neural, provavelmente
porque as lesões nervosas que constam no SINAN são somente as que foram constatadas
durante o diagnóstico.
Recomenda-se aos Gestores Municipais investimento em medidas de prevenção da
hanseníase. Recomenda-se, ainda, reforçar, entre os profissionais da saúde, a importância de
avaliar os pacientes hansênicos através da avaliação neurológica simplificada tanto na entrada
quanto na saída do tratamento. Avaliar também é relevante durante o tratamento e,
especialmente, na eventualidade de um episódio reacional, pois, mesmo nos casos de alta por
cura, um grande número de pacientes vem sendo liberado do tratamento sem passar por essa
avaliação.
Considerando que dados omissos no SINAN e a possibilidade de inconsistências,
recomenda-se que se faça um estudo para verificar a confiabilidade/qualidade dos dados
contidos no SINAN, em busca das mesmas variáveis nos prontuários das unidades básicas de
saúde.
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Sources of funding: No
Conflict of interest: No
Date of first submission: 2012-07-16
Last received: 2012-12-17
Accepted: 2013-03-12
Publishing: 2013-05-29
Revista Eletrônica Gestão & Saúde Vol.04, Nº. 02, Ano 2013 p. 2016-2025
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Analisa a religiosidade de pacientes portadores de hanseníase que viveram dois períodos distintos da história do tratamento dos doentes: o do internamento em asilos e o da prática atual. Dez entrevistas semiestruturadas focalizaram saúde, religião e hanseníase, abordando os meios de enfrentamento religioso nos dois grupos. No grupo de ex-internos, constatou-se a presença da religião institucionalizada, que atendia aos propósitos de vigilância e da terapêutica isolacionista. Os atuais portadores de hanseníase ainda sentem o peso do estigma da 'lepra' em determinadas situações. Foram aplicados também cinco questionários a profissionais de saúde do DHDS, que apresentam suas considerações sobre a religião do paciente e o tratamento.
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To assess risk factors for retreatment of leprosy patients. A case-control study with patients from two reference care units in Recife, northeastern Brazil, in 2003. The case group included retreated patients (N=155) and the control group comprised those patients who were not retreated (N=155) matched by year of diagnosis and health care unit. Univariate and multivariate analyses were conducted to test the associations and odds ratios and related 95% confidence intervals were estimated. The following factors were found to be significantly associated (p<0.05) with retreatment: occurrence of adverse immunological reactions after treatment completion (OR=2.3; 95% CI=1.18;4.83), final bacterial index > or = 1 (OR=6.43; 95% CI=1.67;24.74), therapeutic regimen consisting of sulfone monotherapy (OR=10; 95% CI=0.01;0.78) and reports of household contacts (OR=2.2; 95% CI=0.24;0.85). The study findings reinforce that the use of dapsone monotherapy should be discontinued, and highlight the need for epidemiological monitoring of specific groups of leprosy patients after treatment completion through periodical clinical and laboratory evaluation. Further studies to explore the association between final bacterial index and retreatment are strongly recommended.
Incapacidades Físicas em Hanseníase: Coisa do Passado ou Prioridade na Prevenção?
  • G Mantellini
  • Gonçalves
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Mantellini, G.G; Gonçalves, A; Padovani, C. R. Incapacidades Físicas em Hanseníase: Coisa do Passado ou Prioridade na Prevenção? Hansen Int 2009; 34(2):33-39.
Avaliação dos serviços de saúde em relação ao diagnóstico precoce da hanseníase
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Hanseníase e Estado Reacional: História de vida de pessoas acometidas
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Sangi, K.C.C.; Miranda, L.F.; Spindola, T.; Leão, A.M.M. Hanseníase e Estado Reacional: História de vida de pessoas acometidas. Rev Enferm UERJ 2009; 17:209-14.
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Análise situacional da hanseníase de 2000 a 2006 no município de Palmas-TO
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Nobre, M.S. R. S.; Alves, M.M.M. Análise situacional da hanseníase de 2000 a 2006 no município de Palmas-TO. In: Anais da I Mostra de Experiências Exitosas na
Análise situacional do programa de hanseníase nas unidades de saúde do município de Palmas-TO
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Nobre, M.S.R.S.; Alves, M.M.M.; Rocha, E.S.D. Análise situacional do programa de hanseníase nas unidades de saúde do município de Palmas-TO. In: Anais da I Mostra de Experiências Exitosas na Atenção Básica de Palmas, II Encontro de Educação Popular e Humanização da Saúde de Palmas, 2011; Palmas: Secretaria Municipal de Saúde, 2011. 1 CD.